Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quinta-feira, 18 de maio de 2023

CISÃO DOS JUDEUS: REINOS DE JUDÁ E ISRAEL

 

I - INTRODUÇÃO


Quando olhamos para a nação do moderno Estado de Israel e lemos a Bíblia, pode haver muita confusão sobre o que você está olhando comparado ao que você está lendo no que se refere “ao que está onde”. Em algum ponto, o Reino de Israel foi completamente fracionado e nos perguntamos o que era Israel e o que era Judá e onde eles estariam agora? Enquanto a terra de Israel era originalmente um reino unido, em dado momento foi dividido em dois reinos, ambos baseados em crenças e culturas hebraica/judaica. Como foi que tudo isso aconteceu?
Como sempre faço em minhas postagens, estou expressando, nesta introdução, apenas a minha própria opinião. Sempre tive enorme admiração pelo povo judeu, principalmente por sua tenacidade como nação. Exatamente por isso e conhecedor de bastante de sua história, através do Antigo Testamento e de outras fontes não bíblicas consideradas importantes, nunca entendi direito a profunda e definitiva cisão ocorrida entre as doze tribos de Israel, historicamente um acontecimento até então inconcebível e que, pelo menos para mim, até hoje, provoca enormes dúvidas quanto ao povo que atualmente constitui o moderno Estado de Israel.
Esta postagem não pretende, de forma alguma, contar a história do povo judeu (com mais de seis mil anos de existência), nem parte dessa história. O foco da postagem restringe-se a este pequeno evento, em duração, mas de consequências importantíssimas para a história da nação judaica. Espero poder atingir, nesta curta postagem, o objetivo a que me proponho.


