Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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domingo, 10 de junho de 2018

A ORIGEM DAS GALINHAS (E GALOS) - (PARTE 1 DE 2)

A ORIGEM DAS GALINHAS (E GALOS)


I - INTRODUÇÃO

Esta pesquisa foi iniciada e está sendo postada, por três razões principais: (1) como sempre, motivada pela minha própria ignorância sobre o assunto; (2) para funcionar como uma espécie de descontração para os meus artigos que, ultimamente, têm sido bem mais pesados do que o normal; (3) o fato de eu ter presenciado uma mãe perguntar a uma criança, possivelmente seu filho, se ela sabia de onde vinham as galinhas e a criança ter respondido, sem titubear: “Do supermercado!”.
Possivelmente, a resposta não deve ter deixado muito surpresa a mãe de tal criança, acostumada, desde os três anos de idade – senão menos –, a manusear ferramentas eletrônicas – e só essas ferramentas – doadas pelos próprios pais. A mim, entretanto, que quando criança cheguei a ter em casa uma pequena criação de galinhas dos meus pais, que nos fornecia, principalmente, ovos em abundância, a resposta da criança impressionou vivamente! Claro que a mãe não pretendia ter, da sua criança, uma resposta que explicasse a origem de bichinhos tão apreciados na culinária brasileira; mas pelo menos algo do tipo: bem elas são criadas no campo ou em quintais ou em grandes fazendas industriais etc...., talvez ela gostasse de ter tido como resposta. Então, vejamos como é a história toda ...

