Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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domingo, 9 de agosto de 2020

ELOÁ (ENSAIO)



Era o sereno ano de 1952, em que eu vivia o meu oitavo ano de vida. Aquela vida maravilhosa que tem todo o menino de oito anos. Para um menino dessa idade não importa muito ser rico ou pobre, ter muito ou ter pouco, estar num colégio chique ou num pequeno Grupo Escolar da periferia, morar no bairro Moinhos de Vento ou no simples bairro do Partenon.
Eu era assim, um menino da classe média baixa, que morava no bairro Partenon, na cidade de Porto Alegre, às margens do rio Guaíba, distando uns seis quilômetros do centro da cidade, lugar aonde, naquele tempo, as pessoas iam apenas para fazer compras ou a um cinema mais fino ou, ainda, a um restaurante mais requintado. Sim, algumas pessoas até moravam no centro da cidade, que era considerado um lugar chique para morar, com imóveis muito valorizados para compra e aluguéis bem acima da média. Fora do centro ficavam apenas os bairros, uns mais simples, outros mais elegantes. O Partenon era um dos bairros mais simples de Porto Alegre e eu morava numa das ruas mais simples do Partenon, a rua Humberto de Campos, sem calçamento, numa pequena casa de madeira, verde, com o número 180. Numa das esquinas dessa rua com a Av. Bento Gonçalves, localizava-se a “Nova Petisqueira”, uma espécie de bar, restaurante, padaria e armazém, cujos proprietários eram dois portugueses muito amigáveis. A rua começava com um trecho plano de uns 100 metros e então apresentava um trecho em aclive, com cerca de 150 metros, seguido por novo trecho horizontal, desta feita, bem mais longo, até encontrar o grande trecho em aclive que acabava em outro bairro. Nossa casa ficava mais ou menos na metade da primeira subida. E este era o nosso pequeno mundo da época.
Bem, na verdade havia mais mundo. Para estudar, eu frequentava às aulas do pequeno Grupo Escolar Otávio Rocha, situado na Av. Bento Gonçalves, à cerca de uns 300 metros da minha rua, onde, naquela época, a gente podia, tranquilamente, ir a pé, sozinho, todas as manhãs. Eu cursava então o terceiro ano do curso primário (acho que hoje é chamado de elementar) e a minha professora era a bondosa Dona Célia.
Aos oito anos de idade uma criança não se lembra de tudo, mas apenas guarda na lembrança algumas poucas coisas que mais lhe marcaram a vida. E Eloá – simplesmente Eloá porque nunca lhe soube o sobrenome - foi uma dessas, razão por que nunca a esqueci. Ela era pequena e era tímida, como eu. Mas era linda nos seus oito anos! O que mais me atraía a ela, eram os seus lindos olhos amendoados que me faziam dizer aos meus pais, em casa, que ela se parecia com uma chinesinha. Mas isso eu não dizia a ela, talvez até me imaginasse lhe dizendo, mas guardava apenas para mim. E como éramos muito pequenos e tímidos, nada nos dizíamos; mas às vezes nos olhávamos, com aqueles olhares fugidios de crianças de oito anos. E eu a amava à minha maneira, penso, como uma criança de oito anos é capaz de amar a outra. E nas minhas fantasias inocentes, imaginava que ela me amasse também, que havia uma reciprocidade da sua parte. Assistíamos juntos às nossas aulas, brincávamos juntos nos recreios, eu acho; e nada mais.
Mas tenho dela duas lembranças muito vívidas. Na semana da Pátria era costume fazer com que os escolares de todas as idades participassem das solenidades patrióticas. Entre outras, tais atividades incluíam o transporte da tocha acesa, de uma escola para a outra, para inflamar a pira da Pátria, que permanecia acesa durante toda a semana. Pois bem, para a minha fortuna, naquele ano eu fui escolhido para transportar a tocha da escola que ficava antes da nossa, na ordem selecionada, para inflamar a pira do Otávio Rocha. Eu estava muito orgulhoso, no meu uniforme todo branco de educação física – tênis, meias, calção e camiseta de física, tudo branquinho e impecável - e vi, ao chegar à escola, Eloá esperando para me ver passar correndo com a tocha na mão, em seu guarda-pó branco, igualmente impecável, à entrada da escadaria que conduzia à pira. Poucas vezes fiquei tão feliz em minha vida! Naquele momento eu era o herói da escola, o seu representante, e Eloá presente, estava me assistindo e vibrando por mim, mesmo que eu tivesse que subir numa cadeira, na hora de inflamar a pira, porque ela era muito alta para mim!
Finalmente chegou a oportunidade da minha vida, quando a Dona Célia resolveu encenar, em nossa classe, a história do “Chapeuzinho Vermelho”. Os personagens seriam uma meia dúzia de alunos – a Chapeuzinho, a sua mamãe, o Lobo Mau, a sua vovó e os caçadores; os restantes seriam espectadores. Eloá foi selecionada como Chapeuzinho Vermelho e eu fui selecionado como um dos caçadores que a salvariam, e à sua vovó, das garras do Lobo Mau. Foi ali que eu tive a grande chance de mais me aproximar dela e, mais do que isso, ser o seu salvador; nunca lutei tão bravamente, em minha vida, como naqueles dias de ensaio e de apresentação da peça, para salvar a minha Eloá das garras do Lobo Mau. Até hoje a vejo no seu casaco e capuz vermelho, alegremente caminhando pela floresta para levar os bons doces que a sua mamãe fazia para a sua vovozinha. E nunca esqueci das canções que ela cantava, bem como de todas as demais. Realmente foram os meus dias de glória.
Isso foi quando tínhamos oito anos. Quando então aos trinta anos, já casado e com família constituída, precisei um dia ir apanhar uns documentos num dos órgãos que antecederam ao atual INSS (foram tantos que não lembro mais o nome, mas talvez tenha sido o IAPI). Naquela ocasião, eu estava sendo atendido por uma moça e notei, mais ao fundo e meio às ocultas, uma moça dizendo a outra: “Olha, aquele lá é o meu antigo coleguinha de Otávio Rocha e meu namoradinho”. Mas ela não se atreveu a vir até mim e eu, que então a reconhecera, não fui tão bravo como no tempo do Lobo Mau, para chama-la e conversarmos, depois de tanto tempo sem nos vermos. Nem para dizer que a reconhecera e que tinha muita vontade de falar com ela, tomar um café ou qualquer coisa assim. E esse foi o nosso último “encontro”. Nunca mais a vi de novo, até hoje!
E então, finalmente, hoje, eu voltei a encontrar a Eloá! No meu sonho! Mas foi um sonho tão real, mas tão real, que foi como se fosse a mais concreta realidade. Ela não tinha os meus setenta anos, ou perto, mas também não era a menina de oito anos que eu conheci e abandonei, mas nunca esqueci. Ela deveria ter uns quarenta anos, e a minha idade não fez parte do sonho, não era, nele, algo importante. A única coisa importante nele era a Eloá, embora, para a minha maior satisfação e alegria, ela tivesse sentido enorme prazer em ter-me reencontrado. Afinal, um sonho é sempre um sonho ...!
No sonho, eu estava numa espécie de saguão de um grande hotel, um amplo saguão com enormes poltronas e sofás espalhados pelo fino piso de cerâmica vitrificada, recoberto aqui e lá por legítimos tapetes persas de todos os tamanhos. Lembro também que havia, num canto mais retirado, um conjunto de mesas, ricamente decoradas, onde os hóspedes podiam ter alguma refeição leve ou alguma bebida e, de fato, algumas estavam ocupadas e servidas. Era um hotel de luxo, sem dúvida alguma.
Eu estava sentado numa enorme e confortável poltrona, voltada para a porta de entrada principal, lendo um jornal local. Distraído pelos passos de alguém, levantei a cabeça da minha leitura e enxerguei uma jovem senhora, linda, calmamente caminhando na minha direção e me olhando, com determinação, como se estivesse indo ao meu encontro, com a certeza de que me encontraria ali. Um som ambiente tocava uma conhecida melodia que eu adoro, “Isn’t it Romantic?”, orquestrada, muito adequada ao ambiente do hotel. A jovem senhora portava um vestido verde escuro, discretamente lindo, sem decote, mas com alguns recortes desenhados, acima do busto, e tinha apenas os joelhos à mostra, como convém a uma jovem senhora. O penteado era simples, preso para cima, numa figura que, de repente, me lembrou a Audrey Hepburn, com a diferença de que era muito mais bonita do que a atriz. Calçava um sapato simples, mas fino e discreto, com salto que não era muito alto, embora ela também não fosse muito alta. Deu para perceber que, logo que entrou e à medida que avançava, ia tirando do rosto os óculos de sol, o que me permitiu enxergar claramente o seu rosto bonito.
E comecei a achar a situação um tanto estranha, porque à medida que ela avançava na minha direção, ela me olhava fixamente e, vendo que eu a enxergara, lentamente começou a esboçar um tímido e lindo sorriso, que se ampliava à medida que de mim se aproximava. E eu, completamente incrédulo, comecei a acreditar de quem se tratava! O mesmo feitio de rosto, a mesma boca, o mesmo nariz e, principalmente, aqueles mesmos olhos amendoados que a mais de 60 anos haviam cativado o meu coração. Era, com certeza, a minha querida Eloá! Quando ela estava a uns três metros de mim, eu levantei da poltrona, em sua direção, ainda sem acreditar, boquiaberto, e sem saber o que dizer apenas consegui falar:

