Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 14 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 5 - ÚLTIMA)

VIII - A DINASTIA HASMONEANA: AUTONOMIA E CONFLITOS INTERNOS


A Revolta dos Macabeus levou ao estabelecimento da Dinastia Hasmoneana, que governou a Judeia de 140 a 63 AC, marcando um período de autonomia judaica. Simão, irmão de Judas Macabeu, foi nomeado para os títulos de Alto Sacerdote, General e Líder por uma grande assembleia geral, tornando-se o primeiro governante da dinastia Hasmoneana de um estado autônomo. Vislumbrando o poder romano, viajou para Roma para obter dela a garantia de que a Judeia seria um território independente.
Por essa época, já era o mandante do Império Selêucida, Antiochus VII Euergetes, apelidado Sidetes, que reinou de julho de 138 a 129 AC, como último rei Selêucida de alguma estatura; após sua morte em batalha, o reino Selêucida ficou restrito apenas à Síria. Antiochus VII queria as cidades de Gadara, Joppa e Acre de volta, além de um grande tributo. Como Simão quisesse pagar uma fração do desejado pela manutenção de apenas duas das cidades, Antiochus enviou seu general Cendebaeus para atacar. O general foi morto e o exército posto em debandada. Sob o domínio dos hasmoneus, o reino expandiu suas fronteiras, cobrindo uma área quase tão grande quanto a que a nação tinha sob o rei Salomão.
Simão e dois de seus filhos foram mortos numa trama para derrubar os Hasmoneus, que pretendia também matar João Hyrcanus seu filho restante, mas que escapou para Jerusalém para defendê-la. João Hyrcanus conquistou a Transjordânia, a Galileia, a Samaria e a Idumeia (Edom). Hyrcanus tinha muitas questões para resolver como novo Alto Sacerdote. Antiochus invadiu a Judeia e sitiou Jerusalém em 134 AC. Por falta de alimentos Hyrcanus teve que fazer um acordo com Antiochus, pagando uma grande quantidade de dinheiro, abrindo as muralhas da cidade, reconhecendo o poder selêucida sobre a Judeia e ajudando os selêucidas em sua luta contra os Partas, que não aconteceu pela morte de Antiochus em 128 AC. Com isso Hyrcanus tomou de volta a Judeia e manteve o seu poder. Ele também manteve boas relações com os romanos e egípcios, pela grande quantidade de judeus que lá viviam.
Aristobulus I sucedeu a João Hyrcanus, seu pai, sendo o primeiro Hasmoneu a assumir o título de "Rei" e Sumo Sacerdote, durante um curto reinado de um ano. Desafiou os desejos de seu pai que queria sua mãe como sua sucessora, mandando-a para a prisão com todos os seus irmãos, exceto um que logo foi assassinado por suas ordens. Seu feito mais significativo foi a conquista da Galileia.
Com sua morte foi sucedido por seu irmão Alexandre Yanai, apenas preocupado com poder e conquista. Casou-se com a viúva de seu irmão, mostrando muito pouco respeito pela lei judia. Sua primeira conquista foi a cidade egípcia de Ptolomais, cujos habitantes clamaram pela ajuda de Ptolomeu IX que se encontrava em Chipre. Contudo quem veio foi sua mãe Cleópatra III, para ajudar Alexandre e não seu filho.
O reinado dos Hasmoneus foi marcado por intrigas políticas e conflitos internos. A união dos cargos de rei e Sumo Sacerdote na figura dos Hasmoneus gerou insatisfação, pois a realeza deveria ser de descendência davídica, e o Sumo Sacerdócio, da linhagem de Zadoque, o que os Hasmoneus não podiam reivindicar. Essa tensão levou ao surgimento de grupos político-religiosos distintos: os fariseus, os saduceus e os essênios. A luta entre fariseus e saduceus atingiu seu auge com o governo de Alexandre Yanai (100-75 AC), cujo comportamento como Sumo Sacerdote despertou o desprezo dos fariseus. Como Alexandre não fosse um governante popular, uma guerra civil irrompeu em Jerusalém que durou seis anos. Com sua morte, sua viúva, Salomé Alexandra, tornou-se a governante, mas não Alto Sacerdote.
Os governantes que o sucederam foram Aristobulus II, João Hyrcanus II e o último Hasmoneano, Antigonus, deposto e executado pelos romanos sob Marco Antônio. O fim da Dinastia Hasmoneana ocorreu em 63 AC quando os romanos vieram a pedido do então Rei-Sacerdote Aristobulus II e seu concorrente Hyrcanus II. Foi nesse contexto de conflito interno que o general romano Pompeu interveio em 63 AC, marcando a queda da dinastia Hasmoneana e a conquista da Judeia pela República Romana com o fim da independência Judaica
A ascensão e queda da Dinastia Hasmoneana ilustra a complexidade da autonomia judaica em um cenário geopolítico volátil. A união dos poderes real e sacerdotal pelos Hasmoneus, embora inicialmente um símbolo de vitória e independência, tornou-se uma fonte de discórdia interna, pois desafiava as expectativas tradicionais sobre a linhagem da realeza e do sacerdócio. A fragmentação em seitas como fariseus, saduceus e essênios não foi apenas uma questão de diferenças doutrinárias, mas também de disputas de poder e visões divergentes sobre o futuro da nação. Essa divisão interna enfraqueceu a Judeia, tornando-a suscetível à intervenção externa e, em última análise, à conquista romana. A história hasmoneana demonstrou que a independência política, sem coesão interna e legitimidade religiosa amplamente aceita, era insustentável.

