Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 4)

VI – O PERÍODO HELENÍSTICO E A CRISE DE IDENTIDADE (333 AC - 63 AC)

No império Persa, Artaxerxes I foi sucedido por seu filho Xerxes II que foi, por sua vez, assassinado e sucedido por seu meio irmão Soguediano, ambos reinando por períodos muito curtos. Dario II (424 – 404 AC) sucedeu a Soguediano e foi sucedido por seu filho Artaxerxes II, que reinou de 404 AC até a sua morte em 358 AC. Artaxerxes III o sucedeu no trono, sendo sucedido por Dario III, último rei do Império Aquemênida Persa, tendo reinado de 336 a 330 AC.
Alexandre, o Grande, da Macedônia
Por essa época Felipe, rei da Macedônia (norte da Grécia), foi assassinado em Egae, por Pausanias, filho de Cerastes, da família de Orestes, e Alexandre, seu filho, o sucedeu no trono.
Alexandre, passando pelo Helesponto (atual Estreito de Dardanelos) derrotou os generais do exército de Dario III na batalha travada em Cranicum, marchou sobre a Lydia (antigo nome da região oeste da Turquia asiática), subjugou a Ionia, Caria e Pamphylia, avançando para o leste da atual Turquia. Enquanto isso, Dario avançava com seus exércitos para o oeste, visando dar combate a Alexandre em Issus, Cilicia. Sanballat, certo de que Dario derrotaria Alexandre, reafirmou suas promessas a Massaneh. Entretanto, Dario foi batido por Alexandre que tomou a maior parte dos seus exércitos além de aprisionar sua mãe, esposa e filhos, e fugiu para a Pérsia. Alexandre invadiu a Síria, tomando Damasco, Sidon e sitiando Tiro, quando então buscou o alto sacerdote judeu para fornecer suprimentos a seus exércitos. Entretanto, o Alto Sacerdote respondeu-lhe que não transgrediria seu juramento a Dario enquanto este estivesse vivo, pois temia sua represália. Alexandre, evidentemente não gostou de sua resposta e prometeu represália aos judeus assim que tomado Tiro. Isso aconteceu rapidamente e Alexandre chegou a Gaza que foi sitiada e teve o governador da guarnição, Babemeses, preso.
Ao tempo do sítio de Tiro, Sanballat viu um boa oportunidade de atingir seus objetivos e, renunciando a Dario III, buscou Alexandre oferecendo-lhe cerca de sete mil de seus soldados e aceitando-o como seu lorde. Sanballat, sendo bem recebido por Alexandre, narrou-lhe seus próprios problemas e fez ver a Alexandre que dividindo Jerusalém com dois altos sacerdotes, dividiria também sua força. Contou com a anuência de Alexandre e apressou-se na construção do Templo prometido, fazendo Manasseh alto sacerdote. Entretanto, assim que Alexandre conquistou Tiro e Gaza, Sanballat morreu e Alexandre apressou-se a tomar Jerusalém (cerca de 329 AC), colocando o Alto Sacerdote Jaddua em pânico, fazendo com que adornasse a cidade e abrisse os seus portões para receber o Rei Alexandre. Recebeu Alexandre com toda a pompa, foi por ele muito bem aceito e conduzido ao Templo, onde ofereceu sacrifício ao Deus dos Judeus, tratando magnificamente o Alto Sacerdote e os demais sacerdotes. Tal foi a maneira como Alexandre atendeu a todas as reivindicações dos Judeus, que muitos deles se prontificaram a marchar sob suas ordens para as suas novas conquistas. Após Alexandre ter acertado todos os assuntos em Jerusalém, conduziu seu exército pelas cidades vizinhas que o receberam muito bem. A partir dessa época, a Palestina passou a ser chamada de Palestina Helenística. Vendo que os judeus o haviam recebido tão bem, os samaritanos, que tinham Shechem por sua metrópole (uma cidade situada no monte Gerizzim e habitada por apóstatas da nação judia), manifestaram, como de outras vezes, sua descendência judia, igualmente saudando o rei Alexandre.
A Província Helenística de Judá
O Império Persa, sob o qual os judeus haviam desfrutado de uma autonomia limitada, foi, portanto, conquistado por Alexandre, o Grande, da Macedônia, no século IV AC. Em 313 AC, Alexandre anexou a Terra de Israel ao seu crescente império, marcando uma nova fase de dominação estrangeira. A ascensão meteórica de Alexandre ao poder e a extensão de seu domínio por vastas regiões do mundo antigo, tudo antes de completar 30 anos, tiveram um impacto notável na história judaica.
A conquista de Alexandre não se deu apenas pela força militar, mas também pela disseminação da língua e cultura gregas num processo conhecido como helenização. O helenismo, a disseminação da cultura e língua gregas, teve um impacto profundo e complexo no judaísmo. A língua grega tornou-se um veículo de comunicação universal em todo o Oriente Médio, facilitando um diálogo cultural entre gregos e civilizações orientais. Em algumas comunidades da diáspora, notadamente em Alexandria, no Egito, os judeus se abriram à cultura helenística, assimilando-a em vários níveis, desde a língua até o pensamento e o modo de vida. Um dos produtos literários mais importantes desse contato foi a tradução da Bíblia hebraica para o grego, conhecida como a Septuaginta, realizada em etapas entre o século III e o século I AC em Alexandria. Essa tradução foi crucial para os muitos judeus da diáspora que haviam perdido o contato com a língua hebraica e para a difusão do pensamento judaico no mundo helenístico. No entanto, a influência helenística não foi uniformemente aceita. Enquanto os judeus dispersos, especialmente no Egito, mantiveram um diálogo fecundo com a cultura grega, os judeus residentes na Terra de Israel, rejeitaram fortemente a cultura helênica imposta, pois a viam como uma ameaça direta à sua identidade judaica. Dessa interação e confronto de culturas, surgiu uma rica produção literária, tanto de apoio ao helenismo (literatura de justificação) quanto de rejeição a ele (literatura de resistência). A interação entre o judaísmo e o helenismo não foi uma simples dicotomia de aceitação ou rejeição, mas um espectro de respostas que moldou profundamente a identidade judaica. A tradução da Septuaginta, por exemplo, não foi apenas um ato de adaptação linguística, mas um empreendimento que tornou as Escrituras judaicas acessíveis a um público mais amplo, incluindo os gentios, e que influenciaria profundamente o desenvolvimento do cristianismo. A resistência ao helenismo forçado, por outro lado, fortaleceu a convicção religiosa e a coesão identitária dentro da Judeia, culminando com a Revolta dos Macabeus. Essa dualidade de adaptação e resistência demonstra a capacidade do judaísmo de se engajar com culturas dominantes sem perder sua essência, um modelo de resiliência que se repetiria ao longo de sua história.