- Eloá?!

Ao que ela apenas respondeu:

- Nelson!

E ficamos apenas nos olhando, por alguns muitos segundos, como se estivéssemos tentando resgatar naquele tempo, os mais de sessenta anos que nos separaram do nosso último encontro. E então ela falou:

- Nelson, há mais de trinta anos não nos encontramos!

Ao que eu respondi:

- Mas não são trinta, Eloá, são sessenta anos!

O que me pareceu bastante estranho, pois eu sabia que eram mais de sessenta de anos. Mas os sonhos são sempre assim, com muitas coisas que não fecham, que não coincidem com a realidade. E então, na velocidade do pensamento, apenas, primeiro percebi que Eloá, realmente, não aparentava ter os mesmos setenta (ou próximo disso) anos que eu tenho, mas apenas os quarenta que mencionei, o que justificava ela dizer que apenas há trinta não nos víamos. Depois, lembrei do “encontro” que, após o tempo do colégio, tínhamos tido, por acaso, no seu local de trabalho. Com isso, as misturas dos sonhos com a realidade também já ficavam um pouco mais coerentes pois isso nos distanciava de “apenas” uns quarenta anos. E no sonho, eu então lhe perguntei:

- Posso te dar um abraço?

Ao que ela respondeu com muita convicção e reciprocidade:

- Claro, Nelson, eu quero muito receber esse abraço!

E eu a abracei, o abraço mais terno, calmo e prolongado que já dei em alguém, desejando e esperando que aquele abraço durasse para sempre. E o abraço que tive de volta, foi igualmente terno, o mais doce que já recebi. E, finalmente, nos separamos, os dois relutantes, e ficamos novamente a nos mirar, como se, com o olhar recíproco, conseguíssemos recuperar todos os anos passados.
Lembro de ainda ter perguntado a ela:

- Eloá, por onde andaste todos esses anos? Eu te procurei por todos os lugares e nunca tive uma só noticia tua!

E ela estava se afastando, em direção àquelas mesas que estavam ocupadas e ainda a escutei queixar-se:

-Ahhh, Nelson, eu andei por muitos lugares e tive muitas aventuras, mas as pessoas me trataram muito mal.

E como se sofresse, indicava por gestos as partes do seu corpo, que ainda lhe causavam dor; eu não entendia o que ela queria dizer com aquilo e não tinha como consolá-la.... E, de repente, o sonho não tinha mais palavras e não havia mais sonho a sonhar. E uma névoa surgiu do nada, tênue no início, e então cada vez mais pesada. E assim como Eloá tinha vindo, mais linda do que jamais a vira, assim ela se foi de mim e eu nada pude fazer, além de sentir uma profunda tristeza ...
Mas reencontra-la, mesmo que em sonho, foi algo maravilhoso! Foi uma sensação muito estranha a que senti ao despertar. Foi como se eu tivesse cumprido o objetivo final da minha vida e agora pudesse, finalmente, descansar. Uma clara ideia de pressentimento, coisa que nunca havia sentido até hoje. Vou esperar para ver o que o futuro me reserva. Mas haja o que houver, o sonho terá valido à pena porque, finalmente, após tantos, voltei a encontrar o meu “Chapeuzinho Vermelho”, a minha querida Eloá dos meus oito anos!

