Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 30 de setembro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 1)


I – INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o preenchimento de uma lacuna pessoal sobre a história do povo judeu, durante o período que vai do “Cativeiro na Babilônia” até o início da Era Cristã. O Antigo Testamento é farto de material quando se refere a assuntos anteriores ao mencionado; e o Novo Testamento, dentro das suas limitações, se encarrega de apresentar o período que segue ao período acima citado. Mas o período objeto da presente postagem, pelo menos para mim, sempre ficou um tanto nebuloso.
O Cativeiro Babilônico, ocorrido entre 586 AC e 538 AC, representou um dos episódios mais traumáticos e transformadores na história do povo judeu. Caracterizado pela destruição de Jerusalém e o Primeiro Templo, em 586 AC, e pelo exílio de uma parte significativa da população judaica na Babilônia, este período não foi meramente um deslocamento político ou demográfico. A perda da terra, da monarquia e do Templo, pilares da identidade e da fé judaica, desencadeou uma profunda crise teológica que, por sua vez, levou a questionamentos existenciais sobre a natureza, o poder e a bondade de Deus, forçando uma reavaliação fundamental do que significava ser judeu.
Apesar da desolação, o exílio também se tornou um cadinho para a redefinição da identidade judaica. A população exilada conseguiu preservar sua identidade cultural e religiosa por meio da manutenção de suas tradições, como a observância da Lei, do Sábado e da circuncisão. Este período de adversidade, em vez de levar à assimilação completa ou à dissolução, impulsionou uma profunda reavaliação interna, deslocando o foco de uma religião puramente geográfica e centrada no Templo para uma fé que podia ser praticada e mantida através da adesão à Lei e à identidade comunitária, mesmo em terras estrangeiras. Essa capacidade de adaptação, forjada na adversidade, foi crucial para a sobrevivência e evolução do judaísmo a longo prazo, estabelecendo as bases para seu futuro como uma religião global.
O presente estudo abrange o período que se inicia com o retorno do Cativeiro Babilônico, aproximadamente em 538 AC, e se estende até os primeiros anos da Era Cristã, convencionalmente definidos a partir do ano 1 DC, embora estudos indiquem que o nascimento de Jesus tenha ocorrido entre 7 AC e 4 AC. O recorte temporal escolhido não é arbitrário; ele inclui uma sequência contínua de transições imperiais – persa, helenística e romana – e as complexas respostas internas do povo judeu a essas dominações. Os registros históricos consistentemente destacam esta era como "crucial" e "formativa" para o judaísmo. É um período em que a identidade judaica, despojada de sua monarquia e de seu Primeiro Templo, foi reconstruída e redefinida por meio da Lei, de novas estruturas comunitárias como a sinagoga, e de uma evolução nas compreensões teológicas, incluindo a expectativa messiânica e o desenvolvimento da Lei Oral. As constantes pressões externas atuaram como catalisadores, forçando adaptações que, em última instância, garantiram a resiliência do judaísmo e, de forma talvez inesperada, criaram o ambiente propício para o surgimento do cristianismo como um movimento religioso distinto, embora intrinsecamente ligado.
Para tentar preencher este hiato, resolvi recorrer entre outras fontes, ao historiador Flavius Josephus, que viveu no primeiro século da Era Cristã e escreveu duas grandes obras: “As Antiguidades dos Judeus” e “As Guerras dos Judeus”, além de outras menores. Nossa pesquisa vai se basear na primeira delas. Quem foi Flavius Josephus?
Titus Flavius Josephus
Titus Flavius Josephus (36 a 100 DC) nascido Yosef ben Matityahu, tornou-se um historiador judeu do primeiro século da Era Cristã. Ele era membro de uma família sacerdotal por parte de seu pai (casa e ordem de Jehoiarib), em Jerusalém; sua mãe era descendente da realeza Hasmoneana. Foi educado em Jerusalém e muito provavelmente partilhou da ideologia e simpatia pelo partido dos Fariseus[1].
Os escritos de Flavius Josephus são crucialmente importantes para várias disciplinas: o Judaísmo do Segundo Templo no primeiro século da Era Cristã, fontes de fundo para a história da Cristandade em seus primórdios, detalhes históricos dos reis clientes do Império Romano no oriente e a linha dos Imperadores Julio-Claudianos em Roma. Nas últimas décadas do século I DC, ele escreveu “As Guerras dos Judeus” (cerca de 75 DC), “As antiguidades dos Judeus” (cerca de 95 DC), “Contra Apion” (cerca de 97 DC) e “A Vida de Flavius Josephus” (cerca de 99 DC).
Como membro da aristocracia de Jerusalém, em 64 DC, Josephus viajou para Roma para negociar com Nero, o imperador romano (que reinou de 54 a 68 DC) para a libertação de alguns sacerdotes judeus mantidos como reféns por várias razões. Quando ele retornou a Jerusalém, o partido dos Zelotes[2] tinha convencido a maioria dos judeus a se revoltarem contra Roma (primeira guerra entre judeus e romanos, 66 a 73 DC). Josephus foi indicado governador militar da Galileia[3] dado que as cidades estavam divididas, com algumas aderindo à autoridade do governo romano e outras que se juntaram às forças rebeldes. Teve algum sucesso na organização da Galileia, mas todas as suas vitórias foram perdidas quando Nero indicou o General Vespasiano para invadir a região. Josephus estava sitiado nas colinas da cidade de Jotapata e com mais 40 companheiros acabaram por ficar presos em uma caverna. De acordo com sua versão da história, ele sugeriu que cometessem suicídio coletivo para não se tornarem escravos de Roma. Ajudaram a matar-se uns aos outros e acabaram restando apenas Josephus e um companheiro, quando Josephus mudou de ideia e resolveu render-se. Enquanto aguardavam a execução, Josephus lembrou a Vespasiano que todos os judeus tinham o dom da profecia e previu que Vespasiano tornar-se-ia o próximo imperador de Roma, o que de fato aconteceu. Afirmou que tinha tido uma visão que explicava a maré da guerra, com Deus usando os romanos para punir os judeus e que o papel dele, Josephus, era agora explicar o que tinha acontecido aos judeus revoltosos
A partir daí, Josephus serviu como um consultor às forças romanas. Quando Vespasiano deixou a região para desafiar, com sucesso, outros pretendentes após a morte de Nero, seu filho Titus (que reinou entre 79 e 81 DC) retirou o cerco de Jerusalém, desenvolvendo com Josephus um bom relacionamento. Após a guerra, ele foi recompensado por seus bons serviços, mudando-se para uma casa de Vespasiano em Roma, quando adotou o nome de seu patrocinador (Titus Flavius Vespasiano). Enquanto em Roma, teve acesso a registros e arquivos de onde retirou as mais importantes fontes para suas histórias.
A partir do século XIX Josephus tornou-se figura central do movimento em busca do histórico Jesus. Como a fonte principal da história e cultura do judaísmo no primeiro século da era cristã, os arqueólogos referenciam a informação de Josephus em suas reconstruções de cidades e vilas na região. Em 2013 o arqueólogo israelense Ehus Netzer declarou ter descoberto a tumba de Herodes, o Grande, através de uma cuidadosa leitura da descrição de Josephus do território circundante. Mas como todos os historiadores antigos, Josephus não se ateve estritamente aos fatos, mas incluiu moralidade e psicologia atrás de atores e ações, por exemplo, com relação aos judeus. Entretanto, a despeito dos problemas e debates, sem os escritos de Josephus teríamos tido muito pouco acesso ao povo e eventos do seu tempo.
A obra principal de Flavius Josephus, “As Antiguidades dos Judeus” dedica-se, quase que integralmente, à história do povo judeu, desde as suas origens até o fim da sua vida. Mas dedica-se pouco aos eventos paralelos, espaciais e temporais, que tiveram importância fundamental na formação do povo judeu já que, embora fundamentalmente ligados à religião judaica, constituiu uma raça, com localização própria e sofrendo, como todos os demais povos da terra, influências dos povos que a cercavam, ao longo de toda a sua história. Por isso, antes de abordar a obra mesmo de Flavius Josephus, realizei uma pequena pesquisa para esclarecer, pelo menos, como chegou até o povo judeu, o grande responsável pelo cativeiro dos judeus na Babilônia, para bem poder situar os nossos leitores no tempo e no espaço dessa narrativa.

