Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 7 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 3)

 

IV – NABUCODONOSOR II E OS SUCESSORES DO SEU IMPÉRIO

O Levante Histórico em vermelho
Após ter reinado por quarenta e três anos, o rei Nabucodonosor morreu. Foi um homem ativo e mais feliz que os reis que o antecederam. Berosus menciona suas ações no terceiro livro de sua “História dos Caldeus”, onde diz: “Quando seu pai Nabopolassar foi informado de que o governador que havia colocado no Egito e as regiões da Coelesyria
[1] e Fenícia[2] haviam se revoltado, entregou parte do seu exército ao seu filho ainda jovem, Nabucodonosor, e enviou-o contra eles”. O jovem príncipe debelou todos os revoltosos e incorporou as regiões ao seu próprio país, ao mesmo tempo em que seu pai adoecia e morria na Babilônia, após reinar por 21 anos. Tendo acertado seus assuntos no Egito e outros países bem como os relativos aos transportes dos prisioneiros egípcios, fenícios, sírio e judeus bem como seu próprio exército, retornou à Babilônia assumindo o controle do reino. Construiu reforçadas muralhas em volta de toda a cidade e construiu um novo palácio para si mesmo em frente ao de seu pai.
O filho de Nabucodonosor II, Evil-Merodach, o substituiu, imediatamente colocando em liberdade e fazendo-o seu amigo íntimo, Jehoiachin, penúltimo rei de Judá, colocado por Nabucodonosor II.
Quando Evil-Merodach morreu, após um reinado de 18 anos, foi substituído por seu filho Niglissar que reinou por quarenta anos. A sucessão do reino passou para seu filho Labosordacus que reinou por apenas nove meses, sendo substituído por Baltasar, entre os babilônios, Naboandelus. Contra ele fizeram guerra Darius, o rei da Média e Ciro, o rei da Pérsia. Segundo Flavius Josephus, quando Baltasar se encontrava sitiado, teria tido um sonho que nenhum dos seus adivinhos teria conseguido interpretar. 
Mapa da região da Fenícia, em verde
Por interferência de sua avó, surge então a figura do cativo Daniel, judeu de nascimento trazido da Judeia por Nabucodonosor para a Babilônia, um sábio, que teria conseguido interpretar, apenas por influência de Deus, o sonho de Baltasar, recusando todos os presentes prometidos. Daniel teria então relatado a Baltasar que ele morreria em pouco tempo por terem, ele e Nabucodonosor blasfemado contra Deus e que, por isso, Deus partiria seu reino em pedaços dividindo-o entre Persas e Medos.
Pouco tempo depois, em 539 AC, a cidade e Baltasar foram tomados por Ciro (o primeiro general a entrar na Babilônia quando tomada pelos persas), encerrando, após um reinado de 17 anos, a posteridade de Nabucodonosor.

V – DO PRIMEIRO ANO DE CIRO ATÉ A ASCENSÃO DE ALEXANDRE, O GRANDE

Ciro II, o Grande, redentor dos Judeus
Ciro II, o Grande, filho de Cambises e neto de Ciro I, foi o fundador do Império Aquemênida, o primeiro Império Persa. Seu reinado durou 30 anos e foi criado a partir da conquista do Império Medo, do Império Lídio e, finalmente, do Novo Império Babilônio. Assumiu o trono da Pérsia em 559 AC, mas não como governante independente; como seus predecessores, teve que reconhecer a liderança dos Medos. Só após a conquista da Babilônia, em 539 AC, Ciro proclamou-se “Rei dos Quatro Cantos do Mundo”, com o maior império que o mundo tinha visto até então. 
Após a conquista persa da Babilônia, o rei Ciro, o Grande, emitiu um decreto em 538 AC (70º ano da remoção do povo judeu para a Babilônia) que não apenas permitiu, mas ativamente encorajou o retorno dos exilados judeus para Judá e a reconstrução do Templo em Jerusalém. Mais do que isso, providenciou junto aos mandatários da vizinhança da Judeia o ouro e a prata necessários para as despesas. Essa política persa de tolerância religiosa foi recebida com grande júbilo pelos exilados, a ponto de o profeta Dêutero-Isaías aclamar Ciro como "o ungido do Senhor".
A primeira onda de retornados, liderada por Zorobabel (que pode ter sido a mesma pessoa que Sesbazar) e incluindo mandatários das duas tribos, Judá (Reino de Judá após a cisão) e Benjamin, com os Levitas e sacerdotes, ocorreu por volta de 537 AC. Este grupo, composto por aproximadamente 42.360 indivíduos, além de 7.337 servos e servas e 200 cantores e cantoras, levou consigo os vasos sagrados do Templo. Contudo, é fundamental observar que este foi apenas um retorno parcial. Muitos judeus já haviam estabelecido novas vidas na Babilônia e em outras partes da diáspora, mas continuavam a considerar o Templo em Jerusalém como um poderoso símbolo de sua unidade coletiva.
A narrativa do "retorno" é central para o judaísmo pós-exílico, mas os registros históricos revelam uma contra-narrativa crucial: uma porção significativa da população judaica optou por não retornar. Isso indica que o exílio babilônico, embora traumático, também fomentou o crescimento de uma diáspora robusta e duradoura. A contínua reverência pelo Templo de Jerusalém por aqueles que permaneceram no exterior demonstra que a identidade judaica estava se tornando cada vez mais flexível, capaz de transcender as fronteiras geográficas. O estabelecimento precoce de uma grande e influente comunidade diaspórica moldaria profundamente o futuro do judaísmo, promovendo diversas expressões culturais e centros intelectuais fora da Judeia.
Os judeus que retornaram se dedicaram à reconstrução do Templo e de Jerusalém, mas foram retardados em seus esforços, pelos povos vizinhos, em especial pelos Cutheans ou Cuthitas, povo trazido da Média e Pérsia, por Nabucodonosor, para a região da Samaria, para povoar a região que ficara desabitada quando os judeus do Reino de Israel (após a cisão) foram levados para o cativeiro da Babilônia. Ciro não tinha conhecimento desses fatos porque participava de guerras contra outros povos, ocasião em que foi morto. Ciro II foi sucedido por Cambises II, em 530 AC, reinando até 522 AC, recebendo desses povos queixas contra os judeus, dizendo que assim que os seus trabalhos fossem concluídos, eles se rebelariam, deixando de pagar seus tributos. Cambises II ordenou que os judeus cessassem as construções em andamento para que os problemas anteriores ao cativeiro não voltassem a se repetir. Durante todo o reinado de Cambises II os trabalhos de reconstrução do Templo foram suspensos, só reiniciando no segundo ano de Dario I, o Grande. Cambises II foi sucedido por seu irmão mais moço Bardiya, filho de Ciro II com Atossa, sua esposa, que não era rainha. Bardiya foi assassinado por Dario I que assumiu o trono da Pérsia. Aqui a história não é bem clara e há quem diga que Bardiya não assumiu o trono, mas sim um Mago que por ele se fez passar e assim que descoberto foi assassinado por Dario I, filho de Histaspes, que assumiu o trono em 521 AC, reinando de Persépolis, capital do Império na Pérsia.
Na história de “Daniel na cova dos leões” (Daniel 6, do Antigo Testamento), Daniel continuou a servir na corte real sob Dario I, historicamente de reinado duvidoso, como alto dignatário. Seus rivais, com inveja, planejaram a sua queda, fazendo com que Dario emitisse um decreto pelo qual nenhuma oração poderia ser feita a qualquer deus ou homem além do próprio Dario, sob pena de morte. Daniel continuou a rezar ao Deus de Israel; Dario, embora profundamente desgostoso, teve que condená-lo a ser jogado na cova dos leões porque os decretos de Persas e Medos não podiam ser alterados. Ao nascer do dia o rei apressou-se ao lugar e Daniel disse-lhe que Deus havia enviado um anjo para salvá-lo. Dario então ordenou que aqueles que haviam conspirado contra Daniel fossem lançados aos leões em seu lugar, com suas esposas e filhos. Quando aqueles que tinham pretendido destruir Daniel, foram assim destruídos, o Rei Dario enviou cartas por todo o país louvando o Deus que Daniel adorava e dizendo que Ele era o único Deus verdadeiro.
A monumental tarefa de reconstruir Jerusalém e restabelecer a comunidade judaica foi reiniciada e liderada por três figuras distintas, mas complementares:

Zorobabel, o príncipe da casa de Davi que liderou a primeira leva de retornados e foi fundamental na colocação dos alicerces do Segundo Templo por volta de 536 AC. A construção do Templo foi finalmente concluída em 516 AC, durante o reinado do rei persa Dario I.
Esdras, um escriba e sacerdote altamente habilidoso, chegou mais tarde, após uma considerável lacuna cronológica. Seu foco principal era a restauração da adoração adequada e a rigorosa implementação da Torá. Ele iniciou reformas morais e espirituais significativas, incluindo a controversa condenação de casamentos mistos, tudo visando revitalizar a identidade religiosa e a devoção do povo judeu.
Neemias, que servia como copeiro do rei posterior persa Artaxerxes (cujo reinado se estendeu de 465 a 424 AC), assumiu a responsabilidade pela reconstrução das muralhas defensivas de Jerusalém, um projeto que enfrentou considerável oposição externa. Além da construção física, Neemias também se dedicou à edificação espiritual do povo e à garantia de sua adesão à aliança.

Os papéis de Zorobabel (reconstrução física e cultual), Esdras (reforma religiosa e legal) e Neemias (organização administrativa e social) ilustram uma evolução crítica na governança judaica. Com a ausência da monarquia tradicional, a liderança se diversificou. Essa divisão de autoridade, embora eficaz para uma restauração abrangente, também sinaliza uma nascente separação entre o poder religioso e o secular, com o Sumo Sacerdote ganhando influência significativa. A ênfase nas reformas espirituais e morais de Esdras e Neemias sublinha que a comunidade pós-exílica compreendia a "restauração" não apenas como um retorno a uma terra ou edifício físico, mas como uma profunda renovação espiritual e ética, centrada na Lei em vez de um rei. Esse modelo de liderança se tornaria fundamental para o futuro do judaísmo, especialmente após a destruição do Templo.
Zorobabel, feito governador dos judeus pós cativeiro, foi de Jerusalém à presença de Dario I, de quem tinha sido amigo e nas graças de quem havia caído antes mesmo que ele assumisse o reino, para solicitar-lhe o cumprimento de sua promessa de reconstrução de Jerusalém e do templo dos judeus, bem como a devolução dos vasos sagrados que Nabucodonosor havia roubado. Dario cumpriu todas as promessas feitas a Zorobabel e muito mais, isentando-o de impostos, proibindo outros povos de guerrearem contra os judeus e ainda obrigando-os a ajudarem na reconstrução da cidade e do templo. O povo saudou o retorno de Zorobabel a Jerusalém e celebrou durante sete dias o início da reconstrução e restauração do seu país.
Judá em amarelo e Israel em azul, século IX AC
A reconstrução do Templo e das muralhas foi um testemunho da fé e determinação judaica, superando adversários políticos significativos e o desânimo interno. O Segundo Templo, embora carecesse da Arca da Aliança e da Shekinah (presença divina) de seu predecessor
    e por isso fosse percebido por alguns como espiritualmente inferior, tornou-se, no entanto, o símbolo central da identidade judaica e o principal local de adoração, sacrifício ritual e reuniões comunitárias. O Templo é consistentemente destacado como um "símbolo central da identidade judaica". No entanto, a menção explícita de sua "falta de esplendor" e da ausência da Arca e da Shekinah introduz uma nuance crucial: o Segundo Templo, embora uma restauração física, não foi visto como um retorno espiritual completo à glória do Primeiro Templo. Essa sensação de imperfeição, combinada com as críticas proféticas à ganância interna e ao exclusivismo, indica que a restauração pós-exílica foi um empreendimento humano complexo, repleto de desafios internos e uma persistente sensação de incompletude espiritual. Essa tensão inerente contribuiria para as diversas expressões religiosas e expectativas que caracterizaram o período posterior do Segundo Templo.
Após dois anos e dois meses de seu retorno do cativeiro, os judeus estavam bem adiantados na construção do Templo e iniciaram as celebrações correspondentes. As nações vizinhas dos judeus, incluindo os samaritanos (da região da Samaria), voltaram a indignar-se e tentaram, de todas as nações da Síria obter novamente uma interrupção nos trabalhos dos judeus, sem tomar qualquer providência antes de saber como reagiria Dario I. Enquanto isso, os profetas Haggai e Zacarias encorajavam os judeus a não desistirem da obra nem das promessas dos Persas. Dario I não aceitou as reclamações dos vizinhos dos Judeus e voltou a hipotecar-lhes o seu apoio na reconstrução do Templo, que foi concluída em 7 anos. No nono ano de Dario I os israelitas festejaram a conclusão do novo Templo, sempre mantido o apoio persa em seu favor, sob o governo de Zorobabel, até a morte de Dario I, o Grande.
Império Persa em sua maior extensão sob Dario, o Grande
Sob o domínio persa, a comunidade judaica na província de Judá desfrutou de um grau de autonomia limitada. O principal vínculo com o vasto Império Persa era através de uma política tributária, que, embora impondo obrigação econômica, permitia uma significativa auto governança interna. Este período foi profundamente formativo para a identidade e cultura judaicas. Testemunhou o crucial processo de consolidação da liturgia judaica e a compilação dos textos que finalmente formariam o Tanakh (Bíblia Hebraica). A rigorosa observância da Lei, do Sábado e da circuncisão tornou-se elemento definidor e essencial da vida judaica.
A ausência de uma monarquia soberana e a limitada autonomia política sob a Pérsia forçaram uma reorientação fundamental da identidade judaica. A ênfase na "consolidação da liturgia e dos escritos histórico-religiosos" e a elevação da "Lei, Sábado e circuncisão" como "elementos distintivos" significam uma mudança de uma identidade nacional-política para uma identidade religiosa-textual. Os escribas tornaram-se figuras de suma importância, servindo efetivamente como os novos guardiões intelectuais e espirituais. Esse desenvolvimento foi crucial para a sobrevivência do judaísmo em um mundo sem rei e plena independência política.
Na ausência de um rei, o Sumo Sacerdote emergiu como o líder religioso preeminente e, em grande medida, líder político da comunidade judaica em Jerusalém. O cargo de Sumo Sacerdote era hereditário, traçando sua linhagem até Arão, irmão de Moisés, da tribo de Levi. Essa figura central, responsável pela mediação entre Deus e o povo através dos rituais do Templo, assumiu uma autoridade considerável na província de Judá. O surgimento de uma hierarquia sacerdotal centralizada no Templo, liderada pelo Sumo Sacerdote, foi uma resposta direta à ausência de uma monarquia e à necessidade de uma estrutura de governança interna sob o domínio persa. Essa concentração de poder religioso e, em parte, político no Sumo Sacerdote, embora garantisse a coesão da comunidade e a continuidade do culto, também plantou as sementes para futuras tensões. A dependência que tinha o sacerdócio da aprovação imperial, primeiramente persa e depois helenística e romana, para manter sua posição e privilégios, criaria divisões internas e comprometeria a independência religiosa, levando a conflitos e a uma busca por maior autonomia.
Com a morte de Dario I, seu filho Xerxes assumiu o reino persa, mantendo com os judeus o mesmo tratamento dispensado por seu pai. Por essa época, o grande sacerdote dos judeus era Joachim, filho de Jeshua. Na Babilônia, o principal sacerdote era Esdras, conhecedor das leis de Moises e bem relacionado com Xerxes. Pretendendo viajar a Jerusalém, com judeus que ainda se encontravam na Babilônia, Esdras conseguiu do rei Xerxes uma carta de recomendação que o permitisse passar com segurança pelos países do trajeto para a Judeia. Mais do que isso, permitiu à comitiva que levasse riquezas e bens da Pérsia, que servissem como sacrifícios dos judeus a Deus. Satisfeito com a boa vontade de Xerxes que o tornava responsável perante os judeus por tudo o que conseguira para levar à Judeia, Esdras organizou o povo que participaria da viagem, para o seu pleno sucesso, renunciando ao exército que Xerxes lhe oferecera como segurança. Partiram do Eufrates no 12º dia do 1º mês do 7º ano do reinado de Xerxes, chegando a Jerusalém no 5º mês do mesmo ano. Lá chegando, Esdras entregou aos tesoureiros, da família dos sacerdotes dos judeus, todos os presentes enviados por Xerxes bem como sua carta aos oficiais do Rei e aos governadores dos reinos vizinhos para que bem entendessem a boa vontade de Xerxes para com os judeus e os auxiliassem no que pudessem.
