Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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segunda-feira, 24 de maio de 2021

 

EL CHOCLO


I - INTRODUÇÃO

Minha mãe adorava os tangos! Talvez muito por influência de sua irmã mais jovem Ione, pianista, que chegou a morar em Buenos Aires, tal o amor que tinha pelos tangos, nos bons tempos da cidade portenha. Ainda lembro muito bem quando, pela primeira vez, fomos a Buenos Aires, com minha mãe e tia Ione, e ela nos levava a assistir às maravilhosas apresentações em palcos das televisões argentinas, com as maiores orquestras típicas de tangos da época: Francisco Canaro, Juan D’Arienzo, Carlos di Sarli, Anibal Troilo e muitas outras. Corria então o ano de 1954 e eu vivia os meus maravilhosos 10 anos de idade.
Poderia citar vários nomes de tangos que minha mãe cantarolava em casa, com muito bom domínio da língua espanhola, mas o tango da vez chama-se “El Choclo”, um dos mais antigos da história do tango. E foi por ela que aprendi o significado da palavra “choclo”: milho. Nada mais que milho! E o conhecido tango chamava-se, portanto, em português, “O Milho”. Lembro que, mesmo à época, o nome do tango me pareceu muito estranho, mas criança é criança e a coisa assim ficou por muitos anos, sem que o fato me saísse da cabeça.
Estava então, um dia, há muitos anos atrás, passeando na praia de Canasvieiras, em Florianópolis, com minha esposa, onde tínhamos comprado um apartamento para manter um vínculo com os filhos, que lá moram. Como todos sabem, há muitos anos Canasvieiras é a praia de Santa Catarina eleita pelos argentinos e uruguaios, de forma que todo o comércio local fala um “portunhol” razoável, da mesma forma que os turistas de Argentina e Uruguai respondem com um “españez” igualmente razoável e todo mundo se entende bem. E passeando pela praia, reparei num carrinho que vendia milho verde aos turistas que, assim como anunciava o milho, também anunciava o “Choclo” e o trazia escrito no próprio carrinho, para deixar bem claro aos veranistas das duas línguas, o produto que oferecia. Imediatamente o tango muito conhecido de todos os tempos me veio à cabeça e com ele a minha velha dúvida sobre a origem daquele nome tão estranho.
Apenas vários anos após esses eventos, trabalhando em casa com outros assuntos, o nome do tango voltou à minha cabeça e resolvi fazer uma pesquisa sobre o tal assunto, principalmente porque, ouvindo vários intérpretes cantando “El Choclo”, nunca ouvi uma só vez, a palavra “choclo” mencionada em toda a letra. Este o assunto, bem curioso, da presente postagem.
 