II -HISTÓRIAS E LENDAS ANTIGAS SOBRE A GALINHA

A questão real não é “Qual veio primeiro: a galinha ou o ovo?”, mas sim, “De onde veem as galinhas?” Igualmente, “Por que a galinha atravessou a rua?” pode ser uma questão que nunca será respondida, mas as circunstâncias envolvidas na ancestralidade da galinha doméstica, podem ser apreciadas.
Galo e galinha domésticos
Inicialmente, é importante que eu diga, que a maioria das pesquisas que realizo é baseada em artigos de língua inglesa. Depois de muito trabalhar nessa área, constatei que artigos traduzidos para o português de originais ingleses, ou originalmente escritos em português, em qualquer órgão e setor de pesquisa, são muito inferiores em substância e volume do material original. Nesse contexto, é também preciso que se diga, como introdução, que a palavra inglesa “fowl” (que se pronuncia “faul”) tem uma tradução bastante complicada para o português. Nos livros que li em língua inglesa, em geral na literatura mais antiga, a palavra era muito empregada quando os participantes participavam das tradicionais caçadas da corte ou dos nobres, principalmente ingleses. Nesse caso, a caçada muitas vezes era à “fowl”, genericamente interpretada como “ave”, em geral selvagem, de todos os tipos, preferencialmente as de maior porte. Os dicionários a traduzem como qualquer ave ou pássaro, aves coletivamente, ave comestível, galinha, aves domésticas, carne de galinha etc ... É também um verbo e, nesse caso, traduzido como caçar, matar ou apanhar aves selvagens. Essa palavra aparece muito em nossa postagem e vamos traduzi-la de maneira variada, segundo a oportunidade, por ave, galináceo ou mesmo galinha.
A epopeia galinácea começou há 10.000 anos atrás numa selva asiática e termina hoje nas cozinhas de todo o mundo. De acordo com a lenda, as galinhas foram descobertas ao lado de uma estrada na Grécia, na primeira década do século V AC. O general ateniense Temístocles, no seu caminho para confrontar as forças invasoras persas, parou para olhar dois galos brigando e reuniu suas tropas, dizendo: “Vejam, eles não estão lutando por seus deuses domésticos, pelos monumentos de seus ancestrais, por glória, por liberdade ou pela segurança de seus filhos, mas somente porque um não quer ceder a passagem ao outro”. A história não conta o que aconteceu com o galo perdedor, nem explica por que os soldados acharam a cena de instintiva agressão inspiradora ao invés de sem sentido e deprimente. Mas a história registra que os gregos, assim encorajados, avançaram para repelir os invasores, preservando a civilização que hoje homenageia aquelas mesmas criaturas (os galos), alimentando-as, fritando-as e mergulhando-as em algum molho de sua escolha. Os descendentes daqueles galos bem que poderiam imaginar – desde que fossem capazes de tão profundo pensamento -que os seus ancestrais deveriam ter muita coisa a explicar.
A galinha é onipresente alimento da nossa era, cruzando múltiplas fronteiras com facilidade. Com seu sabor suave e textura uniforme, a galinha apresenta uma intrigante tela vazia para a paleta de sabores de qualquer cozinha. Uma geração de britânicos cresce na crença de que “frango tikka masala”[1] é o prato nacional, e a mesma coisa acontece na China com o famoso “Kentucky Fried Chicken”[2]. Muito tempo após as famílias terem algumas galinhas correndo pelo pátio (como eu tive quando pequeno), que podiam ser agarradas e transformadas em jantar, os frangos permanecem um nostálgico e evocativo prato para muitos americanos. Como as galinhas alcançaram tal domínio cultural e culinário?