VII – DA MORTE DE ALEXANDRE, O GRANDE, À REVOLTA DOS MACCABEUS

Com a súbita morte de Alexandre, o Grande, em 323 AC, seus generais e sucessores, os “Diadochi” (Sucessores), lutando pela sucessão, acabaram por dividir o reino entre si: Seleucus I Nicator (que deu origem ao Reino Selêucida), obteve a Ásia (Ásia Menor, Síria, Mesopotâmia e Babilônia); Lysimachus governou a Trácia (Trácia propriamente e grande parte da atual Turquia); a Cassandro coube a Macedônia (que incluía a Macedônia e toda a Grécia); e a Ptolomeu I Soter coube o Egito (Egito propriamente dito, a região da Silícia, na Ásia Menor e parte da Palestina). 
Partição do reino de Alexandre entre seus generais
A Judeia, anteriormente sob o domínio persa e estrategicamente localizada entre os reinos ptolomaico e selêucida, tornou-se um ponto de disputa constante entre entre os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, sob o governo ptolomaico, as práticas religiosas judaicas foram toleradas. No entanto, a transição para o domínio selêucida, especialmente sob Antiocus IV Epifânio, traria uma nova e severa ameaça à identidade judaica. Essa instabilidade política e a subsequente mudança de controle de um império tolerante (Ptolomeu) para um opressor (Selêucida) demonstraram a vulnerabilidade contínua da comunidade judaica a forças externas. Essa sucessão de dominações estrangeiras, cada uma com suas próprias políticas e impactos culturais, forçou os judeus a desenvolverem estratégias de resistência e adaptação, que se manifestariam em movimentos religiosos e políticos distintos, preparando o terreno para a Revolta dos Macabeus.
Com as alterações das guerras durante os primeiros anos dos Diadochi, o Reino de Judá foi, inicialmente, para o comando dos Ptolomeus que governavam o Egito, seguido do comando Selêucida no segundo século AC, com Antiocus III, o Grande. A incorporação de Judá ao reino ptolomaico como uma unidade administrativa separada (Hiparquia) liderada pelos Alto Sacerdotes Judeus, que foram diretamente responsáveis pelo governo na Alexandria, foi responsável por isso. Em contraste, os hiparcas diretamente instalados pelo rei Ptolomaico, gerenciaram todas as outras hiparquias na Selesíria, tais como a Samaria, Galileia, Idumeia e Ashdod.
Ptolomeu I reinou sobre Jerusalém de maneira cruel, num certo momento tomando grande número de cativos das partes montanhosas da Judeia e de locais em torno de Jerusalém e Samaria e próximos do Monte Gerizzim e conduzindo-os para o Egito, onde se tornaram responsáveis pela região de Alexandria. Posteriormente outros judeus, por sua própria vontade, deslocaram-se para o Egito pela qualidade dos seus solos e pela liberalidade de Ptolomeu.
Em contraste com o que sabemos sobre as atividades dos Ptolomeus na Palestina, são virtualmente nulas as informações que se têm sobre as atuações políticas dos judeus ao tempo dos Diadochi. As províncias praticamente não se envolveram em eventos geopolíticos. Contudo, as variações no poder político também tiveram consequências significativas para Judá, que se refletiram mesmo na cunhagem de moedas. A Judeia continuou a ser governada pelo Alto Sacerdote e a aristocracia sacerdotal. Um dos poucos incidentes de que se tem notícia foi a questão sobre a taxação entre o Alto Sacerdote Onias e Ptolomeu III Euergetes (que reinou entre 246 e 221 AC) que frequentava o Templo de Jerusalém. O resultado da disputa foi a indicação do jovem José, filho de Tobias, um sobrinho do Alto Sacerdote, como coletor de impostos para todo o país. A rivalidade entre a família de Tobias e do Alto Sacerdote Onias acabou tendo um papel importante na tentativa radical da Helenização da Judeia no segundo século AC.
Quando Onias morreu, seu filho Simon, o Justo, tornou-se seu sucessor. Com a morte de Simon (que havia deixado um filho também com o nome Onias), seu irmão Eleazar tornou-se o Alto Sacerdote, sendo responsável pela libertação de mais de 100.000 judeus escravos no Egito, por ordem de Ptolomeu.
Durante os anos de conflito entre Ptolomeus e Selêucidas, cada um dos rivais era apoiado por uma facção judia. A Gerousia (Conselho dos Anciãos), mencionada pela primeira vez em fontes dessa época, apoiava os Selêucidas. Há registros de que o Alto Sacerdote Simon, o Justo, (cerca de 200 AC), que provavelmente liderou a Gerousia, teria apoiado os Selêucidas. Provavelmente ele teria recuperado o poder sobre a taxação, anteriormente entregue a José, filho de Tobias, agora encarregado da renovação do Templo e da Cidade.
Em 221 AC o rei Selêucida Antiochus III (223 a 187) invadiu a Palestina pela primeira vez, sem ter o sucesso da conquista. A morte do rei Ptolomeu IV Philopator, em 203 AC abriu o caminho a Antiochus III para novas tentativas e em 201 AC ele invadiu o país novamente, conquistando-o rapidamente.
Quando Antiochus III tomou o controle da Judeia, ele afirmou o direito dos judeus de viverem de acordo com suas leis ancestrais. Contudo, apenas 30 anos após, os judeus proponentes de uma helenização extrema veriam seu filho o rei Selêucida Antiochus IV Epiphanes, como o agente que poria em ação seus planos de helenizar Jerusalém e seu povo. Ao tempo em que o domínio dos Ptolomeus na Palestina terminou, cidades gregas haviam se estabelecido por todo o país e o helenismo havia firmado fortes bases a ponto de dividir a nação antes que a Judeia recuperasse sua independência. Cerca de 198 AC, os Selêucidas estavam solidamente no controle e assim permaneceriam até a revolta dos Macabeus (168-164 AC), que enfraqueceu o poder do Império Selêucida, preparando o caminho para o início da dinastia local Hasmoneana. Em seguida ao cerco de Jerusalém por Pompeu, o Grande, em 63 AC, a região foi anexada pela República Romana, marcando o fim da Palestina Helenística e o início da Judeia Romana.
Antiochus III devia uma grande quantia de dinheiro aos romanos e a fim de obter esses recursos ele decidiu roubar um templo. O povo do templo de Bel in Lam, para vingar-se, matou Antiochus e todos os que o ajudaram, em 187 AC. Antiochus III foi sucedido por seu filho Seleucos IV Philopater que simplesmente defendeu a área de Ptolomeu V antes de ser assassinado por seus ministros em 175 AC. Seu irmão, Antiochus IV Epiphanes, tomou seu lugar. Antes de matar o rei anterior, o ministro Heliodorus tentara roubar os tesouros do Templo em Jerusalém e Antiochus IV foi informado disso por um rival do atual Alto Sacerdote Onias III que proibira a entrada de Heliodorus no Templo. Onias III foi chamado para explicar por que um ministro do rei fora impedido de acessar as dependências do Templo. Em sua ausência, seus rivais colocaram um novo Alto Sacerdote em seu lugar, Jason (versão helenizada de Josué), irmão de Onias III. 
A Palestina à época dos Macabeus
A perseguição selêucida sob Antiochus IV Epifânio (175-164 AC) foi o catalisador para a Revolta dos Macabeus. Antiochus, que se autodenominava "deus manifesto", buscou impor uma assimilação cultural e religiosa forçada sobre os judeus. Ele proibiu práticas religiosas judaicas, como a observância das leis alimentares, a circuncisão e o Sábado, e ordenou a adoração do deus grego Zeus. O ápice de sua profanação ocorreu em 167 AC, quando ele sacrificou um porco no Templo de Jerusalém, transformando-o em um local de culto sincrético pagão-judaico.
Essa opressão desencadeou a Revolta dos Macabeus, uma rebelião judaica liderada por Matatias, um sacerdote judeu, e seus cinco filhos, notavelmente Judas Macabeu, um competente general judeu. A resistência ganhou força com revoltas populares e uma campanha militar contra as forças selêucidas. Um dos momentos mais simbólicos da revolta foi a recuperação e purificação do Templo de Jerusalém pelos Macabeus, um evento celebrado até hoje no festival judaico de Hanukkah.
A Revolta dos Macabeus foi uma resposta à tentativa de aniquilação cultural e religiosa, e seu sucesso em repelir os gregos e estabelecer um reino independente marcou uma fase importante na história judaica. A profanação do Templo por Antiochus IV não foi apenas um ato de tirania, mas uma violação do cerne da identidade judaica, que considerava o Templo como o centro de sua fé e unidade. A revolta, portanto, não foi apenas uma luta por independência política, mas uma defesa existencial da religião e da identidade do povo. O estabelecimento de Hanukkah como uma festa duradoura reforça a importância da memória histórica e da resiliência religiosa como elementos centrais da identidade judaica.
Os Macabeus começaram a chamar a atenção do rei Antiochus IV em 165 AC, que mandou seu chanceler Lysias pôr um fim à revolta. Para tanto, Lysias enviou três generais que foram todos derrotados pelos Macabeus. O próprio Lysias enfrentou a questão que foi então solucionada por negociação.
Após a morte de Antiochus IV em 164 AC, seu filho Antiochus V, tendo Lysias como regente, deu aos judeus liberdade religiosa.
Ao tempo da re dedicação do Templo, durante o cerco da fortaleza de Acre, Eleazor, um dos irmãos de Judas Macabeus foi morto. Os Macabeus tiveram que se retirar para Jerusalém onde foram totalmente batidos. Contudo Lysias teve que abandonar pela contradição sobre quem seria o regente de Antiochus V. Pouco depois ambos foram assassinados por Demetrius I Soter que se tornou o novo rei selêucida. O novo Alto Sacerdote, Alcimus, tinha vindo a Jerusalém em companhia de um exército conduzido por Bacchides. Judas Macabeus conseguira há pouco um tratado com os romanos, quando foi morto em Jerusalém lutando contra o exército de Bacchides. O irmão de Judas Macabeus, Jonathan, o substituiu e por oito anos não pode fazer muita coisa. Contudo, em 153 o Império Selêucida começou a enfrentar problemas. Jonathan aproveitou a oportunidade para oferecer suas tropas a Demetrius I, como tentativa para retomar Jerusalém.
Em 152 AC, Alexandre Balas, da família Selêucida, aportou no território Fenício (costa norte da Palestina) e iniciou uma guerra civil contra Demetrius I Soter, apoiado por mercenários e facções descontentes do Império Selêucida. Em batalha decisiva em julho de 150 AC, Demetrius I foi derrotado e morto por Alexandre Balas que governou o Império Selêucida de 150 a agosto de 145 AC como Alexandre I Theopator Euergetes. Jonathan foi indicado Alto Sacerdote por Alexandre Balas e quando os conflitos entre Ptolomeu do Egito e os Selêucidas reiniciaram, ele tomou o controle da fortaleza de Acre. Em 142 Jonathan foi morto e seu irmão Simão tomou seu lugar. (Parte 5 na próxima postagem)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 3