IX - A JUDEIA SOB O DOMÍNIO ROMANO (63 AC - PRIMEIROS ANOS DA ERA CRISTÃ)

Pompeu conquistou Jerusalém em 63 AC, encerrando a independência dos judeus e incorporando a Judeia à República Romana como um reino cliente. Sua entrada no Templo, embora sem causar danos ou remover objetos, foi um grave insulto para os judeus, simbolizando o fim da soberania religiosa e política. A intervenção de Pompeu na guerra civil hasmoneana não foi apenas uma conquista militar, mas um ponto de virada decisivo que marcou o fim da autonomia judaica e o início de um longo período de dominação romana. A decisão dos irmãos Hasmoneus de buscar a ajuda romana para resolver suas disputas internas revelou uma falha fatal na liderança judaica, abrindo as portas para a hegemonia de uma potência externa. A profanação simbólica do Templo por Pompeu foi um presságio das tensões e conflitos que surgiriam sob o domínio romano, onde a sensibilidade religiosa judaica frequentemente colidiria com o poder imperial. Isso estabeleceu um padrão de subordinação que culminaria em revoltas e na eventual destruição do Templo.
Os romanos colocaram Hyrcanus II como Alto Sacerdote, mas a Dinastia chegou ao fim em 40 AC quando Herodes, o Grande, um idumeu (como sinônimo de edomita, originário da região de Edom), tradicionalmente inimigo dos judeus; em 37 AC foi nomeado "rei dos judeus" pelo senado romano com o apoio de Marco Antônio e, posteriormente, de Augusto. Seu reinado, que durou até 4 AC, foi caracterizado por uma mistura de impressionantes realizações arquitetônicas e atos de brutalidade.
Herodes, o Grande, o rei cliente romano do reino da Judeia
Herodes era um rei-vassalo em total lealdade a Roma, e sua ascensão ao poder foi resultado de sua habilidade diplomática e oportunismo político. Ele buscou legitimar seu governo aos olhos do povo judeu casando-se com Mariane, uma princesa hasmoneana, e empreendeu vastos projetos de construção, incluindo a reconstrução e embelezamento extensivo do Segundo Templo em Jerusalém, a construção de seu palácio, a torre Antônia, a fortaleza de Massada e a cidade de Cesareia Marítima.
Apesar de seus esforços para apaziguar os judeus, como o alívio de impostos em épocas de fome e a obtenção de privilégios para os judeus em diversas partes do mundo, Herodes enfrentou dificuldades com o povo judeu durante a maior parte de seu domínio. Sua tirania, crueldade, paranoia (que o levou a executar membros de sua própria família, incluindo Mariane e seus filhos) e a imposição de pesados impostos para financiar suas obras e sua lealdade a Roma, geraram ressentimento generalizado. Sua legitimidade era contestada pelos judeus por ele ser um edomita, um povo rival.
O reinado de Herodes, o Grande, exemplifica a complexa dinâmica de um rei-vassalo que, embora judeu por ascendência (idumeu), era fundamentalmente leal a Roma. Sua política de construção de grandes obras, incluindo o Templo, pode ser interpretada como uma tentativa de legitimar seu governo e apaziguar a população judaica, mas também serviu para exibir o poder romano e drenar os recursos da Judeia através de impostos exorbitantes. A desconfiança e o ressentimento do povo judeu em relação a Herodes, decorrentes de sua brutalidade e sua subserviência a Roma, demonstram a persistente busca por autonomia e a recusa em aceitar um governante que não fosse visto como divinamente sancionado ou alinhado com os interesses judaicos. Essa tensão entre a elite pró-romana e a população geral seria um fator constante de instabilidade até as grandes revoltas dos judeus.
Herodes, o Grande, é descrito na Bíblia Cristã (Mateus 2:16-18) como o coordenador do Massacre dos Inocentes, por ter mandado matar todas as crianças com menos de dois anos de idade assim evitando que vivesse Cristo, o futuro Rei dos Judeus. A maior parte do Novo Testamento faz referência a seu filho, Herodes Antipas (execuções de João Batista e Jesus de Nazaré em Mateus 14) e a seu neto Herodes Agripa (em Atos 12).
Máxima extensão do reino de Herodes
e as tetrarquias herodianas
Com a morte de Herodes, o Grande, em 4 AC, os romanos dividiram seu reino entre três de seus filhos e sua filha. A seu filho Herodes Archelaus teria cabido a etnarquia (território que sugere liderança) da Judeia, Samaria e Idumeia; seu filho, Herodes Antipas, recebeu a tetrarquia (divisão regional que sugere quatro governantes, possivelmente porque Arquelau teria recebido a metade do reino ou dois quartos) da Galileia e Pereia; seu outro filho Filipe teria ficado com a tetrarquia dos territórios ao norte e leste do Rio Jordão; e à sua filha Salomé I teria cabido a toparquia (distrito onde o toparca, mandante do território, exerce o seu poder) que incluia as cidades de Jamnia, Ashdod e Phasaelis.
Após a deposição de Herodes Arquelau (de breve reinado, por incompetência), Roma combinou as províncias sob o seu mando numa só Província da Judeia, governada por um prefeito romano e subordinada ao governador da Síria. Herodes Antipas reinou até 39 DC, quando foi deposto e exilado. Filipe reinou até sua morte em 34 DC, quando suas terras tornaram-se brevemente parte da província romana da Síria. As terras de Salomé I foram aglutinadas sob os demais territórios.
Em 37 DC as terras de Filipe foram dadas a Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande; com o banimento de Herodes Antipas, Herodes Agripa tornou-se também mandante da Galileia e Pereia; em 41 DC por favor do Imperador Claudius, Agripa sucedeu ao prefeito romano como Rei da Judeia. Com essa aquisição, o reino Herodiano dos judeus foi nominalmente reestabelecido até a sua morte em 44 DC. Após o breve reinado de Herodes Agripa I (41-44 DC), o governo foi entregue a um procurador, subordinado diretamente ao imperador romano.
Os procuradores romanos, como Copônio, Pôncio Pilatos e Félix, tinham como principais funções a coleta de impostos, a gestão das propriedades imperiais e a distribuição de pagamentos, principalmente aos militares. Eles também tinham o poder de nomear e depor os Sumos Sacerdotes e de referendar a dependência dos anciãos e da nobreza laica, garantindo o domínio romano sobre Israel.
A administração romana, com sua pesada carga tributária e a interferência na liderança religiosa, gerou crescentes tensões e ressentimento entre os judeus. Embora Roma adotasse uma política de tolerância religiosa, permitindo a prática do judaísmo como uma "religio licita" (religião permitida), qualquer movimento que ameaçasse a ordem pública romana era proibido. A imposição de impostos, a presença militar e a exploração econômica, combinadas com a perda da independência, contribuíram para um quadro de inquietação social e política que culminaria nas grandes revoltas. A situação explosiva da Palestina no século I DC, pode ser explicada em grande parte pela concorrência entre o poder romano e as elites locais pela exploração do país.
A transição para a administração direta romana e o papel dos procuradores revelam a intensificação da subjugação judaica e a crescente exploração econômica. A capacidade dos romanos de nomear e depor Sumos Sacerdotes corroeu a autoridade religiosa interna e transformou o sacerdócio em um instrumento do poder imperial, alienando ainda mais a população. A imposição de impostos onerosos e a percepção de que a riqueza de Jerusalém estava sendo drenada para Roma alimentaram um profundo descontentamento. Essa dinâmica de opressão e resistência, onde as liberdades religiosas eram concedidas apenas na medida em que não desafiassem a ordem romana, criou um ambiente de instabilidade crônica, culminando nas guerras judaico-romanas e na destruição do Segundo Templo (70 DC), com a consequente dispersão dos judeus por todas as nações do mundo. No seu conjunto, a Diáspora judaica refere-se à dispersão dos judeus por diversas regiões do mundo, deixando sua terra original, a Palestina, após eventos como o cativeiro na Babilônia e a destruição do Segundo Templo pelos romanos. Essa dispersão forçada, resultou na formação de comunidades judaicas em diferentes partes do mundo, que mantiveram sua identidade e tradições.