II – O TANGO

“El Choclo” é um tango criollo (de país hispano-americano ou relativo a ele, típico, com relação às raízes) com orquestração de Ángel Villoldo, que estreou em 1903 e cuja partitura foi publicada somente em 1905, sendo considerado hoje um dos tangos mais populares. A melodia do tango, característica da chamada “Velha Guarda” do tango, foi composta, provavelmente, cerca de 1898, com autoria atribuída a Casimiro Alcorta, - um violinista de raça negra, que morreu na miséria e é hoje praticamente esquecido de todos -, uma de suas composições mais representativas. A composição foi criada quando a interpretação de tangos, nos locais elegantes ou do centro da cidade de Buenos Aires, ainda era proibida, por ser associado às classes marginais. Entretanto, com seu amigo José Luis Roncallo, diretor de uma orquestra de música clássica no “El Americano” acharam a fórmula de estrear este tango sem evitar conflitos para o dono do restaurante. E assim, sua estreia aconteceu em 3 de novembro de 1903, interpretado pela orquestra de José Luis Roncallo (que havia transcrito a partitura), no El Americano, um restaurante de boa categoria do centro de Buenos Aires, quando a obra foi apresentada como uma “Danza Criolla”. Assim, noite após noite a obra foi interpretada com muito boa acolhida e entusiasmo por parte do público.
Face da partitura para piano,
do tango “El Choclo” de Ángel Villoldo
A casa “Gath y Chaves”, uma das grandes casas comerciais da época, patrocinou, em 1903, a viagem de Ángel Villondo, Alfredo Gobbi y Flora Rodriguéz para lá realizar discos de tangos. Gravou em várias companhias, dançou tangos e se filiou à Sociedade de Autores e Compositores da França, para cobrar os direitos autorais do tango mais conhecido na Europa de então, “El Choclo”. Foi tal a difusão deste tango que, segundo conta o jornalista Tito Livio Foppa, em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, em um banquete à imprensa estrangeira, celebrado na frente alemã, os músicos da orquestra que executou os hinos dos países representados, não tinham a partitura correspondente ao hino argentino ... e tocaram “El Choclo”, que sabiam de memória. Com efeito, desde então, divertidíssimas formações musicais vêm interpretando este tango: orquestras sinfônicas, bandas militares, conjuntos de jazz, conjuntos andinos e de rock. Como outros belos tangos instrumentais, os tangos de Villoldo tiveram poetas que lhes adicionaram letras, sendo que a que teve maior sucesso foi a de Enrique Santos Discépolo.
Vejam, portanto, que a música original não possuía letra! E o mistério do nome “El Choclo” começa a ser desvendado. Se o compositor da melodia original tinha alguma ideia sobre o que ela deveria representar, ele nunca a expressou pela simples razão de que a sua composição não era acompanhada de uma letra, nem dele, nem de qualquer outro letrista. Mas vamos chegar lá.

III – A ORIGEM DO NOME

A palavra Choclo é a forma do castelhano, do cone sul, usada para referir-se ao nosso conhecido milho.
A origem do vocábulo é quechua[1] (ou quíchua ou quéchua): chuglu, que significa milho tenro. O próprio Villoldo disse que se referia ao milho como o ingrediente mais saboroso do puchero[2]. Mas também circulam outras explicações, relacionadas com o apelido de um suposto amigo querido cujo cabelo era da cor do milho ou com um duplo sentido próprio dos ambientes de prostíbulos aonde, diz-se, teria nascido o tango, relacionando-se a palavra choclo ao pênis.
A letra original, de Villoldo, fazia referência, efetivamente, ao alimento. Mais tarde se escreveu outra versão com o título Cariño Puro. Uma versão, de Marambio Catán, foi escrita referindo-se a um delinquente (Me chamavam o choclo companheiro). A versão mais popular é mesmo a de Enrique Santos Discépolo (1947), que rememora a origem do tango como forma de vida.


IV - INTÉRPRETES DO TANGO “EL CHOCLO”