Tudo fica ainda mais surpreendente sob a crença de muitos arqueólogos de que a galinha foi inicialmente domesticada, não para servir de alimento, mas para brigas de galo. Até o advento da produção industrial em larga escala, no século XX, a contribuição econômica e nutricional da galinha foi modesta e nada, como o cavalo e o boi, que pudesse mudar o curso da história. Contudo, a galinha tem inspirado contribuições à cultura, arte, cozinha, ciência e religião, por milênios. As galinhas foram, e ainda são, em algumas culturas, um animal sagrado. A prodigiosa e sempre atenta galinha foi, em todo o mundo, símbolo de nutrição e fertilidade. Ovos eram suspensos em templos egípcios para garantir uma enchente generosa. O vigoroso galo sempre teve o significado universal de virilidade – mas também, na antiga fé persa do Zoroastrianismo, um espírito benigno que cantava ao amanhecer para anunciar um ponto de inflexão na luta cósmica entre a escuridão e a luz. As galinhas acompanhavam os exércitos romanos e seu procedimento era cuidadosamente observado antes de uma batalha: um bom apetite significava que uma vitória poderia ser esperada. Em 249 AC, o general romano Publius Claudius Pulcher jogou ao mar suas galinhas sagradas porque se recusaram a comer antes da Batalha de Drepana. A história registra que ele foi derrotado contra os cartagineses e 93 navios romanos foram afundados. Ao voltar para Roma, foi julgado por impiedade e multado pesadamente.
Entretanto, uma importante tradição religiosa – ironicamente a que deu origem à “sopa de bolas de pão ázimo” e à “ceia de galinha dominical” – falharam em inflar as galinhas de muito significado religioso. As passagens do Velho Testamento relativos a sacrifícios rituais, revelam uma distinta preferência da parte de Javé, por carne vermelha sobre a carne de galinha. No Levítico 5:7, uma oferenda de culpa de duas tartarugas marinhas ou pombas é aceitável se o pecador em questão não pode adquirir um cordeiro, mas de forma alguma o Senhor vai solicitar uma galinha. O galo representa um pequeno, mas crucial papel nos Evangelhos, ao ajudar na concretização da profecia de que Pedro negaria a Jesus “antes que o galo cantasse”. No século IX, o Papa Nicolau I decretou que a figura de um galo fosse colocada no topo de cada igreja, como uma lembrança do incidente, razão pela qual muitas igrejas ainda possuem as pás para indicação da direção do vento em forma de galo. Não há implicação de que o galo tenha feito algo além de marcar a passagem das horas, mas até mesmo essa secundária associação com traição não favoreceu a causa da galinha na cultura ocidental. No uso americano contemporâneo, as associações com a galinha são covardia, ansiedade neurótica e pânico sem efeito.
O fato é que o macho da espécie pode ser um animal bastante agressivo, especialmente quando criado e treinado para a luta. A natureza armou o galo com um esporão ósseo na perna; os humanos suplementaram aquela característica com um arsenal de esporas metálicas e pequenas lâminas amarradas às pernas da ave. Em muitos lugares do mundo a briga de galos é proibida e vista como desumana, mas em lugares onde ela ainda é praticada, legal ou ilegalmente, é tida como o esporte contínuo mais antigo do mundo. Representações artísticas de galos combatentes estão espalhadas por todo o mundo antigo, como no mosaico que adorna uma casa de Pompeia, datada do primeiro século de nossa era. A cidade grega de Pérgamo estabeleceu um anfiteatro de briga de galos para ensinar o valor às futuras gerações de soldados.