II - A HISTÓRIA DA CISÃO

Originalmente, as doze tribos de Israel teriam os nomes de onze dos filhos de Jacó – que teve seu nome posteriormente alterado para Israel -, já que José não teve uma tribo. A tribo que faltava foi, na verdade, constituída por duas semi tribos com os nomes dos filhos de José: Manassés e Efraim. As “Doze Tribos” tiveram, portanto, os seguintes nomes: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim e Manassés/Efraim.
Quando, segundo o Antigo Testamento, o povo de Israel pediu a Deus um rei, a nação oficialmente tornou-se um reino, mas foi avisada por Deus, que tal reino viria com todos os seus desafios. O primeiro rei de Israel foi Saul (cerca de 1.021 a 1.000 AC), escolhido pelo Juiz Samuel e por aclamação pública. A Saul seguiu, como o segundo rei de Israel, Esbaal, seu filho, que reinou por apenas dois anos, sempre em guerra com Davi, genro de Saul, e foi assassinado por dois capitães do seu próprio exército. Após Esbaal, reinou Davi, de 1010 a 970 AC, como o terceiro rei do Reino Unido de Israel. Salomão, seu filho, o sucedeu como quarto e penúltimo rei do Reino Unido de Israel (970-931 AC). Foi o construtor do Primeiro Templo de Jerusalém, dedicado a Javé, Deus dos Judeus. Com a morte de Salomão, que já teve o final do seu reinado bastante complicado, seu filho Roboão o substituiu como último rei do Reino Unido de Israel e o primeiro Rei de Judá (931 a 913 AC), um dos reinos que o sucedeu.
Como profetizado pelo Profeta Aías (Reis I, 11:31-35), a casa de Israel (formada pelas Doze Tribos originais) foi dividida em dois reinos. Essa divisão, que ocorreu cerca de 930 AC, após a morte de Salomão e durante o reinado de seu filho Roboão, aconteceu porque o povo se revoltou contra os pesados impostos cobrados por Salomão e seu filho Roboão, bem como por fortes indícios de afastamento dos preceitos originais de Javé.
Durante o reinado de Roboão, a tribo de Judá e a tribo de Benjamin (praticamente toda a tribo) o aceitaram como rei e constituíram assim o Reino de Judá, ou o Reino Sul de Israel, com sua capital em Jerusalém. As outras dez tribos (e o restante da tribo de Benjamin) – usualmente conhecidas como “As Dez Tribos” – escolheram Jeroboão como seu rei. Essas Dez Tribos retiveram o título de Israel, tornando-se também conhecidas como Efraim, que era a tribo dominante. Tornou-se o Reino do Norte com quartel general em Shechem, na região da Samaria. Desta época em diante, o povo judeu, herdeiro de Abrahão, o primeiro grande Patriarca, nunca mais voltou a ser o mesmo! 
Reinos de Judá (amarelo) e Israel (azul)
Aqui faz-se necessário uma palavrinha sobre Jeroboão, filho de Nebat, um membro da tribo de Efraim. Ainda um jovem, Salomão o fez superintendente dos homens de sua tribo na construção da fortaleza de Millo, em Jerusalém e outros serviços públicos. Assim, ele naturalmente tornou-se familiarizado com o difundido descontentamento causado pelas extravagâncias que marcaram o final do reinado de Salomão. Influenciado pelas palavras do profeta Aías, ele começou a conspirar para tornar-se rei, mas foi descoberto e fugiu para o Egito onde permaneceu sob a proteção do faraó Shishak até a morte de Salomão. Depois desse evento ele retornou e participou de uma delegação enviada para negociar junto ao novo rei Roboão a redução dos impostos. Com a negativa de Roboão e as suas maquinações, dez das doze tribos retiraram sua submissão à Casa de Davi, proclamando Jeroboão seu rei e formando o Reino Norte de Israel.
Em seu conjunto, Judá, o outro reino, permaneceu mais fiel a Javé. Quase ao mesmo tempo em que o Reino do Norte de Israel foi estabelecido, renegou a própria fé (apostasia). Embora grandes profetas como Elias e Amós ministrassem no reino, o povo adorava falsos deuses e adotava muitas práticas do Baalismo.
Pelo Antigo Testamento vemos que essas duas nações lutaram entre si, ambas tornando-se fortes e independentes e criando duas linhagens distintas na História, com seus próprios reis e seus próprios profetas. Tristemente, Israel e Judá caíram no cativeiro, embora para diferentes potências e em épocas diferentes.
Embora mais populoso que o Reino de Judá, o Reino de Israel caiu cerca de 135 anos antes. Cerca de 721 AC, Israel foi capturado pelos assírios, sob Shalmanezer, e levado embora, tornando-se, subsequentemente, perdido ao conhecimento dos homens. É hoje conhecido como “as dez tribos perdidas”, visto que Israel nunca se livrou totalmente do cativeiro assírio. Os Samaritanos foram considerados degenerados da casa de Israel, mas muitas tribos foram consideradas perdidas.
Geograficamente, Judá era menos exposta a ataques, mas em 588 Nabucodonosor, da Babilônia, sitiou Jerusalém e virtualmente encerrou com o Reino de Judá, levando seu povo cativo para a Babilônia. Após 70 anos, o rei Ciro, da Pérsia, capturou a Babilônia e permitiu a Judá retornar a Jerusalém. Muitas pessoas de Judá se haviam dispersado pela Ásia, mas a maioria retornou a Jerusalém e à reconstrução do Templo de Salomão, símbolo maior da nação judaica. Assaltados por Síria e Egito, Judá nunca recuperou seu poder original e, pelo tempo de Jesus, Jerusalém já se tinha tornado um tributário de Roma.
É importante também, para bem esclarecer o futuro de toda a região, que se digam algumas palavras sobre a Samaria. Tanto na Bíblia quanto em fontes não bíblicas, o nome “Samaria” ocorre numerosas vezes como nome de uma cidade ou designação da região de que a cidade era a capital. O nome foi aplicado à região, quando a cidade de Samaria tornou-se a capital do reino israelita do norte sob o rei Omri, no século IX AC. Após a divisão do Reino de Israel (Judá e Israel), a província da Samaria compreendia, primeiramente, todo o território ocupado pelas dez tribos revoltadas, e estendeu-se até a Galileia. Samaria é mencionada na Bíblia como o nome da montanha em que Omri construiu sua capital, nomeando-a também Samaria. Em 732 AC, os assírios aí assentaram novos estrangeiros para se misturarem ao povo de Israel, quando se tornaram conhecidos como Samaritanos. Após a conquista do Reino do Norte pelos Assírios cerca de 722 AC, o distrito circundando a cidade foi também chamado Samaria. Subjugada a cidade, o assírio Sargão mandou os seus habitantes para longe, estabelecendo-os em sítios que ficavam muito longe do país de Israel. Em conformidade com a política dos conquistadores da antiguidade, Sargão e, mais tarde, Esar-Hadom, repovoaram Samaria com gente da Babilônia, de Cuta e de outras províncias longínquas, sendo o seu fim certamente destruir os sentimentos nacionais entre os povos conquistados.
Após a destruição do Reino de Israel, os samaritanos emergiram como um grupo étnico-religioso na região da Samaria, alegando descender dos israelitas; com seu templo no Monte Gerizim, eles prosperaram por séculos.
De acordo com a versão judia dos eventos, quando o exílio das tribos de Judá terminou em 539 AC e os exilados começaram a retornar da Babilônia, os samaritanos encontraram sua pátria anterior do norte, habitada por outras pessoas que alegavam ser sua pátria, e Jerusalém, sua gloriosa capital anterior, em ruínas. Os habitantes adoravam deuses pagãos e eles apelaram ao rei da Assíria por sacerdotes israelitas para instruí-los a adorar o Deus dos Judeus. O resultado foi uma mistura de religiões em que grupos nacionais adoravam o Deus Israelita, mas também serviam a seus próprios deuses de acordo com os costumes das nações das quais eles tinham sido trazidos. Os samaritanos alegavam ser o verdadeiro Israel, como descendentes das Dez Tribos Perdidas levadas no cativeiro assírio. Além disso, alegavam que sua versão do Pentateuco era a original e que os judeus possuíam um texto falsificado produzido por Ezra, durante o exílio na Babilônia. Hoje, a maioria dos estudiosos acredita que os samaritanos eram uma mistura de israelitas com outras nacionalidades com que os assírios haviam recolonizado a região.
Por todas essas razões, os Samaritanos tornaram-se os grandes inimigos do povo judeu quando, retornando do seu exílio na Babilônia, dedicou-se à reconstrução de Jerusalém e do Templo de Salomão.
Apresentamos, para encerrar a postagem, as duas relações dos reis de Judá e de Israel, desde a cisão do Reino Unido de Israel, até a partida para os seus respectivos cativeiros:

REINO DE JUDÁ                                                REINO DE ISRAEL

Roboão                                                                   Jeroboão
Abião ou Abias                                                      Nadabe
Asa                                                                         Baasa
Jeosafá                                                                   Elá 
Jeorão                                                                    Zinri
Acazias                                                                 Omri  
Joás                                                                       Acabe
Amazias                                                                Jorão
Uzias (Ozias) ou Azarias                                      Jeú
Jotão                                                                     Jeohacaz
Acaz                                                                     Jeoás
Ezequias                                                               Jeroboão
Manassés                                                              Zacarias
Amom                                                                  Salum
Josias                                                                    Menaém
Jeoacaz                                                                 Pecaías
Eliaquim (Jeoiaquim)                                           Peca
Joaquim                                                                Oséias
Zedequias (Cativeiro e morto Babilônia)            Shalmaneser


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 01)

