Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 14 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 5 - ÚLTIMA)

VIII - A DINASTIA HASMONEANA: AUTONOMIA E CONFLITOS INTERNOS


A Revolta dos Macabeus levou ao estabelecimento da Dinastia Hasmoneana, que governou a Judeia de 140 a 63 AC, marcando um período de autonomia judaica. Simão, irmão de Judas Macabeu, foi nomeado para os títulos de Alto Sacerdote, General e Líder por uma grande assembleia geral, tornando-se o primeiro governante da dinastia Hasmoneana de um estado autônomo. Vislumbrando o poder romano, viajou para Roma para obter dela a garantia de que a Judeia seria um território independente.
Por essa época, já era o mandante do Império Selêucida, Antiochus VII Euergetes, apelidado Sidetes, que reinou de julho de 138 a 129 AC, como último rei Selêucida de alguma estatura; após sua morte em batalha, o reino Selêucida ficou restrito apenas à Síria. Antiochus VII queria as cidades de Gadara, Joppa e Acre de volta, além de um grande tributo. Como Simão quisesse pagar uma fração do desejado pela manutenção de apenas duas das cidades, Antiochus enviou seu general Cendebaeus para atacar. O general foi morto e o exército posto em debandada. Sob o domínio dos hasmoneus, o reino expandiu suas fronteiras, cobrindo uma área quase tão grande quanto a que a nação tinha sob o rei Salomão.
Simão e dois de seus filhos foram mortos numa trama para derrubar os Hasmoneus, que pretendia também matar João Hyrcanus seu filho restante, mas que escapou para Jerusalém para defendê-la. João Hyrcanus conquistou a Transjordânia, a Galileia, a Samaria e a Idumeia (Edom). Hyrcanus tinha muitas questões para resolver como novo Alto Sacerdote. Antiochus invadiu a Judeia e sitiou Jerusalém em 134 AC. Por falta de alimentos Hyrcanus teve que fazer um acordo com Antiochus, pagando uma grande quantidade de dinheiro, abrindo as muralhas da cidade, reconhecendo o poder selêucida sobre a Judeia e ajudando os selêucidas em sua luta contra os Partas, que não aconteceu pela morte de Antiochus em 128 AC. Com isso Hyrcanus tomou de volta a Judeia e manteve o seu poder. Ele também manteve boas relações com os romanos e egípcios, pela grande quantidade de judeus que lá viviam.
Aristobulus I sucedeu a João Hyrcanus, seu pai, sendo o primeiro Hasmoneu a assumir o título de "Rei" e Sumo Sacerdote, durante um curto reinado de um ano. Desafiou os desejos de seu pai que queria sua mãe como sua sucessora, mandando-a para a prisão com todos os seus irmãos, exceto um que logo foi assassinado por suas ordens. Seu feito mais significativo foi a conquista da Galileia.
Com sua morte foi sucedido por seu irmão Alexandre Yanai, apenas preocupado com poder e conquista. Casou-se com a viúva de seu irmão, mostrando muito pouco respeito pela lei judia. Sua primeira conquista foi a cidade egípcia de Ptolomais, cujos habitantes clamaram pela ajuda de Ptolomeu IX que se encontrava em Chipre. Contudo quem veio foi sua mãe Cleópatra III, para ajudar Alexandre e não seu filho.
O reinado dos Hasmoneus foi marcado por intrigas políticas e conflitos internos. A união dos cargos de rei e Sumo Sacerdote na figura dos Hasmoneus gerou insatisfação, pois a realeza deveria ser de descendência davídica, e o Sumo Sacerdócio, da linhagem de Zadoque, o que os Hasmoneus não podiam reivindicar. Essa tensão levou ao surgimento de grupos político-religiosos distintos: os fariseus, os saduceus e os essênios. A luta entre fariseus e saduceus atingiu seu auge com o governo de Alexandre Yanai (100-75 AC), cujo comportamento como Sumo Sacerdote despertou o desprezo dos fariseus. Como Alexandre não fosse um governante popular, uma guerra civil irrompeu em Jerusalém que durou seis anos. Com sua morte, sua viúva, Salomé Alexandra, tornou-se a governante, mas não Alto Sacerdote.
Os governantes que o sucederam foram Aristobulus II, João Hyrcanus II e o último Hasmoneano, Antigonus, deposto e executado pelos romanos sob Marco Antônio. O fim da Dinastia Hasmoneana ocorreu em 63 AC quando os romanos vieram a pedido do então Rei-Sacerdote Aristobulus II e seu concorrente Hyrcanus II. Foi nesse contexto de conflito interno que o general romano Pompeu interveio em 63 AC, marcando a queda da dinastia Hasmoneana e a conquista da Judeia pela República Romana com o fim da independência Judaica
A ascensão e queda da Dinastia Hasmoneana ilustra a complexidade da autonomia judaica em um cenário geopolítico volátil. A união dos poderes real e sacerdotal pelos Hasmoneus, embora inicialmente um símbolo de vitória e independência, tornou-se uma fonte de discórdia interna, pois desafiava as expectativas tradicionais sobre a linhagem da realeza e do sacerdócio. A fragmentação em seitas como fariseus, saduceus e essênios não foi apenas uma questão de diferenças doutrinárias, mas também de disputas de poder e visões divergentes sobre o futuro da nação. Essa divisão interna enfraqueceu a Judeia, tornando-a suscetível à intervenção externa e, em última análise, à conquista romana. A história hasmoneana demonstrou que a independência política, sem coesão interna e legitimidade religiosa amplamente aceita, era insustentável.

IX - A JUDEIA SOB O DOMÍNIO ROMANO (63 AC - PRIMEIROS ANOS DA ERA CRISTÃ)

Pompeu conquistou Jerusalém em 63 AC, encerrando a independência dos judeus e incorporando a Judeia à República Romana como um reino cliente. Sua entrada no Templo, embora sem causar danos ou remover objetos, foi um grave insulto para os judeus, simbolizando o fim da soberania religiosa e política. A intervenção de Pompeu na guerra civil hasmoneana não foi apenas uma conquista militar, mas um ponto de virada decisivo que marcou o fim da autonomia judaica e o início de um longo período de dominação romana. A decisão dos irmãos Hasmoneus de buscar a ajuda romana para resolver suas disputas internas revelou uma falha fatal na liderança judaica, abrindo as portas para a hegemonia de uma potência externa. A profanação simbólica do Templo por Pompeu foi um presságio das tensões e conflitos que surgiriam sob o domínio romano, onde a sensibilidade religiosa judaica frequentemente colidiria com o poder imperial. Isso estabeleceu um padrão de subordinação que culminaria em revoltas e na eventual destruição do Templo.
Os romanos colocaram Hyrcanus II como Alto Sacerdote, mas a Dinastia chegou ao fim em 40 AC quando Herodes, o Grande, um idumeu (como sinônimo de edomita, originário da região de Edom), tradicionalmente inimigo dos judeus; em 37 AC foi nomeado "rei dos judeus" pelo senado romano com o apoio de Marco Antônio e, posteriormente, de Augusto. Seu reinado, que durou até 4 AC, foi caracterizado por uma mistura de impressionantes realizações arquitetônicas e atos de brutalidade.
Herodes, o Grande, o rei cliente romano do reino da Judeia
Herodes era um rei-vassalo em total lealdade a Roma, e sua ascensão ao poder foi resultado de sua habilidade diplomática e oportunismo político. Ele buscou legitimar seu governo aos olhos do povo judeu casando-se com Mariane, uma princesa hasmoneana, e empreendeu vastos projetos de construção, incluindo a reconstrução e embelezamento extensivo do Segundo Templo em Jerusalém, a construção de seu palácio, a torre Antônia, a fortaleza de Massada e a cidade de Cesareia Marítima.
Apesar de seus esforços para apaziguar os judeus, como o alívio de impostos em épocas de fome e a obtenção de privilégios para os judeus em diversas partes do mundo, Herodes enfrentou dificuldades com o povo judeu durante a maior parte de seu domínio. Sua tirania, crueldade, paranoia (que o levou a executar membros de sua própria família, incluindo Mariane e seus filhos) e a imposição de pesados impostos para financiar suas obras e sua lealdade a Roma, geraram ressentimento generalizado. Sua legitimidade era contestada pelos judeus por ele ser um edomita, um povo rival.
O reinado de Herodes, o Grande, exemplifica a complexa dinâmica de um rei-vassalo que, embora judeu por ascendência (idumeu), era fundamentalmente leal a Roma. Sua política de construção de grandes obras, incluindo o Templo, pode ser interpretada como uma tentativa de legitimar seu governo e apaziguar a população judaica, mas também serviu para exibir o poder romano e drenar os recursos da Judeia através de impostos exorbitantes. A desconfiança e o ressentimento do povo judeu em relação a Herodes, decorrentes de sua brutalidade e sua subserviência a Roma, demonstram a persistente busca por autonomia e a recusa em aceitar um governante que não fosse visto como divinamente sancionado ou alinhado com os interesses judaicos. Essa tensão entre a elite pró-romana e a população geral seria um fator constante de instabilidade até as grandes revoltas dos judeus.
Herodes, o Grande, é descrito na Bíblia Cristã (Mateus 2:16-18) como o coordenador do Massacre dos Inocentes, por ter mandado matar todas as crianças com menos de dois anos de idade assim evitando que vivesse Cristo, o futuro Rei dos Judeus. A maior parte do Novo Testamento faz referência a seu filho, Herodes Antipas (execuções de João Batista e Jesus de Nazaré em Mateus 14) e a seu neto Herodes Agripa (em Atos 12).
Máxima extensão do reino de Herodes
e as tetrarquias herodianas
Com a morte de Herodes, o Grande, em 4 AC, os romanos dividiram seu reino entre três de seus filhos e sua filha. A seu filho Herodes Archelaus teria cabido a etnarquia (território que sugere liderança) da Judeia, Samaria e Idumeia; seu filho, Herodes Antipas, recebeu a tetrarquia (divisão regional que sugere quatro governantes, possivelmente porque Arquelau teria recebido a metade do reino ou dois quartos) da Galileia e Pereia; seu outro filho Filipe teria ficado com a tetrarquia dos territórios ao norte e leste do Rio Jordão; e à sua filha Salomé I teria cabido a toparquia (distrito onde o toparca, mandante do território, exerce o seu poder) que incluia as cidades de Jamnia, Ashdod e Phasaelis.
Após a deposição de Herodes Arquelau (de breve reinado, por incompetência), Roma combinou as províncias sob o seu mando numa só Província da Judeia, governada por um prefeito romano e subordinada ao governador da Síria. Herodes Antipas reinou até 39 DC, quando foi deposto e exilado. Filipe reinou até sua morte em 34 DC, quando suas terras tornaram-se brevemente parte da província romana da Síria. As terras de Salomé I foram aglutinadas sob os demais territórios.
Em 37 DC as terras de Filipe foram dadas a Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande; com o banimento de Herodes Antipas, Herodes Agripa tornou-se também mandante da Galileia e Pereia; em 41 DC por favor do Imperador Claudius, Agripa sucedeu ao prefeito romano como Rei da Judeia. Com essa aquisição, o reino Herodiano dos judeus foi nominalmente reestabelecido até a sua morte em 44 DC. Após o breve reinado de Herodes Agripa I (41-44 DC), o governo foi entregue a um procurador, subordinado diretamente ao imperador romano.
Os procuradores romanos, como Copônio, Pôncio Pilatos e Félix, tinham como principais funções a coleta de impostos, a gestão das propriedades imperiais e a distribuição de pagamentos, principalmente aos militares. Eles também tinham o poder de nomear e depor os Sumos Sacerdotes e de referendar a dependência dos anciãos e da nobreza laica, garantindo o domínio romano sobre Israel.
A administração romana, com sua pesada carga tributária e a interferência na liderança religiosa, gerou crescentes tensões e ressentimento entre os judeus. Embora Roma adotasse uma política de tolerância religiosa, permitindo a prática do judaísmo como uma "religio licita" (religião permitida), qualquer movimento que ameaçasse a ordem pública romana era proibido. A imposição de impostos, a presença militar e a exploração econômica, combinadas com a perda da independência, contribuíram para um quadro de inquietação social e política que culminaria nas grandes revoltas. A situação explosiva da Palestina no século I DC, pode ser explicada em grande parte pela concorrência entre o poder romano e as elites locais pela exploração do país.
A transição para a administração direta romana e o papel dos procuradores revelam a intensificação da subjugação judaica e a crescente exploração econômica. A capacidade dos romanos de nomear e depor Sumos Sacerdotes corroeu a autoridade religiosa interna e transformou o sacerdócio em um instrumento do poder imperial, alienando ainda mais a população. A imposição de impostos onerosos e a percepção de que a riqueza de Jerusalém estava sendo drenada para Roma alimentaram um profundo descontentamento. Essa dinâmica de opressão e resistência, onde as liberdades religiosas eram concedidas apenas na medida em que não desafiassem a ordem romana, criou um ambiente de instabilidade crônica, culminando nas guerras judaico-romanas e na destruição do Segundo Templo (70 DC), com a consequente dispersão dos judeus por todas as nações do mundo. No seu conjunto, a Diáspora judaica refere-se à dispersão dos judeus por diversas regiões do mundo, deixando sua terra original, a Palestina, após eventos como o cativeiro na Babilônia e a destruição do Segundo Templo pelos romanos. Essa dispersão forçada, resultou na formação de comunidades judaicas em diferentes partes do mundo, que mantiveram sua identidade e tradições.