PS: À Eloá, na esperança de que ela retorne, um dia ...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ALTO DA BRONZE DOS MEUS OITO ANOS

INTRODUÇÃO

A construção desta praça monumento, bem como da música homônima, são anteriores ao início da minha existência, já vou avisando. Sou velho, com muito orgulho, mas não tanto. Mas são essas lembranças que temos, muitas vezes – e agora já sei, pela experiência que tenho, não são privilégio meu, mas que muitas pessoas “sofrem” da mesma felicidade -, de coisas que não conhecemos e, muitas vezes, nem sabemos de onde vêm.
Eu deveria ter cerca de oito anos ou menos, quando pela primeira vez ouvi falar em “Alto da Bronze”, com certeza, pela boca da minha mãe, como acontece com frequência, com as boas coisas que nunca esquecemos. Conheci primeiro a composição musical e, claro, motivado pela curiosidade, fui então informado da existência de uma praça com esse nome.
Acontece que eu era o “Zangado” da família, o “pavio curto”, aquele que não gostava de levar desaforo para casa, mas que, muitas vezes, levou as dores quando mal sucedido e as glórias quando bem. E não foram raras as vezes em que voltei para casa com a “cabeça quebrada”, consequência de alguma briga ou queda por alguma proeza de triste epílogo. Creio que a primeira vez que isso ocorreu – embora não tenha sido o primeiro acidente – foi quando eu tinha esses famosos oito anos de idade. E minha mãe, muito mais para me consolar e elevar o meu moral, cantou-me pela primeira vez – e pelas demais que seguiram – essa composição que eu não conhecia, denominada “Alto da Bronze”. São, portanto duas histórias paralelas: a da praça e a da música; e embora eu tenha primeiro ouvido a segunda, como ela veio da primeira, vou iniciar pela praça.
Eu quero dedicar essa postagem à minha querida mãe, Mariazinha, minha iniciadora de infinitos conhecimentos, que além de ter brincado nessa praça, adorava a composição e a tocava nos instrumentos que aprendeu a tocar, nas suas raras horas de “ócio produtivo”. Mas quero também dedica-la ao meu tio Aor, o mais jovem e teimoso irmão da minha mãe, ainda cheio de saúde nos seus recém-feitos 87 anos, a quem, segundo testemunho dela, “puxei” em muitas coisas, com muita alegria. Atualmente ele está com o ouvidinho meio ruim, mas tenho certeza de que, para essa música, sua audição não há de falhar; e a visão está ótima para a leitura da postagem. Estou certo de que ele vai apreciar a postagem e ajudar a enriquecê-la.

A PRAÇA

Atualmente, seu nome oficial é Praça General Osório. É uma praça localizada próximo da chaminé do Gasômetro, no Centro Histórico de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, minha cidade natal. Ela está situada entre as ruas Duque de Caxias – onde, entre outros verdadeiros monumentos da cidade, situam-se a Catedral Metropolitana, o Palácio do Governo e a Praça da Matriz -, Coronel Fernando Machado e General Portinho e foi, até o início do século XX, um largo antes de se tornar praça. Teve, ao longo de sua história, quer como praça, quer como largo, diversos nomes: Alto do Manoel Caetano, Alto do Senhor dos Passos, Alto da Conceição e Ladeira de São Jorge, antes de tornar-se o Alto da Bronze, com o qual eternizou-se na memória de Porto Alegre e dos porto-alegrenses.
Figura 1 - O Alto da Bronze, no centro da foto moderna,
à direita; à esquerda mais acima, a usina do gasômetro
De acordo com os de melhor memória, o Alto da Bronze começou a surgir no mapa da cidade por volta de 1800, quando era apenas um espesso matagal que servia como depósito de lixo para os poucos moradores da redondeza, mais utilizado por tatus e tamanduás do que pelo bicho-homem. Não podemos esquecer de que, nessa época, afinal de contas, a corte portuguesa do príncipe D. João VI nem sequer havia ainda chegado nessa pobre colônia lusitana. Com o passar dos anos, os colonos açorianos começaram a construir suas casas na rua Formosa (hoje Duque de Caxias) e na parte alta da rua do Arvoredo (hoje Fernando Machado). Na última quadra dessas duas ruas, nenhuma casa foi construída e aquele espaço livre viria, muitos anos mais tarde, a ser usado pelos moradores.
Figura 2 - A praça do "Alto da Bronze", vista de cima,
com as quadras polivalentes, o quiosque e o parquinho
Tanto com relação à praça, como à música, sempre tive algumas dúvidas sobre o nome e a letra da composição. Minha mãe nunca me contou o significado de “Alto da Bronze” e tampouco sobre os seus “ratos brancos”, da letra da música. O nome da praça tem uma história bem interessante e, em alguns pontos um pouco discrepantes.
O político, historiador, educador e escritor Antônio Álvares Pereira (Coruja, adotado), nascido em Porto Alegre em 31 de agosto de 1806 e morto em 4 de agosto de 1889, escreveu um livro chamado “Antigualhas”, sobre e vultos e eventos do Rio Grande do Sul, onde relata a origem do nome do local. Segundo ele, habitava na área uma morena, estranha e poderosa, chamada Felizarda, mas conhecida apenas por Bronze, por ser morena. Dedicava-se a tirar a sorte com as cartas, fazer mandingas e despachos, bem como rezas e benzeduras para espantar o mau olhado, logo ganhando o respeito e consideração das pessoas mais humildes, entre as quais encontravam-se as prostitutas das imediações; boatos diziam que, embora seus modos discretos, a própria “Bronze” praticava a prostituição, embora mantendo um nível bem mais alto na seleção dos seus fregueses. Na época, era comum dar aos bairros nomes que lembrassem alguma característica importante ou o nome ou apelido de um morador que se sobressaísse. E tal foi a importância adquirida pela famosa morena Felizarda, por suas boas obras, de todas as espécies, que logo a área passou a ser conhecida apenas como “Alto da Bronze”. Chego a ver os malandros da época, quando perguntados sobre o seu destino, numa bela noite de sábado, apenas respondendo que iam ao Alto da Bronze, para não ter que dizer que, na verdade, estavam indo aos prostíbulos da área do gasômetro, Washington Luís, Duque de Caxias e Demétrio Ribeiro (nomes atuais).
Figura 3 - O quiosque da Praça General
Osório visto da Rua Duque de Caxias.
Há outras versões dessa história da “Bronze”, mais picantes, que dizem estar documentada, mas vou deixa-las à curiosidade dos meus leitores, respeitando a presença das eventuais leitoras. É sempre possível que o autor do livro, ao escrevê-lo, tenha mantido a discrição reinante à época em que foi escrito.
Desde 1833 a região aparece como referência, nas atas da Câmara Municipal, como "Alto da Bronze". Em 1865, o município resolveu adquirir o terreno vazio do Alto da Bronze, a fim de ali fazer uma praça para instalação de um chafariz da Companhia Hidráulica Porto-Alegrense, para abastecimento de água potável à população. O herdeiro dos terrenos, João Soares de Paiva, que residia no Rio de Janeiro, fez propostas extorsivas para a venda. No mesmo ano a Câmara pediu auxilio ao presidente da Província (Estado daquele tempo), Visconde da Boa Vista que, em 1866, desapropriou a área, declarando-a de utilidade pública.
Em 1887 iniciou-se o ajardinamento da área e, em 1920, ela passou por uma remodelação completa, visando atenuar a ladeira muito íngreme onde se inseria. Em 1926, no governo do Intendente Otávio Rocha, foi inaugurado o 1º Jardim de Praça de Porto Alegre, embasado nas teorias de educação, esporte e lazer do professor Gaelzer, num trabalho pioneiro na América Latina. Por volta de 1930, o mesmo Otávio Rocha promoveu a reforma da praça, transformando-a em praça de esportes. Uma reforma executada em 1970 deu-lhe o aspecto atual e nela existem duas placas: Alto da Bronze e General Osório.