X - CONCLUSÕES

O período que se estende do retorno do Cativeiro Babilônico aos primeiros anos da Era Cristã foi uma era de transformações profundas e contínuas para o povo judeu. A destruição do Primeiro Templo e o exílio, embora traumáticos, atuaram como um catalisador para uma redefinição fundamental da identidade judaica. Desprovidos de sua monarquia e de seu centro cultual original, os judeus foram forçados a se reorientar, solidificando sua identidade não mais em estruturas políticas ou geográficas, mas na adesão à Lei, na prática religiosa e na coesão comunitária.
A reconstrução do Segundo Templo e das muralhas de Jerusalém, liderada por figuras como Zorobabel, Esdras e Neemias, simbolizou um renascimento físico e espiritual. Essa liderança diversificada – um príncipe, um escriba-sacerdote e um governador – marcou a emergência de um modelo de governança não monárquico, onde a autoridade religiosa do Sumo Sacerdote e a autoridade interpretativa dos escribas ganharam proeminência. A despeito dos desafios internos e da oposição externa, a comunidade demonstrou uma notável resiliência, reafirmando seu compromisso com a fé e a identidade.
A sucessão de dominações imperiais – persa, helenística e romana – impôs desafios distintos, mas também impulsionou adaptações cruciais. Sob os persas, os judeus gozaram de uma autonomia limitada, que permitiu a consolidação da liturgia e a compilação de textos sagrados. O helenismo, com sua disseminação cultural, gerou respostas variadas, desde a assimilação e a tradução da Septuaginta até a resistência ferrenha que culminou na Revolta dos Macabeus e na breve independência hasmoneana. No entanto, as divisões internas e a fragilidade política dos Hasmoneus abriram caminho para a conquista romana, que trouxe consigo uma administração direta, pesada tributação e uma nova camada de tensões.
A ascensão de seitas como fariseus, saduceus, essênios, zelotes e herodianos reflete a efervescência intelectual e as profundas divisões ideológicas que caracterizaram o judaísmo do Segundo Templo. Essas diferenças, que variavam da interpretação da Lei à relação com o poder romano, demonstram a busca contínua por um caminho para preservar a fé e a identidade em um mundo em constante mudança.
Em suma, o período do retorno do Cativeiro Babilônico aos primeiros anos da Era Cristã foi um cadinho de provações e inovações. A capacidade do povo judeu de se adaptar, reinterpretar sua fé, desenvolver novas instituições como a sinagoga e codificar sua tradição oral foi fundamental para sua sobrevivência e para a resiliência de sua identidade. Essa era não apenas moldou o judaísmo que conhecemos hoje, mas também forneceu o contexto histórico, cultural e religioso essencial para o surgimento do cristianismo, marcando-a como um dos períodos mais dinâmicos e formativos na história da civilização ocidental.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 2)