Logo começaram a surgir queixas contra alguns dos cidadãos que haviam se casado com mulheres estranhas à nação judaica, assim transgredindo as leis do seu país. Os acusadores argumentavam que Esdras deveria obrigar os faltosos a enviar de volta para os seus países, as mulheres estrangeiras com os filhos gerados, a fim de obter o perdão de Deus. Surge a figura importante de Jechonias depondo contra os faltosos, o que motiva Esdras a obrigar os chefes dos sacerdotes, dos levitas e dos israelitas a jurarem que mandariam embora as esposas e crianças. Isto feito e a fim de apaziguar Deus, ofereceram sacrifícios de animais e outros bens. Ao 7º mês tiveram início as Festas do Tabernáculo que duraram oito dias, após o que todos retornaram às suas casas cantando hinos a Deus e agradecendo a Esdras pelo conserto das faltas introduzidas. Após ter obtido tal reputação entre o povo, Esdras morreu velho e foi enterrado de maneira magnífica em Jerusalém. Ao mesmo tempo, morreu também o alto sacerdote Joachim, sucedido por seu filho Eliasib no alto sacerdócio.
Alguns anos depois, Neemias, um judeu em Susa, metrópole da Pérsia, que servia como copeiro de Xerxes, ficou sabendo que Jerusalém e o povo estavam novamente em péssimo estado, por ação de seus vizinhos. Neemias deu conhecimento do assunto a Xerxes que novamente escreveu carta aos vizinhos dos judeus, autorizando Neemias a voltar para Jerusalém com a carta que cobrava ajuda da Samaria e adjacências para a reconstrução da cidade e manutenção do templo. No 25º ano do reinado de Xerxes, Neemias retornou a Jerusalém com muitos judeus que voluntariamente o acompanharam. Em Jerusalém ele reuniu todo o povo e informou a razão de sua ida, conclamando os judeus a se reunirem por vontade de Deus e se dedicarem com ânimo à reconstrução das muralhas e à manutenção do Templo, sem se preocuparem com as afrontas dos reinos vizinhos. E após prometer que ele mesmo, com seus servos, assistiria aos judeus (assim chamados após o retorno da Babilônia, a partir do nome da tribo de Judá) na reconstrução, Neemias dissolveu a assembleia.
Logo os moabitas, amonitas, samaritanos e sírios reiniciaram suas provocações que incluíram ameaças de morte ao próprio Neemias, provocando de parte dos judeus medidas especiais para que pudessem prosseguir em seus trabalhos. Nesses moldes, a construção das muralhas demandou dois anos e quatro meses, sendo concluídas no nono mês do 28º ano do reinado de Xerxes. Encerrada a construção, Neemias e o povo ofereceram sacrifícios a Deus e festejaram durante oito dias, o que deixou indignadas as nações vizinhas. Neemias tomou ainda várias outras providências para garantir a vida tranquila da população e morreu velho e feliz por ter realizado a felicidade do povo de Jerusalém.
Com a morte do rei Xerxes, assumiu o trono da Pérsia seu filho Artaxerxes I (que alguns conhecem por Cyrus), que se casou com uma moça judia, de família real e que teve importante papel na preservação do povo judeu. O rei separando-se de sua primeira esposa, ordenou que fossem selecionadas um grande número de virgens para que escolhesse entre elas a sua nova esposa. Artaxerxes acabou apaixonando-se por Esther, uma jovem órfã judia criada por Mordecai, seu tio. O rei casou-se com ela e levou-a para habitar o seu palácio em Shushan, abandonando a Babilônia onde vivia, sem saber que Esther era judia.
Um complô contra o rei foi descoberto por Esther e denunciado por Mordecai ao Rei, que determinou a execução dos envolvidos, tornando Mordecai, que foi habitar no palácio, um de seus favoritos. Havia no reino um amalequita (inimigo dos judeus) de nome Haman que costumava ir ao rei e a quem Artaxerxes ordenara que persas e estrangeiros o adorassem. Mordecai, de origem judia, negou-se a tal procedimento e por isso Haman descobriu que ele e sua família eram judeus e resolveu aproveitar denunciando-os ao Rei para provocar a extinção de todos os judeus, propondo-se a pagar do seu bolso um valor equivalente ao tributo pago pelo povo judeu. O rei aceitou a proposta e Haman enviou decretos a todas as nações sob o jugo persa determinando a morte de todos os judeus, suas esposas e filhos, até o 14º dia do 12º mês daquele corrente ano. Mordecai e os judeus de todas as partes fizeram tais notícias chegassem aos ouvidos do Rei e da Rainha.
Essas intrigas envolvendo o Rei Artaxerxes, sua esposa Esther, Haman e Mordecai permaneceram durante algum tempo até que todas as artimanhas de Haman foram descobertas por Artaxerxes por meio de sua esposa Esther. O rei, que então ficara sabendo do parentesco de Esther com Mordecai, chamou-o e deu-lhe o anel que antes havia dado a Haman, bem como sua casa. A rainha solicitou também ao rei que liberasse totalmente a nação dos judeus do medo da morte, ao que o rei respondeu que nada faria que a desagradasse, mas que ela escrevesse tudo o que lhe agradasse sobre os judeus, em nome do rei, que lhe aporia o selo real e o enviaria a todo o seu reino.
Após aqueles dias, como celebração, os judeus realizaram vários dias de festivais que chamaram Phurim ou Purim, que continuam a ser celebrados até hoje. Mordecai tornou-se um grande e ilustre personagem junto ao rei, assistindo-o sempre no governo do povo. Com isso, os assuntos do povo judeu foram resolvidos ainda melhor do que se poderia esperar. Esta a situação dos Judeus sob o reino de Artaxerxes.
Quando o sacerdote Eliasib morreu, seu filho Judas sucedeu-o no alto sacerdócio e com sua morte, seu filho João assumiu aquela dignidade. Foi sob o seu comando que Bagoses, general de outro exército de Artaxerxes poluiu o Templo, impondo novos tributos aos Judeus. Jesus, irmão de João, era amigo de Bagoses, que lhe havia prometido o alto sacerdócio. Por isso os dois irmão brigaram no Templo e de tal forma violenta que João acabou assassinando Jesus, crime enorme principalmente considerada a sua situação de alto sacerdote. Quando Bagoses, o general persa, soube que João, o alto sacerdote dos Judeus havia assassinado seu irmão Jesus, no Templo, quis adentrar o templo, mas os judeus não permitiram, ao que ele respondeu: “Por acaso eu não sou mais puro que o assassino do templo?” E entrou, punindo os judeus por sete anos pelo assassinato de Jesus!
Quando João morreu, seu filho Jaddua o sucedeu no alto sacerdócio. Ele tinha um irmão de nome Manasseh. Na Samaria havia nesta época um homem chamado Sanballat, do mesmo estoque dos samaritanos, que havia sido enviado por Dario. Ele sabia que os reis de Jerusalém haviam dado muitos problemas aos assírios e ao povo da Selesíria, por isso deu sua filha Nicaso em casamento a Manasseh de modo a criar um compromisso com os judeus para que esses não lhe criassem problemas. Os anciãos de Jerusalém, com o alto sacerdote Jaddua, não viram com bons olhos o casamento de Manasseh com uma estrangeira, como já tinha ocorrido anteriormente, exigindo a sua separação da esposa ou o seu afastamento definitivo do altar sagrado. Manasseh buscou o auxílio de seu sogro, Sanballat, explicando toda a situação. Sanballat prometeu-lhe a manutenção de sua dignidade, bem como dar-lhe o governo de todos os locais que ele agora governava e também a construção de um templo como o de Jerusalém, no monte Gerizzini, a mais alta montanha da Samaria, com a aprovação de Dario, se ele não se separasse de sua filha. Foi por esse tempo que morreu Jaddua, o alto sacerdote, tomando seu lugar o seu filho Onias na Jerusalém daquele tempo. (Parte 4 na próxima postagem)


