Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

CURIOSIDADES ACERCA DE "MY WAY" OU "COMME D'HABITUDE"

Existe uma música antiga, belíssima, que foi popularizada por Frank Sinatra, denominada "My Way". Entretanto, na verdade, a melodia original é uma canção francesa, denominada "Comme d'Habitude", composta por Claude François, Jacques Revaux e Gilles Thibault. Quem escreveu a letra, em inglês, para a gravação americana, foi também um cantor americano antigo, que fez muito sucesso pelo final da década de 50 e década de 60, mas continua cantando até hoje, chamado Paul Anka. A letra inglesa, de Paul Anka, contando a história de um homem que se aproxima da morte e que deve ter tido nela sucesso, não apresenta qualquer relação com a letra original francesa de Claude François e Gilles Thibault.
O próprio Paul Anka poderia ter gravado a música cuja letra criou, pois foi, como dissemos acima, cantor de sucesso durante os famosos e decantados "Anos Dourados", dos quais participei com toda a minha energia e imensa alegria. A razão pela qual ele não a gravou, é o objetivo desse artigo.
Paul Anka ouviu essa canção popular, original da França, de 1967, "Comme d'Habitude", executada por Claude François, com música de Jacques Revaux e letra de Gilles Thibault, quando se encontrava em férias, no sul da França. Ele, imediatamente, voou para Paris, para negociar os direitos da canção.
Muitos anos mais tarde, numa entrevista em 2007, ele teria dito: "Eu pensei que fosse uma gravação 'de merda', mas havia qualquer coisa estranha nela".
Assim, ele adquiriu os direitos de publicação sem qualquer custo e, dois anos mais tarde, durante um jantar na Flórida, com Frank Sinatra e um par de indivíduos da Máfia, após oferecer a melodia a Sinatra, para gravação, dele teria ouvido que estava "deixando o serviço. Estou cheio dele, estou caindo fora".
Mesmo assim, de volta a Nova York, Paul Anka reescreveu a canção original para Frank Sinatra, sutilmente alterando a estrutura melódica e mudando a letra. Sobre a sua ação, ele conta:
"A uma da manhã eu sentei numa velha máquina de escrever elétrica IBM e disse: 'Se Frank fosse escrever isso, o que ele diria?' E eu comecei, metaforicamente, 'E agora, o fim está próximo'. Eu li um monte de jornais e notei que tudo era 'meu isso' e 'meu aquilo'. Estávamos na 'geração eu' e Frank tornou-se o cara que eu iria usar para dizer isso. Usei palavras que nunca usaria: 'Eu comi tudo e cuspi tudo de volta'. Mas essa era a sua forma de falar. Eu costumava frequentar saunas de vapor com os caras da 'Rat Pack' (a turma do Frank Sinatra: Dean Martin, Sammy Davis Jr. e outros) – eles gostavam de falar como os caras da Máfia embora tivessem medo da própria sombra."
Paul Anka terminou a canção às cinco da manhã. E prossegue contando:
"Eu telefonei a Frank em Nevada – ele estava no Caesar's Palace – e disse, 'Tenho alguma coisa realmente especial para você!'"
Mais tarde Paul Anka veio a queixar-se: "Quando minha companhia de gravação descobriu o que eu havia feito eles ficaram "putos" porque não a guardei para mim próprio. Eu respondi, 'hei, eu posso escrevê-la, mas isso não indica que sou o cara feito para cantá-la.' Ela foi para Frank e para ninguém mais".
Talvez agora, até se entenda porque os tribunais deram a Paul Anka o ganho da causa, uma vez que ele havia negociado os direitos de publicação sem quaisquer custos. Se ele possuía o documento comprobatório dessa transação, teria que ganhar, inevitavelmente. Mas, realmente, é incrível!!!
Posteriormente, até o próprio Paul Anka e, entre outros, o nosso conhecido Elvis Presley e o moderno Robbie Williams (este, em espanhol: "A Mi Manera") acabaram gravando essa música, mas nunca com o mesmo sucesso obtido por Frank Sinatra, como acertadamente havia vaticinado o escritor da letra inglesa.
Quem quiser relembrar, sinta-se à vontade para curtir "My Way", com o "dono" do sucesso, Frank Sinatra, imbatível mesmo depois de velho.
Esta postagem, feita ao final do ano de 2009, estava encerrada e enterrada, colocada à disposição do público, desde aquela data. Mas vejam como são as coisas. Hoje, 19 de novembro de 2020, um seguidor colocou um comentário elogioso àquela postagem e, para responder ao comentário, tive que reler a postagem. E vi então que, na minha concepção, cometi um esquecimento sem justificativa, considerando a maneira como costumo escrever minhas postagens. E resolvi então fazer este acréscimo a ela.
Na verdade, eu conheci essa música em sua versão original, em francês, sob o título "Comme d'Habitude", quando eu ainda não conhecia a versão inglesa "My Way". Eu já tinha, naquela época, mais de um disco de uma grande intérprete da música francesa, chamada Mireille Mathieu, que se tornou, logo logo, uma das minhas cantoras preferidas. Mireille Mathieu chegou a gravar um CD em que interpretava apenas canções francesas interpretadas pela diva francesa Edith Piaf. Por essa razão, foi indesculpável não mencionar esse fato na postagem, falta de que me redimo agora, oferecendo aos meus leitores a gravação "Comme d'Habitude", na voz maravilhosa de Mireille Mathieu.

domingo, 1 de novembro de 2009

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - VISÃO GERAL

A Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma instituição fundada no Rio de Janeiro em 20 de julho de 1897. Seguindo o modelo da Francesa, a Academia Brasileira é composta por 40 (quarenta) membros efetivos e perpétuos e 20 (vinte) sócios correspondentes estrangeiros, e possui como objetivo "o cultivo da língua e a literatura nacional". A vitaliciedade do cargo é expressa pelo lema "Ad immortalitatem", e a sucessão dá-se apenas pela morte do ocupante da cadeira.

