Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quinta-feira, 18 de março de 2010

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS HEBREUS - PARTE III

A Bíblia relata que teria havido, então, fome na terra prometida de Canaã e que, por causa disso, o Patriarca - e todo o seu acampamento - teria se retirado para o Egito. Ao chegar no país, temendo Abrahão que viesse a ser morto pela beleza de sua mulher, com ela combinou de dizerem aos egípcios que eram irmãos e não casados. O faraó de fato apaixonou-se por Sara, levando-a para o seu palácio e passando a favorecer Abraão. Ainda segundo a Bíblia, Deus teria castigado o rei egípcio, que chamou Abraão e devolveu-lhe Sara, ordenando-lhe que deixassem o país com os seus bens.
A Bíblia narra que Abrahão, juntamente com Sara e seu sobrinho Lot, retornou do Egito para a terra de Canaã, para o mesmo local onde se fixara anteriormente, ao Sul de Betel (provavelmente Salém) e lá tornou-se muito rico. Entretanto, Abraão e Lot resolveram separar-se devido às contendas ocorridas entre os seus pastores por causa do numeroso rebanho que possuíam. Estudos não bíblicos explicam que Abrahão, muito provavelmente, teria interesse em tornar-se um grande líder carismático entre o povo da Palestina.
Ao separar-se do sobrinho, Abrahão deu-lhe a opção da escolha da planície onde estabelecer-se e Lot teria preferido fixar-se na planície do rio Jordão, na região de Sodoma e Gomorra (especificamente no reino de Sodoma) que, antes de destruídas, seria comparada ao Jardim do Éden e ao Egito. Após a separação de Lot, Deus apareceu novamente a Abrahão, confirmando a doação daquelas terras à sua descendência e ordenando-lhe que percorresse a região, em vista do que Abrahão levantou novamente as suas tendas e fixou-se em Hebron, onde edificou um novo altar a Deus. A figura abaixo mostra Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza atuais; o acidente geográfico que aparece em preto e branco, praticamente ao centro da foto, é o Mar Morto; o rio Jordão corre praticamente sobre a linha amarela que atravessa o Mar Morto, de cima para baixo (coincidindo com a direção Norte – Sul). Exatamente ao sul do Mar Morto, onde aparecem algumas culturas irrigadas em cor azulada, encontravam-se Sodoma e Gomorra, no então chamado Vale do Sidim; neste vale encontravam-se, na verdade, as cinco cidades ou reinos mencionados baixo.
A Bíblia relata então uma guerra entre nove reinos locais, envolvendo, de um lado, os reinos de Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar e, do outro, Elão (governado por Quedorlaomer e a quem os primeiros pagavam tributos e se haviam rebelado) e mais três reinos aliados. Nessa guerra, Sodoma e Gomorra foram finalmente vencidos e Lot levado cativo com todas as suas riquezas. Sabedor disso, Abraão, com apenas trezentos e dezoito homens, lutou contra os inimigos e perseguiu-os até as proximidades de Damasco, libertando Lot, sua família e o povo de Sodoma.
Informações não bíblicas relatam que, após a batalha final, Abrahão manteve-se fiel ao seu monarca Melquisedec e tornou-se o dirigente militar de mais onze tribos vizinhas que pagavam tributos – o chamado dízimo. Abrahão teria fracassado em algumas tentativas de estabelecer alianças diplomáticas com o soberano de Sodoma. Porém, ao conseguir o resultado, formou uma aliança militar estratégica entre o Rei de Sodoma e outros povos de Hebrom. Abrahão tinha mesmo intenção de formar um estado poderoso em toda a Canaã, mas Melquisedc, o sábio rei de Salém, convenceu-o a abandonar a tentativa de formar um reino material e tornar-se aquilo que hoje o seu nome significa – o Pai da Fé. Para persuadi-lo, utilizou a sua aliança, a promessa do seu reino, e tornou-o como sua própria descendência.
Localização de Hebron

