Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MIKHAIL BAKUNIN E O ANARQUISMO (Parte 3)

III - BAKUNIN

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin nasceu em Premukhimo, na Rússia, em 30 de maio de 1814 e faleceu em 01 de julho de 1876, na cidade de Berna, na Suíça. Foi um político teórico russo e um dos principais expoentes do anarquismo nos meados do século XIX. Nascido no Império Russo, de uma família de sete filhos, proprietária de terras de tendência nobre, durante a sua infância, seu pai Alexander, que se identificava com o liberalismo europeu e a Revolução Francesa, apresentou à sua família as ideias em torno deste movimento e ofereceu aos seus filhos uma educação primária baseada nestes mesmos ideais.
No entanto, depois dos fracassados levantes dezembristas de 1825, Alexander Bakunin, horrorizado com a violência e temeroso que as ideias liberais lhe causassem problemas, tornou-se um leal czarista a defender os benefícios da aristocracia russa que, a época, era quase toda composta por famílias da nobreza daquele país. Nesta mesma época Alexander decidiu mandar Mikhail para São Petersburgo para que ele se tornasse um oficial de artilharia. Aos 14 anos de idade Mikhail Bakunin deixou a casa de sua família, em Premukhimo, para a Universidade de Artilharia em São Petersburgo. Lá o jovem Bakunin completou seus estudos em 1832, e em 1834 foi promovido a oficial júnior da Guarda Imperial Russa. Seu pai imediatamente exigiu que ele fosse transferido para o exército regular. Após a transferência de cargo, a bateria na qual Bakunin estava alistado foi enviada à Minsk e Gardinas, na Lituânia.
Deprimido e insociável, em meio ao inverno rigoroso e preso em uma pequena aldeia congelada, teve início a revolta do jovem e Bakunin passaria a negligenciar seus deveres, mentindo, para passar os dias envolto em pele de carneiro. Teria sido então nesse momento que os seus ideais libertários teriam começado a se manifestar? A necessária disciplina do exército o teria incomodado tanto? Diante da incontinência, o oficial em comando lhe deu duas opções: retomar suas funções regulares ou desligar-se do exército. Bakunin tomaria a segunda e mais fácil decisão, retornando à casa paterna no início da primavera.
Diante do seu retorno, como seria fácil imaginar, a relação com o pai se tornaria cada vez mais conflituosa e os problemas de todos se agravariam. No verão seguinte ele tomaria parte em uma briga familiar assumindo o lado de sua irmã que se rebelara contra o pai, defensor de um casamento em que sua filha se sentia infeliz, ampliando ainda mais as suas revoltas. Em 1835 Mikahil Bakunin parte para Moscou com o objetivo de estudar filosofia, caminho natural para muitos jovens incomodados por problemas existenciais. A escolha se contrapunha frontalmente ao projeto de vida defendido por seu pai: tornar-se um grande oficial de carreira militar. E acontece o inevitável rompimento.
Mikahil Bakunin passou sua juventude em Moscou, estudando filosofia, com um grupo de estudantes universitários, engajados no estudo sistemático de filosofia idealista – em oposição à materialista. A filosofia de Kant era, inicialmente, a central neste círculo de estudos, mas depois alternaram para Schelling, Fichte e Hegel. E começou a frequentar os círculos radicais onde foi, em grande medida, influenciado pelas ideias de Aleksandr Herzen, considerado “o pai do socialismo russo”, filósofo, escritor, jornalista e político russo, seu contemporâneo e um dos primeiros críticos russos ao capitalismo e à burguesia. Esses, sempre e inevitavelmente, têm sido os grandes vilões de todos os males da humanidade, como se, não existindo, pudesse existir a riqueza possível de minorar os males maiores dos miseráveis. A propósito, Herzen era filho ilegítimo de um rico proprietário de terras russo com uma jovem protestante alemã, o que poderia ajudar a explicar a sua aversão ao capitalismo e à burguesia.
Foi fortemente influenciado pelo pensamento de Hegel, sendo o autor da primeira tradução de sua obra para o idioma russo, mesma época em que começa a desenvolver uma perspectiva pan-eslávica. Depois de longas discussões com seu pai, Bakunin foi para Berlin em 1840 onde, inicialmente, planejava tornar-se um professor universitário, mas logo encontrou e passou a fazer parte de um grupo de estudantes denominado "Esquerda Hegeliana", unindo-se ao movimento socialista. Em seu ensaio de 1842 “A Reação na Alemanha”, ele argumentava em favor da ação revolucionária da negação, resumida na frase:
“A paixão pela destruição é uma paixão criativa”.