III.2 – CONQUISTA HELÊNICA E IMPÉRIO SELÊUCIDA (312-248 AC)


Alexandre, o Grande, da Macedônia

Entre 334 e 331 AC, Alexandre III, o Grande, da Macedônia, derrotou Dario III nas batalhas de Granicus, Issus e Gaugamela, rapidamente conquistando todo o Império Persa. Como rei do Império Persa, Alexandre ainda invadiu a Índia, em 326, conquistando importantes batalhas e retornando, finalmente, à Babilônia, por solicitação de suas tropas, ansiosas por retornar ao lar. Morreu na Babilônia, no palácio de Nabucodonosor, em 323 AC, cidade em que planejava estabelecer a capital do seu império, sem executar uma série de campanhas planejadas que seriam iniciadas com uma invasão da Arábia.
Jovem e sem deixar herdeiro (seu único filho legítimo conhecido, Alexandre IV, gerado por Roxane, nasceria após a morte de Alexandre), o império macedônico de Alexandre entrou em colapso e passaria por 40 anos de guerras civis, ao final das quais o mundo helenístico se estabeleceria em quatro blocos estáveis de poder: o Egito Ptolomaico[1], a Mesopotâmia e Ásia Central Selêucida, a Anatólia Atálida[2] e a Macedônia Antigônida (de Antígono II ou Gônatas). Durante o processo, Alexandre IV e Felipe III (um meio irmão de Alexandre) foram assassinados. 
Seleucos I Nicator, primeiro
imperador grego da Pérsia
após Alexandre
Seleucos I Nicator, um dos generais de Alexandre, estabeleceu-se na Babilônia em 312 AC - ano geralmente usado para definir a data da fundação do Império Selêucida -, assumindo o controle da Pérsia e Mesopotâmia e formando o Império Selêucida, sua descendência ficando conhecida como a dinastia Selêucida. Após vencer Antígono Monoftalmo (da Macedônia) na Batalha de Isso em 301 AC, ao lado de Lisímaco, Seleucos obteve controle sobre a Anatólia oriental e sobre a parte norte da Síria. Nessa última área, fundou uma nova capital em Antióquia (antiga Antakia, na Síria, hoje na Turquia), às margens do rio Orontes, próximo ao Mediterrâneo, cidade a qual deu o nome do pai. Uma outra capital alternativa foi estabelecida em Selêucia, margem ocidental do Tigre, ao norte da Babilônia, Mesopotâmia. O império de Seleucos alcançou sua extensão máxima após a morte de seu aliado de longa data, Lisímaco, na Batalha de Corupédio em 281 AC. Seleucos ampliou seu controle, abarcando a Anatólia ocidental. Ainda tinha esperanças de controlar as terras de Lisímaco na Europa - Trácia, e mesmo a própria Macedônia -, mas terminou por ser assassinado em 281 AC por Ptolomeu Cerauno, da Macedônia, logo ao chegar ao continente europeu.
Seu filho e sucessor, Antíoco I Sóter, mostrou-se incapaz de recomeçar de onde seu pai havia parado, nunca conquistando as partes europeias do império de Alexandre. Ainda assim, possuía um reino incrivelmente vasto - consistia de basicamente todas as porções asiáticas do império e a tarefa de apenas manter o império já foi formidável, tendo como inimigos mais importantes Antígono II Gônatas, na Macedônia, e Ptolomeu II Filadelfo, no Egito.
Uma revolta na Síria eclodiu quase imediatamente. Logo foi obrigado a fazer paz com o assassino de seu pai, Ptolomeu Cerauno, aparentemente abandonando a Macedônia e a Trácia. Na Anatólia não pôde subjugar a Bitínia (região a noroeste da Ásia Menor, na costa do Mar Negro) ou as dinastias persas que governavam na Capadócia (região central da Ásia Menor). Em 278 AC os gauleses (povos de origem celta oriundos do oeste europeu, principalmente França atual) irromperam na Anatólia e Antíoco I conseguiu vencê-los utilizando elefantes de guerra da Índia.
Ao final de 275 AC, a questão da Coele-Síria[3], aberta entre as casas de Seleucos e Ptolomeu, desde a repartição de 301 AC, levou a hostilidades (Primeira Guerra Síria). Embora sempre estivesse no domínio ptolomaico, a casa de Seleucos manteve sua reivindicação. A guerra não alterou materialmente as fronteiras dos dois reinos, embora cidades fronteiriças como Damasco e os distritos costeiros da Ásia Menor pudessem trocar de mãos.
Seu filho mais velho, Seleucos, havia governado no oriente, como vice-rei, de 275 AC até 268/267 AC e foi condenado à morte por Antíoco sob acusação de revolta. Cerca de 262 AC, Antíoco tentou quebrar o crescente poder de Pérgamo pela força das armas, mas foi derrotado e morreu pouco depois, sendo sucedido por seu segundo filho Antíoco II Theos (261 AC)
Antíoco II Theos herdou de seu pai em 261 AC, um estado de guerra com o Egito Ptolomaico, a “Segunda Guerra Síria”, lutada ao longo das costas da Ásia Menor, e as constantes intrigas de déspotas triviais e agitadas cidades estados da Ásia Menor. Antíoco II também fez alguma tentativa para colocar um pé na Trácia. Durante a guerra, recebeu o título Theos (Deus em grego) dos cidadãos de Mileto por ter libertado a cidade de seu tirano Timarchus. Durante o tempo em que se ocupava com a guerra contra o Egito, seu sátrapa na Pártia[4], Andrágoras, proclamou sua independência. Da mesma forma, seu sátrapa, Diodotus, na Báctria[5], também revoltou-se, em 255 AC, fundando o reino Greco-Bactriano que, posteriormente, expandiu-se na Índia, em 180 AC, para formar o Reino Indo-Grego (180-1 AC). Então, cerca de 238 AC, Arsaces conduziu uma revolta dos partas contra Andrágoras, conduzindo à fundação do Império Parta.
Por essa época, Antíoco II fez paz com Ptolomeu II Filadelfo, encerrando a Segunda Guerra Síria. Para selar o pacto, Antíoco repudiou sua esposa Laodice I e exilou-a em Éfeso (costa oeste da Anatólia, próximo de Mileto), casando-se com a filha de Ptolomeu, Berenice, recebendo importante dote. Durante sua estada em Éfeso, Laodice I urdiu várias tramas para tornar-se rainha novamente. Em 246 AC, Antíoco II havia deixado Berenice e seu filho pequeno, Antíoco, na Antióquia, para viver novamente com Laodice I, na Ásia Menor. Laodice usou a oportunidade para envenenar Antíoco, enquanto seus sectários assassinavam Berenice e seu filho na Antióquia. Laodice então proclamou rei Seleucos II, seu filho mais velho com Antíoco.