I - INTRODUÇÃO

Custei, mas aprendi, por conta mesmo de muitas das postagens aqui colocadas, sobre a necessidade do conhecimento das civilizações que, segundo os grandes mestres da História, são consideradas como as primeiras da humanidade, aquelas a partir das quais todas as demais se desenvolveram ou profundamente sofreram a sua influência. Tais civilizações foram responsáveis por toda a sequência de acontecimentos mundiais que as sucederam e, por isso mesmo, são frequentemente citadas em todas as informações disponíveis. Por essa razão, frequentemente somos obrigados a realizar alguma incursão sobre uma ou mais delas, para que os nossos leitores – os que ainda não conhecem o assunto – fiquem também a par dessas informações.
Lembro aos leitores que, neste artigo, estaremos falando sobre as primeiras civilizações e não sobre os primeiros homens ou humanoides sobre a terra - questão ainda bem mais complexa de resolver, dados os vários aspectos religiosos e científicos envolvidos -, provavelmente surgidos na África, cerca de 250.000 AC. Todos possuímos alguma ideia sobre o significado da palavra “civilização”, um conceito relacionado a uma sociedade complexa e avançada, como a atual sobre a Terra, mas também a culturas antigas que floresceram há milênios atrás, nos deixando um fantástico legado. Will Durant, em sua “História da Civilização”, define tal conceito como: “Ordem Social na promoção da criação de cultura”; e junta os quatro elementos que constituem uma civilização: “disposição econômica, organização política, tradições morais e a busca do conhecimento e das artes”. Acrescenta um ponto importantíssimo ao dizer que “a civilização começa aonde o caos e a insegurança começam, pois quando o medo é dominado, a curiosidade e a construção são livres e o homem passa, pelo impulso natural em direção ao entendimento e ao embelezamento da vida”. Numa definição mais palpável, Xavier Bartlett, licenciado em História e Arqueologia pela Universidade de Barcelona, diz que “civilização, num amplo sentido, denota um conjunto de ideias, conhecimentos, valores, instituições e empreendimentos de uma sociedade em um dado instante”.
É nesse contexto que, tentando resolver a nossa situação, de uma vez por todas, decidimos tomar coragem, realizando a pesquisa e publicando a presente matéria, que tem como objetivo a descrição das três primeiras grandes civilizações da Terra: Mesopotâmia, Egito e Vale do Indo.
Lembro aos leitores, como reforço à importância do tema, a frequência com que certas cidades, personagens e fatos ocorridos nessas civilizações, são mencionados no livro mais importante do mundo, o Antigo Testamento da Bíblia. Certamente, de posse desses conhecimentos, poderemos entender bem melhor a leitura do Livro Sagrado.
Entretanto, antes de iniciar o desenvolvimento dos objetivos específicos a que nos propomos, vejo importante que façamos, pelo menos, uma introdução ao sistema arqueológica de idades, muito necessário ao perfeito entendimento do estudo das grandes civilizações primitivas, como segue.

II - SISTEMA ARQUEOLÓGICO DAS TRÊS IDADES

O sistema das três idades, em arqueologia e antropologia física, é a classificação da pré-história[1] humana em três períodos de tempo consecutivos, designados por suas respectivas tecnologias de confecções de ferramentas:

Idade da Pedra (grosseiramente 3,4 milhões de anos atrás, até 6.000 a 2.000 AC)
Idade do Bronze (3.300 A.C – 1.200 A.C)
Idade do Ferro (1.200 AC – 200 D.C)

É temerário - e de pouco valor cronológico - querer definir com precisão inícios e finais das várias eras, pois está mais do que provado que elas não iniciaram ou acabaram simultaneamente em todo o mundo As datas e contextos variam muito, dependendo da região e tal sequência de eras não é necessariamente verdadeira para cada parte da superfície terrestre. Há áreas, como ilhas do Pacífico Sul, interior da África e partes da América do Norte e do Sul, onde os povos passaram diretamente do uso da pedra para o uso do ferro sem uma era intermediária do bronze. Muito próximo de nós, temos o caso do Brasil, que se encontrava, certamente, na Idade da Pedra quando os navegadores portugueses aqui chegaram, com todo o conhecimento da passagem da Idade Média para o Renascimento europeu, que incluía o uso das armas de fogo; nossos índios ficaram, portanto, muito longe de conhecerem toda a transição pelas várias eras.
O conceito da divisão das eras pré-históricas, em um sistema baseado nos metais, estende-se até a antiga história europeia, mas o presente sistema arqueológico das três eras principais – pedra, bronze e ferro – origina-se do arqueólogo dinamarquês Christian Jurgensen Thomsen (1788–1865), que colocou o sistema em bases mais científicas, por estudos tipológicos[2]  e cronológicos, inicialmente de ferramentas e outros artefatos presentes no Museu das Antiguidades do Norte, em Copenhague (mais tarde Museu Nacional da Dinamarca). Posteriormente ele utilizou artefatos e relatórios de escavação publicados ou a ele enviados por arqueólogos que faziam escavações controladas. Sua posição como curador do museu deu-lhe visibilidade suficiente para tornar-se altamente influente na arqueologia dinamarquesa.
A partir do exame dos artefatos do Museu e relatórios das modernas escavações, Thomsen mostrou que o material poderia ser classificado em tipos e que esses tipos variavam no tempo de forma a correlaciona-los com a predominância de implementos e armas de pedra, bronze e ferro. Desta forma, ele transformou o Sistema de Três Eras, de um esquema evolucionário, baseado na intuição e no conhecimento geral, em um sistema de cronologia relativa apoiado por evidência arqueológica. Tal como desenvolvido por Thomsen e seus contemporâneos na Escandinávia, esse sistema foi inicialmente enxertado na cronologia bíblica. Mas, durante os anos de 1830 eles alcançaram independência das cronologias textuais e confiaram principalmente na tipologia e estratigrafia[3].
Arranjando o material da coleção cronologicamente, Thomsen mapeou as espécies de materiais que ocorriam simultaneamente nos depósitos e quais não, pois que tais arranjos lhe permitiriam discernir tendências exclusivas a certos períodos. Desta forma ele descobriu que ferramentas de pedra não apareciam junto com ferramentas de bronze e ferro nos depósitos mais antigos e que ferramentas de bronze não foram encontradas com ferramentas de ferro, de forma que três períodos podiam ser definidos pelos três materiais disponíveis, pedra, bronze e ferro.
Essa análise, que enfatizava a ocorrência simultânea e a atenção sistemática ao contexto arqueológico, permitiu a Thomsen construir uma estrutura cronológica dos materiais da coleção e classificar novos achados em relação à cronologia estabelecida, mesmo sem muito conhecimento da sua origem. Desta forma, o sistema de Thomsen era realmente um sistema cronológico e não um sistema evolucionário ou tecnológico.
Por 1831 Thomsen estava tão certo da utilidade do seu método que fez circular um panfleto “Artefatos Escandinavos e sua Preservação”, aconselhando arqueólogos a observar o maior cuidado em anotar o contexto de cada artefato; tal panfleto teve efeito imediato. Resultados reportados a ele confirmaram a universalidade do Sistema das Três Eras. Thomsen já tinha uma reputação internacional quando, em 1836, a Real Sociedade de Antiquários do Norte publicou a sua contribuição ilustrada no “Guia da Arqueologia Escandinava” em que ele expunha a sua cronologia com comentários sobre tipologia e estratigrafia.
Thomsen foi o primeiro a perceber tipologias de objetos de túmulos, tipos de túmulos, métodos de enterro, motivos cerâmicos e decorativos, bem como designar esses tipos a camadas encontradas em escavações. Seus aconselhamentos pessoais e publicados, relativos a métodos de escavação, a arqueólogos dinamarqueses, produziram resultados que comprovaram, empiricamente, o seu sistema, colocando a Dinamarca na vanguarda da arqueologia europeia por uma geração, pelo menos.
Desde 1836 o seu sistema tem sido expandido por subdivisões de cada era e refinado por achados arqueológicos e antropológicos adicionais, além do concurso de outros arqueólogos e antropólogos que vieram após ele. As alterações mais importantes referem-se à subdivisão da Idade da Pedra em três períodos – Paleolítico, Mesolítico e Neolítico – e à subdivisão da Idade do Bronze em dois períodos – Idades do Cobre e do Bronze propriamente dita.