X - CONCLUSÕES

O período que se estende do retorno do Cativeiro Babilônico aos primeiros anos da Era Cristã foi uma era de transformações profundas e contínuas para o povo judeu. A destruição do Primeiro Templo e o exílio, embora traumáticos, atuaram como um catalisador para uma redefinição fundamental da identidade judaica. Desprovidos de sua monarquia e de seu centro cultual original, os judeus foram forçados a se reorientar, solidificando sua identidade não mais em estruturas políticas ou geográficas, mas na adesão à Lei, na prática religiosa e na coesão comunitária.
A reconstrução do Segundo Templo e das muralhas de Jerusalém, liderada por figuras como Zorobabel, Esdras e Neemias, simbolizou um renascimento físico e espiritual. Essa liderança diversificada – um príncipe, um escriba-sacerdote e um governador – marcou a emergência de um modelo de governança não monárquico, onde a autoridade religiosa do Sumo Sacerdote e a autoridade interpretativa dos escribas ganharam proeminência. A despeito dos desafios internos e da oposição externa, a comunidade demonstrou uma notável resiliência, reafirmando seu compromisso com a fé e a identidade.
A sucessão de dominações imperiais – persa, helenística e romana – impôs desafios distintos, mas também impulsionou adaptações cruciais. Sob os persas, os judeus gozaram de uma autonomia limitada, que permitiu a consolidação da liturgia e a compilação de textos sagrados. O helenismo, com sua disseminação cultural, gerou respostas variadas, desde a assimilação e a tradução da Septuaginta até a resistência ferrenha que culminou na Revolta dos Macabeus e na breve independência hasmoneana. No entanto, as divisões internas e a fragilidade política dos Hasmoneus abriram caminho para a conquista romana, que trouxe consigo uma administração direta, pesada tributação e uma nova camada de tensões.
A ascensão de seitas como fariseus, saduceus, essênios, zelotes e herodianos reflete a efervescência intelectual e as profundas divisões ideológicas que caracterizaram o judaísmo do Segundo Templo. Essas diferenças, que variavam da interpretação da Lei à relação com o poder romano, demonstram a busca contínua por um caminho para preservar a fé e a identidade em um mundo em constante mudança.
Em suma, o período do retorno do Cativeiro Babilônico aos primeiros anos da Era Cristã foi um cadinho de provações e inovações. A capacidade do povo judeu de se adaptar, reinterpretar sua fé, desenvolver novas instituições como a sinagoga e codificar sua tradição oral foi fundamental para sua sobrevivência e para a resiliência de sua identidade. Essa era não apenas moldou o judaísmo que conhecemos hoje, mas também forneceu o contexto histórico, cultural e religioso essencial para o surgimento do cristianismo, marcando-a como um dos períodos mais dinâmicos e formativos na história da civilização ocidental.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 1)


I – INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o preenchimento de uma lacuna pessoal sobre a história do povo judeu, durante o período que vai do “Cativeiro na Babilônia” até o início da Era Cristã. O Antigo Testamento é farto de material quando se refere a assuntos anteriores ao mencionado; e o Novo Testamento, dentro das suas limitações, se encarrega de apresentar o período que segue ao período acima citado. Mas o período objeto da presente postagem, pelo menos para mim, sempre ficou um tanto nebuloso.
O Cativeiro Babilônico, ocorrido entre 586 AC e 538 AC, representou um dos episódios mais traumáticos e transformadores na história do povo judeu. Caracterizado pela destruição de Jerusalém e o Primeiro Templo, em 586 AC, e pelo exílio de uma parte significativa da população judaica na Babilônia, este período não foi meramente um deslocamento político ou demográfico. A perda da terra, da monarquia e do Templo, pilares da identidade e da fé judaica, desencadeou uma profunda crise teológica que, por sua vez, levou a questionamentos existenciais sobre a natureza, o poder e a bondade de Deus, forçando uma reavaliação fundamental do que significava ser judeu.
Apesar da desolação, o exílio também se tornou um cadinho para a redefinição da identidade judaica. A população exilada conseguiu preservar sua identidade cultural e religiosa por meio da manutenção de suas tradições, como a observância da Lei, do Sábado e da circuncisão. Este período de adversidade, em vez de levar à assimilação completa ou à dissolução, impulsionou uma profunda reavaliação interna, deslocando o foco de uma religião puramente geográfica e centrada no Templo para uma fé que podia ser praticada e mantida através da adesão à Lei e à identidade comunitária, mesmo em terras estrangeiras. Essa capacidade de adaptação, forjada na adversidade, foi crucial para a sobrevivência e evolução do judaísmo a longo prazo, estabelecendo as bases para seu futuro como uma religião global.
O presente estudo abrange o período que se inicia com o retorno do Cativeiro Babilônico, aproximadamente em 538 AC, e se estende até os primeiros anos da Era Cristã, convencionalmente definidos a partir do ano 1 DC, embora estudos indiquem que o nascimento de Jesus tenha ocorrido entre 7 AC e 4 AC. O recorte temporal escolhido não é arbitrário; ele inclui uma sequência contínua de transições imperiais – persa, helenística e romana – e as complexas respostas internas do povo judeu a essas dominações. Os registros históricos consistentemente destacam esta era como "crucial" e "formativa" para o judaísmo. É um período em que a identidade judaica, despojada de sua monarquia e de seu Primeiro Templo, foi reconstruída e redefinida por meio da Lei, de novas estruturas comunitárias como a sinagoga, e de uma evolução nas compreensões teológicas, incluindo a expectativa messiânica e o desenvolvimento da Lei Oral. As constantes pressões externas atuaram como catalisadores, forçando adaptações que, em última instância, garantiram a resiliência do judaísmo e, de forma talvez inesperada, criaram o ambiente propício para o surgimento do cristianismo como um movimento religioso distinto, embora intrinsecamente ligado.
Para tentar preencher este hiato, resolvi recorrer entre outras fontes, ao historiador Flavius Josephus, que viveu no primeiro século da Era Cristã e escreveu duas grandes obras: “As Antiguidades dos Judeus” e “As Guerras dos Judeus”, além de outras menores. Nossa pesquisa vai se basear na primeira delas. Quem foi Flavius Josephus?
Titus Flavius Josephus
Titus Flavius Josephus (36 a 100 DC) nascido Yosef ben Matityahu, tornou-se um historiador judeu do primeiro século da Era Cristã. Ele era membro de uma família sacerdotal por parte de seu pai (casa e ordem de Jehoiarib), em Jerusalém; sua mãe era descendente da realeza Hasmoneana. Foi educado em Jerusalém e muito provavelmente partilhou da ideologia e simpatia pelo partido dos Fariseus[1].
Os escritos de Flavius Josephus são crucialmente importantes para várias disciplinas: o Judaísmo do Segundo Templo no primeiro século da Era Cristã, fontes de fundo para a história da Cristandade em seus primórdios, detalhes históricos dos reis clientes do Império Romano no oriente e a linha dos Imperadores Julio-Claudianos em Roma. Nas últimas décadas do século I DC, ele escreveu “As Guerras dos Judeus” (cerca de 75 DC), “As antiguidades dos Judeus” (cerca de 95 DC), “Contra Apion” (cerca de 97 DC) e “A Vida de Flavius Josephus” (cerca de 99 DC).
Como membro da aristocracia de Jerusalém, em 64 DC, Josephus viajou para Roma para negociar com Nero, o imperador romano (que reinou de 54 a 68 DC) para a libertação de alguns sacerdotes judeus mantidos como reféns por várias razões. Quando ele retornou a Jerusalém, o partido dos Zelotes[2] tinha convencido a maioria dos judeus a se revoltarem contra Roma (primeira guerra entre judeus e romanos, 66 a 73 DC). Josephus foi indicado governador militar da Galileia[3] dado que as cidades estavam divididas, com algumas aderindo à autoridade do governo romano e outras que se juntaram às forças rebeldes. Teve algum sucesso na organização da Galileia, mas todas as suas vitórias foram perdidas quando Nero indicou o General Vespasiano para invadir a região. Josephus estava sitiado nas colinas da cidade de Jotapata e com mais 40 companheiros acabaram por ficar presos em uma caverna. De acordo com sua versão da história, ele sugeriu que cometessem suicídio coletivo para não se tornarem escravos de Roma. Ajudaram a matar-se uns aos outros e acabaram restando apenas Josephus e um companheiro, quando Josephus mudou de ideia e resolveu render-se. Enquanto aguardavam a execução, Josephus lembrou a Vespasiano que todos os judeus tinham o dom da profecia e previu que Vespasiano tornar-se-ia o próximo imperador de Roma, o que de fato aconteceu. Afirmou que tinha tido uma visão que explicava a maré da guerra, com Deus usando os romanos para punir os judeus e que o papel dele, Josephus, era agora explicar o que tinha acontecido aos judeus revoltosos
A partir daí, Josephus serviu como um consultor às forças romanas. Quando Vespasiano deixou a região para desafiar, com sucesso, outros pretendentes após a morte de Nero, seu filho Titus (que reinou entre 79 e 81 DC) retirou o cerco de Jerusalém, desenvolvendo com Josephus um bom relacionamento. Após a guerra, ele foi recompensado por seus bons serviços, mudando-se para uma casa de Vespasiano em Roma, quando adotou o nome de seu patrocinador (Titus Flavius Vespasiano). Enquanto em Roma, teve acesso a registros e arquivos de onde retirou as mais importantes fontes para suas histórias.
A partir do século XIX Josephus tornou-se figura central do movimento em busca do histórico Jesus. Como a fonte principal da história e cultura do judaísmo no primeiro século da era cristã, os arqueólogos referenciam a informação de Josephus em suas reconstruções de cidades e vilas na região. Em 2013 o arqueólogo israelense Ehus Netzer declarou ter descoberto a tumba de Herodes, o Grande, através de uma cuidadosa leitura da descrição de Josephus do território circundante. Mas como todos os historiadores antigos, Josephus não se ateve estritamente aos fatos, mas incluiu moralidade e psicologia atrás de atores e ações, por exemplo, com relação aos judeus. Entretanto, a despeito dos problemas e debates, sem os escritos de Josephus teríamos tido muito pouco acesso ao povo e eventos do seu tempo.
A obra principal de Flavius Josephus, “As Antiguidades dos Judeus” dedica-se, quase que integralmente, à história do povo judeu, desde as suas origens até o fim da sua vida. Mas dedica-se pouco aos eventos paralelos, espaciais e temporais, que tiveram importância fundamental na formação do povo judeu já que, embora fundamentalmente ligados à religião judaica, constituiu uma raça, com localização própria e sofrendo, como todos os demais povos da terra, influências dos povos que a cercavam, ao longo de toda a sua história. Por isso, antes de abordar a obra mesmo de Flavius Josephus, realizei uma pequena pesquisa para esclarecer, pelo menos, como chegou até o povo judeu, o grande responsável pelo cativeiro dos judeus na Babilônia, para bem poder situar os nossos leitores no tempo e no espaço dessa narrativa.

II – O NOVO IMPÉRIO ASSÍRIO

O Novo Império Assírio (912-612 AC) foi o quarto e penúltimo estágio do antigo Império Assírio, que se estendeu através da Mesopotâmia, Levante[4], Egito, Anatólia[5] e partes da Pérsia e Arábia. Iniciou com o reino de Adad Nirari II (912-891 AC) e, com seus reis assírios, forjou o maior império no mundo até aquele tempo. A real ascensão do Novo Império Assírio foi iniciada por Tiglath Pileser III (reinando entre 745 e 727 AC), que reorganizou o poder militar e a burocracia do governo, derrotando o reino de Urartu, que se havia revoltado contra os governantes assírios, e subjugando a região da Síria.
Tiglath Pileser III foi seguido por Shamaneser V (reinando entre 727 e 722 AC) que seguiu as políticas do rei, mas não foi tão efetivo nas campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinando entre 722 e 705 AC) foi um brilhante líder militar e administrador, que expandiu o Império além de qualquer rei anterior. Foi Sargão II que fundou a dinastia Sargônida (722-612 AC), que governaria o Império Assírio até a sua queda.
Senaqueribe foi rei do Império Neo-Assírio a partir da morte de seu pai Sargão II, em 705 AC, até sua morte em 681 AC. Portanto, segundo rei da dinastia Sargônida, Senaqueribe foi um dos mais famosos reis assírios, pelo papel que representou na Bíblia Hebreia, que descreve sua campanha no Levante. Conquistou Israel, Judá[6] e as províncias gregas da Anatólia. Seu relato é contestado pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de “Reis II”, capítulos 18-19, “Crônicas II” e “Isaías 37”, que dizem ter sido Jerusalém salva por intervenção divina, com o exército de Senaqueribe expulso do campo, embora o relato bíblico confirme a conquista assíria da região. Foi assassinado por seus filhos e sucedido por seu filho mais novo Esarhaddon (Assaradão), que reinou entre 681 e 669 AC.
Maior extensão do Novo Império Assírio
Esarhaddon foi o terceiro rei da dinastia Sargônida do Império Neo-Assírio. Sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu. Ficou conhecido por reconstruir a Babilônia, destruída por seu pai, Senaqueribe. Além de restaurar a babilônia, ele também ficou conhecido por suas campanhas militares no Egito e por garantir uma tranquila sucessão para seu filho Assurbanipal (que reinou entre 668 e 627 AC).
Assurbanipal foi o último dos grandes reis da Assíria. Os gregos o conheceram como Sardanapolos e os romanos como Sardanapulus e ele obteve a maior extensão territorial do Império Assírio, que incluía a Babilônia, Pérsia, Síria e o Egito (embora o Egito tenha sido perdido por uma revolta sob o faraó Psamtik I). Ao mesmo tempo em que reunia sua biblioteca, renovava Nínive, sua capital e maior cidade, ao norte do atual Iraque, a cidade de Mosul, margem oriental do rio Tigre, e governava o império, Assurbanipal continuou a conduzir suas campanhas militares, além de supervisionar as renovações na Babilônia. Deixou o império nas mãos de seu filho Ashur-etel-ilani, mas sua decisão foi desafiada pelo irmão gêmeo do novo rei, Sin-shar-ashkun, e uma guerra civil irrompeu. Os territórios do império Assírio tiraram vantagem desta divisão e começaram a exercer maior autonomia do que lhes tinha sido permitido anteriormente. Quando Assurbanipal morreu em 627 AC, de causas naturais, o Império desmoronou, com os Medos, Persas, Babilônios, Cimérios, Scyntians e Caldeus incendiando e saqueando as cidades assírias. Em 612 AC, com o saque e incêndio da capital Nínive e as grandes conflagrações que destruíram a região, a Biblioteca de Assurbanipal foi enterrada sobre as muralhas incendiadas do seu palácio e perdida para a história por mais de 2.000 anos. Sua descoberta, contudo, alterou a forma como as eras modernas entendiam a cultura e o passado. Antes da sua descoberta, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as histórias nela contidas, consideradas sem precedentes. Escavações do século XIX por Sir Austen Henry Layard, Hormuzd Rassam e traduções feitas por George Smith trouxeram à luz um mundo até então desconhecido. (Parte 2 na próxima postagem)