II – O NOVO IMPÉRIO ASSÍRIO

O Novo Império Assírio (912-612 AC) foi o quarto e penúltimo estágio do antigo Império Assírio, que se estendeu através da Mesopotâmia, Levante[4], Egito, Anatólia[5] e partes da Pérsia e Arábia. Iniciou com o reino de Adad Nirari II (912-891 AC) e, com seus reis assírios, forjou o maior império no mundo até aquele tempo. A real ascensão do Novo Império Assírio foi iniciada por Tiglath Pileser III (reinando entre 745 e 727 AC), que reorganizou o poder militar e a burocracia do governo, derrotando o reino de Urartu, que se havia revoltado contra os governantes assírios, e subjugando a região da Síria.
Tiglath Pileser III foi seguido por Shamaneser V (reinando entre 727 e 722 AC) que seguiu as políticas do rei, mas não foi tão efetivo nas campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinando entre 722 e 705 AC) foi um brilhante líder militar e administrador, que expandiu o Império além de qualquer rei anterior. Foi Sargão II que fundou a dinastia Sargônida (722-612 AC), que governaria o Império Assírio até a sua queda.
Senaqueribe foi rei do Império Neo-Assírio a partir da morte de seu pai Sargão II, em 705 AC, até sua morte em 681 AC. Portanto, segundo rei da dinastia Sargônida, Senaqueribe foi um dos mais famosos reis assírios, pelo papel que representou na Bíblia Hebreia, que descreve sua campanha no Levante. Conquistou Israel, Judá[6] e as províncias gregas da Anatólia. Seu relato é contestado pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de “Reis II”, capítulos 18-19, “Crônicas II” e “Isaías 37”, que dizem ter sido Jerusalém salva por intervenção divina, com o exército de Senaqueribe expulso do campo, embora o relato bíblico confirme a conquista assíria da região. Foi assassinado por seus filhos e sucedido por seu filho mais novo Esarhaddon (Assaradão), que reinou entre 681 e 669 AC.
Maior extensão do Novo Império Assírio
Esarhaddon foi o terceiro rei da dinastia Sargônida do Império Neo-Assírio. Sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu. Ficou conhecido por reconstruir a Babilônia, destruída por seu pai, Senaqueribe. Além de restaurar a babilônia, ele também ficou conhecido por suas campanhas militares no Egito e por garantir uma tranquila sucessão para seu filho Assurbanipal (que reinou entre 668 e 627 AC).
Assurbanipal foi o último dos grandes reis da Assíria. Os gregos o conheceram como Sardanapolos e os romanos como Sardanapulus e ele obteve a maior extensão territorial do Império Assírio, que incluía a Babilônia, Pérsia, Síria e o Egito (embora o Egito tenha sido perdido por uma revolta sob o faraó Psamtik I). Ao mesmo tempo em que reunia sua biblioteca, renovava Nínive, sua capital e maior cidade, ao norte do atual Iraque, a cidade de Mosul, margem oriental do rio Tigre, e governava o império, Assurbanipal continuou a conduzir suas campanhas militares, além de supervisionar as renovações na Babilônia. Deixou o império nas mãos de seu filho Ashur-etel-ilani, mas sua decisão foi desafiada pelo irmão gêmeo do novo rei, Sin-shar-ashkun, e uma guerra civil irrompeu. Os territórios do império Assírio tiraram vantagem desta divisão e começaram a exercer maior autonomia do que lhes tinha sido permitido anteriormente. Quando Assurbanipal morreu em 627 AC, de causas naturais, o Império desmoronou, com os Medos, Persas, Babilônios, Cimérios, Scyntians e Caldeus incendiando e saqueando as cidades assírias. Em 612 AC, com o saque e incêndio da capital Nínive e as grandes conflagrações que destruíram a região, a Biblioteca de Assurbanipal foi enterrada sobre as muralhas incendiadas do seu palácio e perdida para a história por mais de 2.000 anos. Sua descoberta, contudo, alterou a forma como as eras modernas entendiam a cultura e o passado. Antes da sua descoberta, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as histórias nela contidas, consideradas sem precedentes. Escavações do século XIX por Sir Austen Henry Layard, Hormuzd Rassam e traduções feitas por George Smith trouxeram à luz um mundo até então desconhecido. (Parte 2 na próxima postagem)


[1] Os Fariseus eram uma seita que emergiu cerca do ano 150 AC e promoveu a ideia da pureza sacerdotal para todos os judeus, a crença na providência ou destino e o conceito de ressureição dos mortos, além de ensinar que, além dos Mandamentos, a Lei Oral também tinha sido passada por Moisés. O Judaísmo Rabínico (judaísmo tradicional que aceita os textos escritos como revelação divina e a Torá Oral também como fonte de autoridade) do início do século II DC reivindicava descendência espiritual dos Fariseus.
[2] Os Zelotes formavam um movimento político no Judaísmo do Segundo Templo do primeiro século, que buscava incitar o povo da Província da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsá-lo da Terra Santa pela força das armas, principalmente durante a Primeira Guerra Romana-Judia (66 a 73 DC). Segundo Josephus, havia 3 principais seitas judias à época, os Fariseus (acima), os Saduceus e os Essênios. Os Zelotes seriam uma quarta seita.
[3] Galileia é a região localizada ao norte de Israel e sul do Líbano. Normalmente refere-se à área montanhosa, dividida em Galileia Superior e Galileia Inferior. A Galileia se refere a toda área localizada ao norte da cumeeira do Monte Carmel-Monte Gilboa e ao sul da seção Leste-Oeste do rio Litani. Na direção Leste-Oeste, a região se estende da planície costeira de Israel e as praias do Mediterrâneo com o Acre, no oeste, até o vale do Jordão a leste.
[4] O Levante é um termo geográfico histórico, aproximado, que se refere a uma grande área na região do Mediterrâneo Oriental da Ásia Ocidental. Em seu sentido mais estreito, hoje em uso na arqueologia e outros contextos culturais, é equivalente a Chipre e uma faixa de terra que margeia o Mar Mediterrâneo na Ásia Ocidental, isto é, a região histórica da Síria (Síria Maior), que inclui os atuais Israel, Jordânia, Líbano, Síria, os territórios palestinos e a maior parte da Turquia a sudoeste do médio Eufrates. Sua característica mais importante é que ele representa a ponte terrestre entre a África e a Eurásia.
[5] A Anatólia, também chamada de Ásia Menor, é a península que hoje constitui a porção asiática da Turquia. Por sua localização, no ponto em que os continentes da Ásia e Europa se encontram, a Anatólia foi, desde o início da civilização, a encruzilhada para numerosos povos que migravam ou conquistavam de qualquer dos continentes
[6] O Reino de Judá foi o reino israelita do Levante Sul formado cerca de 930 AC com a cisão das Doze Tribos de Israel. Centrado na Judeia, a capital do reino era Jerusalém. O outro sistema israelita formado, o Reino de Israel, ficava ao norte. Os judeus tiraram seu nome de “Judá” e descendem, primariamente, dele.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 3 - FINAL)