Quando Seleucos II Calínico, subiu ao trono por volta de 246 AC os selêucidas já estavam em declínio. Além das secessões da Pártia e da Bactriana, seu reinado começou a Terceira Guerra Síria. Ptolomeu III, irmão de Berenice e governante do Egito, invadiu o Império Selêucida marchando vitorioso para o Tigre e além. Teve a submissão das províncias orientais do Império Selêucida enquanto as frotas egípcias varriam a costa da Ásia Menor. Seleucos II permaneceu seguro no interior da Ásia Menor e quando Ptolomeu voltou ao Egito, conseguiu recuperar o norte da Síria e as províncias mais próximas do Irã. Contudo, Antíoco Hierax, um irmão mais jovem de Seleucos II, se estabelecera como seu rival na Ásia Menor, com um grupo ao qual a própria Laodice aderira. Na Batalha de Ancyra (cerca de 235 AC), Seleucos II sofreu uma enorme derrota e deixou o país, além das montanhas Taurus (cadeia de montanhas que separa a região costeira mediterrânea do sul da Turquia do Planalto Central Anatoliano), para o seu irmão e outras potências da península. Seleucos II então empreendeu uma marcha forçada para recuperar a Pártia, o que resultou em nada. Alguns autores mencionam que ele teria feito uma paz com Arsaces da Pártia, que reconhecera sua realeza. Também na Ásia Menor a dinastia selêucida perdia controle, pois os gauleses já se haviam estabelecido completamente na Galácia[6]; reinos semi-independentes e semi-helenizados haviam surgido na Bitínia, em Ponto[7] e na Capadócia (região da Anatólia Central); e a cidade de Pérgamo, no ocidente, sob Áttalus I, asseverava sua independência sob a Dinastia Atálida, formando o Reino de Pérgamo. Antíoco Hierax, após uma tentativa fracassada para tomar os domínios de seu irmão, quando os seus próprios se perdiam, pereceu como fugitivo na Trácia em 227 AC. Cerca de um ano mais tarde, Seleucos II foi morto numa queda do seu cavalo, sendo sucedido por seu filho mais velho Seleucos III Cerauno e, posteriormente, por seu filho mais novo Antíoco III, o Grande. 
Antíoco III, recriador do império Selêucida
Seleucos III Soter, chamado Seleucos Cerauno, teve um breve reinado de três ano (225-223 AC) e foi assassinado na Anatólia por membros do seu exército enquanto em campanha contra Attalus I de Pérgamo.
O irmão de Seleucos III Cerauno estava na Babilônia quando do seu assassinato e sucedeu-o como Antíoco III, em 223 AC, herdando um estado desorganizado. Entretanto, sob o seu governo, a Pérsia teve um reflorescimento e Antíoco III se tornaria o maior dos governantes selêucidas após o próprio Seleucos I.
A Ásia Menor havia se separado e as províncias mais orientais se haviam dissolvido: a Báctria, sob o grego Diodotus de Báctria e a Pártia sob o chefete Arsaces. Logo que subiu ao poder, a Média (região noroeste do Irã, base cultural e política dos medas) e Fars se revoltaram com seus governadores, os irmãos Molon e Alexander.
O jovem rei, sob a influência do ministro Hermeias, chefiou um ataque à Síria Ptolomaica ao invés de enfrentar pessoalmente os rebeldes. O ataque contra o Império Ptolomaico foi um fiasco e os generais enviados contra Molon e Alexander foram um desastre. Somente na Ásia Menor, onde Aqueus, primo do rei, representou a causa Selêucida, seu prestígio foi recuperado, com o envio do poder Pérgamo de volta aos seus limites anteriores. Finalmente, em 221 AC, Antíoco III foi para o leste abafando a rebelião de Molon e Alexander. Seguiu-se a submissão da Média Menor, que havia feito sua independência com Artabazanes, após o que retornou para a Síria. Enquanto isso, o próprio Aqueus agora se revoltava, tomando o título de rei na Ásia Menor; admitindo que seu poder não estivesse sedimentado para um ataque à Síria, Antíoco desistiu de Aqueu, na ocasião, preferindo renovar suas tentativas contra a Síria Ptolomaica.
As campanhas de 219 e 218 AC levaram os exércitos selêucidas aos confins do reino ptolomaico, mas em 217 AC, Ptolomeu IV derrotou Antíoco III na Batalha de Ráfia, anulando todos os seus sucessos e causando a sua retirada para o norte do Líbano, embora ainda mantendo o controle de Selêucia Pieria (o porto de Antióquia). Em 216 AC os exércitos de Antíoco III marcharam para a Anatólia ocidental para abafar uma rebelião liderada por seu próprio primo, Aqueu. Em 214 AC Aqueu foi derrotado, preso e executado, mas a cidadela foi mantida até 213 AC por sua viúva Laodice, que então se rendeu. Tendo assim recuperado a parte central da Ásia Menor (já que o governo Selêucida teve que tolerar as dinastias de Pérgamo, Bitínia e Capadócia), Antíoco III iniciou a recuperação das províncias externas do norte e leste. Obrigou Xerxes da Armênia a reconhecer sua supremacia em 212 AC. Em 209, invadiu a Pártia, ocupando a capital do Império Parta, avançando até a Hircânia (sudeste do mar Cáspio, moderno Irã) e com o rei parta, Arsaces II, aparentemente implorando por paz.
O ano de 209 viu Antíoco III na Báctria, onde derrotou o rei greco-bactriano Eutidemo I (que se havia revoltado contra Diodotus) na batalha de Arius. Após sustentar um cerco em sua capital Bactra, Eutidemo I obteve uma paz honrosa pela qual Antíoco III prometeu a seu filho Demétrius a mão de uma de suas filhas. Seguindo os passos de Alexandre, atravessou para o Vale de Kabul (no atual Afeganistão), alcançando o reino do rei indiano Sofagaseno, em 206 AC.
Impérios Romano, Selêucida e Parta no ano 200 AC
De Selêucia, Antíoco III conduziu uma curta expedição ao Golfo Pérsico contra a Gerrha (margem ocidental do Golfo) na costa da Península Arábica, em 204/205 AC. Parece ter restaurado o Império Selêucida no leste, o que lhe fez merecer o título de “o Grande”. Nessa mesma época, Ptolomeu V Epifânio assumia o trono do Egito, quando Antíoco III teria feito um pacto com Felipe V da Macedônia para repartir as suas possessões. Por tal pacto, Felipe receberia as terras em torno do mar Egeu e Cirena (na atual Líbia), ao passo que Antíoco III anexaria o Egito e Chipre. Uma vez mais, Antíoco III atacaria a província de Coele-Síria e Fenícia e por 199 AC parece ter tido sua posse antes de que Scopas a recuperasse brevemente para Ptolomeu. Em 198 AC, Antíoco III derrotaria Scopas na batalha de Panium, próximo das fontes do rio Jordão, marcando o fim do domínio ptolomaico na Judéia e restaurando a glória do Reino Selêucida.
Antíoco III ainda realizou outras incursões à Ásia Menor quando enfrentou o antagonismo da República Romana, principalmente ao se aproximar do cartaginês Aníbal. Em 192 AC invadiu a Grécia, mas em 191 os romanos forçaram sua retirada para a Ásia Menor, logo invadida por eles que, já em 190 AC, a tinham em suas mãos. Pelo tratado de Apamea (188 AC), Antíoco III abandonou todo o país ao norte e oeste das montanhas Taurus. Como consequência deste golpe no poder Selêucida, as províncias externas do império, recuperadas por Antíoco III, readquiriram suas independências. Numa nova expedição ao Luristão, enquanto pilhando um templo persa, Antíoco III morreu em 187 AC.
O reino de seu filho e sucessor, Seleucos IV Filopator (187-175 AC), foi consumido na busca de recursos para pagamento de grandes indenizações aos romanos; ele acabou assassinado por seu ministro Heliodoro.
