Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A GUERRA DA CRIMEIA - INÍCIO DA PRIMEIRA GRANDE GUERRA? (PRIMEIRA PARTE)



INTRODUÇÃO


Entre outros, estou lendo no momento, um livro que adquiri em novembro de 2010, quando em visita à minha filha “australiana”, para o nascimento do seu quarto filhote, o Alec. O livro chama-se “The Greatest Lies in History” (As maiores Mentiras da História, em português) e foi escrito pelo escritor australiano Alexander Canduci. O nome do livro é, por si só, bastante ilustrativo, com o autor desmistificando o que, segundo ele, seriam as maiores mentiras consagradas pela história. Eu lia sobre as origens da Primeira Guerra Mundial e, sem entrar no mérito do que escreve o autor sobre tal fato, deparei-me com a chamada “Guerra da Crimeia”, sobre a qual já tinha ouvido falar, mas da qual não conhecia detalhe algum. Atiçada a minha curiosidade sobre a relação desta guerra com a Primeira Grande Guerra, fui realizar uma pequena pesquisa sobre assunto e os resultados obtidos estão colocados nesta minha postagem, que remeto aos meus poucos leitores, esperando que a usufruam, da mesma forma que apreciei adquirir os novos conhecimentos.
Aprendi, há muito tempo atrás que, em sua grande maioria, os meus professores de história foram maus professores, por se fixarem em detalhes sem importância para o entendimento da matéria, ao invés de se fixarem no que realmente importa para o completo entendimento da História, como causas, consequências e inter-relações dos grandes eventos que a formaram. Datas, formadas por dia, mês e ano, com poucas exceções, são pouco importantes ao conhecimento e entendimento da História, ao passo que os motivos, resultados e relações entre os grandes eventos históricos é que são imprescindíveis para tanto. Para não incorrermos nos mesmos erros desses professores, não vamos apresentar aqui minuciosos detalhes sobre o assunto, mas apenas dar ênfase àquilo que julgamos importante para o entendimento, neste caso, da importância que a Guerra da Crimeia possa ter tido para a eclosão da Primeira Grande Guerra, iniciada cerca de 60 anos depois. 
Essa é a primeira das duas partes que constituem a publicação.


VISÃO GERAL


Mapa moderno da Europa Oriental
A Guerra da Crimeia, travada entre outubro de 1853 e fevereiro de 1856, foi um conflito entre o Império Russo e uma aliança do Império Francês, Império Britânico, Império Otomano e o Reino da Sardenha.
Como essa batalha foi travada numa época em que os países conflitantes possuíam denominações diversas das que possuem modernamente, daremos uma brevíssima explicação sobre a nomenclatura vigente na ocasião.
O Império Russo foi um estado que existiu entre 1721 e a Revolução
Russa de 1917 (Revolução Bolchevista ou Bolchevique).
Império Russo em 1853
Ele sucedeu ao Czarismo Russo e foi antecessor da República Russa
de curta duração, sucedida, por sua vez, pela União Soviética. Um dos maiores impérios da história mundial, o Império Russo foi somente ultrapassado, em volume de terra, pelos Impérios Britânico e Mongol. No início do século XIX, o Império Russo se estendia do Oceano Ártico, no norte, ao Mar Negro, no sul, do Mar Báltico, no oeste, ao Oceano Pacífico e à América do Norte, no leste.
Tzar Nicholas I
Com 125,6 milhões de súditos registrados pelo censo de 1897, possuía a terceira maior população do mundo à época, após a China da Dinastia Quing e o Império Britânico.Como todos os impérios, apresentava uma grande disparidade em termos econômicos, etnicidade e religião. Seu governo, exercido por um Imperador, era uma monarquia absoluta, até a Revolução de 1905, após a qual tornou-se uma monarquia constitucional. Entretanto, o Imperador permaneceu empunhando considerável poder durante o novo regime político até cessão final do império durante a Revolução Bolchevista de fevereiro de 1917.
Imperador Napoleão III
O Segundo Império Francês foi o regime Imperial Bonapartista de Napoleão III, que vigorou entre 1852 e 1870, entre a Segunda e a Terceira República, na França, após a gloriosa Revolução Francesa de 1789, que pretendeu acabar com a monarquia francesa, passou por um Império, por uma república e acabou com a volta do império. O fim do Segundo Império da França aconteceu com a derrota da França para a Prússia em guerra declarada em 15 de julho de 1870; após uma série de derrotas, que culminaram com a Batalha de Sedan, os remanescentes do exército francês e o próprio Napoleão III renderam-se aos prussianos em 1º de setembro do mesmo ano. A Assembleia Nacional foi invadida por uma multidão em 4 de setembro, deputados parisienses formaram um novo governo e o deputado republicano Léon Gambetta oficialmente declarou a queda do Império e o estabelecimento da Terceira República.
Rainha Victoria e Príncipe Albert