IV.1 - FACÇÕES EXISTENTES À ÉPOCA

Este me parece o momento adequado para introduzir as facções surgidas em Israel, muito importantes para o bom entendimento dos desdobramentos consequentes, principalmente antes, durante e pouco após a época de Cristo.
Os essênios eram descendentes de Zadok, o sacerdote ao tempo de Davi, que se mantiveram fora do poder durante os períodos Hasmoneano e Romano. Consideravam o Templo impuro, se mudaram num exílio auto imposto para uma comunidade monástica em Qumran, no rio Jordão, e esperaram por uma batalha do fim dos tempos em que eles, como “filhos da luz”, seriam conduzidos pelo alto sacerdote e o “Mestre da Retidão” contra os filhos das trevas. Como isso aconteceu no rio Jordão, sua figura central era a reconquista de Canaã. Os essênios eram ascetas e formavam uma comunidade hierarquicamente organizada, uma seita apocalíptica fundamental. São conhecidos hoje pelos Manuscritos do Mar Morto, que contêm alguns dos seus escritos, mas a maioria são cópias dos trabalhos da Bíblia Hebreia. Os manuscritos foram descobertos no deserto da Judeia, próximo ao rio Jordão, em 1942.
É difícil dizer quando os fariseus, como uma facção, surgiram. Josephus os menciona pela primeira vez em conexão com Jônatas, o sucessor de Judas Macabeu. Um dos fatores que distinguia os fariseus de outros grupos, antes da destruição definitiva do Templo, era a sua crença de que todos os judeus tinham de observar as leis da pureza (aplicadas ao serviço do templo) fora do templo. A maior diferença, contudo, era a permanente aderência dos fariseus às leis e tradições do povo judeu com relação à assimilação. Formavam um movimento de reforma laica (não sacerdotal) e eram os guardadores do Tora oral, isto é, as interpretações orais do Tora, que eles criam foram dadas a Moisés no Monte Sinai e que ajudaram o povo a manter os mandamentos com menos possibilidade de transgressão. Transferiram muitos aspectos da pureza do Templo à esfera doméstica e enfatizaram os rituais domésticos e os serviços de sinagoga que poderiam ser feitos fora do Templo, em Jerusalém. Como Josephus observou, os fariseus eram considerados os mais versados e precisos expositores da lei judaica.
Os saduceus eram os líderes sacerdotais no poder durante a dinastia Hasmoneana, que se encontravam também em termos cordiais com Roma, quando ela dominou. Eram conservativos na crença: a autoridade era o Tora, sem interpretação oral, profetas nem escritos. Não acreditavam em ressurreição pessoal.
Durante o período hasmoneano, os saduceus e os fariseus funcionaram, primariamente, como facções políticas. Embora os fariseus tenham se oposto às guerras de expansão dos hasmoneanos e à forçada conversão dos idumeus, o racha político entre eles se tornou maior quando os fariseus exigiram que o rei Alexander Janeu escolhesse entre ser rei e ser o Alto Sacerdote. Como resposta, o rei alinhou-se abertamente com os saduceus, adotando os seus ritos no templo. Tais ações causaram um motim no templo, conduzindo a uma breve guerra civil que terminou com uma sangrenta repressão aos fariseus, embora em seu leito de morte o rei tenha pedido uma reconciliação entre as partes. Sua viúva e sucessora, Salomé Alexandra, tinha um irmão que era líder fariseu. Josephus atesta que Alexandra era favoravelmente inclinada aos fariseus, cuja influência cresceu muito durante o seu reino, especialmente na instituição denominada “Sinédrio” (uma espécie de assembleia ou conselho, famosa no tempo de Cristo). Seu filho mais velho, que a sucedeu, buscou o apoio fariseu e seu filho mais novo, Aristobulus, procurou o apoio saduceu. Como vimos, este conflito culminou numa guerra civil que terminou quando o general romano Pompeu capturou Jerusalém, em 63 AC, inaugurando o período romano da história judia.
Todas as facções mencionadas perduraram por todo o período romano, até a guerra dos Judeus, que culminou com a destruição do Templo de Jerusalém e a difusão dos judeus por todo o mundo.

V – PALESTINA ROMANA E FIM DOS HASMONEANOS

Retornamos ao assunto principal, no ponto em que os dois irmãos Hircano II e Aristobulus II disputavam o poder de Israel.
Pois ao tempo em que a guerra civil pelo poder se desenvolvia, o general romano Marcus Aemilius Scaurus chegou à Síria para tomar posse, em nome do Cônsul Gnaeus Pompeius Magnus (Pompeu), do reino dos selêucidas. Os dois irmãos apelaram a ele, com presentes para seduzi-lo. Inicialmente, Scaurus inclinou-se para Aristobulus, mas quando Pompeu chegou à Síria, as coisas mudaram, pois ele pretendia ter a Judeia sob o mando romano. E chegou à conclusão que para isso, seria muito mais fácil se Hircano estivesse no poder ao invés de Aristobulus. Este adivinhou as intenções de Pompeu e reuniu seus exércitos, mas foi derrotado por ele várias vezes, tendo suas cidades capturadas. Aristobulus entrincheirou-se na fortaleza de Alexandrium (entre Scythopolis e Jerusalém), mas concluindo sobre a impossibilidade de vencer, rendeu-se à primeira convocação dos romanos, comprometendo-se a entregar-lhes Jerusalém. Como os cidadãos relutavam em entregar a cidade, Pompeu teve que sitiá-la e finalmente penetrou na Cidade Santa em 63 AC. Com isso a Judeia tornou-se um protetorado de Roma, devendo-lhe impostos, sob a administração de um governador romano da Síria, mas com direito a manter um rei.
De 57 a 55 AC, Aulus Gabinius, proconsul da Síria, dividiu o reino hasmoneano anterior em Galileia (ao norte), Samaria (no centro) e Judeia (ao sul), com cinco distritos com conselhos legais e religiosos (os Sinédrios): Jerusalém, Gadara (na Jordânia, onde se encontram os limites com Síria e Israel), Amathus (sem localização), Jericó e Sepphoris (região central da Galileia, 3,7 km de Nazaré).
Com a vitória de Pompeu, Aristobulus foi levado para Roma como prisioneiro e Hircano novamente indicado Alto Sacerdote, mas com autoridade política. Entretanto, em 50 AC, Júlio Cesar, sucedendo a Pompeu, demonstrou interesse em usar Aristobulus e sua família como clientes para tomar o controle da Judeia de Hircano e Antipater, devedores de Pompeu, fazendo com que partidários de Pompeu envenenassem Aristobulus em Roma. 