O SAMBA

Mas a glória do “Alto da Bronze” não parou por aí. Pelos idos de 1930, já conquistada a simpatia da vizinhança, acabou sendo imortalizado num samba, fruto da parceria entre duas figuras muito conhecidas da Porto Alegre daqueles tempos: na melodia e arranjo, o pianista e compositor Paulo Coelho, o Gordo; assinando a letra, Plauto de Azambuja Soares, o “Foquinha”, acadêmico de Direito, cronista de rádio e jornal (repórter da “Folha da Tarde”), dublê de compositor e nascido na mesma área. A composição teria sido lançada pelos cantores Alcides Gonçalves e Horacina Correa, em diferentes horários da programação de 19 de novembro de 1937, na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, alcançando tal sucesso que a incluiria no repertório do pianista cuja orquestra se preparava para uma temporada pelos cafés e emissoras de Buenos Aires. A composição agradou de tal forma aos porteños que acabou sendo gravada, em 1938, quando da inauguração da Rádio Municipal de Buenos Aires, pela RCA Victor argentina, em um disco de 78 rotações, recebido com grande festa em seu retorno ao Brasil. Tal, o único registro fonográfico da Orquestra de Paulo Coelho. Esta, a gravação de "Alto da Bronze" que apresentamos aos nossos leitores, interpretada pela vocalista da orquestra, Horacina Correa. A letra da composição pode ser alcançada por este "link".
Figura 4 - Paulo Coelho, o Gordo, com
membros da orquestra à época da gravação.
Paulo Coelho iniciou sua carreira artística aos 14 anos de idade, atuando como pianista na Confeitaria Central, ajudando no sustento da família após o falecimento do pai, onde ficaria até 1930, quando foi convidado pela Companhia de Revistas Cândida Villa para realizar uma excursão à Argentina. Em Buenos Aires fez sucesso apresentando-se em diferentes Rádios locais. Seguiu depois para a cidade de Córdoba, onde acabaria se casando com uma argentina, que faleceu logo depois do nascimento de seu primeiro filho, o que o fez retornar ao Brasil. Em 1933, já de volta à Porto Alegre, ingressou na Orquestra da Rádio Gaúcha, atuando no Café Colombo, então o mais famoso da cidade. Em 1934 foi para o Rio de Janeiro e, em companhia do saxofonista Marino dos Santos, passou a trabalhar no Cassino Atlântico, integrando a orquestra de Romeu Silva, apontada na época como a mais famosa da capital federal. Voltou desiludido à Porto Alegre, sem ter recebido nenhuma remuneração por seu trabalho. Em 1935, quando da fundação da Rádio Farroupilha, foi contratado por ela, deixando a Rádio Gaúcha. Por essa época, dirigia também a orquestra do Café Flórida. Morreu de tuberculose, em 21 de setembro de 1941, com incríveis 31 anos de idade.
Plauto de Azambuja, seu companheiro de composição, muito pouco saboreou o seu sucesso, sendo vitimado num acidente de automóvel de corridas, do circuito automobilístico do bairro da Tristeza, em 5 de abril de 1938, com apenas 23 anos de idade.
Figura 5 - Horacina Correa, vocalista
da Orquestra do "Gordo".
Mulata nascida no Rio Grande do Sul, Horacina Correa iniciou a carreira artística na década de 1930, inspirando-se em Carmen Miranda. Contratada pelo empresário Walter Pinto foi uma das atrações do Teatro Recreio. Realizou temporadas consecutivas em Buenos Aires, onde possuía prestígio comparável ao de Carmen Miranda, nos Estados Unidos. Ao final da década de 1940 mudou-se para São Paulo e Rio de Janeiro, onde gravou discos e atuou no cinema. No Brasil, Horacina Corrêa gravou, entre 1945 e 1947, três discos pela Continental. Participou, em 1951, do LP de 10 polegadas que o maestro Fon-Fon gravou em Londres com sua orquestra, nunca lançado no Brasil. Horacina gravou ainda, em nosso país, mais dois LPs de 10 polegadas pela Musidisc, em 1955/56, e outro 78 nessa mesma marca. Tempos depois, migrou para a Europa, desaparecendo do cenário artístico. O jornalista Flávio Alcaraz Gomes afirmava tê-la visto como “artista cubana” em uma boate de Roma, nos anos 1950. Outros relatos sugerem que Horacina teria se radicado no Egito, como dona de um hotel, no Cairo. A pior versão diz que ela teria sido vitimada num atentado terrorista.
A orquestra de Paulo Coelho, o Gordo, quando da gravação apresentada, era constituída pelos seguintes componentes:
Horacina Corrêa - Vocalista
Ernani Oliveira - Trompete
Marino dos Santos - Clarinete
Fritz Preuss - Sax Tenor
Waldemar Moura - Trombone
Antoninho Gonçalves – Cavaquinho
Paulo Coelho - Piano
Flávio Corrêa - Contrabaixo
Oscar Corrêa - Bateria
Juvenal e Walter Gonçalves – Percussão
Anos mais tarde, as gaúchas Elis Regina, Zilah Machado e Lourdes Rodrigues, apresentariam as suas versões da homenagem musical ao “Alto da Bronze”. Para os que quiserem comparar, seguem as gravações de Lourdes Rodrigues (acompanhada pelo pianista gaúcho Geraldo Flach) e de Elis Regina.
Como mencionei acima, sempre tive também uma enorme curiosidade sobre o trecho da letra do “Alto da Bronze”, que mencionava o “rato branco”. Infelizmente, à época, minha mãe não conseguiu satisfazer a minha curiosidade; de forma que só durante a minha pesquisa consegui a resposta que submeterei à crítica do meu tio Aor para testar a sua veracidade. Segundo uma das fontes pesquisadas, “Rato Branco” era o apelido dado aos guardas municipais da época, em virtude das fardas brancas que envergavam, impecavelmente brancas. Segundo ele, a qualquer travessura da molecada, ou mesmo brigas entre grupos rivais, eles apareciam sem aviso, como verdadeiros ratos surgindo de suas tocas, marcando a constante presença da lei.
Conforme eu previra, meu tio Aor visitou o “blog”, leu a presente postagem e teceu alguns comentários, tão interessantes, que solicitei a sua autorização para inseri-los. Tendo ele prontamente aquiescido, apresso-me a fazer este pequeno adendo à minha postagem, que só faz muito enriquecê-la. Pois além de dizer que ela lhe trouxe muitas lembranças dos seus seis aos oito anos de idade (olhem a coincidência com a letra da música), onde tanto brincou, lembrou-se até mesmo do zelador do Alto da Bronze (qual a praça que não tinha, então, o seu  zelador?), que chamava-se Ângelo, segundo ele, “homem muito bom”! Disse mais, que aos finais de tarde realizavam concursos de lutas, na areia colocada ao final escorregador. E, como não poderia deixar de ser, infalivelmente ele vencia sempre, fazendo jus ao prêmio, que era então ... um PICOLÉ! Com o tempo, ele acabou sendo proibido de participar das lutas porque vencia sempre; antes, já havia sido suspenso por 30 dias, porque numa “peleia” dera um soco no “beiço” do adversário, que ficara sangrando, assim justificando a expulsão; mas que o soco compensara, em muito, a suspensão. Claro que ele conhecia e se lembrava perfeitamente bem da melodia, que ainda cantarolava, volta e meia. E, pasmem(!), acrescentou: “Eu sou um grande admirador de Paulo Coelho e conheci muito bem a vocalista Horacina Correia, era minha vizinha de rua e, mesmo, de calçada”. Como é fácil perceber, a recompensa pela postagem excedeu em muito a pretendida, pelo carinho da resposta remetida e pela importância das novas informações.
Fui conhecer e tirar fotos do “Alto da Bronze”, já depois dos meus cinquenta anos de idade. E percebi com tristeza que, como tudo o mais na vida, ela já estava bem diferente “do tempo feliz em que eu era criança”: nessa época, ela então já tinha bancos e não consegui ver nem ao menos um só rato branco ...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

