Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sábado, 9 de março de 2019

PAULO DE TARSO, O CRIADOR DO CRISTIANISMO


Paulo de Tarso, o apóstolo Paulo, sem dúvida é um dos personagens bíblicos mais conhecidos de todos os cristãos, sendo considerado, por muitos, o maior líder do cristianismo. Quanto mais eu leio sobre Paulo, mais me convenço que ele vai além disso, que ele seria o próprio criador do Cristianismo, que jamais teria prosperado sem Paulo. Infelizmente, tendo vivido há dois mil anos atrás, num lugar e numa época conturbada e de parcos recursos de registro, há muito pouco material disponível sobre personagem tão importante da História; praticamente todo o material existente se resume ao Novo Testamento e, posteriormente, ao que foi escrito sobre ele, sempre a partir da mesma fonte original. Assim, resolvi fazer a minha própria pesquisa e escrever algo sobre esse fantástico homem que foi Paulo de Tarso, entre outras coisas conhecido como o escritor das treze epístolas do Novo Testamento.

BIOGRAFIA DE PAULO

Paulo foi o nome romano de Saulo, nascido em Tarso, na Cilícia (segundo Atos 21:39), cerca do ano 5 da era cristã. Vale à pena falarmos um pouco sobre a geografia e a história da cidade natal de Paulo para que tenhamos um melhor entendimento desta grande figura histórica.
Mapa da Cilícia de 1903

Cilícia era o nome de uma antiga região na costa sul da Ásia Menor[1], localizada imediatamente ao sul do seu platô central, em território da moderna Turquia. A grosso modo, ocupava o que é hoje a região Mediterrânea da Turquia a leste da província de Antália, situando-se a sua fronteira ocidental entre as modernas cidades turcas de Gazipasa e Alanya. Foi organizada como uma entidade política desde a época dos hititas[2] até o período bizantino[3]. A ilha de Chipre era separada da Cilícia por uma estreita faixa do Mediterrâneo. A antiga Cilícia era naturalmente dividida em duas regiões chamadas Cilícia Traqueia e Cilícia Pédias, separadas pelo rio Lamas. 
A Cilicia teve importante papel durante o Império Aquemênida[4] e depois sob Alexandre da Macedônia; após sua morte, com a repartição do império, foi inicialmente dominada pelo Egito de Ptolomeu e, posteriormente, esteve sob os Selêucidas. A Cilícia Pédias foi anexada pelos romanos em 103 AC, conquistada primeiro por Marcus Antonius Orator em sua campanha contra os piratas que lá habitavam e seu primeiro governador foi Sula. A Cilícia Traqueia só foi conquistada por Pompeu em 67 AC, após o que ela foi unida à Pedias para formar a nova Província da Cilícia, tendo Tarso por capital. 
Júlio César reorganizou novamente a região em 47 AC e, vinte anos depois, a Cilícia tornou-se parte da província da Síria-Cilícia Fenícia. Num primeiro momento, o distrito ocidental foi deixado a cargo de reis nativos (ou sacerdotes hereditários) e um pequeno reino, comandado por Tarcondímoto I, conseguiu se manter independente no oriente. Porém, toda a região foi finalmente anexada à província por Vespasiano em 72 DC. A região era considerada importante o suficiente para ser governada por um procônsul e incluía 47 cidades. E aqui já chegamos ao período de Paulo, quando a Cilícia pertencia, portanto, ao poder romano.
Localização da Cilícia nas regiões clássicas da Ásia Menor

A cidade de Tarso é banhada pelo rio Cidno e dista cerca de dezesseis quilômetros da costa nordeste do Mar Mediterrâneo, aproximadamente a 26 metros acima do nível do mar, na região sul da atual Turquia. O nascimento de Paulo em Tarso é atestado em quatro referências diretas (Atos 9:30; 11:25; 21:39; 22:3). Em duas situações Paulo declarou, explicitamente, o seu nascimento em Tarso.
Existe alguma especulação sobre a fundação da cidade de Tarso. Sua existência sugere entre seis mil a nove mil anos de história, o que dificulta muito uma conclusão definitiva sobre o tema, e a coloca como uma das cidades mais antigas do mundo. O que se pode afirmar é que Tarso já era uma cidade nativa da Cilícia desde tempos bem remotos. Alguns estudiosos sugerem que Tarso foi capital de Kizzuwatna, a antiga Cilícia, nos tempos heteus. Tarso é mencionada no “Obelisco Negro de Salmaneser”, como sendo uma das cidades sob o domínio assírio em meados do século 9 AC. As Montanhas de Taurus, na região da cidade, forneciam recursos de alta qualidade em prata e ferro e acredita-se que por volta do século 7 AC, com o intuito de ficarem mais próximos de tais recursos, mercadores gregos estabeleceram ali uma colônia. No período selêucida, registra-se certa autonomia da cidade de Tarso e algum relato desse período pode ser encontrado no livro apócrifo 2 Macabeus.
Não existe muita informação consistente sobre a história de Tarso no restante do século 2 AC. Entretanto, já no século 1 AC, alguns detalhes importantes são facilmente levantados. Como vimos, a atuação romana na Cilícia começou por volta de 105 AC, mas apenas em 64 AC foi que Pompeu a anexou a Roma como província. A partir daí os governadores ficaram incumbidos de pacificar essa região da costa da Ásia Menor que se encontrava infestada de piratas, e garantir também os interesses romanos. Em 41 AC, Antônio concedeu a Tarso a condição de cidade livre, isentando-a de impostos.
Estima-se que nos tempos do Império Romano, Tarso abrigou uma população de pelo menos quinhentas mil pessoas. Ao norte da cidade, existia uma estrada principal que conduzia até os Portões da Cilícia, onde se encontrava a única boa rota de comércio que ligava a Síria e a Ásia Menor. A posição privilegiada de Tarso nessa rota favoreceu o desenvolvimento financeiro da cidade. Cerca de nove quilômetros ao sul de Tarso, foi construído um porto onde muitos navios ancoravam, embora algumas embarcações menores navegassem até a metade do percurso a Tarso, subindo pelo curso do rio Cidno.
Por ter nascido em Tarso, o apóstolo Paulo era cidadão romano (ele mesmo afirma ser cidadão romano de nascimento). Provavelmente, muitos cidadãos de Tarso, receberam a cidadania romana após o acordo firmado por Pompeu. Logo, nos tempos de Pompeu, Júlio César, Antônio e Augusto, muitos judeus que ali residiam receberam a cidadania romana, o que pode ser muito bem o caso dos antepassados do Apóstolo Paulo.
No século 1 DC, Tarso foi a principal cidade da Cilícia, e possuía importante riqueza comercial e agrícola. Tarso também era um importante centro cultural e intelectual grego, possuindo uma grande universidade que, à época, a equiparava a outras cidades como Atenas e Alexandria. A cidade de Tarso também se orgulhava de ter muitos eruditos importantes entre os seus cidadãos.
Embora muitas escavações já tenham sido realizadas na região de Tarso, até agora muitos detalhes ainda impedem que a cidade dos dias de Paulo seja recriada com exatidão. As ruínas da antiga Tarso encontram-se sob a cidade atual e fazendas da região.
Embora tenha nascido um cidadão romano, Paulo era um judeu da Dispersão[5], um judeu circuncidado da tribo de Benjamin, e membro zeloso do partido dos Fariseus.
O Novo Testamento faz várias menções a grupos religiosos, políticos e profissionais que existiam naquela época, sendo bom lembrar que estamos falando dos judeus como o grande todo religioso. Os Fariseus formavam o grupo mais conhecido de todos, sendo um dos principais grupos religiosos entre os judeus. Eles eram os mais rigorosos quanto aos costumes e religiosidade judaica. Também exerciam forte influência sobre o povo, devido à insistência na observância da Lei Mosaica e no respeito às tradições dos antepassados. Na maioria das vezes eles se opunham a Jesus, mas alguns deles trataram Jesus com respeito. Jesus reprovava sua exagerada religiosidade aparente, fazendo refletir uma espiritualidade hipócrita. O apóstolo Paulo foi criado como Fariseu, aluno do respeitado mestre Fariseu Gamaliel (At 22:3; 23:6; 26:5). Entretanto, além deste, havia outros grupos religiosos, tais como: (a) Saduceus, pequeno grupo comparado aos Fariseus, porém muito poderoso devido à constituição do grupo religioso, formado por Sacerdotes e pessoas influentes e ricas de Jerusalém. Os Saduceus não se davam bem com os Fariseus, porém algumas vezes se uniram a eles para fazer oposição à Jesus. Prezavam muito o Pentateuco (cinco primeiros livros do Antigo Testamento) e não acreditavam na ressurreição, Juízo Final ou na existência de anjos. (b) Os Essênios eram um grupo separatista formado na época helenística e provavelmente originado entre os Fariseus. Observavam a Lei com rigor, mas consideravam que o Sacerdócio era corrupto, além de serem contra muitas práticas religiosas e o sistema sacrifical judaico. A maioria deles morava em comunidades, no deserto de En-Gedi, embora alguns vivessem em cidades. Esse grupo não é citado na Bíblia. (c) Os Zelotes eram considerados um partido judaico nacionalista que se opôs fortemente a Roma. O nome Zelote significa “zeloso”, “fanático”. Em algumas ocasiões eram chamados de “cananeus” ou “nacionalistas”. Os Zelotes tiveram um papel muito ativo na grande rebelião dos anos 66 a 70 DC, que resultou na destruição de Jerusalém. Simão, um dos doze discípulos de Jesus, era chamado de “Zelote”. (d) Os Herodianos era um grupo de judeus que preferiam ser governados por um descendente do rei Herodes, o Grande, ao invés de um governador romano, como Pôncio Pilatos. O nome “Herodianos” também podia se referir a pessoas que estavam a serviço de Herodes. (e) Os Samaritanos eram as pessoas nascidas em Samaria, região que ficava entre a Judeia e a Galileia. Os Samaritanos reconheciam apenas os livros da Lei (o Pentateuco) como autoridade doutrinal. Os judeus não aceitavam como legítimo o culto dos Samaritanos, considerando-o como praticamente pagão e por isso não aceitavam qualquer tipo de relacionamento com os Samaritanos. (f) Os Escribas, Rabinos ou Mestres da Lei formavam um grupo profissional. Não pertenciam, em geral, à classe sacerdotal, mas eram influentes e tiveram uma elevada consideração como intérpretes das Escrituras e dirigentes do povo. (g) Os Publicanos formavam outro grupo profissional que aparece nos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas, por conterem muitas das mesmas histórias, em contraposição ao de João que é, em muitos pontos, diferente). Eram os coletores de impostos ou da alfândega em favor dos romanos. Formavam uma classe desprezada e odiada, por conta do oficio que exerciam.
A infância e adolescência do apóstolo Paulo têm sido temas de grande debate entre os estudiosos. Alguns defendem que o apóstolo Paulo passou toda sua infância em Tarso, indo apenas durante sua adolescência para Jerusalém. Outros defendem que Paulo foi para Jerusalém ainda bem pequeno. Nesse caso, ele teria passado sua infância longe de Tarso. Na verdade, desde seu nascimento até seu aparecimento em Jerusalém, como perseguidor dos cristãos, conforme os relatos do livro de Atos dos Apóstolos, há muito pouca informação sobre a vida do apóstolo Paulo. Entretanto, sabe-se com certeza que ele foi educado em Jerusalém, sob o ensino do renomado doutor da lei, Gamaliel, neto de Hillel. Paulo conhecia profundamente a cultura grega. Ele também falava o aramaico, era herdeiro da tradição do farisaísmo, estrito observador da Lei e mais avançado no judaísmo do que seus contemporâneos. A partir disso, pode-se afirmar que sua família possuía alguns recursos e desfrutava de posição proeminente na sociedade. Não se sabe ao certo como o pai do apóstolo teria conseguido a cidadania romana. Algumas pessoas importantes e abastadas conseguiam compra-la. Outras, conseguiam-na ao prestar algum serviço relevante ao governo romano. A cidadania romana concedia alguns privilégios, como por exemplo, a garantia do julgamento perante César, se exigido, nos casos de acusação, imunidade legal dos açoites antes da condenação e não poderia ser submetido à crucificação, a pior forma de pena de morte à época.
O livro de Atos dos Apóstolos informa que quando Estêvão foi apedrejado, suas vestes foram depositadas aos pés de Paulo de Tarso (Atos 7:58). Após esse episódio da morte de Estêvão, Paulo de Tarso assumiu uma posição importante na perseguição aos cristãos. Ele recebeu autoridade oficial para liderar as perseguições. Além disso, na qualidade de membro do concílio do Sinédrio[6], ele dava o seu voto a favor da morte dos cristãos.
O próprio Paulo afirma que “respirava ameaça e morte contra os discípulos do Senhor” (Atos 9:1). Além de deflagrar a perseguição em Jerusalém, ele ainda solicitou cartas ao sumo sacerdote para as sinagogas em Damasco. Seu objetivo era levar preso para Jerusalém qualquer um que fosse seguidor de Cristo, tanto homem como mulher. Paulo perseguia e assolava a Igreja de Deus (Gálatas 1:13) e fazia isso acreditando que estava servindo a Deus e preservando a pureza da Lei Judaica.