É importante que se diga, que os compositores argentinos de tango, sempre deram maior importância à orquestra do que ao vocalista. Mesmo em tangos mais modernos, a orquestra inicia a música, tocando praticamente toda ela e só então o vocalista entra para a sua parte, em geral o estribilho, deixando novamente para a orquestra, o encerramento do tango. Por essa razão, também, não foram muitos os cantores argentinos conhecidos que gravaram “El Choclo”.
Ángel Vargas (1904-1959) argentino de Buenos Aires, cantou a letra de Marambio Catán, provavelmente na década de 1940. Por ser o cantor argentino típico mais antigo a tê-lo gravado, mas também por ser um dos principais expoentes do tango argentino, vamos apresentar aos nossos potenciais leitores esta gravação de Ángel Vargas.
A letra escrita por Discépolo em 1947 foi estreada nesse mesmo ano por Libertad Lamarque (1908-2000), argentina da província de Santa Fé, na película mexicana “Gran Casino”, de Luis Buñuel. Por ter, de vez, disseminado mundialmente essa letra, vamos colocar o vídeo desta gravação à disposição dos nossos leitores, para que bem possam sentir a interpretação de Libertad Lamarque. Outra de suas intérpretes que se destacou, foi Tita Merello que o incorporou como parte do seu repertório básico.
Entre outras orquestras, foi acompanhado pela de Francisco Canaro (1888-1964), compositor, violinista e diretor de orquestra uruguaio nacionalizado argentino em 1940, e a de Juan D’Arienzo (1900-1976) músico e diretor de orquestra argentino, de Buenos Aires, conhecido como “O Rei do Compasso”, que gravou El Choclo em duas oportunidades. Para evitar polêmicas sobre intérpretes de tangos, não argentinos de nascimento, vamos colocar como exemplo a gravação de Juan D’Arienzo.
Em 1952 a melodia foi adaptada, por Lester Allan e Robert Hill, com o título Kiss of Fire (Beijo de Fogo) ainda que reconhecendo a autoria de Villoldo na partitura publicada. Mudaram os compassos da primeira parte, adicionaram um fraseado de inspiração flamenca à segunda e eliminaram por completo a terceira parte. Em 19 de março de 1955, Louis Armstrong gravou “Kiss of Fire” no disco no 28.177 da “Decca”, publicado na Argentina como “Decca 333.317”, quando foi explicitamente citado, como autores, Villoldo, Marambio Catán e Santos Discépolo. Essa versão inspirou uma película homônima, em 1955, interpretada por Jack Palance, com um contexto completamente anacrônico: a colonização dos atuais Estados Unidos. No filme de Ken Russel, “Valentino”, Rudolf Nureyev dança o tango com uma coreografia bastante heterodoxa.
Entre vários intérpretes não argentinos, famosos, de El Choclo, podemos citar Julio Iglesias, que incluiu El Choclo em seu álbum de 1996, “Tango”. Por ele, Julio Iglesias teve ações ajuizadas, tendo que pagar direitos autorais aos descendentes de Enrique Discépolo e Roberto Goyeneche. Além dele, Nat King Cole também o gravou, em espanhol. Connie Francis, Caterina Valente e até mesmo Ray Conniff foram mais alguns famosos que gravaram o famoso tango El Choclo, desta feita na versão “Kiss of Fire”, todos eles, além do já mencionado Louis Armstrong, cuja gravação vamos disponibilizar aos leitores.
Para os leitores que se sentirem tentados a acompanhar as gravações, estamos também postando a letra de Enrique Santos Discépolo.


V - SOBRE OS AUTORES

Face da partitura para piano, do tango
“Cara Sucia”, arranjado por
Francisco Canaro

Casimiro Alcorta, nascido em Santiago del Estero em 1940 e falecido em Buenos Aires em 1913, foi um destacado músico descendente de africanos, considerado um dos “pais do tango”. Além de “El Choclo”, é o compositor do famoso tango “Concha Sucia” (não posso traduzir, mas é isso mesmo que podem estar pensando), de 1884, várias décadas depois renomeado por Francisco Canaro para “Cara Sucia”, que mudou sua letra para torná-lo mais decente Este é o mais antigo dos tangos de autor conhecido. Foi também o autor dos tangos “La Yapa” (A Yapa) e “Entrada Prohibida” (Entrada Proibida), esse último posteriormente creditado aos irmãos Teisseire. José Gobello o considerou o “Pai do Tango”. 
Filho de escravos e ele próprio libertado quando menino, recebeu o sobrenome de seu dono, Amancio Alcorta, como de praxe. Sua mãe, Casimira, era escrava do estancieiro e músico Amancio Alcorta (1805-1862, um dos primeiros compositores clássicos da Argentina. De origem santiaguense, Amancio Alcorta radicou-se em Buenos Aires em 1853, sendo proprietário da maior parte das terras da atual comarca de Moreno, na Grande Buenos Aires. 
Casa de Amancio Alcorta na comarca de
Moreno, pertencente à Província
de Buenos Aires
Casimiro é mencionado, pela primeira vez, em 1913, na primeira história publicada do tango, realizada por José Antonio Saldías, sob o pseudônimo de Viejo Tanguero, em um artigo intitulado “O tango: sua evolução e sua história”, publicado em “Crítica”.
Destacou-se como violinista, bailarino e compositor. Sua atuação se estendeu entre 1855 e 1913, isto é, desde os primeiros momentos em que o tango começou a formar-se, até tomar a sua forma definitiva e identidade própria, durante a chamada “Guarda Velha”. Costumava atuar no “Scudo d’Italia”, na “casinha” de Laura, no “Prado Espanhol” e numa casa de milonga que se encontrava na rua “Del Temple” (posteriormente “Viamonte”).
Como violinista, formou o primeiro conjunto de tango de que se tem registro, junto ao Mulato Sinforoso, no clarinete e, seguramente um guitarrista. O conjunto atuou desde a década de 1870 até fins da década de 1890.
Como bailarino formou uma célebre parelha com sua companheira La Paulina, de origem italiana, com quem permaneceu até a sua morte em 1913.
Sua atuação como compositor já foi mencionada acima. É muito provável que muitos dos tangos compostos entre 1870 e 1900 pertencessem a ele, inclusive os creditados a outros compositores.
Morreu em Buenos Aires nos braços de sua querida Paulina.