Sendo Sara estéril e pretendendendo dar um filho a seu marido, ofereceu sua serva egípcia Hagar para que gerasse o primeiro filho de Abrahão. Hagar então gerou a Ismael, considerado pelos muçulmanos como o ancestral dos povos árabes. O texto bíblico informa que Abraão teria sido pai pela primeira vez aos oitenta e seis anos. E, antes mesmo do nascimento de Ismael, surgiram conflitos entre Hagar e Sara, culminando na sua fuga do acampamento de Abraão. Tendo Hagar fugido da presença de Sara, o Anjo do Senhor apareceu-lhe quando se encontrava junto a uma fonte de água, convencendo-a a retornar, sujeitar-se à sua senhora, prometendo-lhe um futuro grandioso para seu filho.
Aos noventa e nove anos, novamente Deus aparece a Abraão e confirma a sua promessa. Deus ordena que Abrahão e todos os homens de sua casa fossem circuncidados e que toda criança do sexo masculino que nascesse receberia esse sinal ao oitavo dia. É também nesta ocasião que Deus muda os nomes de Abrahão (pai de muitas nações) e de Sara, que até então chamavam-se Abrão e Sarai, com a promessa do nascimento de um filho, Isaque, pondo fim à sua esterelidade. Isaque, herdeiro da Promessa, nasceu no ano seguinte e informações não bíblicas dizem que foi numa cerimônia pública e solene que Abrahão teria apresentado Isaque como o seu primogênito, em Salém. Mesmo com o nascimento de Isaque, os conflitos entre Hagar e Sara continuaram, ameaçando a paz de sua família. Abraão então resolve despedir sua serva junto com o seu filho Ismael. Após o nascimento de Isaque, a história do povo judeu segue então a linhagem do filho legítimo de Abrahão.
Novamente Deus falou com Abrahão e pediu-lhe uma verdadeira prova de fé, determinando que oferecesse seu único filho em holocausto no Monte Moriá, próximo a Salém. Abrahão subiu ao monte em companhia de Isaque. Porém, ao levantar a mão para sacrificar seu filho, foi impedido pelo Anjo do Senhor e encontrou no mato um carneiro que ofereceu em seu lugar.
Segundo a Bíblia, Sara morreu em Hebron, com cento e vinte e sete anos. Abrahão então adquire, de Efrom, a Cova de Macpela, por quatrocentos siclos de prata, considerada a primeira aquisição de uma propriedade do patriarca em Canaã, onde sempre viveu como um peregrino em busca de melhores pastagens para o seu rebanho. A sepultura adquirida é, posteriormente, utilizada pelo patriarca e por seus descendentes.
A Gênesis narra então que Abrahão enviou o seu servo Eliezer à Mesopotâmia para trazer uma esposa para seu filho Isaque, entre os seus parentes. Eliezer, ao chegar à cidade de Naor, encontra Rebeca, filha de Betuel e irmã de Labão, que consente em ir com Eliezer ao encontro de Isaque, seu primo.
Abrahão morre com cento e setenta e cinco anos e é sepultado na Cova de Macpela por Isaque e Ismael, ao lado de Sara. Tudo o que possuía deixou de herança para Isaque, filho de Sara, que possuía o status de esposa.
Isaque teve por única esposa, sua prima Rebeca e orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, que era estéril. O Senhor ouviu as suas orações e disse a Rebeca que ela trazia em seu ventre duas nações. Rebeca teve dois filhos, Esaú e Jacó (gêmeos, tendo Esaú nascido antes). O filho mais velho, Esaú, era o favorito do pai e teria o direito às bênçãos de Deus por ser o primogênio. Mas Jacó, com a ajuda da mãe, de quem era favorito, enganou seu pai, muito velho e quase cego, e apresentou-se a Isaque como seu filho mais velho, recebendo assim a bênção paterna no lugar de seu irmão Esaú. Após isso os dois brigaram e separaram-se, permanecendo Jacó como herdeiro da tradição hebraica. Esaú, por sua vez, daria início à história dos povos árabes.
Jacó ou Jacob, traduzido como "aquele que segura pelo calcanhar", também conhecido como Israel, "aquele que luta com Deus", foi o terceiro patriarca da bíblia. Sua história ocupa vinte e cinco capítulos de Gênesis. Jacó teve doze filhos e uma filha de suas duas mulheres, Léia e Raquel, e de suas duas concubinas, Bila e Zilpa: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim e Diná. Seus filhos homens deram origem às Doze Tribos de Israel.
Tribos de Israel é o nome dado às unidades tribais patriarcais do Antigo Povo de Israel que, de acordo com a tradição judaico-cristã, teriam se originado dos doze filhos homens de Jacó, filho de Isaque e neto Abrahão. As doze tribos teriam o nome de onze dos filhos de Jacó. José não teve uma tribo. A tribo restante recebeu o nome dos filhos de José, abençoados por Jacó como seus próprios filhos, Manassés e Efraim. Em consequência, os nomes das tribos são: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim, Manassés e Efraim. Apesar desta suposta irmandade as tribos não teriam sido sempre aliadas, o que ficaria manifesto na cisão do reino após a morte do rei Salomão. Com a extinção do Reino de Israel ao norte, nove das doze tribos desapareceriam e a determinação do seu destino é até hoje objeto de debate. As tribos restantes (Judá, Benjamin e Levi constituiriam o povo hoje chamado de judeu.