O irmão mais novo de Seleucos IV, Antíoco IV Epifânio, assumiu o trono em seu lugar e tentou restaurar o poderio e o prestígio Selêucida, iniciando por uma guerra contra o Egito Ptolomaico, antigo inimigo, derrotando e perseguindo o exército egípcio até Alexandria. Antíoco IV foi então informado de que delegados romanos, liderados pelo procônsul Gaius Popillius Laenas, solicitavam um encontro com o rei selêucida, que concordou. Sem quaisquer preâmbulos, Antíoco IV foi instado a retirar-se do Egito por ordem do senado, com o que concordou para não entrar em guerra com o império romano novamente. A última parte do seu reino assistiu a uma crescente desintegração do Império, embora seus maiores esforços. Enfraquecido econômica, militar e por perda de prestígio, o Império tornou-se vulnerável a rebeldes nas áreas orientais, que começaram a mais solapar o reino, enquanto os Partas ocupavam o seu vácuo de poder para ocupar os antigos territórios persas. A agressiva helenização (ou desjudaização) provocou uma rebelião armada total na Judea – a Revolta dos Macabeus. Os esforços consumidos com os Partas e Judeus, bem como para manter o controle das províncias, provaram estar além do poder do Império enfraquecido. Antíoco morreu durante uma expedição militar contra os partas em 164 AC.
Após a morte de Antíoco IV, o império Selêucida tornou-se crescentemente instável, tendo que enfrentar guerras civis que enfraqueciam a autoridade central. Seu filho mais jovem, Antíoco V Eupator, foi destronado pelo filho de Seleucos IV, Demétrio I Soter, em 161 AC, que tentou restaurar o poder selêucida na Judea, particularmente. Foi derrubado em 150 AC por Alexander Balas, um impostor que (com apoio do Egito), reivindicava ser filho de Antíoco IV. Alexander Balas reinou até 145 AC quando foi destronado pelo filho de Demétrio I, Demétrio II Nicator que se mostrou incapaz de controlar o reino. Enquanto dominava a Babilônia e a Síria oriental, de Damasco, os restantes apoiadores de Balas, dominavam na Antióquia. Por 143 AC os judeus, sob os Macabeus, haviam consolidado sua independência. A expansão Parta prosseguia. Em 139 AC, Demétrio II era derrotado e capturado em batalha, pelos Partas. Por essa época, todo o Platô Iraniano havia sido perdido para o controle Parta.
O irmão de Demétrio II Nicator, Antíoco VII Sidetes, assumiu o trono com a captura de seu irmão. Enfrentou a enorme tarefa de restaurar um império em rápida desagregação e enfrentando ameaças em várias frentes. O controle da Coele-Síria era ameaçada pelos rebeldes macabeus judeus. Antigas dinastias vassalas na Armênia, Capadócia e Ponto, ameaçavam a Síria e o norte da Mesopotâmia; os nômades partas, brilhantemente liderados por Mitrídates I da Pártia, haviam dominado as áreas altas da Média; a intervenção romana era uma ameaça permanente. Antíoco VII conseguiu submeter os Macabeus e manter as dinastias da Anatólia sob submissão temporária. Em 133 AC ele se dirigiu para o leste com o pleno poder do exército real apoiado pelo príncipe Hasmoneano, João Hircanus, para fazer retroceder os Partas. Teve um sucesso inicial espetacular, recapturando a Mesopotâmia, Babilônia e Média, e derrotando e matando em combate pessoal, o sátrapa parta da Selêucia. No inverno de 130/129 AC, seu exército estava disperso pela Média e Fars quando o rei Parta, Fraates II, contra-atacou. Contando apenas com as tropas imediatamente à disposição, Antíoco VII Sidetes, algumas vezes chamado “o último grande rei selêucida”, foi emboscado e morto pelos Partas. Após a sua morte, todos os territórios orientais recuperados foram recapturados pelos Partas, os Macabeus se rebelaram novamente, a guerra civil dividiu o império em pedaços e os Armênios começaram a invadir a Síria, pelo norte.
Mitrídates VI, último rei do império Selêucida
Cerca de 100 AC, aquele que havia sido uma vez o formidável Império Selêucida, limitava-se apenas à Antióquia e algumas cidades sírias. A despeito do claro colapso do seu poderio e do declínio do seu reino em torno deles, os nobres continuaram a brincar de “fazedores de reis” numa base regular, com ocasionais intervenções do Egito e outras potências estrangeiras. Os selêucidas existiram somente porque nenhuma nação os quis absorver, usando-os como um útil amortecedor entre outros vizinhos. Nas guerras da Anatólia, entre Mitrídates VI do Ponto (que não tem nada a ver com os Mitrídates da dinastia Parta) e Sulla (general, estadista e cônsul romano por duas vezes) de Roma, os selêucidas foram totalmente abandonados por ambos. O ambicioso genro de Mitrídates VI, Tigranes o Grande, rei da Armênia, contudo, viu a oportunidade para expansão na constante disputa para o sul e, em 83 AC, com o convite de uma das facções nas intermináveis guerras civis, ele invadiu a Síria estabelecendo-se como seu governante e dando um fim ao Império Selêucida, virtualmente.
Cneu Pompeu Magno, o
derradeiro golpe romano
no império Selêucida
O domínio selêucida, contudo, não acabara totalmente. Em seguida à derrota de Mitridates e Tigranes em 69 AC pelo general romano Lucullus, muito próximo de Sulla, um resto do reino selêucida foi restaurado sob Antíoco XIII. Mesmo assim, as guerras civis não terminaram, pois um outro selêucida, Felipe II, contestou o poder. Após a conquista romana do Ponto, os romanos ficaram crescentemente alarmados com a constante fonte de instabilidade na Síria sob os Selêucidas. Assim que Mitrídates VI foi derrotado por Pompeu, em 63 AC, este se encarregou de refazer o Oriente helenístico, com a criação de novos reinos clientes e o estabelecimento de províncias. Enquanto nações clientes como Armênia e Judea puderam continuar com algum grau de autonomia som o domínio de reis locais, Pompeu via os selêucidas como muito complicados para continuar. Acabando com os dois príncipes selêucidas rivais, ele tornou a Síria uma província romana.
Império Selêucida em sua máxima extensão,
às vésperas da morte de Seleucos I, 281 AC
A língua, filosofia e arte gregas vieram com os colonizadores. Durante a Era Selêucida, a língua grega tornou-se a linguagem comum da diplomacia e literatura por todo o Império Persa e o zoroastrismo foi levado para o oeste, vindo a influenciar o judaísmo. A extensão do Império Selêucida, que cobria desde o mar Egeu até o atual Afeganistão, trouxe uma multidão de povos: gregos, persas, medos, sírios, judeus, indianos, entre outros. Sua população total foi estimada em 35 milhões de habitantes, ou 15% da população mundial na época em que era o maior e mais poderoso império do mundo. Seus governantes mantinham uma posição política cujo interesse era salvaguardar a ideia de unidade racial introduzida por Alexandre. Em 313 AC, os ideais helênicos (disseminados por filósofos, historiadores, oficiais em reserva e casais de ligação inter-racial provindos do vitorioso exército macedônio) haviam começado sua expansão de quase 250 anos nas culturas do Oriente Médio e da Ásia central. O esqueleto estrutural da forma de governo do império consistia em estabelecer centenas de cidades para troca e ocupação. Muitas cidades começaram - ou foram induzidas - a adotar não só pensamentos filosóficos, como também sentimentos religiosos e políticas de natureza helênica. A tentativa de sintetizar o helenismo com culturas nativas e diferentes correntes intelectuais resultou em sucessos de tamanho ou naturezas diferentes - tendo como consequência paz e rebelião simultâneas em diferentes partes do império.


