Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sábado, 29 de dezembro de 2012

FIRST OF MAY (PRIMEIRO DE MAIO)




INTRODUÇÃO 
Esta postagem não tem como objetivo principal falar dos “Bee Gees”, a maravilhosa banda inglesa da adolescência da minha geração, mas apenas sobre uma das diversas e maravilhosas melodias compostas e gravadas por esse conjunto que desafiou épocas. A música a que me refiro chama-se “First of May” (em português, “Primeiro de Maio”), uma composição do grupo, liberada como álbum simples de 1969, “Odessa”, do qual nenhuma outra versão foi liberada, pois Robin Gibb já abandonara o conjunto (para tentar carreira solo, retornando ao conjunto em meados de 1970). Essa música, maravilhosa, que já foi gravada por vários outros intérpretes além dos Bee Gees, entre os quais, a Sarah Brightman, intrigou-me sobremaneira, pelo seu título, que sempre nos lembra do feriado do Dia do Trabalho. Como a música é lenta, bem orquestrada, muito romântica e com uma letra idem, fui fazer a pesquisa que é o objetivo principal dessa postagem.
Apenas antes do assunto propriamente dito, julgo minha obrigação fazer uma pequena apresentação, aos que por ventura não conhecem, dos “Bee Gees”.
Esquerda à direita, Robin, Barry e Maurice Gibb
 “Bee Gees” foi uma banda formada por três irmãos de sobrenome Gibb: Barry, o mais velho, e os gêmeos Maurice e Robin, de onde surgiu o nome artístico “Bee Gees”, o nome da letra “B” (de Barry) e das letras “G’s” (de Gibb’s), em inglês. Na verdade, havia ainda um quarto irmão, Andy, que nunca participou da banda, mas fez carreira solo; eventualmente ele era convidado para participar de algum show com a banda. Nasceram na pequena ilha de Man, situada entre a Irlanda e a Inglaterra, com governo independente mas fazendo parte da Coroa Britânica; com pais ingleses, moraram apenas alguns anos em Manchester, Inglaterra, mudando-se ainda crianças para Queensland, na Austrália. Eu era um jovem formando de 24 anos, em 1968, quando ouvi pela primeira vez essa banda, como trilha sonora da novela da Globo “Beto Rockefeller” – quem, da minha idade, não lembra do Luíz Gustavo, representando um bicão de festas que se passava por milionário tentando um golpe do baú, e da sua namoradinha Débora Duarte? -, onde a música mais tocada era “I Started a Joke”, e o vocalista principal, Robin Gibb.
A banda fez sucesso desde 1966, constituindo-se numa das que mais arrecadaram na história da música, sendo considerada, por grande parte da crítica musical, como a segunda maior banda da história pelo conjunto de sua obra (composições, produções e gravações), vendendo mais de 250 milhões de discos e perdendo apenas para os Beatles. Para os mais jovens do que eu, lembro que eles foram também a trilha sonora do filme “Embalos de Sábado a Noite”, com John Travolta, a mais vendida de todos os tempos.
Em 1988 os “Bee Gees” sofreram seu primeiro grande abalo, com a morte do irmão mais novo, Andy Gibb, que sofria de um problema cardíaco agravado por anos de uso de drogas e álcool. Em 12 de janeiro de 2003, os Bee Gees perdem o seu primeiro componente de fato, com a morte de Maurice Gibbs, de ataque cardíaco, que possuía a fama de mediador das frequentes disputas entre Barry e Robin. Em 2004 os irmãos Gibb recebem a comenda de Cavaleiros do Império Britânico, tornando-se “Sir”. No dia 20 de maio de 2012, morre Robin Gibb, de câncer de fígado e cólon, agravado por uma peneumonia, frustrando projeto da dupla de retornar aos palcos e deixando Barry Gibb em carreira solo e triste, após sucesso de uma inteira vida em companhia de seus irmãos.
Para que os meus generosos leitores bem possam apreciar as razões que me levaram a escrever esta postagem, neste ponto eu introduzo três “links” que os conduzirão a duas extraordinárias interpretações da melodia “First of May” e a um texto com a letra da música em seu original inglês e com uma tradução em português. A primeira dessas interpretações é com a banda dos “Bee Gees” e a segunda com a magnífica Sarah Brightman. Feita essa pequena introdução, podemos passar ao assunto principal da nossa postagem.


VISÃO GERAL
Claro que todos sabemos que o dia 1º de maio, Dia Internacional do Trabalho, celebra o esforço histórico da classe trabalhadora por todo o mundo. Mas pela sua letra, a música de que estamos tratando jamais poderia estar se referindo a esta celebração, quanto mais não fosse porque nos Estados Unidos – além de Canadá e África do Sul – o feriado não é celebrado, embora tenha iniciado exatamente lá, no ano de 1886, com a luta por uma jornada de trabalho de oito horas, quando eram forçados a trabalhar dez, doze e até catorze horas por dia.
Acontece que o “First of May” (Primeiro de Maio), também chamado “May Day” (Dia de maio), também poderia ter mais feriados do que qualquer outro dia do ano. Em suma, poderíamos dizer que ele é uma celebração da Primavera. É um festival de primavera muitíssimo antigo no hemisfério norte e, normalmente, também um feriado de primavera tradicional em muitas culturas.
Alegoria da festividades de 1o de maio
O “First of May” está relacionado ao festival Celta de “Beltane” e ao festival Germânico de “Walpurgisnacht”.
Beltane” é a ortografia “inglesada” do nome, nas línguas galesas, do mês de maio ou para o festival que acontecia no primeiro dia de maio. Beltane era um antigo festival galês celebrado na Irlanda, Escócia e a Isle of Man (não por acaso, o lugar de nascimento dos Bee Gees). Esse festival marcava o início do verão e era ligado a festivais similares em outros lugares da Europa, como no País de Gales (Calan Mai) e na Alemanha (Walpurgisnacht). Esse é um chamado “cross-quarter day”, que marca o ponto intermediário entre o equinócio de primavera e o solstício de verão; a data astronômica para este ponto intermediário é mais próxima de 5 ou 7 de maio, variando de ano para ano. “Beltane” readquiriu popularidade com o Renascimento Celta e ainda é observado como festival cultural por várias pessoas nos países citados. Fogueiras, muitas vezes iniciadas esfregando-se bastões de madeira, gado sendo conduzido entre duas fogueiras, danças ao redor dos fogos e queima de imagens de feiticeiras, eram características comuns das celebrações do Beltane.
Com relação ao “Walpurgisnacht” (Noite de Walpurgis), conta-se que Santa Walburga (ou Walpurgis), a abadessa do monastério de Heidenheim, ajudou São Bonifácio a levar a Cristandade à Alemanha do século VIII. Ela morreu em 25 de fevereiro de 779 e como seus restos mortais foram transladados em múltiplas ocasiões, vários dias foram designados em sua honra, um dos quais é o “First of May”. Essa data coincidia com um festival pagão preexistente, o que conduziu ao desenvolvimento de uma lenda híbrida, em que se dizia que as bruxas se encontrariam com o Diabo na véspera do 1º de Maio, que se tornou conhecida como a “Walpurgisnacht”.
O “May Day” cai exatamente a meio ano do 1º de novembro, outro “cross-quarter day” também associado com várias festas pagãs do hemisfério norte. À medida que a Europa tornava-se cristianizada, as festas pagãs perdiam seu caráter religioso e, ou mudavam para celebrações populares civis, como o “May Day” ou se fundiam com ou eram substituídos por novas festas cristãs, como Natal, Páscoa, Dia de Todos os Santos.


