Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

Mostrando postagens com marcador Egito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Egito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 4)

VI – O PERÍODO HELENÍSTICO E A CRISE DE IDENTIDADE (333 AC - 63 AC)

No império Persa, Artaxerxes I foi sucedido por seu filho Xerxes II que foi, por sua vez, assassinado e sucedido por seu meio irmão Soguediano, ambos reinando por períodos muito curtos. Dario II (424 – 404 AC) sucedeu a Soguediano e foi sucedido por seu filho Artaxerxes II, que reinou de 404 AC até a sua morte em 358 AC. Artaxerxes III o sucedeu no trono, sendo sucedido por Dario III, último rei do Império Aquemênida Persa, tendo reinado de 336 a 330 AC.
Alexandre, o Grande, da Macedônia
Por essa época Felipe, rei da Macedônia (norte da Grécia), foi assassinado em Egae, por Pausanias, filho de Cerastes, da família de Orestes, e Alexandre, seu filho, o sucedeu no trono.
Alexandre, passando pelo Helesponto (atual Estreito de Dardanelos) derrotou os generais do exército de Dario III na batalha travada em Cranicum, marchou sobre a Lydia (antigo nome da região oeste da Turquia asiática), subjugou a Ionia, Caria e Pamphylia, avançando para o leste da atual Turquia. Enquanto isso, Dario avançava com seus exércitos para o oeste, visando dar combate a Alexandre em Issus, Cilicia. Sanballat, certo de que Dario derrotaria Alexandre, reafirmou suas promessas a Massaneh. Entretanto, Dario foi batido por Alexandre que tomou a maior parte dos seus exércitos além de aprisionar sua mãe, esposa e filhos, e fugiu para a Pérsia. Alexandre invadiu a Síria, tomando Damasco, Sidon e sitiando Tiro, quando então buscou o alto sacerdote judeu para fornecer suprimentos a seus exércitos. Entretanto, o Alto Sacerdote respondeu-lhe que não transgrediria seu juramento a Dario enquanto este estivesse vivo, pois temia sua represália. Alexandre, evidentemente não gostou de sua resposta e prometeu represália aos judeus assim que tomado Tiro. Isso aconteceu rapidamente e Alexandre chegou a Gaza que foi sitiada e teve o governador da guarnição, Babemeses, preso.
Ao tempo do sítio de Tiro, Sanballat viu um boa oportunidade de atingir seus objetivos e, renunciando a Dario III, buscou Alexandre oferecendo-lhe cerca de sete mil de seus soldados e aceitando-o como seu lorde. Sanballat, sendo bem recebido por Alexandre, narrou-lhe seus próprios problemas e fez ver a Alexandre que dividindo Jerusalém com dois altos sacerdotes, dividiria também sua força. Contou com a anuência de Alexandre e apressou-se na construção do Templo prometido, fazendo Manasseh alto sacerdote. Entretanto, assim que Alexandre conquistou Tiro e Gaza, Sanballat morreu e Alexandre apressou-se a tomar Jerusalém (cerca de 329 AC), colocando o Alto Sacerdote Jaddua em pânico, fazendo com que adornasse a cidade e abrisse os seus portões para receber o Rei Alexandre. Recebeu Alexandre com toda a pompa, foi por ele muito bem aceito e conduzido ao Templo, onde ofereceu sacrifício ao Deus dos Judeus, tratando magnificamente o Alto Sacerdote e os demais sacerdotes. Tal foi a maneira como Alexandre atendeu a todas as reivindicações dos Judeus, que muitos deles se prontificaram a marchar sob suas ordens para as suas novas conquistas. Após Alexandre ter acertado todos os assuntos em Jerusalém, conduziu seu exército pelas cidades vizinhas que o receberam muito bem. A partir dessa época, a Palestina passou a ser chamada de Palestina Helenística. Vendo que os judeus o haviam recebido tão bem, os samaritanos, que tinham Shechem por sua metrópole (uma cidade situada no monte Gerizzim e habitada por apóstatas da nação judia), manifestaram, como de outras vezes, sua descendência judia, igualmente saudando o rei Alexandre.
A Província Helenística de Judá
O Império Persa, sob o qual os judeus haviam desfrutado de uma autonomia limitada, foi, portanto, conquistado por Alexandre, o Grande, da Macedônia, no século IV AC. Em 313 AC, Alexandre anexou a Terra de Israel ao seu crescente império, marcando uma nova fase de dominação estrangeira. A ascensão meteórica de Alexandre ao poder e a extensão de seu domínio por vastas regiões do mundo antigo, tudo antes de completar 30 anos, tiveram um impacto notável na história judaica.
A conquista de Alexandre não se deu apenas pela força militar, mas também pela disseminação da língua e cultura gregas num processo conhecido como helenização. O helenismo, a disseminação da cultura e língua gregas, teve um impacto profundo e complexo no judaísmo. A língua grega tornou-se um veículo de comunicação universal em todo o Oriente Médio, facilitando um diálogo cultural entre gregos e civilizações orientais. Em algumas comunidades da diáspora, notadamente em Alexandria, no Egito, os judeus se abriram à cultura helenística, assimilando-a em vários níveis, desde a língua até o pensamento e o modo de vida. Um dos produtos literários mais importantes desse contato foi a tradução da Bíblia hebraica para o grego, conhecida como a Septuaginta, realizada em etapas entre o século III e o século I AC em Alexandria. Essa tradução foi crucial para os muitos judeus da diáspora que haviam perdido o contato com a língua hebraica e para a difusão do pensamento judaico no mundo helenístico. No entanto, a influência helenística não foi uniformemente aceita. Enquanto os judeus dispersos, especialmente no Egito, mantiveram um diálogo fecundo com a cultura grega, os judeus residentes na Terra de Israel, rejeitaram fortemente a cultura helênica imposta, pois a viam como uma ameaça direta à sua identidade judaica. Dessa interação e confronto de culturas, surgiu uma rica produção literária, tanto de apoio ao helenismo (literatura de justificação) quanto de rejeição a ele (literatura de resistência). A interação entre o judaísmo e o helenismo não foi uma simples dicotomia de aceitação ou rejeição, mas um espectro de respostas que moldou profundamente a identidade judaica. A tradução da Septuaginta, por exemplo, não foi apenas um ato de adaptação linguística, mas um empreendimento que tornou as Escrituras judaicas acessíveis a um público mais amplo, incluindo os gentios, e que influenciaria profundamente o desenvolvimento do cristianismo. A resistência ao helenismo forçado, por outro lado, fortaleceu a convicção religiosa e a coesão identitária dentro da Judeia, culminando com a Revolta dos Macabeus. Essa dualidade de adaptação e resistência demonstra a capacidade do judaísmo de se engajar com culturas dominantes sem perder sua essência, um modelo de resiliência que se repetiria ao longo de sua história.