terça-feira, 16 de março de 2010

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS HEBREUS - PARTE II


REGISTROS DA HISTÓRIA DE ABRAHÃO
Abrahão é citado no livro de Gênesis como a nona geração de Sem, um dos filhos do patriarca Noé, sobrevivente das águas do Dilúvio. Segundo a Bíblia, a mais provável procedência de Abraão seria a cidade de Ur dos Caldeus, onde seus irmãos também teriam nascido.
Ur era uma cidade da região da Mesopotâmia, localizada a cerca de 160 km da grande Babilônia, junto ao rio Eufrates, habitada na Antiguidade pelos caldeus e que, de acordo com o livro de Gênesis (Bíblia, Antigo Testamento), teria sido a terra natal do patriarca dos hebreus, Abrahão; era considerada também a maior cidade de sua época. O maior representante de lideranças em Ur tinha o nome de Ur-Nammu, e ficou conhecido por ter criado o primeiro código de leis de que se tem notícias; seu código vigorou por 300 anos, quando então foi substituído por aquele que é considerado como o pai de todos os códigos: o código de Hamurabi.
A Mesopotâmia, nome de origem grega que significa "entre rios", é uma região de interesse histórico e geográfico mundial. Trata-se de um planalto de origem vulcânica localizado no Oriente Médio, delimitado entre os vales dos rios Tigre e Eufrates, ocupado pelo atual território do Iraque e terras vizinhas. Os dois rios desembocam no Golfo Pérsico e a região é toda cercada por desertos. Inserida na área do chamado Fértil Crescente - de Fértil Lua Crescente, exatamente pelo fato de ela ter o formato de um Quarto Crescente e de ter um solo fértil -, uma região do Oriente Médio excelente para a agricultura, exatamente num local onde a maior parte das terras vizinhas era muito árida para qualquer cultivo. A Mesopotâmia tem duas regiões geográficas distintas: ao norte, a Alta Mesopotâmia ou Assíria, uma região bastante montanhosa, desértica, desolada, com escassas pastagens; ao Sul, a Baixa Mesopotâmia ou Caldéia, muito fértil em função do regime dos rios, que nascem nas montanhas da Armênia e desaguam separadamente no Golfo Pérsico.
A Caldeia era uma subregião ao sul da Mesopotâmia, principalmente na margem oriental do rio Eufrates; muitas vezes o termo é usado para se referir a toda a planície mesopotâmica. A Caldéia é uma vasta planície formada por depósitos do Eufrates e do Tigre, estendendo-se a cerca de 250 quilômetros ao longo do curso de ambos os rios, e cerca de 60 quilômetros em largura. Seus habitantes, os Caldeus, foram uma tribo (acredita-se que tenham emigrado da Arábia) que viveu no litoral do Golfo Pérsico e se tornou parte do Império da Babilônia.
A Babilônia foi a capital da antiga Suméria e Acádia, duas outras subregiões da Baixa Mesopotâmia, hoje no moderno Iraque, aproximadamente a 80 km ao sul de Bagdá. O nome (Babil ou Babilu em babilônico) significa "Porta de Deus", mas os judeus afirmam que vem do Hebraico Antigo, Babel, que significa "confusão", numa referência à bíblica “Torre de Babel”.

Na figura pode-se ver, no iluminado maior, o Império da Babilônia em torno de 1750 AC; a região da Mesopotâmia segue esse contorno, mas é bem mais ampla, circundando totalmente os vales dos Rios Tigre e Eufrates; no iluminado menor e mais forte, o Império da Babilônia em 1792 AC, com a capital ao centro; a cidade-estado de Ur encontra-se um pouco mais a sudeste, próximo ao Golfo Pérsico.

Abrahão, já aos catorze anos de idade, ainda residindo em Ur com sua família, teria começado a compreender que os homens da terra haviam se corrompido com a idolatria, adorando as imagens de escultura. Então Abrahão não aceitou mais adorar ídolos com o seu pai Terah e orava a Deus, pedindo-lhe que conservasse a sua alma pura do erro dos filhos dos homens e também a de seus descendentes. Abrahão casou-se com Sara, aos 49 anos de idade e contava com 60 anos quando ocorreu a morte trágica de seu irmão Harã, o pai de Lot. Após a morte de Harã, Terah teria tomado sua família e organizado uma expedição para fixar-se em Canaã. Contudo, ao chegar numa localidade que veio a receber o mesmo nome do filho falecido, Terah ali permaneceu, até a idade de duzentos e cinco anos, quando morreu.
Canaã é a antiga denominação da região correspondente às áreas ocupadas pelo atual Estado de Israel, da Cisjordânia, da Jordânia ocidental, sul da Síria e sul do Líbano. Comparada aos desertos circundantes, a terra de Canaã era uma terra de fartura, onde havia uvas e outras frutas, azeitonas e mel, daí ter sido vista por Abrahão como a "terra prometida onde corre leite e mel" (ao lado, a Canaã Patriarcal).
O longo êxodo dos hebreus teria durado muitas décadas, até que os descendentes de Abraão alcançaram Canaã, que passou então a ser por eles denominada Terra de Israel. De acordo com a Bíblia, o nome Canaã é alusivo ao filho de Cam e neto de Noé, ao qual se atribui a origem dos cananeus, conforme relato de Gênesis, Capítulo 10. Após o Dilúvio, Cam teria se deparado com Noé embriagado e visto a sua nudez em sua tenda e contado o fato a seus irmãos, em vez de cobrir o pai (Gênesis 9). Quando recobrou a consciência, Noé amaldiçoou o filho de Cam, Canaã, referindo-se a ele como o "servo dos servos" (Gênesis 9:25) e disse: “Maldito seja Canaã; seja servo dos servos de seus irmãos". Segundo uma certa linha de interpretação, ao proferir tais palavras, Noé estaria profetizando que um dos descendentes de Sem, um de seus outros filhos, Abraão, iria herdar a terra dos cananeus.
Harã é, atualmente, um sítio arqueológico localizado ao sul da Turquia. Na Bíblia é citado como a vila ou região onde Abraão habitou quando saiu de Ur, antes de ir para Canaã, e onde teria morrido seu pai Terah. É fácil de ver pelo mapa, que Harã estaria no caminho para Canãa, com um pequeno desvio, possivelmente motivado por razões geográficas.

Caminho percorrido por Abrahão, de Ur a Harã e Canaã

Harã, como mencionado acima, foi também um dos irmãos de Abrahão, falecido jovem quando o seu pai, Terah, ainda se encontrava em Ur dos caldeus. Ao falecer, Harã teria deixado como descendente o seu filho Lot que, corajosamente, acompanhou Abrahão em sua jornada à terra de Canaã. Tal fato explica o motivo do nome do lugar onde provisoriamnte se fixaram, antes de prosseguirem sua viagem para Canaã.