[1] Os Fariseus eram uma seita que emergiu cerca do ano 150 AC e promoveu a ideia da pureza sacerdotal para todos os judeus, a crença na providência ou destino e o conceito de ressureição dos mortos, além de ensinar que, além dos Mandamentos, a Lei Oral também tinha sido passada por Moisés. O Judaísmo Rabínico (judaísmo tradicional que aceita os textos escritos como revelação divina e a Torá Oral também como fonte de autoridade) do início do século II DC reivindicava descendência espiritual dos Fariseus.
[2] Os Zelotes formavam um movimento político no Judaísmo do Segundo Templo do primeiro século, que buscava incitar o povo da Província da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsá-lo da Terra Santa pela força das armas, principalmente durante a Primeira Guerra Romana-Judia (66 a 73 DC). Segundo Josephus, havia 3 principais seitas judias à época, os Fariseus (acima), os Saduceus e os Essênios. Os Zelotes seriam uma quarta seita.
[3] Galileia é a região localizada ao norte de Israel e sul do Líbano. Normalmente refere-se à área montanhosa, dividida em Galileia Superior e Galileia Inferior. A Galileia se refere a toda área localizada ao norte da cumeeira do Monte Carmel-Monte Gilboa e ao sul da seção Leste-Oeste do rio Litani. Na direção Leste-Oeste, a região se estende da planície costeira de Israel e as praias do Mediterrâneo com o Acre, no oeste, até o vale do Jordão a leste.
[4] O Levante é um termo geográfico histórico, aproximado, que se refere a uma grande área na região do Mediterrâneo Oriental da Ásia Ocidental. Em seu sentido mais estreito, hoje em uso na arqueologia e outros contextos culturais, é equivalente a Chipre e uma faixa de terra que margeia o Mar Mediterrâneo na Ásia Ocidental, isto é, a região histórica da Síria (Síria Maior), que inclui os atuais Israel, Jordânia, Líbano, Síria, os territórios palestinos e a maior parte da Turquia a sudoeste do médio Eufrates. Sua característica mais importante é que ele representa a ponte terrestre entre a África e a Eurásia.
[5] A Anatólia, também chamada de Ásia Menor, é a península que hoje constitui a porção asiática da Turquia. Por sua localização, no ponto em que os continentes da Ásia e Europa se encontram, a Anatólia foi, desde o início da civilização, a encruzilhada para numerosos povos que migravam ou conquistavam de qualquer dos continentes
[6] O Reino de Judá foi o reino israelita do Levante Sul formado cerca de 930 AC com a cisão das Doze Tribos de Israel. Centrado na Judeia, a capital do reino era Jerusalém. O outro sistema israelita formado, o Reino de Israel, ficava ao norte. Os judeus tiraram seu nome de “Judá” e descendem, primariamente, dele.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

CHARLEMAGNE OU CARLOS MAGNO
(Parte 3 de 4)

VI - CAMPANHAS ORIENTAIS

1 – Guerras contra os Saxões

Carlos Magno esteve envolvido em hostilidades quase constantes por todo o seu reinado, muitas vezes à frente dos seus esquadrões pessoais de elite. Nas guerras contra os saxões, tribo germânica de adoradores pagãos, que duraram trinta anos e dezoito batalhas, ele conquistou a Saxônia (correspondendo, grosseiramente, aos estados da moderna Alemanha da Baixa Saxônia, Westfália, Nordalbingia e Saxônia-Anhalt ocidental, todos no noroeste da Alemanha) dedicando-se à sua conversão ao cristianismo. Os saxões germânicos estavam divididos em quatro grupos, em quatro regiões. Mais próximo da Austrasia ficava a Westfália e mais afastado a Eastphalia. Entre elas estava a Engria e ao norte dessas três, na base da península da Jutland, ficava a Nordalbbingia.
Em sua primeira campanha, em 773, Carlos Magno forçou a submissão dos Engrians, botando abaixo um pilar Irminsul (objeto sagrado em forma de pilar que representava um importante papel no paganismo germânico dos saxões) próximo de Paderborn. A campanha foi abreviada por sua primeira expedição à Itália. Ele retornou em 775, marchando através da Westfália e conquistando o forte saxão em Sigiburg. atravessou então a Engria onde novamente derrotou os saxões. Finalmente, na Eastphalia, ele derrotou uma força saxã, convertendo seu líder Hessi ao cristianismo. Carlos Magno retornou através da Westphalia, deixando acampamentos em Sigiburg e Eresburg, então importantes bastiões saxões. Ele então controlou a Saxônia com exceção da Nordalbingia, mas a resistência saxã não havia terminado.
Após ter subjugado os Dukes de Friuli e Spoleto, Carlos Magno retornou rapidamente à Saxônia em 776, onde a rebelião havia destruído sua fortaleza de Eresburg. Os saxões foram novamente batidos, mas seu líder Widukind fugiu para a Dinamarca, lar de sua esposa. Carlos Magno construiu um novo campo em Karlstadt. Em 777 convocou uma dieta nacional em Paderborn para integrar completamente a Saxônia ao reino Franco. Muitos saxões foram batizados como cristãos.
No verão de 779, ele novamente invadiu a Saxônia, reconquistando Eastphalia, Engria e Westphalia. Em uma dieta próxima de Lippe, ele dividiu o território em distritos missionários que assistiram a vários batizados em missas (780). Ele então retornou à Itália e, pela primeira vez, os saxões não se rebelaram imediatamente, pacificados de 780 a 782. Retornou à Saxônia em 782 instituindo um código de lei e indicando condes saxões e francos. As leis eram draconianas em questões religiosas; por exemplo, a Capitulatio de partibus Saxoniae prescrevia a morte aos pagãos saxões que recusassem sua conversão ao cristianismo, o que renovou os conflitos. Naquele ano, outono, Widukind retornou e conduziu uma nova revolta. Em resposta, em Verden, Baixa Saxônia, Carlos Magno ordenou a execução de 4.500 prisioneiros por decapitação, conhecido como o “Massacre de Verden”. As mortes dispararam três anos de renovadas guerras sangrentas. Durante esta guerra, os Frisians Orientais entre os Lauwers e os Weser se uniram aos saxões em revolta e foram finalmente subjugados. A guerra terminou com Widukind aceitando o batismo. Os Frisians posteriormente pediram que missionários fossem enviados a eles e um bispo de sua própria nação, Ludger, foi enviado. Carlos Magno também proclamou um código de leis, o Lex Frisonum, o que fizera para muitos povos súditos.
Depois disso, os saxões mantiveram uma paz por sete anos, mas em 792 a Westphalia novamente se rebelou. Os Eastphalians e Nordalbingians se juntaram a eles em 793, mas a insurreição foi impopular e encerrada em 794. Uma rebelião Engrian se seguiu em 796, mas a presença de Carlos Magno, saxões e eslavos cristãos rapidamente os destruiu. A última insurreição ocorrida em 804, mais de 30 anos após a primeira campanha contra eles, também falhou.
A guerra que havia durado tantos anos afinal terminou pelo aceite dos termos do Rei: renúncia aos seus costumes religiosos nacionais e adoração de demônios, aceitação dos sacramentos da fé e religião cristã e a união com os francos para formar um só povo.

2 – Submissão da Bavária

Por 774, Carlos Magno invadira o Reino da Lombardia [1] e mais tarde anexou os territórios da Lombardia assumindo a sua coroa e colocando os Estados Papais sob a proteção franca. O Ducado de Spoleto ao sul de Roma foi adquirido em 774, enquanto nas partes centro oeste da Europa, o Ducado da Bavária foi absorvido e a política bávara de estabelecer fronteiras tributárias entre os servos eslavos e thecos prosseguiu. O poder remanescente contra os francos no leste eram os avaros. Contudo, Carlos Magno adquiriu outras áreas eslavas, incluindo a Boêmia, Moravia, Áustria e Croácia.
Em 789 Carlos Magno voltou-se contra a Bavária, queixando-se que Tassilo III, Duque da Bavária não era um governante adequado por ter quebrado seu juramento. As acusações eram exageradas, mas Tassilo foi deposto de qualquer maneira e colocado no monastério de Jumièges. Em 794 Tassilo foi obrigado a renunciar a qualquer intenção sobre a Bavária, para si e toda sua família (os Agilolfings), no sínodo de Frankfurt, quando formalmente entregou ao rei todos os direitos que possuíra. A Bavária foi subdividida em condados Francos, à semelhança da Saxônia.

3 – Campanhas Contra os Ávaros

Em 788, os Ávaros (Avares ou Abares), um grupo nômade asiático que se havia estabelecido no que hoje é a Hungria, sucessores do Hunos, invadiram Friuli (região ao nordeste da Itália) e Bavária. Ocupado com outras questões, Carlos Magno marchou, em 790, seguindo o rio Danúbio e devastou o território ávaro de Györ (hoje a mais importante cidade do noroeste da Hungria). Um exército lombardo sob Pippin então marchou para o vale do rio Drava e devastou a Pannonia [2]. As campanhas terminaram quando os saxões novamente se revoltaram em 792.
Pelos dois anos seguintes, Carlos Magno esteve ocupado, além dos eslavos, com os saxões. Pippin e o Duque de Friuli continuaram, contudo, contra os baluartes dos ávaros. Sua fortaleza mais importante foi tomada duas vezes e logo os governantes ávaros perderam a vontade de lutar, viajando a Aachen, capital de Carlos Magno para se tornarem seus vassalos e cristãos. Carlos Magno aceitou sua rendição e enviou um chefe nativo de volta à Bavária, que conseguiu manter seu povo em linha; entretanto, em 800, os búlgaros sob Khan Krum atacaram o que sobrara do estado ávaro. Em 803, Carlos Magno enviou um exército bávaro à Pannonia, derrotando e trazendo um fim à confederação ávara. Em novembro do mesmo ano, Carlos Magno foi para Regensburg onde os líderes ávaros o reconheceram como governante. Em 805, o khagan [3] ávaro, que já fora batizado, foi a Aachen pedir permissão para assentar seu povo a sudeste de Viena. Os territórios Transdanubianos tornaram-se parte integral do reino Franco que foi abolido pelos magiares em 899-900.

4 – Expedições aos eslavos do nordeste

Em 789, em reconhecimento aos seus novos vizinhos pagãos, os eslavos, Carlos Magno conduziu um exército austrasio-saxão além do rio Elba, em território dos Obotritas [4]. Os eslavos finalmente se submeteram conduzidos por seu líder Witzin. Carlos Magno então aceitou a rendição dos Veleti [5] sob Dragovit exigindo muitos reféns. Também exigiu permissão para enviar missionários a essa região pagã. O exército marchou para o Báltico antes de retornar e marchar para o Reno, fazendo muita pilhagem sem ameaças. Os eslavos que pagavam tributo se tornaram leais aliados. Em 795, quando os saxões quebraram a paz, os Obotritas e Veleti se revoltaram com seu novo mandante contra os saxões. Witzin morreu em batalha e Carlos Magno vingou-o destruindo os habitantes da Eastphalia no Elba. Thrasuco, seu sucessor, conduziu seus homens à conquista dos Nordalbingianos, entregando seus líderes a Carlos Magno. Os Obotritas permaneceram leais até a morte de Carlos Magno.