ORIGENS
As primeiras celebrações do “May Day” surgiram em tempos pré-cristãos, como o “Festival de Flora”, a deusa romana das frutas e das flores, que marcava o início do verão, acontecendo entre 28 de abril e 03 de maio. Além desse, como dissemos antes, ocorriam as celebrações da “Walpurgisnacht” dos países germânicos e também o “Beltane” galês. Apesar de muitas celebrações pagãs terem sido abandonadas ou Cristianizadas durante o processo de conversão na Europa, uma versão mais temporal do “Dia de Maio” continua a ser observada na Europa e na América. Desta forma, o “Primeiro de Maio” pode ser melhor conhecido por sua tradição com a dança do “mastro de maio” e o coroamento da “Rainha de Maio”. 
Algumas culturas, como as encontradas na Índia e Egito, por exemplo, festejavam os festivais da fertilidade da primavera.
A flor "Queen of May" - Rainha de Maio
O “First of May” era um tradicional feriado de verão em muitas culturas pagãs europeias antes de Cristo. Na Inglaterra, o primeiro dia de maio foi celebrado por mais de dois mil anos. Na tradição católico-romana, maio é observado como o mês de Maria e nesses círculos, o “May Day” é usualmente uma celebração da Abençoada Virgem Maria. Relacionado a isso, em trabalhos de arte, apresentações escolares etc ..., a cabeça da Maria são muitas vezes adornadas com flores num coroamento de Maio. Enfraquecendo em popularidade desde o século XX, encontra-se a doação das “Cestas de Maio”, pequenos cestos de doces e/ou flores, normalmente deixados de forma anônima nas entradas dos vizinhos.
A data é, portanto, tipicamente celebrada em países europeus do hemisfério norte. Entretanto, o “First of May” é também comemorado no Canadá, Estados Unidos e, dentro deste, muito celebrado no Havaí. Como a música objeto da nossa postagem foi composta por autores ingleses que viveram grande parte da sua vida na Austrália, país membro da comunidade inglesa, nos deteremos apenas nas festividades desenvolvidas na Grã Bretanha.


FIRST OF MAY” NA GRÃ BRETANHA

O primeiro dia do mês de maio é conhecido como “May Day” (Dia de maio). É a época do ano em que inicia o período mais quente e as plantas e árvores começam a florescer. Diz-se que é um tempo de amor e romance, quando as pessoas comemoram a vinda do verão, com uma grande quantidade de diferentes hábitos que expressam alegria e esperança após um longo inverno.
O “May Day” tem sido um dia tradicional de festividades através dos séculos, sendo associados com a celebração, nas cidades e vilas, da fertilidade da Primavera, através de grandes festas e reuniões das comunidades. Uma grande parte dessa tradição deriva dos costumes pagãos Anglo-Saxon festejados durante o mês de maio - em inglês antigo, “Mês dos Três Aleitamentos” -, junto com muitas outras tradições celtas.
Os ritos e celebrações das tradicionais festas inglesas do Dia de Maio incluem a “Morris Dancing” (Dança de Morris), a coroação de uma “May Queen” (Rainha de Maio) e a dança em torno do “Maypole” (Mastro de Maio).
Dançarinos da "Morris Dance"
A “Morris Dancing” é uma forma tradicional de dança popular, realizada por homens e/ou mulheres, dançada por centenas de anos e passada de geração em geração, nas pequenas cidades da Inglaterra rural. Há diversas versões para as origens da “Morris Dancing”. O nome pode referir-se à possibilidade da forma da dança ter vindo para a Inglaterra pelos mouros (em inglês Moors) do norte da África; ou pode ter-se chamado ‘moorish’ (relativo aos mouros) simplesmente porque os dançarinos muitas vezes pintavam suas faces de negro, comparáveis às peles escuras do mouros. A dança é muito alegre e acompanhada por um tocador de acordeão, um pequeno órgão e um violino, ou uma banda barulhenta com tambor. Os dançarinos vestem roupagens diferentes, dependendo da região do país onde dançam, muitas vezes usando branco com cinturões coloridos atravessando o peito. Em geral seis ou oito dançarinos dançam organizados em duas linhas ou em um círculo de frente um para o outro; eles podem carregar lenços brancos que sacodem, ou pequenos bastões que batem um contra o outro à medida que dançam; alguns dançarinos carregam almofadas com sinos amarradas aos joelhos, provocando um animado e alto ritmo enquanto dançam.
A dança do "May Pole"
A dança do “Maypole” é uma dança tradicional do “Dia de Maio”. Durante os festejos as pessoas costumavam cortar árvores jovens e cravá-las no solo da vila para marcar a chegada do verão. As pessoas então dançavam em volta da árvore, celebrando o final do inverno e o início do bom tempo que lhes permitiria o início do plantio. Tais mastros eram comuns por toda a Inglaterra e eram mantidos de ano para ano. As escolas praticavam a dança saltitante em torno deles por semanas antes do show final nos jardins da vila. O resultado final era um lindo pregueado de fitas ao redor do mastro ou um desordenado emaranhado de fitas dependendo da quantidade de treinamento realizado.
Guinevere celebrando o mês de maio
Nas festas de que estamos falando, o ponto alto do dia era a coroação da Rainha de Maio, a réplica humana da deusa romana Flora. Por tradição, ela não tomava parte nos jogos ou nas danças, mas permanecia sentada, como uma rainha, numa cadeira ornada com flores apenas olhando seus ‘súditos’.
Em Oxford, conhecido centro universitário da Inglaterra, é tradicional a reunião dos festeiros, às 06:00 hs da manhã de 1º de maio, sob a Grande Torre do Magdalen College, para ouvir o coral da Universidade cantar tradicionais madrigais como encerramento das celebrações da noite anterior.
Em Durham, estudantes da Universidade reúnem-se na Ponte de Prebend para assistir ao nascer do sol e desfrutar das festividades, música popular, dança, canto de madrigais e um “churrasco” no café da manhã.
Whitstable, em Kent, abriga um bom exemplo das mais tradicionais festividades do Dia de Maio, onde o festival do “Jack in the Green” renasceu modernamente e continua a liderar uma procissão anual de “dançarinos de Morris” através da cidade, durante o feriado bancário de maio.
Às 19:15 hs – horário britânico – do 1º de maio de cada ano, um grupo famoso de dança Morris faz uma linda demonstração sobre a Ponte Barming, que abarca o rio Medway próximo de Maidstone, sudeste da Inglaterra, para marcar a abertura oficial da sua estação da Dança de Morris.
A Corrida de “May Day” envolve milhares de motociclistas que realizam uma viagem de 89 km, de Londres ao litoral de Hastings, East Sussex, evento que já se tornou tradição há muitos anos e cresce em interesse por todo o país, comercial e publicamente.
Padstow, na Cornualha, celebra o “Hobby Horse” (em dialeto, Obby-Oss), seu dia anual de festividades, crendo-se ser este, um dos mais antigos ritos de fertilidade no Reino Unido. Os festeiros dançam com o Oss pelas ruas da cidade e mesmo em jardins privados dos cidadãos, acompanhados por acordeonistas e seguidores vestidos de branco e vermelho ou faixas azuis, que cantam a tradicional canção “May Day”. Toda a cidade é decorada com verduras da primavera. Antes do século XIX celebrações distintas do “Dia de Maio” espalhavam-se por toda a Cornualha Oeste e estão sendo revividas em St. Ives e Penzance, duas pequenas cidades ao sul da Cornualha.
Kingsand, Cawsand e Millbrook, na Cornualha, celebram o “Ritual do Barco das Flores” no feriado do “May Day”. Um modelo do navio “The Black Prince” é coberto com flores e é conduzido, em procissão, do cais, em Millbrook, até a praia, em Cawsand, onde ele é lançado à deriva. As casas nas vilas são decoradas com flores e as pessoas tradicionalmente vestem vermelho e branco em suas roupas. Celebrações adicionais são realizadas na praça de Cawsand com as danças de Morris e May Pole.
Em Saint Andrews, estudantes se reúnem na praia tarde da noite do dia 30 de abril, e correm até o Mar do Norte, ao nascer do sol no “Dia de Maio”, ocasionalmente nús. A corrida é acompanhada por procissões com archotes e celebrações muito alegres.
Edinburgh e Glasgow, na Escócia, organizam festivais e ralis de “May Day”. Em Edinburgh o Festival de Fogos de Beltane tem lugar ao anoitecer da véspera e nas primeiras horas do 1º de maio, quando uma antiga tradição da cidade diz que as jovens que escalam o “Assento de Arthur” e lavam suas faces no orvalho da manhã, terão a beleza eterna.