Ruínas de Harã


Sabe-se que Harã, na Antigüidade, foi um importante ponto de passagem para as caravanas do Oriente Próximo e talvez a prosperidade do local tenha motivado a fixação aí, da família de Abrahão. Foi em Harã que Abrahão teria recebido um segundo chamado divino para prosseguir em sua viagem `Terra Prometida.
Obedecendo às ordens de Deus, Abrahão saiu com Lot de Harã, juntamente com sua esposa e seus bens, em direção a Canaã, já com a idade de setenta e cinco anos de idade, com pessoas a seu serviço, ,as sem qualquer filho. A caminho de Canaã, Abrahão teria passado por Siquém, onde habitavam os cananeus e ali Deus lhe teria aparecido e confirmado a promessa de dar aquela terra à sua descendência. Aí edificou um altar para Deus e partiu para o Sul, fixando-se num lugar entre as cidades de Ai e Betel, onde se estabeleceu com as suas tendas e construiu um novo altar. Depois, prosseguiu para o sul, tendo chegado a Salém, lugar que corresponderia hoje à Jerusalém. Informações não bíblicas relatam que o rei de Salém, Melquisedec, teria enviado um mensageiro a Abrahão convidando-o a fazer parte do núcleo de estudantes/sacerdotes do seu reino. Abrahão partiu com o seu sobrinho Lot e estabeleceram o seu acampamento próximo de Salém, onde edificaram guarnições nas colinas adjacentes, como proteção contra os furtivos ataques dos hititas, filisteus e assírios que privilegiavam estas zonas da Palestina nos seus ataques e saques. As visitas a Salém passaram a ser uma rotina para estes dois personagens e o reflexo dos ensinamentos do sábio Melquisedec foi notório nos ensinamentos de Abrahão.

segunda-feira, 15 de março de 2010

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS HEBREUS - PARTE I

INTRODUÇÃO
Como tenho sempre enfatizado em todos os artigos históricos que tenho publicado, também este - com maior razão pela importância mundial de que se reveste o assunto – não tem a pretensão de ser rigorosamente científico (e tal matéria poderia ter rigorismo científico?), nem tampouco de exaurir o assunto e as dúvidas que possa levantar.
É também importante ter em mente que a principal fonte de informações desta pesquisa é, sem dúvida alguma, o Antigo Testamento da Bíblia. Mesmo os pesquisadores mais importantes nessa matéria, sempre consideraram a Bíblia como fonte primeira de informações, embora a sua tendenciosidade natural em se tratando de assuntos religiosos. Mas é sempre preciso levar em conta que, ao tempo em que foi escrita, ela era o documento testemunhal da única religião monoteísta então existente.
A idéia inicial perseguida com a elaboração deste artigo, foi tentar bem localizar, no tempo e no espaço, acontecimentos ligados à figura do personagem bíblico Abrahão e o ramo mais importante da sua descendência, com enfoque principal nos personagens históricos mais conhecidos como Isaac (ou Isaque), Jacó (ou Israel), José do Egito e Moisés, até a Diáspora, quando os Judeus abandonam voluntariamente, pela primeira vez, a Palestina para se espalharem pelo mundo.
E, novamente, a pesquisa foi movida pela curiosidade do autor sobre o assunto, pela necessidade que sentiu em possuir, de forma resumida, ordenada e clara a seqüência de eventos de épocas e atores de contribuição tão importantes para a história da civilização.
Sempre que locais forem mencionados, faremos, na medida do possível, uma interrupção na seqüencia da narrativa, para apresentar uma descrição da posição dessas cidades ou regiões, de forma que o leitor possa ter, através de mapas, a idéia exata de onde as ações descritas se passaram.
Como os leitores podem imaginar, o assunto abordado desta feita é bastante amplo, bem no espaço como no tempo e a pesquisa acabou resultando muito longa. Por essa razão, não pretendendo cansar o leitor demasiadamente com uma só postagem, optamos por publicar o artigo em capítulos. Essa se constitui na primeira parte do trabalho.