5 – Expedições aos eslavos do sudeste

Após incorporar grande parte da Europa Central, Carlos Magno trouxe o Estado Franco face a face com os ávaros e eslavos do Sudeste. Os vizinhos mais a sudeste dos Francos eram os Croatas, que se estabeleceram na Croácia Pannoniana e Croácia Dálmata. Em 796, Carlos Magno obteve uma importante vitória sobre eles. O Duque Voinomir, da Croácia Pannoniana ajudou Carlos Magno e os francos se fizeram Lordes dos Croatas do norte da Dalmácia, Eslavônia e Pannonia.
O comandante franco Eric de Friuli pretendeu estender seu domínio conquistando o Ducado do Litoral Croata. Àquela época, a Croácia Dálmata era governada pelo Duque Viseslav da Croácia. Na Batalha de Trsat as forças de Eric abandonaram suas posições e foram perseguidas pelas forças de Viseslav quando, entre outros Eric foi morto, causando grande impacto no Império Carolíngio.
Carlos Magno também dirigiu sua atenção aos eslavos a oeste do Kaganato Ávaro: os Carantanianos e os Carniolanos. Esses povos foram subjugados pelos lombardos e os bávaros, passando a pagar tributos, mas nunca foram totalmente incorporados ao Estado Franco.

VII - IMPÉRIO

1 - Coroação

Em 799, o Papa Leão III havia sido assaltado por romanos que tentaram arrancar seus olhos e língua. Conseguindo escapar, fugiu para Carlos Magno em Paderbom, Aconselhado pelo sábio Alcuin, Carlos Magno viajou para Roma em novembro de 800 e reuniu um sínodo. Em 23 de dezembro, Leão III fez um juramento a Carlos Magno e dois dias após, durante a missa do Natal (25 de dezembro), quando Carlos Magno ajoelhou-se no altar para rezar, o Papa coroou-o “Imperador dos Romanos” na Basílica de São Pedro. Com isso o Papa rejeitava a legitimidade de Imperador de Irene de Constantinopla.

A Coroação Imperial de Carlos Magno no ano 800
Quando Odoacro forçou a abdicação de Romulus Augustus (em 476 DC), ele não aboliu o Império Ocidental como um poder separado, mas causou a sua reunião com o Império Oriental, de modo que, dali para a frente, houvesse um único Império Romano. O Papa Leão III e Carlos Magno, como os imperadores predecessores, também queriam um Império Romano uno e indivisível e propuseram a coroação de Carlos Magno, não para proclamar a divisão do Ocidente e do Oriente, mas legitimamente preenchendo o lugar do deposto Constantino VI (deposto, cego e aprisionado por sua mãe, Irene, em 797 DC). Entretanto, sua coroação teve o efeito de estabelecer dois Impérios separados (e muitas vezes opostos) e duas demandas pela autoridade imperial, conduzindo à guerra em 802 e por muitos séculos futuros, com os imperadores do Ocidente e Oriente buscando a soberania do todo.
Historicamente, não há um consenso sobre o que realmente significou a coroação de Carlos Magno. Muitos historiadores dizem que ele sabia o que aconteceria e desejava a coroação; outros tantos afirmam que ele não desejava a coroação justamente para evitar a polêmica futura e que, ao chegar a Catedral, nem mesmo sabia que tal ato ocorreria.
Para o Papa e Carlos Magno, o Império Romano permanecia uma potência significativa na política europeia daquele tempo. O Império Bizantino, baseado em Constantinopla, continuava a manter uma parte substancial da Itália, com fronteiras não muito longe de Roma. O assento de Carlos Magno, no julgamento do Papa, poderia ser visto como usurpação das prerrogativas do Imperador em Constantinopla.
Por quem, contudo, poderia o Papa ser julgado? Quem, em outras palavras estava qualificado a proferir julgamento sobre o “Vigário de Cristo”? Em circunstâncias normais, a única resposta concebível à questão, teria sido o Imperador em Constantinopla; mas o trono imperial, no momento, era ocupado por Irene, consorte do imperador Leão IV de 775 a 780, regente durante a infância de seu filho Constantino VI de 780 a 790, comandatária de 792 até 797 e finalmente Imperatriz do Império Romano do Oriente de 797 a 802. A Imperatriz era notória por ter cegado e assassinado seu próprio filho, mas nas mentes do Papa e de Carlos Magno isso era quase imaterial, bastando que ela fosse mulher. O sexo feminino era conhecido por ser incapaz de governar e pela velha tradição sálica (a Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão), excluída de tal possibilidade. No que concerne à Europa Ocidental, o trono dos Imperadores estava vago: a reivindicação de Irene a ele era apenas uma prova adicional, se alguma fosse necessária, da degradação em que havia caído o chamado Império Romano.
Se não havia um Imperador vivo ao tempo, o Papa deu o extraordinário passo para criar um. Desde 727 o papado havia estado em conflito com os predecessores de Irene em Constantinopla por uma série de questões, principalmente a permanente aderência à doutrina do iconoclasta, a destruição de imagens ou monumentos cristãos e com isso o Império Bizantino na Itália Central, a partir de 750 havia sido anulado.
Conferindo a coroa imperial a Carlos Magno, o Papa trouxe a si próprio o direito de indicar o Imperador dos Romanos, estabelecendo a coroa imperial como seu presente pessoal, mas simultaneamente garantindo a si próprio uma implícita superioridade ao Imperador que ele havia criado. E porque os bizantinos se haviam demonstrado tão insatisfatórios de todos os pontos de vista – político, militar e doutrinário – ele selecionaria um ocidental: aquele que, por sua sabedoria, política e vastidão de seus domínios se apresentasse acima de seus contemporâneos.
Portanto, com a coroação de Carlos Magno, o Império Romano permaneceu, no que concerne a Carlos Magno e ao Papa Leão, uno e indivisível, com Carlos como seu imperador, embora a coroação tenha sido furiosamente contestada em Constantinopla.
Segundo o cronista Theophanes, membro da aristocracia bizantina e depois monge, a reação de Carlos Magno, à sua coroação, foi tomar os primeiros passos para assegurar o trono de Constantinopla, através do envio de ofertas a Irene, às quais ela teria reagido favoravelmente.
É importante distinguir entre os conceitos universal e local do Império, ainda controvertido entre historiadores. De acordo com o primeiro, o Império era uma monarquia universal, uma espécie de confederação mundial, cuja unidade transcendia qualquer distinção menor; e o Imperador, merecedor da obediência da Cristandade. De acordo com o segundo, o Imperador não tinha ambição de domínio universal; seu reino era limitado como o de qualquer outro governante e quando apresentou queixas mais amplas, tinha como objetivo se preservar dos ataques do Papa ou do imperador bizantino. De acordo com essa visão, a origem do Império deve ser explicada por circunstâncias locais específicas ao invés de teorias mais abrangentes. Entretanto, na primavera de 813, em Aachen, Carlos Magno indicou seu único filho vivo, Luís, como imperador, sem recorrer a Roma, mas apenas pela aclamação de seus francos, ou seja, uma aclamação cristã franca e não romana, significando a independência de Roma e a explicitação de um Império Franco.

2 - Título Imperial

Carlos Magno usou tais circunstâncias para reivindicar seu título de “Renovador do Império Romano”, que havia declinado sob os bizantinos.
O título de Imperador permaneceu na família Carolíngia por muitos anos, mas divisões de território e a luta pela supremacia do Estado Franco, enfraqueceram o seu significado. O próprio Papado nunca esqueceu o título nem abandonou o seu direito de concedê-lo. Quando a família de Carlos Magno deixou de produzir herdeiros de valor, o Papa, com muita satisfação, coroou qualquer magnata italiano que melhor o protegesse de seus inimigos locais. O Império permaneceria em existência contínua por mais de um milênio, como o “Sacro Império Romano”, um verdadeiro sucessor imperial de Carlos Magno.

3 - Diplomacia Imperial

A iconoclastia (destruição deliberada dos ícones ou imagens religiosas) da dinastia Isáurica bizantina (também chamada de dinastia Síria, que governou o império Bizantino entre 717 e 802) foi endossada pelos francos. O Segundo Concílio de Niceia reintroduziu a veneração de ícones, sob a Imperatriz Irene, em 787. O Concílio não foi reconhecido por Carlos Magno, já que emissários francos não haviam sido convidados, embora governasse mais de três províncias do império clássico romano e fosse considerado com a mesma dignidade do imperador bizantino. O Papa apoiava a reintrodução da veneração icônica, mas politicamente divergia do Bizâncio; certamente, ele desejava aumentar a influência do papado, para honrar seu salvador Carlos Magno e para resolver questões constitucionais que então criavam problemas a juristas europeus, em uma era em que Roma não se encontrava nas mãos de um imperador. Assim, a aceitação do título imperial não foi uma usurpação aos olhos dos francos ou italianos; mas foi assim visto no Bizâncio, onde foi protestado por Irene e seu sucessor Nikephoros I, nenhum dos quais tinha grande efeito ao manifestar seus protestos.
Os romanos orientais, contudo, ainda mantinham vários territórios na Itália: Veneza, Reggio (na Calábria), Otranto (em Apulia) e Nápoles. Tais regiões permaneceram fora das mãos francas até 804, quando os venezianos, separados por lutas internas, transferiram sua submissão à Coroa de Ferro de Pepino, filho de Carlos Magno, com isso encerrando a Paz de Nikephoros (paz entre os impérios Franco e Bizantino). Nikephoros devastou as costas com suas frotas, iniciando o único real exemplo de guerra entre bizantinos e francos. O conflito durou até 810, quando o partido pro Bizâncio de Veneza entregou esta cidade de volta ao governador bizantino e os dois imperadores da Europa fizeram paz. Em 812, o imperador bizantino Michael I Rangabe reconheceu seu status de imperador, não necessariamente “Imperador dos Romanos”.