Ángel Villoldo, compositor e letrista,
no início dos anos 1900
Ángel Villoldo, nascido em Barracas, sul da cidade de Buenos Aires, em 16 de fevereiro de 1861 e falecido em 14 de outubro de 1919, cujo nome completo era Ángel Gregorio Villoldo Arroyo, foi um músico argentino, dos compositores mais característicos da primeira época do tango, também considerado um dos pais do tango. Foi letrista, guitarrista, compositor e um dos principais cantores da época. Também foi conhecido por seus pseudônimos A. Gregorio, Fray Pimiento, Gregorio Giménez, Ángel Arroyo e Mario Reguero. 
Villoldo aportou obras eminentemente musicais, consideradas clássicas em todas as épocas posteriores, tendo também escrito letras que lhe prodigalizaram fama de versificador. Os tangos compostos por Villoldo são tangos-milonga (entretanto em compasso dois por quatro). Também compôs valsas, polcas e um variado repertório folclórico. Sua inspiração original e faiscante, sustentada por uma figura afável com profuso bigode e sombreiro, é reconhecível na iconografia dos fundadores.
Havia inventado um artefato em que sustentava a harmônica (bandonión) ajustada a uma vareta por sobre a guitarra, que lhe permitia tocar os dois instrumentos de forma simultânea. Quando desmontava, a harmônica cantava com voz de soprano, o que lhe proporcionou fama nas tabernas de princípio do século XX.

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[1] Quechua é uma importante família de línguas indígenas da América do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ao longo dos Andes. Possui vários dialetos inteligíveis entre si. É uma das línguas oficiais de Bolívia, Peru e Equador.

[2] Puchero é um tipo de cozido, originalmente da Espanha, preparado em Yucatán, Mexico, Argentina, Paraguai, Uruguai, Perú, sul do Brasil, Filipinas e Espanha, especificamente nas comunidades autônomas de Andaluzia e as Ilhas Canárias. A palavra espanhola "puchero" originalmente significava um pote de cerâmica, antes de ser estendido para significar qualquer vaso e então ao prato nele cozinhado. O prato é, essencialmente, equivalente ao cozido da Espanha, sem corantes (como páprica), usando-se ingredientes locais que variam de uma região para outra.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