ANTECEDENTES
Abrahão é um personagem bíblico citado no Livro Gênesis, a partir do qual se desenvolveram três das maiores vertentes religiosas da humanidade: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
No que se refere à sua localização temporal, sabemos hoje que foi encontrado um contrato Babilônico em nome de Abrahão, como pertencendo ao período entre 1800 e 2.000 AC. Há indícios de que este personagem seja o próprio patriarca.
Judaísmo é o nome dado à religião do povo judeu, a mais antiga das três principais religiões monoteístas (as outras duas são o cristianismo e o islamismo).
O Judeu é um membro do grupo étnico e religioso originado nas Tribos de Israel ou hebreus do Antigo Oriente. O grupo étnico e a religião judaica, a fé tradicional da nação judia, são fortemente inter-relacionados, e pessoas convertidas para o judaísmo foram incluídas no povo judeu e judeus convertidos para outras religiões foram excluídos do povo judeu durante milênios.
Os judeus foram palco de uma longa história de perseguições em várias terras, resultando numa população que teve, frequentemente, seus números e suas distribuições alteradas ao longo dos séculos. A maioria das autoridades coloca o número de judeus entre 12 e 14 milhões, representando 0,2% da atual estimada população mundial. De acordo com a Agência Judia para Israel, no ano de 2007 havia 13,2 milhões de judeus mundialmente; 5,4 milhões (40,9%) em Israel, 5,3 milhões (40,2%) nos EUA, e o resto distribuído em comunidades de vários tamanhos no mundo inteiro.
A palavra "judeu" originalmente era usada para designar os nascidos na Judéia. A Judeia é a região localizada a oeste do mar Morto, entre o mar Morto e o mar Mediterrâneo, estendendo-se ao norte até as colinas de Golan e ao sul à faixa de Gaza, sendo estas, atualmente, regiões em contínuo conflito entre Israel e Palestina.
A tradição judaica defende que a origem dos judeus dá-se com a libertação dos filhos de Israel da terra do Egito pelas mãos de Moisés. Com a fundamentação e solidificação da doutrina mosaica (de Moisés), um grupo de hebreus passou a ser conhecida como "Filhos de Israel" (Bnei Israel). É deste evento que surge o conceito de nação, fundamentada nos preceitos tribais e na crença monoteísta.
Quando as doze tribos de Israel são divididas em dois reinos distintos, a maioria formando o reino de Israel, enquanto as tribos de Judá, Benjamim e Levi constituindo o reino de Judá, que continua a ser governada pelos descendentes de Davi, pela primeira vez, os israelitas do sul são chamados de judeus devido à sua conexão com o reino de Judá e posteriormente por todos aqueles que aderissem à doutrina religiosa deste reino, que passou a ser conhecida como judaísmo.
A ênfase do judaísmo na separação entre judeus e não judeus, deu à comunidade judaica um sentido de povo separado e religioso, embora, segundo pesquisadores judeus anti-sionistas, este sentido de separação tenha sido impulsionado e exarcebado pelo movimento sionista, com objetivos políticos, durante o século XX.
Obtendo o seu nome de Sião (Sion, Zion) que é o nome de um monte nos arredores de Jerusalém, o Sionismo é um movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado Judaico, por isso sendo também chamado de nacionalismo judaico. Ele se desenvolveu a partir da segunda metade do século XIX, em especial entre os Judeus da Europa central e do leste europeu.
Surgido da religião mosaica, o judaísmo, apesar de suas ramificações, defende um conjunto de doutrinas que o distingue de outras religiões: a crença monoteísta em YHWH (Javé), às vezes chamado Adonai ("Meu Senhor"), ou ainda HaShem ("O Nome") como criador e Deus e a eleição de Israel como povo escolhido para receber a revelação da Torá que seriam os mandamentos deste Deus. Dentro da visão judaica do mundo, Deus é um criador ativo no universo e que influencia a sociedade humana, na qual o judeu é aquele que pertence a uma linhagem com um pacto eterno com este Deus. De acordo com a visão religiosa o judaísmo é uma religião ordenada pelo Criador através de um pacto eterno com o patriarca Abraão e sua descendência. Ainda que seja intimamente relacionada à história do povo judeu, a história do judaísmo se distingue por enfatizar somente a evolução da religião e como esta influenciou o povo judeu e o mundo.
O Cristianismo é uma religião monoteísta centrada na vida e nos ensinamentos de Jesus de Nazaré, tais como são apresentados no Novo Testamento. A fé cristã acredita essencialmente em Jesus como o Cristo, Filho de Deus, Salvador e Senhor.
Os seguidores do cristianismo, conhecidos como cristãos, acreditam que Jesus seja o Messias profetizado na Bíblia Hebraica (a parte das escrituras comum tanto ao cristianismo quanto ao judaísmo). A teologia cristã ortodoxa alega que Jesus teria sofrido, morrido e ressuscitado para abrir o caminho para o céu aos humanos; os cristãos acreditam que Jesus teria ascendido aos céus, e a maior parte das denominações ensina que Jesus irá retornar para julgar todos os seres humanos, vivos e mortos, e conceder a imortalidade aos seus seguidores. Jesus também é considerado para os cristãos como modelo de uma vida virtuosa, tanto como o revelador quanto como a encarnação de Deus. Os cristãos chamam a mensagem de Jesus Cristo de Evangelho ("Boas Novas"), e por isto referem-se aos primeiros relatos de seu ministério como evangelhos.
O Islão ou Islã é uma religião monoteísta que surgiu na Península Arábica no século VII, baseada nos ensinamentos religiosos do profeta Maomé (Muhammad) e numa escritura sagrada, o Alcorão. A religião é conhecida ainda por Islamismo. Na visão muçulmana, o Islão surgiu desde a criação do homem, ou seja, desde Adão, sendo este o primeiro profeta dentre inúmeros outros, para diversos povos, sendo o último deles Maomé.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE III (Última)

CONDADO DE PORTUCALE
Vímara Peres foi um fidalgo galego nascido em 820 e morto em 873, Cristão da Reconquista, cavaleiro e senhor da guerra, enviado por D.Afonso III, das Astúrias, ao vale do rio Douro, com a incumbência de expulsar dali os mouros, da linha natural cujo domínio os asturo-leoneses consideravam fundamental para a sua defesa. A ele se ficou a dever, entre outras coisas, o repovoamento cristâo das terras de entre Douro e Minho. Ajudado pelos cavaleiros cristãos da regiâo, conquistou Portucale aos mouros no ano de 868.
Nesse mesmo ano, de 868, receberia Vímara Peres (figura ao lado) o título de Conde de Portucale, dando assim início a uma dinastia condal que duraria até ao ano de 1071. Já nessa época o território designava-se Terra Portugalense. Pouco a pouco foram alargadas as fronteiras do território, que confinava com outros territórios (Braga, Lamego, Viseu, Terras da Feira e Coimbra). Entre as suas obras consta ainda a da fundação de um pequeno burgo fortificado, junto de Braga, a que deu o nome de Vimaranis - que então significava "terras de Vímara" - e haveria de se transformar na cidade de Guimarães e berço de Portugal.
A reconquista permitiu também a restauração diocesana, tendo os bispos de Portucale sido instalados numa pequena povoação chamada Magneto (a qual os especialistas fazem corresponder com a actual Meinedo, no conselho de Lousada).
Na segunda metade do século XI, reconstituiu-se, ao sul, o condado de Coimbra (que incluía não só a cidade do Mondego, como ainda as terras de Lamego, Viseu e Feira), sendo entregue ao conde Sesnando Davides, um moçárabe do rei Fernando I de Leão e Castela, que conquistara definitivamente a cidade em 1064 (este condado viria, mais tarde, a ser incorporado ao Portucalense).