No início da guerra civil entre Pompeu e Júlio Cesar, Hircano e Antipater preparavam-se para apoiar Pompeu, mas com o seu assassinato e a queda da República Romana para o Império Romano, conduziram as forças judias para apoiar Cesar, em dificuldades na Alexandria. Sua ajuda na hora certa, somada à sua influência junto aos judeus egípcios, recomendaram ambos a Cesar que os garantiu como extensão de sua autoridade na Palestina. A Judeia foi liberada dos tributos e taxas devidos a Roma e ganhou independência para administração interna.
A restauração de Hircano como etnarca (e alto sacerdote) em 47 AC, coincidiu com a indicação de Antipater como primeiro Procurador Romano da Judeia, permitindo-lhe promover os interesses de sua própria casa, colocando seus filhos Phasael, como governador de Jerusalém, e Herodes, como governador da Galileia. Com isso a tensão entre Hircano e a família de Antipater cresceu, culminando com o julgamento de Herodes por supostos abusos em seu governo e sua fuga para o exílio em 46 AC. Mas Hircano era tão incapaz e fraco que Herodes retornou em seguida e, quando defendeu-o contra o Sinédrio, frente a Marco Antônio, este retirou sua autoridade política nominal e seu título, entregando-as ao acusado Herodes, em 43 AC.
Herodes, o Grande, governador da Galileia e, posteriormente,
"Rei dos Judeus" pelo Senado Romano, em 40 AC 
Cesar foi assassinado em 44 AC e a confusão e intranquilidade se espalharam por todo o mundo romano, incluindo a Judeia. Antipater, o idumeu, foi assassinado por um rival em 43 AC, mas os filhos de Antipater assassinaram o rival, mantendo o controle sobre a Judeia e o fantoche de seu pai, Hircano.
Após o assassinato de Júlio Cesar, Quintus Labienus, um general romano republicano e embaixador junto aos Parta, alinhou-se com Brutus e Cassius (assassinos de Cesar) na guerra civil dos “Libertadores”. Com a sua derrota, Labienus uniu-se aos Partas, ajudando-os na invasão dos territórios romanos, em 40 AC. O exército parta atravessou o Eufrates e Labienus conseguiu a adesão das guarnições romanas de Marco Antônio em torno da Síria à sua causa. Os partas dividiram seu exército e, sob Pacorus, conquistaram o Levante da costa Fenícia até a terra de Israel.
Antigonus II Matatias, filho de Aristobulus II, instigou os partas a invadirem a Síria e a Palestina e os judeus apoiaram a descendência dos Macabeus, expulsando os odiados idumeus e seu fantoche rei judeu. A luta entre o povo e os romanos foi deflagrada e Antigonus, colocado no trono pelos partas, imaginou que uma nova era de independência havia chegado.
Phasael e Hircano II partiram em embaixada aos partas e foram presos por eles. Antigonus, presente ao evento, cortou as orelhas de Hircano II para impedi-lo de voltar a ser Alto Sacerdote e condenou Phasael à morte. Antigonus acumulou os cargos de rei e alto sacerdote por apenas três anos, porque não havia capturado Herodes, o mais perigoso dos seus inimigos. Herodes fugiu em exílio buscando o apoio de Marco Antônio e foi declarado “Rei dos Judeus” pelo Senado Romano, em 40 AC.
O conflito persistiu por alguns anos pois as forças romanas se ocupavam em derrotar os partas, faltando recursos para o apoio a Herodes. Finalmente, derrotando os partas, em 37 AC, Antigonus foi entregue a Marco Antônio e executado em seguida. Os romanos confirmaram a proclamação de Herodes, o Grande, como Rei dos Judeus, trazendo o fim da Dinastia Hasmoneana sobre a Judeia, 
mas não dos hasmoneanos, cujo destino foi ainda mais cruel.
O reino hasmoneano havia sobrevivido 103 anos antes de chegar à Dinastia Herodiana. Herodes, o Grande, casou com uma princesa hasmoneana, Mariane, tentando amenizar a situação. Aristobulus III, neto de Aristobulus II, por seu filho mais velho Alexander, foi feito alto sacerdote por muito pouco tempo e então executado em 36 AC, por ciúmes de Herodes. Sua irmã Mariane, esposa de Herodes, caiu também vítima dos seus ciúmes. Seus filhos, Aristobulus IV e Alexander, foram também executados por seu pai, Herodes, quando adultos.
Hircano II fora mantido pelos partas desde 40 AC e até 36 AC viveu entre os judeus babilônios que lhe prestavam todo o respeito. Naquele ano, Herodes, que ainda temia que ele pudesse reivindicar o trono, convidou-o a retornar a Jerusalém. Em vão os judeus babilônios o avisaram para não ir. Herodes recebeu-o com todo o respeito, deu-lhe o assento de honra em sua mesa e a presidência do conselho de estado, esperando por uma boa oportunidade para livrar-se dele. Em 30 AC, acusado de conspiração com o rei da Arábia, Hircano II, o último hasmoneano restante, foi condenado e executado. Como se vê, sua sede de matar não era pequena, sendo importante lembrar que esse Herodes, o Grande, é o mesmo Herodes da época do nascimento de Cristo que, segundo o Evangelho de Mateus, mandou matar todas os meninos com menos de um ano de idade, nascidos em Belém, com medo de perder o trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, que lhe fora revelado pelos Três Reis Magos.



                                                                 VI - EPÍLOGO


Herodes Antipas, governador da Galileia na era de Cristo
 Com a morte de Herodes, o Grande, em 4 AC, o imperador romano de então, Augustus, respeitou seu testamento, dividindo seu reino entre seus três filhos. Arquelaus recebeu o título de “etnarca” e foi indicado para governar as três regiões geográficas de Samaria, Judeia e Idumeia. Ele foi deposto e exilado em 6 DC, quando Roma juntou essas regiões na província romana da Judeia. Herodes Antipas, designado “tetrarca” (governador de um quarto), recebeu a Pereia e a Galileia (até 39 DC), onde Jesus viveu o seu ministério de adulto. Felipe recebeu partes mais remotas do reino, que nada interessam ao nosso contexto.
Mas além dos governadores, o poder nas diferentes regiões da Palestina era dividido por mais duas figuras, ao final dos anos 20 DC e início dos anos 30. Pôncio Pilates, romano, com a queda de Arquelaus, era o prefeito romano da grande Judeia (onde ficava Jerusalém). Por isso foi o responsável pelo julgamento de Cristo. José Caifás, também figura importante ao tempo de Cristo, era o grande sacerdote em Jerusalém, lembrando que a Samaria (pertencente à grande Judéia) não era judia ao tempo.
Em 44 DC, Roma instalou o mando de um Procurador Romano, paralelo aos reis herodianos que seguiram, Herodes Agripa I (41 a 44 DC) e Agripa II (50 a 100 DC)
A queda do Reino Hasmoneano marcou o fim de um século de governo judeu independente, mas o nacionalismo judeu e seu desejo por independência prosseguiram sob o domínio romano. Iniciaram com o “Censo de Quirinius”, em 6 DC (ao qual o Evangelho de Lucas relaciona o nascimento de Cristo), e conduziram a uma série de guerras judia – romanas, nos séculos I e II DC, incluindo a “Grande Revolta” (66 a 73 DC), a “Guerra de Kitos” (115 a 117 DC) e a “Revolta de Bar Kokhba” (132 a 135 DC).
Durante tais guerras, comunidades temporárias foram estabelecidas, mas que acabavam por cair ao poder sustentado de Roma. As legiões romanas de Vespasiano e Titus sitiaram Jerusalém, saquearam e incendiaram o Templo de Herodes (no ano 70 DC) e fortalezas judias, como Gamla (63 DC) e Massada (73 DC), escravizando e massacrando grande parte da população judia. A derrota das revoltas judias contra o Império Romano, contribuíram notavelmente para os números e a geografia da “Diáspora Judia”, a dispersão dos judeus que perderam seu estado ou foram vendidos como escravos por todo o império romano. Mas isso já é um outro grande assunto ...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 2 DE 2)