TABELA RESUMIDA DO SISTEMA DAS TRÊS ERAS 

Era
Período
Ferramentas
Economia
Locais de Moradia
Sociedade
Religião
Idade da Pedra
Paleolítico
Ferramentas e objetos manufaturados encontrados na natureza – porrete, clava, pedra afiada, cutelo, machado, lança, arpão, agulha.
Caça e coleta
Estilo de vida móvel - cavernas, cabanas, em geral a beira de rios ou lagos
Um grupo de coletores de plantas comestíveis e caçadores (25 a 100 pessoas)
Evidência de crença no após vida apenas no Paleolítico Superior, marcado pela aparência de rituais de enterro e adoração de ancestrais. Sacerdotes e servos de santuários aparecem na pré-história.
Mesolítico
Ferramentas empregadas em dispositivos compostos – arpões, arco e flecha. Outros dispositivos tais como cestas de pesca e barcos
Caça e coleta intensa, presa de animais selvagens e sementes de plantas selvagens para uso doméstico e cultivo
Vilas temporárias em locais oportunos para atividades econômicas
Tribos e bandos
Neolítico
Ferramentas de pedra polida, dispositivos úteis no cultivo de subsistência e defesa – formão, enxada, arado, canga, gancho de ceifa, tear, cerâmica e armas
Revolução Neolítica – domesticação de animais usados na agricultura e pastoreio, caça e pesca. Ferramentas de guerra.
Instalações permanentes variáveis em tamanho, de vilas a cidades muradas, obras públicas.
Tribos e formação de supremacias em algumas sociedades Neolíticas do final do período
Politeísmo presidido pela deusa mãe.
Idade do Bronze
Idade do Cobre
Ferramentas de cobre, roda de oleiro
Civilização incluindo ofício e comércio
Centros urbanos circundados por comunidades politicamente ligadas
Cidades-estados*
Deuses étnicos, religião do estado
Idade do Bronze
Ferramentas de bronze
Idade do Ferro
Ferramentas de ferro
Economia nacional presidida pelo governo
Cidades ligadas por estradas, capital de cidade
Países, impérios
Uma ou mais religiões sancionadas pelo estado
* A formação de estados se inicia durante o início da Idade do Bronze no Egito e Mesopotâmia; durante o final da Idade do Bronze são fundados os primeiros impérios.



[1] Pré-história (antes da história, ou antes do conhecimento adquirido pela investigação) é o período de tempo antes da que a história fosse registrada ou antes da invenção dos sistemas de escrita. Ela se refere ao período da existência humana antes da disponibilidade daqueles registros escritos com os quais começa a história registrada. Mais amplamente, pode se referir a todo o tempo entre o início da existência humana e a invenção da escrita.
[2] Na arqueologia, a tipologia é um método científico que estuda os diversos utensílios e outros objetos (cerâmicas, peças de metal, indústrias lítica e óssea, etc.) encontrados nas escavações, e que os agrupa e classifica segundo as suas características quantitativas (medidas) e qualitativas (morfologia, matéria-prima, técnicas de fabrico, etc.), com vista à sua repartição em classes definidas por tipos modelo.
[3] Estratigrafia é um ramo da geologia que estuda as camadas de rochas e a formação em camadas (estratificação). Ela é primariamente utilizada no estudo de rochas sedimentares e rochas vulcânicas em camadas. A estratigrafia inclui dois campos relacionados: estratigrafia litológica (lito estratigrafia) e estratigrafia biológica (bio estratigrafia).