CONDADO PORTUCALENSE
A ambição de Afonso VI de Leão e Castela, auto-denominado Imperador de toda a Hispânia, reconstituiu novamente a unidade dos Estados paternos e, quando Garcia morreu, em 1091, os territórios do Reino da Galiza, em sua posse, passaram, por mérito, às mãos do Cruzado Conde Raimundo de Borgonha, casado com D. Urraca, filha de Afonso VI. A partir daí, as chamadas terras de Portucale passam a ser um Condado (Condado Portucalense) dependente do Reino da Galiza, que por sua vez prestava vassalagem a Afonso VI de Leão e Castela. Nessas alturas, o vigor das investidas Almorávidas recomendava a distribuição dos poderes militares, para melhor reforçar o território. Assim, foram criados um comando na zona central, entregue ao próprio rei Afonso VI; outro, não oficial, exercido por El Cid em Valência, e o terceiro, no ocidente, entregue a Raimundo de Borgonha. Este último não conseguiu defender eficazmente a linha do Tejo — tendo já perdido Lisboa, que fora cedida aos Leoneses pelo reino Taifa de Badajoz, juntamente com Santarém, que estava também prestes a cair nas mãos dos Almorávidas.
Alguns anos mais tarde, em 1096, descontente com as políticas bélicas de Raimundo, Afonso VI entrega o governo do Condado Portucalense ao primo de Raimundo, Rei da Galiza, o Conde D. Henrique de Borgonha, casado com sua outra filha, D. Teresa, passando assim a ser Conde de Portucale. Na prática, o Condado Portucalense deixava de ser dependente do Reino de Galiza, para prestar vassalagem directamente ao Reino de Leão e Castela, o que provocou um grande descontentamento entre a nobreza galega. O conde D. Henrique, apoiado pelos interesses políticos clunicenses, introduz-se ambiciosamente na política do Reino, conquistando poder junto das cortes. Vendo-se na condição de subordinados ao rei, os condes ou governadores tinham amplos poderes administrativos, judiciais e militares, e o seu pensamento orientava-se, naturalmente, para a aquisição de uma completa autonomia quando, no caso português, as condições lhe eram propícias. Deste condado, nasceria o Reino de Portugal.
A fim de aumentar a população e valorizar o seu território, D. Henrique deu foral e fez vila (fundou uma povoação nova) em várias terras, entre elas Guimarães, na qual fez vila de burgueses, atraindo ali, com várias regalias, muitos francos seus compatriotas.
Em Guimarães fixou D. Henrique a sua habitação, em paços próprios, dentro do castelo que ali fora edificado no século anterior. Falecido o conde D. Henrique (1112), passa a viúva deste D. Teresa, a governar o condado durante a menoridade do seu filho Afonso Henriques.

INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL
Inicialmente, o pensamento de D. Teresa foi idêntico ao do seu marido: fortalecer a vida portucalense e conseguir a independência para o condado. Em 1121 intitula-se «Rainha», mas os conflitos com o alto clero e sobretudo a intimidade com Fernão Peres, fidalgo galego a quem entregara o governo dos distritos do Porto e Coimbra, trouxeram-lhe a revolta dos Portucalenses e do próprio filho, sistematicamente afastados, por estranhos, da gerência dos negócios públicos. D. Teresa planeja então uma união com a poderosa família galega dos Trava, unindo assim novamente o Condado Portucalense ao Reino de Galiza e inviabilizando toda e qualquer aspiração portuguesa à independência.
Aos catorze anos de idade (1125), o jovem Afonso Henriques, com o apoio da nobreza portuguesa, arma-se a si próprio cavaleiro – segundo o costume dos reis – tornando-se assim guerreiro independente. A posição de favoritismo em relação aos nobres galegos e a indiferença para com os fidalgos e eclesiásticos portucalenses por parte de sua mãe, D. Teresa, originou a sua revolta, sob chefia do seu filho, D. Afonso Henriques (figura acima).
Em 24 de junho de 1128, trava-se a Batalha de São Mamede (Guimarães) entre os partidários do infante Afonso e os de sua mãe. Esta é vencida e expulsa da terra que dirigira durante 15 anos. D. Afonso Henriques toma conta do condado, declarando-o reino independente, como neto de Afonso VI e dele vai fazer o Reino de Portugal.
Lutando contra os cristãos de Leão e Castela e os muçulmanos, Afonso Henriques conseguiu uma importante vitória contra os Mouros na Batalha de Ourique, em 1139, e declarou a independência. Continuou, entretanto, a luta contra as forças de Afonso VII de Leão e Castela (inconformado com a perda das terras portuguesas, pois, à semelhança de seu pai, Afonso VI, ele também se intitulava Imperador), enquanto, paralelamente, travava lutas contra os muçulmanos.
Em 1139, após uma estrondosa vitória na Batalha de Ourique, contra um forte contingente mouro, D. Afonso Henriques afirma-se como Rei de Portugal, aclamado pelos chefes portugueses. Nascia assim, o Reino de Portugal e sua primeira dinastia, com o rei Afonso I de Borgonha (Afonso Henriques). Somente a 5 de outubro de 1143 é reconhecida a independência de Portugal pelo rei Afonso VII de Leão e Castela, no Tratado de Zamora, assinando-se a paz definitiva. Desde então, D. Afonso Henriques procurou consolidar a independência por si declarada. Fez importantes doações à Igreja e fundou diversos Conventos. Dirigiu-se ao Papa Inocêncio II e declarou Portugal tributário da Santa Sé, tendo reclamado para a nova monarquia a protecção pontifícia. Em 1179 o Papa Alexandre III, através da Bula Manifestis Probatum, reconhece a existência de Portugal como país independente e vassalo da Igreja Católica Apostólica Romana.
Na continuação de suas conquistas, buscou também por terras ao sul, até então povoadas por Mouros e, após ver malograda a primeira tentativa de conquistar Lisboa em 1142, conseguiu o seu intento em 24 de Outubro do mesmo ano (a figura acima mostra D. Afonso I durante o sítio de Lisboa), após conquistar Santarém, no dia 15 de Março, com o auxílio de uma poderosa esquadra de 160 navios e um contingente de cerca de 13 mil cruzados que se dirigiam para a Terra Santa.
Em 1492, com a conquista do reino de Granada, a Reconquista chegava ao fim. Já os reinos da Galiza, Leão, Castela, Navarra e Aragão iniciavam uma relativa unificação ao possuir um único rei (embora mantendo a autonomia econômica, administrativa e comercial), que posteriormente recebeu o nome de reino de Espanha. Juntamente com o reino independente de Portugal, debatiam-se estes dois estados pelas conquistas marítimas. Ainda com o apoio da Igreja, ambos os reis estavam agora de olhos voltados para o Norte de África, nas praças comerciais de renome, como Ceuta e Tânger, sob o pretexto da cristianização. Caminhava-se, paralelamente, para a fase inicial dos Descobrimentos.
Nesse ponto da história encerramos o nosso artigo, que tem como objetivo único, apresentar as origens de Portugual como país, etnia e língua. Nele, foram apenas apresentados os fatos, sem nos determos nas suas causas e nas suas consquências, nem tampouco imprimindo qualquer forma de interpretação. Era importante, para o autor da pesquisa, mostrar a forma como Portugal se originou da mesma Península Ibérica da qual se originou a Espanha, indicar os povos que compuseram a sua etnia final, bastante complexa e, finalmente, apresentar as influências que sofreu na formação final da sua língua portuguesa. Com humildade esperamos ter atingido esse objetivo, que consideramos de alguma importância como descendentes que somos daquele povo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

BREVE HISTÓRIA DAS ORIGENS DE PORTUGAL - PARTE II

INVASÃO DOS BÁRBAROS
Em 409 DC, os chamados povos bárbaros, compostos principalmente por Suevos, Vândalos e Visigodos, todos de origem germânica, além dos Alanos, de origem persa, fixam-se na Hispânia. Em 411 DC estes povos dividem entre si o território: os Vândalos ocuparam a Galécia e a Bética, os Suevos, a região ao norte do Douro, enquanto os Alanos ocuparam as províncias da Lusitânia e a Cartaginense. Algum tempo depois, ocorreu a entrada dos Visigodos, na península, a serviço do Império Romano, com o objectivo de subjugar os invasores anteriores.
De todos estes povos, os Suevos e os Visigodos seriam aqueles que teriam uma presença mais duradoura no território que é hoje Portugal. Estabelecendo a capital do seu reino em Braga, os Suevos dominaram um território que também incluía a Galiza e chegam a dominar a parte ocidental da Lusitânia. Estabelecidos na condição de federados do Império Romano, os Suevos eram pagãos, tendo sido evangelizados por S. Martinho de Dume e convertidos ao catolicismo. A partir de 470 DC crescem os problemas do reino suevo com o vizinho reino visigodo. Em 585 DC o rei visigodo Leovigildo toma Braga e anexa o reino suevo. A partir daqui toda a Península Ibérica fica unificada sob o reino visigodo (com excepção de algumas zonas do litoral sul e levantino, controladas pelo Império Bizantino) até à queda deste reino em 711 DC. Os povos bárbaros sempre foram numericamente inferiores à população hispano-romana, razão pela qual foram obrigados à miscigenação étnica e cultural.