VII – DA MORTE DE ALEXANDRE, O GRANDE, À REVOLTA DOS MACCABEUS

Com a súbita morte de Alexandre, o Grande, em 323 AC, seus generais e sucessores, os “Diadochi” (Sucessores), lutando pela sucessão, acabaram por dividir o reino entre si: Seleucus I Nicator (que deu origem ao Reino Selêucida), obteve a Ásia (Ásia Menor, Síria, Mesopotâmia e Babilônia); Lysimachus governou a Trácia (Trácia propriamente e grande parte da atual Turquia); a Cassandro coube a Macedônia (que incluía a Macedônia e toda a Grécia); e a Ptolomeu I Soter coube o Egito (Egito propriamente dito, a região da Silícia, na Ásia Menor e parte da Palestina). 
Partição do reino de Alexandre entre seus generais
A Judeia, anteriormente sob o domínio persa e estrategicamente localizada entre os reinos ptolomaico e selêucida, tornou-se um ponto de disputa constante entre entre os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, sob o governo ptolomaico, as práticas religiosas judaicas foram toleradas. No entanto, a transição para o domínio selêucida, especialmente sob Antiocus IV Epifânio, traria uma nova e severa ameaça à identidade judaica. Essa instabilidade política e a subsequente mudança de controle de um império tolerante (Ptolomeu) para um opressor (Selêucida) demonstraram a vulnerabilidade contínua da comunidade judaica a forças externas. Essa sucessão de dominações estrangeiras, cada uma com suas próprias políticas e impactos culturais, forçou os judeus a desenvolverem estratégias de resistência e adaptação, que se manifestariam em movimentos religiosos e políticos distintos, preparando o terreno para a Revolta dos Macabeus.
Com as alterações das guerras durante os primeiros anos dos Diadochi, o Reino de Judá foi, inicialmente, para o comando dos Ptolomeus que governavam o Egito, seguido do comando Selêucida no segundo século AC, com Antiocus III, o Grande. A incorporação de Judá ao reino ptolomaico como uma unidade administrativa separada (Hiparquia) liderada pelos Alto Sacerdotes Judeus, que foram diretamente responsáveis pelo governo na Alexandria, foi responsável por isso. Em contraste, os hiparcas diretamente instalados pelo rei Ptolomaico, gerenciaram todas as outras hiparquias na Selesíria, tais como a Samaria, Galileia, Idumeia e Ashdod.
Ptolomeu I reinou sobre Jerusalém de maneira cruel, num certo momento tomando grande número de cativos das partes montanhosas da Judeia e de locais em torno de Jerusalém e Samaria e próximos do Monte Gerizzim e conduzindo-os para o Egito, onde se tornaram responsáveis pela região de Alexandria. Posteriormente outros judeus, por sua própria vontade, deslocaram-se para o Egito pela qualidade dos seus solos e pela liberalidade de Ptolomeu.
Em contraste com o que sabemos sobre as atividades dos Ptolomeus na Palestina, são virtualmente nulas as informações que se têm sobre as atuações políticas dos judeus ao tempo dos Diadochi. As províncias praticamente não se envolveram em eventos geopolíticos. Contudo, as variações no poder político também tiveram consequências significativas para Judá, que se refletiram mesmo na cunhagem de moedas. A Judeia continuou a ser governada pelo Alto Sacerdote e a aristocracia sacerdotal. Um dos poucos incidentes de que se tem notícia foi a questão sobre a taxação entre o Alto Sacerdote Onias e Ptolomeu III Euergetes (que reinou entre 246 e 221 AC) que frequentava o Templo de Jerusalém. O resultado da disputa foi a indicação do jovem José, filho de Tobias, um sobrinho do Alto Sacerdote, como coletor de impostos para todo o país. A rivalidade entre a família de Tobias e do Alto Sacerdote Onias acabou tendo um papel importante na tentativa radical da Helenização da Judeia no segundo século AC.
Quando Onias morreu, seu filho Simon, o Justo, tornou-se seu sucessor. Com a morte de Simon (que havia deixado um filho também com o nome Onias), seu irmão Eleazar tornou-se o Alto Sacerdote, sendo responsável pela libertação de mais de 100.000 judeus escravos no Egito, por ordem de Ptolomeu.
Durante os anos de conflito entre Ptolomeus e Selêucidas, cada um dos rivais era apoiado por uma facção judia. A Gerousia (Conselho dos Anciãos), mencionada pela primeira vez em fontes dessa época, apoiava os Selêucidas. Há registros de que o Alto Sacerdote Simon, o Justo, (cerca de 200 AC), que provavelmente liderou a Gerousia, teria apoiado os Selêucidas. Provavelmente ele teria recuperado o poder sobre a taxação, anteriormente entregue a José, filho de Tobias, agora encarregado da renovação do Templo e da Cidade.
Em 221 AC o rei Selêucida Antiochus III (223 a 187) invadiu a Palestina pela primeira vez, sem ter o sucesso da conquista. A morte do rei Ptolomeu IV Philopator, em 203 AC abriu o caminho a Antiochus III para novas tentativas e em 201 AC ele invadiu o país novamente, conquistando-o rapidamente.
Quando Antiochus III tomou o controle da Judeia, ele afirmou o direito dos judeus de viverem de acordo com suas leis ancestrais. Contudo, apenas 30 anos após, os judeus proponentes de uma helenização extrema veriam seu filho o rei Selêucida Antiochus IV Epiphanes, como o agente que poria em ação seus planos de helenizar Jerusalém e seu povo. Ao tempo em que o domínio dos Ptolomeus na Palestina terminou, cidades gregas haviam se estabelecido por todo o país e o helenismo havia firmado fortes bases a ponto de dividir a nação antes que a Judeia recuperasse sua independência. Cerca de 198 AC, os Selêucidas estavam solidamente no controle e assim permaneceriam até a revolta dos Macabeus (168-164 AC), que enfraqueceu o poder do Império Selêucida, preparando o caminho para o início da dinastia local Hasmoneana. Em seguida ao cerco de Jerusalém por Pompeu, o Grande, em 63 AC, a região foi anexada pela República Romana, marcando o fim da Palestina Helenística e o início da Judeia Romana.
Antiochus III devia uma grande quantia de dinheiro aos romanos e a fim de obter esses recursos ele decidiu roubar um templo. O povo do templo de Bel in Lam, para vingar-se, matou Antiochus e todos os que o ajudaram, em 187 AC. Antiochus III foi sucedido por seu filho Seleucos IV Philopater que simplesmente defendeu a área de Ptolomeu V antes de ser assassinado por seus ministros em 175 AC. Seu irmão, Antiochus IV Epiphanes, tomou seu lugar. Antes de matar o rei anterior, o ministro Heliodorus tentara roubar os tesouros do Templo em Jerusalém e Antiochus IV foi informado disso por um rival do atual Alto Sacerdote Onias III que proibira a entrada de Heliodorus no Templo. Onias III foi chamado para explicar por que um ministro do rei fora impedido de acessar as dependências do Templo. Em sua ausência, seus rivais colocaram um novo Alto Sacerdote em seu lugar, Jason (versão helenizada de Josué), irmão de Onias III. 
A Palestina à época dos Macabeus
A perseguição selêucida sob Antiochus IV Epifânio (175-164 AC) foi o catalisador para a Revolta dos Macabeus. Antiochus, que se autodenominava "deus manifesto", buscou impor uma assimilação cultural e religiosa forçada sobre os judeus. Ele proibiu práticas religiosas judaicas, como a observância das leis alimentares, a circuncisão e o Sábado, e ordenou a adoração do deus grego Zeus. O ápice de sua profanação ocorreu em 167 AC, quando ele sacrificou um porco no Templo de Jerusalém, transformando-o em um local de culto sincrético pagão-judaico.
Essa opressão desencadeou a Revolta dos Macabeus, uma rebelião judaica liderada por Matatias, um sacerdote judeu, e seus cinco filhos, notavelmente Judas Macabeu, um competente general judeu. A resistência ganhou força com revoltas populares e uma campanha militar contra as forças selêucidas. Um dos momentos mais simbólicos da revolta foi a recuperação e purificação do Templo de Jerusalém pelos Macabeus, um evento celebrado até hoje no festival judaico de Hanukkah.
A Revolta dos Macabeus foi uma resposta à tentativa de aniquilação cultural e religiosa, e seu sucesso em repelir os gregos e estabelecer um reino independente marcou uma fase importante na história judaica. A profanação do Templo por Antiochus IV não foi apenas um ato de tirania, mas uma violação do cerne da identidade judaica, que considerava o Templo como o centro de sua fé e unidade. A revolta, portanto, não foi apenas uma luta por independência política, mas uma defesa existencial da religião e da identidade do povo. O estabelecimento de Hanukkah como uma festa duradoura reforça a importância da memória histórica e da resiliência religiosa como elementos centrais da identidade judaica.
Os Macabeus começaram a chamar a atenção do rei Antiochus IV em 165 AC, que mandou seu chanceler Lysias pôr um fim à revolta. Para tanto, Lysias enviou três generais que foram todos derrotados pelos Macabeus. O próprio Lysias enfrentou a questão que foi então solucionada por negociação.
Após a morte de Antiochus IV em 164 AC, seu filho Antiochus V, tendo Lysias como regente, deu aos judeus liberdade religiosa.
Ao tempo da re dedicação do Templo, durante o cerco da fortaleza de Acre, Eleazor, um dos irmãos de Judas Macabeus foi morto. Os Macabeus tiveram que se retirar para Jerusalém onde foram totalmente batidos. Contudo Lysias teve que abandonar pela contradição sobre quem seria o regente de Antiochus V. Pouco depois ambos foram assassinados por Demetrius I Soter que se tornou o novo rei selêucida. O novo Alto Sacerdote, Alcimus, tinha vindo a Jerusalém em companhia de um exército conduzido por Bacchides. Judas Macabeus conseguira há pouco um tratado com os romanos, quando foi morto em Jerusalém lutando contra o exército de Bacchides. O irmão de Judas Macabeus, Jonathan, o substituiu e por oito anos não pode fazer muita coisa. Contudo, em 153 o Império Selêucida começou a enfrentar problemas. Jonathan aproveitou a oportunidade para oferecer suas tropas a Demetrius I, como tentativa para retomar Jerusalém.
Em 152 AC, Alexandre Balas, da família Selêucida, aportou no território Fenício (costa norte da Palestina) e iniciou uma guerra civil contra Demetrius I Soter, apoiado por mercenários e facções descontentes do Império Selêucida. Em batalha decisiva em julho de 150 AC, Demetrius I foi derrotado e morto por Alexandre Balas que governou o Império Selêucida de 150 a agosto de 145 AC como Alexandre I Theopator Euergetes. Jonathan foi indicado Alto Sacerdote por Alexandre Balas e quando os conflitos entre Ptolomeu do Egito e os Selêucidas reiniciaram, ele tomou o controle da fortaleza de Acre. Em 142 Jonathan foi morto e seu irmão Simão tomou seu lugar. (Parte 5 na próxima postagem)

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A ORIGEM DAS GALINHAS (E GALOS) - PARTE 2 DE 2