Entre 1815 e 1914, um período referido por alguns historiadores como o “Século do Império Britânico, em torno de 26 milhões de quilômetros quadrados de território e grosseiramente 400 milhões de pessoas foram adicionadas ao Segundo Império Britânico. A vitória sobre Napoleão deixou a Grã Bretanha sem qualquer sério rival internacional além da Rússia. Imbatível no mar, a Grã Bretanha adotou o papel de polícia global, um estado de relações posteriormente conhecido como “Pax Britannica” e uma política externa de esplêndido isolamento. O poder do Império Britânico foi sustentado pela invenção do navio a vapor e do telégrafo, modernas tecnologias introduzidas na segunda metade do século XIX, que lhe permitiram controlar e defender o Império.

Sultão Abdülmecid I
O Império Otomano, também historicamente referido como Império Turco ou Turquia, foi um estado fundado por tribos turcas sob Osman Bey, no noroeste da Anatólia, em 1299. Com a conquista de Constantinopla (atual Istambul) por Mehmed II em 1453, o estado Otomano tornou-se um Império, que atingiu o seu clímax em 1590, cobrindo parte da Ásia, Europa e África. O reino da longa dinastia Otomana durou 623 anos, de 27 de julho de 1299 a 1º de novembro de 1922, quando foi abolida a monarquia na Turquia.
O Reino da Sardenha, também conhecido como Piedemonte-Sardenha ou Sardenha-Piedemonte, consistia das possessões da Casa de Savoy de 1720 ou 1723 em diante, como consequência da cessão da coroa da Sardenha ao rei Victor Amadeus II de Savoy, pelo Tratado de Haia (1720).
Rei Victor Emmanuel II
Tal cessão serviu-lhe como compensação da coroa da Sicília para a Áustria e permitiu-lhe reter o título de rei, já que o título de Rei da Sardenha tinha existido desde o século XIV. Além da Sardenha, o Estado de Savoy, à época, incluía Savoy, Piedemonte e Nice; Liguria, incluindo Genoa, foi adicionada pelo Congresso de Viena, em 1815. Durante a maior parte dos séculos XVIII e XIX, a capital política e econômica do reino foi Turim, no Piedemonte, em território italiano. Em 1860, Nice e Savoy foram cedidos à França em retorno ao consentimento e assistência na unificação da Itália. Em 1861, o reino da Sardenha tornou-se o estado fundador do novo Reino da Itália, anexando todos os outros estados italianos.


A Guerra da Crimeia foi parte de uma competição de longo termo, entre as principais potências europeias, para manipular os territórios do decadente Império Otomano. A maior parte do conflito aconteceu na península da Crimeia, então pertencente ao Império Russo que, por isso, leva o seu nome, mas ocorreram campanhas menores na Anatólia ocidental, Cáucaso, Mar Báltico, Oceano Pacífico e o Mar Branco. Na Rússia essa guerra ficou também conhecida como “Guerra Oriental” e na Grã Bretanha foi também chamada de “Guerra Russa”, à época.

TENSÕES ANTES DA BATALHA: “AS QUESTÕES ORIENTAIS”