Na próxima postagem, PARTE 2

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 1 DE 2)

I - INTRODUÇÃO

Há mais ou menos um mês atrás, terminei de ler um livro antigo, famoso e que, em minha opinião, faz muito jus à sua fama. Seu nome: “E a Bíblia Tinha Razão ...”. O livro, de autoria de Werner Keller, foi originalmente editado em 1955, na Alemanha, e continua até hoje um enorme sucesso de literatura. Através de descobertas arqueológicas e muita pesquisa, o autor mostra que tudo o que está escrito na Bíblia, abrangendo o Antigo e o Novo Testamento, realmente são fatos históricos e não histórias da carochinha como muitos pretendem que sejam, ainda até hoje. O livro descreve, de uma forma muito simples de se entender, todos os principais acontecimentos da Bíblia e os compara com as descobertas arqueológicas correspondentes, facilmente demonstrando a sua veracidade.
O autor comove o leitor quando entra no Novo Testamento e apresenta os vários livros, contando sobre a vida de Jesus Cristo e dos lugares em que Ele viveu e frequentou, até o Seu calvário, morte na cruz e a ressurreição. Foi ao ler o capítulo em que Cristo abandona Nazaré, o lugar onde Se criou, para iniciar o Seu ministério em região específica da Galileia, na pequena vila de Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia – ou Genezaré, segundo Lucas - , que senti um impulso enorme para aprender e escrever algo sobre essa região, da qual tão pouco eu conhecia. E foi então que me botei a pesquisar sobre o assunto que ora apresento aos meus leitores e que espero os cative assim como me cativou.
Para que o assunto não fique muito longo para uma só postagem, vou publicá-lo em duas partes, das quais esta é a primeira.

II - A GALILEIA

II.1 GENERALIDADES

A descrição desses locais é, em geral, bastante complicada, por se tratar de lugares conhecidos e mencionados há milhares de anos, que foram ocupados por vários povos, de origens muito diversas e que hoje, finalmente, pertencem a Israel. Por essa razão vou, inicialmente, apresentar e descrever alguns mapas para que o leitor bem possa se localizar a nível mundial e regional, temporalmente.
Como pano de fundo para o artigo, o primeiro mapa que eu gostaria de apresentar (Figura 1, abaixo), emprestado do Google Earth, mostra boa parte do Oriente Médio, com todas as regiões envolvidas na postagem. Nesse mapa podemos localizar, a nível mundial, parte do Mar Mediterrâneo (com a Ilha de Chipre), o norte do Egito (com o rio Nilo e Alexandria), o golfo de Suez, a Península do Sinai, o golfo de Aqaba e a extremidade norte do Mar Vermelho, os estados de Israel, Jordânia, Líbano, Síria (parcial), Iraque (parcial) e Arábia Saudita (parcial), além dos territórios em disputa, Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golã. No estado de Israel, é possível ver o Mar Morto, o Mar da Galileia e, em suas vizinhanças, a região da Galileia.
Figura 1 - Mapa do Oriente Médio, com todos os atores da peça

Figura 2-Palestina cerca de 975 AC
Para atingir o meu objetivo, penso acertado prosseguir pela descrição da Palestina, região com limites muito teóricos e pouco preciso. Assim, um dos nomes tradicionais para as “Terras da Bíblia”, que incluem “Terra Santa”, “Terra Prometida”, Israel e Canaan, sendo derivado dos Filisteus, inimigos dos israelitas, a Palestina (em árabe transliterado, Filastin; em grego transliterado, Palaistine; e em latim Paloestina) é a denominação histórica dada pelo Império Romano, a partir de um nome hebraico bíblico, a uma região do Oriente Médio, grosseiramente situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as atuais fronteiras ocidentais do Iraque e Arábia Saudita, hoje compondo os territórios da Jordânia e Israel, além do sul do Líbano e os territórios de Gaza e Cisjordânia (ou Margem Ocidental do rio Jordão, território sob ocupação de Israel, reclamado pela Autoridade Palestina e pela Jordânia, limitado a leste pela Jordânia e a norte, sul e oeste por Israel). Com o enfraquecimento do poder egípcio, em finais do século XIII AC, a região foi invadida pelos chamados “Povos do Mar”. Um destes povos, os filisteus, fixou-se junto à costa oriental do Mediterrâneo, contemporânea à chegada das tribos hebraicas, com Josué, que se instalaram no interior gerando guerras com os filisteus, que se recusaram a aceitar a presença hebraica. As tribos hebraicas, unidas sob os reis Saul, Davi e Salomão, finalmente derrotaram os filisteus, fixando a capital do reino em Jerusalém e constituindo, de certa forma, a original “terra dos judeus” (Figura 2, acima). Constituindo um trecho relativamente estreito, de favorável passagem entre a África e Ásia, a Palestina sempre foi palco de um grande número de conquistas, pelos mais variados povos, por se constituir num corredor natural para os antigos exércitos.
Figura 3 - A Judeia sob Herodes, pelo ano 37 AC
No ano 40 AC, Herodes, o Grande, foi indicado como rei da Judeia ("Rei dos Judeus") pelo Senado do então Império Romano que, entre outras regiões, dominava a Palestina. Foram necessários três anos antes que Herodes e seu exército viajassem à Palestina para conquistar Jerusalém e tornar-se, de fato, o único governante de toda a Judeia. A linha negra da Figura 3, ao lado, delimita a área que constituía a Judeia sob o reinado de Herodes, o Grande, no ano 37 AC. No ano 4 AC, Herodes, o Grande, morre e o então imperador romano, Augusto, divide o seu reino entre alguns de seus filhos. Herodes Arquelaus é feito etnarca (governador de província) da Samaria, Idumeia e uma boa parte do reino anterior da Judeia que, logo no ano 6 AC, tornar-se-ia a província da Judeia, colocada diretamente sob o governo romano. Filipe, o tetrarca (muitas vezes referido como Herodes Filipe II), filho de Herodes e sua quinta esposa Cleópatra de Jerusalém e meio-irmão de Herodes Arquelaus e Herodes Antipas, recebe de Roma a parte nordeste do antigo reino de Herodes, que inclui Bataneia, Auranitis e Traconitis. Seu terceiro filho, Herodes Antipas, é feito tetrarca da Galileia e Pereia, governando-a de 4 AC a 39 DC; esse foi o Herodes que, Segundo os registros do Novo Testamento, não somente prendeu e decapitou João Batista, como também teve papel importante na crucificação de Cristo. Note-se que a Figura 3 já apresenta essas divisões e a correspondente legenda.