Mudou-se para Dresden (Alemanha) e depois para Paris (França), onde conheceu grandes pensadores políticos entre estes George Sand, Pierre-Joseph Proudhon e Karl Marx, todos socialistas. Por essa época já havia abandonado seu interesse na carreira acadêmica, devotando mais e mais do seu tempo à promoção da revolução. Preocupado com seu radicalismo o governo imperial russo ordenou que ele retornasse a Rússia. Diante de sua recusa, todas as suas propriedades – já herdadas de seu pai - em território russo foram confiscadas. Nesta mesma época Bakunin foi para a cidade suíça de Zurique, onde permaneceu por seis meses. Em Bruxelas encontrou-se com oradores do nacionalismo e do progressismo polonês, como Joachim Lelewel, membro da Associação Internacional de Trabalhadores, junto com Karl Marx e Friedrich Engels. Logo rompeu com os poloneses por discordar de muitas das suas ideias. Foi deportado da França por discursar publicamente contra a opressão russa na Polônia. No outono de 1848 Bakunin publicou seu “Apelo aos Eslavos”, em que propunha que os revolucionários eslavos se unissem com os revolucionários húngaros, italianos e alemães para derrubar as três maiores autocracias da Europa, o Império Russo, o Império Austro-Húngaro, e o Reino da Prússia. Em 1849 foi preso em Dresden por sua participação na Rebelião de 1848, ocorrida em toda a Europa Central.
Após ter sido preso e sentenciado em vários países da Europa, foi finalmente enviado de volta ao Império Russo, onde foi aprisionado na Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, onde teria assinado confissão bastante controversa. Depois de três anos ele passaria outros quatro preso nas masmorras subterrâneas do castelo de Shlisselburg, onde sofreria com o escorbuto e perderia todos os dentes como resultado de aterradora dieta. Seu contínuo aprisionamento, nessas terríveis condições, fizeram com que ele pedisse ao seu irmão que lhe trouxesse veneno para dar um fim mais digno ao seu sofrimento. Em fevereiro de 1857, sua mãe fez um apelo ao imperador Alexandre II, que resultou na deportação de Bakunin ao exílio permanente na cidade de Tomsk, na Sibéria Ocidental. Após muitas peripécias e ajudado por parentes influentes na Sibéria, conseguiu escapar do exílio indo para o Japão, Estados Unidos e, de lá, retornando para Londres, onde ficou durante um curto período de tempo em que, juntamente com Herzen, colaborou para o periódico jornal radical Kolokol ("O Sino"). Em 1863 Bakunin partiu da Inglaterra para se juntar à insurreição na Polônia, mas não conseguiu chegar ao seu destino, permanecendo algum tempo na Suíça e na Itália, onde manteve contato com Garibaldi. Foi lá que pela primeira vez ele se autodeclarou anarquista e expôs suas ideias como tal.
Apesar de ser considerado um criminoso pelas autoridades religiosas e governamentais, já naquela época, Bakunin havia se tornado uma figura de grande influência para a juventude progressista e revolucionária, não só na Rússia, mas por toda a Europa. Em 1868, tornou-se membro da “Associação Internacional de Trabalhadores” (AIT), uma federação de progressistas e organizações sindicais com grupos, em grande parte, dos países europeus. Entre os anos de 1869 e 1870, Bakunin esteve envolvido com o revolucionário russo Sergey Nechayev em um número significativo de projetos clandestinos. Em conjunto os dois teriam escrito os livretos "Palavras à juventude – princípios da revolução" e "Catecismo de um Revolucionário", obras consideradas por muitos um exemplo de frieza maquiavélica. Entretanto, logo em seguida, Bakunin reveria esta posição rompendo com Nechayev devido aos seus métodos "jesuítas", como o próprio Bakunin posteriormente definiria. Desde então passa a criticar a ideia de Nechayev de que todos os meios são justificáveis para atingir aos fins revolucionários.
Em 1870, entrou na insurreição de Lyon, um dos principais precedentes da Comuna de Paris, o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante a invasão alemã, durante a guerra franco-prussiana. Em 1872 Bakunin havia se tornado uma figura influente na AIT, fazendo com que, através de suas posições, o congresso ficasse dividido em duas tendências contrapostas: uma delas, que se organizava em torno da figura de Marx, defendia a participação em eleições parlamentares e a outra, de caráter libertário, opondo-se a essa, considerada não revolucionária, se articulava em torno de Bakunin.
A posição defendida pelo círculo de Bakunin acabaria sendo derrotada em votação e, ao fim do congresso, Bakunin e muitos membros foram expurgados sob a acusação de manterem uma organização secreta dentro da Internacional. Os libertários, entre eles Bakunin responderam à acusação afirmando que o congresso fora manipulado, e que por esse motivo organizariam sua própria conferência da Internacional em Santo-Imier na Suíça depois, de 1872. Ainda que Bakunin aceitasse a análise de classes de Marx e suas teorias econômicas relacionadas ao capitalismo, reconhecendo-o em sua genialidade, ele considerava Marx um arrogante, e achava que seus métodos poderiam comprometer a revolução social. Bakunin criticava de forma efusiva o que chamava de "socialismo autoritário" (que associava sobretudo ao Marxismo) e o conceito de ditadura do proletariado, que refutava abertamente:

“Se você pegar o mais ardente revolucionário e investi-lo de poder absoluto, dentro de um ano ele será pior que o próprio Kzar”.

Bakunin e a frase que o tornou famoso
As palavras de Bakunin, antecipadas em minha Introdução e causa primeira desta postagem, evidenciando a falha da estratégia marxista, soavam proféticas com relação aos acontecimentos do século XX.
Bakunin manteve-se envolvido em muitas atividades no âmbito dos movimentos revolucionários europeus.
De 1870 à 1876, escreveu grande parte de sua obra, textos como “Estadismo e Anarquia” e “Deus e o Estado”.  Apesar de sua saúde frágil, tentou participar em uma insurreição em Bolonha, mas foi forçado a voltar para a Suíça, disfarçado, para receber tratamento médico.
Vila Baronata, Lugano, cedida por Carlo Cafiero
Em 1873, morando em Lugano, Suíça, conviveu com Errico Malatesta, teórico e ativista anarquista italiano, também membro da AIT. Bakunin ainda participaria, em 1874, de uma tentativa de revolta na cidade italiana de Bologna. Esta, no entanto, não alcançou êxito, fazendo com que o velho revolucionário retornasse a Lugano, onde passou seus últimos anos. No final de sua vida, com muitos problemas de saúde, foi levado, por um amigo, para um hospital em Berna, onde encontrou seu fim em 1º de julho de 1876.
Seu corpo foi enterrado no cemitério de Bremgarten na cidade de Berna. Seu túmulo mantido graças às doações de um suíço anônimo, ainda é visitado por anarquistas vindos de todo o mundo.
Túmulo de Bakunin


Bakunin é lembrado como uma das maiores figuras da história do anarquismo e um oponente do Marxismo em seu caráter autoritário, especialmente das ideias de Marx de ‘Ditadura do Proletariado’. Ele segue sendo uma referência presente entre os anarquistas da contemporaneidade.

sábado, 28 de novembro de 2009

A ODISSÉIA GAÚCHA DO SEIVAL

INTRODUÇÃO
Houve sempre muita confusão sobre a famosa aventura empreendida por Garibaldi, objetivando a tomada da cidade de Laguna, durante a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos. Isso, porque ensinavam que os navios teriam sido transportados por terra, através das lagoas existentes ao longo da faixa litorânea que se estende desde o sul do estado do Rio Grande do Sul até, praticamente, a cidade de Laguna, no estado de Santa Catarina. Essa epopéia sempre me parecera muito estranha e mal explicada, considerando que os dois estados possuem costa marítima e esses barcos poderiam ter navegado ao invés de transportados por terra, com um enorme sacrifício das tropas já debilitadas da República Rio Grandense. Na verdade, havia outras razões que impediam o uso dessa solução tão evidente e mais simples. Vamos, nesse artigo, tentar deixar bem claras essas razões e todo o desenrolar dessa fantástica façanha.
E antes de entrar no assunto, propriamente dito, uma rápida explicação sobre os nomes dos barcos que participaram da aventura. “Seival” era o nome de um dos dois barcos ou lanchões utilizados por Giuseppe Garibaldi na tomada da cidade de Laguna, que culminou com a proclamação da República Juliana, durante a Guerra dos Farrapos. O nome do lanchão é uma alusão à vitória obtida pelos gaúchos na Batalha do Seival, em data anterior à fabricação do barco. Seival era um arroio afluente do rio Candiota, no município de Bagé, onde se travou um dos mais sangrentos combates da Revolução Farroupilha com derrota e fuga das forças imperiais. Atualmente Candiota é um município do Rio Grande do Sul e Seival um distrito de Candiota.
Há dúvidas quanto ao nome do segundo barco que fez parte da expedição. Para alguns, “Farroupilha”, e para outros “Rio Pardo”, seria o nome do outro lanchão, maior, que acompanhava o Seival na empreitada; possivelmente porque, posteriormente à tomada de Laguna, um outro barco com o nome de Rio Pardo entrou também em cena.
Os lanchões teriam sido construídos com a finalidade específica de tomar a cidade de Laguna, que constituía, à época, um porto marítimo importante e necessário, pela impossibilidade técnica da conquista do porto de Rio Grande, que foi sempre fortemente defendido pelas forças imperiais.