A CONVERSÃO DE PAULO DE TARSO

As narrativas no livro de Atos dos Apóstolos e as notas do próprio apóstolo Paulo em suas epístolas, sugerem uma súbita conversão. Entretanto, alguns intérpretes defendem que algumas experiências ao longo de sua vida devem tê-lo preparado previamente para aquele momento. A experiência do martírio de Estêvão e sua campanha, de casa em casa, para perseguir os cristãos, podem ser exemplos disto. O que se sabe, realmente, é que Paulo de Tarso partiu em missão para Damasco, com o intuito de destruir a comunidade cristã daquela cidade. De repente, algo inesperado aconteceu, algo que causou uma mudança radical, não só na vida de Paulo de Tarso, mas no curso da História.

“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer. (Atos 9:3-6)” 

Ao escrever “Atos dos Apóstolos”, Lucas interpreta a conversão de Paulo de Tarso como um ato miraculoso, um momento em que um inimigo declarado de Cristo se transformou em seu apóstolo. Os homens que estavam com Paulo ouviram a voz, mas não compreenderam as palavras. Eles ficaram espantados, mas não puderam ver a pessoa de Cristo. Por outro lado, Paulo viu o Cristo ressurreto e ouviu suas palavras. Esse encontro foi tão importante para Paulo que a base de sua afirmação sobre a legalidade de seu apostolado está fundamentada nessa experiência (1 Coríntios 9:1; 15:8-15; Gálatas 1:15-17). Considerando que Paulo de Tarso não havia sido um dos doze discípulos de Jesus, além de ter perseguido seus seguidores, a necessidade e importância da revelação pessoal de Cristo para Paulo fica evidente. Essa experiência transformou Paulo de Tarso profundamente.
O primeiro aspecto da mudança na vida do apóstolo Paulo pode ser percebido quando, imediatamente, ele responde à voz de Cristo: “Senhor, que queres que eu faça?”. Essa pergunta marcou o começo de seu novo relacionamento com Cristo, quando ele responde ao seu chamado. A mudança radical que atingiu a vida do apóstolo Paulo fica também evidente na mensagem que ele começou a pregar na própria cidade de Damasco. Isso é realmente impressionante. Ele começou a pregar o Evangelho no mesmo lugar em que pretendia prender os seguidores de Cristo (Atos 9:1,2), passando de perseguidor a pregador de Jesus.
Antes de sua conversão, Paulo de Tarso não aceitava a divindade de Jesus. Ele até acreditava que ao perseguir seus seguidores como um animal selvagem, tentando força-los a blasfemar contra Jesus, estaria fazendo a vontade de Deus (Atos 26:9-11; 1 Coríntios 12:3). É certo dizer que ele via Jesus como um impostor. Após sua conversão, sua pregação não era outra, senão anunciar que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9:20). O Paulo duro, rigoroso, ameaçador e violento de outrora, depois de convertido mudo totalmente a doutrina de sua vida, passando a demonstrar ternura, sensibilidade e amor. Essas características ficam evidentes em suas obras posteriores.

O INÍCIO DO MINISTÉRIO DO APÓSTOLO PAULO 

Após o encontro que teve com Cristo, quando ficou instantaneamente cego, o apóstolo Paulo chegou em Damasco e ficou três dias em oração. A mando do Senhor, o discípulo Ananias[7] vai ao seu encontro, põe a mão em sua cabeça e no mesmo instante ele recobra a visão e é convertido ao cristianismo instantaneamente. Foi Ananias quem o batizou (Atos 9:17,18) e também foi ali, naquela mesma cidade, que Paulo começou sua obra de difusão do cristianismo.
Não há informações detalhadas sobre os primeiros anos de seu ministério. O que se sabe é que o apóstolo Paulo pregou rapidamente em Damasco e depois foi passar um tempo na Arábia (Atos 9:20-22; Gl 1:17). A Bíblia não esclarece o que ele fez ali, nem mesmo qual o lugar específico da Arábia em que ele ficou. Depois, o apóstolo Paulo retornou a Damasco, onde sua pregação provocou uma oposição tão grande que ele precisou fugir para salvar sua própria vida (2 Coríntios 11:32,33).
Naquela ocasião ele fugiu para Jerusalém (Gálatas 1:18). Nesse tempo havia completado cerca de três anos de sua conversão. Paulo tentou juntar-se aos discípulos, mas estavam todos receosos dele. Foi então que Barnabé[8] se dispôs a apresentá-lo aos líderes dos cristãos. Entretanto, seu período em Jerusalém foi muito rápido, pois novamente os judeus procuravam assassiná-lo. Por conta disso, os cristãos decidiram despedir Paulo, uma decisão confirmada pelo Senhor numa visão. Segundo o que ele próprio afirma em Gálatas 1:18, ele ficou somente quinze dias com Pedro. Essa informação se harmoniza com o relato de Atos 22:17-21[9]. Paulo acabou deixando Jerusalém antes que pudesse se encontrar com os demais apóstolos e também antes de se tornar conhecido pessoalmente pelas igrejas da Judeia. Porém, os crentes de toda aquela região já ouviam as boas-novas sobre Paulo. 

O SILÊNCIO EM TARSO E O TRABALHO EM ANTIÓQUIA[10]

Tendo chegado a Tarso, sua terra natal, ali permaneceu em silêncio durante um período de dez anos, conhecido como “o período silencioso do ministério do apóstolo Paulo”, embora seja provável que ele tenha fundado algumas igrejas naquela região. Estudiosos sugerem que as igrejas mencionadas em Atos, tenham sido fundadas por Paulo durante esse período.
É certo que Barnabé, ao ouvir falar da obra que Paulo estava desenvolvendo, solicitou a presença do apóstolo em Antióquia, na posição de um obreiro auxiliar. O Objetivo era que Paulo o ajudasse numa promissora missão evangelística entre os gentios[11]. Após cerca de um ano, ocorreu um período de grande fome e os crentes da Antióquia providenciaram contribuições para auxiliar os cristãos da Judeia. Tais contribuições foram levadas por Paulo e Silas[12], que regressaram à Antióquia assim que completada sua missão. Esse período em Antióquia foi essencial ao ministério do apóstolo Paulo, pois foi ali que sua missão de levar o evangelho aos gentios começou a ganhar força. Foi também em Antióquia que o Espírito Santo orientou a Igreja a separar Barnabé e Paulo para a obra à qual Deus os chamara. Só então as viagens missionárias de Paulo tiveram início.