II.2 LOCALIZAÇÃO DA GALILEIA

A Galileia, por sua vez, é hoje uma grande área da região norte de Israel, entre o rio Litani, no Líbano atual, e o vale de Jezreel na Israel moderna, que envolve a maior parte dos distritos administrativos do Norte e Haifa. Tradicionalmente dividida em Galileia Superior, com chuvas pesadas e altos picos, Galileia Inferior, com clima mais ameno, e Galileia Ocidental, estende-se da cidade de Dan, na base do Monte Hermon, ao longo do Monte Líbano, ao norte, até as cristas do Monte Carmelo, Monte Gilboa, norte de Jenin e Tulkarm, ao sul, e do vale do Jordão, ao leste, através das planícies do vale Jezreel e Acre até as praias do mar Mediterrâneo e a planície costeira, no oeste. A região da Galileia mudou de mãos em várias oportunidades: egípcios, assírios, canaanitas e israelitas.
Figura 4
A Galileia – significando “círculo” ou “distrito” – era uma das maiores regiões da antiga Palestina, ainda maior que a Judeia ou Samaria. O nome Galileia, que à época dos romanos era aplicado a uma grande província, parece ter sido, originalmente, confinado a um pequeno circuito de terra em torno de Kedesh-Naphtali (uma das mais remotas cidades de Judá, junto ao limite sul de Edom), onde estavam situadas as vinte cidades doadas por Salomão a Hiram, rei do Tiro, em pagamento ao transporte de cedro do Líbano para Jerusalém. Ao tempo de Cristo, o território de Israel era dividido em três províncias: Judeia, Samaria e Galileia, esta última incluindo toda a secção norte do país, com os antigos territórios de Issachar, Zebulun, Asher e Naphtali. A oeste era limitada pelo território de Ptolemais; a fronteira sul corria ao longo da base do monte Carmelo e das colinas de Samaria até o monte Gilboa e então descendo ao vale de Jezreel por Scythopolis, ao Jordão; o rio Jordão, o Mar da Galileia e o alto Jordão até a fonte de Dan formavam o limite oeste; e o norte desenvolvia-se de Dan para o oeste ao longo da crista montanhosa até tocar no território dos fenícios. Era dividida em “Galileia Inferior” e “Galileia Superior” (com altitudes superiores a 900 metros). A mais alta região do país, com as menores temperaturas, bem irrigada pelas chuvas de inverno e com numerosas fontes, a Galileia era uma região de fertilidade natural, adequando-se a todas as variedades de flora, merecendo destaque especial a nogueira. As Figuras 4 a 8 se completam e mostram todos os pontos descritos acima.
Figura 5
A maior parte da Galileia é constituída por terreno rochoso, com alturas variando entre 500 e 700 metros. Entretanto, há várias montanhas altas na região, que incluem os Montes Tabor e Meron (1.208 m), com temperaturas relativamente baixas e altas precipitações. Como resultado deste clima, a flora e a fauna abundam na região, enquanto muitos pássaros anualmente migram de climas mais frios para a África e retornam através do corredor Hula-Jordão. Os cursos e quedas d’água – estas principalmente na Galileia Superior – junto com vastos campos de folhagens e folhas silvestres coloridas, bem como numerosas cidades de importância bíblica, tornam a região um popular destino turístico.