A EPOPÉIA NOS CAMPOS GAÚCHOS
A epopéia do Seival e do Farroupilha teve início em pleno território gaúcho. Muito tempo antes do desenvolvimento dos veículos anfíbios, Garibaldi demonstrou que um barco construído para se movimentar na água também podia andar na terra. Para chegar a Laguna e conquistá-la, proclamando a República Juliana, o chamado "herói de dois mundos" teve que colocar em execução um dos mais arrojados planos militares já idealizados em qualquer época. A história realmente começou com a construção dos barcos.
No delta do Rio Camaquã, que desemboca na margem direita da Lagoa dos Patos, a pouco mais de meio caminho entre Porto Alegre e Rio Grande, na Fazenda do Brejó, que pertencia à Dona Antônia Joaquina da Silva, irmã de Bento Gonçalves, nos galpões abandonados de uma velha charqueada, o Governo Republicano mandara edificar um pequeno estaleiro para construir embarcações com a finalidade de controlar as águas internas. Este local era considerado estratégico devido à baixa profundidade que não permitia aos navios de guerra do Império, que patrulhavam essas águas, se aproximarem muito da costa.
John Griggs, também conhecido por “João Grandão”, um mercenário norte-americano contratado pelos Farroupilhas, era o mestre encarregado de fazer funcionar o estaleiro. Era marinheiro de grande habilidade, qualidade importante na tarefa. A Lagoa dos Patos, embora ampla, é rasa, com muitos bancos de areia. Este obstáculo natural, contornado por Griggs, impediu a perseguição mais efetiva por embarcações maiores da marinha imperial, que guardavam o porto de Rio Grande.
O trabalho era penoso, a madeira vinha dos matos adjacentes e no pequeno estaleiro trabalhavam quatro carpinteiros locais. O ferro era penosamente forjado ali mesmo e a própria fazenda fornecia a cordoalha de couro trançado e os cabos de cizal necessários para armar os barcos. Garibaldi logo sentiu que com os recursos disponíveis a construção seria muito lenta. Conseguiu então que o governo conseguisse ajuda de Montevidéu, na figura de Carniglia, conhecido carpinteiro naval, com sua equipe de mestres e operários. De Montevidéu vieram também alguns marinheiros que somados a outros tantos das redondezas formaram uma tripulação heterogênea de setenta homens. Com esse auxílio extra, em pouco mais de dois meses conseguiram construir dois lanchões, aos quais deram nomes que evocavam vitórias Farroupilhas. O maior, de 18 toneladas, foi chamado “Farroupilha” e seu comando dado a Garibaldi; o segundo, de 12 toneladas, foi batizado como “Seival” e seu comando entregue a John Griggs.
Entretanto, estando as embarcações dos Farroupilhas cercadas na Lagoa dos Patos, onde as forças do Império dominavam a entrada e saída, para atingir o mar, seus barcos teriam que ser deslocados, inicialmente, por terra. E aí iniciou-se uma epopéia digna de figurar com destaque na história dos conflitos mundiais. Sobre ela teria dito Garibaldi a Bento Gonçalves, numa reunião do alto comando farroupilha:
"Não existe a menor dificuldade na expedição por mar a Laguna. Mande-me o general alguns carpinteiros e a madeira necessária para a construção de quatro grandes rodados e cem juntas de bois carreiros, para a tração das rodas, e eu farei transportar os lanchões até Tramandaí, se Deus quiser".
Na primeira semana de maio do ano de 1839 os barcos foram lançados à água e durante nove dias andaram pela lagoa à procura de presas. Finalmente nas alturas de Cristóvão Pereira encontraram a sumaca “Mineira” e o patacho “Novo Acordo”. Após um único tiro abordaram a "Mineira", mas o "Novo Acordo" conseguiu fugir. A presa foi encalhada e a sua carga dividida, conforme carta de corso que Garibaldi havia recebido. Em resposta a esse ataque o governo federal enviou para a Lagoa dos Patos, sob o comando do almirante inglês John Grenfell, quatro navios de guerra. Entretanto, não era tarefa fácil à marinha imperial apanhar os revoltosos que conheciam todos os alagados, bancos e baixios da costa. Eram guerrilheiros que, inclusive, levavam cavalos a bordo, mostrando a mesma competência, no manejo das rédeas, cabrestos e boleadeiras, que a poucos momentos demonstravam nas escotas, adriças e leme dos lanchões. Quando, perseguidos pelos imperiais, chegavam a um banco, o brado era: “À água, patos!”. Todos pulavam na água, inclusive Garibaldi e metendo os ombros no barco cruzavam para o outro lado.