EU TIVE UM SONHO

Eu tive um sonho! E esta é a pequena história deste sonho, um sonho tão perfeito que pareceu ter sido realidade. Foi como se o tivesse vivido. Era palpável, vivo, colorido, emocionante ... E por esta razão, gostaria de contá-lo aos meus amigos.
Sonhei que me veio à cabeça a idéia de organizar um grande encontro com todos os amigos da minha infância e adolescência, passada num bairro comum de Porto Alegre. Em meu sonho, eu claramente vislumbrava as dificuldades que haveria de encontrar na localização dos amigos remanescentes, no contato com eles e na sua aquiescência em participar do meu sonho; e eu precisava de parceiros que me ajudassem a tocar a empreitada; e temia pela receptividade que teria dos amigos contatados. E tudo era um monte de dúvidas ...
Mas no sonho, o sonho começou a tomar corpo! Um contato aqui, um contato ali e consegui juntar um pequeno grupo de amigos, ainda um pouco incrédulos, que de uma forma ou outra aceitaram participar da nossa aventura. E saímos em busca dos nomes dos nossos antigos, através de uma extensa relação que as nossas mentes ainda conseguiram devolver de um passado longínquo. Um encontro com este grupo num restaurante de Porto Alegre e lá selamos o compromisso de atingir o nosso objetivo, juntar os amigos do passado numa festa que chamar-se-ia: “COPA 50 Anos Depois”, em homenagem ao nosso “Clube Olímpico Porto Alegre”, criado naquela época, fonte de muitas das nossas alegrias e promotor de muitos casamentos entre amigos do bairro e fora dele.
E começamos a realizar os contatos com os amigos de cinqüenta anos atrás. E cada novo telefonema era uma nova preocupação sobre como seríamos recebidos; o amigo iria se lembrar de quem estava falando? Estaria ele disposto a participar de algo assim inusitado depois de cinquenta anos passados? E cada novo telefonema era sempre uma alegria renovada pela alegria do próprio interlocutor que não acreditava com quem estava falando; e aderia incondicionalmente ao convite, como se ele próprio estivesse esperando aquele convite, também por muitos anos.
E a lista dos amigos encontrados crescia e os próprios amigos contatados lembravam-se de novos nomes que nos eram repassados e o processo transformou-se numa cadeia que não mais parecia ter fim. No grupo de discussões especialmente criado para a troca de idéias e as discussões entre os amigos, as mensagens voavam em todas as direções trazendo e levando lembranças que há muito se encontravam olvidadas; e era lindo assistir ao entusiasmo de todos, mandando recados ora divertidos, ora evocativos, mas sempre emocionantes. O blog criado para a festa era o veículo de crônicas emocionadas, sobre acontecimentos passados nas décadas de 50 e 60, em que os autores eram, ora assistentes, ora participantes ou protagonistas principais. Criamos também dois álbuns de fotografias. Num deles eram postadas as fotos do passado e do presente, envolvendo os amigos e suas famílias e eram assim identificados por todos, pouco a pouco. No outro álbum, eram postadas pares de fotos: uma tirada na época da nossa juventude e outra atual, colocadas lado a lado. Com isso, os amigos se identificavam mutuamente, pelas fotos antigas, e ficavam conhecendo as suas aparências atuais. Foram muitas fotos maravilhosas enviadas!
Paralelamente, os preparativos para a festa avançavam. O local foi escolhido com muito cuidado de modo a agradar os amigos de cujo gosto nem mais nos lembrávamos, mas também pensando que o custo possivelmente influiria no atendimento aos convites que seriam enviados, pois não havia como prever e conhecer as condições financeiras de pessoas que não eram vistas há tanto tempo. Os mesmos fatores foram considerados quando se procurou o “buffett” e todos os demais itens que deveriam ser arranjados para a realização da tão almejada festa.
Finalmente, a data foi marcada! 18 de setembro do ano de 2010, seria o dia da realização do encontro dos amigos que não se viam há 50 anos. Muito próxima da entrada da primavera, seria como um novo desabrochar de uma amizade que nascera há muito tempo atrás, mas não morrera, quedando adormecida por vários invernos. E os convites foram enviados a todos os amigos que haviam sido localizados; por e-mail para aqueles que o possuíam, pessoalmente para os que não tinham e pelo correio para aqueles que moravam longe. E a cada nova confirmação de participação à festa, uma nova alegria a todos, pois que dela todos tomavam conhecimento e a ela todos aplaudiam. A alegria tomava conta de todos os participantes, que já se organizavam em mesas de acordo com as suas afinidades e preferências. Alguns sugeriam as companhias com receio de que não fossem ser reconhecidos pelos demais após tanto tempo passado, com a timidez típica da adolescência de 50 anos atrás. E o número de participantes crescia e as pessoas não acreditavam que o número final seria um redondo número 100!
A data tão esperada se aproximava e o nervosismo era visivelmente demonstrado nas manifestações da lista de discussões e nas postagens encaminhadas ao blog para publicação. Amigos de última hora, tão esperados, apresentavam-se quando já ninguém mais cria que eles compareceriam; e eram recebidos com uma alegria enorme que era imediatamente correspondida. A festa era uma certeza!
E o seu dia chegou! Eufóricos estávamos nós, da Comissão Organizadora, e mais eufóricos encontravam-se os amigos que dela participariam, antevendo e antegozando o momento maravilhoso em que voltariam a ver os companheiros de tantos tempos passados. Cedo fomos para o local da festa para a tarefa de decorar o salão. Os balões nas cores verde, preto e branco, as cores do COPA, cheios, começaram a se avolumar e logo foram pendurados em pontos estratégicos do grande salão de baile. As faixas e “banners” alusivos ao evento, nas mesmas cores, foram colocados à entrada principal, no saguão e no salão principal, com dizeres que muito bem espelhavam a amizade que perdurou por 50 anos. Os vasinhos de flores foram colocados sobre as mesas de seis lugares, com as cobertas brancas, onde as cadeiras traziam lindos laços brancos de fita. As luzes indiretas multicoloridas, alto-falantes e demais acessórios eram responsabilidade do DJ, já contratado, que faria a alegria da festa com as músicas cuidadosamente escolhidas por nós, representando todo o espírito da nossa época. Preparamos também uma maravilhosa seleção de “clips” com cantores de nossa época, executando as melodias que tantas vezes dançamos nas reuniões dançantes que o COPA organizava. Tudo estava preparado para a grande noite que viria e pudemos ir às nossas casas, para o merecido descanso que antecederia a festa do reencontro.