III – CIENTIFICAMENTE FALANDO

Casal de galináceos selvagens vermelhos
 A galinha domesticada tem uma genealogia complicada que retroage de 7.000 a 10.000 anos e envolve, de acordo com pesquisa recente, pelo menos dois progenitores selvagens e, possivelmente, mais de um evento de domesticação inicial. Os mais antigos fósseis ósseos identificados como possivelmente pertencentes a galinhas, aparecem em regiões do nordeste da China, datando de cerca de 5.400 AC, mas os ancestrais selvagens dos pássaros nunca viveram naquelas frias e secas planícies. Assim, se eles são realmente ossos de galinha, devem ter vindo de outros lugares, muito provavelmente do sudeste da Ásia. De acordo com uma teoria desenvolvida por Charles Darwin e recentemente confirmada por análises de DNA, o progenitor selvagem da galinha é o galináceo selvagem vermelho, Gallus gallus. A semelhança do pássaro às galinhas modernas manifesta-se pela papada e crista vermelha dos machos, o esporão que ele usa para lutar e seu canto de acasalamento. As fêmeas, de cor parda, chocam seus ovos e cacarejam exatamente como as galinhas no galinheiro. Em seu habitat, que se estende do nordeste da Índia às Filipinas, o Gallus gallus garimpa os solos das florestas em busca de insetos, sementes e frutos, voando para o ninho nas árvores à noite. Esse é todo o voo que ele consegue, um traço que tinha um apelo óbvio à busca humana para a captura e criação. Posteriormente, isso valorizaria a galinha aos africanos, cujas nativas galinhas de angola tinham o mau hábito de voar para a floresta quando o espírito as movia.
Belo exemplar de Gallus gallus macho
Sempre que uma nova pesquisa acontece que esclareça ou apenas coloque uma ponta mais fina sobre algo que Darwin escreveu, alguém deve aparecer e colocar a questão: “Darwin estava errado?”; como se ele tendo feito algo errado desqualificasse o resto de suas contribuições para a biologia e nos fizesse retornar à crença de que moscas fossem espontaneamente geradas na lama. Vejamos o que disse Darwin e o quanto ele estava errado.
Darwin se interessou pelas duas maiores teorias de seu tempo sobre as galinhas. Uma era uma teoria multirregional, muito semelhante à hoje desacreditada versão da evolução humana, onde cada espécie de galinha foi domesticada de uma diferente forma selvagem. A outra era a de que todas descendiam de um ancestral, o Gallus gallus bankiva, também conhecido como Gallus bankiva. Darwin usou galinhas de uma ampla forma no desenvolvimento de suas ideias sobre a evolução e, finalmente, favoreceu a hipótese de uma origem única, descreveu a espécie primordial da sua escolha, a ave selvagem vermelha, como muito mais diversa em caráter do que é geralmente caracterizada hoje.
Estudo recente afirma que, na base de experimentos observados de diferenças de características e procriação cruzada, Darwin havia concluído que galinhas domésticas eram descendentes apenas da ave selvagem vermelha, embora isso fosse posteriormente refutado por Hutt, que estabeleceu que pelo menos quatro diferentes espécies de aves selvagens teriam contribuído para a domesticação da galinha. Estudos moleculares de DNA e inserção retroviral apoiaram o ponto de vista de Darwin, encontrando evidências de que as aves selvagens cinza e do Ceilão podem se cruzar com galinhas domésticas, mas não fornecem evidência de que essas duas espécies tenham contribuído para a domesticação da galinha. Buscando pela mutação causal, a análise incluiu três outras espécies de aves selvagens na comparação sequencial: aves selvagens cinza (Gallus sonneratii), Ceilão (Gallus lafayetii) e verde (Gallus varius). Tal passo foi motivado pelo fato de que as aves selvagem e do Ceilão têm pernas vermelhas ou amareladas, o que implica na deposição de carotenoides. As aves selvagens cinza e vermelha têm, atualmente, alcances separados, que pode ser produto de alterações ecológicas recentes, incluindo alterações humanas de habitat. Além disso, nos primeiros dias de domesticação da galinha, não havia razão para suspeitar que uma simples origem seria seguida por um isolamento imediato de formas selvagens e, de fato, toda a evidência disponível, incluindo aquela que é aqui relatada, sugere o contrário.
Um novo estudo, da Universidade de Uppsala, em Uppsala, Suécia, sua mais antiga universidade (1477), mostra que as origens da galinha são mais complicadas. Segundo o estudo, os pesquisadores mapearam os genes que dão à maioria das galinhas domésticas, pernas amarelas, e descobriram que a hereditariedade genética deriva de uma espécie que lhe é muito proximamente ligada, a ave selvagem parda, do sudeste asiático. O estudo foi recentemente publicado na edição da Web do “PLOS Genetics” (Genética do PLOS), um jornal acadêmico confiável de acesso público, publicado mensalmente pelo PLOS – Public Library of Science (Biblioteca Pública de Ciência), editora sem fins lucrativos e acesso aberto, na área da ciência, tecnologia e medicina: “Nossos estudos mostram que, embora a maioria dos genes encontrados em aves domésticas, venham da ave selvagem vermelha, pelo menos uma outra espécie deve ter contribuído, especificamente, a ave selvagem parda”, disse Jonas Eriksson, um estudante de doutorado na Universidade de Uppsala. A ave selvagem parda foi provavelmente cruzada com uma forma anterior da galinha doméstica, crê a equipe de Eriksson. Entretanto, a quantidade exata de material genético com que essas outras aves contribuíram para o DNA de galinhas domesticadas, permanece como conjectura apenas.
A verdade parece ser que Darwin não errou, mas estava substancialmente certo. Antes, Darwin tinha uma ideia melhor da variação nas formas selvagens do que podemos apreciar hoje. Não é mau considerar que toda a moderna teoria sobre as origens de formas domesticadas vem após e deriva de Darwin. Os estudos de Darwin de animais domésticos tiveram importância chave à sua teoria da evolução, que também explicou as origens selvagens de animais domésticos. “O que é irônico é que Darwin pensava que mais de uma espécie selvagem havia contribuído para o desenvolvimento do cão, mas que a galinha tinha vindo de uma só espécie selvagem, a ave selvagem vermelha. Agora acontece que a coisa funciona exatamente ao contrário”, diz Greger Larson, um pesquisador da Universidade de Uppsala e da Universidade de Durham, na Inglaterra.