MINHA PEQUENA HOMENAGEM A MICHEL LEGRAND



O Mundo da música encontra-se novamente de luto: morreu em Paris, no dia 26 de janeiro de 2019, aos 86 anos de idade, o fantástico compositor Michel Legrand. Mais um insubstituível músico que nos abandona, deixando mais vazio o mundo da música, sem qualquer chance de substituição. 
Michel Legrand, com 84 anos no Festival de Cannes de 2017
Michel Legrand nascido em 24 de fevereiro de 1932, em Paris, no bairro de Ménilmontant, cantado por Charles Trenet, autor de “La Mer”, foi um músico, compositor, cantor, produtor e arranjador francês, cuja carreira de compositor para o cinema, por mais de meio século, granjeou-lhe três Oscars, cinco Grammys, duas Palmas de Ouro, um Bafta (British Academy of Film and Television Arts, entidade independente que apoia, desenvolve e promove as formas artísticas de imagem no Reino Unido) e um Globo de Ouro.
Seus pais, o compositor Raymond Legrand (1908-1974) e Marcelle Der Mikaëlian (irmã do orquestrador Jacques Hélian, de origem armênia) se divorciaram quando Michel tinha três anos. Estudou piano e composição no “Conservatoire de Paris” de 1942 a 1949, principalmente nas classes de Lucette Descaves, Henri Challan e Nadia Boulanger. Apaixonou-se pelo jazz após assistir, em 1947, a um concerto de Dizzy Gillespie (trompetista, compositor-letrista-intérprete e orquestrador de jazz americano, considerado, com Miles Davis e Louis Armstrong, um dos mais importantes trompetistas da história do jazz), com o qual iria colaborar alguns anos mais tarde escrevendo, em 1952, os arranjos para a orquestra de cordas que acompanhava o trompetista em seus concertos europeus.
Em 1951, com apenas 19 anos, escreve os arranjos para a orquestra de seu pai, que o introduz no universo da canção de variedades e começa uma carreira de acompanhador e arranjador para Jacqueline François, Henry Salvador, Catherine Sauvage e Zizi Jeanmaire. Maurice Chevalier o contrata como diretor musical.
Em 1954, por demanda da empresa americana Columbia e graças a Jacques Canetti, produtor musical da Philips, que passou um acordo com esta firma, ele oferece releituras jazzísticas de músicas simples francesas. O álbum “I Love Paris” é um enorme sucesso com oito milhões de exemplares vendidos e o reconhecimento de Legrand se faz internacional. Influenciado por Stan Kenton, ele leva a bom termo uma breve carreira de jazzman como líder: “Holiday in Rome”, em 1955, “Michel Legrand Plays Cole Porter”, em 1957, “Legrand in Rio”, em 1958. Para “Legrand Jazz”, ele grava em New York, em 1958, com Miles Davis, John Coltrane e Bill Evans, tornando-se um dos primeiros europeus a trabalhar com os mestres do jazz moderno. 
O jovem Legrand e seu amor pelo jazz.
Em 1966 faz os arranjos da canção internacional “C’est ci bon”, de Henri Betti e André Hornez, para o álbum de Barbra Streisand “Color me Barbra”.
Algumas composições de Michel Legrand como “La Valse des Lilas” (em inglês “Once upon a Summer Time”), a “Chanson de Maxence” (“You must believe in Spring”), ou ainda o tema principal da trilha sonora original do filme “Un été 42” (“Verão de 42”) (“The Summer Knows”), são resultado de padrões de jazz.