4 - Ataques Dinamarqueses

Após a conquista da Nordalbíngia [6], a fronteira franca foi posta em contato com a Escandinávia. Os pagãos dinamarqueses, habitando a Península da Jutelândia, tinham ouvido muitas histórias sobre as ameaças dos francos e da fúria que seu rei Cristão dirigia aos seus vizinhos pagãos. Em 808 o rei dos dinamarqueses, Godfred, expandiu o vasto Danevirke, um sistema defensivo de fortificação de terra, através do istmo de Schleswig. Tal sistema protegia a terra dinamarquesa e dava a Godfred a oportunidade de ameaçar a Frisia e Flanders com ataques piratas, subjugando aliados dos francos. Assassinado por um franco ou um de seus próprios homens, Godfred foi sucedido por seu sobrinho Hemming, que concluiu, com Carlos Magno, o Tratado de Heiligen, em 811.

5 - Morte

De acordo com Einhard, Carlos Magno esteve com boa saúde até os quatro últimos anos de sua vida, quando passou a sofrer de febres e sem energia. Contudo, mesmo naqueles tempos ele seguia mais os seus próprios conselhos do que os conselhos dos médicos.
Em 813, Carlos Magno chamou à sua corte, Luís, o Pio, rei da Aquitânia, seu único filho legítimo sobrevivente, lá coroando-o como seu co-imperador e enviando-o de volta à Aquitânia. Ele então passou o outono caçando antes de retornar a Aachen, em primeiro de novembro. Em janeiro foi acometido de pleurisia, caindo em profunda depressão – principalmente porque muitos de seus planos não foram realizados – que o levou à cama em 21 de janeiro e o matou em 28 do mesmo mês, às nove horas, após tomar a comunhão, aos setenta e dois anos de idade e após 47 anos de reinado. Foi enterrado no mesmo dia, na Catedral de Aachen. 

Mapa da Europa cerca do ano 814
Luís sucedeu-o como Carlos havia pretendido. Deixou um testamento alocando seus bens em 811 que não foi atualizado antes de sua morte. Deixou a maior parte de seus bens à Igreja para serem usados como caridade. Seu Império, na totalidade, durou somente uma outra geração; sua divisão, de acordo com o costume, entre os filhos de Luís, após a sua morte, conduziu à fundação dos modernos Estados da Alemanha e da França.
Nas décadas seguintes seu império foi dividido entre seus herdeiros e ao final dos anos 800 havia sido dissolvido. Contudo, Carlos Magno tornou-se uma figura lendária de qualidades míticas.

Uma história posterior, contada por Otho de Lomello, Conde do Palácio de Aachen ao tempo do Imperador Otto III (cerca do ano 1000), atestaria que ele e Otto haviam descoberto a tumba de Carlos Magno que, segundo eles, estaria sentado em um trono, usando uma coroa e segurando um cetro, com sua carne praticamente perfeita.
Em 1165, sob o Imperador Frederick Barbarossa (1122-1190), Carlos Magno foi canonizado por razões políticas, fato não reconhecido pela Igreja. Sua tumba foi reaberta e o Imperador colocado num esquife feito de ouro e prata, conhecido como Karlsschrein.


Segue na próxima postagem com a Parte 4 de 4


[1] Povo de origem germânica que ocupou a Península Itálica na última parte do século VI, com seu reino subdividido num número variável de ducados governados por duques autônomos, ainda subdivididos a nível municipal. A capital do reino era Pavia, situada na região da Lombardia, ao norte da Itália.
[2] A Pannonia estava localizada no território atual do oeste da Hungria, leste da Áustria, norte da Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina e noroeste da Sérvia. Durante o Período das Migrações no século V, algumas partes da Pannonia foram cedidas aos Hunos pelos romanos. Após o colapso do Império Huno em 454, muito ostrogodos foram estabelecidos na área como federados aos romanos. O Império Romano do Oriente controlou partes do sul da Pannonia no século VI. Posteriormente, ela foi novamente invadida pelos ávaros e os eslavos, mas tornou-se independente apenas a partir do século VII. Em 790 foi então invadida pelos Francos.
[3] Khagan é um título de graduação imperial nas línguas turca, mongol e outras, equivalente ao status de imperador e alguém que governa um khaganato (império).
[4] Os Obotritas foram uma confederação de tribos do oeste eslavo medieval, ao norte da Alemanha. Por décadas eles foram aliados de Carlos Magno em suas guerras contra os saxões germânicos e os Veleti eslavos. Sob o comando do príncipe Thrasco, os obotritas derrotaram os saxões na batalha de Bornhöved (798). Os saxões ainda pagãos foram dispersados pelo imperador e parte de sua terra original, ao norte do Elba, foi entregue aos obotritas em 804 como recompensa por sua vitória.
[5] Os Veleti eram um grupo de tribos medievais dentro do território do que hoje é o nordeste da Alemanha, aparentado com os eslavos polabianos (poloneses). Junto com outros grupos eslavos entre os rios Elba e Oder, eles eram frequentemente descritos por fontes germânicas como Wends.
[6] Também conhecida como Albíngia do Norte, foi uma das quatro regiões administrativas do Ducado da Saxônia medieval, junto com Angria, Eastphalia e Westphalia. O nome da região é baseado no nome latino Alba, do rio Elba, e se refere à área predominantemente localizada ao norte do Baixo Elba, grosseiramente correspondendo à atual região do Holstein, norte da Alemanha, o mais antigo domínio conhecido dos saxões.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O ESTOICISMO E OS ESTOICOS (Parte 1)


I - INTRODUÇÃO

O Estoicismo é uma escola de filosofia helenística[1] fundada por Zeno de Citium, em Atenas, no início do século III AC. Ao mesmo tempo em que grandemente influenciados pelos ensinamentos do filósofo Heraclitus, os físicos estoicos foram também muito influenciados por certas técnicas de Sócrates. O Estoicismo é, predominantemente, uma filosofia de ética pessoal formada por seu sistema de lógica e suas observações do mundo natural. De acordo com seus ensinamentos, como seres sociais, o caminho para a felicidade dos humanos é encontrado pela aceitação do momento, tal como ele se apresenta e por não permitir ser controlado pelo desejo do prazer ou medo da dor, pelo uso da sua mente, para entender o mundo e fazer a sua parte no plano da natureza, bem como trabalhar junto e tratar os outros adequadamente e com justiça.
O estoicismo floresceu na Grécia com Cleanthes de Assos e Chrysippus de Soli, sendo levado a Roma no ano 155 AC por Diógenes de Babilônia. Ali, seus continuadores foram Marco Aurélio, Sêneca[2], Epictetus[3] e Lucano. Sobreviveu a todo o período da Grécia Antiga e do Império Romano, até que todas as escolas filosóficas foram encerradas em 529 por ordem do imperador Justiniano I, que considerou as suas características pagãs contrárias à fé cristã.
Os estoicos ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento e que um sábio, ou pessoa com "perfeição moral e intelectual", não sofreria dessas emoções. O estoicismo afirmava que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos [4] divino, noção que os estoicos tomaram de Heráclito e desenvolveram. A alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos (termo grego que significa "harmonia").
O estoicismo propunha viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselhava a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedeceria à lei natural, reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, devendo, assim, manter a serenidade perante tanto as tragédias quanto as coisas boas. A partir disso, deveria "viver conforme a natureza"; sendo a natureza essencialmente o logos, essa máxima seria prescrição para se viver de acordo com a razão. Como a razão é a ferramenta pela qual o homem torna-se livre e feliz, o homem sábio não apreende o seu verdadeiro bem nos objetos externos, mas usa estes objetos através de uma sabedoria pela qual não se deixa escravizar pelas paixões e pelas coisas externas.
Os estoicos preocupavam-se com a relação ativa entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, e com a crença de que é virtuoso manter uma vontade (denominada prohairesis) que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estoicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que ela dizia, mas a forma como se comportava. Os estoicos são especialmente conhecidos por ensinar que “a virtude é o único bem” para os seres humanos e que as coisas externas - tais como saúde, riqueza e prazer – não são bons ou maus em si mesmos, mas têm valor como “material sobre o qual a virtude possa atuar”. Juntamente com a ética Aristotélica, a tradição estoica forma uma das maiores abordagens fundadoras das virtudes éticas ocidentais. Para viver uma boa vida, as pessoas tinham que entender as regras da ordem natural, já que elas pensavam que tudo estava enraizado na natureza.
Muitos estoicos - como Sêneca e Epictetus – enfatizavam que, uma vez que “a virtude é suficiente para a felicidade”, um sábio seria emocionalmente resistente à desgraça. Essa crença é similar ao significado da frase “calma estoica”, embora a frase não inclua as visões do estoico “ético radical”, de que somente um sábio pode ser considerado verdadeiramente livre e que todas as corrupções morais são igualmente más.
O Estoicismo floresceu por todo o mundo romano e grego até o século III DC e entre seus seguidores estava o imperador Marco Aurélio. Sofreu um declínio após o cristianismo ter-se tornado a religião do Estado no século IV DC. Desde então, tem experimentado renascimentos, principalmente na Renascença, com o Neoestoicismo[5] e na era contemporânea (Estoicismo moderno).