III - O MAR DA GALILEIA

Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes no mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: "Vinde após mim, eu vos farei pescadores de homens". Eles no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no (Marcos 1, 16-18)’.
Figura 10 - Área sul do legendário Mar da Galileia ou Lago de Genesaré 
A região da Galileia deu origem ao nome do legendário “Mar da Galileia” (ver Figura 10, acima), adotado por muitas línguas, incluindo o árabe antigo. Entretanto, os judeus mantiveram outros nomes hebreus para o lago, nomeadamente: (1) Kinneret, da palavra “harpa” em hebreu, descrevendo a sua forma; (2) Lago de Genesaré, das palavras hebreias para “vale” e “vigiar”, que pode também ter sido uma referência à cidade de Nazaré; (3) Mar de Tiberíades, numa referência à cidade de Tiberias, situada na sua extremidade sudoeste, assim nomeada em homenagem ao imperador romano Tiberius, do século I D.C.
O Mar da Galileia é um lago, a maior fonte de água doce de Israel, com cerca de 45 metros de profundidade e situado a cerca de 210 m abaixo do nível do mar. Tecnicamente é um lago, embora a palavra hebreia “yam” possa significar tanto um lago de água doce como o próprio mar. As cidades em torno incluem Cafarnaum, Bethsaida, Tiberias e Hippos.
O Mar da Galileia, localizado na região da Galileia, é parte da falha sírio-africana, uma importante linha de falha geológica que corre da Turquia, ao norte, para a África, ao sul. Ele é alimentado pelo rio Jordão, ao norte, que então prossegue ao sul através do lago. Possui aproximadamente 24 km de comprimento e cerca de 13 km de largura, em sua parte mais larga, servindo como uma fronteira natural entre a Galileia Judia, para o oeste, e as áreas não judias (Decápolis, por exemplo) a leste.
A região em torno do lago é caracterizada por água abundante e solo rico, tornando-o um bom local para a agricultura; nesse local, a pesca sempre foi uma indústria importante. As habitações humanas são de milênios atrás e ele pode ter sido um povoamento antigo para hominídeos emigrando da África. A despeito das diferenças de características entre os judeus do oeste e os não-judeus do leste, evidências arqueológicas indicam uma grande continuidade de estilo de vida para todos que habitavam as margens, sem olhar a religião. Devido às altas colinas circundantes, tempestades violentas podem rapidamente se abater, como registradas em partes dos evangelhos. Tal padrão de altas colinas e estreitas praias rompe-se ao canto noroeste onde a fértil planície de Genesaré encontra o lago.
A fértil área de Tabgha, estende-se ao longo da praia noroeste do mar da galileia, uma parte da planície de Genesaré. O nome Tabgha vem da palavra grega Heptapegon, que significa "sete fontes". No passado sete fontes se encontravam neste local e daqui fluíam para o mar da Galileia; hoje apenas cinco ainda existem. De acordo com a tradição alguns dos eventos mais significativos do ministério de Jesus desenrolaram-se nesta área. Esse é o lugar tradicional do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.
"Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os a seus discípulos, para que os servissem ao povo. E todos comeram e ficaram fartos. Do que sobrou recolheram ainda doze cestos de pedaços" (Lucas 9, 16-17).
Fig. 11-Moderna Igreja da Multiplicação
A mesa de pedra onde esse milagre aconteceu tem sido o altar de sucessivas igrejas, a mais antiga das quais foi construída no século IV. A atual Igreja da Multiplicação foi construída pelos Beneditinos alemães em 1982 no estilo bizantino (Figura 11, ao lado). O mosaico em frente do altar simboliza os pães e peixes (Figura 12, abaixo) e à sua frente o que seria a “pedra do peixe” (Figura 13, abaixo).
Foi no Mar da Galileia que, logo após realizar o milagre da multiplicação dos pães e peixes, Jesus andou sobre as águas para espanto dos seus discípulos que o atravessavam em sua barca. (Figura 14, mais abaixo)
Fig. 12-O Mosaico dos Pães e Peixes
"Logo depois, Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes d’Ele para a outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite, estava lá sozinho. Entretanto, já à boa distância da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles caminhando sobre o mar." Mt 14, 22-25, Marcos 6:47-48 e João 6:19. (Figura 15, mais abaixo)
Em uma montanha próxima, Ele proferiu o Sermão da Montanha. A Figura 16, mais abaixo, mostra a moderna igreja da Bem Aventurança, no local onde provavelmente Jesus teria feito esse sermão.
Figura 13- A "Pedra do Peixe"
"Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se d’Ele. Então abriu a boca e lhes ensinava dizendo:
Bem aventurados os que tem um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus!
Bem aventurados os que choram porque serão consolados!
Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra!
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados!
Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
Bem aventurados os corações puros porque verão a Deus!
Figura 14 - Local onde Jesus teria
caminhado sobre as águas do Lago
Bem aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus!
Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus!
Bem aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim." Mateus 5, 1-12.
E, após a sua ressurreição, apareceu a seus discípulos e designou Pedro para o comando da Igreja primitiva.
Figura 15 - Jesus caminhando sobre as águas socorre Pedro
"Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?’ Respondeu êle: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta os meus cordeiros.’” João 21, 15-16.
Ao longo da praia pode-se ver a igreja da Primazia de São Pedro (Figura 17, mais abaixo). Essa capela marca o lugar provável onde Jesus, depois da ressurreição, teria aparecido novamente aos discípulos no mar de Tiberíades.
No mapa da Figura 18, podemos ver parte do Mar da Galileia e ao longo de sua margem três locais notáveis da vida de Jesus: a Igreja da Multiplicação dos Pães e Peixes, a Igreja da Bem Aventurança e a pequena vila de Cafarnaum, com a Igreja da Primazia de Pedro.