Esta guerrilha náutica terminou quando o Governo Farroupilha resolveu atacar Laguna usando esta pequena frota como apoio. O governo imperial, preocupado com os acontecimentos nas águas internas, resolveu destruir o estaleiro no delta do Camaquã, retomar o forte de Itapuã e o do Junco. Contando com uma frota numerosa, foi fácil retomar esses redutos, o mesmo não acontecendo com a idéia de capturar Garibaldi. Os lanchões Seival e Farroupilha cortaram as águas da Lagoa dos Patos, fustigados pela retaguarda por Grenfell. Fugindo e despistando, Garibaldi, profundo conhecedor da Lagoa dos Patos, passa por cima do banco das Desertas, entra na Lagoa do Casamento e esconde-se dentro do Arroio Capivari, a montante da lagoa do mesmo nome, onde desemboca, a duas milhas da sua foz. Nesse local teriam camuflado os mastros com a vegetação abundante das margens e passado a executar o planejado: construir duas carretas para os barcos e levá-los até Tramandaí. Enquanto o General Canabarro requisitava na região, em segredo, duzentos bois de canga, Garibaldi reunia o material necessário, principalmente cordoalha e madeirame de embarcações apreendidas. As rodas seriam de madeira, com 3,20 metros de diâmetro e cerca de 40 centímetros de largura. As margens do arroio foram aplainadas e os eixos e rodas submergidos sob os cascos para que a carreta pudesse ser montada. Tudo pronto, atrelaram 16 juntas de boi e tentaram o início da viajada, que não funcionou e quase virou o barco. Finalmente, em 05 de julho do mesmo ano conseguiram tirar os barcos da água e iniciar o transporte por terra.
Aqui, um parêntese curioso, para quem conhece o cenário gaúcho. Os lanchões Seival e Farroupilha teriam deixado o rio Capivari no ponto onde esse rio é cruzado, atualmente, pela RS-040, cerca de mil metros antes do posto da Polícia Rodoviária de Capivari, que fica no cruzamento dessa rodovia com o início da chamada “Estrada do Inferno” (nome antigo da BR-101, mas o inferno continua). Para quem vai de Porto Alegre em direção a Capivari, há um marco logo depois da ponte sobre o rio Capivari, à esquerda, indicando o local considerado como o início da movimentação terrestre das embarcações do grupo comandado por Garibaldi.

Entre o rio Capivari e o rio Tramandaí, através de campos, areais e banhados, foram percorridos cerca de cem quilômetros entre os dias 5 de julho pela manhã e a tardinha do dia 14 do mesmo mês, sem que as forças imperiais tivessem a mínima suspeita do que estava acontecendo. Lá chegados, tiveram que preparar o terreno para recolocar os barcos na água e reequipá-los, inclusive com as armas, pois haviam deles retirado tudo o que era possível, para deixá-los mais leves durante o percurso. Após reparos rápidos que não levaram três dias, as âncoras foram içadas e os barcos foram lançados no rio Tramandaí dali seguindo para o mar, através da barra do rio Tramandaí, e para o ataque às forças imperiais que se encontravam acantonadas em Laguna.
EM TERRAS E
MARES CATARINENSES
Entretanto, a alegria da navegação no mar pouco durou, pois baixou um pampeiro (o mesmo minuano dos gaúchos) que acabou causando o naufrágio do “Farroupilha”, próximo à cidade de Araranguá. Quando Garibaldi, escapando com vida do naufrágio, conseguiu chegar à praia, perto da Pedra do Campo Bom, contou sua tripulação sobrevivente e constatou ter perdido 16 marujos, dentre eles companheiros italianos de muitas jornadas. Sem tempo sequer para lastimar as perdas, os sobreviventes prosseguiram a pé, tentando se reunir na Barra do Camacho com as forças revolucionárias que estavam indo atacar Laguna.
Enquanto isso, o Seival, com John Griggs no comando, talvez por ser um barco mais ligeiro, conseguiu evitar o naufrágio e continuou velejando até a barra do Camacho onde, milagrosamente, penetrou com a intenção de atingir Laguna pelo rio Tubarão, ao invés de penetrar por sua foz, onde se encontra o porto de Laguna.