II.3 HISTÓRIA DA GALILEIA

Mencionada pela primeira vez pelo Faraó Tutmés III, que lá conquistou várias cidades canaanitas em 1.468 A.C., a Galileia foi também mencionada várias vezes no Velho Testamento (Josué, Crônicas, Reis).
Figura 6
Segundo a tradição judaica, as unidades patriarcais (Tribos de Israel) do antigo povo de Israel teriam se originado dos doze filhos de Jacó (mais tarde chamado Israel), neto de Abraão: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. A tribo de José foi, posteriormente, dividida em duas (meias tribos), Manassés e Efraim, os dois filhos de José com sua esposa egípcia, Azenate, deixando de existir a tribo de José. Moisés liderou as doze tribos pelo deserto da Península do Sinai e coube a seu sucessor, Josué, coordenar a tomada de Canaã. Para que essa tomada ocorresse de forma ordenada, a região foi dividida entre cada uma das tribos e meias tribos, que se encarregaram de conquista-las, na verdade, de forma mais ou menos independente. Após a narrativa da conquista de Canaã, os relatos da Bíblia tornam-se confusos, com referências geográficas praticamente inexistentes ou inconsistentes e, com o tempo, as tribos deixaram de existir geograficamente, seu povo sendo absorvido, ou por povos estrangeiros ou por outras tribos israelitas, ou por ambos, embora ainda considerado como parte das doze tribos. Na verdade, embora a suposta irmandade, as tribos nem sempre foram aliadas, o que ficou manifesto quando da cisão do reino, após a morte do Rei Salomão.
Figura 7
De acordo com o Antigo Testamento da Bíblia, a Galileia foi nomeada pelos israelitas e, originalmente, foi a região tribal de Naftali e Dã, às vezes se envolvendo com a terra de Aser, sendo muitas vezes referida apenas como Naftali. O nome israelita da região vem da raiz hebraica galil, uma palavra para designar “distrito” e, usualmente, “círculo”.
Figura 8
A região da Galileia (Figuras 5 e 6) foi, presumivelmente, o lar de Jesus durante, pelo menos, 30 anos de sua vida, para onde havia sido levado por seus pais José e Maria assim que souberam da morte de Herodes, enquanto residindo no Egito. A Galileia é melhor conhecida como a região onde, de acordo com os Evangelhos, Jesus conduziu a maior parte do Seu ministério público, particularmente nas cidades de Nazaré e Cafarnaum, e onde realizou a maior parte dos seus conhecidos milagres. Por exemplo, a vila árabe de Kafr Cana (Figura 6), cerca de 7 km a nordeste de Nazaré, na Galileia Inferior, é identificada como a Canaã da Galileia onde, segundo a tradição, Jesus teria realizado o milagre da transformação da água em vinho, quando participando das bodas de um casal de poucos recursos. A Figura 9 abaixo mostra a "Igreja das Bodas", por se crer que fica no mesmo local onde Jesus teria praticado o seu primeiro milagre.
Figura 9 - A Igreja das Bodas
Os autores dos Evangelhos declaram que a maior parte de Sua juventude foi vivida na Galileia Inferior, ao passo que Sua vida adulta, tempo da Sua pregação, foi passada nas margens a noroeste do Mar da Galileia, onde ficavam as cidades onde Jesus passou a maior parte da sua vida, aí incluídas Cafarnaum e Betsaida (ver Figuras 5 e 6).
Descobertas arqueológicas de sinagogas dos períodos helenístico e romano na Galileia, mostram forte influência fenícia e uma alto grau de tolerância por outras culturas, relativamente a outros locais sagrados dos judeus, no mesmo período, porque considerado “limpo de impurezas”. A Galileia oriental manteve uma maioria judia até o século VII.
O historiador judeu, Josephus, registra que havia mais de 200 vilas na Galileia no ano 66 DC, sendo bastante povoada nesta época. Sendo mais exposta a influências estrangeiras do que outras regiões judias, tinha também uma grande população pagã e era por isso conhecida por outro nome que, traduzido para o português, significava “Região dos Gentis”. Sob a dominação romana, desenvolveu-se uma característica identidade galileana, fazendo com que a Galileia fosse tratada como área administrativa separada da Judeia e da Samaria; tal fato foi majorado porque a Galileia foi, por muito tempo, governada por “fantoches” romanos ao invés de pela própria Roma. A consequência foi uma estabilidade social maior, significando não ter sido um centro de atividade política anti-romana, nem uma região marginalizada, como podem dar a entender os Evangelhos. A Galileia é também a região onde o judaísmo adquiriu a maior parte de sua forma moderna. Após a segunda revolta Judia (132 – 135 DC) quando os judeus foram totalmente expulsos de Jerusalém, muitos foram obrigados a emigrar para o norte, aumentando de forma considerável a população da Galileia, com o tempo atraindo mais judeus que já viviam em outras áreas.


quinta-feira, 18 de março de 2010

UM POUCO DA HISTÓRIA DOS HEBREUS - PARTE III

A Bíblia relata que teria havido, então, fome na terra prometida de Canaã e que, por causa disso, o Patriarca - e todo o seu acampamento - teria se retirado para o Egito. Ao chegar no país, temendo Abrahão que viesse a ser morto pela beleza de sua mulher, com ela combinou de dizerem aos egípcios que eram irmãos e não casados. O faraó de fato apaixonou-se por Sara, levando-a para o seu palácio e passando a favorecer Abraão. Ainda segundo a Bíblia, Deus teria castigado o rei egípcio, que chamou Abraão e devolveu-lhe Sara, ordenando-lhe que deixassem o país com os seus bens.
A Bíblia narra que Abrahão, juntamente com Sara e seu sobrinho Lot, retornou do Egito para a terra de Canaã, para o mesmo local onde se fixara anteriormente, ao Sul de Betel (provavelmente Salém) e lá tornou-se muito rico. Entretanto, Abraão e Lot resolveram separar-se devido às contendas ocorridas entre os seus pastores por causa do numeroso rebanho que possuíam. Estudos não bíblicos explicam que Abrahão, muito provavelmente, teria interesse em tornar-se um grande líder carismático entre o povo da Palestina.
Ao separar-se do sobrinho, Abrahão deu-lhe a opção da escolha da planície onde estabelecer-se e Lot teria preferido fixar-se na planície do rio Jordão, na região de Sodoma e Gomorra (especificamente no reino de Sodoma) que, antes de destruídas, seria comparada ao Jardim do Éden e ao Egito. Após a separação de Lot, Deus apareceu novamente a Abrahão, confirmando a doação daquelas terras à sua descendência e ordenando-lhe que percorresse a região, em vista do que Abrahão levantou novamente as suas tendas e fixou-se em Hebron, onde edificou um novo altar a Deus. A figura abaixo mostra Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza atuais; o acidente geográfico que aparece em preto e branco, praticamente ao centro da foto, é o Mar Morto; o rio Jordão corre praticamente sobre a linha amarela que atravessa o Mar Morto, de cima para baixo (coincidindo com a direção Norte – Sul). Exatamente ao sul do Mar Morto, onde aparecem algumas culturas irrigadas em cor azulada, encontravam-se Sodoma e Gomorra, no então chamado Vale do Sidim; neste vale encontravam-se, na verdade, as cinco cidades ou reinos mencionados baixo.
A Bíblia relata então uma guerra entre nove reinos locais, envolvendo, de um lado, os reinos de Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar e, do outro, Elão (governado por Quedorlaomer e a quem os primeiros pagavam tributos e se haviam rebelado) e mais três reinos aliados. Nessa guerra, Sodoma e Gomorra foram finalmente vencidos e Lot levado cativo com todas as suas riquezas. Sabedor disso, Abraão, com apenas trezentos e dezoito homens, lutou contra os inimigos e perseguiu-os até as proximidades de Damasco, libertando Lot, sua família e o povo de Sodoma.
Informações não bíblicas relatam que, após a batalha final, Abrahão manteve-se fiel ao seu monarca Melquisedec e tornou-se o dirigente militar de mais onze tribos vizinhas que pagavam tributos – o chamado dízimo. Abrahão teria fracassado em algumas tentativas de estabelecer alianças diplomáticas com o soberano de Sodoma. Porém, ao conseguir o resultado, formou uma aliança militar estratégica entre o Rei de Sodoma e outros povos de Hebrom. Abrahão tinha mesmo intenção de formar um estado poderoso em toda a Canaã, mas Melquisedc, o sábio rei de Salém, convenceu-o a abandonar a tentativa de formar um reino material e tornar-se aquilo que hoje o seu nome significa – o Pai da Fé. Para persuadi-lo, utilizou a sua aliança, a promessa do seu reino, e tornou-o como sua própria descendência.
Localização de Hebron