Matatias, o Hasmoneano,
iniciador da revolta dos Macabeus
As tentativas de Antíoco IV de proscrever a religião judia, conduziram a um conflito entre um grupo judeu rebelde, conhecido como Macabeus, e o Império Selêucida, que durou de 167 a 160 AC e que ficou conhecido como a “Revolta dos Macabeus”. Segundo “Macabeus I, Antigo Testamento”, um sacerdote judeu, chamado Matatias, o Hasmoneano, inflamou a revolta pela recusa em adorar deuses gregos, matando um judeu helenístico que avançou para sacrificar a um ídolo, em seu lugar, e fugindo, em seguida, para o deserto de Judá, com seus cinco filhos. Após a morte de Matatias, um ano depois, em 166 AC, seu filho Judas Macabeu conduziu um exército de judeus dissidentes à vitória sobre a dinastia Selêucida, em ações de guerrilha, inicialmente contra judeus helenizados. Os Macabeus destruíram altares pagãos, circuncisaram meninos e obrigaram os judeus a se oporem à lei. O termo “Macabeus”, usado para descrever o exército judeu, foi tomado da palavra hebraica para “martelo”.
Após as vitórias iniciais, os Macabeus entraram triunfalmente em Jerusalém, limparam o Templo, restabeleceram a tradicional adoração judia e instalaram Jônatas Macabeu, irmão de Judas Macabeu, como alto sacerdote. A nova consagração do Templo, quando retomado pelos Macabeus de Judá, após sua vitória, é a base da celebração do Hanuka no Judaísmo. Após cinco anos de guerra, em 161 AC, Judas buscou uma aliança com a República Romana, para remover os gregos. 
Jônatas Macabeu, irmão de Judas,
continuador da revolta dos Macabeus
Um grande exército selêucida foi enviado para esmagar a revolta, mas retornou à Síria com a morte de Antíoco IV. Seu comandante Lysias, preocupado com problemas internos, concordou com um compromisso político que restaurava a liberdade religiosa. Antíoco IV foi substituído por Demetrius I Soter, o sobrinho cujo trono ele havia usurpado. Demetrius enviou para Israel o general Bachides, com um poderoso exército, a fim de instalar Alcimus no posto de Alto Sacerdote. Bachides subjugou Jerusalém, matou Judas Macabeu e estabeleceu os helenos como governantes de Israel. Com isso, os patriotas perseguidos, sob a liderança de Jônatas Macabeu, fugiram, estabelecendo acampamento a leste do rio Jordão e permanecendo em guerrilha contra os selêucidas.
Após a morte de seu governador fantoche, Alcimus, alto sacerdote de Jerusalém, Bachides sentiu-se seguro para deixar o país. Mas as guerrilhas de Jônatas o chamaram de volta e depois de sitiado vários dias por Bachides, ele ofereceu um tratado de paz e troca de prisioneiros de guerra. Bachides rapidamente assentiu e afirmou nunca mais fazer guerra contra Jônatas, abandonando Israel com suas forças. Jônatas fixou residência na velha cidade de Michmash e de lá empenhou-se em limpar Jerusalém. 
Attalus II Philadelphus, rei
de Pergamo, relevo em pedra 
As relações de Demetrius I Soter com Attalus II Philadelphus, do Pergamo (1), (que reinou entre 159 e 138 AC neste reino importante do período helenístico), Ptolomeu VI do Egito (reinou entre 163 e 145 AC) e sua irmã e rainha conjunta Cleópatra II, estavam se deteriorando e eles apoiaram um reclamante rival ao trono selêucida, Alexandre Balas, que pretendia ser filho de Antíoco IV Epifânio e primo de Demetrius. Este foi obrigado a chamar de volta as guarnições da Judeia, exceto as das cidades do Acra e Beth-zur, para reforçar seu poderio. Além disso, ele fez uma proposta pela lealdade de Jônatas, permitindo-lhe recrutar um exército e recuperar os reféns mantidos na cidade de Acre. Jônatas aceitou tais termos, estabeleceu residência em Jerusalém e iniciou a fortificação da cidade. Alexander Balas ofereceu a Jônatas termos ainda mais favoráveis, que incluíam o posto de Alto Sacerdote em Jerusalém; apesar de uma segunda carta de Demetrius que fazia promessas quase impossíveis de honrar, Jônatas declarou seu apoio a Balas, tornando-se líder oficial do seu povo e já oficiando a Festa dos Tabernáculos de 153 AC com as vestes do Alto Sacerdote. Com isso, o partido helenístico já não poderia ataca-lo sem severas consequências.
Em 150 AC, Demetrius perdia seu trono e sua vida. Ao vitorioso Alexander Balas foi dada a honra adicional de casar com Cleopatra Thea, filha de seus aliados Ptolomeu VI e Cleopatra II. Convidado para a cerimônia, Jônatas compareceu com presentes para os reis e sentou-se entre eles como seu igual. Foi declarado por Balas uma espécie de governador militar e governador civil da Província, e enviado de volta  para Jerusalém, com honras.