A par de sua paixão pela música de jazz, a virada dos anos 1960 e o surgimento da nouvelle vague vão definitivamente ancorar Michel Legrand no mundo da música de filmes. Ele trabalha para Agnès Varda (“Cléo de 5 a 7”, em 1962), Jean-Luc Godard (“Une femme est une femme”, em 1961, “Vivre sa vie”, em 1962 e “Bande à part”, em 1964) e sobretudo Jacques Demy (“Lola”, em 1961, “Les parapluies de Cherbourg”, em 1964, “Les demoiselles de Rochefort”, em 1967, “Peau d’âne”, em 1970) com o qual ele inventa a comédia musical à francesa. Dessa forma, “Les Parapluies de Cherbourg” é um filme cantado continuamente, onde os diálogos são inspirados pela música, totalmente inovador para a época. 
Michel Legrand compondo.
Em 1966, após ter sido indicado para dois Oscars por seu trabalho em “Les Parapluies de Cherbourg”, ele decide tentar sua sorte em Hollywood, instalando-se em Los Angeles. Sua amizade com Quincy Jones e Henry Mancini o ajuda muito a fazer um lugar no meio altamente concorrido e lhe permite encontrar os letristas Alan e Marilyn Bergman. Em 1968 ele compõe a trilha sonora original de “L’Affaire Thomas Crown”, de Norman Jewison e, particularmente, a canção “The Windmills of your Mind” (“Les Moulins de Mon Coeur”), para a qual lhe será entregue, no ano seguinte, o Oscar de melhor canção original.
Em 1969, Legrand escreve a trilha sonora para o filme “The Happy Ending”. Sua principal canção, “What are you doing for the rest of your life”, com letra de Alan e Marilyn Bergman e interpretada por Michael Dees, foi indicada para o Oscar da Academia como melhor canção original, sendo derrotada por “Raindrops keep falling on my head”. Com a mesma música, Legrand venceu o Grammy Award de 1972 para melhor arranjo instrumental no acompanhamento de vocalista, para uma versão interpretada por Sarah Vaughan. Além da versão recebedora de prêmios, a canção foi interpretada por vários artistas, destacando-se a execução de Barbra Streisand, Johnny Mathis, Shirley Bassey e Frank Sinatra.
Dois anos mais tarde, ele recebe o Oscar de melhor música de filme pelo filme “Un Été 42” (“Verão de 1942”), de Robert Mulligan (1971), cuja canção “The Summer Knows”, por Barbra Streisand, alcança o sucesso. Entre 1971 e 1975, nomeado vinte e sete vezes ao “Grammy Award”, ele conquista cinco prêmios. Em 1982, Michele Legrand compôs “How do you keep the music playing?”, com letra de Alan e Marilyn Bergman, para a trilha sonora do filme “Best Friends”, quando ela foi introduzida por James Ingram e Patti Austin. O filme foi estrelado por Burt Reynolds e Goldie Hawn e a música foi uma das três com letra de Alan e Marilyn Bergman indicadas para o Oscar de melhor canção original da 55ª realização da Academy Awards. Obtém um terceiro Oscar por “Yentl”, de Barbra Streisand, em 1983. No mesmo ano ele compõe a trilha sonora de “Jamais plus Jamais”, de Irvin Kershner, último James Bond com Sean Connery, cuja canção título (“Never Say Never Again”) é escrita por Alan e Marilyn Bergman. Ao todo, Michele Legrand compôs mais de duzentas músicas para o cinema e a televisão. 
A descontração de Michel Legrand
Gravou com várias personagens da canção em gêneros variados: Catherine Sauvage, Henri Salvador, Charles Aznavour, Zizi Jeanmarie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Jack Jones, Ella Fitzgerald, Perry Como, Lena Horne, Kiri Te Kanawa, James Ingram, Johnny Mathis, Barbra Streisand, Frankie Laine, Nana Mouskouri e Mireille Mathieu, para citar alguns.