[1] O “Chicken Tikka Masala”, o prato mais frequentemente servido em restaurantes britânicos, é um prato indiano, cujo molho masala foi adicionado para satisfazer o desejo inglês de ter sua comida servida em molho de carne. Trata-se de uma autêntica receita Mughlai preparada pelos ancestrais indianos que eram cozinheiros reais no período Mughal, que se estendeu, grosseiramente, do século XVI ao século XVIII.
[2] KFC, até 1991 conhecido como Kentucky Fried Chicken,é uma cadeia de restaurantes “fast food” que se especializou em galinha frita. Tem quartel general em Louisville, Kentucky, USA, e é a segunda maior cadeia de restaurantes, após o McDonald, com quase 20.000 locais espalhados por 123 países, dados de dezembro de 2015. Foi fundada pelo Coronel Harland Sanders, um empreendedor que começou vendendo galinha frita em seu restaurante de beira de estrada em Corbin, Kentucky, durante a “Grande Depressão”.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

HISTÓRIA DOS REIS DA INGLATERRA A PARTIR DE 1066 (PARTE 12)

A ERA VITORIANA (1837 - 1901)
Rainha Victoria, o mais longo reinado do UK

Victoria, nascida em 24 de maio de 1819, era filha de Edward, Duque de Kent e Strathearn, e Victoria de Saxe-Coburg-Saalfeld. Edward morreu quando Victoria tinha apenas 8 meses de idade, após o que sua mãe determinou um rígido regime para evitar as cortes de seus tios, George IV e William IV. Casou-se com o Príncipe Albert de Saxe-Coburg-Gotha in 1840 e a união produziu quatro filhos e cinco filhas.
Victoria subiu ao trono com a morte de William IV, recém completados 18 anos, e recusou qualquer influência além da sua dominante mãe, governando por si própria. O respeito popular pela Coroa era muito baixo à época da sua coroação, mas a modesta e direta jovem rainha venceu os corações de seus súditos. Desejava ser informada dos assuntos políticos, embora não tivesse acesso direto nas decisões da política. A ‘Lei da Reforma’, de 1832, havia estabelecido que o padrão da autoridade legislativa residia na Casa dos Lordes e a autoridade executiva, em um Gabinete formado por membros da Casa dos Comuns, com o monarca, essencialmente, removido do circuito. Ela respeitava e trabalhou muito bem com Lorde Melbourne, Primeiro Ministro nos primeiros anos do seu reinado, e a Inglaterra cresceu social e economicamente.
Albert, príncipe consorte
O Príncipe Albert, a quem ela era fortemente devotada, substituiu Melbourne como a influência masculina dominante na vida de Victoria. O povo, contudo, não simpatizava  com o príncipe alemão: ele foi excluído de qualquer posição política oficial, nunca possuiu um título de nobreza e só foi chamado Príncipe Consorte após 17 anos de casamento. Victoria não fazia nada sem a aprovação de seu marido. Seus interesses em arte, ciência e indústria, o estimularam a organizar a ‘Exibição do Palácio de Cristal’, em 1851, uma convenção industrial altamente lucrativa. Ele usou os lucros (algo em torno de £186,000), para adquirir terras em Kensington para o estabelecimento de vários museus culturais e industriais. Em janeiro de 1858, por influência do Príncipe consorte, o pianista e condutor Charles Hallé fundou a primeira orquestra sinfônica britânica, indicando o crescimento das atividades culturais proporcionadas aos cidadãos do Reino Unido. A morte de Alberto, de tifo, em 1861, afetou profundamente a mente de Victoria, que entrou numa reclusão por mais de 25 anos, só saindo dela para as celebrações do Jubileu Dourado de 1887, a celebração do seu 50º ano no trono. Uma geração inteira criou-se sem jamais ter visto a face de sua rainha.
A reforma do governo permitiu que a Inglaterra evitasse as condições politicamente tumultuadas que varriam a Europa no meio do século XIX. O continente experimentava as crescentes dores do conservadorismo, liberalismo, socialismo e as lutas nacionalistas por unificação política. A Inglaterra focou no desenvolvimento industrial e comercial e na expansão do alcance imperial. Durante o reinado de Victoria o império dobrou o seu tamanho, abarcando o Canadá, Austrália, Índia e vários locais da África e sul do Pacífico. Seu reinado, quase livre de guerras, enfrentou um levante irlandês (1848), as Guerras dos Boers(1)  na África do Sul (1881, 1899-1902) e uma rebelião na Índia (1857), além da Guerra da Crimeia (1853-56) que, unida à França, travou contra a Rússia, e venceu. Os sucessos em evitar envolvimentos europeus foi devido, em grande parte, aos casamentos dos filhos de Victoria: ou diretamente, ou por casamento, ela ficou ligada às casas reais da Alemanha, Rússia, Grécia, Romênia, Suécia, Dinamarca, Noruega e Bélgica. Nicholas II da Rússia foi casado com uma neta de Victoria, Alexandra e o temível imperador da Alemanha, Kaiser Wilhelm II, era o seu neto "Willy". Durante sua reclusão, ela governou sua família com a mão de ferro que lhe foi negada pelo arranjo institucional inglês.