“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: ‘Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.’ Então, jejuando e orando e pondo sobre eles as mãos, os despediram.” (Atos13:2,3) 

AS VIAGENS MISSIONÁRIAS DO APÓSTOLO PAULO
As viagens missionárias de Paulo de Tarso

O trabalho evangelístico do apóstolo Paulo abrangeu um período de cerca de dez anos, acontecendo principalmente em quatro províncias do Império Romano: Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Paulo concentrava-se nas cidades-chave, isto é, nos maiores centros populacionais de sua época. Isso fazia parte de seu planejamento missionário. Quando alguns judeus e gentios aceitavam a mensagem do Evangelho, logo esses convertidos tornavam-se o núcleo de uma nova comunidade local. Dessa forma, o apóstolo Paulo alcançou até mesmo as áreas rurais. A estratégia missionária usada pelo apóstolo Paulo pode ser resumida da seguinte forma: 

1. Ele trabalhava nos grandes centros urbanos, para que dali a mensagem se propagasse às regiões circunvizinhas;
2. Ele pregava nas sinagogas, a fim de alcançar judeus e gentios convertidos.
3. Ele focava sua pregação na comprovação de que a nova dispensação (período bíblico) era o cumprimento das profecias da antiga dispensação.
4. Ele percebia as características culturais e as necessidades dos ouvintes. Assim ele aplicava tais particularidades em sua mensagem evangélica.
5. Ele mantinha o contato com as comunidades cristãs estabelecidas. Esse contato se dava por meio da repetição de visitas e envio de cartas e mensageiros de sua confiança.
6. Ele estava atento às desigualdades presentes na sociedade de sua época e promovia a unidade entre ricos e pobres, gentios e judeus. Além disso, ele solicitava que as igrejas mais prósperas auxiliassem os mais pobres.

Em Atos 14:21-23, é possível perceber que o método de Paulo para estabelecer uma igreja local obedecia a um padrão regular. Primeiramente era feito um trabalho dedicado ao evangelismo, com a pregação do Evangelho. Depois havia um trabalho de edificação, onde os crentes convertidos eram fortalecidos e encorajados. Por último, presbíteros eram escolhidos em cada igreja, para que a organização eclesiástica fosse estabelecida.
A primeira viagem missionária de Paulo (ver figura acima) está registrada em Atos 13:1 a 14:28). Não se sabe exatamente quanto tempo durou essa primeira viagem. Sabe-se apenas que ela deve ter ocorrido por volta de 44 e 50 DC. O ponto de partida foi Antióquia, um lugar que havia se tornado um tipo de centro do Cristianismo entre os gentios.
Basicamente a viagem foi concentrada na Ilha de Chipre e na parte sudeste da província romana da Galácia. Barnabé foi o líder, até um determinado momento da viagem, e Paulo era o pregador principal. João Marcos servia como auxiliador dos missionários principais. Entretanto, João Marcos os deixou (literalmente os abandonou) em Perge, na Panfília, e retornou para Jerusalém. A partir desse ponto, o apóstolo Paulo assumiu a liderança da missão.
A segunda viagem missionária de Paulo (ver figura acima) está registrada em Atos 15:36 a 18:22. O propósito dessa viagem, conforme o próprio Paulo diz, era visitar os irmãos por todas as cidades em que a palavra do Senhor já havia sido anunciada (Atos 15:36). No entanto, ao discordarem sobre a ida de João Marcos na viagem missionária, Paulo e Barnabé decidiram se separar. Então Paulo levou consigo Silas, também chamado de Silvano.
A data provável dessa viagem fica entre os anos de 50 e 54 d.C. Essa segunda viagem cobriu um território bem maior do que a primeira, estendendo-se até a Europa. A obra evangelística foi concluída na Macedônia e Acaia, e as cidades visitadas foram: Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas e Corinto.
O apóstolo Paulo permaneceu em Corinto um longo tempo (Atos 18:11,18). Ali ele pregou o Evangelho e exerceu sua atividade profissional de fazer tendas. Foi dessa cidade que ele enviou a Epístola aos Gálatas e, provavelmente, um pouco depois, também enviou as Epístolas aos Tessalonicenses. Paulo também parou brevemente em Éfeso e ao partir prometeu retornar em outra ocasião (Atos 18:20,21).
A terceira viagem missionária de Paulo (ver figura acima) está registrada em Atos 18:23 a 21:16. Essa viagem ocorreu entre 54 e 58 DC. O apóstolo Paulo atravessou a região da Galácia e Frígia e depois prosseguiu em direção a Ásia e à sua principal cidade, Éfeso. Ali o apóstolo ficou por um longo período, cumprindo a promessa feita anteriormente. É provável que todas, se não pelo menos a maioria das Sete Igrejas da Ásia[13], tenha sido fundada durante esse período. Parece que antes de Paulo escrever a Primeira Epístola aos Coríntios, ele fez uma segunda visita à cidade de Corinto, regressando logo depois para Éfeso. Mais tarde, escreveria 1 Coríntios.
Quando deixou Éfeso, Paulo partiu para a Macedônia. Foi ali, talvez em Filipos, que ele escreveu a Segunda Epístola aos Coríntios. Depois, finalmente o apóstolo Paulo passou pela terceira vez em Corinto. Antes de partir dessa cidade, provavelmente ele escreveu a Epístola aos Romanos.
O resultado das viagens missionárias do apóstolo Paulo foi extraordinário. O Evangelho se espalhou consideravelmente. Estima-se que perto do final do período apostólico, o número total de cristãos no mundo era em torno de quinhentos mil. Apesar de esse resultado ter sido fruto de um árduo trabalho que envolveu um enorme número de pessoas, conhecidas e anônimas, o obreiro que mais se destacou nessa missão certamente foi o apóstolo Paulo. 

O DEBATE DO APÓSTOLO PAULO COM PEDRO 

Em um determinado momento, devido ao crescente número de gentios na Igreja, questões a respeito da Lei e dos costumes judaicos sugiram entre os cristãos. Muitos cristãos judeus insistiam que os gentios deveriam observar a Lei Mosaica. Eles queriam que os crentes gentios se enquadrassem nos costumes judaicos, principalmente em relação à circuncisão. Para eles, só assim poderia haver igualdade na comunidade cristã.
O apóstolo Paulo identificou esse movimento judaizante como uma ameaça à verdadeira natureza do Evangelho da graça. Por isso ele se posicionou claramente contra essa situação. Diante dessas circunstâncias, o apóstolo Paulo repreendeu Pedro, publicamente (Gálatas 2:14), pois Pedro havia se separado de alguns crentes gentios, a fim de evitar problemas com certos cristãos judaizantes. Esse também foi o pano de fundo que levou o apóstolo Paulo a escrever uma epístola de advertência aos Gálatas. Nessa epístola ele apresenta com grande ênfase o tema da salvação pela graça mediante a fé.
Podemos dizer que esse acontecimento foi a primeira crise teológica da Igreja. Para que o problema fosse solucionado, Paulo e Barnabé foram enviados a uma conferência com os apóstolos e anciãos em Jerusalém. O concílio decidiu que, de forma geral, os gentios que se convertessem não estavam sob a obrigação de observar os costumes judaicos.

PRISÕES E MORTE DO APÓSTOLO PAULO 

Existe muita discussão em relação ao número de prisões que o apóstolo Paulo sofreu. Essa discussão ocorre, principalmente, pelo fato de o livro de Atos não descrever toda a história de Paulo. Além disso, provavelmente, o apóstolo Paulo foi preso algumas vezes por um período muito curto de tempo, como por exemplo, em Filipos (Atos 16:23).
Ao falar sobre suas próprias prisões, o apóstolo Paulo escreve o seguinte:

São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais; em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes (2 Coríntios 11:23) 

Considerando apenas as principais prisões do apóstolo Paulo, sabe-se que ele foi preso em Jerusalém (Atos 21), e para impedir que fosse linchado, ele foi transferido para Cesareia. Nessa cidade, Felix, o governador romano, deixou o apóstolo Paulo na prisão por dois anos (Atos 23-26). Festo, sucessor de Felix, sinalizou que poderia entregar Paulo aos judeus, para que por eles ele fosse julgado.
Como Paulo sabia que o resultado do julgamento seria totalmente desfavorável a sua pessoa, então na qualidade de cidadão romano, ele apelou para César. Depois de um discurso perante o rei Agripa e Berenice, o apóstolo Paulo foi enviado sob escolta para Roma. Após uma terrível tempestade, o navio em que ele estava naufragou, e Paulo passou o inverno em Malta.
Finalmente o apóstolo Paulo chegou a Roma na primavera. Na capital do Império ele passou dois anos em prisão domiciliar. Apesar disso ele tinha total liberdade para ensinar sobre o Evangelho (Atos 28:31). É exatamente nesse ponto que termina a história descrita no livro de Atos dos Apóstolos. O restante da vida de Paulo precisa ser contado utilizando-se os registros de outras fontes.
As únicas informações adicionais que encontramos no Novo Testamento sobre a biografia do apóstolo Paulo, parte das Epístolas Pastorais.
As Cartas Pastorais ou Epístolas Pastorais, são epístolas escritas por Paulo (1Timóteo, 2 Timóteo, Tito) e endereçadas a dois dos seus companheiros mais próximos, Timóteo e Tito, líderes das igrejas das cidades de Éfeso e Creta respectivamente. Embora na Bíblia a Epístola de Tito apareça após as Epístolas de 1 e 2 Timóteo, a sua ordem cronológica é diferente, a mais aceita sendo 1 Timóteo, Tito, 2 Timóteo. Suas datas mais prováveis são as seguintes:

1 Timóteo: entre 62 e 64 DC;
Tito: entre 62 e 64 DC;
2 Timóteo: entre 64 e 68 DC.

A autoria de Paulo é amplamente aceita pela tradição cristã, embora alguns estudiosos, desde o século IV DC tentem contestar a sua autoria; eles afirmam que as Cartas Pastorais foram escritas em algum momento do século II DC, apresentando para isso alguns argumentos a embasar a sua teoria:

1) A complexidade eclesiástica que a Igreja possuía: alguns estudiosos acreditam que a estrutura da igreja descrita nas Cartas Pastorais é evoluída demais para o primeiro século. Porém, o livro de Atos e as demais Cartas de Paulo já descrevem uma igreja bem organizada e com presbitério constituído.
2) Teologia inferior em relação às outras Cartas de Paulo: alguns defendem que as doutrinas encontradas nas Cartas Pastorais não compreendem toda Teologia que Paulo possuía. Mas sobre isso vale lembrar que as Cartas Pastorais foram destinadas a líderes, e não a membros da Igreja. Sendo assim, seria desnecessário que Paulo precisasse repassar exaustivamente todo o conteúdo teológico encontrado em outras epístolas dirigidas às Igrejas.
3) Diferenças linguísticas: alguns defendem que o estilo literário encontrado nas Cartas Pastorais é diferente das outras Epístolas de Paulo. Eles dizem que nelas existem palavras novas ao mesmo tempo em que faltam alguns termos frequentemente utilizados por Paulo em suas epístolas. Mas as Cartas Pastorais são textos curtos e insuficientes para tal análise. Além disso, essas diferenças também são encontradas em outras epístolas incontestavelmente escritas por Paulo.
4) Tipo de heresia tratada: alguns estudiosos defendem que as heresias tratadas nas Cartas Pastorais são o resultado do Gnosticismo do século II DC. Mas se realizarmos uma análise dos termos originais em grego utilizado por tais estudiosos para fundamentar esse argumento, comprovaremos que essa alegação não faz qualquer sentido. Além disso, devemos considerar que o movimento gnóstico começou na Palestina e na Síria aproximadamente vinte anos após o Pentecoste. Portanto, já era de se esperar que as epístolas escritas após esse período reagissem contra esses movimentos.

Provavelmente Paulo escreveu as Epístolas 1 Timóteo e Tito, enquanto ainda na Macedônia; se isso estiver certo, as duas primeiras Cartas Pastorais teriam sido escritas durante o período de liberdade de Paulo entre as duas prisões romanas. Quanto a Carta 2 Timóteo, não há dúvida de que ela foi escrita em Roma, enquanto Paulo estava preso e prestes a sofrer o martírio.
O grande objetivo das Cartas Pastorais era tratar de assuntos urgentes que precisavam ser solucionados o quando antes. Dentre esses assuntos, destacam-se dois principais:

1) Nomear homens de extrema integridade e caráter para os cargos de bispos e diáconos.
2) Combater as heresias e os falsos ensinamentos que estavam se espalhando nas igrejas.

Na Epístola de 2 Timóteo podemos encontrar um teor de aconselhamento um pouco diferente. Na última das Cartas Pastorais, o apóstolo Paulo praticamente admite seu martírio iminente. Prestes a ser morto, o apóstolo dos gentios fala a Timóteo acerca de sua tamanha confiança em Cristo. Ele ressalta que nem mesmo a morte poderia abalar a sua fé. É nessa Carta Pastoral que Paulo faz uma reflexão de toda sua vida a serviço do Evangelho de Cristo, com a inesquecível declaração: “Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé” (2 Timóteo 4:7).
Essas epístolas parecem sugerir que o apóstolo Paulo foi solto depois da primeira prisão em Roma relatada em Atos por volta de 63 DC. Após ser solto, ele teria visitado a área do Mar Egeu e viajado até a Espanha.
Depois, Paulo foi novamente aprisionado em Roma, onde acabou sendo executado pelas mãos de Nero, por volta de 67 a 68 DC (2 Timóteo 4:6 a 18). A Epístola de Clemente[14] e o cânone Muratoriano[15] atestam sobre uma viagem que Paulo teria feito a Espanha.
A tradição cristã conta que a morte do apóstolo Paulo teria ocorrido junto à estrada de Óstia, fora da cidade de Roma, por decapitação. Talvez o texto que melhor defina a biografia do apóstolo Paulo, seja exatamente este:

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda. (2 Timóteo 4:7,8) 



[1] A Ásia Menor (Pequena Ásia, em grego), também conhecida como Anatólia ou península anatoliana, denota a penetração ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da República da Turquia. A região é banhada pelo mar Negro, ao norte, o mar Mediterrâneo, ao sul e pelo mar Egeu, a oeste. O mar de Mármara liga os mares Negro e Egeu através dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, separando-a da Trácia, no continente europeu. Hoje, a Ásia Menor é muitas vezes considerada como sinônimo de Turquia Asiática, cujas fronteiras leste e sudeste são amplamente consideradas como as fronteiras turcas com os países vizinhos: Geórgia, Arménia, Azerbaijão, Irã, Iraque e Síria, no sentido horário.
[2] Povo indo-europeu que, no 2º milénio AC, fundou um poderoso império na Anatólia central, cuja queda data dos séculos XIII-XII AC. Na sua extensão máxima, o Império Hitita compreendeu a Anatólia e regiões do Líbano e Síria.
[3] O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano na Antiguidade Tardia e Idade Média, até a sua queda. Sua capital, Constantinopla (atual Istambul), era anteriormente conhecida como Bizâncio. Inicialmente parte oriental do Império Romano (comumente chamada de Império Romano do Oriente), sobreviveu à fragmentação e ao colapso do Império Romano do Ocidente, no século V e continuou a prosperar, existindo por mais de mil anos até sua queda para os turcos otomanos, em 1453.
[4] O “Império Aquemênida”, também chamado “Primeiro Império Persa” (550 a 330 AC), foi um império situado na Ásia Ocidental e fundado por Ciro, o Grande. Em sua maior extensão, alcançava dos Balcãs e Europa Oriental, no oeste, até o Vale do Indus, ao leste, constituindo o maior império, até então, da história. Incorporando vários povos de diferentes origens e fés, foi notável por seu modelo de sucesso de uma administração centralizada e burocrática (através dos sátrapas subordinados ao Rei dos Reis), pela construção de uma forte infraestrutura, como os sistemas rodoviário e postal, pelo uso de uma língua oficial por todos os seus territórios e pelo desenvolvimento de serviços civis e um enorme exército profissional. Pelo século VII AC, os persas haviam se estabelecido na porção sudoeste do Platô Iraniano, região de Persis, que tornou-se a região central do Império. Desta região, Ciro, o Grande avançou para derrotar os Medos, os Lídios e o Novo Império Babilônico , estabelecendo o Império Aquemênida.
[5] O termo “Dispersão” (no grego, Diáspora) foi o termo usado para se referir aos judeus que viviam fora da Palestina. Depois da desastrosa Guerra Judaica de 66-73 DC e da destruição do Templo pelos romanos em 70 DC, grandes levas de judeus deixaram a sua pátria seguindo, principalmente, na direção Leste, rumo à Mesopotâmia. Mas o processo de "dispersão" começou muito antes disso. Pelo menos desde seu exílio na Babilônia, no século 6 AC os judeus começaram a se fixar em vários lugares do Oriente Médio e da região leste do Mediterrâneo. Na época do NT, provavelmente havia mais judeus vivendo fora da Palestina do que nela. Calcula-se que só no Egito havia um milhão de judeus. Em Alexandria, os judeus eram uma parcela tão significativa da população que formavam uma unidade política distinta, vivendo em áreas próprias da cidade e preservando a própria cultura e estilo de vida distintos.
[6] O Sinédrio era uma assembleia religiosa judaica ao tempo de Jesus. Os membros do Sinédrio governavam e julgavam o povo judeu de acordo com a Lei de Moisés e as tradições judaicas. Jesus foi julgado pelo Sinédrio antes de ser crucificado.
[7] Há muito pouca informação sobre o personagem Ananias, provavelmente um discípulo de Jesus, mas o próprio Paulo em um dos seus discursos, (Atos 22), descreve Ananias como um temente a Deus segundo a Lei e que tinha bom testemunho de todos os judeus que habitavam em Damasco.
[8] Barnabé foi um membro da Igreja Primitiva de Jerusalém, descendente da tribo de Levi, originário de uma família sacerdotal judaico-cipriota. O ministério de Barnabé ficou mais notório quando chegou a Jerusalém a informação de que na Síria os cristãos helenistas, que haviam lá se refugiado devido à perseguição que se iniciou na Judéia após a morte de Estêvão, estavam promovendo uma grande evangelização. Barnabé, então, foi enviado para lá, com o intuito de verificar a situação e agir conforme achasse mais apropriado. Ao chegar, Barnabé ficou maravilhado por ver muitos gentios pagãos se convertendo ao Evangelho pela graça de Deus. Logo, ele foi de grande valia para que aquela evangelização ganhasse ainda mais força.
[9] Nesse capítulo de Atos, Pedro é chamado de Cefas. Quando Pedro se encontrou com Jesus, o Senhor o chamou de Cefas, do aramaico Kefa, que significa “rocha” ou “pedra” e que em sua forma grega é Petros, ou seja, Pedro. O significado desse título se refere ao fato de que Pedro se tornaria firme como uma rocha, ao invés de uma pessoa com temperamento inconstante. Paulo sempre o chamou Cefas.
[10] Na atual Turquia, às margens do Mar Mediterrâneo, quase na fronteira com a Síria.
[11] A palavra “gentio”, em hebraico “goyim”, foi utilizada na Bíblia para designar os povos que não pertenciam ao povo de Israel, que não eram hebreus, sem representar alguma antipatia ou aversão. Às vezes foi também utilizado para significar os povos pagãos. Um judeu não podia casar com um gentio, porque os gentios não adoravam à Deus nem obedeciam à lei de Moisés; mas um gentio podia se converter ao judaísmo.
[12] Silas ou Silvanus foi um membro líder da primeira comunidade cristã, que acompanhou o apóstolo Paulo em partes de suas primeira e segunda jornadas missionárias. Silas parece ser, tradicionalmente, o Silvanus mencionado em quatro epístolas. Algumas traduções chamam-no Silas nas epístolas. Paulo, Silas e Timóteo são listados como coautores de duas cartas aos Tessalonianos. II Corintios menciona Silas como tendo orado com Paulo e Timóteo à Igreja em Corinto; a primeira epístola de Pedro menciona Silas como um “fiel irmão”.
[13] As Sete Igrejas da Ásia Menor, são, originalmente, as destinatárias do livro do Apocalipse. Essas igrejas ficaram popularmente conhecidas como “as Sete Igrejas do Apocalipse”. O número “sete” é muito representativo na construção do livro do Apocalipse, onde aparece, explicitamente, 54 vezes. A relação das sete igrejas pode ser encontrada facilmente logo no Capítulo 1 do Apocalipse (Ap 1:11): Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Achavam-se próximas umas das outras (no máximo 55 km), interligadas por boas estradas romanas, o que facilitava a troca de correspondência. Outro fato interessante é que em todas essas cidades de cada uma das igrejas, existia uma corte romana, o que naquela época representava grandes problemas para os cristãos. Inclusive, em Éfeso, Esmirna e Pérgamo, havia templos onde era celebrado o culto ao imperador.
[14] A Primeira Epístola de Clemente é uma carta endereçada aos cristãos da cidade de Corinto. A carta foi composta em algum momento entre 70 e 140 DC, mais provavelmente cerca de 96 DC. Compete com o Didaquê (ou “Doutrina dos Doze Apóstolos”, é um escrito do século I DC que trata do catecismo cristão, constituído de dezesseis capítulos; apesar de obra pequena, de grande valor histórico e teológico) como um dos documentos cristãos existentes mais antigos (senão o mais antigo) fora do Novo Testamento. Como o nome sugere, uma Segunda Epístola de Clemente é conhecida, um trabalho posterior e de outro autor. A carta é uma resposta aos eventos de Corinto, onde a congregação havia deposto alguns presbíteros, conclamando-a se arrepender restaurando-os à sua posição e obedecendo aos seus superiores. Ele dizia que os Apóstolos haviam constituído a liderança da Igreja e instruído a como perpetuar o ministério. Embora atribuído ao Papa Clemente, o trabalho é anônimo e não há evidência de que Roma tivesse um bispo no sentido monárquico ao tempo. Pode ter sido escrito por um simples líder da Igreja em Roma.
[15] O Cânone Muratori, também conhecido por fragmento muratoriano ou fragmento de Muratori, é uma cópia da lista mais antiga que se conhece dos livros do Novo Testamento. Foi descoberta na Biblioteca Ambrosiana de Milão por Ludovico Antonio Muraori (1672–1750) e publicada em 1740. Na lista figuram os nomes dos livros que o autor desconhecido da lista considerava admissíveis, com alguns comentários. A lista está escrita em Latim e encontra-se incompleta, daí ser chamada de fragmento. Apesar de ser consensual datar o manuscrito como sendo do século VII DC, ele é cópia de um texto mais antigo, tentativamente datado como sendo de por volta do ano 170, já que nele é referido o Pastor de Herma e como recente o bispado de Pio I, morto em 157.