A DECISÃO DE VIENA 
Muitas guerras foram travadas pela importância de uma região e várias outras lutadas por diferenças religiosas. A Guerra da Crimeia foi o resultado dos dois fatores.
Ao final das Guerras Napoleônicas, em 1815, as Grandes Potências reuniram-se em Viena para restaurar o Sistema de Estados da Europa, um delicado equilíbrio entre as potências maiores e menores que restringisse a agressão dos poderosos e preservasse os direitos dos fracos. Elas esperavam construir uma paz permanente pela supressão de repúblicas revolucionárias e a preservação das monarquias estáveis e ordenadas. A despeito dos alvos e ambições divergentes de Rússia, Prússia, Áustria, Grã Bretanha e França, criaram um compromisso logo após os “Cem Dias de Napoleão” e a Batalha de Waterloo.
Após o Tratado de Viena as Grandes Potências desfrutaram três décadas de paz, período durante o qual as pressões industriais, políticas, econômicas, sociais e nacionalistas foram suprimidas ou reduzidas. Mas, finalmente, o “Sistema de Viena” sucumbiu. Para tanto, o problema inicial foi a fraqueza do Império Turco-Otomano e as oportunidades que criava para uma interferência no apoio às suas populações cristãs.
Como na continuação da nossa postagem falaremos de Louis-Napoleon Bonaparte, Napoleon III após o estabelecimento do Segundo Império Francês, é muito importante que eu abra aqui parênteses, para recordar a sucessão dos governantes franceses após as Guerras Napoleônicas, até a sua ascensão.
Louis XVI era o rei à época da Revolução Francesa, casado com Maria Antonieta, cujo triste fim foi a morte na guilhotina, em 1793. Seu filho, Louis Joseph Xavier François, foi a segunda criança e primeiro filho, portanto, herdeiro do trono francês - Delfin de França. Infelizmente, ele morreu de tuberculose, com a idade de sete anos, às vésperas da Revolução Francesa, sem se tornar rei. Louis Joseph foi sucedido como príncipe aspirante à coroa francesa, por seu irmão de quatro anos de idade, Louis Charles, Delfin de França, que foi aprisionado durante a Revolução, morrendo na prisão, com dez anos de idade, como Louis XVII não coroado.
Com a sua morte, seu tio e regente, irmão de Louis XVI, proclamou-se Rei Louis XVIII. Com a primeira queda de Napoleão, em 1814, e a assistência de Charles Maurice de Talleyrand, posteriormente Ministro das Relações Exteriores da França, ele ganhou o trono da França. Com o efêmero retorno de Napoleão nos “Cem Dias”, abandonou Paris para retornar após da Batalha de Waterloo. Louis XVIII foi rei da França de 1814 até a sua morte, em 1824. Quem o sucedeu foi seu irmão, com o título de Charles X.
Charles X reinou de 1824 até a revolução francesa de 1830, quando renunciou em favor de seu neto, o Conde de Chambord, ao invés de tornar-se um monarca constitucional e viajou para a Inglaterra. Contudo, o Duque d’Orléans, seu primo, a quem Charles X havia indicado como Tenente General da França, foi escolhido como “Rei dos Franceses” e reinou como Louis-Philippe.
Louis-Philippe de França serviu como o Rei “Orleanista” dos Franceses, de 1830 a 1848. Uma crise econômica em 1847 conduziu os cidadãos franceses a uma nova revolta contra o seu rei que, temendo fim idêntico ao de Louis XVI e Maria Antonieta, abdicou em favor de seu neto e fugiu para a Inglaterra, onde viveu com sua família até a sua morte em 26 de agosto de1850.
Inicialmente, a Assembleia Nacional planejou aceitar seu neto como rei. Entretanto, conduzida pela maré da opinião pública, aceitou a proclamação da Segunda República em circunstâncias controversas, na Prefeitura de Paris, em 1848.
Em eleição popular, o Príncipe Louis Napoleon Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte e seu herdeiro, foi eleito presidente. Em 1851 ele declarou-se presidente eterno. Dentro de um ano, nomeou-se Imperador Napoleon III, ressuscitando o conceito de um “Império Napoleônico” onde imperou até setembro de 1870, quando foi deposto pela Terceira República após sua derrota na Guerra Franco-Prussiana.
Quando Presidente, Louis-Napoleon Bonaparte explorou as fraquezas turcas para garantir concessões para a Igreja Católica na Palestina, esperando ganhar apoio conservador para o seu golpe de estado. Quando o Tzar Nicholas I retaliou, enviando uma missão para recuperar os direitos dos Gregos Ortodoxos, os turcos simplesmente deram lugar às duas partes, esperando que a questão desparecesse.
Assim que estabelecido o Segundo Império, Napoleon III perdeu o interesse na questão, mas Nicholas decidiu pôr em ordem o “Homem Doente da Europa” – alusão ao Império Otomano que atravessava conturbada fase econômica à época –, de uma vez por toda, através da retalhação da parte europeia da Turquia, esperando apoio da Prússia, Áustria e Grã Bretanha. Ele se enganara, pois nenhuma das duas últimas potências queria ver a Rússia controlando os Dardanellos. Vislumbrando uma abertura para um sucesso diplomático útil, a França uniu-se à Grã Bretanha em apoio à Turquia, que rejeitou os ultrajantes termos do Tzar.