O governo Whig, sob o visconde Melbourne, enfrentou crescentes dificuldades de ordem financeira e pública. Em agosto de 1841, Sir Robert Peel forçou uma eleição geral, após derrotar os Whigs numa moção de ‘não confiança’ na Casa dos Comuns. Os Tories venceram uma maioria por mais de 70, na Casa dos Comuns, escolhendo Peel como novo primeiro ministro. Essa foi a primeira eleição dos tempos modernos, em que um partido politico com maioria parlamentar foi derrotado por outro, que ganhou uma marcante maioria. Os velhos partidos políticos da Inglaterra, os Whigs e os Tories, se transformaram durante o reinado de Victoria. O apoio de Robert Peel para o Corn Law Repeal(2) (Anulação da Lei dos Cereais), em 1846, contra a ideia dos seus próprios pares, dividiu os Tories em dois campos. Os adeptos de Peel juntaram-se com os Whigs para criar o Partido Liberal e os Tories contrários a Peel, tornaram-se o Partido Conservador. Ao contrário da maioria da Europa, os políticos ingleses concordaram nas principais questões da estrutura governamental e ideologia política, mas diferiram nas questões menores de prática política e sua implementação. Os Liberais representavam comerciantes e artesãos, enquanto os Conservadores representavam a pequena nobreza proprietária de terra. O papel de Victoria nesse realinhamento politico foi o de mediadora entre os Primeiros Ministros que saíam e que chegavam (o Primeiro Ministro era escolhido pelo partido que tinha o controle da Casa dos Comuns). Ela gostava particularmente do Conservador Benjamin Disraeli que, por ligar Victoria à expansão do Império, respeitava a monarquia que havia faltado desde a reclusão de Victoria. Por outro lado, desprezou o proeminente Primeiro Ministro Liberal William Gladstone, cujo partido dominou o Parlamento de 1846 a 1874.
Mesmo entre as dores do luto, durante a sua reclusão, Victoria deu muita atenção aos negócios e administração diários, num tempo de grande evolução política e social. Foram muitas e importantes as leis apresentadas e aprovadas em sua era, incluindo as Leis da Reforma de 1867 e 1884 que ampliaram o sufrágio.
O termo Victorian England (Inglaterra Victoriana), derivou da ética e gostos pessoais da Rainha que, em geral, refletiam os da classe media. O Jubileu de Ouro retirou-a de sua concha e ela voltou a abraçar a vida pública. Visitou as possessões inglesas e a França (primeira monarca inglesa a fazer isso desde a coroação de Henry VI, em 1431. Quando ela morreu, com avançada idade, uma inteira era morreu com ela.
Antes de encerrar o seu reinado, porque muito importantes, gostaríamos de alinhar alguns fatos relacionados à era victoriana.
O escritor Charles Dickens
Charles Dickens foi um dos maiores novelistas victorianos. No ano de 1838, 'Oliver Twist' foi, como muitas das suas outras novelas, originalmente publicada em capítulos, trazendo à atenção pública contemporânea vários de seus males sociais. Outros trabalhos de Dickens incluem 'The Pickwick Papers' (As Aventuras de Mr. Pickwick), 'A Christmas Carol' (Um Conto de Natal), 'David Copperfield' e 'Great Expectations' (Grandes Esperanças), uma de suas obras primas de minha preferência.
Outro grande nome da ciência e literatura victoriana, Charles Darwin, publicou, em novembro de 1859, sua obra universal “Sobre a Origem das Espécies”, após vinte anos de pesquisas. Embora a polêmica levantada pela obra, poucos cientistas victorianos adotaram uma posição ateísta por sua leitura; imagino porque, de fato, ele nunca a escreveu com essa intenção.
Fato importante e desconhecido da maioria, servindo inclusive como explicação, mais ou menos recente, para os incidentes religiosos na Irlanda, a estabelecida Igreja da Irlanda era anglicana, embora somente 3% da população irlandesa pertencesse a ela, a vasta maioria sendo Católica Romana. A legislação de William Gladstone colocou as propriedades da Igreja nas mãos de comissários que podiam usá-las para ‘esquemas sociais’, incluindo alívio da pobreza e a expansão da educação superior. Os bispos irlandeses não mais puderam ter assento na Casa dos Lordes.
Charles Darwin
É também da era victoriana (17 de novembro de 1869) a abertura do canal de Suez, ligando o Mar Mediterrâneo ao mar Vermelho. A Bretanha se havia oposto à construção do canal por uma companhia internacional, mas mudou sua posição em 1875, quando o governo Conservador de Benjamin Disraeli comprou 40% das cotas da Companhia do Canal. O canal então tornou-se de interesse estratégico vital, particularmente como rota para a Índia e o Oriente, sendo protegido por tropas britânicas desde 1883.
A partir de agosto de 1880, a educação tornou-se obrigatória na Grã Bretanha, para crianças entre 5 e dez anos de idade. As despesas estatais com a educação, que eram da ordem de 1,25 milhões de libras em 1870, passaram para 4 milhões e chegariam a 12 milhões de libras ao final do reinado de Victoria (a total dessemelhança com o que ocorre no Brasil, não é mera coincidência).
Em janeiro de 1881, a mansão do magnata da Engenharia, Sir William Armstrong, tornou-se a primeira casa da Inglaterra a ter luz elétrica. Construída em Cragside in Rothbury (Northumberland) e projetada pelo arquiteto escocês Richard Norman Shaw, incorporou todas as modernidades possíveis; suas lâmpadas eram energizadas pela água de um riacho local passando por um gerador rudimentar.
Guglielmo Marconi, inventor
O físico italiano de Nascimento, Guglielmo Marconi, conduziu um grande número de experimentos ligados à comunicação, ao sul da Bretanha, entre 1896 e 1897, recebendo a patente em julho de 1897, logo após sua primeira comunicação através da água, de Lavernock Point, South Wales, para Flat Holm Island, no Canal de Bristol. Ele estabeleceu o primeiro sinal transatlântico em dezembro de 1901, inaugurando a ‘Era Sem Fio’.
Em 22 de janeiro de 1901, com a idade de 81 anos, Victoria morreu, tornado o seu reinado de 63 anos, o mais longo da Bretanha e marcando, realmente, o fim de uma era.