A instituição remonta ao final do século XIX, quando escritores e intelectuais brasileiros manifestaram seu desejo de criar uma academia nacional, nos moldes da Academia francesa. Dessa forma, a iniciativa foi tomada por Lúcio de Mendonça e concretizada em reuniões preparatórias que se iniciaram em 15 de dezembro de 1896, sob a presidência de Machado de Assis (eleito por aclamação), na redação da Revista Brasileira. Nessas reuniões foram aprovados os Estatutos da Academia Brasileira de Letras, a 28 de janeiro de 1897, compondo-se o seu quadro de 40 membros fundadores. A 20 de julho desse mesmo ano foi realizada a Sessão Inaugural, nas instalações do Pedagogium, prédio fronteiro ao Passeio Público, no centro do Rio.
Sem possuir sede própria nem recursos financeiros, as reuniões da Academia eram, inicialmente, realizadas nas dependências do antigo Ginásio Nacional, no Salão Nobre do Ministério do Interior e no salão do Real Gabinete Português de Leitura, sobretudo para as sessões solenes. As sessões comuns sucediam-se no escritório de advocacia do Primeiro Secretário, Rodrigo Octávio, à Rua da Quitanda, 47.
A partir de 1904, a Academia obteve a ala esquerda do Silogeu Brasileiro, um prédio governamental que abrigava outras instituições culturais, onde se manteve até à conquista da sua sede própria.



Os membros efetivos e perpétuos da Academia são conhecidos como "imortais" e escolhidos entre os cidadãos brasileiros que tenham publicado obras de reconhecido mérito ou livros de valor literário. O estatuto da Academia Brasileira de Letras estabelece que, para alguém candidatar-se, é preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário.
Quando um Acadêmico falece, a cadeira é declarada vaga na “Sessão de Saudade” e, a partir de então, os interessados dispõem de um mês para se candidatarem, através de carta enviada ao Presidente. A eleição transcorre três meses após a declaração da vaga. Formalizadas as candidaturas, os acadêmicos, em sessão ordinária, manifestam a vontade de receber o novo confrade, através do voto secreto. A posse é marcada de comum acordo entre o novo Acadêmico e o escolhido para recepcioná-lo. De praxe, o vistoso fardão é oferecido pelo Governo do Estado natal do Acadêmico. Os eleitos tomam posse em sessão solene, nas quais todos os membros vestem o fardão da Academia, de cor verde-escura com bordados de ouro que representam os louros, complementado por chapéu de veludo preto com plumas brancas. Nesse momento, o novo membro pronuncia um discurso, onde tradicionalmente evoca o seu antecessor e os demais ocupantes da cadeira para a qual foi eleito. Em seguida, assina o livro de posse e recebe das mãos de dois outros imortais o colar e o diploma; a espada é entregue pelo decano, o acadêmico mais antigo. A cerimônia prossegue com um discurso de recepção, proferido por um confrade, referindo os méritos do novo membro.
Instituição tradicionalmente masculina, a Academia, a partir de 4 de novembro de 1977, aceitou como membro Rachel de Queiroz, para quem foi desenhada uma versão feminina do tradicional fardão: um vestido longo de crepe francês verde-escuro, com folhas de louro bordadas em fio de ouro.
O primeiro Presidente da ABL foi Machado de Assis, eleito por aclamação, e também seu "Presidente Perpétuo". Durante quase 34 anos consecutivos Austregésilo de Athayde presidiu o Silogeu (1959-1993) imprimindo, na sua gestão, um caráter de vitaliciedade ao cargo, que fugia aos princípios originais e que foi abandonado por seus sucessores. Eleito em 2007, o atual presidente é Cícero Sandroni.
Para cada uma das quarenta cadeiras, os fundadores escolheram os respectivos patronos, homenageando personalidades que marcaram as letras e a cultura brasileira, antes da fundação da Academia. Esta foi uma inovação com relação à Academia Francesa, que lhe servira de modelo e que instituíra as Cadeiras, mas atendendo apenas a uma numeração de 1 até 40. A escolha desses Patronos deu-se de forma um tanto aleatória, com sugestões sendo feitas pelos próprios Imortais.
Historiando esta escolha, em discurso proferido na Casa, no ano de 1923, Afrânio Peixoto (que dela foi Presidente), deixou criticamente registrado:
Novidade de nossa Academia foi, em falta de antecedentes, criarem-nos, espiritualmente, nos patronos. Machado de Assis, o primeiro da companhia, por vários títulos, quis dar a José de Alencar a primazia que tem, e deve ter, na literatura nacional. A justiça não guiou a vários dos seus companheiros. Luís Murat, por sentimento exclusivamente, entendeu honrar um amigo morto, infeliz poeta, menos poeta que infeliz, Adelino Fontoura. O mesmo, Pedro Rabelo a Pardal Mallet. A Silva Ramos, que lembrara Gonçalves Crespo, nascido no Brasil, não o permitiram, por «português», aceitando, entretanto, Gonzaga, que nascera em Portugal... Faltavam poucos acadêmicos à escolha e sobravam grandes patronos nacionais. Nabuco que, para não sair de Pernambuco, e não ter sombra, escolhera ao medíocre Maciel Monteiro, lembrou aos que faltavam, a escolha justa de grandes nomes restantes. Rui ocorreu logo com o seu patrono, que não estava na lista: era Evaristo da Veiga. Ficaram muitas clamorosas exclusões, entretanto.
Recentemente, acadêmico para quem a Academia é número um de suas preocupações, entendeu obviar o defeito, dotando os sócios correspondentes de patronos. Elaborou a lista dos grandes excluídos — Alexandre de Gusmão; Alexandre Rodrigues Ferreira; A. de Morais Silva; Antônio José; Botelho de Oliveira; D. Borges de Barros; Eusébio de Matos; Dom Francisco de Sousa; Fr. Francisco de Monte Alverne; Gonçalves Ledo; José Bonifácio, o Patriarca; Matias Aires, Nuno Marques Pereira, Odorico Mendes, Rocha Pita, Santa Rita Durão, Silva Alvarenga, Sotero dos Reis, Fr. Vicente do Salvador, Visconde de Cairu — e teve a habilidade, eleitoral, de fazê-la aceita. É exato que a maioria é de baianos, o que trai a origem, mas, agora, já não se dirá que os sessenta patronos não incluem os mais consagráveis dos brasileiros escritores. A exclusão desses vinte seria escandalosa e certamente eles valem mais que vinte dos outros quarenta, escolhidos sem unidade de critério, ou, como devera ser apenas, critério de justiça.”
Pelo que se nota que as aparentes injustiças e pecados, praticados pela nossa Academia Brasileira de Letras, não acontecem apenas nos dias de hoje. Ilustração adicional foi proporcionada pelo nosso tão querido e não menos famoso escritor Jorge Amado, eleito para a Academia Brasileira de Letras em 6 de abril de 1961 e ocupando a cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. De sua experiência acadêmica, bem como para retratar os casos dos imortais da ABL, escreveu “Farda, fardão, camisola de dormir”, numa clara alusão ao formalismo da entidade e à senilidade de seus membros, então.
E não posso deixar de registrar experiência pessoal sobre o assunto. Na década de sessenta, com meus vinte aninhos e então fiel leitor dos autores que compunham os famosos “esquerdistas de direita e diretistas de esquerda”, caiu-me às mãos o volume “As Excelências ou Como Entrar para a Academia”, do apaixonado Guilherme de Figueiredo. Nesse livro, extemamente divertido, o autor expõe, de forma acérrima, as absurdas normas impostas e as peripécias que devem enfrentar os candidatos ao ingresso em nossa mais famosa casa de cultura. Com todas os acontecimentos modernos envolvendo a ABL e seus candidatos do presente, com toda a certeza, é um livro totalmente atualizado.
Como curiosidade, apresentamos a seguir algumas relações de nomes ligados à ABL.