IV - CAFARNAUM: A CIDADE DE JESUS NA GALILEIA

Cafarnaum é o lugar onde Jesus iniciou a sua pregação. Aqui, segundo Lucas 6, 12-1, ele escolheu seus apóstolos:
Fig. 16-A Igreja da Bem Aventurança
"Naqueles dias, Jesus retirou-se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, André, seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado Zelador, Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor."
No evangelho de Lucas, essa passagem vem logo antes do Sermão da Montanha (Lc 6, 20-49) e depois da pesca milagrosa no lago de Genesaré (Lc 5,1-11), o que caracteriza a escolha dos apóstolos na região.
Fig. 17 - Igreja da Primazia de Pedro
Em 1838, o explorador Americano Edward Robinson descobriu as ruínas da antiga Cafarnaum (Figura 19, abaixo). Em 1866, o capitão britânico Charles William Wilson identificou o que sobrou da “sinagoga branca” (Figura 20, abaixo) e, em 1894, o frei franciscano Giuseppe Baldi, Custódio da Terra Santa (indicado pela Ordem Franciscana com a aprovação do Papa e da Santa Sé), recuperou uma boa parte das ruínas, dos beduínos, construindo uma cerca e plantando palmeiras e eucaliptos, assim protegendo-as do vandalismo e criando um oásis para os peregrinos. Escavações posteriores, que prosseguem até agora, descobriram outras ruínas igualmente importantes.
Fig. 18-Locais da vida de Jesus às margens do Mar da Galileia
Cafarnaum (Vila de Nahum, em hebreu) era uma vila de pescadores localizada na praia norte do Mar da Galileia, com uma população aproximada de 1.500 habitantes. A cidade é citada nos Evangelhos de Lucas e João, como próxima do lugar de nascimento dos apóstolos Pedro, André, Tiago, João e Mateus. Num Sábado Jesus ensinava numa sinagoga de Cafarnaum e curou um homem possuído pelo espírito de demônio. Essa narrativa tornou-se notável por ser a única comum entre os Evangelhos sinóticos de Marcos e Lucas, sem estar contido no de Mateus. No mesmo lugar ele curou uma febre na sogra de Pedro e, de acordo com Lucas, foi em Cafarnaum que um centurião romano pediu a Jesus que curasse um servo seu. Cafarnaum é também mencionado no Evangelho de Marcos, como o local da famosa cura do paralítico baixado através do telhado para alcançar Jesus. De acordo com os Evangelhos Sinóticos (Marcos, Lucas e Mateus, por possuírem muito em comum, assim divergindo bastante do de João), Jesus escolheu essa cidade como centro do seu ministério público na Galileia, após deixar o pequeno vilarejo montanhoso de Nazaré.
Figura 19 - Ruínas da antiga Cafarnaum
Evidências arqueológicas demonstram que a cidade foi estabelecida no século II AC, ao tempo dos Hasmoneanos (dinastia dominante na Judeia entre 140 e 116 AC), tendo sido abandonada no século XI DC. A área do cemitério é encontrada 200 m ao norte da sinagoga, dentro da área habitada da cidade. Ela se estendia 3 km para Tabgha, uma área que parece ter sido usada para agricultura, a julgar pelos vários moinhos de óleo e grão descobertos nas escavações. A pescaria também era fonte de insumo, como mostram as ruínas de outro porto descoberto a oeste do que foi construído pelos Franciscanos.
Fig. 20-Ruínas da "Sinagoga Branca"
Cafarnaum não se envolveu em nenhuma das revoltas dos Judeus contra os Romanos, nem tampouco foi ocupada por eles, embora haja razões para crer que Josephus, um dos generais judeus e depois historiador da época, tenha sido conduzido para esta cidade após uma queda do seu cavalo na localidade próxima de Bethsaida, da qual resultou ferido.
A disposição da cidade era bem regular. Em ambos os lados de uma rua principal ampla, na direção norte-sul, pequenos distritos cresciam limitados por ruas de pequena secção transversal e ruas laterais sem saída. As muralhas eram construídas com blocos grosseiros de basalto reforçados com pedra e barro, mas as pedras, com exceção das soleiras, não eram adornadas e a argamassa não era utilizada. A parte mais ampla de uma casa típica era o pátio, onde havia um forno feito de terra refratária, moinhos de grãos e um conjunto de escadas de pedra que conduziam ao telhado. Os pisos das casas eram pavimentados com pedras. Em torno do pátio aberto, modestos aposentos eram arranjados, recebendo luz de uma série de aberturas ou pequenas janelas. Em função da grosseira construção das paredes, não havia piso superior numa casa típica e o telhado seria construído com leves traves de madeira e sapé misturado com barro. Tal construção, explicaria a forma como o paralítico foi levado através do telhado, à presença de Cristo, para ser curado.
Um bloco de casas, chamado pelos arqueólogos franciscanos de “ilha sagrada”, tem uma história complexa. Localizada entre a sinagoga e a praia, possui um labirinto de casas de vários períodos diferentes. Três camadas principais foram identificadas:
Fig. 21-A "Ilha Sagrada" de Cafarnaum
1. Um grupo casas datando do século I AC, usado até o início do século IV DC.
2. A grande alteração de uma das casas no século IV.
3. A igreja octogonal do meio do século V.
Os arqueólogos concluíram que uma casa na vila era venerada como a casa de Pedro, do meio do século I, com duas igrejas construídas (uma sobre a outra) sobre ela. As figuras 21 e 22 (ao lado e abaixo) mostram tais ruínas com a moderna igreja construída sobre elas.
Fig. 22-Outra vista da "Ilha Sagrada"
Uma delas, do século V, consiste de um octógono central com oito pilares, um octógono exterior, com as soleiras ainda no local, e uma galeria ou pórtico que conduz ao interior da igreja e ao complexo de construções associadas, ao leste. Essa passagem foi mais tarde bloqueada e um abside, com a pia batismal, foi construído no meio da parede leste. Desta parede subiam duas escadas, de ambos os lados do batistério, e o excesso de água do ritual sairia por esse caminho. Os bizantinos, na construção da nova igreja, colocaram o octógono central diretamente sobre o topo das paredes da casa de São Pedro (Figura 23, abaixo), com o objetivo de preservar sua exata localização, embora nada da casa original fosse mais visível, uma vez que as paredes haviam sido postas abaixo e o chão coberto com mosaicos. No pórtico, o padrão dos mosaicos era apenas geométrico, com quatro linhas de círculos contíguos e pequenas cruzes. Na zona do octógono externo, os mosaicos representavam plantas e animais em um estilo similar ao encontrado na basílica da Alimentação dos Cinco Mil, em Taghba. No octógono central o mosaico era composto por uma faixa de flores calcinadas, um campo de escolas de pesca com pequenas flores e um grande círculo com um pavão no centro.
Fig. 23 - Igrejas sobre a Casa de Pedro
O prédio consiste de quatro partes: a sala das orações, o pátio do oeste, um balaústre sul e um pequeno quarto a noroeste da casa. A sala de orações mede 24,40m por 18,65m, com a face sul virada para Jerusalém. As paredes internas foram cobertas com reboco pintado e fino estuque, encontrados durante as escavações. Os arqueólogos creem que havia um piso superior reservado para as mulheres, com acesso através de uma escadaria externa, não comprovado pelas escavações locais posteriores.
Trabalhos de escavação posteriores foram tentados sob o piso dessa sinagoga, mas as opiniões divergiram quanto às descobertas. A antiga sinagoga tem duas inscrições, uma em grego e outra em aramaico, que lembram os benfeitores que ajudaram em sua construção. Há também entalhes de estrelas de cinco e seis pontas, bem como de palmeiras. Em 1926 o franciscano Orfali iniciou a restauração da sinagoga e, após sua morte, o trabalho prosseguiu sob o comando de Virgilio Corbo, a partir de 1976. Um mosaico descoberto em 1991 mostra uma imagem da Mulher e do Dragão, motivo mencionado no livro bíblico cristão da “Revelação” (de São João). Ele mostra uma mulher pronta a dar à luz uma criança enquanto um dragão aguarda para devorá-la. Até hoje o mosaico não foi mencionado em nenhum artigo. Duas possibilidades parecem prováveis: (a) o mosaico seria um acréscimo cristão em algum momento quando a sinagoga tornou-se uma igreja cristã; (b) o mosaico seria um motivo judeu indicando os perigos rondando algum Messias que pudesse ocorrer naqueles dias perigosos de predominância cristã numa Palestina governada por romanos.
Como ilustração final ao artigo, gostaria de apresentar a Figura 24, que mostra a Terra Santa à época do Novo Testamento, onde podem ser vistos vários pontos abordados nesta apresentação, além de vários locais fundamentais na vida de Jesus Cristo. Nela podem ser vistos:
Fig. 24-Terra Santa-Novo Testamento

17. Belém: cidade natal de Jesus;
10. Nazaré: cidade onde foram feitas as anunciações a Maria e José. Ao retornar do Egito, aí Jesus passou sua infância e juventude;
12. Betabara: aqui João Batista declarou ser “a voz do que clama no deserto” (João 1:19–28). João batizou Jesus no Rio Jordão;
13. Deserto da Judeia: João Batista pregou nesse deserto, onde Jesus jejuou durante 40 dias e foi tentado;
4. Região da Galileia: onde Jesus passou a maior parte de seu ministério. Também na Galileia, o Cristo ressuscitado apareceu aos Apóstolos;
5. Mar da Galileia, posteriormente chamado de Mar de Tiberíades: Jesus entrou no barco de Pedro para ensinar, convocando Pedro, André, Tiago e João a se tornarem pescadores de homens. Aqui Ele acalmou a tempestade, ensinou parábolas de um barco, andou sobre o mar e apareceu aos discípulos após Sua ressurreição;
7. Cafarnaum: cidade onde ficava a casa de Pedro. Mateus a chamava a “cidade de Jesus” e aqui Ele realizou vários milagres;
6. Betsaida: Pedro, André e Filipe nasceram em Betsaida. Aqui Jesus curou um cego e próximo daqui Ele alimentou os 5.000.
8. Magadã: local onde morava Maria Madalena;
9. Caná: Jesus transformou a água em vinho e curou o filho de um nobre de Cafarnaum.
1. Tiro e Sidom: Jesus comparou Corazim e Betsaida a Tiro e Sidom;
3. Cesareia de Filipe: Pedro testificou que Jesus é o Cristo e foi-lhe prometido que receberia as chaves do reino. Jesus predisse sua própria morte e ressurreição;
16. Betânia: Era o lar de Lázaro, Marta e Maria. Jesus ressuscitou Lázaro e Maria ungiu os pés de Jesus;
11. Jericó: aqui Jesus restituiu a visão a um cego e jantou com Zaqueu “um chefe dos publicanos”;
15. Betfagé: Dois discípulos trouxeram a jumenta com a qual Jesus começou sua entrada triunfal em Jerusalém;
2. Monte da Transfiguração: Jesus foi transfigurado diante de Pedro, Tiago e João e deu-lhes as chaves do reino.
14. Emaús: O Cristo ressurreto caminhou pela estrada para Emaús com dois de seus discípulos.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 1 DE 2)