sábado, 4 de março de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 7 (Última)

VIII - RESULTADOS E CONSEQUÊNCIAS DA REFORMA

No que se refere à Igreja Católica Apostólica Romana, não há dúvida de que a Reforma destruiu a unidade de fé e organização eclesiástica dos povos cristãos da Europa, removeu muitos milhões do que considerava, até então, a verdadeira Igreja Católica e despojou-os da maior parte dos meios saudáveis de cultivo e manutenção da vida sobrenatural. Um incalculável dano resultou do ponto de vista religioso. A falsa doutrina fundamental de justificação apenas pela fé, ensinada pelos reformadores, produziu uma lamentável superficialidade na vida religiosa. O zelo pelas boas obras desapareceu, o ascetismo que a Igreja havia praticado desde sua fundação foi desprezado, objetos de caridade e eclesiásticos não foram mais cultivados adequadamente, os interesses sobrenaturais foram ao solo e as aspirações naturalistas visando o puramente mundano se espalharam. A negação da autoridade divinamente instituída da Igreja no que concerne à doutrina e ao governo eclesiástico, abriu as portas às excentricidades, dando origem à divisão sem fim de seitas e às disputas sem fim características do Protestantismo, conduzindo apenas à completa descrença que necessariamente surgiu dos princípios protestantes. Da real liberdade de crença entre os reformadores do século XVI, não restou um só traço; ao contrário, a maior tirania em questões de consciência foi apresentada pelos representantes da Reforma. A mais nociva predominância do poder secular sobre a religião foi promovida, graças ao reconhecimento, pela Reforma, das autoridades seculares como suprema nas questões religiosas. Assim surgiram, desde o início, as várias “igrejas nacionais protestantes”, totalmente discordantes do universalismo cristão da Igreja Católica e dependentes, de acordo com sua fé e organização, da vontade do poder secular. Nesse sentido, a Reforma foi o principal fator na evolução do absolutismo real. Em cada terra em que ingressou, a Reforma foi a causa de indescritível sofrimento para o povo; criou guerras civis que duraram décadas, com todos os horrores e devastações; as pessoas eram oprimidas e escravizadas; tesouros de arte incontáveis e manuscritos sem preço foram destruídos; entre os membros de uma mesma terra e raça a discórdia foi semeada. A Alemanha em particular, lar original da Reforma, foi reduzida a um estado de lastimável miséria pela Guerra dos Trinta Anos e o Império Germânico foi despejado da posição de liderança que ocupou por séculos na Europa. Só gradualmente e devido a forças que não se originaram da Reforma, mas foram condicionadas por outros fatores históricos, as feridas sociais foram curadas, mas a corrosão religiosa ainda hoje continua a despeito dos fervorosos sentimentos religiosos que sempre caracterizaram muitos seguidores individuais da Reforma.