LISTA DE PATRONOS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS


1. Adelino Fontoura; 2. Álvares de Azevedo; 3. Artur de Oliveira; 4. Basílio da Gama; 5. Bernardo Guimarães; 6. Casimiro de Abreu; 7. Castro Alves; 8. Cláudio Manuel da Costa; 9. Gonçalves de Magalhães; 10. Evaristo da Veiga; 11. Fagundes Varela; 12. França Júnior; 13. Francisco Otaviano; 14. Franklin Távora; 15. Gonçalves Dias; 16. Gregório de Matos; 17. Hipólito da Costa; 18. João Francisco Lisboa; 19. Joaquim Caetano; 20. Joaquim Manuel de Macedo; 21. Joaquim Serra; 22. José Bonifácio, o Moço; 23. José de Alencar; 24. Júlio Ribeiro; 25. Junqueira Freire; 26. Laurindo Rabelo; 27. Maciel Monteiro; 28. Manuel Antônio de Almeida; 29. Martins Pena; 30. Pardal Mallet; 31. Pedro Luís Pereira de Sousa; 32. Manuel de Araújo Porto-alegre; 33. Raul Pompéia; 34. Sousa Caldas; 35. Tavares Bastos; 36. Teófilo Dias; 37. Tomás Antônio Gonzaga; 38. Tobias Barreto; 39. Francisco Adolfo de Varnhagen; 40. Visconde do Rio Branco;


A estes 40 Patronos mais 20 foram adicionados posteriormente, nominando as vinte cadeiras de sócios Correspondentes, outra inovação da Academia Brasileira. São eles:
1. Alexandre de Gusmão; 2. Antônio José da Silva, "o judeu"; 3. Botelho de Oliveira; 4. Eusébio de Matos;
5. Dom Francisco de Sousa; 6. Mathias Ayres; 7. Nuno Marques Pereira; 8. Rocha Pita; 9. Santa Rita Durão; 10. Frei Vicente do Salvador; 11. Alexandre Rodrigues Ferreira; 12. Antônio de Morais Silva; 13. Domingos Borges de Barros; 14. Frei Francisco de Mont'Alverne; 15. Frei Gonçalves Ledo; 16. José Bonifácio, o Patriarca; 17. Odorico Mendes; 18. Silva Alvarenga; 19. Sotero dos Reis; 20. Visconde de Cairu.


RELAÇÃO DOS IMORTAIS SEGUNDO A CADEIRA

Os nomes em negrito indicam os atuais ocupantes das várias cadeiras. A ordem dos itens é a seguinte:
Cadeira             Fundador                                   Sucessores