Chegamos cedo para os preparativos finais, para garantir que nada faltaria à noite memorável ... E dali para a frente, uma espécie de névoa adentrou o salão inteiro cobrindo todo o espaço disponível e o sonho, finalmente, começou a parecer-se muito mais com um sonho do que com a realidade; e as duas coisas se confundiram; e eu já não sabia mais o que era sonho e o que era realidade. Eu ficava, com outros amigos, na entrada do salão, recebendo os convidados que chegavam e nos quais eram imediatamente colocados os crachás, especialmente confeccionados, para identificá-los mutuamente. Outros amigos tratavam de conduzir os convidados às mesas previamente acordadas, sobre as quais eram colocadas pequenas papeletas indicando que aquela já estava reservada ao grupo que chegara primeiro. No sonho, a responsabilidade do mestre de cerimônias fora entregue à minha filha mais velha, romântica e sentimental, ao extremo desejosa de conhecer, ao vivo, os amigos que tanto e há tanto tempo conhecia das histórias de seus pais. E, no sonho, foi ela que veio, assustada, me contar - ao mesmo tempo em que pedia socorro -, que uma das amigas encontrava-se chorando, inconsolável, à entrada do saguão, emocionada pela constatação imediata da presença de vários amigos antigos. E ao atendê-la, fiquei também empapado pelas suas lágrimas de alegria. Os convidados faziam jogos de adivinhação escondendo os crachás, como se tivessem, subitamente, retrocedido 50 anos no passado. E os abraços e beijos calorosos se sucediam por todos os cantos do salão, as pessoas não acreditando que estavam encontrando amigos de adolescência, que não viam há cinquenta ou mais anos. Uma coleguinha de primário, no velho Grupo Escolar Otávio Rocha, postou-se à minha frente, bracinhos cruzados, escondendo o crachá e, sorrindo, desafiava a minha memória; alguns segundos foram necessários para que eu reconhecesse, no sorriso alegre, daquela senhora simpática, a minha coleguinha brilhante de primário, então com 10 anos de idade. E foram dezenas de alegrias semelhantes, com o mesmo entusiasmo, na recepção aos convidados. Mas a festa estava apenas começando ...
Assim que acomodados os primeiros participantes em suas mesas, onde raramente poderiam ser encontrados, diga-se de passagem, foi iniciada a exposição dos “clips” e os amigos assistiam, emocionados, à execução das músicas que tanto haviam dançado pelos cantores que tanto sucesso fizeram em nossa época; e desfilavam perante todos, artistas que variavam entre Neil Sedaka, Paul Anka e Billy Cafaro, até Ray Conniff e Starry Night Orchestra. O salão encheu-se total e rapidamente e ninguém parava sentado em sua própria mesa, na ânsia de cumprimentar pessoas que julgavam ter reconhecido ou confessar o seu engano.
Assim que todos os cem convidados se fizeram presente, as luzes foram minimizadas e o membro mais ativo da Comissão subiu ao local dos discursos e contou, rapidamente, a história da origem da festa e terminou, como absoluta surpresa, me fazendo uma homenagem, como mentor do encontro. Com a surpresa, convidou-me a subir para dar as boas vindas aos nossos cem queridos amigos. E o sonho tomou conta da minha emoção quando declarei a minha alegria aos amigos presentes, pela homenagem aos amigos já partidos, quando relatei as declarações de amor recebidas, as emoções percebidas nos telefonemas e mensagens trocadas; e quando prestei uma singela homenagem ao idealizador do COPA e sua esposa. E o meu discurso foi, literalmente, para o espaço: mal pude balbuciar umas poucas palavras e cedi meu lugar a outros oradores, para ir abraçar os amigos com que ainda não havia falado. E pediu a palavra um querido amigo nosso, ex-presidente e um dos líderes do COPA à época. Ele lembrou vários episódios da época, envolvendo pessoas e acontecimentos e lembrando, através de uma gravação, o encerramento pontual e bem comportado das reuniões dançantes do COPA. E após algumas palavras, demonstrou a sua alegria em estar participando da festa e despediu-se visivelmente emocionado.
As luzes foram novamente acesas e fomos todos convidados, pela Mestra de Cerimônias, a participar de um maravilhoso jantar, servido e saboreado ao som das músicas da época, gravadas em CD especial, e iluminado por um “power point” especialmente preparado com todas as fotos – antigas e atuais - que haviam sido enviadas pelos amigos e publicadas em nosso álbum na Internet.
A partir daí, tudo começou, realmente, a ficar muito nebuloso, como um verdadeiro sonho sempre é. Todas as ações começaram a se tornar um pouco irreais. Lembro muito bem de ver as pessoas a se movimentarem pelo salão, buscando reconhecer nas várias mesas os amigos antigos. Era estranho constatar que, mesmo modificados pelos anos acumulados, rapidamente se transformavam, assim que identificados, nos mesmos adolescentes de cinquenta anos atrás, com a mesma forma de agir e de falar, alguns até mesmo com as mesmas brincadeiras de tantos anos passados. Não lembro, exatamente, da minha participação pessoal na festa. Lembro de ter tirado algumas fotos com alguns amigos, sentado em umas poucas mesas para uma rápida conversa com outros; mas nem as fotos foram todas as que eu gostaria de ter tirado, nem as mesas que visitei, uma vez que gostaria de te sentado e conversado com todos os meus amigos. Fiquei devendo a todos no sonho e sonhos não se repetem... Lembro perfeitamente que existiam amigos muito queridos e mais íntimos de nossa época, que gostaríamos muito de ter atendido melhor e não pudemos; sonhos não são sonhados totalmente sob o nosso controle. Lembro também de alguns que, por razões pessoais, tiveram que realizar um enorme esforço para estar presentes em nosso festa, sob a minha insistência até mesmo obstinada e teimosa, e não pude a eles dedicar o tempo que eu gostaria de ter dedicado; sonhos sempre deixam a desejar.
Nada faltou em meu sonho, pois a família do fundador do COPA, representada por seus filhos e pares, preparou-nos uma agradável surpresa, providenciando até mesmo um enorme bolo de aniversário, com as velinhas de 50 anos, maravilhosas, brilhando na penumbra do salão. A filha mais velha e o filho do idealizador fizeram discursos curtos e emocionados, em que agradeceram as homenagens prestadas a seus pais e demonstraram toda a sua alegria por terem participado da organização e estarem vivenciando a festa. Participei, emocionado, do apagar das velinhas, com os amigos da Comissão e os filhos do fundador do pequeno clube. E era tudo uma grande alegria, com todos os amigos aplaudindo, batendo fotos e confraternizando, como numa verdadeira grande reunião de amigos de 50 anos.
E chegou, finalmente, a hora tão esperada do baile dos 50 anos. E abrimos o baile, minha esposa e eu, com a alegria e a emoção de ver realizado um tão sonhado, construído e esperado sonho. E juntos, os nossos pares de amigos encheram o salão e dançamos todos embalados pelas vozes dos nossos cantores e orquestras preferidas das décadas de 50 e 60. E o sonho tornou-se um sonho realizado; e a névoa do sonho foi-se tornando mais densa e compacta à medida que o tempo passava e as pessoas iniciavam as suas despedidas; e as figuras conhecidas dos nossos amigos do passado se confundiam com a bruma e se desvaneciam na atmosfera do salão pouco iluminado, sem a realidade da despedida, como num verdadeiro sonho...
Eu tive um sonho, há pouco tempo atrás; e foi tão real ... Como eu gostaria que todos os meus amigos do passado pudessem ter compartilhado do meu sonho ....