OCUPAÇÃO MUÇULMANA
Em 711 DC a Península Ibérica foi invadida pelos muçulmanos do Norte de África (basicamente Berberes com alguma componente de Árabes), comandadas por Tarik ibn-Ziyad, o que obrigou os seus ocupantes bárbaros a recolher-se, principalmente nas Astúrias, uma região no Norte da Península que, pelas suas características naturais, colocava grandes dificuldades ao domínio muçulmano. Estes dominaram partes da península por mais de cinco séculos: inicialmente sobre o controle do Califado de Damasco, Al-Andalus, mais tarde sob a forma de um emirado e califado e, devido ao colapso deste, em pequenos reinos (Taifas) com autonomias características. Durante um longo período, em nome da recristianização da região, ocorreu um longo processo de lutas, considerado por alguns como parte do movimento de cruzadas, resultando finalmente na completa reconquista do teritório por parte dos cristãos. Os muçulmanos que não foram expulsos ou mortos durante o processo de reconquista, tiveram de aderir aos costumes locais (incluindo o Cristianismo). Não se sabe ao certo o grau existente de mescla com estes berberes na população portuguesa actual, mas há um consenso de que esta mescla existe. É durante esta fase que ocorre o nascimento do Reino de Portugal e de diversos outros reinos na Península Ibérica, vindo estes últimos, posteriormente, a se unificar dando origem ao reino de Espanha.
Al-Andalus foi o nome dado à Península Ibérica pelos seus conquistadores islâmicos do século VIII, tendo o nome sido utilizado para se referir à península, independentemente do território politicamente controlado pelas forças islâmicas.
De início integrado na província norte-africana do império omíada, o Al-Andalus seria um emirado (756–929 DC) e posteriormente um califado independente do poder abássida (929–1031 DC). Com a dissolução do califado em 1031 DC, o território pulverizou-se em vários reinos Taifa.
Com a reconquista dos territórios pelos cristãos, descendentes dos godos, que se refugiaram na região das Astúrias, no norte da península, num processo que ficou designado historicamente por Reconquista, o nome Al-Andalus foi-se adequando ao cada vez menor território sob ocupação árabe-muçulmana, na metade sul da península, aproximadamente a mesma área da antiga província romana Hispânia Bética, cujas fronteiras foram progressivamente empurradas para sul, até à tomada de Granada pelos Reis Católicos, em 1492.

A RECONQUISTA
A Reconquista (também referenciada como Conquista cristã) é a designação historiográfica do movimento cristão, com início no século VIII que visava à recuperação, pelos Visigodos cristãos, das terras perdidas para os árabes durante a invasão da Península Ibérica.
Se rápida foi a ocupação muçulmana da Península Ibérica, a reconquista pelos Visigodos foi francamente mais lenta.
Este processo gradual originou o nascimento de pequenos reinos que iam sendo alargados à medida que a Reconquista era bem sucedida.
Primeiro, o Reino das Astúrias, que viria a dividir-se entre os filhos de Afonso III das Astúrias, após a sua morte. Assim nasciam os reinos de Leão e Galiza e, mais tarde, de Navarra e Aragão e de Castela, sendo que este compreendia já as terras de Portucale, que correspondia, mais ou menos, aos territórios que hoje fazem parte de Portugal, até à cidade de Coimbra.
A guerra tinha um só objectivo: a reconquista das terras com tudo o que nelas existia. A idéia de “cruzada” só veio a surgir na época das Cruzadas (1096). A reconquista de todo o território peninsular duraria cerca de oito séculos, só sendo completada, como dito acima, em 1492, com a reconquista do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos. No então teritório de Portugal, a reconquista terminou com a conquista definitiva de Silves, pelas forças de D. Afonso III, em 1253. Mais tarde, a expansão marítima portuguesa, precedida pela conquista das praças africanas foi considerada, em parte, como uma continuação da Reconquista.

O NASCIMENTO DE PORTUGAL
Houve, no atual território de Portugal, ao longo do processo de reconquista, dois Condados Portucalenses ou Condados de Portucale distintos: o primeiro, fundado por Vímara Peres após a presúria de Portucale (Porto) em 868 e incorporado ao reino da Galiza em 1071, após a morte do conde Nuno Mendes (e que embora gozando de certa autonomia, constituiu sempre uma dependência do reino das Astúrias/Leão/Galiza), sendo sensivelmente equivalente ao actual Entre-Douro-e-Minho); o segundo, constituído em 1095 em feudo do rei Afonso VI de Leão e Castela e oferecido a Henrique de Borgonha, um burguinhão que veio auxiliá-lo na Reconquista de terras aos Mouros, tendo também recebido a mão de sua filha Teresa de Leão. Este último condado era muito maior em extensão, já que abarcava também os territórios do antigo condado de Coimbra, suprimido em 1091, partes de Trás-os-Montes e ainda do Sul da Galiza (mormente da diocese de Tui). Deve-se notar que Condado é um termo genérico para designar o Território Portucalense, já que os seus chefes eram alternativamente intitulados Comite (conde), Dux (duque) ou Princeps (Príncipe).
Por uma questão de comodidade aludir-se-á, ao longo deste artigo, ao primeiro condado portucalense como Condado de Portucale, e ao segundo como Condado Portucalense, dado serem essas as expressões mais consagradas.
O nome do condado vem do topônimo Portucale, com o qual desde o século IX se designava uma cidade situada perto da foz do Douro, designada de Portus Cale, "Porto de Cale", formado pelo termo latino portus ("porto") e pelo grego kalós ("belo"), donde qualquer coisa como "Porto Belo".
Data assim desse período a expressão terra portucalense ou província portucalense para designar um território distinto que era limitado, ao norte, pela terra bracarense, e ao sul, pelo rio Vouga, e tinha por centro e cabeça a povoação de Portucale.
Quando da invasão muçulmana da península Ibérica, Portucale era já, desde a segunda metade do século VI, a sede da diocese Portucalense, situada na província da Galécia, subordinado ao bispo de Braga. Com a invasão, a diocese não sobreviveu, tendo sido restaurada apenas após a reconquista do Porto, em 868.