CONFLITO SOBRE A AUTORIDADE NO MEDITERRÂNEO ORIENTAL 
A Rússia, como um membro da Santa Aliança, havia operado como “Polícia da Europa”, mantendo o equilíbrio de poder estabelecido no “Tratado de Viena”, em 1815, e suprimindo levantes revolucionários na Europa. Em troca por ter fornecido os exércitos necessários para manter o equilíbrio de poder e suprimir as revoluções de 1848 e 1849, a Rússia tinha erradamente suposto que a Europa lhe daria carta branca para solucionar os seus problemas com o Império Otomano – o “homem doente da Europa”. A discussão completa sobre o futuro do Império Otomano levou o nome de “Questão Oriental”, um termo que continuaria em uso, com relação ao Império Otomano, até o início do século XIX.
A cadeia imediata de eventos que conduziu à declaração de guerra da França e Grã Bretanha sobre a Rússia, em 27 e 28 de março de 1854, pode ser rastreado até o golpe de estado de 1851 na France. Napoleão III enviou seu embaixador ao Império Otomano tentando forçar os otomanos a reconhecer a França como “autoridade soberana” no que se referia à sua população cristã. A Rússia contestou esta nova alteração de autoridade. Considerando dois ou mais tratados, um de 1757 e o Tratado de Küçük Kaynarca de 1774, os otomanos reverteram sua decisão prévia, renunciando ao tratado francês e insistindo que a Rússia era o protetor dos cristãos ortodoxos no Império Otomano.
Mapa da Guerra da Crimeia: Turquia em cinza, Rússia em verde, Mar Negro

Napoleão III respondeu com uma demonstração de força, enviando o navio de guerra especial Charlemagne para o Mar Negro, numa violação à “Convenção dos Estreitos de Londres”. A demonstração de força da França, combinada com uma diplomacia agressiva e dinheiro, induziram o Sultão Abdülmecid I a aceitar um novo tratado, confirmando a França e a Igreja Católica Romana como suprema autoridade cristã com controle sobre os sagrados locais cristãos sob seu controle e a posse das chaves da Igreja da Natividade, anteriormente de posse da Igreja Ortodoxa Grega.
O Tzar Nicholas I então dispôs seus 4º e 5º Corpos de Exército ao longo do rio Danúbio e enviou seu ministro de relações exteriores, Conde Karl Nesselrode, para estabelecer conversações com os otomanos. Ao embaixador britânico em São Petersburgo, Sir George Hamilton Seymour, Nesselrode confidenciou que a disputa pelos locais sagrados havia assumido uma nova característica, tentando evitar a participação da Inglaterra ou França no conflito entre Rússia e o Império Otomano.
As negociações diplomáticas prosseguiram em todas as frentes até que Hugh Rose, encarregados dos negócios da Embaixada Inglesa em Constantinopla, descobrindo sobre os navios russos ao longo do Danúbio, ordenou que uma esquadra de navios britânicos de guerra se dirigisse ao Mediterrâneo e posteriormente para Constantinopla, decisão não amparada pelo almirante inglês no comando da esquadra, que acabou não indo. Entretanto, a esquadra francesa foi em apoio aos otomanos, cumprindo acordo prévio.