domingo, 23 de novembro de 2008

HOMENAGEM A PORTO ALEGRE

Fugindo à rotina, aproveito esse tempo, há tanto e por todo o canto, chuvoso, para prestar uma singela homenagem à cidade de Porto Alegre, minha terra natal.

A ideia não é descrever, geográfica ou historicamente, a capital mais meridional do país. Sem desprezar qualquer dessas características, Porto Alegre representa, para mim, antes de qualquer coisa, a cidade onde nasci e me criei, onde conheci a minha namoradinha, ainda menina, que viria a ser a minha esposa, até hoje; a cidade onde desfrutei a minha adolescência, os meus colégios de primário, ginásio e científico, daqueles tempos; da minha Faculdade de Engenharia da UFRGS e dos meus primeiros trabalhos como profissional. E a cidade que, por força desses mesmos trabalhos, eu deixaria com 32 anos de idade, para morar em Florianópolis.

Para realizar essa homenagem, apenas fiz juntar três ingredientes: uma linda canção gaúcha, “Coração Porto-Alegrense”, cujos compositores, também gaúchos são Sérgio Napp e César Dorfman; umas fotos maravilhosas da cidade, antigas e recentes, com muito poder evocativo, para mim; e uma linda poesia do grande poeta gaúcho, da cidade do Alegrete, Mário Quintana. Depois, foi só misturar bem e cozinhar em fogo brando ... Ah, devo dizer que a ideia da produção dessa apresentação veio da minha querida prima Ieda Maria, muito carinhosamente chamada, por todos os seus primos, de Iedinha. Gaúcha que ama o seu torrão, sugeriu-me a ideia de prestar essa homenagem à cidade onde crescemos e a alguns lugares onde brincamos juntos, nos nossos irresponsáveis e maravilhosos tempos de criança.

Para apreciar o resultado, o que vocês têm a fazer é clicar no link Porto Alegre. Lá chegando, encontrarão outras instruções simples. Levará um par de minutos para abrir, já que o arquivo é meio pesado.

Quem conhece Porto Alegre, reconhecerá, dos tempos dos bondes, o viaduto sobre a Avenida Borges de Medeiros, a Praça da Matriz dos velhos tempos, ainda com o antigo Auditório Araújo Viana ao seu lado, a Avenida João Pessoa vista da "Lomba do Sétimo", podendo-se enxergar o antigo Colégio Júlio de Castilhos, incendiado ao final da década de 1950 e que deu lugar à Faculdade de Ciências Econômicas, além de outros monumentos das nossas lembranças.

O tão conhecido, e não menos lindo, "por do sol no Guaíba"

Evidentemente, a apresentação tocará mais a quem é de Porto Alegre; entretanto, sabemos que, de alguma forma, muitos dos nossos amigos já têm um pezinho por lá, de tanto ouvirem falar. Além do mais, sensibilidade independe do lugar de origem das pessoas; e se há coisa que os nossos amigos têm de sobra é essa qualidade.

sábado, 25 de outubro de 2008

O CABEÇALHO DO BLOG

Pois imagino que estivesse devendo uma explicação a respeito do cabeçalho do blog, que possui um significado muito especial, para mim. Vamos a ela!
O cabeçalho é uma foto parcial, editada, da Praça da Matriz, em Porto Alegre. Nela pode-se ver um dos cães de bronze, na entrada da praça, o monumento ao "Positivismo" de Augusto Comte, parte da Catedral Metropolitana ao fundo e alguns dos prédio que circundam a praça.
A primeira coisa que gostaria de observar, é que pouca gente sabe que "Praça da Matriz" é o apelido carinhoso que se dá àquela que se chama, na verdade, Praça Marechal Deodoro. Para os porto-alegrenses, de uma maneira geral, ela sempre se chamou e chamar-se-á Praça da Matriz.
É preciso, depois, explicar o porque do seu especial significado para mim. Ocorre que tendo nascido em Porto Alegre, mudei-me dessa cidade, por motivos profissionais, no final de 1976, com 32 anos de idade, para a cidade de Florianópolis em Santa catarina, onde até hoje possuo um apartamento. Portanto, não apenas a Praça da Matriz, mas muitos outros lugares, me trazem doces recordações da época em que era jovem e tudo era muito mais fácil e, relativamente, de pouca responsabilidade.