[1] Ptolomeu I Sóter foi um general macedônio de Alexandre, o Grande, que se tornou governador do Egito de 323 AC a 283 AC, fundando a Dinastia Ptolemaica. Tomou o título de rei a partir de 305 AC, instituindo então o culto dinástico do rei-salvador (Sóter), de acordo com a tradição dos Faraós egípcios. Recusou-se a pagar tributo ao rei da Macedônia, sucessor de Alexandre Magno. Fundou um império poderoso que, sem conquistas territoriais, manteve um reconhecido esplendor econômico e cultural, firmado em novas e eficazes formas administrativas. Instituiu sua capital em Alexandria, cidade fundada por Alexandre.
[2] A dinastia Atálida foi uma dinastia helênica que reinou na Anatólia, da cidade de Pérgamo (leste da Anatólia), após a morte de Lisímaco, um general de Alexandre. Um dos oficiais de Lisímaco, Philetaerus, tomou o controle da cidade em 282 AC. Os Atálidas seguintes foram descendentes de seu pai e expandiram a cidade a um reino. Attalus I proclamou-se rei em 230 AC.
[3] Coele-Síria, Coelesíria ou Celesíria, foi uma região da Síria, na antiguidade clássica, limitada pela Síria, Mesopotâmia e Península Arábica. A área hoje é parte das modernas nações do Líbano, Síria e Israel.
[4] A Pártia é uma região histórica no nordeste do Irã, base política e cultural da dinastia Arsácida (ou Parta), governadores do Império Parta (247 AC-224 DC).
[5] Báctria ou Bactriana era o nome de uma região histórica da Ásia Central, localizada entre a cordilheira do Indu Kush e o rio Amu-Darya, cobrindo uma região plana que abrange os atuais Afeganistão, Uzbequistão e Tajiquistão.
[6] Galácia era o nome de uma região da Anatólia central que abrangia a região de Ancara e Çorum, na província de Yozgat da moderna Turquia. Ela recebeu este nome por causa dos imigrantes gauleses vindos da Trácia que se assentaram ali e formaram a classe dominante do século III AC em diante, logo depois da invasão gaulesa dos Balcãs em 279 AC.
[7] O Reino do Ponto foi um antigo estado helenístico, localizado a norte da península da Anatólia, atual Turquia.

terça-feira, 21 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 1)

I - INTRODUÇÃO

A fonte histórica mais segura para acompanhar a saga do povo hebreu é, sem dúvida, o Antigo Testamento da Bíblia, ou o Tora, para os judeus. E aqui aproveito a oportunidade para apresentar o significado de algumas palavras básicas relacionadas.