Foi casado com Christine Bouchard e depois com Isabelle Rondon. Separado de sua última companhia, a harpista Catherine Michel, em 2013, desposou, em 16 de setembro de 2014, a comediante Macha Méril, com quem já tinha tido uma ligação quarenta anos antes. Foi pai de Dominique Rageys (nascida em 1952), fundadora, com seu marido, do rallye “Marrocos Clássico”, de Hervé Legrand (1959), pianista e compositor, de Benjamin Legrand (1962), cantor, de Eugénie Angot (1970), cavalheiro de nível internacional.
Em 5 de dezembro de 2007, a faculdade de música da Universidade de Montréal, Quebec, lhe outorgou um doutorado honorífico para sublinhar o caráter excepcional de sua carreira. Em 2009, ao completar cinquenta anos de carreira, a “Cinémathèque Française”, em Paris, lhe rendeu uma homenagem, com a projeção da maior parte dos filmes com trilha sonora escrita por Michel Legrand. Na mesma ocasião, deu três concertos na sala Plevel e múltiplas entrevistas à rádio e televisão.
Em 2013 co-escreveu, com Stéphane Lerouge, especialista de música para cinema, sua primeira autobiografia “Nada é grave nos agudos”, onde ele evoca de maneira livre e sem cronologia, sua formação, encontros, escolhas de percurso, seu gosto pela música ao plural.
2014 viu Michel Legrand ainda realizando 60 concertos por todo o globo. Seu novo balé, coreografado por John Neumeier, do Hamburg Ballet, abriu para um fenomenal sucesso em Costa Mesa, California, como um prelúdio para um giro pelos Estados Unidos. Seu novo concerto para harpa iniciou na Filadélfia, em fevereiro de 2014 e sua nova ópera, “Dreyfus” iniciou na Ópera de Nice em maio de 2014. Para coincidir com o 50º aniversário de “Les Parapluies de Cherbourg”, Michel Legrand conduziu sua versão para oratório no teatro Châtelet. Foram cinco excepcionais apresentações a preceder uma excursão pelo mundo.
Em março de 2014 Legrand escreveu uma maravilhosa trilha sonora para o novo filme de Xavier Beauvois “Love is a Perfect Crime”. O filme foi apresentado no Festival de Cannes em maio de 2014 e indicado para dois outros dois festivais. Durante 2014 ele realizou mais de 50 concertos na França, Irlanda, Japão, Argentina, Brasil, Rússia, EUA, Dinamarca, Holanda e Bélgica.
2015 foi um ano bastante ocupado, com concertos ao redor do mundo, incluindo um giro pela América do Sul com o soprano Natalie Dessay e a gravação de um novo álbum “Michel com Amigos” lançado em novembro daquele ano. Em janeiro de 2016 Legrand fez uma importante apresentação com uma Orquestra e os amigos tenor Vincent Niclo, sopranos Natalie Dessay e Maurane, no Palais de Congrès, Paris, no concerto intitulado “Michel Legrand convida Vincent Niclo”. Em maio de 2016 Legrand esteve em Kalamazoo, Michigan, para receber um doutorado honorário da Western Michigan University, como parte de sua primeira visita ao Irving Saint Gilmore International Keyboard Festival. Ainda em Kalamazoo, Legrand realizou uma Première Mundial Oficial, Concerto para Piano e Orquestra com a Kalamazoo Symphony Orchestra.
O verão de 2016 foi preenchido com Festivais na Argentina e França; o ano continuaria extremamente ocupado com concertos por toda a Europa. O ano de 2017 foi rico, com a excursão do aniversário de 85 anos de Michel Legrand ao redor do mundo e o lançamento de dois preciosos álbuns. 
O maduro Legrand em toda a sua jovialidade.
Michel Legrand é o único compositor europeu com uma filmografia que inclui nomes como Orson Welles, Marcel Carné, Clint Eastwood, Norman Jewison, Louis Malle, Andrzej Wajda, Richard Lester, Claude Lelouch, para nomear alguns poucos.