[1] A Coelesyria (Selesíria) era uma região da Síria na antiguidade clássica, na maioria das vezes aplicada ao vale do Beqaa, entre as cadeias de montanhas do Líbano e Ante-Líbano. É agora parte da Síria e Líbano dos dias modernos.

[2] A Fenícia foi uma antiga civilização na região do Levante, Mediterrâneo Oriental, primariamente localizada nos modernos Líbano e Síria costeira. O território dos fenícios estendeu-se e retraiu-se através da história, com o núcleo de sua cultura estendendo-se de Trípoli (norte do Líbano moderno) até o Monte Carmel (Israel moderno). Além de sua terra natal, os fenícios se espalharam através do Mediterrâneo, de Chipre até a Península Ibérica.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 1)


I – INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o preenchimento de uma lacuna pessoal sobre a história do povo judeu, durante o período que vai do “Cativeiro na Babilônia” até o início da Era Cristã. O Antigo Testamento é farto de material quando se refere a assuntos anteriores ao mencionado; e o Novo Testamento, dentro das suas limitações, se encarrega de apresentar o período que segue ao período acima citado. Mas o período objeto da presente postagem, pelo menos para mim, sempre ficou um tanto nebuloso.
O Cativeiro Babilônico, ocorrido entre 586 AC e 538 AC, representou um dos episódios mais traumáticos e transformadores na história do povo judeu. Caracterizado pela destruição de Jerusalém e o Primeiro Templo, em 586 AC, e pelo exílio de uma parte significativa da população judaica na Babilônia, este período não foi meramente um deslocamento político ou demográfico. A perda da terra, da monarquia e do Templo, pilares da identidade e da fé judaica, desencadeou uma profunda crise teológica que, por sua vez, levou a questionamentos existenciais sobre a natureza, o poder e a bondade de Deus, forçando uma reavaliação fundamental do que significava ser judeu.
Apesar da desolação, o exílio também se tornou um cadinho para a redefinição da identidade judaica. A população exilada conseguiu preservar sua identidade cultural e religiosa por meio da manutenção de suas tradições, como a observância da Lei, do Sábado e da circuncisão. Este período de adversidade, em vez de levar à assimilação completa ou à dissolução, impulsionou uma profunda reavaliação interna, deslocando o foco de uma religião puramente geográfica e centrada no Templo para uma fé que podia ser praticada e mantida através da adesão à Lei e à identidade comunitária, mesmo em terras estrangeiras. Essa capacidade de adaptação, forjada na adversidade, foi crucial para a sobrevivência e evolução do judaísmo a longo prazo, estabelecendo as bases para seu futuro como uma religião global.
O presente estudo abrange o período que se inicia com o retorno do Cativeiro Babilônico, aproximadamente em 538 AC, e se estende até os primeiros anos da Era Cristã, convencionalmente definidos a partir do ano 1 DC, embora estudos indiquem que o nascimento de Jesus tenha ocorrido entre 7 AC e 4 AC. O recorte temporal escolhido não é arbitrário; ele inclui uma sequência contínua de transições imperiais – persa, helenística e romana – e as complexas respostas internas do povo judeu a essas dominações. Os registros históricos consistentemente destacam esta era como "crucial" e "formativa" para o judaísmo. É um período em que a identidade judaica, despojada de sua monarquia e de seu Primeiro Templo, foi reconstruída e redefinida por meio da Lei, de novas estruturas comunitárias como a sinagoga, e de uma evolução nas compreensões teológicas, incluindo a expectativa messiânica e o desenvolvimento da Lei Oral. As constantes pressões externas atuaram como catalisadores, forçando adaptações que, em última instância, garantiram a resiliência do judaísmo e, de forma talvez inesperada, criaram o ambiente propício para o surgimento do cristianismo como um movimento religioso distinto, embora intrinsecamente ligado.
Para tentar preencher este hiato, resolvi recorrer entre outras fontes, ao historiador Flavius Josephus, que viveu no primeiro século da Era Cristã e escreveu duas grandes obras: “As Antiguidades dos Judeus” e “As Guerras dos Judeus”, além de outras menores. Nossa pesquisa vai se basear na primeira delas. Quem foi Flavius Josephus?
Titus Flavius Josephus
Titus Flavius Josephus (36 a 100 DC) nascido Yosef ben Matityahu, tornou-se um historiador judeu do primeiro século da Era Cristã. Ele era membro de uma família sacerdotal por parte de seu pai (casa e ordem de Jehoiarib), em Jerusalém; sua mãe era descendente da realeza Hasmoneana. Foi educado em Jerusalém e muito provavelmente partilhou da ideologia e simpatia pelo partido dos Fariseus[1].
Os escritos de Flavius Josephus são crucialmente importantes para várias disciplinas: o Judaísmo do Segundo Templo no primeiro século da Era Cristã, fontes de fundo para a história da Cristandade em seus primórdios, detalhes históricos dos reis clientes do Império Romano no oriente e a linha dos Imperadores Julio-Claudianos em Roma. Nas últimas décadas do século I DC, ele escreveu “As Guerras dos Judeus” (cerca de 75 DC), “As antiguidades dos Judeus” (cerca de 95 DC), “Contra Apion” (cerca de 97 DC) e “A Vida de Flavius Josephus” (cerca de 99 DC).
Como membro da aristocracia de Jerusalém, em 64 DC, Josephus viajou para Roma para negociar com Nero, o imperador romano (que reinou de 54 a 68 DC) para a libertação de alguns sacerdotes judeus mantidos como reféns por várias razões. Quando ele retornou a Jerusalém, o partido dos Zelotes[2] tinha convencido a maioria dos judeus a se revoltarem contra Roma (primeira guerra entre judeus e romanos, 66 a 73 DC). Josephus foi indicado governador militar da Galileia[3] dado que as cidades estavam divididas, com algumas aderindo à autoridade do governo romano e outras que se juntaram às forças rebeldes. Teve algum sucesso na organização da Galileia, mas todas as suas vitórias foram perdidas quando Nero indicou o General Vespasiano para invadir a região. Josephus estava sitiado nas colinas da cidade de Jotapata e com mais 40 companheiros acabaram por ficar presos em uma caverna. De acordo com sua versão da história, ele sugeriu que cometessem suicídio coletivo para não se tornarem escravos de Roma. Ajudaram a matar-se uns aos outros e acabaram restando apenas Josephus e um companheiro, quando Josephus mudou de ideia e resolveu render-se. Enquanto aguardavam a execução, Josephus lembrou a Vespasiano que todos os judeus tinham o dom da profecia e previu que Vespasiano tornar-se-ia o próximo imperador de Roma, o que de fato aconteceu. Afirmou que tinha tido uma visão que explicava a maré da guerra, com Deus usando os romanos para punir os judeus e que o papel dele, Josephus, era agora explicar o que tinha acontecido aos judeus revoltosos
A partir daí, Josephus serviu como um consultor às forças romanas. Quando Vespasiano deixou a região para desafiar, com sucesso, outros pretendentes após a morte de Nero, seu filho Titus (que reinou entre 79 e 81 DC) retirou o cerco de Jerusalém, desenvolvendo com Josephus um bom relacionamento. Após a guerra, ele foi recompensado por seus bons serviços, mudando-se para uma casa de Vespasiano em Roma, quando adotou o nome de seu patrocinador (Titus Flavius Vespasiano). Enquanto em Roma, teve acesso a registros e arquivos de onde retirou as mais importantes fontes para suas histórias.
A partir do século XIX Josephus tornou-se figura central do movimento em busca do histórico Jesus. Como a fonte principal da história e cultura do judaísmo no primeiro século da era cristã, os arqueólogos referenciam a informação de Josephus em suas reconstruções de cidades e vilas na região. Em 2013 o arqueólogo israelense Ehus Netzer declarou ter descoberto a tumba de Herodes, o Grande, através de uma cuidadosa leitura da descrição de Josephus do território circundante. Mas como todos os historiadores antigos, Josephus não se ateve estritamente aos fatos, mas incluiu moralidade e psicologia atrás de atores e ações, por exemplo, com relação aos judeus. Entretanto, a despeito dos problemas e debates, sem os escritos de Josephus teríamos tido muito pouco acesso ao povo e eventos do seu tempo.
A obra principal de Flavius Josephus, “As Antiguidades dos Judeus” dedica-se, quase que integralmente, à história do povo judeu, desde as suas origens até o fim da sua vida. Mas dedica-se pouco aos eventos paralelos, espaciais e temporais, que tiveram importância fundamental na formação do povo judeu já que, embora fundamentalmente ligados à religião judaica, constituiu uma raça, com localização própria e sofrendo, como todos os demais povos da terra, influências dos povos que a cercavam, ao longo de toda a sua história. Por isso, antes de abordar a obra mesmo de Flavius Josephus, realizei uma pequena pesquisa para esclarecer, pelo menos, como chegou até o povo judeu, o grande responsável pelo cativeiro dos judeus na Babilônia, para bem poder situar os nossos leitores no tempo e no espaço dessa narrativa.