Em 147 AC, Demetrius II Nicator, filho de Demetrius I Soter, reivindicou o trono de Balas. O governador de Coele Syria (termo helenístico para uma região da Síria), Apolônio Taos, aproveitou para desafiar Jônatas para uma batalha. Jônatas e Simeão conduziram uma força de 10.000 homens contra o exército de Apolônio, em Jafa, que não estava preparado para o rápido ataque e abriu os portões para render-se aos judeus, mas recebendo reforços de Azotus, apareceu na planície com 3.000 homens, incluindo forças de cavalaria superiores. Jônatas atacou, capturou e queimou Azotus, com o templo residente de Dagon, e as vilas da vizinhança.
Alexander Balas honrou o Alto Sacerdote vitorioso, dando-lhe a cidade de Ekron com seu território circunjacente. O povo de Azotus queixou-se ao rei Ptolomeu VI, que tinha vindo para lutar com seu genro, mas Jônatas encontrou-o em Jaffa, em paz, e acompanhou-o até o rio Eleuterus, retornando a Jerusalém e mantendo a paz com o rei do Egito, a despeito do seu apoio a diferentes rivais ao trono Selêucida.
Em 145 AC, a Batalha de Antióquia (capital do Império Selêucida, fundada por Seleucos I Nicator em finais do século IV AC) resultou na derrota final de Alexander Balas pelas forças de seu sogro Ptolomeu VI, que foi uma das baixas da batalha. Demetrius II Nicator ficou como único mandatário do Império Selêucida, tornando-se o segundo marido de Cleópatra.
Jônatas não se submeteu ao novo rei e aproveitou a oportunidade para sitiar a fortaleza selêucida de Acra, em Jerusalém, símbolo do controle selêucida sobre a Judeia. Ela era fortemente guarnecida por uma força selêucida e oferecia asilo a judeus helenistas. Jônatas foi chamado a conversar com Demetrius e foi acompanhado dos anciãos e sacerdotes com muitos presentes. Por 300 talentos (medida de peso em metal precioso) Jônatas consegui a isenção do pagamento de impostos, por escrito, para todo o país. Em troca, Jônatas levantou o cerco de Acra, deixando-a em mãos selêucidas.
Logo em seguida, um novo reclamante ao trono selêucida surgiu na figura de Antíoco VI Dionysus, filho de Alexandre Balas e Cleopatra Thea. Tinha apenas três anos de idade mas o general Diodotus Tryphon o usou para avançar nos seus projetos ao trono. Demetrius então chamou Jônatas, como seu aliado, prometendo a retirada da guarnição de Acra. Jônatas deu-lhe a proteção de 3.000 homens em sua capital, Antióquia, contra seus próprios súditos.
Demetrius não cumpriu sua promessa para com Jônatas que resolveu então apoiar o novo rei quando Diodotus Tryphon e Antíoco VI capturaram a cidade, especialmente quando o último confirmou seus direitos e indicou seu irmão Simão como strategos (líder militar) da Paralia (província costeira da Palestina à época), desde a “Escada do Tiro” (penhasco ao sul do Tiro) até a fronteira com o Egito.
Jônatas e Simão tinham agora poder para realizar conquistas e foi o que fizeram: Ashkelon (sul de Israel), Gaza (mais ao sul),a planície de Hazar (ao norte de Israel) e a fortaleza de Beth-Zur (próximo de Jerusalém). Como Judá nos primeiros anos, Jônatas buscou alianças com outros povos. Renovou seus tratados com os romanos e trocou mensagens amistosas com Partia e outras potências.
Diodotus Tryphon foi com um exército à Judeia e convidou Jônatas a Scythopolis (nome grego da cidade de Beit She’an, às margens do Jordão, a jusante do Mar da Galileia) para uma conferência amistosa onde ele o persuadiu a dispensar seu exército de 40.000 homens, prometendo-lhe Acra e outras fortalezas. Jônatas caiu na armadilha, levou com ele 1.000 homens a Acra, onde foram todos mortos e ele aprisionado.
Quando Diodotus Tryphon entrava em Judeia, foi confrontado pelo novo líder judeu, Simão, pronto para a batalha. Pretendendo evitar a batalha, Tryphon exigiu 100 talentos e os dois filhos de Jônatas como reféns, para libertar Jônatas. Para não ser acusado da morte de seu irmão, Simão concordou com as exigências. Tryphon executou Jônatas para que ele não fosse empecilho às suas conquistas e nada se sabe sobre seus dois filhos. Jônatas foi enterrado por Simão em Modin (a moderna Modin a 30 km a oeste de Jerusalém). Uma de suas filhas foi uma ancestral de Flavius Josephus.
Simão assumiu a liderança em 142 AC, recebendo os cargos de Alto Sacerdote e Príncipe de Israel. A liderança dos Hasmoneanos foi estabelecida por uma resolução adotada em 131 AC, numa grande assembleia dos sacerdotes, anciãos e povo da terra, para que Simão fosse o seu líder e Alto Sacerdote para sempre, até que surgisse um “profeta confiável”. Ironicamente, a eleição foi realizada no estilo helenístico. 
Simão Macabeu, fundador da
Dinastia Hasmoneana
Simão fez o povo judeu semi-independente dos gregos selêucidas e reinou de 142 a 135 AC, inaugurando a Dinastia Hasmoniana, com a concordância do Senado Romano, em 139 AC. Simão foi assassinado (junto com seus filhos mais velhos, Matatias e Judá) pela instigação de seu genro Ptolomeu, filho de Abubus (ou Abobus ou Abobi), que havia sido nomeado governador da região pelos selêucidas.