1) Luís Murat Afonso d'Escragnolle Taunay►Ivan Lins►Bernardo Élis►Evandro Lins e Silva►Ana Maria Machado
2) Coelho Neto João Neves da Fontoura►Guimarães Rosa►Mário Palmério►Tarcísio Padilha
3) Filinto de Almeida Roberto Simonsen►Aníbal Freire da Fonseca►Herberto Sales►Carlos Heitor Cony
4) Aluísio Azevedo Alcides Maia►Viana Moog►Carlos Nejar
5) Raimundo Correia Osvaldo Cruz►Aloísio de Castro►Cândido Mota Filho►Rachel de Queiroz►José Murilo de Carvalho
6) Teixeira de Melo Artur Jaceguai►Goulart de Andrade►Barbosa Lima Sobrinho►Raimundo Faoro►Cícero Sandroni
7) Valentim Magalhães Euclides da Cunha►Afrânio Peixoto►Afonso Pena Júnior►Hermes Lima►Pontes de Miranda►Diná Silveira de Queirós►Sérgio Correia da Costa►Nelson Pereira dos Santos
8) Alberto de Oliveira Oliveira Viana►Austregésilo de Ataíde►Antônio Calado►Antonio Olinto► aguardando eleições
9) Carlos Magalhães de Azeredo Marques Rebelo►Carlos Chagas Filho►Alberto da Costa e Silva
10) Ruy Barbosa Laudelino Freire►Osvaldo Orico►Orígenes Lessa►Lêdo Ivo
11) Lúcio de Mendonça Pedro Lessa►Eduardo Ramos►João Luís Alves►Adelmar Tavares►Deolindo Couto►Darcy Ribeiro►Celso Furtado►Hélio Jaguaribe
12) Urbano Duarte Antônio Augusto de Lima►Vítor Viana►José Carlos de Macedo Soares►Abgar Renault►Dom Lucas Moreira Neves►Alfredo Bosi
13) Visconde de Taunay Francisco de Castro►Martins Júnior►Sousa Bandeira►Hélio Lobo►Augusto Meyer►Francisco de Assis Barbosa►Sérgio Paulo Rouanet
14) Clóvis Beviláqua Carneiro Leão►Fernando de Azevedo►Miguel Reale►Celso Lafer
15) Olavo Bilac Amadeu Amaral►Guilherme de Almeida►Odilo Costa Filho►Dom Marcos Barbosa►Fernando Bastos de Ávila
16) Araripe Júnior Félix Pacheco►Pedro Calmon►Lygia Fagundes Telles
17) Sílvio Romero Osório Duque-Estrada►Roquette-Pinto►Álvaro Lins►Antônio Houaiss►Affonso Arinos de Mello Franco
18) José Veríssimo Barão Homem de Melo►Alberto Faria►Luís Carlos►Pereira da Silva►Peregrino Júnior►Arnaldo Niskier
19) Alcindo Guanabara Dom Silvério Gomes Pimenta►Gustavo Barroso►Silva Melo►Américo Jacobina Lacombe►Marcos Almir Madeira►Antonio Carlos Secchin
20) Salvador de Mendonça Emílio de Meneses►Humberto de Campos►Múcio Leão►Aurélio de Lira Tavares►Murilo Melo Filho
21) José do Patrocínio Mário de Alencar►Olegário Mariano►Álvaro Moreira►Adonias Filho►Dias Gomes►Roberto Campos►Paulo Coelho
22) Medeiros e Albuquerque Miguel Osório de Almeida►Luís Viana Filho►Ivo Pitanguy
23) Machado de Assis Lafayette Rodrigues Pereira►Alfredo Pujol►Otávio Mangabeira►Jorge Amado►Zélia Gattai►Luiz Paulo Horta
24) Garcia Redondo Luís Guimarães Filho►Manuel Bandeira►Ciro dos Anjos►Sábato Magaldi
25) Franklin Dória Artur Orlando da Silva►Ataulfo de Paiva►José Lins do Rego►Afonso Arinos de Melo Franco►Alberto Venancio Filho
26) Guimarães Passos Paulo Barreto►Constâncio Alves►Ribeiro Couto►Gilberto Amado►Mauro Mota►Marcos Vilaça
27) Joaquim Nabuco Dantas Barreto►Gregório da Fonseca►Levi Carneiro►Otávio de Faria►Eduardo Portella
28) Inglês de Sousa Xavier Marques►Menotti Del Picchia►Oscar Dias Correia►Domício Proença Filho
29) Artur Azevedo Vicente de Carvalho►Cláudio de Sousa►Josué Montello►José Mindlin
30) Pedro Rabelo Heráclito Graça►Antônio Austregésilo►Aurélio Buarque de Holanda Ferreira►Nélida Piñon
31) Luís Guimarães Júnior João Ribeiro►Paulo Setúbal►Cassiano Ricardo►José Cândido de Carvalho►Geraldo França de Lima►Moacyr Scliar
32) Carlos de Laet Ramiz Galvão►Viriato Correia►Joracy Camargo►Genolino Amado►Ariano Suassuna
33) Domício da Gama Fernando Magalhães►Luís Edmundo►Afrânio Coutinho►Evanildo Cavalcante Bechara
34) Pereira da Silva Barão do Rio Branco►Lauro Müller►Dom Aquino Correia►Magalhães Júnior►João Ubaldo Ribeiro
35) Rodrigo Otávio Rodrigo Otávio Filho►José Honório Rodrigues►Celso Cunha►Cândido Mendes
36) Afonso Celso Clementino Fraga►Paulo Carneiro►José Guilherme Merquior►João de Scantimburgo
37) Silva Ramos Alcântara Machado►Getúlio Vargas►Assis Chateaubriand►João Cabral de Melo Neto►Ivan Junqueira
38) Graça Aranha Santos Dumont►Celso Vieira►Maurício Campos de Medeiros►José Américo de Almeida►José Sarney
39) Oliveira Lima Alberto de Faria►Rocha Pombo►Rodolfo Garcia►Elmano Cardim►Otto Lara Resende►Roberto Marinho►Marco Maciel
40) Eduardo Prado Afonso Arinos►Miguel Couto►Alceu Amoroso Lima►Evaristo de Moraes Filho

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

INCURSÃO NA GRAMÁTICA

De início já informo que este não é o meu forte. Se é que possuo algum...
Entretanto, tendo ouvido tanta barbaridade relacionada ao uso do infinitivo, na linguagem escrita ou falada, vinda de todos os setores – personalidades da mídia, políticos (estes, os mais freqüentes, mas quem estranha?) e outros – que resolvi fazer uma pequena incursão na gramática para aprender um pouco daquilo que apenas intuitivamente utilizei até hoje. Para descanso dos leitores, informo que na matéria não há qualquer invenção minha. O meu trabalho foi apenas coletar informação de algumas referências “de notório saber” e organizá-las, de forma a tornar mais simples e fácil a leitura e o seu entendimento.
No texto que segue, coloquei em fonte azul as explicações que, embora não se refiram explicitamente ao uso do infinitivo propriamente dito, creio serem necessárias para o bom entendimento da matéria como um todo. Os exemplos do uso do infinitivo, corretos ou não, foram colocados em vermelho para que sobre eles não reste qualquer dúvida. Feitas as preliminares, vamos ao que interessa ...