PRIMEIRAS HOSTILIDADES 
Os britânicos foram se tornando cada vez mais envolvidos no conflito, até que a Rússia, ao saber do insucesso de sua diplomacia, em julho de 1853 deslocou seus exércitos para os Principados do Danúbio controlados pelos otomanos, Moldávia e Wallachia, para as quais tinha previamente obtido dos otomanos, o reconhecimento de guardiães especiais dos Cristãos Ortodoxos residentes, usando tal fato como pretexto para a sua ocupação militar. Nicholas acreditava que a Áustria não se oporia à anexação das duas províncias, principalmente porque a Rússia a teria assistido em seus esforços para suprimir as Revoluções separatistas dos húngaros, ocorridas em 1848.
Interessada em manter o Império Otomano como um baluarte contra a expansão da Rússia na Ásia, em represália a tal ato, a Grã Bretanha enviou uma esquadra para os Dardanelos, para juntar-se a outra esquadra já enviada pela França. Conforme pode-se ver pelas figuras, os Dardanellos são um pequeno estreito a noroeste da Turquia, que conecta o Mar de Marmara ao Mar Egeu que, por sua vez, encontra o Mar Mediterrâneo e que, junto com o Estreito de Bósforo, separa a Europa do corpo principal de Ásia. Estratégicos acidentes militares, pois, em resumo, os Dardanelos e o Bósforo juntos conectam o Mar Negro ao Mar Vermelho.
Numa última tentativa diplomática, Grã Bretanha, França, Áustria e Prússia, num encontro em Viena, prepararam um documento a ser aceito por Russos e Otomanos. A Rússia o aceitou, mas não o Império Otomano. Em vista disso, as três primeiras potências se uniram na elaboração de novas sugestões, ignoradas na corte de São Petersburgo, razão pela qual a Grã Bretanha e a França abandonaram as negociações, condenadas por Áustria e Prússia que preferiam manter o assunto na área diplomática.
Entrementes, o Sultão formalmente declarou guerra em 23 de outubro de 1853 e iniciou o ataque movendo seus exércitos sobre o exército Russo, próximo do Danúbio, ao final do mesmo mês. As escaramuças iniciaram com ambas as forças concentradas em duas frentes principais: Cáucaso e Danúbio, onde prevaleceram as forças otomanas sob o comando de Omar Pasha. Para compensar as perdas terrestres, a Rússia enviou poderosa esquadra que, na Batalha de Sinope, destruiu importante frota otomana ainda ancorada naquele porto. Para Grã Bretanha e França tal foi considerado Ato de Guerra para declaração contra a Rússia, o que se concretizaria formalmente em 28 de março de 1854 quando esta ignorou um ultimato dessas nações para que ela se retirasse dos Principados do Danúbio.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

ORIGEM DO NOME DA FAMÍLIA AZAMBUJA


INTRODUÇÃO

Já há muito tempo venho tentando, como amador, naturalmente, montar a árvore genealógica da família Azambuja, sobrenome do meu pai, Carlos Ferreira de Azambuja. Tal tarefa tem, muitas vezes, sido provado muito difícil, quando não impossível, mesmo para profissionais da área. Logo constatei tal fato pessoalmente: muitas vezes as fontes são duvidosas, há muitos erros de transcrição, pessoas muitas vezes adotam o sobrenome sem possuir qualquer laço de consanguinidade com a família – era fato comum, antigamente, até mesmo escravos libertos, em reconhecimento a antigos patrões, adotarem oficialmente o seu sobrenome, assim criando personagens que nada tinham a ver com a família -, determinadas gerações não produzem varões que mantenham o sobrenome de interesse, outros simplesmente declinam do seu sobrenome paterno para adotar o sobrenome da mãe. Enfim, trata-se de empreitada complexa, cuidadosa e, sobretudo, longa, sem qualquer garantia de sucesso. Por essa razão, antes que as dificuldades me tentassem à renúncia do meu objetivo, decidi publicar esta pequena postagem em que apresento as origens do nome “Azambuja” bem com alguns fatos a ele relativos deixando, talvez, para as calendas gregas, não o prosseguimento da minha pesquisa maior, mas possivelmente a sua conclusão.