IV – A DINASTIA HASMONEANA

A Dinastia Hasmoneana foi a dinastia governante de Judá e regiões vizinhas, de 140 a 116 AC, reinando quase autonomamente dos selêucidas. A dinastia foi estabelecida sob a liderança de Simão Macabeu, duas décadas depois que seu irmão Judas Macabeu derrotou o exército selêucida durante a Revolta dos Macabeus. Essa revolta iniciou um período de 25 anos de independência judia, potencializado pelo permanente colapso do Império Selêucida sob ataques das potências nascentes da República Romana e do Império Parta. Contudo, o mesmo vácuo de poder que permitiu ao Estado Judeu ser reconhecido pelo Senado Romano em 139 AC, propiciou a sua exploração pelos próprios romanos.
Em 135 AC, João Hircano, o terceiro filho de Simão, assumiu a liderança e governou como Alto Sacerdote, tomando um nome de governante grego (de Hyrcania) em aceitação à cultura helenística de seus suseranos selêucidas. No primeiro ano da morte de Simão, o rei selêucida Antíoco VII Sidetes atacou Jerusalém e, de acordo com Flavius Josephus, Hircano abriu o sepulcro do Rei David e removeu 3.000 talentos, que pagou como tributo para que poupassem a cidade. Ele permaneceu como governador, como um vassalo selêucida, como seu pai, reinando pelas duas décadas seguintes, como semiautônomo.
O Império Selêucida se desintegrava em face das guerras Selêucida – Parta e em 129 AC, Antíoco VII Sidetes foi morto por forças de Phraates II da Partia, permanentemente encerrando o mando selêucida a leste do Eufrates. Em 116 AC explodiu uma guerra civil entre os meio irmãos Antíoco VIII Grypus e Antíoco IX Cyzicenus, que resultou numa ruptura adicional do já significantemente reduzido reino, propiciando a revolta dos estados clientes selêucidas, como a Judeia.
Em 110 AC, com o desmoronamento do império selêucida, a dinastia tornou-se totalmente independente e João Hircano conseguiu suas primeiras conquistas militares, levantando um exército mercenário para capturar Madaba (na Jordânia, imediatamente a montante do Mar Morto) e Schechem (Siquém, margem ocidental do Jordão ao norte de Jerusalém, primeira capital do Reino de Israel), aumentando consideravelmente sua influência regional. Em seguida capturou a Transjordânia, Samaria, Galileia e Idumeia (a bíblica Edom) forçando o seu povo a converter-se ao judaísmo, como condição para permanecerem em seu país. Ele queria que sua mulher o sucedesse como chefe do governo e seu filho Aristobulus I permanecesse apenas como Alto Sacerdote. Entretanto, com sua morte, Aristobulus encarcerou sua mãe (deixando-a morrer) e três irmãos, tomando o poder como o primeiro hasmoneano com o título de basileus (termo grego com o mesmo significado de rei ou imperador), afirmando a independência do estado. Morreu apenas um ano depois, em 103 AC.
Seus irmãos foram libertados e um deles, Alexander Janeu, reinou de 103 a 76 AC, morrendo durante o cerco da fortaleza Ragaba. Em 87 AC, de acordo com Josephus, após uma guerra civil de seis anos, envolvendo o rei selêucida Demetrius III Eucaerus, Alexander crucificou 800 rebeldes judeus em Jerusalém.
Alexander foi sucedido por sua esposa Salomé Alexandra, que reinou de 76 a 67 AC, sendo a primeira rainha judia. Em seu reinado, seu filho Hircano II foi o Alto Sacerdote e nomeado seu sucessor. Ele reinava há apenas três anos quando seu irmão mais jovem, Aristobulus II iniciou uma revolução. Hircano II avançou contra ele com exército de mercenários e seus seguidores fariseus (logo falaremos deles), mas Aristobulus possuía um exército mais forte e na batalha que decidiria o reino, próximo de Jericó, a maior parte dos mercenários desertou de Hircano bandeando-se para seu irmão. Hircano refugiou-se na cidadela de Jerusalém, mas a captura do templo, por Aristobulus, obrigou-o a render-se. A paz foi acertada com a renúncia de Hircano ao reino e ao posto de alto sacerdote, mas mantendo as demais dignidades a que fazia jus como irmão do novo rei Aristobulus II, que reinou de 67 a 63 AC.
De 63 a 40 AC, o governo esteve nas mãos de Hircano II como alto sacerdote e etnarca (líder político), embora o poder estivesse nas mãos de seu conselheiro Antipater, o Idumeu, fundador da Dinastia Herodiana e pai de Herodes, o Grande. É importante lembrar que em 63 AC, com a conquista do reino pela República Romana (veremos abaixo, a “Palestina Romana”), dissolvido e estabelecido como Estado Cliente Romano, os governantes, daí para a frente, tornaram-se fantoches de uma guerra entre Júlio César e Pompeu, o Grande. As mortes de Pompeu (em 48 AC), César (em 44 AC) e as guerras civis romanas relacionadas, temporariamente relaxaram a pressão de Roma sobre Israel, permitindo a breve ressurgência de um hasmoneano apoiado pelo Império Parta. Esta curta independência foi rapidamente esmagada pelos romanos sob Marco Antônio e Otávio.

(1) Pergamo foi, inicialmente, uma antiga cidade grega, hoje localizada na moderna Turquia, entre o Mar Egeu (Mediterrâneo grego, a 26 km dele) e o Mar Negro. A partir da dinastia dos Attalus, a cidade expandiu-se para formar o Reino de Pergamo, tornando-se sua capital (281 a 133 AC), durante o período helenístico. Pergamo é citada no Livro das Revelações (Bíblia), como uma das sete igrejas da Ásia.

Na próxima postagem, conclusão da HISTÓRIA DO POVO HEBREU ..., com a terceira e última parte.

terça-feira, 21 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 1)

I - INTRODUÇÃO

A fonte histórica mais segura para acompanhar a saga do povo hebreu é, sem dúvida, o Antigo Testamento da Bíblia, ou o Tora, para os judeus. E aqui aproveito a oportunidade para apresentar o significado de algumas palavras básicas relacionadas.

O Tora (que em hebreu significa “instrução” ou “ensino”), ao qual muitas vezes nos referimos como “Pentateuco”, é o conceito central na tradição religiosa Judaica. Possui uma grande quantidade de significados: pode significar os primeiros cinco livros (Gêneses, Êxodos, Levíticos, Números e Deuteronômio) dos vinte e quatro livros do Tanakh (conjunto dos livros da Bíblia Hebreia), em geral incluindo os comentários rabínicos. O Tora pode significar também “instrução”, oferecendo uma forma de vida para aqueles que o seguem. Ele pode significar a narrativa continuada do Gêneses ao final do Tanakh. Pode até mesmo significar a totalidade do ensinamento, cultura e prática judeus. Comum a todos esses significados, o Tora consiste na narrativa fundamental do povo judeu: seu chamamento por Deus, suas provações e atribulações e seu pacto com seu Deus, que envolve seguir uma forma de vida personificada num conjunto de obrigações e leis civis morais e religiosas.