Inicialmente devo dizer que a escolha da forma infinitiva depende se desejamos cogitar somente da ação ou se desejamos pôr em evidência o agente da ação: no primeiro caso, damos preferência ao infinitivo não flexionado; no segundo, ao flexionado.

As flexões dos verbos são as variações que eles apresentam para indicar número, pessoa, modo, tempo e voz. Portanto, quando se fala em infinitivo não flexionado, se está querendo dizer apenas o uso do verbo no infinitivo impessoal.

Isto quer dizer que, muitas vezes, a opção entre a forma flexionada ou não flexionada é estilística e não gramatical. Quando o que mais importa é a ação, prefere-se a forma não flexionada; quando se quer dar realce ao agente da ação, usa-se a forma flexionada. Entretanto, em determinadas situações, há proibição ou obrigatoriedade de determinada construção.


Assim, é obrigatório o uso do infinitivo impessoal nas locuções verbais, e nelas não é lícito flexionar o infinitivo. Exs.:
a) "Os magistrados não podem fazer sozinhos o trabalho de administrar a justiça" (correto);
b) "Os magistrados não podem fazerem sozinhos o trabalho de administrar a justiça" (errado).

A locução verbal é uma construção formada por um verbo auxiliar (conjugado) + verbo principal (no infinitivo, gerúndio ou particípio). A locução constitui um todo, os verbos auxiliares apenas indicam as flexões.

Exemplo: Estava indo; Começaram a falar.

Entre as locuções verbais incluem-se os tempos compostos, formados pelos verbos auxiliares ter ou haver, seguidos do particípio do verbo que se quer conjugar.


É erro muito comum a utilização do infinitivo flexionado nesses casos, sobretudo quando, entre o verbo auxiliar e o verbo principal, existem outras palavras. Exs.:
a) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazerem o trabalho de administrar a justiça" (errado);
b) "Os magistrados não podem, sozinhos, sem a participação de todos os segmentos envolvidos, fazer o trabalho de administrar a justiça" (correto).


A esse respeito, Cândido de Figueiredo lembra o seguinte exemplo, encontrado em livro moderno, premiado oficialmente: "Podem entretanto esses serviços serem estabelecidos..."; e complementa: "Podem serem... não é linguagem de cá". Nem de cá, nem de lá, nem de lugar algum.


Em geral, quando os verbos componentes da locução estão próximos e o auxiliar é normalmente flexionado, é menos comum o equívoco de flexão, sendo, assim, incomum um erro como "As certidões deverão acompanharem o traslado da escritura".
Todavia, quando os verbos da locução se distanciam, a possibilidade de erro se acentua bastante, como ocorre no seguinte emprego equivocado: "As certidões deverão, sob pena de invalidade do ato e impedimento para o registro, acompanharem o traslado da escritura" (corrija-se para: deverão... acompanhar).

A possibilidade de erro aumenta quando, na locução verbal, o auxiliar se apresenta em forma invariável (como um gerúndio, por exemplo). Nesse campo, aliás, até dispositivos de lei acabam resvalando para o abismo dos equívocos, como se vê no seguinte caso: "O tabelião fica desobrigado de manter, em cartório, o original ou cópias autenticadas das certidões mencionadas nos incisos III e IV, do art. 1°, desde que transcreva na escritura pública os elementos necessários à sua identificação, devendo, neste caso, as certidões acompanharem (o correto seria acompanhar) o traslado da escritura" (art. 2° do Decreto 93.240, de 9.11.86, que regulamentou a Lei 7.433, de 18.12.85, que dispôs sobre os requisitos para lavratura de escrituras públicas). Um simples exercício de junção dos termos da locução verbal revela a necessidade de correção: ...devendo acompanhar... as certidões o traslado da escritura.


Também se emprega o infinitivo impessoal, se o sujeito do infinitivo é pronome oblíquo átono. Ex.: "Deixei-os sair".

Os pronomes pessoais oblíquos são aqueles que, na sentença, exercem a função de complemento verbal, ou seja, objeto direto ou objeto indireto. Na verdade, o pronome oblíquo é uma forma variante do pronome pessoal do caso reto. Essa variação na forma do pronome indica tão somente a função diversa que eles desempenham na oração: o pronome reto marca o sujeito da oração; o pronome oblíquo marca o complemento verbal da oração. Os pronomes oblíquos sofrem variação de acordo com a acentuação tônica que possuem. Dessa forma eles podem ser átonos ou tônicos.

Pronomes oblíquos átonos são aqueles cuja acentuação tônica é fraca. Os pronomes oblíquos átonos apresentam flexão de número, gênero e pessoa (apenas na terceira pessoa), sendo essa última a principal flexão porque marca a pessoa do discurso. Dessa forma, o quadro dos pronomes oblíquos átonos é assim configurado:
- 1ª pessoa do singular (eu):me
- 2ª pessoa do singular (tu):te
- 3ª pessoa do singular (ele, ela): o, a, lhe
- 1ª pessoa do plural (nós):nos
- 2ª pessoa do plural (vós):vos
- 3ª pessoa do plural (eles, elas): os, as, lhes
O lhe é o único pronome oblíquo átono que já se apresenta na forma contraída, ou seja, houve a união entre o pronome o ou a e preposição a ou para. Por acompanhar diretamente uma preposição, o pronome lhe exerce sempre a função de objeto indireto na oração. Os demais pronomes átonos em geral funcionam como objeto direto.