IV – A DOMESTICAÇÃO DAS GALINHAS

Considerando que o progenitor selvagem das galinhas ainda se encontra entre nós, comparações de comportamento e outras alterações ainda nos estão disponíveis. No que se refere a comportamento, as galinhas domesticadas são menos ativas, possuem menos interação social, são menos agressivas aos possíveis predadores e buscam menos as fontes de alimentação que seus ancestrais selvagens. Outras mudanças incluem o aumento de peso, plumagem simplificada, início prematuro e mais frequente da produção de ovos maiores.
Uma espécie domesticada do Gallus gallus espalhou-se, incialmente, do sudeste da Ásia, viajando ao norte, para a China ou ao sudoeste para a Índia? Ou existiram duas áreas centrais separadas de domesticação: Índia e sudeste da Ásia antigas? Qualquer cenário é possível, mas uma investigação mais profunda nas origens da galinha é obstruída por um inconclusivo vestígio de DNA. “É realmente difícil dizer com precisão, pelo fato das aves domesticadas e selvagens terem cruzado ao longo do tempo”, diz Michael Zody, um biólogo computacional que estuda genética no Broad Institute de Harvard e Massachusetts Institute of Technology (MIT).
A real virada da galinha aconteceu em 2004 quando uma equipe internacional de geneticistas produziu um mapa completo do genoma[1] da galinha. A galinha foi o primeiro animal domesticado, o primeiro pássaro – e consequentemente, o primeiro descendente dos dinossauros – assim honrado. O mapa do genoma forneceu uma excelente oportunidade para estudar a forma como milênios de domesticação podem alterar uma espécie. Num projeto conduzido pela Universidade de Uppsala, Suécia, Zody e seus colegas têm pesquisado as diferenças entre a ave selvagem vermelha e seus descendentes do galinheiro, incluindo as “camadas” (espécies criadas para produzir prodigiosas quantidades de ovos) e “frangos” (espécies gordas e carnudas). Os pesquisadores encontraram importantes mutações num gene designado por TBC1D1, que regula o metabolismo da glicose. No genoma humano, mutações neste gene têm sido associadas com a obesidade, mas é um traço positivo numa criatura destinada à mesa de jantar. Outra mutação que resultou de geração seletiva está no gene do HRET (Hormônio Receptor da Estimulação da Tireoide). Em animais selvagens este gene coordena a reprodução com a duração do dia, confinando gerações a estações específicas. A mutação que desabilita este gene, habilita galinhas a chocar - e pôr ovos – ao longo de todo o ano.
Quando as galinhas foram domesticadas, contatos culturais, comércio, migração e conquista territorial resultaram em sua introdução e reintrodução em diversas regiões ao redor do mundo, por vários milhares de anos.
Estudos genéticos sugerem múltiplas origens de domesticação. A primeira evidência arqueológica vem da China, cerca de 5.400 AC, em locais geograficamente bem espalhados, tais como Cishan (província de Heibei), cerca de 5.300 AC, Beixin (província de Shandong), cerca de 4.300 AC. Crê-se que as galinhas foram levadas às Ilhas da Polinésia do sudeste da Ásia com a expansão Lapita[2], cerca de 3.300 anos atrás.
No Vale do Indo, as galinhas domésticas apareceram em Mohenjo Daro, cerca de 2.000 AC, possivelmente carregadas através da Península Arábica como carga ou mantimentos e, de lá, espalharam-se para a Europa e África.
Pelo ano 2.000 AC, placas cuneiformes da Mesopotâmia referem-se ao “pássaro de Meluhha”, nome provável para o Vale do Indo. Aquele pode ou não ter sido uma galinha; o Professor Piotr Steinkeller, um especialista de Harvard em textos antigos do Oriente Próximo, diz que era certamente “algum pássaro exótico desconhecido da Mesopotâmia”. Ele acredita que referências ao “pássaro real de Meluhha” – uma frase que aparece em textos três séculos após – muito provavelmente se referem à galinha.
A evidência concreta mais antiga de galinhas na África oriental, são ilustrações de vários locais no Egito. Elas teriam chegado ao Egito cerca de 250 anos depois, como animais de luta e adições a outros animais selvagens exóticos. Ilustrações artísticas do passado adornaram tumbas reais. Contudo, mais mil anos passariam antes que a ave se tornasse uma mercadoria popular entre os egípcios comuns. Foi naquela época que os egípcios dominaram a técnica da incubação artificial, que libertou as galinhas para darem melhor uso ao seu tempo através da postura de ovos. Não foi assunto fácil: a maioria dos ovos de galinha chocam em três semanas, mas somente se a temperatura for mantida constante em torno de 37 a 41º centígrados e a umidade relativa permanecer próximo dos 55%, crescendo nos últimos dias da incubação; além disso, os ovos devem ser virados cerca de 3 a 6 vezes por dia, para evitar que surjam deformidades físicas. Os egípcios construíam vastos complexos de incubação com centenas de “fornos”, amplas câmaras conectando a uma série de corredores e aberturas que permitiam aos atendentes regular o calor dos fogos mantidos por palha e esterco de camelos. Os atendentes dos ovos mantiveram, por séculos, o segredo de seus métodos. Na África ocidental as galinhas chegaram na Idade do Ferro em locais como Jenne-Jeno, em Mali, Kirikongo, em Burkina Faso e Daboya, em Gana, pelo meio do primeiro milênio DC.
Em torno do Mediterrâneo, escavações arqueológicas descobriram ossos de galinha de cerca de 800 AC. As galinhas eram uma iguaria entre os romanos, cujas inovações culinárias incluíam a omelete e a prática de rechear os pássaros para cozinhar, embora suas receitas tendessem mais para cérebros de galinha esmagados do que para pão amassado. Os fazendeiros começaram a desenvolver métodos para engordar os frangos, que foram logo postos fora da lei pelas autoridades. Os cozinheiros romanos descobriram então que a castração dos galos os fazia engordarem e com isso nascia a criatura hoje conhecida como capão. Com o colapso de Roma, o status da galinha diminuiu na Europa, com o tamanho da galinha, no período pós-romano, retornando ao que era durante a Idade do Ferro, mais de mil anos antes. Com a passagem dos séculos, aves mais vigorosas como os gansos e perdizes começaram a adornar as mesas medievais. 
Moderna criação intensiva de galinhas
Embora admitido que as galinhas tenham sido trazidas às Américas pelos espanhóis conquistadores, presume-se que galinhas pré-colombianas foram identificadas em vários locais das Américas, mais notavelmente na localidade de El Arenal, Chile, cerca de 1.350 DC. Os europeus que chegavam à América do Norte, encontraram um continente repleto de perus e patos nativos para a caça e comida. Alguns arqueólogos acreditam que as galinhas foram introduzidas no Novo Mundo pelos polinésios que alcançaram a costa do Pacífico da América do Sul um século antes das viagens de Colombo. Já no século XX, a criação de galinhas não representava um forte componente na economia americana e apenas com o enriquecimento da alimentação com antibióticos e vitaminas, que permitiu a sua criação em recintos fechados, aconteceu o progresso que resultou nas 250.000 fazendas de galinhas de hoje nos EUA.
Como um dos mais comuns e difundidos animais domésticos, com uma população de mais de 19 bilhões em 2011, há mais galinhas no mundo do que qualquer outra espécie de pássaro ou animal doméstico. Os humanos mantêm as galinhas, primariamente, como fonte de alimentação, consumindo suas carnes e ovos.
As galinhas são onívoras (que se alimentam de tudo, carne ou vegetal). Na mata, elas muitas vezes escavam o solo em busca de sementes, insetos e mesmo animais maiores como lagartos, pequenas cobras ou camundongos jovens. Vivem de cinco a dez anos dependendo da raça. De acordo com o Livro de Recordes Guiness, uma galinha teria morrido de ataque do coração com a idade de 16 anos.
Os galos são geralmente diferenciados das galinhas por sua admirável plumagem de longas caudas ondeantes e brilhantes, penas eriçadas em seu pescoço e costas, tipicamente de cores mais brilhantes e fortes que as das galinhas da mesma raça. Contudo, em poucas raças, o galo tem as penas do pescoço apenas levemente eriçadas, da mesma cor que as galinhas. A identificação pode ser feita através da crista ou, eventualmente, pelo desenvolvimento dos esporões das pernas do galo. Galinhas adultas têm uma crista mais carnuda e abas pendentes de pele de ambos os lados do bico (barbelas). Coletivamente, essas e outras protuberâncias carnudas na cabeça e garganta, são chamadas de carúnculas. Nesta parte, há outras características menos importantes e mais particulares. Galinhas domésticas não são capazes de voos longos, embora as mais leves possam voar por curtas distâncias, como sobre cercas ou em árvores onde, naturalmente, se alojariam. Em geral só dão pequenos voos para fugir de algum perigo. 
Ninho de galinha com ovos
As galinhas são pássaros gregários, com uma abordagem comunal para a incubação de ovos e criação filhotes. Galinhas individuais num conjunto, dominarão as demais, estabelecendo uma “lei do galinheiro”, com os indivíduos dominantes tendo prioridade para acesso à alimentação e localização dos ninhos. A remoção de galinhas ou galos de um galinheiro causará uma ruptura temporária da ordem social até que uma nova lei seja estabelecida. A adição de galinhas, especialmente mais novas, a um galinheiro, pode conduzir à luta ou injúria. Quando um galo encontra alimento, pode chamar outras galinhas para comer primeiro, o que ele faz cacarejando alto e apanhando e deixando cair o alimento. Este procedimento também pode ser observado em galinhas mães para chamar seus pintos e encorajá-los a comer. O cacarejar de um galo (uma chamada alta e algumas vezes aguda) é um sinal territorial para outros galos. Contudo, o cacarejar também pode resultar de perturbações súbitas em seus arredores. As galinhas cantam alto após porem ovos, mas também para chamar seus pintos. Também dão uma “chamada de aviso” baixa quando pensam ver um predador se aproximando.
Para iniciar uma corte, alguns galos podem dançar em círculo ao redor ou próximo de uma galinha (a dança do círculo), muitas vezes baixando sua asa mais próxima da galinha. A dança desencadeia uma resposta da galinha e quando responde ao seu chamado, o galo inicia o acasalamento.
A cor dos ovos das galinhas varia, dependendo da galinha, variando do branco brilhante ao pardo e mesmo azul, verde e, recentemente reportado, púrpura, encontrado no sul da Ásia (da variedade Araucana). As galinhas tentarão se acomodar em ninhos que já contenham ovos e já se sabe de galinhas que moveram ovos de ninhos vizinhos para seus próprios ninhos. O resultado desse procedimento é que o bando usará somente poucos locais preferidos ao invés de um ninho diferente para cada pássaro. Alguns criadores usam falsos ovos, feitos de plástico ou pedra ou bolas de golfe, para encorajar as galinhas a usarem locais particulares.
Sob condições naturais, a maioria das aves põe até que uma ninhada esteja completa e então elas incubarão os ovos. Muitas galinhas domésticas também farão isso – e então se diz que elas “estão chocas”. A galinha choca para então de por e foca na incubação dos ovos (uma ninhada completa tem cerca de 12 ovos). Ela então “senta” ou se posiciona no ninho, protestando ou bicando em defesa, sempre que perturbada ou removida e, raramente, deixará o ninho para comer, beber ou se banhar na poeira. Enquanto estiver chocando, a galinha mantém o ninho a uma temperatura e umidade constante, virando os ovos regularmente durante a primeira parte da incubação. Para estimular a incubação, o proprietário pode colocar muitos ovos artificiais no ninho, o pará-la se colocarem a galinha numa gaiola elevada com assoalho de fios abertos. 
Pintos antes de sua primeira saída
Modernas raças de poedeiras não necessitam chocar e as que o fazem, muitas vezes param no meio do caminho da incubação. Contudo, algumas raças de “utilidade” (finalidades gerais), chocam regularmente, tornando-se excelentes mães, não somente para ovos de galinhas, mas também para outras espécies – mesmo para aquelas com ovos muito menores ou maiores e com diferentes períodos de incubação, tais como codornas, faisões, perus ou gansos. Ovos de galinha também podem ser chocados por uma pata choca, com sucesso variado.
Ao final do período de incubação (cerca de 21 dias), os ovos, se férteis, darão pintos. O desenvolvimento do ovo começa somente quando começa a incubação, de forma que os ovos estarão todos prontos, apenas com um dia ou dois de diferença, embora tenham sido postos por um período de duas semanas ou algo assim. Antes de encerrado o período, a galinha pode ouvir os pintos piando dentro dos ovos e vai então, gentilmente, cacarejar para estimulá-los a quebrar os ovos e saírem das cascas. O pinto começa piando e bicando um furo para respiro com seu “dente de ovo” em direção à ponta mais rombuda do ovo, em geral para cima. O pinto vai então descansar por algumas horas, absorvendo a gema restante e retirando o abastecimento de sangue da membrana sob a casca (usada antes para respirar pela casca). Ele então alarga o furo, gradualmente arredondando-o e finalmente separando completamente a ponta rombuda da casca para fazer uma tampa. Ele então rasteja para fora da casca e sua umidade seca no calor do ninho. 
Galinha tomando conta de seus pintos
Em geral ele ficará no ninho por dois dias após a primeira rachadura e durante esse tempo vive apenas da gema absorvida. Ovos não fertilizados pelo galo, não chocarão e a galinha acabará por perder o interesse neles, deixando o ninho. Após chocar, a galinha cuidará ferozmente dos pintos, mantendo-os sob si para mantê-los aquecidos, inicialmente retornando ao ninho à noite. Ela os conduz para o alimento e água, chamando-os para a comida, mas raramente alimentando-os diretamente. Ela continua a cuidar deles até que tenham várias semanas quando ela, gradualmente, perderá o interesse e finalmente começará a pôr de novo. Como se vê, a galinha, além de um excelente prato na culinária, acaba de ter sido um ótimo prato na área da pesquisa. Nada, neste mundo de Deus, pode ser subestimado!