CONCLUSÃO

Depois de tudo o que foi dito, parece muito clara a intenção dos compositores, ao colocar a data de 1º de maio e as frases a ela relacionadas, em uma letra e música tão românticas. A data evoca festas pagãs, como sinônimo de naturais, celebradas em épocas remotas, em países do norte, para comemorar a chegada do verão naqueles lugares.
Não devemos esquecer que essas tradições vêm de uma época em que as pessoas, em geral, e o povo, em particular, possuíam muito pouco conforto e muito sofriam em épocas de frio e chuva, características do inverno. E que a Grã Bretanha, particularmente, com latitudes que variam grosseiramente entre 50º e 59º norte, são alvo fácil das baixas temperaturas e dias muito curtos, onde a noite chega cerca das 16:00 hs durante o inverno, com dias que podem ser considerados tristes durante essa estação do ano. De modo que a chegada do verão é extremamente festejada por seu povo que invade as praças inglesas com seus gramados maravilhosos, assim que as últimas neves derretem com o calor dos raios solares tão esperados. O ambiente torna-se, com as temperaturas mais amenas, também muito mais romântico e, certamente, bem mais adequado aos momentos felizes que o casal de apaixonados vivia durante o tempo em que, mais jovens, estavam juntos. Daí o autor colocar a pergunta: “E adivinha quem há de chorar, quando chegar o 1º de maio”.
E eu, aproveito também a chegada do verão, que aqui coincide com o nascimento do Cristo e a chegada do Natal, para celebrar a data e a linda melodia dos Bee Gees, que há de permanecer viva ainda por muitos verões, desejando a todos os meus leitores festas muito lindas na companhia dos seus entes queridos e um Ano Novo repleto de paz e amor.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A GUERRA DA CRIMEIA - INÍCIO DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA? (SEGUNDA PARTE)

TENTATIVAS DE PAZ
Contrariando as expectativas russas de que a Áustria a apoiaria, sentindo-se ameaçada pelas forças russas a Áustria apoiou o ultimato da França e Inglaterra e, sem declarar imediata guerra à Rússia, recusou-se a garantir a sua neutralidade. 
Com isso a Rússia retirou suas tropas dos Principados do Danúbio, que foram ocupados pela Áustria até o final da guerra. Considerando a retirada russa como fim da guerra, Grã Bretanha e França, determinadas a resolver a “Questão Oriental” com um fim da ameaça russa ao Império Otomano, propuseram várias condições para uma solução pacífica, que incluíam:
•    Desistência do protetorado da Rússia sobre os Principados do Danúbio;
•    Abandonar qualquer reivindicação que pudesse interferir com as relações otomanas em favor dos Cristãos Ortodoxos;
•    Revisão da “Convenção dos Estreitos de 1841”;
•    Acesso garantido a todas as nações ao Rio Danúbio. 
Quando o Tzar recusou concordar com esses Quatro Pontos, a Guerra da Crimeia recomeçou.