Pronomes oblíquos tônicos são aqueles cuja acentuação tônica é forte. O quadro dos pronomes oblíquos tônicos é assim configurado:
- 1ª pessoa do singular (eu): mim, comigo
- 2ª pessoa do singular (tu): ti, contigo
- 3ª pessoa do singular (ele, ela): ele, ela
- 1ª pessoa do plural (nós): nós, conosco
- 2ª pessoa do plural (vós): vós, convosco
- 3ª pessoa do plural (eles, elas): eles, elas


Aplica-se também o infinitivo impessoal, se o infinitivo não se refere a sujeito específico. Ex.: "Navegar é preciso".


Por fim, usa-se o infinitivo impessoal, se tal infinitivo funciona como complemento de adjetivo. Ex.: "Ordens difíceis de obedecer".

Já o infinitivo pessoal é usado, se o infinitivo tem sujeito diferente do sujeito da outra oração. Ex.: "O magistrado repreendeu os patronos, por não procederem com urbanidade na audiência".


Também se emprega o infinitivo pessoal como recurso para indeterminar o sujeito. Ex.: "Ouvi falarem inverdades por aí".


Silveira Bueno resume algumas regras para o uso do infinitivo, quer pessoal, quer impessoal.
I) "Quando na frase o verbo principal e o verbo infinito tiverem o mesmo sujeito, o infinitivo deve ser impessoal". Ex.: "Queremos ser felizes".

II) "Quando os dois verbos possuem sujeitos diferentes, usa-se o modo pessoal". Ex.: "Napoleão viu caírem as armas das mãos de seus soldados".


III) Neste último caso, porém, "quando a frase do infinito serve de objeto direto ao verbo principal, podemos empregar o infinito impessoal ainda que ambos tenham sujeitos diferentes", opção essa que fica à escolha do usuário. Ex.: "Napoleão viu cair as armas das mãos de seus soldados".


Finalmente, para comprovar a complexidade da matéria, Artur de Almeida Torres ensina que "o infinitivo poderá variar ou não, a critério da eufonia, se vier precedido das preposições sem, de, a, para ou em". Exs.:


a) "Vamos com ele, sem nos apartar um ponto" (Padre Antônio Vieira);


b) "... os levavam à pia batismal sem crerem no batismo" (Alexandre Herculano);

c) "Careciam de obstar a que se escrevesse o que faltava do livro" (Alexandre Herculano);


d) "Os manuscritos de Silvestre careciam de serem adulterados" (Camilo Castelo Branco);


e) "Obrigá-los a voltar o rosto contra os árabes" (Alexandre Herculano);


f) "... obrigava a trabalharem gratuitamente" (Alexandre Herculano);


g) "... fanatizados que aparecem sempre para justificar o bom quilate da novidade" (Camilo Castelo Branco);


h) "... tantos que nasceram para viverem uma vida toda material" (Alexandre Herculano).


Desta feita era isso. Espero que tenham se divertido e que esse material tenha alguma finalidade para vocês. Se ele ajudar a diminuir as atrocidades que se cometem todos os dias contra a língua mãe, eu estarei mais um pouco realizado.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