II – O NOVO IMPÉRIO ASSÍRIO

O Novo Império Assírio (912-612 AC) foi o quarto e penúltimo estágio do antigo Império Assírio, que se estendeu através da Mesopotâmia, Levante[4], Egito, Anatólia[5] e partes da Pérsia e Arábia. Iniciou com o reino de Adad Nirari II (912-891 AC) e, com seus reis assírios, forjou o maior império no mundo até aquele tempo. A real ascensão do Novo Império Assírio foi iniciada por Tiglath Pileser III (reinando entre 745 e 727 AC), que reorganizou o poder militar e a burocracia do governo, derrotando o reino de Urartu, que se havia revoltado contra os governantes assírios, e subjugando a região da Síria.
Tiglath Pileser III foi seguido por Shamaneser V (reinando entre 727 e 722 AC) que seguiu as políticas do rei, mas não foi tão efetivo nas campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinando entre 722 e 705 AC) foi um brilhante líder militar e administrador, que expandiu o Império além de qualquer rei anterior. Foi Sargão II que fundou a dinastia Sargônida (722-612 AC), que governaria o Império Assírio até a sua queda.
Senaqueribe foi rei do Império Neo-Assírio a partir da morte de seu pai Sargão II, em 705 AC, até sua morte em 681 AC. Portanto, segundo rei da dinastia Sargônida, Senaqueribe foi um dos mais famosos reis assírios, pelo papel que representou na Bíblia Hebreia, que descreve sua campanha no Levante. Conquistou Israel, Judá[6] e as províncias gregas da Anatólia. Seu relato é contestado pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de “Reis II”, capítulos 18-19, “Crônicas II” e “Isaías 37”, que dizem ter sido Jerusalém salva por intervenção divina, com o exército de Senaqueribe expulso do campo, embora o relato bíblico confirme a conquista assíria da região. Foi assassinado por seus filhos e sucedido por seu filho mais novo Esarhaddon (Assaradão), que reinou entre 681 e 669 AC.
Maior extensão do Novo Império Assírio
Esarhaddon foi o terceiro rei da dinastia Sargônida do Império Neo-Assírio. Sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu. Ficou conhecido por reconstruir a Babilônia, destruída por seu pai, Senaqueribe. Além de restaurar a babilônia, ele também ficou conhecido por suas campanhas militares no Egito e por garantir uma tranquila sucessão para seu filho Assurbanipal (que reinou entre 668 e 627 AC).
Assurbanipal foi o último dos grandes reis da Assíria. Os gregos o conheceram como Sardanapolos e os romanos como Sardanapulus e ele obteve a maior extensão territorial do Império Assírio, que incluía a Babilônia, Pérsia, Síria e o Egito (embora o Egito tenha sido perdido por uma revolta sob o faraó Psamtik I). Ao mesmo tempo em que reunia sua biblioteca, renovava Nínive, sua capital e maior cidade, ao norte do atual Iraque, a cidade de Mosul, margem oriental do rio Tigre, e governava o império, Assurbanipal continuou a conduzir suas campanhas militares, além de supervisionar as renovações na Babilônia. Deixou o império nas mãos de seu filho Ashur-etel-ilani, mas sua decisão foi desafiada pelo irmão gêmeo do novo rei, Sin-shar-ashkun, e uma guerra civil irrompeu. Os territórios do império Assírio tiraram vantagem desta divisão e começaram a exercer maior autonomia do que lhes tinha sido permitido anteriormente. Quando Assurbanipal morreu em 627 AC, de causas naturais, o Império desmoronou, com os Medos, Persas, Babilônios, Cimérios, Scyntians e Caldeus incendiando e saqueando as cidades assírias. Em 612 AC, com o saque e incêndio da capital Nínive e as grandes conflagrações que destruíram a região, a Biblioteca de Assurbanipal foi enterrada sobre as muralhas incendiadas do seu palácio e perdida para a história por mais de 2.000 anos. Sua descoberta, contudo, alterou a forma como as eras modernas entendiam a cultura e o passado. Antes da sua descoberta, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as histórias nela contidas, consideradas sem precedentes. Escavações do século XIX por Sir Austen Henry Layard, Hormuzd Rassam e traduções feitas por George Smith trouxeram à luz um mundo até então desconhecido. (Parte 2 na próxima postagem)