PRINCIPAIS BATALHAS
Várias campanhas foram travadas entre as forças aliadas e a Rússia, das quais já mencionamos, de passagem, a Campanha do Danúbio e o teatro do Mar Negro. 
A Campanha do Danúbio praticamente terminou quando os russos falharam em suas esperanças de que, com a sua participação, os Sérvios e Búlgaros se motivariam para uma rebelião contra a dominação otomana. Não se concretizando essa revolta e com a crescente pressão da Áustria, em junho de 1854 iniciaram a retirada final dos Principados do Danúbio.
Operações no Mar Negro (Black Sea)
Também já mencionamos o início das batalhas no teatro de operações do mar Negro, iniciadas no verão de 1853 com o envio de frotas britânicas e francesas, em apoio aos otomanos, para dissuadir os russos da invasão. Estacionados fora dos Dardanelos, com a ocupação dos Principados do Danúbio pelos russos, elas moveram-se para o Bósforo e em novembro do mesmo ano penetraram no Mar Negro. Em novembro de 1853 a frota russa atacou uma força otomana e a destruiu no Porto de Sinope. Até a formal declaração de guerra em março de 1854, quando uma fragata inglesa foi bombardeada fora do Porto de Odessa, pouco mudou neste cenário. Então, como resposta, a frota britânica bombardeou o porto causando grandes danos à cidade já em território russo. Em junho os aliados transportaram suas forças para Varna, na Bulgária, em apoio às forças otomanas no Danúbio. Em setembro novo transporte de forças aliadas, desta feita para a península da Crimeia. Os russos falharam em sua estratégia de não tomar a iniciativa, com o cerco de Sebastopol, onde se encontrava sediada a maior parte de sua frota. Com isso os russos nada mais puderam fazer do que afundar seus próprios navios após serem desarmados, para que seus canhões pudessem ser utilizados da costa. Durante o cerco, os russos perderam uma quantidade assombrosa de grandes vasos de guerra com armamento considerável, um grande número de navios menores e, durante o resto da campanha, a frota aliada permaneceu com o controle do Mar Negro, garantindo o suprimento às suas várias frentes. Em abril de 1855 já invadiam as duas importantes cidades de Kerch e Taganrog, em pleno mar de Azov; em setembro os aliados já atacavam instalações russas no estuário do Dnieper, invadindo Kinburn.

CAMPANHA DA CRIMEIA
Marcha para Sebastopol
Para os aliados, a maior preocupação da guerra era a cidade de Sebastopol, capital da Crimeia e lar da frota do Tzar no Mar Negro, pela ameaça que representava ao Mediterrâneo. As tropas aliadas, visando o cerco de Sebastopol, desembarcaram em Eupatoria, ao norte, e marcharam sobre o Rio Alma onde travaram a primeira grande batalha contra os russos, continuando sua marcha para o objetivo principal. Um assalto repelido dos russos sobre a base aliada de Balaclava, ao sul de Sebastopol, imortalizou duas unidades do exército britânico. A primeira delas, o “93rd Sutherland Highlanders”, posteriormente conhecido como “The Thin Red Line” (A Tênue Linha Vermelha), notabilizou-se por enfrentar a pé e resistir, como ordenado, a pesado ataque de cavalaria russa muitas vezes mais poderoso. A segunda unidade foi a “Light Cavalry Brigade”, sob o comando do Conde de Cardigan que, enviada por ordem ambígua, a enfrentar de forma suicida uma pesada unidade de artilharia russa, em campo aberto, perdeu no assalto quase 500 dos seus quase 700 homens originais e foi posteriormente cantada no imortal poema de Alfred, Lord Tennyson, “Charge of the Light Brigade”. Os combates prosseguiram em várias frentes, com gradativas perdas para o lado russo e com Sebastopol permanentemente sitiada, até que, ambos os lados totalmente exaustos, nenhuma operação militar adicional ocorreu na Crimeia até a chegada do inverno. Finalmente, como consequência de um ataque maior em setembro de 1855, os russos evacuaram a cidade, após manter os aliados em ataque por quase um ano.
Cerco de Sebastopol, Franz Roubaud

CAMPANHA DO MAR DE AZOV
A campanha do Mar de Azov, já em pleno território Russo, iniciou na Primavera de 1855, com o objetivo de solapar as comunicações e abastecimentos russos à Sebastopol sitiada. Nessa campanha o alvo principal foi o importante porto marítimo de Taganrog, no extremo norte do Mar de Azov. Após a terceira tentativa fracassada de cerco da cidade, a frota aliada abandonou o Golfo de Taganrog em setembro de 1855, ante a impossibilidade de estabelecer operações terrestres; operações militares menores ao longo da costa do Mar de Azov prosseguiram até o final do outono de 1855.

O TEATRO DO CÁUCASO
O Cáucaso é uma região geopolítica muito conturbada, entre os limites da Europa e Ásia e situada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, lar das Montanhas do Cáucaso, que contêm o Monte Elbrus, a montanha mais alta da Europa.
Área conturbada ocupada por várias diferentes etnias, o Cáucaso já havia sido palco de confrontação para os russos e otomanos visando à extensão de suas influências na região, já disputada por países como Azerbaijão, Georgia, Armênia e Iran. Além disso, outros povos do Império Russo, na região, lutavam há muito tempo por sua independência.
A conturbada região do Cáucaso
Várias batalhas foram travadas na região, desde 1853, principalmente entre forças russas e otomanas. As lutas travadas terminaram indecisas até março de 1856, quando a paz de Paris pôs um fim a operações adicionais.

TEATRO DO BÁLTICO
A grande importância desse cenário de guerra, ofuscado pela popularização de outros palcos da Guerra da Crimeia, era a sua proximidade com São Petersburgo, a capital da Rússia. Os maiores esforços dos aliados foram colocados no bombardeio e tentativa de cerco do porto de Kronstadt e da grande frota russa ali estacionada. A campanha do Báltico tornou-se um beco-sem-saída para os dois lados e as forças aliadas limitaram-se ao bloqueio do comércio russo no Golfo da Finlândia e seções menos fortificadas da costa Finlandesa. A Rússia dependia muito, para a sua economia doméstica e abastecimento de suas forças militares, daquela passagem, com cujo bombardeio teve sua economia muito prejudicada. Uma maciça frota aliada com mais de 350 navios de guerra estava preparada para entrar em ação, mas a guerra terminou antes do lançamento do ataque.
Báltico, Kronstadt junto à São Petersburgo, em vermelho
Importante que se mencione que parte do sucesso da resistência russa foi creditada à nova invenção de minas submarinas explosivas, por Immanuel Nobel, sueco, pai de Alfred Nobel, inventor da dinamite, então residente com sua família em São Petersburgo, onde possuía uma fábrica de explosivos negociados aos russos. Também importante lembrar que nessa época não existia o comunismo na Rússia, o que só ocorreria em fevereiro de 1917, com a Revolução Bolchevista.

TEATRO DO MAR BRANCO
O Mar Branco é um pequeno braço de mar ao sul do Mar Barents, localizado a noroeste da costa russa, limitado pela República da Karelia, a oeste, a península de Kola, ao norte, e a Península de Kanin, a nordeste, sendo considerada como parte das águas internas da Rússia, já alcançado pelo norte da Finlândia, em pleno Oceano Ártico. Nesse cenário, em outubro de 1854, os aliados destruíram totalmente, por bombardeio, a cidade de Kola, ao norte da península, bombardearam também Solovetsky e desistiram em sua tentativa de bombardear Arkhangelsk, em pleno Mar Branco e costa russa propriamente dita.
Mar Branco: portos atacados

TEATRO DO PACÍFICO
Este cenário resumiu-se, praticamente, ao cerco de Petropavlovsk, já entre o Japão e o Alaska, que provou ser, em termos de mortos e feridos, um tremendo prejuízo aos aliados. O cerco iniciou em setembro de 1854 e, em abril de 1855, após a chegada de reforços aliados na região, os russos abandonaram a cidade sob a neve. Outras pequenas cidades no extremo oriente foram também alvo das forças aliadas. 