I - INTRODUÇÃO

Há mais ou menos um mês atrás, terminei de ler um livro antigo, famoso e que, em minha opinião, faz muito jus à sua fama. Seu nome: “E a Bíblia Tinha Razão ...”. O livro, de autoria de Werner Keller, foi originalmente editado em 1955, na Alemanha, e continua até hoje um enorme sucesso de literatura. Através de descobertas arqueológicas e muita pesquisa, o autor mostra que tudo o que está escrito na Bíblia, abrangendo o Antigo e o Novo Testamento, realmente são fatos históricos e não histórias da carochinha como muitos pretendem que sejam, ainda até hoje. O livro descreve, de uma forma muito simples de se entender, todos os principais acontecimentos da Bíblia e os compara com as descobertas arqueológicas correspondentes, facilmente demonstrando a sua veracidade.
O autor comove o leitor quando entra no Novo Testamento e apresenta os vários livros, contando sobre a vida de Jesus Cristo e dos lugares em que Ele viveu e frequentou, até o Seu calvário, morte na cruz e a ressurreição. Foi ao ler o capítulo em que Cristo abandona Nazaré, o lugar onde Se criou, para iniciar o Seu ministério em região específica da Galileia, na pequena vila de Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia – ou Genezaré, segundo Lucas - , que senti um impulso enorme para aprender e escrever algo sobre essa região, da qual tão pouco eu conhecia. E foi então que me botei a pesquisar sobre o assunto que ora apresento aos meus leitores e que espero os cative assim como me cativou.
Para que o assunto não fique muito longo para uma só postagem, vou publicá-lo em duas partes, das quais esta é a primeira.

II - A GALILEIA

II.1 GENERALIDADES

A descrição desses locais é, em geral, bastante complicada, por se tratar de lugares conhecidos e mencionados há milhares de anos, que foram ocupados por vários povos, de origens muito diversas e que hoje, finalmente, pertencem a Israel. Por essa razão vou, inicialmente, apresentar e descrever alguns mapas para que o leitor bem possa se localizar a nível mundial e regional, temporalmente.
Como pano de fundo para o artigo, o primeiro mapa que eu gostaria de apresentar (Figura 1, abaixo), emprestado do Google Earth, mostra boa parte do Oriente Médio, com todas as regiões envolvidas na postagem. Nesse mapa podemos localizar, a nível mundial, parte do Mar Mediterrâneo (com a Ilha de Chipre), o norte do Egito (com o rio Nilo e Alexandria), o golfo de Suez, a Península do Sinai, o golfo de Aqaba e a extremidade norte do Mar Vermelho, os estados de Israel, Jordânia, Líbano, Síria (parcial), Iraque (parcial) e Arábia Saudita (parcial), além dos territórios em disputa, Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golã. No estado de Israel, é possível ver o Mar Morto, o Mar da Galileia e, em suas vizinhanças, a região da Galileia.
Figura 1 - Mapa do Oriente Médio, com todos os atores da peça

Figura 2-Palestina cerca de 975 AC
Para atingir o meu objetivo, penso acertado prosseguir pela descrição da Palestina, região com limites muito teóricos e pouco preciso. Assim, um dos nomes tradicionais para as “Terras da Bíblia”, que incluem “Terra Santa”, “Terra Prometida”, Israel e Canaan, sendo derivado dos Filisteus, inimigos dos israelitas, a Palestina (em árabe transliterado, Filastin; em grego transliterado, Palaistine; e em latim Paloestina) é a denominação histórica dada pelo Império Romano, a partir de um nome hebraico bíblico, a uma região do Oriente Médio, grosseiramente situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as atuais fronteiras ocidentais do Iraque e Arábia Saudita, hoje compondo os territórios da Jordânia e Israel, além do sul do Líbano e os territórios de Gaza e Cisjordânia (ou Margem Ocidental do rio Jordão, território sob ocupação de Israel, reclamado pela Autoridade Palestina e pela Jordânia, limitado a leste pela Jordânia e a norte, sul e oeste por Israel). Com o enfraquecimento do poder egípcio, em finais do século XIII AC, a região foi invadida pelos chamados “Povos do Mar”. Um destes povos, os filisteus, fixou-se junto à costa oriental do Mediterrâneo, contemporânea à chegada das tribos hebraicas, com Josué, que se instalaram no interior gerando guerras com os filisteus, que se recusaram a aceitar a presença hebraica. As tribos hebraicas, unidas sob os reis Saul, Davi e Salomão, finalmente derrotaram os filisteus, fixando a capital do reino em Jerusalém e constituindo, de certa forma, a original “terra dos judeus” (Figura 2, acima). Constituindo um trecho relativamente estreito, de favorável passagem entre a África e Ásia, a Palestina sempre foi palco de um grande número de conquistas, pelos mais variados povos, por se constituir num corredor natural para os antigos exércitos.
Figura 3 - A Judeia sob Herodes, pelo ano 37 AC
No ano 40 AC, Herodes, o Grande, foi indicado como rei da Judeia ("Rei dos Judeus") pelo Senado do então Império Romano que, entre outras regiões, dominava a Palestina. Foram necessários três anos antes que Herodes e seu exército viajassem à Palestina para conquistar Jerusalém e tornar-se, de fato, o único governante de toda a Judeia. A linha negra da Figura 3, ao lado, delimita a área que constituía a Judeia sob o reinado de Herodes, o Grande, no ano 37 AC. No ano 4 AC, Herodes, o Grande, morre e o então imperador romano, Augusto, divide o seu reino entre alguns de seus filhos. Herodes Arquelaus é feito etnarca (governador de província) da Samaria, Idumeia e uma boa parte do reino anterior da Judeia que, logo no ano 6 AC, tornar-se-ia a província da Judeia, colocada diretamente sob o governo romano. Filipe, o tetrarca (muitas vezes referido como Herodes Filipe II), filho de Herodes e sua quinta esposa Cleópatra de Jerusalém e meio-irmão de Herodes Arquelaus e Herodes Antipas, recebe de Roma a parte nordeste do antigo reino de Herodes, que inclui Bataneia, Auranitis e Traconitis. Seu terceiro filho, Herodes Antipas, é feito tetrarca da Galileia e Pereia, governando-a de 4 AC a 39 DC; esse foi o Herodes que, Segundo os registros do Novo Testamento, não somente prendeu e decapitou João Batista, como também teve papel importante na crucificação de Cristo. Note-se que a Figura 3 já apresenta essas divisões e a correspondente legenda.