Quando Garibaldi e seus homens chegaram à barra do Camacho, o Seival já lhe tinha adentrado. Com o auxilio de um prático local o Seival seguiu, com Garibaldi também a bordo, pelos tortuosos canais que ligam as lagoas de Garopaba do Sul e Santa Marta, até chegar ao rio Tubarão. Os imperiais mantinham sentinelas permanentes no morro da Glória instruídos para controlarem a barra do Tubarão, em Laguna, contra quem viesse do mar, pois pelo rio Tubarão só baleeiras podiam navegar. A flotilha imperial era composta dos vasos de guerra “Imperial Catarinense”, “Sant’Anna” e “Lagunense”, de dois lanchões e mais a escuna “Itaparica” e o brigue “Cometa”.
Em Laguna, enquanto os "patos" de Garibaldi atacavam por água, os homens do general David Canabarro investiam por terra. Ao verem o Seival surgir, de repente, na foz do Tubarão, na Lagoa de Santo Antônio, atacando agressivamente a nave "Sant’Anna", o pânico instalou-se definitivamente entre as fileiras imperiais. José de Jesus, comandante da "Imperial Catarinense", sentindo a derrota próxima, manda incendiar seu barco causando ainda mais confusão. Numa decisão que o levaria à corte marcial o coronel Vilas Boas, dando a batalha por perdida, ordenou retirada e o brigue "Cometa" conseguiu fugir levando para o Desterro (Florianópolis) a notícia da derrota.
A 22 de julho de 1839, os farroupilhas dominavam de vez a vila de Laguna, conquistando um importante porto para os Farroupilhas, que nunca conseguiram se apoderar dos portos de Rio Grande e São José do Norte. A 29 do mesmo mês foi proclamada a República Juliana, por não haver contiguidade com a República Rio Grandense, infelizmente de vida efêmera.
As peripécias de Garibaldi, entretanto, não pararam por aí. Cinco novos barcos da República de Piratini foram posteriormente incorporados à sua flotilha que, agora possuidora de um porto adequado, continuou a causar graves estragos à marinha imperial.

EPÍLOGO
Finalmente, na batalha naval de Laguna, dada a superioridade das forças imperiais face aos farroupilhas, quase todos os barcos republicanos envolvidos foram queimados e o “Seival” abordado pela “Bela-Americana”, porém sem nenhum tripulante à bordo. O “Seival” foi encalhado e mais tarde posto a flutuar, transformado em iate mercante com o nome de "Garrafão". Como navio mercante navegou ainda muitos anos, acabando seus dias encalhado em uma praia de Laguna. Em 1916, quando ia ser restaurado por historiadores italianos, foi queimado. Em 1945 foi encontrada uma figueira nos restos da quilha do Seival; transplantada para uma praça de Laguna ficou conhecida como a “Árvore de Anita”. Uma réplica do Seival ainda pode ser vista hoje, na cidade de Tramandaí, Rio Grande do Sul, no Parque Histórico General Manuel Luiz Osório.
Na Itália, muitos anos depois, no auge de sua fama, assim manifestou-se Garibaldi acerca de seus companheiros da Revolução Farroupilha.
“E, repassando na memória as vicissitudes da minha vida no vosso meio, em seis anos de guerra e de constante prática de ações magnânimas, como que em delírio exclamo: Onde estão estes belicosos filhos do Continente (Rio Grande do Sul), tão majestosamente intrépidos nos combates? Onde estão Bento Gonçalves, Antônio Neto, Davi Canabarro, Joaquim Teixeira Nunes e outros tantos lanceiros farrapos que não me lembro! Que o Rio Grande ateste, com uma modesta lápide, o sítio em que descansam seus ossos. E vossas belíssimas patrícias (a mulher gaúcha) cubram de flores este santuário de suas glórias.”