ENVOLVIMENTO DA SARDENHA
O envolvimento da Sardenha na Guerra da Crimeia foi meramente político. Victor Emmanuel II, o famoso “Unificador da Itália”, então rei da Sardenha, enviou uma força de 18.000 soldados, certo de que essa ajuda teria um importante papel e reconhecimento, por parte da França, na questão da unificação da Itália sob o trono da Sardenha, como de fato ocorreu em 1861. A participação da Sardenha foi, principalmente, notada na Batalha de Chernaya (proximidades de Sebastopol) e no cerco de Sebastopol, propriamente dito.
Teatro do Pacífico: Petropavlovsk

CRÍTICAS E MUDANÇAS
A Guerra da Crimeia tornou-se notória pela demonstrada imaturidade militar e logística de ambos os lados – a parte naval viu uma campanha de sucesso aliado, que eliminou a maior parte dos navios da marinha russa no Mar Negro. Entretanto, ela é considerada uma das primeiras guerras “modernas”, por ter introduzido alterações técnicas que afetaram o curso futuro da arte da guerra, incluindo o primeiro uso tático das estradas de ferro e do telégrafo elétrico. Também, realçou o trabalho das mulheres que serviram como enfermeiras militares, como Florence Nightingale, Mary Seacole e Frances Margaret Taylor, entre outras, que introduziram os modernos métodos de enfermagem.
A Guerra da Crimeia foi também uma das primeiras a ser extensamente documentada por relatórios escritos e fotografias, notadamente por William Russell (para o jornal “The Times”) - que alguns creditam ter preparado a renúncia do governo britânico -, e Roger Fenton, respectivamente. Foi a primeira vez que o público foi mantido informado das realidades do dia-a-dia do campo de batalha.
O sistema de “venda de autoridade”, amplamente usado no exército britânico, foi cuidadosamente posto em observação durante a guerra, especialmente com relação à Batalha de Balaclava, que assistiu à infeliz “Charge of the Light Brigade”, e que teria finalmente conduzido à abolição de tal sistema.
A Guerra da Crimeia foi também um fator contribuinte à abolição da servidão na Rússia, em 1861, pois Alexander II teria visto a derrota militar do exército servo russo por tropas livres da Grã Bretanha e França, como prova da necessidade de emancipação, contribuindo também para o reconhecimento do Governo Russo, de sua inferioridade tecnológica, tanto em práticas como em armas militares.
Durante a guerra, a medicina militar russa assistiu a dramáticos progressos, com o uso de anestésicos, moldes de gesso, métodos aprimorados de amputação e a triagem de feridos em cinco estágios.

FIM DA GUERRA E CONSEQUÊNCIAS
Quando a Inglaterra entrou no conflito, ela pretendia uma guerra limitada, confiando em seu poderio naval, no bloqueio econômico, em seus aliados e na produção industrial para atingir os seus objetivos. Entretanto, com a sua duração, a insatisfação com a guerra crescia entre o público britânico e de outros países, para a qual muito contribuiu o engano da “Charge of the Light Brigade”, na Batalha de Balaclava, quando várias questões foram levantadas no parlamento Britânico sobre a Guerra. Essas questões acabaram por provocar a renúncia do Primeiro Ministro Aberdeen e a formação de um novo Governo Progressista liderado pelo então Secretário das Relações Exteriores, Lord Palmerston, com o radical John Arthur Roebuck tornando-se o Presidente do recém-formado comitê para investigação sobre o envolvimento da Grã Bretanha na Guerra da Crimeia.
Primeiro Ministro Aberdeen
 As negociações de paz começaram em 1856 sob Alexander II, filho e sucessor de Nicholas I, através do “Congresso de Paris”. Com ela, o Tzar e o Sultão concordaram em não estabelecer qualquer arsenal naval ou militar na costa do Mar Negro, com tremenda desvantagem para a Rússia que teve muito diminuído a ameaça naval que impunha aos otomanos. Os protetorados russos da Moldavia e Wallachia, ganhos em guerra anterior, retornaram ao Império Otomano. Finalmente, todas as grandes potências se comprometeram a respeitar a independência e integridade territorial do Império Otomano. Com tudo isso, excluído do Tratado de Viena de 1815, foi novamente trazido ao sistema político Europeu. A Rússia, por sua vez, perdendo a Guerra perdeu o mito do seu poderio, legado de 1812, agora despedaçado.
Lord Palmerston
O Tratado de Paris vigorou até 1871, quando a França foi derrotada pela Prússia na Guerra Franco-Prussiana entre 1870 e 1871. Com o fim dessa guerra, enquanto a Prússia e outros estados germânicos se uniram para formar o poderoso Império Germânico, Napoleão III, do Segundo Império Francês era deposto para dar lugar à formação da Terceira República Francesa. Ainda durante o seu reinado, Napoleão III, ávido do apoio da Grã Bretanha, havia se oposto à Rússia com relação à Questão Oriental, embora a sua interferência no Império Otomano não causasse qualquer ameaça significativa aos interesses da França. Assim, após o estabelecimento da República, a França abandonou a sua oposição à Rússia que, encorajada pela decisão francesa, apoiada pelo ministro germânico Otto Von Bismarck e ferida por sua derrota na Guerra da Crimeia, renunciou às cláusulas do Mar Negro do tratado de 1856. Como a Grã Bretanha, isoladamente, não tinha como fazer cumprir as cláusulas, a Rússia voltou a estabelecer sua esquadra no Mar Negro.
Imperador Alexander II
A intervenção da Sardenha garantiu-lhe o papel central na unificação da Itália. A Guerra da Crimeia lançou as bases para duas novas poderosas nações, Itália e Alemanha, que estariam unidas e protegidas em novos, curtos e limitados conflitos.
Tendo abandonado a sua aliança com a Rússia, a Áustria ficou diplomaticamente isolada ao término da Guerra da Crimeia, o que contribuiu para a sua derrota na Guerra Austro-Prussiana, em 1866, e a sua perda de influência na maioria das terras de língua inglesa. A Grã Bretanha foi incapaz de manter o equilíbrio do novo sistema. A França tornou-se francamente hostil ao Império Germânico aliado à Rússia, e a Rússia competindo com o recém-formado Império Austro-Húngaro por um papel mais importante nos Balkans, às expensas do Império Otomano. Com todos esses fatores, estavam lançadas as bases para a criação de alianças diplomáticas que conduziriam à Primeira Guerra Mundial de 1914 entre as grandes potências europeias, noventa e nove anos após o Congresso de Viena.
Descumprindo as garantias de preservar os territórios otomanos especificados no Tratado de Paris, a Rússia, explorando a inquietação nacionalista dos estados Otomanos, da Bulgária à Arábia e procurando recuperar o prestígio perdido, declarou nova guerra ao Império Otomano em abril de 1874. Nessa última guerra Russo-Turca, os estados da România, Sérvia e Montenegro alcançaram a sua independência e a Bulgária a sua autonomia.
Por tudo isso, a Guerra da Crimeia foi uma das principais causas do término do “Concerto da Europa”, o equilíbrio de poder que dominara a Europa, após o Congresso de Viena, em 1815, e que incluíra França, Rússia e o Império Britânico.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A GUERRA DA CRIMEIA - INÍCIO DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA? (PRIMEIRA PARTE)