[1] Os Fariseus eram uma seita que emergiu cerca do ano 150 AC e promoveu a ideia da pureza sacerdotal para todos os judeus, a crença na providência ou destino e o conceito de ressureição dos mortos, além de ensinar que, além dos Mandamentos, a Lei Oral também tinha sido passada por Moisés. O Judaísmo Rabínico (judaísmo tradicional que aceita os textos escritos como revelação divina e a Torá Oral também como fonte de autoridade) do início do século II DC reivindicava descendência espiritual dos Fariseus.
[2] Os Zelotes formavam um movimento político no Judaísmo do Segundo Templo do primeiro século, que buscava incitar o povo da Província da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsá-lo da Terra Santa pela força das armas, principalmente durante a Primeira Guerra Romana-Judia (66 a 73 DC). Segundo Josephus, havia 3 principais seitas judias à época, os Fariseus (acima), os Saduceus e os Essênios. Os Zelotes seriam uma quarta seita.
[3] Galileia é a região localizada ao norte de Israel e sul do Líbano. Normalmente refere-se à área montanhosa, dividida em Galileia Superior e Galileia Inferior. A Galileia se refere a toda área localizada ao norte da cumeeira do Monte Carmel-Monte Gilboa e ao sul da seção Leste-Oeste do rio Litani. Na direção Leste-Oeste, a região se estende da planície costeira de Israel e as praias do Mediterrâneo com o Acre, no oeste, até o vale do Jordão a leste.
[4] O Levante é um termo geográfico histórico, aproximado, que se refere a uma grande área na região do Mediterrâneo Oriental da Ásia Ocidental. Em seu sentido mais estreito, hoje em uso na arqueologia e outros contextos culturais, é equivalente a Chipre e uma faixa de terra que margeia o Mar Mediterrâneo na Ásia Ocidental, isto é, a região histórica da Síria (Síria Maior), que inclui os atuais Israel, Jordânia, Líbano, Síria, os territórios palestinos e a maior parte da Turquia a sudoeste do médio Eufrates. Sua característica mais importante é que ele representa a ponte terrestre entre a África e a Eurásia.
[5] A Anatólia, também chamada de Ásia Menor, é a península que hoje constitui a porção asiática da Turquia. Por sua localização, no ponto em que os continentes da Ásia e Europa se encontram, a Anatólia foi, desde o início da civilização, a encruzilhada para numerosos povos que migravam ou conquistavam de qualquer dos continentes
[6] O Reino de Judá foi o reino israelita do Levante Sul formado cerca de 930 AC com a cisão das Doze Tribos de Israel. Centrado na Judeia, a capital do reino era Jerusalém. O outro sistema israelita formado, o Reino de Israel, ficava ao norte. Os judeus tiraram seu nome de “Judá” e descendem, primariamente, dele.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

CISÃO DOS JUDEUS: REINOS DE JUDÁ E ISRAEL

 

I - INTRODUÇÃO


Quando olhamos para a nação do moderno Estado de Israel e lemos a Bíblia, pode haver muita confusão sobre o que você está olhando comparado ao que você está lendo no que se refere “ao que está onde”. Em algum ponto, o Reino de Israel foi completamente fracionado e nos perguntamos o que era Israel e o que era Judá e onde eles estariam agora? Enquanto a terra de Israel era originalmente um reino unido, em dado momento foi dividido em dois reinos, ambos baseados em crenças e culturas hebraica/judaica. Como foi que tudo isso aconteceu?
Como sempre faço em minhas postagens, estou expressando, nesta introdução, apenas a minha própria opinião. Sempre tive enorme admiração pelo povo judeu, principalmente por sua tenacidade como nação. Exatamente por isso e conhecedor de bastante de sua história, através do Antigo Testamento e de outras fontes não bíblicas consideradas importantes, nunca entendi direito a profunda e definitiva cisão ocorrida entre as doze tribos de Israel, historicamente um acontecimento até então inconcebível e que, pelo menos para mim, até hoje, provoca enormes dúvidas quanto ao povo que atualmente constitui o moderno Estado de Israel.
Esta postagem não pretende, de forma alguma, contar a história do povo judeu (com mais de seis mil anos de existência), nem parte dessa história. O foco da postagem restringe-se a este pequeno evento, em duração, mas de consequências importantíssimas para a história da nação judaica. Espero poder atingir, nesta curta postagem, o objetivo a que me proponho.