II - PRINCÍPIOS BÁSICOS


Zeno de Citium, fundador do Estoicismo,
escola de filosofia helenística
Zeno de Citium, que viveu cerca de 334 a 262 AC, foi um pensador helenístico de descendência fenícia e o fundador da escola estoica de filosofia que lecionou em Atenas desde cerca de 300 AC. Citium era o nome latino de Kition, cidade reino da Ilha de Chipre (em tempos de dominação grega), atual Larnaca, localizada na costa sul da ilha e estabelecida no século XIII AC por colonizadores gregos após a guerra de Tróia. Zeno ensinava filosofia em Stoa Poikile (Pórtico Pintado), de onde a filosofia tirou o seu nome. Diferentemente de outras escolas de filosofia, como os Epicurianos, Zeno escolheu ensinar sua filosofia em um espaço aberto, uma colunata dominando o lugar central de reuniões de Atenas, a Ágora. As ideias de Zeno se desenvolveram a partir das ideias dos Cínicos, cujo fundador, Antísthenes, havia sido um discípulo de Sócrates. O mais influente seguidor de Zeno foi Chrysippus[6],  responsável pela moldagem do que é hoje chamado de Estoicismo. Posteriormente, romanos estoicos focaram em promover a vida em harmonia dentro do universo, sobre o qual ninguém possui controle direto.
O Estoicismo ensinava o desenvolvimento do autocontrole e fortaleza para sobrepujar emoções destrutivas; a filosofia sustentava que tornando-se um pensador claro e não tendencioso, poder-se-ia entender a razão universal. Um aspecto primário do Estoicismo envolvia o aprimoramento do bem-estar ético e moral do indivíduo: “A Virtude consiste em uma vontade que está em acordo com a Natureza”. Esse princípio também se aplicava ao reino das relações interpessoais: “ser livre de raiva, inveja, ciúme” e aceitar até os escravos como “iguais aos outros homens, porque todos os homens são produtos da natureza”.
Chrysippus de Soli, "Segundo
Fundador do Estoicismo"
Os estoicos forneceram uma explicação unificada do mundo, consistindo em lógica formal, física monística[7] e ética naturalística. Destas, eles enfatizaram a ética como o foco principal do conhecimento humano, embora suas teorias lógicas fossem de maior interesse para os filósofos posteriores. A ética estoica desposa uma perspectiva determinística. Com relação àqueles a quem falta virtude estoica, Cleanthes[8] uma vez sugeriu que o homem mau é “como um cão amarrado a um carro, obrigado a ir onde ele for”. Um estoico da virtude, em contraste, ajustaria sua vontade para se adequar ao mundo e permanecer, nas palavras de Epictetus, “doente e, contudo, feliz; em desgraça e feliz”, assim postulando uma vontade individual “completamente autônoma” e, ao mesmo tempo, um universo que é “um só todo rigidamente determinístico”. Esse ponto de vista foi posteriormente descrito como “Panteísmo[9] Clássico”, sendo adotado pelo filósofo holandês Baruch Spinoza.
O Estoicismo tornou-se a principal filosofia popular entre a elite educada no mundo helenístico e no Império Romano, a ponto de que, nas palavras de Gilbert Murray, “praticamente todos os sucessores de Alexandre se autodenominaram Estoicos”.
Os acadêmicos dividem, normalmente, a história do estoicismo em três fases:

· A primeira (estoicismo antigo) desenvolveu-se no século III AC, com seu fundador Zeno de Citium, passando por Cleanto, Chrysippus de Solis, até Antípatro de Tarso, preocupando-se com a lógica, a física, a metafísica e a moral.
· Na segunda (estoicismo médio), o pensamento estoico combinou-se com o espírito romano. Foi representado por Panécio de Rodes (180 AC - 110 AC) e Possidônio (135 AC - 51 AC).


· A terceira fase (estoicismo imperial ou novo estoicismo), com representantes como: Caio Musônio Rufo, Sêneca (nascido no início da era cristã e falecido em 65 DC), Epictetus (50 DC - 125 DC) e Marco Aurélio (121 DC - 180 DC), que foi imperador romano em 161 DC. As obras de Sêneca, Epictetus e Marco Aurélio propagaram o estoicismo no mundo ocidental. A última época do estoicismo, ou período romano, caracterizou-se pela sua tendência prática e religiosa, fortemente acentuada como se verifica nos "Discursos" e no "Enchiridion" de Epictetus e nos "Pensamentos" ou "Meditações" de Marco Aurélio.
Não sobreviveu até a atualidade qualquer obra completa de um filósofo estoico das duas primeiras fases. Apenas textos romanos da última fase nos chegaram completos.

III – LÓGICA[10]

III.1 – LÓGICA PROPOSICIONAL

Cleanthes, sucessor de Zeno e
segundo líder do Estoicismo
Diodorus Cronus, um dos professores de Zeno, é considerado o filósofo que primeiro introduziu e desenvolveu uma abordagem à lógica, agora conhecida como “lógica proposicional”. Trata-se de uma abordagem à lógica baseada em declarações ou proposições ao invés de termos, tornando-a muito diferente do termo “lógica” de Aristóteles. Posteriormente, Chrysippus desenvolveu um sistema que tornou-se conhecido como “Lógica Estóica” e incluiu um sistema dedutivo, “Silogística Estóica”, considerada uma rival da Silogística[11] de Aristóteles. Um novo interesse em Lógica Estóica surgiu no século XX, quando importantes desenvolvimentos na lógica foram baseados na lógica proposicional. Susanne Bobzien escreveu: “As muitas semelhanças próximas entre a lógica filosófica de Chrysippus e a de Gottlob Frege são especialmente surpreendentes. Bobzien também nota que Chrysippus escreveu mais de 300 livros sobre lógica, de virtualmente qualquer tópico que se relaciona com a lógica de hoje.

III.2 – CATEGORIAS

O termo “Categorias Estoicas” refere-se às ideias dos estoicos que se relacionam às categorias de ser[12]: as mais fundamentais classes de ser para todas as coisas. Os estoicos acreditavam que havia quatro categorias (substância, qualidade, disposição e disposição relativa), que eram as divisões últimas. Uma vez que não se possui nem mesmo um só trabalho completo de Zeno de Citium, Cleanthes ou de Chrysippus, o que se sabe sobre o assunto foi juntado de várias fontes: doxografias[13] e os trabalhos de outros filósofos que discutem os estoicos para seus próprios objetivos. A informação presente vem de Plotinus e Simplicius, com evidência adicional de Plutarco de Chaeronea e Sextus Empiricus.
Os estoicos sustentavam que todos os seres são materiais. Aceitavam a distinção entre corpos concretos e abstratos, mas rejeitavam a crença aristotélica de que existem seres totalmente imateriais. Assim, eles aceitavam a ideia de Anaxágoras (como Aristóteles) de que se um objeto é quente, é porque alguma parte de um corpo universal quente entrou no objeto. Mas, diferentemente de Aristóteles, eles estendiam a ideia para cobrir todos os acidentes (em filosofia, os atributos que podem ou não pertencer a um objeto, sem afetar sua essência). Assim, se um objeto é vermelho, é porque alguma parte de um corpo vermelho entrou naquele objeto. De acordo com Plotinus e Simplicius, havia quatro categorias estoicas:

· Substância: a matéria primária, substância sem forma de que as coisas são feitas.
· Qualidade: a forma como a matéria é organizada para formar um objeto individual; em física estoica, um ingrediente físico (ar ou sopro) que forma a matéria.
· “De alguma forma disposta”: características particulares, não presentes dentro do objeto, como tamanho, forma, ação e postura. 
· “De alguma forma disposta em relação a alguma coisa”: características relacionadas a outros fenômenos, tais como a posição de um objeto no tempo e no espaço, relativamente a outros objetos.

III.3 – EPISTEMOLOGIA[14]

Os estoicos propunham que o conhecimento poderia ser atingido através do uso da razão. A verdade pode ser distinguida da falácia, mesmo se, na prática, somente uma aproximação possa ser feita. De acordo com os estoicos, os sentidos constantemente recebem sensações: pulsações que passam dos objetos, através dos sentidos, para a mente, onde deixam uma impressão na imaginação (fantasia). Uma impressão surgida da mente, seria chamada um fantasma.
A mente tem a habilidade de julgar – aprovar ou rejeitar – uma impressão, permitindo-lhe distinguir uma representação verdadeira da realidade, de uma falsa. Algumas impressões podem ser acolhidas imediatamente, mas outras podem somente alcançar graus variáveis de aprovação hesitante, que podem ser rotuladas de crença ou opinião. É somente através da razão que podemos alcançar uma clara compreensão e convicção. Um conhecimento certo e verdadeiro, alcançável pelo sábio estoico, pode ser atingido somente pela verificação da convicção com a expertise de seus pares e o julgamento coletivo da humanidade.

IV – FÍSICA, TEOLOGIA E COSMOLOGIA

De acordo com os estoicos, o Universo é uma substância material e provida de razão, conhecida como Deus ou Natureza, que eles dividiam em duas classes: a ativa e a passiva. A substância passiva é a matéria, que “permanece inativa, uma substância pronta para qualquer uso, mas que permanecerá sem emprego se ninguém a colocar em movimento”. A substância ativa, que pode ser chamada de Destino ou Razão Universal (Logos), é um éter[15] inteligente ou fogo primordial, que age sobre a matéria passiva.
Tudo está sujeito às leis do Destino, pois o Universo atua de acordo com sua própria natureza e com a natureza da matéria passiva que ele governa. As almas das pessoas e animais são emanações desse fogo primordial e são, de forma semelhante, sujeitas ao Destino.
As almas individuais são perecíveis por natureza e podem ser “transmutadas e difundidas, admitindo uma natureza intensa sendo recebida no Raciocínio Seminal do Universo”. Uma vez que a Razão correta é o fundamento da Humanidade e do Universo, segue-se que o objetivo da vida é viver de acordo com a razão, ou seja, viver a vida de acordo com a Natureza.
A teologia estoica é um panteísmo fatalista e naturalista: Deus nunca é totalmente transcendente (que excede ou vai além da natureza física, concreta das coisas), mas sempre imanente e identificado com a natureza. As religiões Abrahâmicas personalizam Deus como a entidade criadora do mundo, mas o estoicismo equaciona Deus com a totalidade do Universo; de acordo com a cosmologia estoica, muito similar à concepção Hindu da existência, não existe um início absoluto do tempo, considerado infinito e cíclico. Similarmente, o espaço e o Universo não possuem início nem fim, mas são cíclicos. O Universo atual é uma fase no ciclo presente, precedido de um número infinito de Universos, fadado a ser destruído, recriado novamente e seguido por outro número infinito de Universos. O estoicismo considera toda a existência como cíclica, o cosmos como eternamente autocriador e autodestruidor. 
O estoicismo, como religiões da Índia, tais como hinduísmo, budismo e jainismo, não determina um início ou fim para o Universo. De acordo com os estoicos, o logos era a razão ativa ou anima mundi (alma do mundo) impregnando e animando todo o Universo. Ele foi concebido como material, sendo usualmente identificado com Deus ou Natureza. Os estoicos também se referiram à razão seminal ou a lei da geração no Universo, que era o princípio da razão ativa trabalhando em matéria inanimada. Os humanos, também, possuem uma porção do logos divino, fogo e razão primordial que controla e sustenta o Universo.