INTRODUÇÃO


Entre outros, estou lendo no momento, um livro que adquiri em novembro de 2010, quando em visita à minha filha “australiana”, para o nascimento do seu quarto filhote, o Alec. O livro chama-se “The Greatest Lies in History” (As maiores Mentiras da História, em português) e foi escrito pelo escritor australiano Alexander Canduci. O nome do livro é, por si só, bastante ilustrativo, com o autor desmistificando o que, segundo ele, seriam as maiores mentiras consagradas pela história. Eu lia sobre as origens da Primeira Guerra Mundial e, sem entrar no mérito do que escreve o autor sobre tal fato, deparei-me com a chamada “Guerra da Crimeia”, sobre a qual já tinha ouvido falar, mas da qual não conhecia detalhe algum. Atiçada a minha curiosidade sobre a relação desta guerra com a Primeira Grande Guerra, fui realizar uma pequena pesquisa sobre assunto e os resultados obtidos estão colocados nesta minha postagem, que remeto aos meus poucos leitores, esperando que a usufruam, da mesma forma que apreciei adquirir os novos conhecimentos.
Aprendi, há muito tempo atrás que, em sua grande maioria, os meus professores de história foram maus professores, por se fixarem em detalhes sem importância para o entendimento da matéria, ao invés de se fixarem no que realmente importa para o completo entendimento da História, como causas, consequências e inter-relações dos grandes eventos que a formaram. Datas, formadas por dia, mês e ano, com poucas exceções, são pouco importantes ao conhecimento e entendimento da História, ao passo que os motivos, resultados e relações entre os grandes eventos históricos é que são imprescindíveis para tanto. Para não incorrermos nos mesmos erros desses professores, não vamos apresentar aqui minuciosos detalhes sobre o assunto, mas apenas dar ênfase àquilo que julgamos importante para o entendimento, neste caso, da importância que a Guerra da Crimeia possa ter tido para a eclosão da Primeira Grande Guerra, iniciada cerca de 60 anos depois. 
Essa é a primeira das duas partes que constituem a publicação.


VISÃO GERAL


Mapa moderno da Europa Oriental
A Guerra da Crimeia, travada entre outubro de 1853 e fevereiro de 1856, foi um conflito entre o Império Russo e uma aliança do Império Francês, Império Britânico, Império Otomano e o Reino da Sardenha.
Como essa batalha foi travada numa época em que os países conflitantes possuíam denominações diversas das que possuem modernamente, daremos uma brevíssima explicação sobre a nomenclatura vigente na ocasião.
O Império Russo foi um estado que existiu entre 1721 e a Revolução
Russa de 1917 (Revolução Bolchevista ou Bolchevique).
Império Russo em 1853
Ele sucedeu ao Czarismo Russo e foi antecessor da República Russa
de curta duração, sucedida, por sua vez, pela União Soviética. Um dos maiores impérios da história mundial, o Império Russo foi somente ultrapassado, em volume de terra, pelos Impérios Britânico e Mongol. No início do século XIX, o Império Russo se estendia do Oceano Ártico, no norte, ao Mar Negro, no sul, do Mar Báltico, no oeste, ao Oceano Pacífico e à América do Norte, no leste.
Tzar Nicholas I
Com 125,6 milhões de súditos registrados pelo censo de 1897, possuía a terceira maior população do mundo à época, após a China da Dinastia Quing e o Império Britânico.Como todos os impérios, apresentava uma grande disparidade em termos econômicos, etnicidade e religião. Seu governo, exercido por um Imperador, era uma monarquia absoluta, até a Revolução de 1905, após a qual tornou-se uma monarquia constitucional. Entretanto, o Imperador permaneceu empunhando considerável poder durante o novo regime político até cessão final do império durante a Revolução Bolchevista de fevereiro de 1917.
Imperador Napoleão III
O Segundo Império Francês foi o regime Imperial Bonapartista de Napoleão III, que vigorou entre 1852 e 1870, entre a Segunda e a Terceira República, na França, após a gloriosa Revolução Francesa de 1789, que pretendeu acabar com a monarquia francesa, passou por um Império, por uma república e acabou com a volta do império. O fim do Segundo Império da França aconteceu com a derrota da França para a Prússia em guerra declarada em 15 de julho de 1870; após uma série de derrotas, que culminaram com a Batalha de Sedan, os remanescentes do exército francês e o próprio Napoleão III renderam-se aos prussianos em 1º de setembro do mesmo ano. A Assembleia Nacional foi invadida por uma multidão em 4 de setembro, deputados parisienses formaram um novo governo e o deputado republicano Léon Gambetta oficialmente declarou a queda do Império e o estabelecimento da Terceira República.
Rainha Victoria e Príncipe Albert

Entre 1815 e 1914, um período referido por alguns historiadores como o “Século do Império Britânico, em torno de 26 milhões de quilômetros quadrados de território e grosseiramente 400 milhões de pessoas foram adicionadas ao Segundo Império Britânico. A vitória sobre Napoleão deixou a Grã Bretanha sem qualquer sério rival internacional além da Rússia. Imbatível no mar, a Grã Bretanha adotou o papel de polícia global, um estado de relações posteriormente conhecido como “Pax Britannica” e uma política externa de esplêndido isolamento. O poder do Império Britânico foi sustentado pela invenção do navio a vapor e do telégrafo, modernas tecnologias introduzidas na segunda metade do século XIX, que lhe permitiram controlar e defender o Império.