Entretanto, a Praça da Matriz, particularmente, me traz lembranças muito mais fortes, principalmente de duas épocas: dos meus três anos de idade (1947) e dos meus 14 anos (1958).
Em 1947, quando meu pai construía uma casa para nós, no bairro do Partenon, fomos morar, por um período relativamente curto, no centro da cidade de Porto Alegre, na chamada Pensão Viaduto. Como o próprio nome indica, esta pensão, muito simples, localizava-se ao pé do viaduto Otávio Rocha, que todos chamam, erroneamente, de viaduto Borges de Medeiros, apenas porque ele se localiza sobre essa importante avenida de Porto Alegre. Para ser bem preciso, a Pensão Viaduto ficava na esquina da avenida Borges de Medeiros com a rua Jerônimo Coelho, exatamente onde fica atualmente a imensa sede da AGERGS - Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul - , em frente ao prédio do INSS, conforme pode-se ver no pequeno mapa colocado acima.
O mapa já citado apresenta a Praça da Matriz, em verde, e os seus arredores. Embora Porto Alegre conte hoje com mais de 1,4 milhões de habitantes, a cidade não fugiu à regra e também teve a sua praça central em frente à igreja mais importante. Nesse caso, a praça apresenta uma face para a rua Duque de Caxias, exatamente defronte à Catedral Metropolitana e a outra para a rua Jerônimo Coelho, enxergando o conhecido e antigo Teatro São Pedro e o Palácio da Justiça, entre eles, a rua General Câmara, famosa Rua da Ladeira; esta, descendo, vai encontrar a Rua da Praia (Rua dos Andradas), justamente no início da Praça da Alfândega.
O mapa mostra também, como vizinhos da Catedral, dois prédios antigos que já existiam à época de sua construção: o Palácio Piratini, sede e residência do governo estadual, e a casa do ilustre ex-governador da então Província de São Pedro do Rio Grande, Júlio de Castilhos, há muito transformada em Museu Júlio de Castilhos. Seguindo pela mesma calçada da rua Duque de Caxias, para a direita, afastando-se da Praça, chega-se ao Colégio Sevigné (escola só para meninas), das irmãs agostinianas, alegria dos alunos do Colégio Anchieta, onde fiz o meu ginásio (naquele tempo só para meninos), dos padres jesuítas, ao lado do Museu Júlio de Castilhos, no caminho do colégio das freiras; o Anchieta mudou-se da Rua Duque no início da década de 60.
Nas laterais da praça encontram-se, de um lado o moderno Palácio Farroupilha, sede da Assembléia Legislativa Estadual, e do outro, o Palácio do Ministério Publico. No local onde hoje se encontra a Assembléia Legislativa, tranquilamente descansava o antigo Auditório Araújo Viana, hoje localizado no Parque da Redenção.
Exatamente esses dois locais, a Praça da Matriz e o Auditório Araújo Viana, são os dois grandes responsáveis por essa crônica despretenciosa que hoje posto.
Da Pensão Viaduto até a Praça da Matriz, eram cerca de escassos trezentos metros, uma pequena caminhada, mesmo para os meus poucos três anos de idade ... Claro que é impossível manter registros precisos de tudo o que me ocorreu na época em que tinha três anos de idade, mas tenho lembranças claras dos passeios que fazíamos à Praça da Matriz, para realizar fantásticas cavalgadas nos lombos daqueles dois cães enormes (sentados, diga-se de passagem) que atuavam como se sentinelas fossem daquele sítio maravilhoso e, então, enorme. Da mesma forma, lembro-me muito bem dos concertos vespertinos, ou de início de noite, que eram oferecidos ao público no auditório Araújo Viana, pelas bandas e orquestas locais, que nunca hão de retornar. Fico a imaginar que músicas tais como "Moonlight Serenade", de Glenn Miller, "Rhapsody in Blue" e "It's Wonderful", do casal Gershwin, "Begin the Beguine", de Cole Porter e tantas outras jóias do mesmo calibre, criadas e cantadas no mundo inteiro antes que eu fosse nascido, ficaram na minha lembrança e fizeram parte de toda a minha vida, principalmente por obra e arte, das tardes passadas em brincadeiras na Praça da Matriz, pois mesmo sem ir ao Auditório Araújo Viana, dele chegavam até ela os sons dessas inesquecíveis melodias.
Onze anos depois, em 1958, voltamos a residir no centro de Porto Alegre, durante um ano, desta feita na rua Marechal Floriano, quase esquina com a rua Riachuelo (mudar de residência sempre foi uma espécie de prazer do meu pai), onde então ainda transitavam os bondes. Nossa casa ficava a cerca de uns setecentos metros da Praça da Matriz, muito próxima da rua Duque, e foi nessa época que meu irmão e eu ganhamos de nossos pais uma Monareta, pequena moto, muito aquém das famosas Lambretas que então faziam sucesso em todo o mundo. Dada a localização da nossa casa, a Praça da Matriz imediatamente apresentou-se como o local ideal para o desenvolvimento de nossas habilidades motociclísticas. Ah, quantos quilômetros rodados, quanto combustível consumido e quantas voltas realizadas em torno da Praça da Matriz, em exibições para as namoradinhas da época...
Nada mais justo do que prestar, ainda que tardiamente, uma homengam à Praça da Matriz, palco que foi de tantas das minhas aventuras de criança e lugar de realce que ocupa entre as minhas lembranças. Mal imaginava eu que, na mesma praça, brincara também, com tenra idade, aquela que seria a minha namorada e depois esposa de toda a minha vida. Para encerrar, algumas fotos da região com as pequenas explicações que se fazem necessárias.





A Praça da Matriz, com o Palácio Piratini à sua frente e o Auditório Araújo Viana, à sua direita, na década de 20 (eu ainda não era nascido, não). Nessa época a Catedra atual ainda não existia, mas sim uma igreja antiga que dava nome à rua - Rua da Igreja. Pode-se ver claramente, na parte de baixo do Auditório, o palco onde se apresentavam as orquestras da época, em direção à rua Duque de Caxias.







É possível ver, também, os bancos de concreto imitando troncos de árvores, onde as pessoas sentavam-se para assistir aos concertos e os carramanchões que se enchiam de flores, proporcionando sombra acolhedora nas tardes de verão.
A seguir, o viaduto sobre a Av. Borges de Medeiros, com suas enormes escadarias e os postes com seus "lampiões" de lâmpadas amareladas, passeio pitoresco que elevava os transeuntes à rua Duque de Caxias. No topo da fotografia, à direita, pode-se ver o prédio dos Diários Associados, por onde passei muitas vezes no caminho para o Colégio Anchieta. Idêntica escadaria existia para o outro lado do Viaduto, que terminava muito próximo do saudoso Cinema Capitólio; sob ambas, as famosas lojinhas e quiosques do Viaduto para onde acorria a criançada em busca dos recém chegados "chiclets balão".



Monumento e árvores da Praça da Matriz e a Catedral Metropolitana ao fundo, em fotografia de 2003.
Abaixo, as escadarias da Praça da Matriz, com prédios modernos ao fundo.

















E, finalmente, a Preaça da Matriz com o Teatro São pedro, ao fundo, em foto moderna. À esquerda da foto pode-se ver o prédio da Assembléia Legislativa do Estado e, à direita, uma ponta do Palácio do Ministério Público.

Essas eram as poucas idéias e imagens que eu gostaria de postar em meu blog. Desejo que elas sirvam para trazer de volta à memória, dos que um dia as viveram e possam tê-las esquecido, este sítio tão agradável de Porto Alegre; como ambição maior, introduzi-las aos que ainda não tinham tido o prazer de conhecê-las.