VISITA AO PASSADO

Pois vinha eu voltando - com minha esposa e o Nelson Jr. -, de uma de nossas viagens de Porto Alegre a Florianópolis, via Gramado, evitando a “Rota do Sol”, que em pouquíssimo tempo transformou-se numa verdadeira “Rota do Inferno”, devido ao péssimo estado de conservação em que se encontra quando, propositalmente evitando o pedágio da “Free-Way” (BR-290), como uma espécie de vingança, desemboco na estrada RS-030, antiga estrada que utilizávamos para fazer o caminho de Porto Alegre para as praias gaúchas, em nossos tempos de criança.
Essa estrada, hoje obsoleta em termos de aproveitamento da população como caminho às praias do norte do Rio Grande do Sul, sai de Porto Alegre, em direção ao norte, passa por Gravataí, Santo Antônio da Patrulha e Osório, quando inflete para o leste em direção a Tramandaí, uma das cidades balneárias mais concorridas em meus tempos de guri. Nosso curto passeio por parte dessa estrada, apenas utilizando o trecho de Santo Antônio até Osório, onde depois a abandonamos para encontrar a nova RS-389 (também chamada Estrada do Mar) e por ela prosseguir até Torres, trouxe-nos rapidamente à memória uma pequena fração de tempos que há muito já ficaram para trás. E porque um de nossos filhos estava conosco, minha esposa e eu resolvemos realmente transformar o curto espaço de tempo em que transitamos por essa estrada, numa pequena viagem ao passado, a ele contando fatos ocorridos naquela época e mesmo parando numa daquelas bancas tão conhecidas que ainda a margeiam, para comprar algumas especiarias da região.
É muito curioso como a memória retém com tanta clareza, alguns fatos ocorridos no passado. Com certeza absoluta eu não tinha mais de dezessete anos quando fui pela última vez a alguma de nossas praias por aquela estrada antiga; entretanto lembro-me perfeitamente daquele percurso e das peripécias que nele ocorriam, como se fosse ontem. Era - e é -, uma estrada simples com uma pista estreita de ida e outra de volta, que muito mal permitia qualquer ultrapassagem, principalmente devido ao tráfego intenso e pela grande quantidade de caminhões pesados que nela trafegavam. Durante os meses de verão o tráfego era, em geral, muito intenso, particularmente nos fins de semana quando os veranistas das praias mais próximas viajavam às sextas-feiras para a orla marítima e aos domingos à noite ou às segundas-feiras pela manhã para Porto Alegre. Nessas ocasiões a estrada se transformava numa fila ininterrupta, e muitas vezes estática, de automóveis e caminhões, onde a ultrapassagem era absolutamente impossível. Nessas condições, era também impossível prever o tempo necessário para realizar, por exemplo, o percurso entre Porto Alegre e Tramandaí.
Entretanto, apesar da precariedade da viagem, como em quase tudo que acontece quando se tem aquela idade, tanto a ida como a volta se transformavam sempre numa enorme farra, com muita alegria. O assunto começava com a forma então definida para realizar o controle de velocidade dos automóveis que trafegavam no percurso. A bem da verdade, naquele tempo, com os modelos de carro existentes e suas idades, em geral, nem seria muito necessário um controle de velocidade. Mas ela era realizada e muito eficientemente. Existiam, ao longo de toda a estrada, alguns “postos de controle” onde era entregue ao motorista um cartão oficial onde era registrada a hora da passagem no posto bem como a hora (mínima) da chegada no posto seguinte, calculada com base na distância conhecida entre os dois postos e a velocidade máxima permitida de 80 km/h. Se o motorista chegava antes da hora determinada, a multa pegava. A máxima burla que o motorista conseguia, era correr mais do que o limite entre os postos e depois parar algum tempo para deixar o tempo passar; convenhamos que não era uma grande vantagem, mesmo que o guarda rodoviário não desse o flagrante no motorista parado e fosse lhe pedir explicações. O processo se repetia entre os pares de postos até o destino final de cada família.
Um pouco além da metade do caminho, havia a paragem obrigatória na pequena cidade de Santo Antônio da Patrulha, para o sonho com café ou refrigerante. Ah! Aquele sonho era inesquecível e esperado como um dos grandes acontecimentos da temporadas das praias.Ele era praticamente oco, com muito acúcar e canela por fora e tinha um sabor inigualável. Até hoje sinto o gostinho daqueles sonhos na boca. Logo após Santo Antônio existia uma grande fábrica de açúcar conhecida como AGASA (acho que era Associação Gaúcha de Açúcar S/A), pois a região era conhecida como produtora de cana de açúcar e todos os seus derivados como o caldo de cana, rapadura, melado, cachaça etc.além do acúcar, primeiro produto (naquele tempo não se falava em álcool como combustível de automóveis).
E se a viagem já era boa sem a namorada, imaginem em sua companhia! Eu veraneava em Tramandaí e ela em Arroio Teixeira, distando uma meia hora além de Capão da Canoa. Naquele tempo não eram todas as praias que tinham acesso direto por estrada. Por exemplo, Tramandaí, Capão e Torres, eu me lembro que tinham, mas não me lembro de outras que tivessem. As praias que não tinham acesso direto eram atingidas através de uma praia mais importante, às vezes num bom trecho, pela beira da praia. É isso mesmo, a estrada era a areia da praia e é muito fácil de perceber que se o tempo estivesse ruim ou houvesse uma ressacada ou vento desfavorável, essa viagem se tornava inviável: perdia-se um carro na areia do mar em coisa de uma hora se ele chegasse a parar na beira da praia. Para se chegar a Arroio Teixeira, ia-se por estrada até Capão da Canoa e daí pela beira da praia por meia hora ou pouco mais. As famílias iam sempre com os carros abarrotados, pois os recursos eram mais escassos e caros nas cidades litorâneas e, em geral, elas passavam a temporada de verão (época dos três maravilhosos meses de férias) na praia. Meu futuro sogro tinha sempre a sua casa de praia cheia nessa época e eu era, indiscutivelmente, um dos "perús" mais assíduos. Nessas ocasiões, ele usava um Jeep que rebocava um pequeno carrinho com todo a carga e não foram poucas as oportunidades em que fizemos aquele percurso de três horas e mais de viagem chacoalhando dentro daquele arremedo de carro.  Mas como era divertido! E como era muito mais fácil encontrar diversão naquela época!

Quando iniciei essa crônica, era bem outro o meu objetivo principal. Entretanto uma visita ao passado deixa sempre essa possibilidade ao alcance. A gente entra e não quer sair mais por força das lembranças que são tantas e tão vivas. Foi muito boa essa rápida visita ao nosso passado. O assunto principal terá que esperar pela próxima crônica.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