ORIGEM DO NOME E DESCENDÊNCIA

Parte da Espanha e Portugal na Península Ibérica
A origem da Família Azambuja remonta ao século XII, em Portugal. Em realidade, nessa época, Portugal não era ainda o país tal como o conhecemos hoje, mas apenas um “ex-Condado Portucalense”. Foi no início desse século que o reino de Portugal conseguiu a sua independência em relação ao Reino de Leon (um dos reinos da península Ibérica) e seu primeiro monarca, Dom Afonso Henrique (Afonso I), foi proclamado rei em 1139, de acordo com artigo que já publiquei em fevereiro de 2010, neste mesmo “blog”, sob o título “Breve Histórico das Origens de Portugal”, em três partes.
O sobrenome português “Azambuja” (etimologicamente significando “oliveira brava”, de origem árabe - azzabuja) tem origem local, constituindo-se num daqueles sobrenomes derivados do nome do lugar onde um homem uma vez viveu ou possuiu terras. Neste caso, este sobrenome vem do Município e da Vila de Azambuja, que é a sede do município, com uma população atual de 6.900 habitantes, pertencentes ao Distrito de Lisboa, Portugal.
Lisboa, na foz do Tejo e Azambuja, no centro do mapa
 O Município português de Azambuja é composto por nove freguesias: Alcoentre, Aveiras de Baixo, Aveiras de Cima, Azambuja, Maçussa, Manique do Intendente, Vale do Paraíso, Vila Nova da Rainha e Vila Nova de São Pedro, cujas localizações podem ser vistas no mapa. Em termos demográficos, a população do município era, em 1991, de 19.600 residentes para uma área geográfica de 262 km2; e a variação da população residente, entre 1960 e 1991, foi de 7%. A Vila de Azambuja é situada na bacia hidrográfica do rio Tejo, que deságua logo a jusante no Oceano Atlântico, a nordeste de Lisboa e a sudeste de Santarém.
A região de Azambuja foi conquistada pelo primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henrique, que governou do ano 1140 ao ano 1185, após árdua batalha em companhia dos Cavaleiros da Ordem de Cristo, anteriormente denominados Cavaleiros Templários, com o objetivo de expulsar os Árabes, na época Mouros, dessa região, já que ocuparam por séculos toda a Península Ibérica. Como recompensa, essa região foi doada ao nobre cruzado-cavaleiro D. Childe Rolim, que tornou-se seu primeiro senhor, sem lhe adotar o nome (Senhor de Azambuja). Sua filha Maria Rolim, casada com Gonzalo Fernandes de Tavares, batizou seu primeiro filho como Fernão Gonçalves de Azambuja, sendo este o primeiro descendente a levar o sobrenome Azambuja.
Nove freguesias de Azambuja
D. Sancho I, que sucedeu no trono a seu pai, Afonso I, em 1185, concedeu-lhe a carta de foral (carta de lei que regulava a administração de uma cidade) e mandou repovoá-la em 1200. Muitos anos mais tarde, em 1513, D. Manuel atribuiu-lhe novo foral.
Portanto, Fernão Gonçalves de Azambuja era filho de Gonzalo Fernandes de Tavares e sua esposa Dona Maria Rolim, Senhora de Azambuja e filha de Childe Rolim, primeiro lorde da cidade de Rolim, um título que lhe foi outorgado pelo Rei Sancho I, em 1200.
Os membros da família Azambuja são descendentes diretos de Fernão Gonçalves de Azambuja, que foi a primeira pessoa a ser assim chamada, uma vez que foi o primeiro lorde da cidade (no Reino Unido chama-se, até hoje, de “landlord”, o proprietário de alguma terra no campo, ou casa na cidade) com este nome. Na nomenclatura portuguesa, ele teria sido o primeiro Alcaide-Mor da cidade.