[1] Em termos de biologia e genética molecular moderna, um genoma é o material genético de um organismo. O genoma inclui os genes (as regiões de códigos) e o DNA não codificante, bem como o material genético dos mitocôndrios e cloroplastos. Um genoma é toda a informação genética de um organismo. Por exemplo, o genoma humano é análogo às instruções armazenadas num livro de receitas. Da mesma forma que um livro de receitas dá as instruções para preparar as refeições, incluindo festas e piqueniques, o genoma humano contém todas as instruções necessárias para fazer todo o conjunto de tipos de células humanas, incluindo células musculares ou neurônios.
[2] A cultura Lapita é o nome dado a vestígios artesanais associados ao povo que colonizou a área a leste das Ilhas Solomon, chamada Oceania Remota, entre 3.400 e 2.900 anos atrás. Os sítios Lapita mais antigos foram encontrados nas Ilhas Bismarck e em 400 anos a cultura se espalhou por uma extensão de 3.400 km, alcançando as Ilhas Solomon, Vanuatu e Nova Caledônia, e para leste até Fiji, Tonga e Samoa. Localizados em pequenas ilhas e nas costas das ilhas maiores, separadas umas das outras por até 350 km, os Lapitas viveram em vilas de casas de estacas e fornos de terra, faziam uma cerâmica única, pescavam e exploravam os recursos marinhos, criavam galinhas, porcos e cães domésticos, cultivando árvores frutíferas e castanheiras.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 3

III.2 – CONQUISTA HELÊNICA E IMPÉRIO SELÊUCIDA (312-248 AC)