IX - CONCLUSÕES

No que nos diz respeito, o “Aurélio” define a palavra cisma como a separação – ou cisão - do corpo e da comunhão de uma religião. Mas também a define como, simplesmente, uma dissidência de opiniões. Nesse sentido, vários cismas já ocorreram dentro da Igreja Católica Apostólica Romana – que, até a Reforma, tinha como sinônimo, o Cristianismo -, simplesmente Igreja, e penso ser natural que assim tenha sido. E explico as razões desse meu ponto de vista, procurando não me estender demais em questão tão complexa.
A primeira delas, por evidente, é que o Cristianismo, como outras religiões, mais ou menos antigas, são instrumentos criados, por inspiração divina ou não, pela humanidade e, como tal, passíveis de erros ou interpretações e daí a dissidência futura de opiniões.
No caso do Cristianismo, tal questão é muito mais profunda. O Cristianismo, que resultou desde cedo na Igreja Católica Apostólica Romana, pelo nascimento de Cristo, uma dissidência do Judaísmo surgida na terra dos judeus, é religião monoteísta. Sem considerar os milagres do Velho Testamento do Judaísmo (e posteriormente do Cristianismo), a religião dos hebreus não lhes criou tantos problemas de interpretação quanto o Cristianismo, a começar pelo fato de que os judeus continuam a esperar pelo seu Messias, isto é, o seu Deus encarnado que ainda não chegou, o que lhes poupou - e poupa - um sem número de dúvidas e explicações. Entretanto, muito se enganam os que pensam que dentro do judaísmo não houve e não há cisões. Na verdade, tais cisões foram tremendamente variadas e iniciaram tão cedo que já no início da época dos reis judeus, as doze tribos milenares se separaram em dois grupos: um de dez tribos e outro de duas tribos apenas. E o interessante é que a genealogia de Abrahão, o ramo considerado autêntico pelos judeus, que ficou com sua sede em Jerusalém, com o templo de Salomão, foi o grupo de duas tribos, sendo o outro grande grupo obscurecido pelo tempo e acabando por desaparecer por completo.
Quem imaginar que a Reforma de fato teria ocorrido por razões extraordinárias, é porque nunca leu sobre a história da Igreja que, desde a sua fundação, sempre contou com profundas dissensões internas de ordem doutrinária.
O Cristianismo, religião nascida com e por Jesus Cristo, segundo ela, Deus encarnado, que viveu como humano até os seus 33 anos, teve que produzir explicações convincentes sobre a existência simultânea do Deus espiritual que ninguém conheceu, e do Deus que existiu na Terra em forma humana, Cristo, além do Espírito Santo, conceito ainda mais complexa, numa religião monoteísta. Essa foi apenas uma das várias e complexas questões surgidas com o Cristianismo, para o qual, desde a sua fundação, os apóstolos, inicialmente, e os que prosseguiram em sua fundamentação e organização, posteriormente, tiveram que criar um conjunto de preceitos de direito eclesiástico – cânones – que resultaram, finalmente, numa Doutrina da Igreja. Foi essa Doutrina da Igreja, que sempre evoluiu e prossegue evoluindo, que desde a sua fundação foi cenário de infinitas discussões, dissidências, fundação de novas seitas ou ramificações e que, no passado, a Igreja conseguiu, de uma ou de outra forma, manter indivisa e única; até uma certa época, pelo menos. No início, as dissidências da doutrina da Igreja eram tratadas como heresias do Cristianismo e resolvidas sem rompimentos. É preciso também entender que nos primeiros anos do Cristianismo, além dele existia apenas uma outra religião monoteísta – o Judaísmo – já que o Budismo é muito mais uma filosofia de vida do que uma religião. Para quem quiser se aprofundar no assunto e saber como a Igreja evoluiu, eu aconselho a leitura de “Early History of the Christian Church”, de Louis Duchesne, principalmente o seu primeiro volume que trata do assunto desde a fundação da Igreja até o século III.
O primeiro cisma importante com que a Igreja se defrontou, foi o chamado “Grande Cisma do Ocidente-Oriente” ou “Cisma de 1054” ou “O Grande Cisma”, resultado de um processo muito gradual, cujas causas deveriam ser buscadas séculos antes de que houvesse suspeita de seu efeito final. Embora Roma sempre tenha reivindicado uma autoridade especial sobre as demais igrejas, pelo menos dois outros bispos, conhecidos como patriarcas, sempre mereceram posição destacada no Cristianismo: o Bispo de Alexandria e o de Antioquia. A esses se juntaram logo os Bispos de Constantinopla e Jerusalém, também confirmados como Patriarcas pelo Concílio de Calcedônia. Esses quatro bispos possuíam precedência sobre os demais bispos da Igreja. O Bispo de Roma, o Papa, mantinha um status mais elevado pela sua posição de sucessor de São Pedro, além de ter particular importância pelo fato de Roma ser a Capital do Império Romano, completando assim o quinto patriarcado. Mesmo depois que Constantino moveu a capital do Império Romano para Constantinopla (do Ocidente para o Oriente), em 330 DC, o Papa manteve sua posição de primeiro entre os iguais (primus inter pares) na hierarquia da Igreja. Sem entrar em maiores detalhes que aqui não cabem, diremos apenas que foram muitas as causas do Cisma, políticas e religiosas, que acabaram por separar da Igreja boa parte da cristandade, que passou a ser conhecida como Igreja Ortodoxa. A cisão foi tão forte que provocou, entre outras coisas, a excomunhão recíproca do Patriarca de Constantinopla, Michael I Cerularius e do Papa Leão IX, incidente somente encerrado com a reconciliação de 1965 entre o Papa Paulo VI e o Patriarca de Constantinopla Athenagoras I que anularam as excomunhões de 1054, num gesto simbólico de boa vontade que não constituiu qualquer espécie de reunião.
Trezentos anos após esse Grande Cisma, a sede papal foi transferida para Avignon e, em seguida, ocorreu o “Cisma do Ocidente”, quando a Igreja chegou a ter três Papas simultaneamente, conforme foi visto no texto. Finalmente, em 1517, a Igreja enfrentou a Reforma.
Nas duas primeiras grandes questões ou cismas, é importante notar que a doutrina da Igreja saiu praticamente intocada, embora pela primeira, a autoridade Papal tenha sido abandonada por parte da cristandade. O mesmo não aconteceu com a Reforma, quando praticamente várias religiões foram criadas, algumas com alterações fundamentais em relação à Igreja Católica, além do rompimento com o Papa. Na minha opinião, ao invés de complicar, isso talvez explique mais facilmente as razões da Reforma.
Para quem quiser realmente entender a Reforma, é preciso ter em mente que o real cristão necessita crer em coisas que dependem exclusivamente de fé, para as quais não há explicações materiais. Este é ponto de partida para tudo, inclusive a questão das indulgências. Ocorre que, antes da Reforma, os seus defensores eram todos religiosos cristãos e deveriam, portanto, crer e aceitar os pontos complexos; se não cressem, deveriam discutir as questões ao invés de cindir, que seria – e foi - o caminho mais fácil. É claro que Lutero, como padre católico, era instruído, honesto e poderia discordar e ter razão em parte de suas discordâncias da doutrina da Igreja Católica Romana. Como vimos isso sempre aconteceu desde o início e as diferenças sempre foram contornadas. Entretanto, a Igreja não poderia abrir mão da sua doutrina fundamental. Lutero teve a chance de discutir suas teses durante a Dieta de Worms, em 1521; ele as apresentou, discutiu, foi derrotado, mas continuou dissidente. Em consequência, foi excomungado e colocado fora da Lei, mas foi protegido por Frederick, o Sábio, Eleitor da Saxônia e desafiou o que aconteceu depois; a partir deste momento, a reforma tornou-se política. Em cima de sua revolta, outros aproveitadores surgiram e provocaram guerras sangrentas que jamais teriam surgido não fosse o seu movimento. Na verdade, as 95 Teses de Lutero poderiam ter sido discutidas em Wittenberg, onde foram lançadas.
Como sou obrigado a concluir, em minha opinião, as duas partes – Igreja Católica e Reformadores – tiveram culpa no desenvolvimento de cenário que surgiu e se desenvolveu. A Igreja Católica por não saber conduzir a questão, embora os motivos que a provocaram, transcendessem as questões religiosas; os Reformadores, por terem usado os motivos religiosos para conseguir a vitória final, unindo-se às razões materiais dos governantes locais. Muitas das reivindicações levantadas eram muito pouco importantes para terem as consequências e repercussão que tiveram. Tal é o caso, por exemplo, de terem a Bíblia e os ofícios religiosos praticados na própria língua dos seus países, algo que, mais tarde, até a própria Igreja Católica veio a praticar espontaneamente. Nunca houve concordância entre os diversos reformadores surgidos e logo as lutas internas iniciaram, sendo contestadas por Lutero, o que de pouco adiantou; e logo surgiram os múltiplos ramos do movimento. Mais do que isso, ostensivamente eles lutaram entre si e a maior prova disso é que as várias ramificações da Reforma vingaram exatamente nos países em que elas se originaram; só posterior e muito lentamente, cada uma dessas facções foi conseguindo mais adeptos, em geral ainda descendentes daqueles países.
Lutero e Zwingli, por exemplo, lutaram ostensivamente entre si. O primeiro gesto aberto de Zwingli contra um dos dogmas cristãos, foi comer salsichas durante a Quaresma em 1522, marcando o início da Reforma suíça. Enfrentando menos oposição do que Lutero enfrentara na Alemanha, conseguiu persuadir Zurich a aceitar a avassaladora Reforma; mas como Lutero, logo foi também confrontado por reformadores mais radicais do que ele próprio.
De forma geral, praticamente todas as objeções inicialmente levantadas pelos reformadores poderiam ter sido resolvidas pelas duas partes. Não foram porque outras bandeiras, de ordem material – mas principalmente política, como consequência do próprio Renascimento -, foram levantadas, pelos reformadores, que interessavam sobremaneira aos governantes locais. A Igreja acumulou, ao longo dos tempos, por força de doações para justos fins, um importante patrimônio que causava inveja aos governantes dos feudos da época. A bandeira de desapropriação de bens materiais e terras da Igreja caiu como uma luva às pretensões dos poderosos e falidos senhores feudais daquela época. Com isso, eles não apenas permitiram a cisão, como a estimularam, além de, muitas vezes, obrigarem os seus súditos a abraçar as ideias da Reforma nos vários países onde ela se desenvolveu. Basicamente, o poder feudal acabou por dominar a Reforma em função dos bens da Igreja que passariam aos senhores feudais.

A grande verdade é que a Reforma inflamou na Europa uma conflagração de violência sem paralelo. Devastou a Cristandade ocidental por mais de um século, trazendo consigo violento ódio e intolerância que, em algumas comunidades cristãs, perdura até os dias de hoje. Nenhuma disputa, em qualquer outra religião, igualou a força destrutiva, a brutalidade e amargura iniciada em Wittenberg em 1517. Apenas como ilustração e como assunto para meditar, lembremos a Guerra dos Trinta Anos, consequência mais distante da Reforma, que causou um número estimado entre 3 e 11 milhões de mortos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 3

IV - IDEIAS ORIGINAIS E OBJETIVOS DOS REFORMADORES

O primeiro impulso da secessão foi fornecido pela oposição de Martin Lutero, na Alemanha, e de Ulrich Zwingli (Ulrico Zuínglio, como é conhecido em Português), na Suíça Alemã, à promulgação, pelo Papa Leão X, de indulgências para contribuições à reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma. As “Indulgências” constituem um tema tão complexo e importante na questão da Reforma, que vamos dedicar ao assunto um subcapítulo especial, dedicado aos leitores que queiram se aprofundar um pouco mais no assunto.