Bandeira Vila Azambuja
 Fernão Gonçalves de Azambuja foi designado Alcaide-Mor da cidade de Azambuja, por morte de seu avô, D. Rolim, e casou-se com Dona Ouruana Godins, filha de Don Godinho de Pousada e sua esposa, Dona Santa Pires. Tiveram três filhos: Rui Fernandes Rolim, Tareja Fernandes e Urraca Fernandes.
Rui Fernandes Rolim, também senhor de Azambuja, foi casado com Elvira Esteves de Avelar e teve com ela quatro filhos: Pedro Rodrigues Rolim, senhor de Azambuja, Paio Rodrigues de Azambuja, Estevão Rodrigues de Azambuja (alcaide-mor de Azambuja) e João Rodrigues de Azambuja.
Pedro Rodrigues de Azambuja casou-se com Teresa Rodrigues de Nóbrega e tiveram o filho Gonçalves Rodrigues de Azambuja. Este casou-se com Leonor Esteves e deles nasceu Leonor Gonçalves.
Estevão Rodrigues de Azambuja teve dois filhos: João Esteves de Azambuja e Afonso Esteves de Azambuja. A partir daí, os nomes se perdem na poeira do tempo. Mais tarde temos notícias de que a família Azambuja costumava acompanhar os monarcas portugueses desde o século XIV. Por exemplo, João Rodrigues de Azambuja e seu sobrinho Gonçalo Rodrigues seriam próximos de Afonso IV. Essas notícias informam também que a família Azambuja insere-se num grupo mediano dentro da nobreza da Corte, situado numa posição hierarquicamente inferior a de famílias mais influentes no período medieval, como os Sousas, os Meneses ou os Pachecos, entre outras.
Brazão Vila Azambuja
 O primeiro Azambuja a chegar ao Brasil, em 1683, chamava-se Manoel de Azambuja e veio para o começo de uma nova vida, uma nova geração, a origem de uma família que chegava ao Brasil.
Em 1732, Francisco Xavier Azambuja, filho de Manoel de Azambuja, iniciou uma geração de pioneiros que fez história na criação e revolução do Estado do Rio Grande do Sul, tornando-se a maior geração de descendentes de Azambuja.
A segunda maior geração dos Azambuja encontra-se em Minas Gerais e é formada por descendentes de João Ribeiro Azambuja, que saiu do Rio Grande do Sul por volta de 1760, espalhando-se pelo Triângulo Mineiro, Campo Formoso e Campo Florido.
Cerca de dois séculos após o primeiro Azambuja chegar ao Brasil, por volta de 1870, seus descendentes chegavam à terra do Pantanal Mato-grossense. Após a guerra do Paraguai, cinco gerações de doze irmãos dos Ribeiro Azambuja saíram do Triângulo Mineiro e chegaram à terra do Pantanal. Mais precisamente na região de Três Lagoas e Campo Grande (Garcia Azambuja); Ponta Porã e Itahum (Lopes Azambuja); Dourados (Luiz Azambuja); Maracajú (Ferreira Azambuja); Aquidauana (os gaúchos Azambuja).
Pelourinho de Azambuja
 Essa tornou-se a terceira maior geração de Azambuja. Uma geração de desbravadores, de criadores de gado, de educadores, de políticos, de profissionais liberais; de uma forma ou de outra, gente realizada.
Outras referências ao sobrenome Azambuja, incluem o batizado de uma Maria Azambuja (por acaso o nome de minha mãe), filha de Diniz Augusto de Azambuja e Brazilia da Silva P. Azambuja, que foi celebrado em Santa Efigênia, São Paulo, Brasil, em 10 de fevereiro de 1858. Joaquim Azambuja, seu irmão, foi batizado na mesma igreja, em 14 de abril de 1861.