Alexandre, o Grande, da Macedônia

Entre 334 e 331 AC, Alexandre III, o Grande, da Macedônia, derrotou Dario III nas batalhas de Granicus, Issus e Gaugamela, rapidamente conquistando todo o Império Persa. Como rei do Império Persa, Alexandre ainda invadiu a Índia, em 326, conquistando importantes batalhas e retornando, finalmente, à Babilônia, por solicitação de suas tropas, ansiosas por retornar ao lar. Morreu na Babilônia, no palácio de Nabucodonosor, em 323 AC, cidade em que planejava estabelecer a capital do seu império, sem executar uma série de campanhas planejadas que seriam iniciadas com uma invasão da Arábia.
Jovem e sem deixar herdeiro (seu único filho legítimo conhecido, Alexandre IV, gerado por Roxane, nasceria após a morte de Alexandre), o império macedônico de Alexandre entrou em colapso e passaria por 40 anos de guerras civis, ao final das quais o mundo helenístico se estabeleceria em quatro blocos estáveis de poder: o Egito Ptolomaico[1], a Mesopotâmia e Ásia Central Selêucida, a Anatólia Atálida[2] e a Macedônia Antigônida (de Antígono II ou Gônatas). Durante o processo, Alexandre IV e Felipe III (um meio irmão de Alexandre) foram assassinados. 
Seleucos I Nicator, primeiro
imperador grego da Pérsia
após Alexandre
Seleucos I Nicator, um dos generais de Alexandre, estabeleceu-se na Babilônia em 312 AC - ano geralmente usado para definir a data da fundação do Império Selêucida -, assumindo o controle da Pérsia e Mesopotâmia e formando o Império Selêucida, sua descendência ficando conhecida como a dinastia Selêucida. Após vencer Antígono Monoftalmo (da Macedônia) na Batalha de Isso em 301 AC, ao lado de Lisímaco, Seleucos obteve controle sobre a Anatólia oriental e sobre a parte norte da Síria. Nessa última área, fundou uma nova capital em Antióquia (antiga Antakia, na Síria, hoje na Turquia), às margens do rio Orontes, próximo ao Mediterrâneo, cidade a qual deu o nome do pai. Uma outra capital alternativa foi estabelecida em Selêucia, margem ocidental do Tigre, ao norte da Babilônia, Mesopotâmia. O império de Seleucos alcançou sua extensão máxima após a morte de seu aliado de longa data, Lisímaco, na Batalha de Corupédio em 281 AC. Seleucos ampliou seu controle, abarcando a Anatólia ocidental. Ainda tinha esperanças de controlar as terras de Lisímaco na Europa - Trácia, e mesmo a própria Macedônia -, mas terminou por ser assassinado em 281 AC por Ptolomeu Cerauno, da Macedônia, logo ao chegar ao continente europeu.
Seu filho e sucessor, Antíoco I Sóter, mostrou-se incapaz de recomeçar de onde seu pai havia parado, nunca conquistando as partes europeias do império de Alexandre. Ainda assim, possuía um reino incrivelmente vasto - consistia de basicamente todas as porções asiáticas do império e a tarefa de apenas manter o império já foi formidável, tendo como inimigos mais importantes Antígono II Gônatas, na Macedônia, e Ptolomeu II Filadelfo, no Egito.
Uma revolta na Síria eclodiu quase imediatamente. Logo foi obrigado a fazer paz com o assassino de seu pai, Ptolomeu Cerauno, aparentemente abandonando a Macedônia e a Trácia. Na Anatólia não pôde subjugar a Bitínia (região a noroeste da Ásia Menor, na costa do Mar Negro) ou as dinastias persas que governavam na Capadócia (região central da Ásia Menor). Em 278 AC os gauleses (povos de origem celta oriundos do oeste europeu, principalmente França atual) irromperam na Anatólia e Antíoco I conseguiu vencê-los utilizando elefantes de guerra da Índia.
Ao final de 275 AC, a questão da Coele-Síria[3], aberta entre as casas de Seleucos e Ptolomeu, desde a repartição de 301 AC, levou a hostilidades (Primeira Guerra Síria). Embora sempre estivesse no domínio ptolomaico, a casa de Seleucos manteve sua reivindicação. A guerra não alterou materialmente as fronteiras dos dois reinos, embora cidades fronteiriças como Damasco e os distritos costeiros da Ásia Menor pudessem trocar de mãos.
Seu filho mais velho, Seleucos, havia governado no oriente, como vice-rei, de 275 AC até 268/267 AC e foi condenado à morte por Antíoco sob acusação de revolta. Cerca de 262 AC, Antíoco tentou quebrar o crescente poder de Pérgamo pela força das armas, mas foi derrotado e morreu pouco depois, sendo sucedido por seu segundo filho Antíoco II Theos (261 AC)
Antíoco II Theos herdou de seu pai em 261 AC, um estado de guerra com o Egito Ptolomaico, a “Segunda Guerra Síria”, lutada ao longo das costas da Ásia Menor, e as constantes intrigas de déspotas triviais e agitadas cidades estados da Ásia Menor. Antíoco II também fez alguma tentativa para colocar um pé na Trácia. Durante a guerra, recebeu o título Theos (Deus em grego) dos cidadãos de Mileto por ter libertado a cidade de seu tirano Timarchus. Durante o tempo em que se ocupava com a guerra contra o Egito, seu sátrapa na Pártia[4], Andrágoras, proclamou sua independência. Da mesma forma, seu sátrapa, Diodotus, na Báctria[5], também revoltou-se, em 255 AC, fundando o reino Greco-Bactriano que, posteriormente, expandiu-se na Índia, em 180 AC, para formar o Reino Indo-Grego (180-1 AC). Então, cerca de 238 AC, Arsaces conduziu uma revolta dos partas contra Andrágoras, conduzindo à fundação do Império Parta.
Por essa época, Antíoco II fez paz com Ptolomeu II Filadelfo, encerrando a Segunda Guerra Síria. Para selar o pacto, Antíoco repudiou sua esposa Laodice I e exilou-a em Éfeso (costa oeste da Anatólia, próximo de Mileto), casando-se com a filha de Ptolomeu, Berenice, recebendo importante dote. Durante sua estada em Éfeso, Laodice I urdiu várias tramas para tornar-se rainha novamente. Em 246 AC, Antíoco II havia deixado Berenice e seu filho pequeno, Antíoco, na Antióquia, para viver novamente com Laodice I, na Ásia Menor. Laodice usou a oportunidade para envenenar Antíoco, enquanto seus sectários assassinavam Berenice e seu filho na Antióquia. Laodice então proclamou rei Seleucos II, seu filho mais velho com Antíoco.
Quando Seleucos II Calínico, subiu ao trono por volta de 246 AC os selêucidas já estavam em declínio. Além das secessões da Pártia e da Bactriana, seu reinado começou a Terceira Guerra Síria. Ptolomeu III, irmão de Berenice e governante do Egito, invadiu o Império Selêucida marchando vitorioso para o Tigre e além. Teve a submissão das províncias orientais do Império Selêucida enquanto as frotas egípcias varriam a costa da Ásia Menor. Seleucos II permaneceu seguro no interior da Ásia Menor e quando Ptolomeu voltou ao Egito, conseguiu recuperar o norte da Síria e as províncias mais próximas do Irã. Contudo, Antíoco Hierax, um irmão mais jovem de Seleucos II, se estabelecera como seu rival na Ásia Menor, com um grupo ao qual a própria Laodice aderira. Na Batalha de Ancyra (cerca de 235 AC), Seleucos II sofreu uma enorme derrota e deixou o país, além das montanhas Taurus (cadeia de montanhas que separa a região costeira mediterrânea do sul da Turquia do Planalto Central Anatoliano), para o seu irmão e outras potências da península. Seleucos II então empreendeu uma marcha forçada para recuperar a Pártia, o que resultou em nada. Alguns autores mencionam que ele teria feito uma paz com Arsaces da Pártia, que reconhecera sua realeza. Também na Ásia Menor a dinastia selêucida perdia controle, pois os gauleses já se haviam estabelecido completamente na Galácia[6]; reinos semi-independentes e semi-helenizados haviam surgido na Bitínia, em Ponto[7] e na Capadócia (região da Anatólia Central); e a cidade de Pérgamo, no ocidente, sob Áttalus I, asseverava sua independência sob a Dinastia Atálida, formando o Reino de Pérgamo. Antíoco Hierax, após uma tentativa fracassada para tomar os domínios de seu irmão, quando os seus próprios se perdiam, pereceu como fugitivo na Trácia em 227 AC. Cerca de um ano mais tarde, Seleucos II foi morto numa queda do seu cavalo, sendo sucedido por seu filho mais velho Seleucos III Cerauno e, posteriormente, por seu filho mais novo Antíoco III, o Grande. 
Antíoco III, recriador do império Selêucida
Seleucos III Soter, chamado Seleucos Cerauno, teve um breve reinado de três ano (225-223 AC) e foi assassinado na Anatólia por membros do seu exército enquanto em campanha contra Attalus I de Pérgamo.
O irmão de Seleucos III Cerauno estava na Babilônia quando do seu assassinato e sucedeu-o como Antíoco III, em 223 AC, herdando um estado desorganizado. Entretanto, sob o seu governo, a Pérsia teve um reflorescimento e Antíoco III se tornaria o maior dos governantes selêucidas após o próprio Seleucos I.
A Ásia Menor havia se separado e as províncias mais orientais se haviam dissolvido: a Báctria, sob o grego Diodotus de Báctria e a Pártia sob o chefete Arsaces. Logo que subiu ao poder, a Média (região noroeste do Irã, base cultural e política dos medas) e Fars se revoltaram com seus governadores, os irmãos Molon e Alexander.
O jovem rei, sob a influência do ministro Hermeias, chefiou um ataque à Síria Ptolomaica ao invés de enfrentar pessoalmente os rebeldes. O ataque contra o Império Ptolomaico foi um fiasco e os generais enviados contra Molon e Alexander foram um desastre. Somente na Ásia Menor, onde Aqueus, primo do rei, representou a causa Selêucida, seu prestígio foi recuperado, com o envio do poder Pérgamo de volta aos seus limites anteriores. Finalmente, em 221 AC, Antíoco III foi para o leste abafando a rebelião de Molon e Alexander. Seguiu-se a submissão da Média Menor, que havia feito sua independência com Artabazanes, após o que retornou para a Síria. Enquanto isso, o próprio Aqueus agora se revoltava, tomando o título de rei na Ásia Menor; admitindo que seu poder não estivesse sedimentado para um ataque à Síria, Antíoco desistiu de Aqueu, na ocasião, preferindo renovar suas tentativas contra a Síria Ptolomaica.
As campanhas de 219 e 218 AC levaram os exércitos selêucidas aos confins do reino ptolomaico, mas em 217 AC, Ptolomeu IV derrotou Antíoco III na Batalha de Ráfia, anulando todos os seus sucessos e causando a sua retirada para o norte do Líbano, embora ainda mantendo o controle de Selêucia Pieria (o porto de Antióquia). Em 216 AC os exércitos de Antíoco III marcharam para a Anatólia ocidental para abafar uma rebelião liderada por seu próprio primo, Aqueu. Em 214 AC Aqueu foi derrotado, preso e executado, mas a cidadela foi mantida até 213 AC por sua viúva Laodice, que então se rendeu. Tendo assim recuperado a parte central da Ásia Menor (já que o governo Selêucida teve que tolerar as dinastias de Pérgamo, Bitínia e Capadócia), Antíoco III iniciou a recuperação das províncias externas do norte e leste. Obrigou Xerxes da Armênia a reconhecer sua supremacia em 212 AC. Em 209, invadiu a Pártia, ocupando a capital do Império Parta, avançando até a Hircânia (sudeste do mar Cáspio, moderno Irã) e com o rei parta, Arsaces II, aparentemente implorando por paz.
O ano de 209 viu Antíoco III na Báctria, onde derrotou o rei greco-bactriano Eutidemo I (que se havia revoltado contra Diodotus) na batalha de Arius. Após sustentar um cerco em sua capital Bactra, Eutidemo I obteve uma paz honrosa pela qual Antíoco III prometeu a seu filho Demétrius a mão de uma de suas filhas. Seguindo os passos de Alexandre, atravessou para o Vale de Kabul (no atual Afeganistão), alcançando o reino do rei indiano Sofagaseno, em 206 AC.
Impérios Romano, Selêucida e Parta no ano 200 AC
De Selêucia, Antíoco III conduziu uma curta expedição ao Golfo Pérsico contra a Gerrha (margem ocidental do Golfo) na costa da Península Arábica, em 204/205 AC. Parece ter restaurado o Império Selêucida no leste, o que lhe fez merecer o título de “o Grande”. Nessa mesma época, Ptolomeu V Epifânio assumia o trono do Egito, quando Antíoco III teria feito um pacto com Felipe V da Macedônia para repartir as suas possessões. Por tal pacto, Felipe receberia as terras em torno do mar Egeu e Cirena (na atual Líbia), ao passo que Antíoco III anexaria o Egito e Chipre. Uma vez mais, Antíoco III atacaria a província de Coele-Síria e Fenícia e por 199 AC parece ter tido sua posse antes de que Scopas a recuperasse brevemente para Ptolomeu. Em 198 AC, Antíoco III derrotaria Scopas na batalha de Panium, próximo das fontes do rio Jordão, marcando o fim do domínio ptolomaico na Judéia e restaurando a glória do Reino Selêucida.
Antíoco III ainda realizou outras incursões à Ásia Menor quando enfrentou o antagonismo da República Romana, principalmente ao se aproximar do cartaginês Aníbal. Em 192 AC invadiu a Grécia, mas em 191 os romanos forçaram sua retirada para a Ásia Menor, logo invadida por eles que, já em 190 AC, a tinham em suas mãos. Pelo tratado de Apamea (188 AC), Antíoco III abandonou todo o país ao norte e oeste das montanhas Taurus. Como consequência deste golpe no poder Selêucida, as províncias externas do império, recuperadas por Antíoco III, readquiriram suas independências. Numa nova expedição ao Luristão, enquanto pilhando um templo persa, Antíoco III morreu em 187 AC.
O reino de seu filho e sucessor, Seleucos IV Filopator (187-175 AC), foi consumido na busca de recursos para pagamento de grandes indenizações aos romanos; ele acabou assassinado por seu ministro Heliodoro.
O irmão mais novo de Seleucos IV, Antíoco IV Epifânio, assumiu o trono em seu lugar e tentou restaurar o poderio e o prestígio Selêucida, iniciando por uma guerra contra o Egito Ptolomaico, antigo inimigo, derrotando e perseguindo o exército egípcio até Alexandria. Antíoco IV foi então informado de que delegados romanos, liderados pelo procônsul Gaius Popillius Laenas, solicitavam um encontro com o rei selêucida, que concordou. Sem quaisquer preâmbulos, Antíoco IV foi instado a retirar-se do Egito por ordem do senado, com o que concordou para não entrar em guerra com o império romano novamente. A última parte do seu reino assistiu a uma crescente desintegração do Império, embora seus maiores esforços. Enfraquecido econômica, militar e por perda de prestígio, o Império tornou-se vulnerável a rebeldes nas áreas orientais, que começaram a mais solapar o reino, enquanto os Partas ocupavam o seu vácuo de poder para ocupar os antigos territórios persas. A agressiva helenização (ou desjudaização) provocou uma rebelião armada total na Judea – a Revolta dos Macabeus. Os esforços consumidos com os Partas e Judeus, bem como para manter o controle das províncias, provaram estar além do poder do Império enfraquecido. Antíoco morreu durante uma expedição militar contra os partas em 164 AC.
Após a morte de Antíoco IV, o império Selêucida tornou-se crescentemente instável, tendo que enfrentar guerras civis que enfraqueciam a autoridade central. Seu filho mais jovem, Antíoco V Eupator, foi destronado pelo filho de Seleucos IV, Demétrio I Soter, em 161 AC, que tentou restaurar o poder selêucida na Judea, particularmente. Foi derrubado em 150 AC por Alexander Balas, um impostor que (com apoio do Egito), reivindicava ser filho de Antíoco IV. Alexander Balas reinou até 145 AC quando foi destronado pelo filho de Demétrio I, Demétrio II Nicator que se mostrou incapaz de controlar o reino. Enquanto dominava a Babilônia e a Síria oriental, de Damasco, os restantes apoiadores de Balas, dominavam na Antióquia. Por 143 AC os judeus, sob os Macabeus, haviam consolidado sua independência. A expansão Parta prosseguia. Em 139 AC, Demétrio II era derrotado e capturado em batalha, pelos Partas. Por essa época, todo o Platô Iraniano havia sido perdido para o controle Parta.
O irmão de Demétrio II Nicator, Antíoco VII Sidetes, assumiu o trono com a captura de seu irmão. Enfrentou a enorme tarefa de restaurar um império em rápida desagregação e enfrentando ameaças em várias frentes. O controle da Coele-Síria era ameaçada pelos rebeldes macabeus judeus. Antigas dinastias vassalas na Armênia, Capadócia e Ponto, ameaçavam a Síria e o norte da Mesopotâmia; os nômades partas, brilhantemente liderados por Mitrídates I da Pártia, haviam dominado as áreas altas da Média; a intervenção romana era uma ameaça permanente. Antíoco VII conseguiu submeter os Macabeus e manter as dinastias da Anatólia sob submissão temporária. Em 133 AC ele se dirigiu para o leste com o pleno poder do exército real apoiado pelo príncipe Hasmoneano, João Hircanus, para fazer retroceder os Partas. Teve um sucesso inicial espetacular, recapturando a Mesopotâmia, Babilônia e Média, e derrotando e matando em combate pessoal, o sátrapa parta da Selêucia. No inverno de 130/129 AC, seu exército estava disperso pela Média e Fars quando o rei Parta, Fraates II, contra-atacou. Contando apenas com as tropas imediatamente à disposição, Antíoco VII Sidetes, algumas vezes chamado “o último grande rei selêucida”, foi emboscado e morto pelos Partas. Após a sua morte, todos os territórios orientais recuperados foram recapturados pelos Partas, os Macabeus se rebelaram novamente, a guerra civil dividiu o império em pedaços e os Armênios começaram a invadir a Síria, pelo norte.
Mitrídates VI, último rei do império Selêucida
Cerca de 100 AC, aquele que havia sido uma vez o formidável Império Selêucida, limitava-se apenas à Antióquia e algumas cidades sírias. A despeito do claro colapso do seu poderio e do declínio do seu reino em torno deles, os nobres continuaram a brincar de “fazedores de reis” numa base regular, com ocasionais intervenções do Egito e outras potências estrangeiras. Os selêucidas existiram somente porque nenhuma nação os quis absorver, usando-os como um útil amortecedor entre outros vizinhos. Nas guerras da Anatólia, entre Mitrídates VI do Ponto (que não tem nada a ver com os Mitrídates da dinastia Parta) e Sulla (general, estadista e cônsul romano por duas vezes) de Roma, os selêucidas foram totalmente abandonados por ambos. O ambicioso genro de Mitrídates VI, Tigranes o Grande, rei da Armênia, contudo, viu a oportunidade para expansão na constante disputa para o sul e, em 83 AC, com o convite de uma das facções nas intermináveis guerras civis, ele invadiu a Síria estabelecendo-se como seu governante e dando um fim ao Império Selêucida, virtualmente.
Cneu Pompeu Magno, o
derradeiro golpe romano
no império Selêucida
O domínio selêucida, contudo, não acabara totalmente. Em seguida à derrota de Mitridates e Tigranes em 69 AC pelo general romano Lucullus, muito próximo de Sulla, um resto do reino selêucida foi restaurado sob Antíoco XIII. Mesmo assim, as guerras civis não terminaram, pois um outro selêucida, Felipe II, contestou o poder. Após a conquista romana do Ponto, os romanos ficaram crescentemente alarmados com a constante fonte de instabilidade na Síria sob os Selêucidas. Assim que Mitrídates VI foi derrotado por Pompeu, em 63 AC, este se encarregou de refazer o Oriente helenístico, com a criação de novos reinos clientes e o estabelecimento de províncias. Enquanto nações clientes como Armênia e Judea puderam continuar com algum grau de autonomia som o domínio de reis locais, Pompeu via os selêucidas como muito complicados para continuar. Acabando com os dois príncipes selêucidas rivais, ele tornou a Síria uma província romana.
Império Selêucida em sua máxima extensão,
às vésperas da morte de Seleucos I, 281 AC
A língua, filosofia e arte gregas vieram com os colonizadores. Durante a Era Selêucida, a língua grega tornou-se a linguagem comum da diplomacia e literatura por todo o Império Persa e o zoroastrismo foi levado para o oeste, vindo a influenciar o judaísmo. A extensão do Império Selêucida, que cobria desde o mar Egeu até o atual Afeganistão, trouxe uma multidão de povos: gregos, persas, medos, sírios, judeus, indianos, entre outros. Sua população total foi estimada em 35 milhões de habitantes, ou 15% da população mundial na época em que era o maior e mais poderoso império do mundo. Seus governantes mantinham uma posição política cujo interesse era salvaguardar a ideia de unidade racial introduzida por Alexandre. Em 313 AC, os ideais helênicos (disseminados por filósofos, historiadores, oficiais em reserva e casais de ligação inter-racial provindos do vitorioso exército macedônio) haviam começado sua expansão de quase 250 anos nas culturas do Oriente Médio e da Ásia central. O esqueleto estrutural da forma de governo do império consistia em estabelecer centenas de cidades para troca e ocupação. Muitas cidades começaram - ou foram induzidas - a adotar não só pensamentos filosóficos, como também sentimentos religiosos e políticas de natureza helênica. A tentativa de sintetizar o helenismo com culturas nativas e diferentes correntes intelectuais resultou em sucessos de tamanho ou naturezas diferentes - tendo como consequência paz e rebelião simultâneas em diferentes partes do império.