O Tora (que em hebreu significa “instrução” ou “ensino”), ao qual muitas vezes nos referimos como “Pentateuco”, é o conceito central na tradição religiosa Judaica. Possui uma grande quantidade de significados: pode significar os primeiros cinco livros (Gêneses, Êxodos, Levíticos, Números e Deuteronômio) dos vinte e quatro livros do Tanakh (conjunto dos livros da Bíblia Hebreia), em geral incluindo os comentários rabínicos. O Tora pode significar também “instrução”, oferecendo uma forma de vida para aqueles que o seguem. Ele pode significar a narrativa continuada do Gêneses ao final do Tanakh. Pode até mesmo significar a totalidade do ensinamento, cultura e prática judeus. Comum a todos esses significados, o Tora consiste na narrativa fundamental do povo judeu: seu chamamento por Deus, suas provações e atribulações e seu pacto com seu Deus, que envolve seguir uma forma de vida personificada num conjunto de obrigações e leis civis morais e religiosas.

O Talmud (significando “instrução” ou “aprendizado”, é um texto central do Judaísmo Rabínico. O termo “Talmud” em geral se refere ao Talmud Babilônico, embora haja uma coleção anterior conhecida como o Talmud de Jerusalém. O Talmud tem dois componentes. A primeira parte é o Mishnah (cerca de 200 DC), o compêndio escrito do Tora Oral do Judaísmo Rabínico. A segunda parte é o Gemara (cerca de 500 DC), uma elucidação do Mishna e dos escritos Tanáticos relacionados, que muitas vezes se aventuram por outros assuntos e expõe amplamente a Bíblia Hebreia. O Talmud pode ser usado para significar apenas o Gemara ou o Gemara e o Mishna impressos juntos. O Talmud completo consiste de 63 tratados e, em impressão normal, possui mais de 6.200 páginas e é escrito em hebreu e aramaico. O Talmud contém os ensinamentos e opiniões de milhares de rabis sobre uma variedade de assuntos, incluindo o Halakha (conjunto das leis religiosas judias derivadas do Tora escrito e oral), a ética, filosofia, costumes e história Judia, além de muitos outros tópicos.
Entretanto, mesmo este fantástico documento, torna-se bem difícil de ser acompanhado - ao menos pelos leigos ou pouco conhecedores do assunto – a partir do momento em que o Estado Judeu é invadido pela Babilônia, Jerusalém é devastada, o Templo destruído e grande parte da sua população levada cativa para as longínquas terras da Mesopotâmia. Há muito as doze tribos de Israel já se haviam separado, chegara a época dos profetas e muito do Antigo Testamento passa para o plano figurativo e religioso, tornando a leitura difícil de ser acompanhada e entendida. A história dos Hebreus só volta a ser novamente narrada e entendida após o nascimento de Cristo, através dos Evangelhos (Novo Testamento da Bíblia); nesse caso, segundo o ponto de vista dos primeiros cristãos e de cunho eminentemente religioso, com ênfase em sua figura central, Jesus Cristo.
Certamente existem historiadores contemporâneos (Flavius Josephus – “Josephus” -, Gaius Plinius Secundus – “Plínio, o Velho” – e Philo Jadaeus – “Philo de Alexandria”) que escreveram a sua história à época e, posteriormente, uma grande quantidade de historiadores modernos, usando essas fontes, apresentaram as suas respectivas versões.
O objetivo desta publicação é exatamente tentar preencher essa lacuna. O período que vai da invasão de Israel pela Babilônia e exílio dos hebreus em cativeiro, até a revolta dos judeus contra o império romano, que acabou com a destruição do Templo, pela segunda vez, e a definitiva difusão dos hebreus por todo o mundo; visto pelo prisma exclusivamente histórico.
Como esse assunto vai envolver a participação de vários impérios, já quero deixar claro que não é objetivo deste trabalho o detalhamento individual das suas histórias, mas apenas mostrar as suas relações com a história do povo hebreu durante o período mencionado. Muitos dos impérios que serão mencionados, já foram motivo de outras postagens do pesquisador e podem ser examinados, quando necessário.

II – CONQUISTA DO REINO DE JUDÁ PELA BABILÔNIA

Antes do exílio, Judá era uma monarquia que havia mantido as tradições de Israel, a comunidade tribal uma vez unida sob o Rei Davi. Havia absorvido muito das tradições pan-israelitas, mas ainda era uma comunidade, uma entidade política sem outra finalidade que a de existir, sobreviver e prosperar como uma entidade política.
Entre as principais instituições da Judá pré-exílica, estavam:
  • Os reis davídicos, uma dinastia que reivindicava investidura divina;
  • O templo Salomônico que, com as reformas de curta duração introduzidas por Ezequiel e Josias, abrigou vários cultos;
  • Adivinhos proféticos ao serviço dos reis e também profetas críticos dos reis, advogando somente a adoração de Javé. 
    Nabucodonosor II da Babilônia

O cativeiro babilônico ou exílio babilônico foi o período da história judaica durante o qual um grande número de judeus do antigo reino de Judá permaneceu cativo na Babilônia. Em 605 AC, Nabucodonosor II, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém que não lhe pode defrontar, o que ocasionou a criação de um tributo a ser pago pelo rei hebreu Eliaquim (ou Jeoiaquim). No quarto ano de Nabucodonosor II, Eliaquim recusou-se a pagar o tributo, o que motivou um novo sítio da cidade no sétimo ano do rei babilônico (597 AC), que culminou com a morte do rei de Judá e o exílio de seu sucessor Joaquim (ou Jeconias) - que reinou por apenas três meses -, sua corte e muitos outros, para a Babilônia. Seu sucessor, Zedequias (ou Sedecias ou Matanias), e outros, foram exilados no décimo oitavo ano de Nabucodonosor II (587 AC); uma deportação posterior ainda ocorreu no vigésimo terceiro ano de Nabucodonosor II (582 AC).
Império Babilônico Nabucodonosor II