IV.1 - INDULGÊNCIAS

A palavra “Indulgência” talvez encoraje mais falsos juízos do que qualquer outro ensinamento na teologia católica. As pessoas que atacam a Igreja pelo uso das indulgências, confiam na – e tiram vantagem disso – ignorância de católicos e não católicos.
O que é uma indulgência? Originalmente significava uma gentileza ou favor; posteriormente veio a significar a remissão de uma taxa ou débito. Na lei romana e no Velho Testamento ela foi usada para expressar liberação do cativeiro ou punição. Em linguagem teológica a palavra é algumas vezes empregada em seu sentido original para significar benevolência e perdão de Deus. A Igreja explica: “Uma indulgência é uma remissão (perdão), diante de Deus, da punição temporal devido aos pecados cuja culpa já foi perdoada, que o fiel cristão, devidamente disposto recebe, sob certas condições definidas, com a ajuda da Igreja quando, como ministro de redenção, ela dispensa e aplica com a autoridade do tesouro das satisfações conquistadas por Cristo e os Santos”.
No ensinamento da Igreja Católica Romana, uma indulgência é “uma forma de reduzir o tamanho da punição que alguém deve sofrer por ter pecado”, que pode reduzir a penitência necessária após cometer um pecado que foi confessado e perdoado e/ou, após a morte, o tempo a permanecer no Purgatório[1].
O recebedor de uma indulgência deve realizar alguma ação para recebe-la. Na maioria das vezes, trata-se de dizer, uma ou mais vezes, uma oração ou conjunto de orações específicas, mas pode também incluir a visitação a um local determinado ou a realização de boas obras específicas.
As indulgências foram introduzidas visando a remissão das severas penas da Igreja primitiva e concedidas pela intercessão de cristãos que aguardavam o martírio ou, pelo menos, que tivessem sido presos pela fé. Eram sacadas do “Tesouro do Mérito[2]” acumulado pelo sacrifício meritório superabundante de Cristo na cruz e pelas virtudes e penitências dos Santos. São concedidas por boas obras e orações específicas proporcionalmente à devoção com que elas são praticadas ou recitadas.
De acordo com os ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica, dois tipos de consequências ocorrem quando alguém peca: eternas e temporais (ou seculares). Um pecado mortal (muito grave e cometido consciente e livremente) é equivalente a recusar amizade com Deus e comunhão com a única fonte de vida eterna. A perda da vida eterna com Deus e a eterna morte no inferno, efeito desta rejeição, é chamada de “punição eterna” do pecado. Além desta punição devido ao pecado mortal, cada pecado (incluindo os venais) afasta o cristão de Deus através do que o Catecismo chama de ligação insalubre às criaturas, uma ligação que deve ser purificada aqui na Terra ou, após a morte, no Purgatório. A necessidade resultante de quebrar essa conexão às criaturas é uma outra punição do pecado, chamada de “punição temporal” porque, não sendo uma rejeição total de Deus, não é eterna e pode ser superada com o tempo. Mesmo quando o pecado é perdoado, a conexão associada pode permanecer; a punição temporal que segue o pecado é assim experimentada durante a vida terrena ou no purgatório. Nesta vida, a purificação necessária da ligação às criaturas pode, pelo menos em parte, ser alcançada pela opção a Deus, pela oração, penitência e obras de perdão e caridade.
As indulgências seriam uma ajuda para que se alcançar esta purificação. A doutrina católica da comunhão dos Santos ensina que o trabalho de purificação ou santificação não necessita ser feita inteiramente pela pessoa diretamente interessada, dado que por esta comunhão, “a vida de cada filho de Deus, em Cristo e por Cristo, é ligada por um maravilhoso vínculo, à vida de todos os seus outros irmãos cristãos, na unidade sobrenatural do Corpo Místico de Cristo até que uma só pessoa mística seja formada”. A comunicação dos bens espirituais, que incluem os méritos infinitos do próprio Cristo, o “Tesouro da Igreja”, e considerando a interpretação da Igreja do “poder de atar ou desatar” garantido por Cristo, a Igreja considera que pode administrar, aos que estão sob sua jurisdição, os benefícios desses méritos em vista de orações ou outras obras pias empreendidas pelos fiéis. Ao abrir aos cristãos individuais seu tesouro, “a Igreja não quer simplesmente vir ao auxílio desses cristãos, mas também estimulá-los aos trabalhos de devoção, penitência e caridade”.
Assim, uma indulgência não perdoa a culpa do pecado, nem libera o castigo eterno que a doutrina da Igreja associa com pecados mortais não perdoados. A Igreja Católica ensina, ao contrário, que as indulgências apenas abrandam o castigo temporal resultante do efeito do pecado e que a pessoa ainda necessita ter seus graves pecados absolvidos, normalmente pelo sacramento da Confissão, para receber a salvação. Similarmente, a indulgência não é uma licença para pecar, um perdão para um pecado futuro, nem uma garantia de salvação para ninguém. Ordinariamente, o perdão de pecados mortais é obtido através da confissão.
Uma vez que aqueles que morreram em estado de graça (com seus pecados mortais perdoados) são membros da comunhão dos santos, crê a Igreja Católica que os vivos podem ajudar àqueles a quem a purificação de seus pecados ainda não foi completada, não apenas por orações, mas também pela obtenção de indulgências para eles. E como a Igreja da Terra não tem jurisdição sobre os mortos, as indulgências podem ser ganhas somente por um ato de intercessão.
Uma indulgência pode ser plenária, quando redime toda a punição temporal exigida para purificar a alma da conexão a tudo com exceção de Deus; ou parcial, quando redime somente parte da punição temporal (purificação) devido ao pecado. Para receber uma indulgência plenária, uma pessoa deve excluir toda a ligação ao pecado de qualquer espécie, mesmo pecados veniais, realizar as obras ou dizer as orações pelas quais a indulgência é concedida, bem como preencher as três condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Papa. A condição mínima para receber uma indulgência parcial é ter o coração contrito; nessas condições, um católico que realiza a obra ou recita a oração prescrita, recebe, através da Igreja, a remissão da punição temporal de mesmo valor que a obtida pela própria ação da pessoa.
Ponto importantíssimo a considerar, no que foi dito até aqui sobre as indulgências, é a crença que o fiel deve possuir na doutrina da Igreja Católica. Se a pessoa não acredita na doutrina da Igreja, ela não vai aceitar a indulgência como ferramenta importante e válida para a sua salvação.
Na Igreja antiga, especialmente do século III para a frente, autoridades eclesiásticas autorizavam um confessor ou cristão aguardando o martírio a interceder por outro cristão para encurtar sua penitência canônica. O Concílio de Epaone, em 517, testemunha o surgimento da prática de substituir severas penitências canônicas por uma nova mais suave: o seu 29º Canon reduzia para dois anos a penitência a que os apóstatas[3] se deviam sujeitar no seu retorno à Igreja, mas os obrigava a jejuar um dia em três, durante aqueles dois anos, para virem à igreja e tomar o seu lugar na porta dos penitentes e sair com os catecúmenos[4]. Qualquer um que objetasse ao novo arranjo, deveria observar a antiga penitência muito mais longa.
Após saber o que são as indulgências, é muito importante que se esclareça o que elas não são e, para isso, aqui colocamos os sete mitos mais comuns sobre as indulgências, segundo a Igreja.
Mito 1: Uma pessoa pode evitar a sua ida para o inferno com a compra de indulgências.
Tal ideia é totalmente sem fundamento. Uma vez que as indulgências perdoam só as penas temporais, elas não podem perdoar a pena eterna do inferno. Uma vez que a pessoa esteja no inferno, nenhuma quantidade de indulgências jamais mudará tal fato. A única forma de evitar o inferno é através do apelo à eterna misericórdia de Deus enquanto ainda vivo. Após a morte, o destino eterno de alguém está selado.
Mito 2: Uma pessoa pode comprar indulgências por pecados ainda não cometidos.
A Igreja sempre ensinou que indulgências não se aplicam a pecados ainda não cometidos. A Enciclopédia Católica observa: “Uma indulgência não é uma permissão para cometer pecados, nem um perdão para futuros pecados; nenhum deles pode ser garantido por qualquer poder”.
Mito 3: Uma pessoa pode “comprar perdão” com indulgências.
A definição de indulgência pressupõe que o perdão já foi concedido. Indulgências não perdoam pecados em nenhuma hipótese. Elas tratam com as punições aplicadas após os pecados terem sido perdoados.
Mito 4: As indulgências foram inventadas como forma da Igreja levantar fundos.
As indulgências se desenvolveram a partir de reflexões sobre o sacramento de reconciliação. Elas são apenas um meio de encurtar a penitência de doutrina sacramental e estavam em uso séculos antes de surgirem problemas relacionados a dinheiro.
Mito 5: Uma indulgência encurtará o seu tempo no purgatório por um número fixado de dias.
O número de dias que costumava ser ligado às indulgências, eram referências ao período de penitência que alguém poderia ter durante a vida na terra. A Igreja Católica não afirma conhecer algo sobre quão longo ou curto o purgatório é, em geral, muito menos no caso de uma pessoa.
Mito 6: Uma pessoa pode comprar indulgências.
O Concílio de Trento instituiu severas reformas na prática de concessão de indulgências e, por causa de abusos anteriores, “em 1567 o Papa Pio V cancelou toda a concessão de indulgências envolvendo quaisquer taxas ou outras transações financeiras”. Esse ato provou a seriedade da Igreja quanto a cessar os abusos relativos a indulgências.
Mito 7: Uma pessoa costumava poder comprar indulgências.
Nunca alguém pode comprar indulgências. O escândalo financeiro envolvendo indulgências, o escândalo que deu a Martin Luther uma desculpa para sua heterodoxia, envolveu esmolas – indulgências em que a doação de esmolas para algum fundo ou fundação de caridade foi usado como a ocasião para conceder a indulgência. Nunca houve uma franca venda de indulgência. A Enciclopédia Católica estabelece: “É fácil de ver como os abusos se infiltraram. Entre as boas obras que poderiam ser encorajadas para se tornarem condição de uma indulgência, a doação de esmolas naturalmente iria ocupar um local proeminente. É bom observar que nestes objetivos não há nada de essencialmente mau. Dar dinheiro a Deus ou ao pobre é um ato louvável e, quando isso é feito por motivos corretos, não ocorrerá sem uma recompensa”.
Esses sete mitos ajudam a entender as indulgências, mas ainda há algumas questões a serem postas, sempre segundo a Igreja:
Quantas punições temporais de alguém podem ser perdoadas?
Potencialmente, todas elas. A Igreja reconhece que Cristo e os Santos são interessados em ajudar os penitentes a tratar das consequências de seus pecados, como indicado pelo fato de que eles sempre oram por nós. Cumprindo o seu papel na administração das punições temporais, a Igreja saca o farto estoque de recompensas que Deus escolheu conceder aos Santos – que O agradaram – e ao Seu Filho – que Lhe agradou mais que todos. As recompensas que a Igreja extrai são infinitas porque Cristo é Deus, de forma que as recompensas que ele provê são infinitas e nunca serão exauridas. As recompensas dos Santos são adicionadas às de Cristo não porque algo esteja faltando, mas porque unindo as suas recompensas às d’Ele, os Santos estarão unidos com Ele. Embora imensas, suas recompensas são finitas, mas as dele são infinitas.
Se a Igreja possui os recursos para apagar as punições temporais de todos, por que ela não faz isso?
Porque Deus não deseja que isso seja feito. O próprio Deus instituiu o padrão de punições temporais serem deixadas pendentes. Elas preenchem várias funções, uma delas disciplinar. Se uma criança não fosse disciplinada, nunca aprenderia a obediência. Deus nos disciplina como suas crianças, de forma que algumas punições temporais devem permanecer. Da mesma forma que o arrependimento e a fé são necessários para a remissão das punições eternas, elas são também necessárias para a remissão das punições temporais. O Papa Paulo VI estabeleceu: “As indulgências não podem ser ganhas sem uma sincera conversão de perspectiva e unidade com Deus”. Poderíamos dizer que o grau de remissão depende de quão bem o penitente aprendeu a sua lição.
Como alguém sabe a quantidade de que sua punição foi reduzida?
Antes do Concílio Vaticano II, cada indulgência removia um certo número de “dias” do castigo de alguém – por exemplo, um ato poderia receber uma “indulgência de 300 dias” -, mas o uso do termo “dias” confundia as pessoas, dando-lhes a impressão enganosa de que no Purgatório o tempo, como o conhecemos, ainda existe, e que podemos calcular nosso “bom tempo” de uma forma mecânica. O número de dias associado às indulgências, nunca significou, de fato, que aquele tempo seria retirado da estada de alguém no Purgatório; apenas significava que uma quantidade indefinida de remissão, mas parcial, nunca total, seria concedida, adequada ao que os Cristãos antigos teriam recebido pela realização daquela penitência de tantos dias. Assim, alguém que ganhasse 300 dias de indulgência, ganhava, grosseiramente, o que um Cristão antigo teria ganho por, digamos, recitar uma oração particular que valesse 300 dias. Para superar a confusão, Paulo VI editou uma revisão do manual de indulgências. Hoje, o número de dias não está associado às indulgências, mas elas apenas podem ser plenárias ou parciais.
Qual a diferença entre uma indulgência parcial e uma plenária?
Uma indulgência é parcial ou plenária se ela remover parte ou toda a punição temporal devida ao pecado. Somente Deus sabe exatamente quão eficaz é uma particular indulgência parcial ou se uma indulgência plenária foi totalmente recebida.
As indulgências não duplicam ou mesmo negam as obras de Cristo?
A despeito do suporte bíblico às indulgências, alguns são críticos agudos delas e insistem em que a doutrina suplanta o trabalho de Cristo e nos transforma em nossos próprios salvadores. Esta objeção resulta da confusão sobre a natureza das indulgências e sobre a forma como o trabalho de Cristo é aplicado a nós. As indulgências aplicam-se somente às punições temporais, não às eternas. A Bíblia indica que essas punições podem permanecer após um pecado ter sido perdoado e que Deus atenua essas punições como recompensa aos que o agradaram. Se a Bíblia indica isso, o trabalho de Cristo não pode ter sido suplantado pelas indulgências. Os méritos de Cristo, dado que são infinitos, compreendem a maioria dos que compõem o Tesouro de Méritos. Aplicando esses méritos aos crentes, a Igreja atua como serva de Cristo na aplicação do que ele tem feito por nós e sabemos, das Escrituras, que o trabalho de Cristo é consagrado a nós ao longo do tempo e não de uma só feita.
Não seria melhor colocar toda a ênfase somente em Cristo?Se ignoramos o fato das indulgências, esquecemos como Cristo age através de nós e falhamos em reconhecer o valor do que ele tem feito em nós. São Paulo usa a mesma espécie de linguagem: “Agora eu me alegro em meus sofrimentos por Vós e em minha carne eu completo o que está faltando nas aflições de Cristo, por este corpo, isto é, a Igreja” (Col. 1:24). Embora os sofrimentos de Cristo fossem superabundantes (muito mais do que o necessário para pagar qualquer coisa), São Paulo falou em completar o que “faltava” nos sofrimentos de Cristo. Se essa forma de discurso era permitida a Paulo, é permitida a nós, embora a linguagem Católica sobre indulgências seja muito menos chocante que a linguagem de Paulo sobre seu papel na salvação. Os Católicos não deveriam ser defensivos sobre as indulgências. Elas são baseadas em princípios diretos da Bíblia e podemos ter confiança, não apenas de que as indulgências existem, mas que são úteis e valiosas de obter. O Papa Paulo VI declarou: “A Igreja convida todos os seus filhos a pensar e ponderar em suas mentes, tão bem quanto possam, sobre como usar as indulgências em benefício de suas vidas e da sociedade cristã... Apoiados por essas verdades, a Santa Mãe Igreja novamente recomenda a prática de indulgências aos fiéis, que tem sido tão cara ao povo cristão por tantos séculos bem como em nossos próprios dias. A experiência prova isso. ”