[1] Ptolomeu I Sóter foi um general macedônio de Alexandre, o Grande, que se tornou governador do Egito de 323 AC a 283 AC, fundando a Dinastia Ptolemaica. Tomou o título de rei a partir de 305 AC, instituindo então o culto dinástico do rei-salvador (Sóter), de acordo com a tradição dos Faraós egípcios. Recusou-se a pagar tributo ao rei da Macedônia, sucessor de Alexandre Magno. Fundou um império poderoso que, sem conquistas territoriais, manteve um reconhecido esplendor econômico e cultural, firmado em novas e eficazes formas administrativas. Instituiu sua capital em Alexandria, cidade fundada por Alexandre.
[2] A dinastia Atálida foi uma dinastia helênica que reinou na Anatólia, da cidade de Pérgamo (leste da Anatólia), após a morte de Lisímaco, um general de Alexandre. Um dos oficiais de Lisímaco, Philetaerus, tomou o controle da cidade em 282 AC. Os Atálidas seguintes foram descendentes de seu pai e expandiram a cidade a um reino. Attalus I proclamou-se rei em 230 AC.
[3] Coele-Síria, Coelesíria ou Celesíria, foi uma região da Síria, na antiguidade clássica, limitada pela Síria, Mesopotâmia e Península Arábica. A área hoje é parte das modernas nações do Líbano, Síria e Israel.
[4] A Pártia é uma região histórica no nordeste do Irã, base política e cultural da dinastia Arsácida (ou Parta), governadores do Império Parta (247 AC-224 DC).
[5] Báctria ou Bactriana era o nome de uma região histórica da Ásia Central, localizada entre a cordilheira do Indu Kush e o rio Amu-Darya, cobrindo uma região plana que abrange os atuais Afeganistão, Uzbequistão e Tajiquistão.
[6] Galácia era o nome de uma região da Anatólia central que abrangia a região de Ancara e Çorum, na província de Yozgat da moderna Turquia. Ela recebeu este nome por causa dos imigrantes gauleses vindos da Trácia que se assentaram ali e formaram a classe dominante do século III AC em diante, logo depois da invasão gaulesa dos Balcãs em 279 AC.
[7] O Reino do Ponto foi um antigo estado helenístico, localizado a norte da península da Anatólia, atual Turquia.

terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 5)