O Talmud (significando “instrução” ou “aprendizado”, é um texto central do Judaísmo Rabínico. O termo “Talmud” em geral se refere ao Talmud Babilônico, embora haja uma coleção anterior conhecida como o Talmud de Jerusalém. O Talmud tem dois componentes. A primeira parte é o Mishnah (cerca de 200 DC), o compêndio escrito do Tora Oral do Judaísmo Rabínico. A segunda parte é o Gemara (cerca de 500 DC), uma elucidação do Mishna e dos escritos Tanáticos relacionados, que muitas vezes se aventuram por outros assuntos e expõe amplamente a Bíblia Hebreia. O Talmud pode ser usado para significar apenas o Gemara ou o Gemara e o Mishna impressos juntos. O Talmud completo consiste de 63 tratados e, em impressão normal, possui mais de 6.200 páginas e é escrito em hebreu e aramaico. O Talmud contém os ensinamentos e opiniões de milhares de rabis sobre uma variedade de assuntos, incluindo o Halakha (conjunto das leis religiosas judias derivadas do Tora escrito e oral), a ética, filosofia, costumes e história Judia, além de muitos outros tópicos.
Entretanto, mesmo este fantástico documento, torna-se bem difícil de ser acompanhado - ao menos pelos leigos ou pouco conhecedores do assunto – a partir do momento em que o Estado Judeu é invadido pela Babilônia, Jerusalém é devastada, o Templo destruído e grande parte da sua população levada cativa para as longínquas terras da Mesopotâmia. Há muito as doze tribos de Israel já se haviam separado, chegara a época dos profetas e muito do Antigo Testamento passa para o plano figurativo e religioso, tornando a leitura difícil de ser acompanhada e entendida. A história dos Hebreus só volta a ser novamente narrada e entendida após o nascimento de Cristo, através dos Evangelhos (Novo Testamento da Bíblia); nesse caso, segundo o ponto de vista dos primeiros cristãos e de cunho eminentemente religioso, com ênfase em sua figura central, Jesus Cristo.
Certamente existem historiadores contemporâneos (Flavius Josephus – “Josephus” -, Gaius Plinius Secundus – “Plínio, o Velho” – e Philo Jadaeus – “Philo de Alexandria”) que escreveram a sua história à época e, posteriormente, uma grande quantidade de historiadores modernos, usando essas fontes, apresentaram as suas respectivas versões.
O objetivo desta publicação é exatamente tentar preencher essa lacuna. O período que vai da invasão de Israel pela Babilônia e exílio dos hebreus em cativeiro, até a revolta dos judeus contra o império romano, que acabou com a destruição do Templo, pela segunda vez, e a definitiva difusão dos hebreus por todo o mundo; visto pelo prisma exclusivamente histórico.
Como esse assunto vai envolver a participação de vários impérios, já quero deixar claro que não é objetivo deste trabalho o detalhamento individual das suas histórias, mas apenas mostrar as suas relações com a história do povo hebreu durante o período mencionado. Muitos dos impérios que serão mencionados, já foram motivo de outras postagens do pesquisador e podem ser examinados, quando necessário.

II – CONQUISTA DO REINO DE JUDÁ PELA BABILÔNIA

Antes do exílio, Judá era uma monarquia que havia mantido as tradições de Israel, a comunidade tribal uma vez unida sob o Rei Davi. Havia absorvido muito das tradições pan-israelitas, mas ainda era uma comunidade, uma entidade política sem outra finalidade que a de existir, sobreviver e prosperar como uma entidade política.
Entre as principais instituições da Judá pré-exílica, estavam:
  • Os reis davídicos, uma dinastia que reivindicava investidura divina;
  • O templo Salomônico que, com as reformas de curta duração introduzidas por Ezequiel e Josias, abrigou vários cultos;
  • Adivinhos proféticos ao serviço dos reis e também profetas críticos dos reis, advogando somente a adoração de Javé. 
    Nabucodonosor II da Babilônia

O cativeiro babilônico ou exílio babilônico foi o período da história judaica durante o qual um grande número de judeus do antigo reino de Judá permaneceu cativo na Babilônia. Em 605 AC, Nabucodonosor II, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém que não lhe pode defrontar, o que ocasionou a criação de um tributo a ser pago pelo rei hebreu Eliaquim (ou Jeoiaquim). No quarto ano de Nabucodonosor II, Eliaquim recusou-se a pagar o tributo, o que motivou um novo sítio da cidade no sétimo ano do rei babilônico (597 AC), que culminou com a morte do rei de Judá e o exílio de seu sucessor Joaquim (ou Jeconias) - que reinou por apenas três meses -, sua corte e muitos outros, para a Babilônia. Seu sucessor, Zedequias (ou Sedecias ou Matanias), e outros, foram exilados no décimo oitavo ano de Nabucodonosor II (587 AC); uma deportação posterior ainda ocorreu no vigésimo terceiro ano de Nabucodonosor II (582 AC).
Império Babilônico Nabucodonosor II

A completa conquista do reino de Judá pela Babilônia, concretizou-se, portanto, em 587 AC, quando o rei de Judá era Zedequias. Os babilônios destruíram Jerusalém e seu Templo, expurgando os membros da elite da sua população para a Babilônia, aí incluindo Zedequias - cujos filhos foram mortos em sua frente e ele cego e jogado na prisão até a sua morte. Esse período ficou sendo conhecido como “Cativeiro da Babilônia”. A despeito da perda do Templo, o Judaísmo não morreu como religião, embora o culto e o sacrifício no Templo fossem impossíveis. Os judeus se consolidaram em torno dos seus documentos sagrados e o Tora tomou o lugar do Templo como um centro sagrado. O judaísmo tornou-se uma religião de livro, com um foco sagrado portátil. O exílio babilônico dos judeus tornou-se proverbial. Durante e após o exílio, eles desenvolveram uma energia criativa sem precedentes, do que resultou a edição definitiva do Pentateuco, dos livros de Samuel e Reis, de muitos dos livros proféticos e também na composição de uma nova literatura que refletia as preocupações dos que retornaram da Babilônia, muitas vezes mais diretamente, do que a antiga literatura. Durante este período eles editaram suas histórias e escritos sagrados com a visão de que os profetas estavam certos: as desditas das “crianças de Israel” eram devidas à sua desobediência ao pacto, o que resultou na edição definitiva do Tora. O estudo do Tora tornou-se o foco da prática, com encontros semanais em casas de estudo públicas. A ênfase foi colocada nas determinações do Tora que podiam ser seguidas longe do templo, tais como a circuncisão, a observância do Sabá, as leis da pureza e as prescrições de dieta.
Mapa da deportação do povo de Judá