[1] O período helenístico cobre o período da história do Mediterrâneo entre a morte de Alexandre, o Grande e o desenvolvimento do Império Romano indicado através da Batalha de Actium em 31 AC e a conquista do Egito Ptolemaico no ano seguinte. A antiga palavra grega “Hellas” é a palavra original para Grécia, da qual foi derivada a palavra “helenística”. Durante o período Helenístico a influência cultural e o poder gregos atingiram o pico de sua expansão geográfica, sendo dominadora no mundo Mediterrâneo e na maior parte da Ásia Central e Ocidental, mesmo em regiões do subcontinente Indiano, experimentando prosperidade e progresso nas artes, exploração, literatura, teatro, arquitetura, música, matemática, filosofia e ciência. É muitas vezes considerado um período de transição, algumas vezes até de decadência ou degeneração, comparado ao iluminismo da era clássica Grega.
[2] Sêneca, o Jovem (cerca de 4 AC e 65 DC), nascido Lucius Annaeus Seneca e conhecido simplesmente por Seneca, foi um filósofo estoico, estadista, dramaturgo e sátiro romano da Idade de Prata da literatura latina. Nascido em Córdoba, Espanha e criado em Roma, foi treinado em retórica e filosofia. Seu pai foi Sêneca, o Velho, seu irmão mais velho, Junius Gallio Annaenus e seu sobrinho o poeta Lucano. Em 41 DC, Sêneca foi exilado para a Ilha de Córsega pelo Imperador Claudius que lhe permitiu o retorno em 49 DC, para tornar-se o tutor de Nero. Quando Nero tornou-se imperador, em 54 DC, Sêneca tornou-se seu Conselheiro e junto com o prefeito pretoriano Sextus Afranius Burrus, obteve um governo competente para os primeiros cinco anos do reinado de Nero. A sua influência sobre Nero declinou com o tempo e em 65 DC Sêneca foi forçado ao suicídio por alegada cumplicidade na conspiração para assassinar Nero, em que parece ter sido inocente. Seu estoico e calmo suicídio tornou-se motivo de vários quadros.
[3] Epictetus (cerca de 55 a 135 AD) foi um filósofo estoico grego nascido escravo em Hierópolis, Frígia (hoje na Turquia), que viveu em Roma até ser banido, quando foi para Nicopolis, noroeste da Grécia, para o resto de sua vida. Seus ensinamentos foram escritos e publicados por seu aluno Arrian em seus “Discursos” e “Enchiridion”. Epictetus ensinou que filosofia é um meio de vida e não apenas uma disciplina teórica. Para Epictetus, todos os eventos externos estão além do nosso controle; deveríamos aceitar calma e desapaixonadamente tudo o que acontece. Contudo, os indivíduos são responsáveis por suas próprias ações, que eles podem examinar e controlar através de rigorosa autodisciplina.
[4] Logos, palavra de origem grega, é um termo da filosofia, psicologia, retórica e religião ocidental, com um significado variável de solo, pleito, opinião, expectativa, palavra, discurso, consideração, razão e proporção. Tornou-se um termo técnico na filosofia ocidental, começando com Heraclitus (535 – 475 AC) que usou o termo como um princípio de ordem e conhecimento.
[5] O Neoestoicismo foi um movimento filosófico sincrético que se juntou ao Estoicismo e ao Cristianismo, influenciado por Justus Lipsius (18/10/1547-23/03/1606), um filologista, filósofo e humanista flamengo que escreveu uma série de trabalhos visando reviver o Estoicismo, numa forma compatível com o Cristianismo, o mais famoso deles, “De Constantia” (Sobre a Constância). Sua forma de estoicismo influenciou um bom número de pensadores contemporâneos, criando o movimento intelectual do Neoestoicismo. Ensinou nas Universidades de Jena, Leiden e Leuven.
[6] Chrysippus de Soli (cerca de 279 a 206 AC) foi um filósofo estoico grego nativo de Soli, Cilícia, que se mudou para Atenas ainda jovem, onde tornou-se um aluno de Cleanthes na escola estoica. Quando Cleanthes morreu, cerca de 230 AC, Chrysippus tornou-se o terceiro líder da escola. Escritor prolífico, Chrysippus expandiu as doutrinas fundamentais de Zeno de Citium, o fundador da Escola, o que lhe rendeu o título de Segundo Fundador do Estoicismo.
[7].O Monismo atribui unicidade a um conceito qualquer, por exemplo, a existência. Uma filosofia é monística se ela postula unidade na origem de todas as coisas, como se todas as coisas retornassem a uma fonte distinta delas. Os estoicos ensinavam que há somente uma substância, identificada como Deus.
[8] Cleanthes (cerca de 330 AC a cerca de 230 AC), de Assos (atual Turquia), foi um filósofo estoico grego sucessor de Zeno de Citium como o segundo da escola estoica em Atenas. Originalmente um boxeador, ele foi para Atenas onde aderiu à filosofia, atendendo às palestras de Zeno. Conseguiu se manter trabalhando como carregador de água durante a noite. Após a morte de Zeno, cerca de 262 AC, tornou-se o principal da escola, mantendo o posto pelos 32 anos seguintes. Cleanthes preservou e desenvolveu as doutrinas de Zeno com muito sucesso.
[9] Panteísmo é a crença de que realidade e divindade são idênticas ou que todas as coisas compõem um deus amplo e imanente. Imanente aqui visto como aquele que faz parte, de maneira inseparável, da essência de um ser ou de um objeto, ou seja, que está contido na parte da experiência possível, fazendo com que a realidade seja percebida através da utilização dos sentidos. A crença panteísta não reconhece um deus pessoal distinto antropomórfico, mas em vez disso caracteriza um amplo campo de doutrinas que diferem em formas de relacionamentos entre realidade e divindade. O conceito panteístico retroage a milhares de anos e seus elementos têm sido identificados em várias tradições religiosas. O termo “panteísmo” foi cunhado pelo matemático Joseph Raphson, em 1697 e desde então tem sido usado para descrever as crenças de uma grande quantidade de pessoas e organizações.
[10] A lógica é um raciocínio conduzido ou avaliado de acordo com estritos princípios de validade. É a ciência que estuda os princípios de um correto raciocínio.
[11] Um silogismo (conclusão ou inferência) é uma espécie de argumento lógico que aplica um raciocínio dedutivo para chegar a uma conclusão baseada em duas ou mais proposições consideradas ou supostas verdadeiras. Alguns dos primeiros silogismos foram definidos na Escola Nyaya (uma das seis antigas escolas ortodoxas do Hinduismo) de pensamento. Em uma forma definida por Aristóteles, da combinação de uma declaração geral (a premissa principal) e de uma declaração específica (premissa secundária), uma conclusão é deduzida. Por exemplo, sabendo-se que todos os homens são mortais (premissa principal) e que Sócrates é um homem (premissa secundária), podemos validamente concluir que Sócrates é mortal.
[12] Em filosofia, “ser” significa a existência de algo. Qualquer coisa que exista tem “ser”. Ontologia é o ramo da filosofia que estuda o “ser”, um conceito que engloba características objetivas e subjetivas de realidade e existência. Qualquer coisa que participa num “ser” é também chamado de “ser”, embora muitas vezes esse uso seja limitado a entidades que tenham subjetividade (como na expressão “ser humano”). A noção de “ser” tem, inevitavelmente, sido vaga e controversa na história da filosofia, iniciando na filosofia ocidental com tentativas entre os pré-socráticos, para usá-la de forma inteligível.
[13] Doxografia é um termo usado especialmente para os trabalhos de historiadores clássicos, que descrevem os pontos de vista de filósofos e cientistas do passado. O termo foi cunhado pelo estudioso clássico alemão Hermann Alexander Diels.
[14] "Episteme" é um termo filosófico derivado de uma antiga palavra grega, que pode referir-se a conhecimento, ciência ou entendimento que, por sua vez se origina de um verbo que significa conhecer, entender ou estar acostumado com algo ou alguém. Platão contrasta “episteme” com “doxa”, que seria uma crença ou opinião comum. “Episteme” é também distinguida de “techne”, uma ocupação ou prática especializada. A palavra “epistemologia” é derivada de “episteme” e seria o estudo do conhecimento ou entendimento.
[15] De acordo com a ciência antiga e medieval, o Éter, também chamado de Quintessência, é o material que enche a região do Universo acima da esfera terrestre. Esse conceito foi usado em certas teorias para explicar vários fenômenos naturais, tais como a viagem da luz e da gravidade. Pelo final do século XIX, os físicos postularam que o éter permeava por todo o espaço, proporcionando um meio através do qual a luz poderia viajar no vácuo. Entretanto, a presença de tal meio não foi detectada no experimento Michelson-Morley, criado para este fim, tal resultado sendo interpretado como significando que tal éter não existe.

Conclui com a Parte 2