II - A HISTÓRIA DA CISÃO

Originalmente, as doze tribos de Israel teriam os nomes de onze dos filhos de Jacó – que teve seu nome posteriormente alterado para Israel -, já que José não teve uma tribo. A tribo que faltava foi, na verdade, constituída por duas semi tribos com os nomes dos filhos de José: Manassés e Efraim. As “Doze Tribos” tiveram, portanto, os seguintes nomes: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim e Manassés/Efraim.
Quando, segundo o Antigo Testamento, o povo de Israel pediu a Deus um rei, a nação oficialmente tornou-se um reino, mas foi avisada por Deus, que tal reino viria com todos os seus desafios. O primeiro rei de Israel foi Saul (cerca de 1.021 a 1.000 AC), escolhido pelo Juiz Samuel e por aclamação pública. A Saul seguiu, como o segundo rei de Israel, Esbaal, seu filho, que reinou por apenas dois anos, sempre em guerra com Davi, genro de Saul, e foi assassinado por dois capitães do seu próprio exército. Após Esbaal, reinou Davi, de 1010 a 970 AC, como o terceiro rei do Reino Unido de Israel. Salomão, seu filho, o sucedeu como quarto e penúltimo rei do Reino Unido de Israel (970-931 AC). Foi o construtor do Primeiro Templo de Jerusalém, dedicado a Javé, Deus dos Judeus. Com a morte de Salomão, que já teve o final do seu reinado bastante complicado, seu filho Roboão o substituiu como último rei do Reino Unido de Israel e o primeiro Rei de Judá (931 a 913 AC), um dos reinos que o sucedeu.
Como profetizado pelo Profeta Aías (Reis I, 11:31-35), a casa de Israel (formada pelas Doze Tribos originais) foi dividida em dois reinos. Essa divisão, que ocorreu cerca de 930 AC, após a morte de Salomão e durante o reinado de seu filho Roboão, aconteceu porque o povo se revoltou contra os pesados impostos cobrados por Salomão e seu filho Roboão, bem como por fortes indícios de afastamento dos preceitos originais de Javé.
Durante o reinado de Roboão, a tribo de Judá e a tribo de Benjamin (praticamente toda a tribo) o aceitaram como rei e constituíram assim o Reino de Judá, ou o Reino Sul de Israel, com sua capital em Jerusalém. As outras dez tribos (e o restante da tribo de Benjamin) – usualmente conhecidas como “As Dez Tribos” – escolheram Jeroboão como seu rei. Essas Dez Tribos retiveram o título de Israel, tornando-se também conhecidas como Efraim, que era a tribo dominante. Tornou-se o Reino do Norte com quartel general em Shechem, na região da Samaria. Desta época em diante, o povo judeu, herdeiro de Abrahão, o primeiro grande Patriarca, nunca mais voltou a ser o mesmo! 
Reinos de Judá (amarelo) e Israel (azul)
Aqui faz-se necessário uma palavrinha sobre Jeroboão, filho de Nebat, um membro da tribo de Efraim. Ainda um jovem, Salomão o fez superintendente dos homens de sua tribo na construção da fortaleza de Millo, em Jerusalém e outros serviços públicos. Assim, ele naturalmente tornou-se familiarizado com o difundido descontentamento causado pelas extravagâncias que marcaram o final do reinado de Salomão. Influenciado pelas palavras do profeta Aías, ele começou a conspirar para tornar-se rei, mas foi descoberto e fugiu para o Egito onde permaneceu sob a proteção do faraó Shishak até a morte de Salomão. Depois desse evento ele retornou e participou de uma delegação enviada para negociar junto ao novo rei Roboão a redução dos impostos. Com a negativa de Roboão e as suas maquinações, dez das doze tribos retiraram sua submissão à Casa de Davi, proclamando Jeroboão seu rei e formando o Reino Norte de Israel.
Em seu conjunto, Judá, o outro reino, permaneceu mais fiel a Javé. Quase ao mesmo tempo em que o Reino do Norte de Israel foi estabelecido, renegou a própria fé (apostasia). Embora grandes profetas como Elias e Amós ministrassem no reino, o povo adorava falsos deuses e adotava muitas práticas do Baalismo.
Pelo Antigo Testamento vemos que essas duas nações lutaram entre si, ambas tornando-se fortes e independentes e criando duas linhagens distintas na História, com seus próprios reis e seus próprios profetas. Tristemente, Israel e Judá caíram no cativeiro, embora para diferentes potências e em épocas diferentes.
Embora mais populoso que o Reino de Judá, o Reino de Israel caiu cerca de 135 anos antes. Cerca de 721 AC, Israel foi capturado pelos assírios, sob Shalmanezer, e levado embora, tornando-se, subsequentemente, perdido ao conhecimento dos homens. É hoje conhecido como “as dez tribos perdidas”, visto que Israel nunca se livrou totalmente do cativeiro assírio. Os Samaritanos foram considerados degenerados da casa de Israel, mas muitas tribos foram consideradas perdidas.
Geograficamente, Judá era menos exposta a ataques, mas em 588 Nabucodonosor, da Babilônia, sitiou Jerusalém e virtualmente encerrou com o Reino de Judá, levando seu povo cativo para a Babilônia. Após 70 anos, o rei Ciro, da Pérsia, capturou a Babilônia e permitiu a Judá retornar a Jerusalém. Muitas pessoas de Judá se haviam dispersado pela Ásia, mas a maioria retornou a Jerusalém e à reconstrução do Templo de Salomão, símbolo maior da nação judaica. Assaltados por Síria e Egito, Judá nunca recuperou seu poder original e, pelo tempo de Jesus, Jerusalém já se tinha tornado um tributário de Roma.
É importante também, para bem esclarecer o futuro de toda a região, que se digam algumas palavras sobre a Samaria. Tanto na Bíblia quanto em fontes não bíblicas, o nome “Samaria” ocorre numerosas vezes como nome de uma cidade ou designação da região de que a cidade era a capital. O nome foi aplicado à região, quando a cidade de Samaria tornou-se a capital do reino israelita do norte sob o rei Omri, no século IX AC. Após a divisão do Reino de Israel (Judá e Israel), a província da Samaria compreendia, primeiramente, todo o território ocupado pelas dez tribos revoltadas, e estendeu-se até a Galileia. Samaria é mencionada na Bíblia como o nome da montanha em que Omri construiu sua capital, nomeando-a também Samaria. Em 732 AC, os assírios aí assentaram novos estrangeiros para se misturarem ao povo de Israel, quando se tornaram conhecidos como Samaritanos. Após a conquista do Reino do Norte pelos Assírios cerca de 722 AC, o distrito circundando a cidade foi também chamado Samaria. Subjugada a cidade, o assírio Sargão mandou os seus habitantes para longe, estabelecendo-os em sítios que ficavam muito longe do país de Israel. Em conformidade com a política dos conquistadores da antiguidade, Sargão e, mais tarde, Esar-Hadom, repovoaram Samaria com gente da Babilônia, de Cuta e de outras províncias longínquas, sendo o seu fim certamente destruir os sentimentos nacionais entre os povos conquistados.
Após a destruição do Reino de Israel, os samaritanos emergiram como um grupo étnico-religioso na região da Samaria, alegando descender dos israelitas; com seu templo no Monte Gerizim, eles prosperaram por séculos.
De acordo com a versão judia dos eventos, quando o exílio das tribos de Judá terminou em 539 AC e os exilados começaram a retornar da Babilônia, os samaritanos encontraram sua pátria anterior do norte, habitada por outras pessoas que alegavam ser sua pátria, e Jerusalém, sua gloriosa capital anterior, em ruínas. Os habitantes adoravam deuses pagãos e eles apelaram ao rei da Assíria por sacerdotes israelitas para instruí-los a adorar o Deus dos Judeus. O resultado foi uma mistura de religiões em que grupos nacionais adoravam o Deus Israelita, mas também serviam a seus próprios deuses de acordo com os costumes das nações das quais eles tinham sido trazidos. Os samaritanos alegavam ser o verdadeiro Israel, como descendentes das Dez Tribos Perdidas levadas no cativeiro assírio. Além disso, alegavam que sua versão do Pentateuco era a original e que os judeus possuíam um texto falsificado produzido por Ezra, durante o exílio na Babilônia. Hoje, a maioria dos estudiosos acredita que os samaritanos eram uma mistura de israelitas com outras nacionalidades com que os assírios haviam recolonizado a região.
Por todas essas razões, os Samaritanos tornaram-se os grandes inimigos do povo judeu quando, retornando do seu exílio na Babilônia, dedicou-se à reconstrução de Jerusalém e do Templo de Salomão.
Apresentamos, para encerrar a postagem, as duas relações dos reis de Judá e de Israel, desde a cisão do Reino Unido de Israel, até a partida para os seus respectivos cativeiros:

REINO DE JUDÁ                                                REINO DE ISRAEL

Roboão                                                                   Jeroboão
Abião ou Abias                                                      Nadabe
Asa                                                                         Baasa
Jeosafá                                                                   Elá 
Jeorão                                                                    Zinri
Acazias                                                                 Omri  
Joás                                                                       Acabe
Amazias                                                                Jorão
Uzias (Ozias) ou Azarias                                      Jeú
Jotão                                                                     Jeohacaz
Acaz                                                                     Jeoás
Ezequias                                                               Jeroboão
Manassés                                                              Zacarias
Amom                                                                  Salum
Josias                                                                    Menaém
Jeoacaz                                                                 Pecaías
Eliaquim (Jeoiaquim)                                           Peca
Joaquim                                                                Oséias
Zedequias (Cativeiro e morto Babilônia)            Shalmaneser


terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 5)