Honório III, sucessor de Inocêncio III
e corresponsável pela 5a. Cruzada

A Quinta Cruzada (1213-1221) foi mais uma tentativa dos europeus ocidentais para retomar Jerusalém e o resto da Terra Santa, a começar pela conquista do poderoso estado Aiúbida que ainda dominava o Egito. O Papa Inocêncio III e seu sucessor, Papa Honório III, organizaram exércitos cruzados conduzidos pelo rei Andrew II da Hungria e Leopoldo VI, duque da Áustria, que resultaram em fracasso pois Jerusalém permaneceu nas mãos dos muçulmanos. Em 1218, um exército germânico, conduzido por Oliver de Cologne, e um exército composto por holandeses, belgas e frísios, comandados por William I, conde da Holanda, juntaram-se à Cruzada. A fim de atacar Damietta, no delta do Nilo, Egito, eles aliaram-se, na Anatólia, ao Sultanato Seljúcida de Rum[1], que atacou os aiúbidas na Síria, numa tentativa de livrar os cruzados de lutar em duas frentes. Após ocupar o porto de Damietta, os cruzados marcharam em direção ao Cairo, no sul, em julho de 1221, mas foram forçados a uma retirada por falta de abastecimentos. Um ataque noturno pelo sultão al-Kamil resultou em grandes perdas entre os cruzados e, finalmente, na rendição de seu exército. Al-Kamil concordou com um acordo de paz de oito anos com a Europa. O fracasso da Quinta Cruzada provocou novos ressentimentos contra o Papa e foi a última organizada pela Igreja onde diferentes nações lutaram juntas para recuperar a Terra Santa. 
A corte do Rei Friedrich II em Palermo
Sob Friedrich II de Hohenstaufen, imperador do Sacro Império Romano, uma Sexta Cruzada (1227) foi lançada como mais uma tentativa de reconquistar Jerusalém, capitalizando a discórdia interna existente entre al-Kamil, do Egito e al-Mu’azzam, da Síria. A Sexta Cruzada foi de enorme importância para a Europa, por ter conseguido o que todas as cruzadas anteriores não haviam conseguido: recuperar a Terra Santa. Ela teve o mérito de envolver pouco luta e muita diplomacia. Para evitar uma invasão Síria do Egito, al-Kamil ofereceu Jerusalém a Friedrich, que recusou. A posição de al-Kamil foi reforçada quando al-Mu’azzam morreu, em 1227, sendo sucedido por seu filho an-Nasir Dawud. As negociações com Friedrich (embora excomungado pelo Papa) prosseguiram no Acre e, em 1228, levaram a um acordo assinado em 1229, pelo qual os cruzados recuperaram uma Jerusalém sem fortificação, além de outras áreas da Terra Santa, para o Reino de Jerusalém, por mais dez anos, garantindo aos árabes o controle sobre locais sagrados muçulmanos na cidade. Friedrich entrou em Jerusalém em 17 de março de 1229, participando de uma cerimônia de coroamento no dia seguinte. Não se sabe ao certo se ele pretendeu com isso sua coroação oficial como rei de Jerusalém, principalmente pela ausência do Patriarca Gerald. Na verdade, Friedrich era somente o regente de seu filho, Conrado II de Jerusalém, único filho de sua esposa Isabella II (Yolanda), rainha regente de Jerusalém (morta com o nascimento do filho), e neto de Maria de Montferrat e John de Brienne (governante nominal do Reino de Jerusalém), nascido imediatamente antes de Friedrich ter partido em Cruzada, em 1228. Apenas poucos meses depois, Friedrich teve que voltar para a Alemanha e deixou Jerusalém sem proteção, não correndo riscos, inicialmente, porque os aiúbidas se tornavam cada vez mais fracos.
Friedrich estabelecera um importante precedente ao alcançar sucesso com uma cruzada sem o envolvimento papal. Cruzadas adicionais seriam lançadas por reis individuais, tais como Theobald I de Navarra (a Cruzada dos Barões), Luís IX da França (Sétima e Oitava Cruzadas) e Edward I da Inglaterra (Nona Cruzada), efetivamente demonstrando uma erosão da autoridade papal. 
Gregório IX, o Papa da
Cruzada dos Barões
O término do prazo do tratado obtido pela Sexta Cruzada (1229), que ocorreria em 1239, fez com que o Papa Gregório IX convocasse uma nova cruzada para garantir as Terras Santas para a cristandade, além daquele ano. O resultado dessa ideia foi a Cruzada dos Barões, um movimento desorganizado que obteve apoio limitado, tanto de Friedrich quanto do Papa, mas que recuperou mais terras do que a Sexta Cruzada. Também chamada de Cruzada de 1239, em termos territoriais, ela obteve mais sucesso desde a Primeira e teve do Papa Gregório IX o maior empenho para fazer das cruzadas uma empresa cristã universal. Consistiu, na verdade, de duas cruzadas separadas: uma que teve lugar em Constantinopla e outra na Terra Santa.
No início de julho de 1239, o herdeiro do Império Latino e marquês de Namur, Baldwin de Courtney, com um pequeno exército, incluindo vários magnatas seculares, viajou para Constantinopla. No inverno do mesmo ano ele chegou lá, onde foi coroado dois anos após a morte do Imperador Regente John de Brienne. Após isso, na Páscoa de 1240, ele lançou a sua cruzada. A cento e vinte quilômetros de Constantinopla, ele sitiou e conquistou a fortaleza de Tzurulum, local de enorme importância estratégica que forneceria maior segurança para Constantinopla. Embora essa conquista, o Império continuaria a depender de ajuda do Oeste.
A Cruzada da Terra Santa é muitas vezes estudada como duas cruzadas separadas: a do Rei Theobaldo I de Navarra, que começou em 1239, e a de Richard da Cornualha, que chegou após Theobald partir, em 1240. 
Estados Cruzados em 1135 e Cidade do Acre
Theobald de Champagne, o rei de Navarra, reuniu uma lista impressionante de nobres europeus e condes de nível secundário, com uma força de 1.500 cavalheiros e partiu da França em agosto de 1239. Theobaldo alcançou o Acre em 01 de setembro e rapidamente recebeu o apoio dos cruzados que haviam sido espalhados por uma tempestade no Mediterrâneo. A ele se juntou logo um conselho de potentados cristãos locais e alguns cruzados de Chipre. Em novembro o grupo de 4.000 cavalheiros marchou para Ascalon onde construiriam um castelo que havia sido demolido por Saladino anos antes. Exércitos da Cruzada participaram de várias escaramuças, com algumas vitórias e outras derrotas até que An Nasir Dawud, da Transjordânia, cuja caravana havia sido capturada por um exército cruzado, marchou para Jerusalém, então praticamente sem defesas. Após um mês entrincheirada na Torre de David, a guarnição da cidadela rendeu-se em 7 de dezembro, aceitando a oferta de passagem segura para o Acre. E Jerusalém caía novamente em mãos muçulmanas pela primeira vez desde 1229 (Sexta Cruzada). Em seguida, uma guerra civil foi iniciada dentro da dinastia muçulmana Aiúbida, criando um ambiente favorável aos cristãos. Theobaldo negociou com os emires guerreiros de Damasco e do Egito e conseguiu um tratado com As-Salih Ismail, emir de Damasco, ao norte, contra Ayyub, do Egito e Dawud, da Transjordânia, ao sul, pelo qual o Reino de Jerusalém recuperava Jerusalém, além de Belém, Nazaré e a maior parte da região da Galileia, com muitos castelos templários, como Beaufort e Saphet. Essa nova ofensiva dos cruzados forçou Dawud a fazer a sua própria negociação com Theobald ao final do verão de 1240, completando, de fato, muitas das concessões que haviam sido garantidas somente em teoria por Ismail. Theobald não permaneceu para ver concretizados seus acordos com os muçulmanos, partindo da Palestina para a Europa em setembro de 1240, antes da chegada de Richard da Cornualha, para não estar presente a qualquer querela interna, sobre a liderança e rumo da empresa.
Em 10 de junho de 1240, Richard, Primeiro Conde da Cornualha deixou a Inglaterra com um pequeno grupo de cruzados, composta por uma dúzia de barões ingleses e várias centenas de cavalheiros, inclusiva William II Longespee. Chegaram em Acre em 8 de outubro, mas a resposta dos barões ingleses ao Papa Gregório revelou total falta de uma identidade cristã comum. Richard e seus cruzados não viram combate, mas completaram as negociações por uma trégua com os líderes muçulmanos, feita por Theobald poucos meses antes. Prosseguiram na reconstrução do castelo de Ascalon, que foi entregue a Walter Pennenpié, agente imperial de Friedrich II em Jerusalém, ao invés de aos homens do Reino de Jerusalém que se opunham fortemente ao governo de Friedrich. Em abril de 1241 eles trocaram prisioneiros muçulmanos com cativos cristãos, bem como transportaram os restos mortais de mortos em batalha, para o cemitério em Ascalon. Com esse trabalho completo, Richard partiu do Acre para a Inglaterra em 3 de maio de 1241. Embora a Cruzada dos Barões tenha devolvido ao Reino de Jerusalém a sua maior extensão desde 1187, os ganhos seriam dramaticamente revertidos poucos anos depois. Em julho de 1244 Jerusalém foi, não somente capturada, mas reduzida a ruinas e sua população cristão massacrada pelos Khwarazmians (dinastia muçulmana Suni pérsica de origem mameluca turca), do norte da Síria, os novos aliados do Sultão do Egito, As-Salih Ayyub. Poucos meses depois, Ayyub e os Khwarazmians alcançaram uma grande vitória militar na Batalha de La Forbie, que permanentemente aleijou o poder militar cristão na Terra Santa. Contudo, os cristãos haviam então assimilado muito da cultura do Oriente Médio, influenciando enormemente a vida medieval. 
Louis IX da França, morto
na Oitava Cruzada 
A Sétima Cruzada (1248-1254) foi conduzida por Louis IX, da França. Em 1248, ele e, aproximadamente, 15.000 homens fortemente armados, que incluíam 3.000 cavalheiros e 5.000 besteiros embarcaram em 36 navios, nos portos franceses de Aigues-Mortes e Marseille. Navegaram primeiro para Chipre, onde ficaram durante o inverno, negociando com várias outras potências do Oriente: o Império Latino pedira sua ajuda contra o Império Bizantino de Niceia; o Principado de Antioquia e os Cavalheiros Templários precisavam de sua ajuda na Síria, onde os muçulmanos haviam recentemente capturado Sidon. Entretanto, o objetivo da Cruzada era o Egito e Louis IX chegou em Damietta, Nilo, em 1249. Ele cria que o Egito serviria de base para atacar Jerusalém, fornecendo recursos financeiros e grãos que manteriam os cruzados alimentados e equipados. Tomaram Damietta com facilidade, mas a cheia do Nilo não fora levada em consideração; logo seu exército ficou preso por seis meses. Ignorando o acordo da Quinta Cruzada pelo qual Damietta seria incorporada ao Reino de Jerusalém, agora um estado anexo no Acre, Louis IX estabeleceu lá um Arcebispado sob a autoridade do Patriarcado Latino de Jerusalém, usando a cidade como base para operações militares diretas contra os muçulmanos da Síria. Louis falhou em sua conquista do Cairo e tentou o sítio de Al Mansurah, para manter Damietta. Tal tentativa findou com fome e morte para os cruzados que resolveram, em março de 1250 retornar a Damietta, quando Louis foi feito cativo na batalha de Fariskur - pelo exército egípcio conduzido pelo sultão Aiúbida, Turanshah, apoiado por mamelucos Bahariyya - e seu exército aniquilado. Em maio, 800.000 bezants (moedas de ouro produzidas pelo governo do Império Bizantino) foram pagos em resgate pelo rei Louis, metade dos quais antes que ele deixasse o Egito. Como parte do acordo, Damietta também foi entregue aos árabes e Louis abandonou o Egito para o Acre, uma das poucas possessões remanescentes dos cruzados na Síria. 
Representação alegórica da Sétima Cruzada
Louis IX fez uma aliança com os Mamelucos que, à época, eram rivais do sultão de Damasco e, de sua nova base no Acre, então capital do Reino de Jerusalém, começou a reconstrução de outras cidades cruzadas, particularmente Jaffa e Saida. Em 1254 seus recursos financeiros escassearam e sua presença estava sendo exigida na França, com a morte de sua mãe; antes de voltar ele estabeleceu uma forte guarnição francesa no Acre, às expensas da coroa francesa, que lá permaneceu até a queda da capital, em 1291. Sua cruzada foi um fracasso, mas sua fama deu-lhe ainda maior autoridade na Europa do que o Imperador do Sacro Império Romano. Em 1270 ele tentaria uma nova cruzada que também terminaria em fracasso.
A Oitava Cruzada foi lançada por Louis IX contra a cidade de Tunis, em 1270. O avanço de Baibars, quarto sultão do Egito da dinastia mameluca Bahri, na Síria, durante o início dos anos 1260, alarmava a cristandade. A guerra de São Sabas, entre as repúblicas marítimas de Gênova e Veneza, que lutavam pelo controle do Acre, no Reino de Jerusalém, havia arrastado os Estados Cruzados e exaurido suas finanças e contingentes. Os povoamentos exauridos eram sistematicamente batidos pelas campanhas metódicas de Baibars que, em 1265, havia atacado a Galileia e destruído a catedral de Nazaré, capturado Cesareia e Arsuf e, temporariamente, tomado Haifa. Em 1266, Louis IX informou ao Papa Clemente IV sua intenção de formar nova cruzada.
A Cruzada foi oficialmente formada em 24 de março de 1267, numa assembleia de seus nobres, embora com menos entusiasmo do que na Sétima, e partiu do porto de Aigues-Mortes no início do verão de 1270, em navios genoveses e marselheses. Um contingente aragonês, sob James I de Aragão, partiu de Barcelona em setembro de 1269, mas apanhado por uma tempestade foi seriamente danificado e muitos dos sobreviventes retornaram à pátria. Uma esquadra, sob o comando dos filhos do rei, Pedro Fernandez e Fernan Sanchez, alcançou o Acre, mas muito enfraquecida para enfrentar Baibars, também logo retornou para Aragão.
O plano inicial de Louis era descer por Chipre, mas foi trocado pelo desembarque em Túnis, capital da Tunísia, às margens do Mediterrâneo, por ser importante base de suprimentos para o Egito. Os cruzados construíram um campo fortificado nas ruínas de Cartago e esperaram pela chegada do contingente siciliano sob o comando de Charles de Anjou, irmão do rei. Uma epidemia de disenteria do verão norte-africano espalhou-se pelas fileiras cruzadas, matando, entre outros, o filho de Louis IX, John Tristan (03/08), e o próprio, em 25 de agosto de 1270. Seu irmão, Charles, chegou logo após a sua morte. Pelo prosseguimento das doenças, o sítio a Túnis foi abandonado em 30 de outubro por um acordo com o sultão, que garantia aos cristãos o livre comércio com Túnis e, aos monges e padres, residência na cidade. Ao saber da morte de Louis e da retirada dos cruzados de Túnis, Baibars do Egito cancelou seus planos de enviar tropas para a luta. O Príncipe Edward da Inglaterra chegou com a sua armada um dia antes dos cruzados deixarem Túnis. Ele retornou para a Sicília com o resto dos cruzados e o exército combinado ainda foi seriamente danificado por uma tempestade. Ao final de abril de 1271, os ingleses prosseguiram para o Acre, concretizando a Nona Cruzada. 
Edward da Inglaterra, o comandante
da última Cruzada
A Nona Cruzada, algumas vezes grupada à Oitava Cruzada, é considerada a última cruzada medieval importante à Terra Santa e aconteceu em 1271-1272, comandada por Edward da Inglaterra, que velejou diretamente ao Acre. Esta cruzada viu várias vitórias importantes sobre Baibars; infelizmente Edward foi ao final muito pressionado por problemas na Inglaterra e sentiu-se impossibilitado para resolver os seus conflitos internos em territórios ultramar, tendo que retirar-se.
Em 9 de maio de 1271, Edward chegou ao Acre com um contingente pequeno, mas não insignificante, de mil homens que incluíam 250 cavalheiros, exatamente quando Baibars sitiava Trípoli que, como local remanescente do Condado de Trípoli, abrigava dezenas de milhares de cristãos refugiados. Sua chegada fez Baibars alterar seus planos, afastando-se do Acre. Com forças insuficientes para enfrentar uma batalha direta contra os mamelucos, Edward optou por lançar uma série de ataques rápidos. Após capturar Nazaré, Edward atacou Saint Georges-de-Lebeyne. Com a chegada de reforços da Inglaterra e de Hugh III de Chipre, sob o comando de seu irmão mais novo, Edmund, Edward lançou um ataque maior, com o apoio dos cavalheiros Templários, Hospitalários e Teutônicos, sobre a cidade de Qaqun. Os cruzados surpreenderam uma grande força de turcomanos (adicionados ao exército de Baibars em troca de terras, cavalos e títulos), matando 1.500 deles e tomando 5.000 cavalos como saque de guerra. O comandante muçulmano do castelo foi obrigado a abandoná-lo, mas Edward retirou-se sem ocupar, antes que Baibar pudesse responder, pois sua força principal estava em Aleppo, aguardando um ataque mongol. Em dezembro de 1271 Edward e suas tropas repeliram um ataque à cidade do Acre por Baibars que, finalmente, também abandonou seu sítio à cidade de Trípoli. Em setembro de 1271 Edward obteve uma aliança com o mongol governante da Pérsia, Abagha, inimigo dos muçulmanos. A chegada dos mongóis na Síria provocou um formidável êxodo da população muçulmana para o Cairo. Além disso, os mongóis derrotaram as tropas turcomanas que protegiam Aleppo, atacando outras regiões ao sul. Mas não permaneceram na região e, quando Baibars montou uma contraofensiva do Egito, em novembro, os mongóis já haviam feito sua retirada para além do Eufrates, com farto saque de guerra. Baibars tentou uma manobra ousada para tentar a conquista de Chipre das mãos de Hugh III de Chipre (o nominal rei de Jerusalém), tirando sua frota do Acre e assim deixando o exército cruzado isolado na Terra Santa. Mas ao final os exércitos de Baibars foram forçados a retirar-se.
Após essa vitória, Edward sentiu que para criar uma força capaz de retomar Jerusalém seria necessário terminar com os atritos internos do Estado Cristão, agindo como mediador entre Hugh e seus cavalheiros sem entusiasmo da família Ibelin, de Chipre. Em paralelo com a mediação, Edward e Hugh começaram a negociar uma trégua com Baibars, o que foi conseguido (dez anos, dez meses e dez dias) em maio de 1272, em Cesareia. Em seguida, o príncipe Edmund partiu para a Inglaterra, enquanto Edward permanecia para assistir à concretização da trégua. No mês seguinte, uma tentativa frustrada de assassinato foi feita contra Edward, que acabou matando o assassino, mas teve um ferimento de uma adaga envenenada que acabou atrasando sua partida. Em setembro de 1272 ele partiu do Acre para a Sicília e durante sua recuperação teve notícias da morte de seu irmão John e de seu pai, alguns meses mais tarde. Em 1273 iniciou sua volta para casa via Itália, alcançando a Inglaterra em meados de 1274 e sendo coroado rei da Inglaterra em 19 de agosto de 1274.
Novas fissuras surgiram nos Estados Cristãos quando Charles de Anjou tirou vantagem de uma disputa entre Hugh III, os Cavalheiros Templários e os venezianos, para trazer ao seu controle o que deles restara. Endossando as reivindicações de Mary da Antioquia, de pretendente ao trono do Reino de Jerusalém, ele atacou Hugh III causando uma guerra civil. Em 1277, Roger de San Severino capturou o Acre para Charles. Embora a guerra fosse debilitante, ela forneceu a oportunidade de um só comandante ter o controle cruzado na pessoa de Charles. Contudo, tal esperança foi descartada quando Veneza sugeriu uma nova cruzada, não contra os mamelucos, mas contra Constantinopla, onde Michael VIII tinha recentemente restabelecido o Império Bizantino, expulsando os venezianos. O Papa Gregório não teria apoiado tal ataque, mas em 1281 o Papa Martinho IV consentiu e o fiasco que se seguiu ajudou a desencadear as “Vésperas Sicilianas”[2], em 31 de março de 1282, instigadas por Michael VIII, e obrigando Charles a voltar para casa. Esta foi a última expedição lançada contra os bizantinos na Europa ou os muçulmanos na Terra Santa. 
Nostálgica pintura do
"Último Cruzado"
Os restantes nove anos viram um aumento nas demandas dos mamelucos, incluindo tributos e perseguições aos peregrinos, em desconformidade com a trégua. Em 1289 o sultão Qalawun reuniu um enorme exército e investiu contra os habitantes remanescentes do Condado de Trípoli, tomando-o após um assalto sangrento. O assalto, entretanto, foi particularmente devastador para os mamelucos, pois a resistência cristã foi enorme e Qalawun perdeu seu filho mais velho e mais capaz no combate.
Em 1291, um grupo de peregrinos do Acre foi posto sob ataque e, em retaliação, matou 19 mercadores muçulmanos numa caravana síria, pelo que Qalawun pediu um pagamento extra, em compensação. Sem resposta o sultão sitiou o Acre para acabar com o último estado cruzado na Terra Santa. Qalawun morreu durante o cerco, deixando seu membro sobrevivente como Sultão Mameluco. Com o Acre sitiado, os Estados Cruzados, fora Chipre, deixaram de existir. O centro do poder foi movido para Tortosa e, finalmente, para as praias de Chipre. O último baluarte cruzado na Terra Santa, Ilha Ruad (ao lado de Tortosa), Síria, foi perdido em 1302/1303. O período das Cruzadas para a Terra Santa havia terminado, 208 anos após o início da Primeira Cruzada.
Com relação à Síria, em 1230, seus Emires[3] tentaram sua independência do Egito, permanecendo divididos até que o sultão as-Salih Ayyub restaurou a unidade Aiúbida tomando a maior parte da Síria, com exceção de Alepo, em 1247. À época, as dinastias muçulmanas locais haviam expulso os aiúbidas do Iêmen, Hejaz e partes da Mesopotâmia. Ao morrer em 1249, as-Salih Ayyub foi sucedido, no Egito, por al-Mu’azzam Turanshah, que logo foi derrubado pelos generais mamelucos que havia repelido com sucesso o ataque dos Cruzados no delta do Nilo. Embora algumas tentativas de emires da Síria, comandados por an-Nasir Yusuf, para retomar o poder, este episódio encerrou o controle Aiúbida no Egito. Em 1260, os mongóis saquearam Alepo logo conquistando os territórios restantes dos aiúbidas (Bagdá em 1261). Em 1299, um exército mongol conduzido por Ghazan Khan, realizou uma série de ataques contra os mamelucos, numa área a nordeste de Homs (Síria), para o sul, até Gaza (oeste da Palestina, Península do Sinai); finalmente, em 1300, retirou-se para a Síria.
O último governante aiúbida de Hama morreu em 1299, quando o principado passou breve e diretamente para a soberania mameluca; contudo, em 1310, sob o patrocínio do sultão mameluco al-Nasir Muhammad, Hama foi restituída ao aiúbida Abu al-Fida, que morreu em 1331 e foi sucedido por seu filho al-Afdal Muhammad, que acabou perdendo o favor dos lordes mamelucos, sendo afastado do seu posto em 1341; a partir daí, Hama passou formalmente para o domínio mameluco.
Finalmente, pelo ano 1570, como já havíamos dito, o Império Turco Otomano controlava a maioria do mundo Árabe.
Durante seu domínio, relativamente curto, os aiúbidas anteciparam uma era de prosperidade econômica nas terras que governaram e as facilidades e apoio que patrocinaram, conduziram ao renascimento da atividade intelectual no mundo islâmico. E com isso chegamos ao ponto em que havíamos interrompido, para um parênteses à dinastia Aiúbida.