Sultão Abdülmecid I
O Império Otomano, também historicamente referido como Império Turco ou Turquia, foi um estado fundado por tribos turcas sob Osman Bey, no noroeste da Anatólia, em 1299. Com a conquista de Constantinopla (atual Istambul) por Mehmed II em 1453, o estado Otomano tornou-se um Império, que atingiu o seu clímax em 1590, cobrindo parte da Ásia, Europa e África. O reino da longa dinastia Otomana durou 623 anos, de 27 de julho de 1299 a 1º de novembro de 1922, quando foi abolida a monarquia na Turquia.
O Reino da Sardenha, também conhecido como Piedemonte-Sardenha ou Sardenha-Piedemonte, consistia das possessões da Casa de Savoy de 1720 ou 1723 em diante, como consequência da cessão da coroa da Sardenha ao rei Victor Amadeus II de Savoy, pelo Tratado de Haia (1720).
Rei Victor Emmanuel II
Tal cessão serviu-lhe como compensação da coroa da Sicília para a Áustria e permitiu-lhe reter o título de rei, já que o título de Rei da Sardenha tinha existido desde o século XIV. Além da Sardenha, o Estado de Savoy, à época, incluía Savoy, Piedemonte e Nice; Liguria, incluindo Genoa, foi adicionada pelo Congresso de Viena, em 1815. Durante a maior parte dos séculos XVIII e XIX, a capital política e econômica do reino foi Turim, no Piedemonte, em território italiano. Em 1860, Nice e Savoy foram cedidos à França em retorno ao consentimento e assistência na unificação da Itália. Em 1861, o reino da Sardenha tornou-se o estado fundador do novo Reino da Itália, anexando todos os outros estados italianos.


A Guerra da Crimeia foi parte de uma competição de longo termo, entre as principais potências europeias, para manipular os territórios do decadente Império Otomano. A maior parte do conflito aconteceu na península da Crimeia, então pertencente ao Império Russo que, por isso, leva o seu nome, mas ocorreram campanhas menores na Anatólia ocidental, Cáucaso, Mar Báltico, Oceano Pacífico e o Mar Branco. Na Rússia essa guerra ficou também conhecida como “Guerra Oriental” e na Grã Bretanha foi também chamada de “Guerra Russa”, à época.

TENSÕES ANTES DA BATALHA: “AS QUESTÕES ORIENTAIS”


A DECISÃO DE VIENA 
Muitas guerras foram travadas pela importância de uma região e várias outras lutadas por diferenças religiosas. A Guerra da Crimeia foi o resultado dos dois fatores.
Ao final das Guerras Napoleônicas, em 1815, as Grandes Potências reuniram-se em Viena para restaurar o Sistema de Estados da Europa, um delicado equilíbrio entre as potências maiores e menores que restringisse a agressão dos poderosos e preservasse os direitos dos fracos. Elas esperavam construir uma paz permanente pela supressão de repúblicas revolucionárias e a preservação das monarquias estáveis e ordenadas. A despeito dos alvos e ambições divergentes de Rússia, Prússia, Áustria, Grã Bretanha e França, criaram um compromisso logo após os “Cem Dias de Napoleão” e a Batalha de Waterloo.
Após o Tratado de Viena as Grandes Potências desfrutaram três décadas de paz, período durante o qual as pressões industriais, políticas, econômicas, sociais e nacionalistas foram suprimidas ou reduzidas. Mas, finalmente, o “Sistema de Viena” sucumbiu. Para tanto, o problema inicial foi a fraqueza do Império Turco-Otomano e as oportunidades que criava para uma interferência no apoio às suas populações cristãs.
Como na continuação da nossa postagem falaremos de Louis-Napoleon Bonaparte, Napoleon III após o estabelecimento do Segundo Império Francês, é muito importante que eu abra aqui parênteses, para recordar a sucessão dos governantes franceses após as Guerras Napoleônicas, até a sua ascensão.
Louis XVI era o rei à época da Revolução Francesa, casado com Maria Antonieta, cujo triste fim foi a morte na guilhotina, em 1793. Seu filho, Louis Joseph Xavier François, foi a segunda criança e primeiro filho, portanto, herdeiro do trono francês - Delfin de França. Infelizmente, ele morreu de tuberculose, com a idade de sete anos, às vésperas da Revolução Francesa, sem se tornar rei. Louis Joseph foi sucedido como príncipe aspirante à coroa francesa, por seu irmão de quatro anos de idade, Louis Charles, Delfin de França, que foi aprisionado durante a Revolução, morrendo na prisão, com dez anos de idade, como Louis XVII não coroado.
Com a sua morte, seu tio e regente, irmão de Louis XVI, proclamou-se Rei Louis XVIII. Com a primeira queda de Napoleão, em 1814, e a assistência de Charles Maurice de Talleyrand, posteriormente Ministro das Relações Exteriores da França, ele ganhou o trono da França. Com o efêmero retorno de Napoleão nos “Cem Dias”, abandonou Paris para retornar após da Batalha de Waterloo. Louis XVIII foi rei da França de 1814 até a sua morte, em 1824. Quem o sucedeu foi seu irmão, com o título de Charles X.
Charles X reinou de 1824 até a revolução francesa de 1830, quando renunciou em favor de seu neto, o Conde de Chambord, ao invés de tornar-se um monarca constitucional e viajou para a Inglaterra. Contudo, o Duque d’Orléans, seu primo, a quem Charles X havia indicado como Tenente General da França, foi escolhido como “Rei dos Franceses” e reinou como Louis-Philippe.
Louis-Philippe de França serviu como o Rei “Orleanista” dos Franceses, de 1830 a 1848. Uma crise econômica em 1847 conduziu os cidadãos franceses a uma nova revolta contra o seu rei que, temendo fim idêntico ao de Louis XVI e Maria Antonieta, abdicou em favor de seu neto e fugiu para a Inglaterra, onde viveu com sua família até a sua morte em 26 de agosto de1850.
Inicialmente, a Assembleia Nacional planejou aceitar seu neto como rei. Entretanto, conduzida pela maré da opinião pública, aceitou a proclamação da Segunda República em circunstâncias controversas, na Prefeitura de Paris, em 1848.
Em eleição popular, o Príncipe Louis Napoleon Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte e seu herdeiro, foi eleito presidente. Em 1851 ele declarou-se presidente eterno. Dentro de um ano, nomeou-se Imperador Napoleon III, ressuscitando o conceito de um “Império Napoleônico” onde imperou até setembro de 1870, quando foi deposto pela Terceira República após sua derrota na Guerra Franco-Prussiana.
Quando Presidente, Louis-Napoleon Bonaparte explorou as fraquezas turcas para garantir concessões para a Igreja Católica na Palestina, esperando ganhar apoio conservador para o seu golpe de estado. Quando o Tzar Nicholas I retaliou, enviando uma missão para recuperar os direitos dos Gregos Ortodoxos, os turcos simplesmente deram lugar às duas partes, esperando que a questão desparecesse.
Assim que estabelecido o Segundo Império, Napoleon III perdeu o interesse na questão, mas Nicholas decidiu pôr em ordem o “Homem Doente da Europa” – alusão ao Império Otomano que atravessava conturbada fase econômica à época –, de uma vez por toda, através da retalhação da parte europeia da Turquia, esperando apoio da Prússia, Áustria e Grã Bretanha. Ele se enganara, pois nenhuma das duas últimas potências queria ver a Rússia controlando os Dardanellos. Vislumbrando uma abertura para um sucesso diplomático útil, a França uniu-se à Grã Bretanha em apoio à Turquia, que rejeitou os ultrajantes termos do Tzar.