A completa conquista do reino de Judá pela Babilônia, concretizou-se, portanto, em 587 AC, quando o rei de Judá era Zedequias. Os babilônios destruíram Jerusalém e seu Templo, expurgando os membros da elite da sua população para a Babilônia, aí incluindo Zedequias - cujos filhos foram mortos em sua frente e ele cego e jogado na prisão até a sua morte. Esse período ficou sendo conhecido como “Cativeiro da Babilônia”. A despeito da perda do Templo, o Judaísmo não morreu como religião, embora o culto e o sacrifício no Templo fossem impossíveis. Os judeus se consolidaram em torno dos seus documentos sagrados e o Tora tomou o lugar do Templo como um centro sagrado. O judaísmo tornou-se uma religião de livro, com um foco sagrado portátil. O exílio babilônico dos judeus tornou-se proverbial. Durante e após o exílio, eles desenvolveram uma energia criativa sem precedentes, do que resultou a edição definitiva do Pentateuco, dos livros de Samuel e Reis, de muitos dos livros proféticos e também na composição de uma nova literatura que refletia as preocupações dos que retornaram da Babilônia, muitas vezes mais diretamente, do que a antiga literatura. Durante este período eles editaram suas histórias e escritos sagrados com a visão de que os profetas estavam certos: as desditas das “crianças de Israel” eram devidas à sua desobediência ao pacto, o que resultou na edição definitiva do Tora. O estudo do Tora tornou-se o foco da prática, com encontros semanais em casas de estudo públicas. A ênfase foi colocada nas determinações do Tora que podiam ser seguidas longe do templo, tais como a circuncisão, a observância do Sabá, as leis da pureza e as prescrições de dieta.
Mapa da deportação do povo de Judá

Em 539 AC, o persa Ciro, o Grande, conquistou a Babilônia e por um seu decreto Judá retornou do exílio em 539 AC e foi politicamente reconstruído como uma província administrativa semiautônoma da Pérsia. Passou a ser governada por uma elite sacerdotal cujos pontos de vista e atitudes foram moldados pelos projetos religiosos para reconstrução delineados no exílio. Estavam em desacordo com a população, rigorosamente forçaram a separação da população heterogênea de Judá e governaram à base do Tora. Em 428 AC, Ezra trouxe, da Babilônia para Jerusalém, e promulgou, o Tora, que serviu como o ideal legal de um estado teocrático (governado por sacerdotes ao invés de reis), efetivamente marcando o início da moderna religião judaica. Ezra foi o sacerdote que reorganizou o estado Israelita politicamente e organizou o novo sistema religioso que incluía o estudo do Tora, ficando conhecido como o “Pai do Judaísmo”. Neemias, um funcionário da corte na Pérsia, retornou pouco mais tarde para reconstruir as muralhas da cidade e o templo de Jerusalém, isto é, o Segundo Templo, já que o primeiro havia sido construído por Salomão. A partir daí, a religião passou a ser conhecida como o “Judaísmo do Segundo Templo”. 
Ciro o Grande, Pérsia
A influência persa tornou-se notável na literatura apocalítica judia (simbolismo do bem contra o mal, angelologia, figura do demônio como ano caído e o mal personificado). A língua administrativa de Judá passou a ser o aramaico, língua do império persa, ao invés do hebreu. Uma importante nova instituição foi o uso dos Levitas como sacerdotes auxiliares.
O pouco que sabemos sobre a história do “Judaísmo do Segundo Templo”, de outras fontes, é aumentado por fragmentos de cartas escritas em papiro encontradas por modernos arqueólogos, em Elefantina, escavadas quando a barragem de Assuam, no Egito, foi construída durante a década de 1960.

III – A HELENIZAÇÃO DO ORIENTE MÉDIO E A REVOLTA DOS MACABEUS
Alexandre da Macedônia

Alexandre da Macedônia foi um dos grandes estrategistas militares do mundo e nunca perdeu uma batalha. Suas campanhas foram, basicamente, uma tentativa de vingança pelo fato da Pérsia ter invadido a Grécia em 490 e 480 AC. Cerca de 332 AC, Alexandre havia conquistado o Império Persa (ao qual Judá estava subordinado e praticamente sem expressão como potência militar, após ter retornado do Exílio Babilônico) e dela recuperado o Império do Egito, a costa grega da Ásia Menor ocidental e Tiro, seguindo rapidamente para o leste, até o Paquistão. Alexandre teria passado perto, mas provavelmente nunca visitado Jerusalém.
Após a morte precoce de Alexandre, em 323 AC, com a idade de 33 anos, seus vários generais lutaram entre si até 306-305 AC, quando os vencedores repartiram o Império de Alexandre em três, assim permanecendo até a conquista da região pelos romanos: a Ptolomeu I coube o Egito; a Antigonus I coube a Grécia e a Macedônia; e a Seleucos I coube a Ásia Menor. 
Seleucos I Nicator
Estes acontecimentos encerraram o tempo do poder persa e introduziram a helenização de todo o Oriente Médio. Os judeus continuaram falando aramaico e praticando a religião durante os tempos persas. Mas o período helenístico conduziu a conflitos culturais e políticos muito violentos, finalmente conduzindo à revolta contra o Império Romano (66 DC) durante a qual Judá, Jerusalém e o Templo (símbolo de independência político-religiosa) foram destruídos pela segunda vez.
Entre 332 e 167 AC, após a conquista de Alexandre, Israel foi primeiro governado pelo Egito e então pela Ásia Menor. Isso ocorreu quando Antíoco IV “Epifânio” (“um manifesto de Deus”), um rei selêucida (da dinastia Selêucida, grega, fundada por Seleucos I), invadiu o reino ptolomaico do Egito em 168 AC, aparentemente sem o apoio judeu. É preciso que se tenha em mente que, nessa época, o reino de Judá possuía mínima expressão política em todo o Oriente Próximo, apenas tratando de sobreviver entre o Egito, de um lado, e o império Selêucida, do outro, enquanto fazendo alianças ora com um, ora com outro e sofrendo as consequências de tais alianças.
Antíoco IV Epifânio
Tudo começou quando o Alto Sacerdote Simão II morreu, em 175 AC, e o conflito irrompeu entre os simpatizantes de seu filho Onias III (que se opunha à helenização e apoiava os Ptolomeus) e seu filho Jason (que apoiava a helenização e os Selêucidas). Seguiu-se um período de intriga política com sacerdotes como Menelaus subornando o rei para conquistar o Alto Sacerdócio e acusações de assassinato de disputantes ao título. O resultado foi uma breve guerra civil durante a qual os Tobias, um grupo de filosofia helenística, conseguiram colocar Jason na posição de Alto Sacerdote. Em 175 AC a crise chegou ao clímax quando Jason estabeleceu uma arena para jogos públicos próxima do Templo, segundo estudiosos “convertendo Jerusalém numa cidade grega com ginásios e efebos. 
Simão II Macabeu
Em 167 AC, Antíoco IV respondeu à guerra civil em Jerusalém atacando a cidade e ignorando a pressão da República Romana para se retirar. Ele colocou como fora da lei a prática da religião dos judeus, prometendo a morte a todos os que circuncisassem seus filhos, mantivessem as leis da alimentação “kashrut” (conjunto das leis religiosas judias sobre a alimentação) ou mantivessem o Sabá. Ele realizou o que, na profecia de Daniel, foi denominada a “abominação da desolação”: a profanação do Templo, em Jerusalém, com o sacrifício de um porco ao deus grego Zeus.


Na próxima postagem, continuação da HISTÓRIA DO POVO HEBREU .... com a PARTE 2.