[1] O Sultanato Seljúcida de Rum foi um estado Turco-Persa muçulmano Sunni, que se estabeleceu em partes da Anatólia conquistadas do Império Bizantino pelo Império Seljúcida, estabelecido pelos turcos seljúcidas. O nome Rum vem do nome árabe de Anatólia, ar-Rum, tomado emprestado do grego para “romanos”. O Sultanato de Rum foi o sucessor do Grande Império Seljúcida sob Suleiman ibn Qutulmish, em 1077.
[2] As “Vésperas Sicilianas” é o nome dado a uma revolução de sucesso na Ilha da Sicília, deflagrada na Páscoa de 1282, contra o governo do Rei Charles I (de Anjou), nascido francês, que exercia o poder do Reino da Sicília desde 1266. Em seis semanas, três mil homens e mulheres franceses foram assassinados pelos rebeldes e o governo de Charles perdeu o controle da Ilha. Era o início da Guerra das Vésperas Sicilianas.
[3] Emir, algumas vezes transliterado como Amir, é um título de alto posto usado em muitos lugares nos países árabes e Afeganistão. Significa comandante, general ou príncipe. Quando usado como “príncipe”, a palavra “emirado” é análoga a uma principalidade soberana. Originalmente significava simplesmente um comandante-em-chefe ou líder, em geral com referência a um grupo de pessoas.

Continua na próxima postagem com a PARTE 6