UM POUCO DE GEORGE ORWELL


Tomei conhecimento do nome de George Orwell e li o seu livro (provavelmente) mais importante, “Nineteen Eighty-Four” (“1984”, em português), no final da década de ’50 ou início da década seguinte. Com certeza, à época, eu era muito novo e pouco experiente para plenamente entender e tirar da obra o que de melhor ela poderia fornecer em meu próprio proveito. Mas fiquei fascinado pelo autor e sua maneira clara e sucinta de expor suas idéias mais complexas. Logo em seguida tive oportunidade de ler outra de suas obras, intitulada “Burmese Days” (no Brasil publicada sob o título “Dias na Birmânia”). Após isso, só depois de vários anos voltei a ler George Orwell, na figura de sua novela “Animal Farm” (em língua portuguesa, “A Revolução dos Bichos”). Curiosamente, então conhecedor da fama de “1984”, foi a obra desse autor que mais me impressionou, pois plenamente mostrava, em uma linguagem simples, objetiva e, propositalmente, ingênua, a sua característica mais reconhecida e palpável ao longo de sua curta vida: a sua completa aversão ao totalitarismo, de qualquer espécie.
Eric Arthur Blair, em geral apenas conhecido por seu “nome de pena”, George Orwell, foi um escritor inglês, nascido na Índia Britânica em 1903 e falecido em Londres, vitimado pela tuberculose, em 1950, com a idade de 46 anos. Durante a maior parte de sua carreira, Orwell foi melhor conhecido por seu jornalismo, através de ensaios, revisões, colunas em jornais e revistas e em seus livros de reportagem, deles sobressaindo-se “Homage to Catalonia” (em português, “Homenagem à Cataluña”), de 1938; este, um relato pessoal de Orwell sobre suas próprias experiências e observações durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936 e encerrada em 1939 com a ascensão de Francisco Franco ao poder.
Entretanto, os leitores modernos são mais frequentemente introduzidos a Orwell como um novelista, particularmente através de seus já mencionados títulos de enorme sucesso “A Revolução dos Bichos” e “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”. O primeiro deles frequentemente imaginado como a refletir os desenvolvimentos na União Soviética após a Revolução Russa; o último, retratando a vida sob a regra totalitária; ambos considerados poderosas novelas distópicas, advertindo sobre um mundo futuro em que o estado exerce completo e temível controle. Sobre “1984”, uma curiosidade: originalmente intitulada “Last Man in Europe” (O Último Homem na Europa), a obra foi renomeada “Nineteen Eighty-Four” por razões desconhecidas, possivelmente uma mera reversão dos dois últimos dígitos do ano em que ela foi escrita.
George Orwell foi um escritor, sobretudo, muito coerente. Quando a Guerra Civil Espanhola explodiu em 1936, Orwell e sua esposa decidiram lutar pelos Republicanos do governo espanhol contra os Nacionalistas de Franco, então em ascensão; enquanto no “front” em Huesca, Aragon, Orwell foi atingido na garganta por atirador de elite fascista; em Barcelona, ele juntou-se ao anti-Stalinista Trotskysta “Partido Trabalhista de Unificação Marxista” (“Partido Obrero de Unificacíon Marxista”) espanhol – POUM. Quando os comunistas ganharam o controle parcial e tentaram “purgar” o POUM, muitos dos amigos de Orwell foram presos, assassinados ou desapareceram; ele e sua esposa com muito esforço conseguiram escapar vivos em 1937. Sua “Homenagem à Cataluña”, autobiográfica, foi escrita na primeira pessoa, alguns poucos meses após os eventos.
Para os que não estão familiarizados com o estilo do autor inglês, relacionamos abaixo, para o deleite dos leitores do nosso “blog”, algumas de suas citações mais importantes, coletadas de site (http://www.george-orwell.org/l_quotes.html) da Internet, porque, realmente, valem à pena.
· "Os homens somente podem ser felizes quando não partem do princípio de que o objetivo da vida é a felicidade."
· "Se a liberdade possui, de fato, algum significado, ela significa o direito de dizer às pessoas aquilo que elas não desejam ouvir."
· "Enxergar o que está em frente ao nariz de alguém, necessita um enorme esforço contínuo."
· "Muitas pessoas, verdadeiramente, não desejam ser santos. E é possível que, alguns que alcançam ou aspiram à santidade, nunca tenham tido muita tentação a ser seres humanos."
· "O Pacifismo é, objetivamente, pró-fascista. Isso é senso comum elementar. Se você obstrui o esforço de guerra de um lado, você automaticamente apóia o esforço do lado contrário. Não há uma forma real de permanecer fora de uma guerra como a atual. Na prática, “aquele que não está comigo, está contra mim.”
· "O esporte sério não tem nada a ver com o “fair play”. Tem uma ligação estreita com ódio, ciúme, ostentação, desprezo por todas as regras e prazer sádico em testemunhar violência. Em outras palavras: é guerra, a exceção do tiroteio."
· "Falar a verdade em tempos de velhacaria universal é um ato revolucionário."
· "O grande inimigo da linguagem clara é a insinceridade."
· "Para um escritor criativo, a posse da verdade é menos importante do que a sinceridade emocional."
· "Cada geração imagina a si própria como mais inteligente do que aquela que passou antes dela e mais sábia do que a que vem após ela."
· "Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros."
· "A mais rápida maneira de terminar uma guerra é perdê-la."
· "Deve-se acreditar numa autobiografia somente quando ela revela alguma desgraça. Um homem que só dá conta de boas coisas de si mesmo está provavelmente mentindo, uma vez que qualquer vida, quando vista de dentro, é simplesmente uma série de fracassos."
· "A linguagem política – e com variações essa é a verdade de todos os partidos políticos - é projetada para fazer mentiras soarem confiáveis e assassinato respeitável e para dar uma aparência de solidez ao puro vento."
· "Os Santos deveriam ser sempre julgados culpados até que provados inocentes."
· "Com a idade de 50 anos, cada homem tem a face que merece."
· "Em geral, os seres humanos querem ser bons, mas não muito bons e nem todo o tempo."
· "A propaganda é o barulho de um bastão dentro de um balde de lavagem."
· "Liberal: um adorador do poder sem poder."
· "Aquele que controla o passado, controla o futuro. Aquele que controla o presente, controla o passado."
· "Dormimos seguros em nossas camas porque homens rudes permanecem prontos na noite para infligir a violência àqueles que nos fariam mal."
· "O poder não é um meio, é um fim. Uma pessoa não estabelece uma ditadura a fim de salvaguardar uma revolução; uma pessoa faz a revolução a fim de estabelecer a ditadura. O objeto da opressão é a opressão. O objeto da tortura é a tortura. O objeto do poder é o poder."
· "A guerra é uma maneira de quebrar em pedaços, ou despejar na estratosfera, ou afundar nas profundezas do oceano, materiais que poderiam, se não fosse assim, ser usados para fazer as massas mais confortáveis e, por conseqüência, a longo prazo, mais inteligentes."
Como encerramento deste artigo, para nossa meditação, gostaria de deixar uma frase escrita no primeiro capítulo da obra de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”, evidentemente dita por um dos líderes de seus personagens animais:


“O Homem é o único inimigo real que temos. Remova o Homem da cena e a causa maior da fome e do trabalho excessivo será abolida para sempre. O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Ele não produz leite, não põe ovos, é muito fraco para puxar o arado, não corre suficientemente rápido para caçar coelhos. Entretanto ele é o senhor de todos os animais. Ele os põe a trabalhar, retorna-lhes o mínimo suficiente para evitar-lhes a inanição e todo o resto mantém para si próprio.”