AS DUAS GUERRAS MUNDIAIS E A CONSTRUÇÃO DA MODERNA GRÃ-BRETANHA (1901 – 1945)

EDWARD VII – (1901-1910)

Edward VII rei do UK
Edward VII, nascido em 9 de novembro de 1841, era o primogênito da rainha Victoria e tomou o nome da família de seu pai, o príncipe consorte Albert, daí a troca de linhagem, embora fosse ainda Hanoverian por parte de sua mãe. Casou-se com a princesa Alexandra da Dinamarca, em 1863, com apenas 22 aos de idade, e com ela teve três filhos e três filhas.
Victoria e Albert impuseram um regime estrito sobre Edward e mesmo após a morte de seu pai, Victoria sempre lhe negou papel oficial no governo, com o que ele se rebelou, entregando-se às mulheres, comidas, bebidas, jogos, esportes e viagens. Alexandra fez vistas grossas às suas atividades extramaritais, que continuaram até os seus sessenta anos e o implicaram em vários casos de divórcios.
Edward sucedeu no trono após a morte de Victoria e, a despeito de sua má reputação, lançou-se ao seu papel de rei com vitalidade. Suas muitas viagens à Europa lhe deram sólida fundação como embaixador em relações exteriores, ajudado por suas relações com as casas reais do continente. Os receios de Victoria foram provados errados: as incursões de Edward na política externa foram muito eficientes nas alianças entre Grã Bretanha, França e Rússia, e a par de suas indiscrições sexuais, suas maneiras e estilos o valorizaram frente ao povo inglês.
A legislação social foi o foco do Parlamento durante o reinado de Edward. A Lei da Educação, de 1902, forneceu educação secundária subsidiada, e o governo Liberal passou uma série de leis beneficiando as crianças, após 1906; após 1908, foram estabelecidas pensões aos idosos. A Lei das Trocas de Emprego, de 1909, lançou as bases para o seguro de saúde nacional, que conduziu a uma crise constitucional sobre os meios de financiamento de tal legislação. O orçamento feito por David Lloyd-George propôs importantes aumentos de impostos sobre ricos proprietários de terras e foi derrotado no Parlamento. O Primeiro Ministro Asquith apelou a Edward para criar vários novos lordes que pudessem virar a votação, mas ele recusou fortemente.
Edward morreu em 6 de maio de 1910, com a idade de 68 anos, após uma série de ataques do coração, no meio da crise orçamentária que foi resolvida no ano seguinte com a aprovação da lei pelo governo Liberal.


(1) A África do Sul é um país africano colonizado, principalmente, por holandeses e ingleses, embora também franceses e alemães tenham participado da colonização. Os Trekboer (posteriormente chamados Grensboer e finalmente Boer - palavra holandesa para “fazendeiros”), eram pastores nômades descendentes, em grau praticamente igual, de colonizadores holandeses, franceses e alemães, que começaram migrando das áreas adjacentes ao atual Cape Town, durante o século XVII e por todo o século XVIII, e posteriormente durante o século XIX para se estabelecer no Orange Free State, Transvaal (no conjunto conhecido como “República dos Boers”) e, em menor número, Natal. Sua principal motivação para deixar Cape Town foi escapar ao governo inglês e das constantes lutas entre o governo britânico e as tribos da fronteira leste. As “Boer Wars” (Guerras dos Boer) foram duas guerras lutadas, durante 1880-1881 e 1899-1902, entre o Império Britânico e as duas repúblicas Boer independentes de Orange Free State e Transvaal.
(2) A Corn Law foi uma lei de comércio criada para proteger os produtores de cereais do Reino Unido contra a competição com produtos importados mais baratos, através da imposição de altos impostos de importação; tal lei permitia que os agricultores cobrassem os valores que quisessem, sem a possibilidade de importação a preços mais competitivos mesmo quando o povo do Reino Unido mais necessitasse dos cereais (épocas de fome). A lei foi criada em 1815, pelo Ato de Importação, e revogada em 1846, pelo mesmo Ato, com o decisivo apoio de Peel, num significativo avanço do livre comércio.

Conclui na PARTE 13