“Desde que era um menino, minha ambição sempre foi viver completamente cercado pela música. Meu sonho é não perder nada. É por isso que nunca me assentei numa única disciplina musical. Adoro executar, conduzir, cantar e escrever, em todos os estilos. Assim, ponho minha mão em tudo – não apenas um pouco de tudo. Muito pelo contrário. Faço todas essas atividades de uma vez, seriamente, sinceramente e com profunda dedicação.”

Era assim que Michel Legrand descrevia seu status, como um músico atípico e compulsivo que não podia ser confinado; ou antes, seus vários status como compositor, maestro, pianista, cantor, escritor e produtor. Derrubando as barreiras entre o jazz, música clássica e música mais leve, ele sentia-se em casa em qualquer situação musical.

“Eu queria ter mais percepção daquilo que eu posso fazer, mesmo que isso signifique ir longe demais. Se eu quero que meu navio continue singrando as ondas, devo tentar novas velas e ver onde elas me levarão”

É difícil selecionar músicas de um compositor que criou trilhas sonoras para mais de duzentos filmes! Muito mais se considerarmos o espaço físico de uma postagem. Por isso, fio-me em meu gosto pessoal (e os leitores, que se sujeitem a ele), para colocar uma pequeníssima amostra, em ordem cronológica, do que produziu o grande Michel Legrand.
Iniciamos, portanto, com “Les Parapluies de Cherbourg” (“I will wait for you”), uma das canções da trilha sonora do filme musical romântico dramático de mesmo nome (no Brasil, com o nome de “Os Guarda-Chuvas do Amor”), de 1964, com a minha musa do cinema francesa, Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo. Esta música, transformou-se num padrão popular mundial, principalmente devido à adaptação para o inglês por Norman Gimbel (“I will wait for you”), que foi inicialmente gravada por Nana Mouskouri e, posteriormente, por cantores famosos, entre eles Frank Sinatra, Tony Bennett, Louis Armstrong, Liza Minelli e Connie Francis, além de várias gravações instrumentais. Vamos apresentar a gravação em que, no filme, os dois atores principais cantam dublados por Danielle Licari e José Bartel.
A seguir, apresentamos “Les Moulins de Mon Coeur”, uma das canções da trilha sonora do filme “L’Affaire Thomas Crown”, posteriormente vertido para o inglês, com o nome “The Windmills of you Mind”, com o qual conquistou um Oscar da Academia. E para interpretá-la, nada mais, nada menos do que o seu autor, Michel Legrand.
A seguir uma das minhas preferidas de Michel Legrand, “What are you doing the rest of your life”, cantada pelo meu intérprete masculino favorito, Johnny Mathis, numa interpretação notável. A letra do casal Bergman é extraordinária e por essa razão me permito aqui introduzi-la para que meus leitores possam apreciá-la, com a sua tradução em português.
E chegamos à minha grande favorita das composições de Michel Legrand, “The Summer Knows” que, conforme comentado acima, é a melodia principal da trilha sonora para o filme “Un Été 42” (“Verão de 1942”), em inglês “Summer of ‘42”, de 1971, pela qual foi agraciado com mais um Oscar da Academia. As escolhas para o intérprete são, novamente, inúmeras, mas como ainda não apresentei a minha preferida feminina, eu faço questão de trazer aos meus leitores a fantástica Barbra Streisand, interpretando “The Summer Knows”. A letra de Alan e Marilyn Bergman é novamente primorosa e me permito também apresentá-la aos meus leitores para que com eles possam acompanhar a interpretação da melodia. E posto que no filme, a melodia é executada instrumentalmente, abuso da paciência dos meus leitores, trazendo para essa maravilha uma interpretação instrumental com a orquestra do compositor e com o piano maravilhoso do próprio Michel Legrand
“A melodia é uma senhora à qual eu sempre serei fiel!”
E para encerrar, de 1982, “How do you keep the music playing?” que, além de ter sido indicada para o Oscar da Academia, teve vida própria como um sucesso popular mundial, interpretada por luminares como Johnny Mathis, Tony Bennett, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Celine Dion e Shirley Bassey, entre muitos outros. Mas, em respeito ao próprio compositor, vou apresentá-la na interpretação dos que a introduziram no filme para o qual ela foi composta: James Ingram e Patti Austin.
Espero que com a curtíssima amostra, os meus leitores possam ter uma tênue ideia de quem foi Michel Legrand, mais um gênio da música, que nos abandona agora, para prosseguir com seus concertos, a partir de então, à plateia celeste. E com isso eu me despeço dele ...