AZAMBUJAS MAIS CONHECIDOS

Do fundador da família Azambuja, Fernão Gonçalves de Azambuja, resultaram portadores notáveis do sobrenome, que incluem, entre outros, o explorador e colonizador Diogo de Azambuja (1432–1518), o teólogo português Jerónimo de Azambuja, que morreu em 1563, e o escritor e genealogista José Gomes Amado de Azambuja.
Diogo de Azambuja, explorador da costa africana, liderou uma expedição à Costa do Ouro, com Bartolomeu Dias, em 1481 e morreu após essa viagem, seguindo fortes pelejas com sua saúde mental, com a idade de 86 anos. Deixou seu nome registrado na história de Portugal, chegando a ser mencionado por Pedro Álvares Cabral no livro “Nau Capitânia”, escrito por Walter Galvani.
O Padre Mestre Frei Jerónimo da Azambuja, da Ordem dos Dominicanos, professou no Convento de Santa Maria da Vitória da Batalha, a partir de 6 de Outubro de 1520, do qual foi, posteriormente, eleito prior. Tinha amplos conhecimentos de Teologia Escolástica e pleno domínio das línguas hebraica e grega. Foi embaixador régio no Concílio de Trento, no final do ano de 1545, com outros dois religiosos da mesma ordem. Dos seus escritos, só uma pequena parte se publicou, em comparação com o que escreveu durante toda a sua vida. Do convento serviu no Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa, por ordem do Cardeal Infante, mas voltou mais tarde como provincial, em 1560.
General Estácio Azambuja
 Mais recentemente, no Estado do Rio Grande do Sul, surge o nome do chefe revolucionário Estácio Azambuja. Nascido em Camaquã a 18 de dezembro de 1860, muito cedo fixou residência em Bagé, onde permaneceu até a sua morte em 9 de abril de 1938. Durante a chamada “Velha República” (1889 – 1930), distinguiu-se pela efetiva participação nos movimentos armados que fizeram tremer o solo gaúcho. Na Revolução Federalista de 1893 esteve ao lado de Joca Tavares; na Revolução de 1923, contra Borges de Medeiros, organizou sua própria força, constituída, basicamente, por familiares e jovens de Bagé. Em todas as oportunidades mostrou energia e bravura exemplares, mostrando lealdade e escrúpulos que o notabilizaram pelo respeito dedicado à vida e aos bens dos adversários enfrentados.
Mais modernamente, surge o nome de Darcy Pereira de Azambuja, jurista, escritor, historiador e professor gaúcho. Nascido em Encruzilhada do Sul em 26 de agosto de 1903, era filho de Ignácio Soares de Azambuja e de Maria Josefa Pereira de Azambuja. Cursou o ensino primário na Escola do Prof. Inácio Montanha e, posteriormente, foi para o Colégio Militar, onde concluiu o curso de Agrimensura, em 1921. Em 11 de maio de 1927, fez-se bacharel em Direito pela Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, mesmo ano em que foi nomeado para a 4ª Promotoria Pública da Capital, a partir da qual exerceu vários cargos públicos na área jurídica. Foi professor da Faculdade de Direito de Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde lecionou um sem número de disciplinas, nos cursos de Direito, Ciências Sociais e Políticas, Jornalismo, Português, Letras Clássicas, Letras Neo-Latinas e Letras Anglo-Germânicas.
Darcy Azambuja
Foi membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil – RS, membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Recebeu o título honorífico de Comendador da Ordem da Coroa da Itália, concedido pelo Rei Vittoro Emmanuelli III (1937) e o de Officier d’Académie, concedido pelo Ministério da Educação da França (1948). Publicou vários livros, entre eles a obra jurídica “A Teoria Geral do Estado” e o livro de contos “No Galpão”. Este último obteve para Darcy Azambuja, em 1925, o primeiro prêmio de contos, instituído pela Academia Brasileira de Letras, além de ser apontado entre as coisas mais significativas já escritas sobre o Rio Grande.
De Darcy Pereira de Azambuja, diz Celso Pedro Luft, professor, gramático, filólogo, lingüista e dicionarista gaúcho: ‘Com os contos de “No Galpão”, retomou, com êxito, os caminhos da ficção gauchesca de categoria literária, trilhados por Simões Lopes Neto. O mesmo realismo seleto, com a observação do pormenor característico, a narrativa movimentada, o diálogo fidedigno. É a fronteira gaúcha com suas tradições, seus aspectos rústicos; a vulgaridade e a grandeza contrastante do campeiro, suas bravatas e heroísmos...’.
Darcy Pereira de Azambuja faleceu em Porto Alegre, em 14 de março de 1970.
Brasão de Armas da Família Azambuja
A Família Azambuja, com muita garra, venceu barreiras e obstáculos. Em 11 de janeiro de 2008, no Mato Grosso do Sul, foi fundada a AFA - Associação da Família Azambuja -, com o objetivo de unir seus descendentes, dando prosseguimento às tradições e resgatando sua historia.
 As armas, abaixo descritas, foram outorgadas à família, ostentando o nome Azambuja, cujo status de nobreza foi confirmado pela Corte Portuguesa.
O Brasão de Armas é subdividido em quadrantes. O primeiro e quarto possuem, sobre fundo vermelho, um castelo de três torres em azul celeste claro, sendo a torre do meio a mais alta; o segundo e o terceiro quadrantes com quatro bandas vermelhas sobre fundo dourado. O Coroamento traz um castelo, como nas armas.
Evidentemente, minha pesquisa não acaba aqui, pois essa é apenas a origem do nome Azambuja e a sua ligação com a lusitana terrinha natal. Continuamos levantando a genealogia dos Azambuja e um dia, quem sabe, conseguiremos mostrar a quem interessar possa, a completa saga dos Azambuja. Então, nos encontraremos novamente...