CONFLITO SOBRE A AUTORIDADE NO MEDITERRÂNEO ORIENTAL 
A Rússia, como um membro da Santa Aliança, havia operado como “Polícia da Europa”, mantendo o equilíbrio de poder estabelecido no “Tratado de Viena”, em 1815, e suprimindo levantes revolucionários na Europa. Em troca por ter fornecido os exércitos necessários para manter o equilíbrio de poder e suprimir as revoluções de 1848 e 1849, a Rússia tinha erradamente suposto que a Europa lhe daria carta branca para solucionar os seus problemas com o Império Otomano – o “homem doente da Europa”. A discussão completa sobre o futuro do Império Otomano levou o nome de “Questão Oriental”, um termo que continuaria em uso, com relação ao Império Otomano, até o início do século XIX.
A cadeia imediata de eventos que conduziu à declaração de guerra da França e Grã Bretanha sobre a Rússia, em 27 e 28 de março de 1854, pode ser rastreado até o golpe de estado de 1851 na France. Napoleão III enviou seu embaixador ao Império Otomano tentando forçar os otomanos a reconhecer a França como “autoridade soberana” no que se referia à sua população cristã. A Rússia contestou esta nova alteração de autoridade. Considerando dois ou mais tratados, um de 1757 e o Tratado de Küçük Kaynarca de 1774, os otomanos reverteram sua decisão prévia, renunciando ao tratado francês e insistindo que a Rússia era o protetor dos cristãos ortodoxos no Império Otomano.
Mapa da Guerra da Crimeia: Turquia em cinza, Rússia em verde, Mar Negro

Napoleão III respondeu com uma demonstração de força, enviando o navio de guerra especial Charlemagne para o Mar Negro, numa violação à “Convenção dos Estreitos de Londres”. A demonstração de força da França, combinada com uma diplomacia agressiva e dinheiro, induziram o Sultão Abdülmecid I a aceitar um novo tratado, confirmando a França e a Igreja Católica Romana como suprema autoridade cristã com controle sobre os sagrados locais cristãos sob seu controle e a posse das chaves da Igreja da Natividade, anteriormente de posse da Igreja Ortodoxa Grega.
O Tzar Nicholas I então dispôs seus 4º e 5º Corpos de Exército ao longo do rio Danúbio e enviou seu ministro de relações exteriores, Conde Karl Nesselrode, para estabelecer conversações com os otomanos. Ao embaixador britânico em São Petersburgo, Sir George Hamilton Seymour, Nesselrode confidenciou que a disputa pelos locais sagrados havia assumido uma nova característica, tentando evitar a participação da Inglaterra ou França no conflito entre Rússia e o Império Otomano.
As negociações diplomáticas prosseguiram em todas as frentes até que Hugh Rose, encarregados dos negócios da Embaixada Inglesa em Constantinopla, descobrindo sobre os navios russos ao longo do Danúbio, ordenou que uma esquadra de navios britânicos de guerra se dirigisse ao Mediterrâneo e posteriormente para Constantinopla, decisão não amparada pelo almirante inglês no comando da esquadra, que acabou não indo. Entretanto, a esquadra francesa foi em apoio aos otomanos, cumprindo acordo prévio.

PRIMEIRAS HOSTILIDADES 
Os britânicos foram se tornando cada vez mais envolvidos no conflito, até que a Rússia, ao saber do insucesso de sua diplomacia, em julho de 1853 deslocou seus exércitos para os Principados do Danúbio controlados pelos otomanos, Moldávia e Wallachia, para as quais tinha previamente obtido dos otomanos, o reconhecimento de guardiães especiais dos Cristãos Ortodoxos residentes, usando tal fato como pretexto para a sua ocupação militar. Nicholas acreditava que a Áustria não se oporia à anexação das duas províncias, principalmente porque a Rússia a teria assistido em seus esforços para suprimir as Revoluções separatistas dos húngaros, ocorridas em 1848.
Interessada em manter o Império Otomano como um baluarte contra a expansão da Rússia na Ásia, em represália a tal ato, a Grã Bretanha enviou uma esquadra para os Dardanelos, para juntar-se a outra esquadra já enviada pela França. Conforme pode-se ver pelas figuras, os Dardanellos são um pequeno estreito a noroeste da Turquia, que conecta o Mar de Marmara ao Mar Egeu que, por sua vez, encontra o Mar Mediterrâneo e que, junto com o Estreito de Bósforo, separa a Europa do corpo principal de Ásia. Estratégicos acidentes militares, pois, em resumo, os Dardanelos e o Bósforo juntos conectam o Mar Negro ao Mar Vermelho.
Numa última tentativa diplomática, Grã Bretanha, França, Áustria e Prússia, num encontro em Viena, prepararam um documento a ser aceito por Russos e Otomanos. A Rússia o aceitou, mas não o Império Otomano. Em vista disso, as três primeiras potências se uniram na elaboração de novas sugestões, ignoradas na corte de São Petersburgo, razão pela qual a Grã Bretanha e a França abandonaram as negociações, condenadas por Áustria e Prússia que preferiam manter o assunto na área diplomática.
Entrementes, o Sultão formalmente declarou guerra em 23 de outubro de 1853 e iniciou o ataque movendo seus exércitos sobre o exército Russo, próximo do Danúbio, ao final do mesmo mês. As escaramuças iniciaram com ambas as forças concentradas em duas frentes principais: Cáucaso e Danúbio, onde prevaleceram as forças otomanas sob o comando de Omar Pasha. Para compensar as perdas terrestres, a Rússia enviou poderosa esquadra que, na Batalha de Sinope, destruiu importante frota otomana ainda ancorada naquele porto. Para Grã Bretanha e França tal foi considerado Ato de Guerra para declaração contra a Rússia, o que se concretizaria formalmente em 28 de março de 1854 quando esta ignorou um ultimato dessas nações para que ela se retirasse dos Principados do Danúbio.