II.2 LOCALIZAÇÃO DA GALILEIA

A Galileia, por sua vez, é hoje uma grande área da região norte de Israel, entre o rio Litani, no Líbano atual, e o vale de Jezreel na Israel moderna, que envolve a maior parte dos distritos administrativos do Norte e Haifa. Tradicionalmente dividida em Galileia Superior, com chuvas pesadas e altos picos, Galileia Inferior, com clima mais ameno, e Galileia Ocidental, estende-se da cidade de Dan, na base do Monte Hermon, ao longo do Monte Líbano, ao norte, até as cristas do Monte Carmelo, Monte Gilboa, norte de Jenin e Tulkarm, ao sul, e do vale do Jordão, ao leste, através das planícies do vale Jezreel e Acre até as praias do mar Mediterrâneo e a planície costeira, no oeste. A região da Galileia mudou de mãos em várias oportunidades: egípcios, assírios, canaanitas e israelitas.
Figura 4
A Galileia – significando “círculo” ou “distrito” – era uma das maiores regiões da antiga Palestina, ainda maior que a Judeia ou Samaria. O nome Galileia, que à época dos romanos era aplicado a uma grande província, parece ter sido, originalmente, confinado a um pequeno circuito de terra em torno de Kedesh-Naphtali (uma das mais remotas cidades de Judá, junto ao limite sul de Edom), onde estavam situadas as vinte cidades doadas por Salomão a Hiram, rei do Tiro, em pagamento ao transporte de cedro do Líbano para Jerusalém. Ao tempo de Cristo, o território de Israel era dividido em três províncias: Judeia, Samaria e Galileia, esta última incluindo toda a secção norte do país, com os antigos territórios de Issachar, Zebulun, Asher e Naphtali. A oeste era limitada pelo território de Ptolemais; a fronteira sul corria ao longo da base do monte Carmelo e das colinas de Samaria até o monte Gilboa e então descendo ao vale de Jezreel por Scythopolis, ao Jordão; o rio Jordão, o Mar da Galileia e o alto Jordão até a fonte de Dan formavam o limite oeste; e o norte desenvolvia-se de Dan para o oeste ao longo da crista montanhosa até tocar no território dos fenícios. Era dividida em “Galileia Inferior” e “Galileia Superior” (com altitudes superiores a 900 metros). A mais alta região do país, com as menores temperaturas, bem irrigada pelas chuvas de inverno e com numerosas fontes, a Galileia era uma região de fertilidade natural, adequando-se a todas as variedades de flora, merecendo destaque especial a nogueira. As Figuras 4 a 8 se completam e mostram todos os pontos descritos acima.
Figura 5
A maior parte da Galileia é constituída por terreno rochoso, com alturas variando entre 500 e 700 metros. Entretanto, há várias montanhas altas na região, que incluem os Montes Tabor e Meron (1.208 m), com temperaturas relativamente baixas e altas precipitações. Como resultado deste clima, a flora e a fauna abundam na região, enquanto muitos pássaros anualmente migram de climas mais frios para a África e retornam através do corredor Hula-Jordão. Os cursos e quedas d’água – estas principalmente na Galileia Superior – junto com vastos campos de folhagens e folhas silvestres coloridas, bem como numerosas cidades de importância bíblica, tornam a região um popular destino turístico.

II.3 HISTÓRIA DA GALILEIA

Mencionada pela primeira vez pelo Faraó Tutmés III, que lá conquistou várias cidades canaanitas em 1.468 A.C., a Galileia foi também mencionada várias vezes no Velho Testamento (Josué, Crônicas, Reis).
Figura 6
Segundo a tradição judaica, as unidades patriarcais (Tribos de Israel) do antigo povo de Israel teriam se originado dos doze filhos de Jacó (mais tarde chamado Israel), neto de Abraão: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. A tribo de José foi, posteriormente, dividida em duas (meias tribos), Manassés e Efraim, os dois filhos de José com sua esposa egípcia, Azenate, deixando de existir a tribo de José. Moisés liderou as doze tribos pelo deserto da Península do Sinai e coube a seu sucessor, Josué, coordenar a tomada de Canaã. Para que essa tomada ocorresse de forma ordenada, a região foi dividida entre cada uma das tribos e meias tribos, que se encarregaram de conquista-las, na verdade, de forma mais ou menos independente. Após a narrativa da conquista de Canaã, os relatos da Bíblia tornam-se confusos, com referências geográficas praticamente inexistentes ou inconsistentes e, com o tempo, as tribos deixaram de existir geograficamente, seu povo sendo absorvido, ou por povos estrangeiros ou por outras tribos israelitas, ou por ambos, embora ainda considerado como parte das doze tribos. Na verdade, embora a suposta irmandade, as tribos nem sempre foram aliadas, o que ficou manifesto quando da cisão do reino, após a morte do Rei Salomão.
Figura 7
De acordo com o Antigo Testamento da Bíblia, a Galileia foi nomeada pelos israelitas e, originalmente, foi a região tribal de Naftali e Dã, às vezes se envolvendo com a terra de Aser, sendo muitas vezes referida apenas como Naftali. O nome israelita da região vem da raiz hebraica galil, uma palavra para designar “distrito” e, usualmente, “círculo”.
Figura 8
A região da Galileia (Figuras 5 e 6) foi, presumivelmente, o lar de Jesus durante, pelo menos, 30 anos de sua vida, para onde havia sido levado por seus pais José e Maria assim que souberam da morte de Herodes, enquanto residindo no Egito. A Galileia é melhor conhecida como a região onde, de acordo com os Evangelhos, Jesus conduziu a maior parte do Seu ministério público, particularmente nas cidades de Nazaré e Cafarnaum, e onde realizou a maior parte dos seus conhecidos milagres. Por exemplo, a vila árabe de Kafr Cana (Figura 6), cerca de 7 km a nordeste de Nazaré, na Galileia Inferior, é identificada como a Canaã da Galileia onde, segundo a tradição, Jesus teria realizado o milagre da transformação da água em vinho, quando participando das bodas de um casal de poucos recursos. A Figura 9 abaixo mostra a "Igreja das Bodas", por se crer que fica no mesmo local onde Jesus teria praticado o seu primeiro milagre.
Figura 9 - A Igreja das Bodas
Os autores dos Evangelhos declaram que a maior parte de Sua juventude foi vivida na Galileia Inferior, ao passo que Sua vida adulta, tempo da Sua pregação, foi passada nas margens a noroeste do Mar da Galileia, onde ficavam as cidades onde Jesus passou a maior parte da sua vida, aí incluídas Cafarnaum e Betsaida (ver Figuras 5 e 6).
Descobertas arqueológicas de sinagogas dos períodos helenístico e romano na Galileia, mostram forte influência fenícia e uma alto grau de tolerância por outras culturas, relativamente a outros locais sagrados dos judeus, no mesmo período, porque considerado “limpo de impurezas”. A Galileia oriental manteve uma maioria judia até o século VII.
O historiador judeu, Josephus, registra que havia mais de 200 vilas na Galileia no ano 66 DC, sendo bastante povoada nesta época. Sendo mais exposta a influências estrangeiras do que outras regiões judias, tinha também uma grande população pagã e era por isso conhecida por outro nome que, traduzido para o português, significava “Região dos Gentis”. Sob a dominação romana, desenvolveu-se uma característica identidade galileana, fazendo com que a Galileia fosse tratada como área administrativa separada da Judeia e da Samaria; tal fato foi majorado porque a Galileia foi, por muito tempo, governada por “fantoches” romanos ao invés de pela própria Roma. A consequência foi uma estabilidade social maior, significando não ter sido um centro de atividade política anti-romana, nem uma região marginalizada, como podem dar a entender os Evangelhos. A Galileia é também a região onde o judaísmo adquiriu a maior parte de sua forma moderna. Após a segunda revolta Judia (132 – 135 DC) quando os judeus foram totalmente expulsos de Jerusalém, muitos foram obrigados a emigrar para o norte, aumentando de forma considerável a população da Galileia, com o tempo atraindo mais judeus que já viviam em outras áreas.