Sendo Sara estéril e pretendendendo dar um filho a seu marido, ofereceu sua serva egípcia Hagar para que gerasse o primeiro filho de Abrahão. Hagar então gerou a Ismael, considerado pelos muçulmanos como o ancestral dos povos árabes. O texto bíblico informa que Abraão teria sido pai pela primeira vez aos oitenta e seis anos. E, antes mesmo do nascimento de Ismael, surgiram conflitos entre Hagar e Sara, culminando na sua fuga do acampamento de Abraão. Tendo Hagar fugido da presença de Sara, o Anjo do Senhor apareceu-lhe quando se encontrava junto a uma fonte de água, convencendo-a a retornar, sujeitar-se à sua senhora, prometendo-lhe um futuro grandioso para seu filho.
Aos noventa e nove anos, novamente Deus aparece a Abraão e confirma a sua promessa. Deus ordena que Abrahão e todos os homens de sua casa fossem circuncidados e que toda criança do sexo masculino que nascesse receberia esse sinal ao oitavo dia. É também nesta ocasião que Deus muda os nomes de Abrahão (pai de muitas nações) e de Sara, que até então chamavam-se Abrão e Sarai, com a promessa do nascimento de um filho, Isaque, pondo fim à sua esterelidade. Isaque, herdeiro da Promessa, nasceu no ano seguinte e informações não bíblicas dizem que foi numa cerimônia pública e solene que Abrahão teria apresentado Isaque como o seu primogênito, em Salém. Mesmo com o nascimento de Isaque, os conflitos entre Hagar e Sara continuaram, ameaçando a paz de sua família. Abraão então resolve despedir sua serva junto com o seu filho Ismael. Após o nascimento de Isaque, a história do povo judeu segue então a linhagem do filho legítimo de Abrahão.
Novamente Deus falou com Abrahão e pediu-lhe uma verdadeira prova de fé, determinando que oferecesse seu único filho em holocausto no Monte Moriá, próximo a Salém. Abrahão subiu ao monte em companhia de Isaque. Porém, ao levantar a mão para sacrificar seu filho, foi impedido pelo Anjo do Senhor e encontrou no mato um carneiro que ofereceu em seu lugar.
Segundo a Bíblia, Sara morreu em Hebron, com cento e vinte e sete anos. Abrahão então adquire, de Efrom, a Cova de Macpela, por quatrocentos siclos de prata, considerada a primeira aquisição de uma propriedade do patriarca em Canaã, onde sempre viveu como um peregrino em busca de melhores pastagens para o seu rebanho. A sepultura adquirida é, posteriormente, utilizada pelo patriarca e por seus descendentes.
A Gênesis narra então que Abrahão enviou o seu servo Eliezer à Mesopotâmia para trazer uma esposa para seu filho Isaque, entre os seus parentes. Eliezer, ao chegar à cidade de Naor, encontra Rebeca, filha de Betuel e irmã de Labão, que consente em ir com Eliezer ao encontro de Isaque, seu primo.
Abrahão morre com cento e setenta e cinco anos e é sepultado na Cova de Macpela por Isaque e Ismael, ao lado de Sara. Tudo o que possuía deixou de herança para Isaque, filho de Sara, que possuía o status de esposa.
Isaque teve por única esposa, sua prima Rebeca e orou insistentemente ao Senhor por sua mulher, que era estéril. O Senhor ouviu as suas orações e disse a Rebeca que ela trazia em seu ventre duas nações. Rebeca teve dois filhos, Esaú e Jacó (gêmeos, tendo Esaú nascido antes). O filho mais velho, Esaú, era o favorito do pai e teria o direito às bênçãos de Deus por ser o primogênio. Mas Jacó, com a ajuda da mãe, de quem era favorito, enganou seu pai, muito velho e quase cego, e apresentou-se a Isaque como seu filho mais velho, recebendo assim a bênção paterna no lugar de seu irmão Esaú. Após isso os dois brigaram e separaram-se, permanecendo Jacó como herdeiro da tradição hebraica. Esaú, por sua vez, daria início à história dos povos árabes.
Jacó ou Jacob, traduzido como "aquele que segura pelo calcanhar", também conhecido como Israel, "aquele que luta com Deus", foi o terceiro patriarca da bíblia. Sua história ocupa vinte e cinco capítulos de Gênesis. Jacó teve doze filhos e uma filha de suas duas mulheres, Léia e Raquel, e de suas duas concubinas, Bila e Zilpa: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim e Diná. Seus filhos homens deram origem às Doze Tribos de Israel.
Tribos de Israel é o nome dado às unidades tribais patriarcais do Antigo Povo de Israel que, de acordo com a tradição judaico-cristã, teriam se originado dos doze filhos homens de Jacó, filho de Isaque e neto Abrahão. As doze tribos teriam o nome de onze dos filhos de Jacó. José não teve uma tribo. A tribo restante recebeu o nome dos filhos de José, abençoados por Jacó como seus próprios filhos, Manassés e Efraim. Em consequência, os nomes das tribos são: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim, Manassés e Efraim. Apesar desta suposta irmandade as tribos não teriam sido sempre aliadas, o que ficaria manifesto na cisão do reino após a morte do rei Salomão. Com a extinção do Reino de Israel ao norte, nove das doze tribos desapareceriam e a determinação do seu destino é até hoje objeto de debate. As tribos restantes (Judá, Benjamin e Levi constituiriam o povo hoje chamado de judeu.