Para ganhar uma indulgência, você deve ser um católico, para estar sob a jurisdição da Igreja, e estar em estado de graça porque, afastado da graça de Deus, nenhuma de suas ações é fundamentalmente agradável a Deus (meritória).
Aqueles que alegam que indulgências não fazem mais parte dos ensinamentos da Igreja, têm o desejo admirável de se distanciar dos abusos ocorridos à época da Reforma Protestante. Também desejam remover obstáculos que impedem não católicos de terem uma visão positiva da Igreja. Embora esses motivos sejam admiráveis, a alegação é falsa. A prova disso é o Catecismo da Igreja Católica que estabelece: “Uma indulgência é obtida através da Igreja que, pelo poder de atar e desatar a ela concedido por Jesus, intervém em favor dos cristãos individuais, abrindo a eles o tesouro dos méritos de Cristo e dos Santos, para obter do Pai a remissão da punição temporal devida por seus pecados”. A Igreja faz isso não apenas para ajudar os Cristãos, mas também para estimulá-los aos trabalhos de devoção, penitência e caridade. As indulgências são parte do ensinamento infalível da Igreja, significando que nenhum Católico tem liberdade para descrer delas. O Concílio de Trento estabeleceu que condena com o anátema (excomunhão) àqueles que dizem que as indulgências são inúteis ou que a Igreja não tem o poder de concedê-las, colocando-as no domínio do ensinamento definido como infalível.

[1] Purgatório, de acordo com a doutrina da Igreja Católica, é um estado intermediário, após a morte física, em que aqueles que são destinados ao Céu, “são submetidos à purificação para alcançar a santidade necessária para obter a alegria do Céu”. Somente aqueles que morrem em estado de graça, mas durante a vida não alcançaram um nível suficiente de santidade, podem ir ao Purgatório; no Purgatório ninguém permanecerá para sempre naquele estado ou irá para o Inferno.
[2] O “Tesouro do Mérito” ou “Tesouro da Igreja”, de acordo com a crença católica, são os méritos de Jesus Cristo e seus fiéis, um tesouro que, por causa da comunhão dos Santos, beneficia também outras pessoas. De acordo com o Dicionário Westminster de Termos Teológicos, a crença católica é uma forma de expressar a visão de que as boas obras de Jesus e outros podem beneficiar outras pessoas. Os teólogos católicos contemporâneos o vêm como uma metáfora dos caminhos pelos quais a fé de Cristo e dos Santos pode ajudar a outros.
[3] Apostasia significa o afastamento definitivo e deliberado de alguma coisa, uma renúncia de sua anterior fé ou doutrinação, que pode manifestar-se abertamente ou de modo oculto. Dependendo de cada religião, um apóstata, afastado do grupo religioso do qual era membro, pode ser vítima de preconceito, intolerância, difamação e calúnia por parte dos demais membros ativos. Um caso extremo é a aplicação da pena de morte para apóstatas da religião islâmica em países muçulmanos, como por exemplo, na Arábia Saudita.
[4] O catecumenato ou formação dos catecúmenos, tem por finalidade permitir às pessoas, em resposta à iniciativa divina e em união com uma comunidade eclesial, a sua conversão e a obtenção da fé. Trata-se de uma "formação à vida cristã integral (...) pela qual os discípulos são unidos a Cristo, seu mestre. Por isso, os catecúmenos devem ser iniciados (...) nos mistérios da salvação e na prática de uma vida evangélica, e introduzidos, mediante ritos sagrados celebrados em épocas sucessivas, na vida da fé, da liturgia e da caridade do povo de Deus "