Em 539 AC, o persa Ciro, o Grande, conquistou a Babilônia e por um seu decreto Judá retornou do exílio em 539 AC e foi politicamente reconstruído como uma província administrativa semiautônoma da Pérsia. Passou a ser governada por uma elite sacerdotal cujos pontos de vista e atitudes foram moldados pelos projetos religiosos para reconstrução delineados no exílio. Estavam em desacordo com a população, rigorosamente forçaram a separação da população heterogênea de Judá e governaram à base do Tora. Em 428 AC, Ezra trouxe, da Babilônia para Jerusalém, e promulgou, o Tora, que serviu como o ideal legal de um estado teocrático (governado por sacerdotes ao invés de reis), efetivamente marcando o início da moderna religião judaica. Ezra foi o sacerdote que reorganizou o estado Israelita politicamente e organizou o novo sistema religioso que incluía o estudo do Tora, ficando conhecido como o “Pai do Judaísmo”. Neemias, um funcionário da corte na Pérsia, retornou pouco mais tarde para reconstruir as muralhas da cidade e o templo de Jerusalém, isto é, o Segundo Templo, já que o primeiro havia sido construído por Salomão. A partir daí, a religião passou a ser conhecida como o “Judaísmo do Segundo Templo”. 
Ciro o Grande, Pérsia
A influência persa tornou-se notável na literatura apocalítica judia (simbolismo do bem contra o mal, angelologia, figura do demônio como ano caído e o mal personificado). A língua administrativa de Judá passou a ser o aramaico, língua do império persa, ao invés do hebreu. Uma importante nova instituição foi o uso dos Levitas como sacerdotes auxiliares.
O pouco que sabemos sobre a história do “Judaísmo do Segundo Templo”, de outras fontes, é aumentado por fragmentos de cartas escritas em papiro encontradas por modernos arqueólogos, em Elefantina, escavadas quando a barragem de Assuam, no Egito, foi construída durante a década de 1960.

III – A HELENIZAÇÃO DO ORIENTE MÉDIO E A REVOLTA DOS MACABEUS
Alexandre da Macedônia

Alexandre da Macedônia foi um dos grandes estrategistas militares do mundo e nunca perdeu uma batalha. Suas campanhas foram, basicamente, uma tentativa de vingança pelo fato da Pérsia ter invadido a Grécia em 490 e 480 AC. Cerca de 332 AC, Alexandre havia conquistado o Império Persa (ao qual Judá estava subordinado e praticamente sem expressão como potência militar, após ter retornado do Exílio Babilônico) e dela recuperado o Império do Egito, a costa grega da Ásia Menor ocidental e Tiro, seguindo rapidamente para o leste, até o Paquistão. Alexandre teria passado perto, mas provavelmente nunca visitado Jerusalém.
Após a morte precoce de Alexandre, em 323 AC, com a idade de 33 anos, seus vários generais lutaram entre si até 306-305 AC, quando os vencedores repartiram o Império de Alexandre em três, assim permanecendo até a conquista da região pelos romanos: a Ptolomeu I coube o Egito; a Antigonus I coube a Grécia e a Macedônia; e a Seleucos I coube a Ásia Menor. 
Seleucos I Nicator
Estes acontecimentos encerraram o tempo do poder persa e introduziram a helenização de todo o Oriente Médio. Os judeus continuaram falando aramaico e praticando a religião durante os tempos persas. Mas o período helenístico conduziu a conflitos culturais e políticos muito violentos, finalmente conduzindo à revolta contra o Império Romano (66 DC) durante a qual Judá, Jerusalém e o Templo (símbolo de independência político-religiosa) foram destruídos pela segunda vez.
Entre 332 e 167 AC, após a conquista de Alexandre, Israel foi primeiro governado pelo Egito e então pela Ásia Menor. Isso ocorreu quando Antíoco IV “Epifânio” (“um manifesto de Deus”), um rei selêucida (da dinastia Selêucida, grega, fundada por Seleucos I), invadiu o reino ptolomaico do Egito em 168 AC, aparentemente sem o apoio judeu. É preciso que se tenha em mente que, nessa época, o reino de Judá possuía mínima expressão política em todo o Oriente Próximo, apenas tratando de sobreviver entre o Egito, de um lado, e o império Selêucida, do outro, enquanto fazendo alianças ora com um, ora com outro e sofrendo as consequências de tais alianças.
Antíoco IV Epifânio
Tudo começou quando o Alto Sacerdote Simão II morreu, em 175 AC, e o conflito irrompeu entre os simpatizantes de seu filho Onias III (que se opunha à helenização e apoiava os Ptolomeus) e seu filho Jason (que apoiava a helenização e os Selêucidas). Seguiu-se um período de intriga política com sacerdotes como Menelaus subornando o rei para conquistar o Alto Sacerdócio e acusações de assassinato de disputantes ao título. O resultado foi uma breve guerra civil durante a qual os Tobias, um grupo de filosofia helenística, conseguiram colocar Jason na posição de Alto Sacerdote. Em 175 AC a crise chegou ao clímax quando Jason estabeleceu uma arena para jogos públicos próxima do Templo, segundo estudiosos “convertendo Jerusalém numa cidade grega com ginásios e efebos. 
Simão II Macabeu
Em 167 AC, Antíoco IV respondeu à guerra civil em Jerusalém atacando a cidade e ignorando a pressão da República Romana para se retirar. Ele colocou como fora da lei a prática da religião dos judeus, prometendo a morte a todos os que circuncisassem seus filhos, mantivessem as leis da alimentação “kashrut” (conjunto das leis religiosas judias sobre a alimentação) ou mantivessem o Sabá. Ele realizou o que, na profecia de Daniel, foi denominada a “abominação da desolação”: a profanação do Templo, em Jerusalém, com o sacrifício de um porco ao deus grego Zeus.


Na próxima postagem, continuação da HISTÓRIA DO POVO HEBREU .... com a PARTE 2.