Honório III, sucessor de Inocêncio III
e corresponsável pela 5a. Cruzada

A Quinta Cruzada (1213-1221) foi mais uma tentativa dos europeus ocidentais para retomar Jerusalém e o resto da Terra Santa, a começar pela conquista do poderoso estado Aiúbida que ainda dominava o Egito. O Papa Inocêncio III e seu sucessor, Papa Honório III, organizaram exércitos cruzados conduzidos pelo rei Andrew II da Hungria e Leopoldo VI, duque da Áustria, que resultaram em fracasso pois Jerusalém permaneceu nas mãos dos muçulmanos. Em 1218, um exército germânico, conduzido por Oliver de Cologne, e um exército composto por holandeses, belgas e frísios, comandados por William I, conde da Holanda, juntaram-se à Cruzada. A fim de atacar Damietta, no delta do Nilo, Egito, eles aliaram-se, na Anatólia, ao Sultanato Seljúcida de Rum[1], que atacou os aiúbidas na Síria, numa tentativa de livrar os cruzados de lutar em duas frentes. Após ocupar o porto de Damietta, os cruzados marcharam em direção ao Cairo, no sul, em julho de 1221, mas foram forçados a uma retirada por falta de abastecimentos. Um ataque noturno pelo sultão al-Kamil resultou em grandes perdas entre os cruzados e, finalmente, na rendição de seu exército. Al-Kamil concordou com um acordo de paz de oito anos com a Europa. O fracasso da Quinta Cruzada provocou novos ressentimentos contra o Papa e foi a última organizada pela Igreja onde diferentes nações lutaram juntas para recuperar a Terra Santa. 
A corte do Rei Friedrich II em Palermo
Sob Friedrich II de Hohenstaufen, imperador do Sacro Império Romano, uma Sexta Cruzada (1227) foi lançada como mais uma tentativa de reconquistar Jerusalém, capitalizando a discórdia interna existente entre al-Kamil, do Egito e al-Mu’azzam, da Síria. A Sexta Cruzada foi de enorme importância para a Europa, por ter conseguido o que todas as cruzadas anteriores não haviam conseguido: recuperar a Terra Santa. Ela teve o mérito de envolver pouco luta e muita diplomacia. Para evitar uma invasão Síria do Egito, al-Kamil ofereceu Jerusalém a Friedrich, que recusou. A posição de al-Kamil foi reforçada quando al-Mu’azzam morreu, em 1227, sendo sucedido por seu filho an-Nasir Dawud. As negociações com Friedrich (embora excomungado pelo Papa) prosseguiram no Acre e, em 1228, levaram a um acordo assinado em 1229, pelo qual os cruzados recuperaram uma Jerusalém sem fortificação, além de outras áreas da Terra Santa, para o Reino de Jerusalém, por mais dez anos, garantindo aos árabes o controle sobre locais sagrados muçulmanos na cidade. Friedrich entrou em Jerusalém em 17 de março de 1229, participando de uma cerimônia de coroamento no dia seguinte. Não se sabe ao certo se ele pretendeu com isso sua coroação oficial como rei de Jerusalém, principalmente pela ausência do Patriarca Gerald. Na verdade, Friedrich era somente o regente de seu filho, Conrado II de Jerusalém, único filho de sua esposa Isabella II (Yolanda), rainha regente de Jerusalém (morta com o nascimento do filho), e neto de Maria de Montferrat e John de Brienne (governante nominal do Reino de Jerusalém), nascido imediatamente antes de Friedrich ter partido em Cruzada, em 1228. Apenas poucos meses depois, Friedrich teve que voltar para a Alemanha e deixou Jerusalém sem proteção, não correndo riscos, inicialmente, porque os aiúbidas se tornavam cada vez mais fracos.
Friedrich estabelecera um importante precedente ao alcançar sucesso com uma cruzada sem o envolvimento papal. Cruzadas adicionais seriam lançadas por reis individuais, tais como Theobald I de Navarra (a Cruzada dos Barões), Luís IX da França (Sétima e Oitava Cruzadas) e Edward I da Inglaterra (Nona Cruzada), efetivamente demonstrando uma erosão da autoridade papal. 
Gregório IX, o Papa da
Cruzada dos Barões
O término do prazo do tratado obtido pela Sexta Cruzada (1229), que ocorreria em 1239, fez com que o Papa Gregório IX convocasse uma nova cruzada para garantir as Terras Santas para a cristandade, além daquele ano. O resultado dessa ideia foi a Cruzada dos Barões, um movimento desorganizado que obteve apoio limitado, tanto de Friedrich quanto do Papa, mas que recuperou mais terras do que a Sexta Cruzada. Também chamada de Cruzada de 1239, em termos territoriais, ela obteve mais sucesso desde a Primeira e teve do Papa Gregório IX o maior empenho para fazer das cruzadas uma empresa cristã universal. Consistiu, na verdade, de duas cruzadas separadas: uma que teve lugar em Constantinopla e outra na Terra Santa.
No início de julho de 1239, o herdeiro do Império Latino e marquês de Namur, Baldwin de Courtney, com um pequeno exército, incluindo vários magnatas seculares, viajou para Constantinopla. No inverno do mesmo ano ele chegou lá, onde foi coroado dois anos após a morte do Imperador Regente John de Brienne. Após isso, na Páscoa de 1240, ele lançou a sua cruzada. A cento e vinte quilômetros de Constantinopla, ele sitiou e conquistou a fortaleza de Tzurulum, local de enorme importância estratégica que forneceria maior segurança para Constantinopla. Embora essa conquista, o Império continuaria a depender de ajuda do Oeste.
A Cruzada da Terra Santa é muitas vezes estudada como duas cruzadas separadas: a do Rei Theobaldo I de Navarra, que começou em 1239, e a de Richard da Cornualha, que chegou após Theobald partir, em 1240. 
Estados Cruzados em 1135 e Cidade do Acre
Theobald de Champagne, o rei de Navarra, reuniu uma lista impressionante de nobres europeus e condes de nível secundário, com uma força de 1.500 cavalheiros e partiu da França em agosto de 1239. Theobaldo alcançou o Acre em 01 de setembro e rapidamente recebeu o apoio dos cruzados que haviam sido espalhados por uma tempestade no Mediterrâneo. A ele se juntou logo um conselho de potentados cristãos locais e alguns cruzados de Chipre. Em novembro o grupo de 4.000 cavalheiros marchou para Ascalon onde construiriam um castelo que havia sido demolido por Saladino anos antes. Exércitos da Cruzada participaram de várias escaramuças, com algumas vitórias e outras derrotas até que An Nasir Dawud, da Transjordânia, cuja caravana havia sido capturada por um exército cruzado, marchou para Jerusalém, então praticamente sem defesas. Após um mês entrincheirada na Torre de David, a guarnição da cidadela rendeu-se em 7 de dezembro, aceitando a oferta de passagem segura para o Acre. E Jerusalém caía novamente em mãos muçulmanas pela primeira vez desde 1229 (Sexta Cruzada). Em seguida, uma guerra civil foi iniciada dentro da dinastia muçulmana Aiúbida, criando um ambiente favorável aos cristãos. Theobaldo negociou com os emires guerreiros de Damasco e do Egito e conseguiu um tratado com As-Salih Ismail, emir de Damasco, ao norte, contra Ayyub, do Egito e Dawud, da Transjordânia, ao sul, pelo qual o Reino de Jerusalém recuperava Jerusalém, além de Belém, Nazaré e a maior parte da região da Galileia, com muitos castelos templários, como Beaufort e Saphet. Essa nova ofensiva dos cruzados forçou Dawud a fazer a sua própria negociação com Theobald ao final do verão de 1240, completando, de fato, muitas das concessões que haviam sido garantidas somente em teoria por Ismail. Theobald não permaneceu para ver concretizados seus acordos com os muçulmanos, partindo da Palestina para a Europa em setembro de 1240, antes da chegada de Richard da Cornualha, para não estar presente a qualquer querela interna, sobre a liderança e rumo da empresa.
Em 10 de junho de 1240, Richard, Primeiro Conde da Cornualha deixou a Inglaterra com um pequeno grupo de cruzados, composta por uma dúzia de barões ingleses e várias centenas de cavalheiros, inclusiva William II Longespee. Chegaram em Acre em 8 de outubro, mas a resposta dos barões ingleses ao Papa Gregório revelou total falta de uma identidade cristã comum. Richard e seus cruzados não viram combate, mas completaram as negociações por uma trégua com os líderes muçulmanos, feita por Theobald poucos meses antes. Prosseguiram na reconstrução do castelo de Ascalon, que foi entregue a Walter Pennenpié, agente imperial de Friedrich II em Jerusalém, ao invés de aos homens do Reino de Jerusalém que se opunham fortemente ao governo de Friedrich. Em abril de 1241 eles trocaram prisioneiros muçulmanos com cativos cristãos, bem como transportaram os restos mortais de mortos em batalha, para o cemitério em Ascalon. Com esse trabalho completo, Richard partiu do Acre para a Inglaterra em 3 de maio de 1241. Embora a Cruzada dos Barões tenha devolvido ao Reino de Jerusalém a sua maior extensão desde 1187, os ganhos seriam dramaticamente revertidos poucos anos depois. Em julho de 1244 Jerusalém foi, não somente capturada, mas reduzida a ruinas e sua população cristão massacrada pelos Khwarazmians (dinastia muçulmana Suni pérsica de origem mameluca turca), do norte da Síria, os novos aliados do Sultão do Egito, As-Salih Ayyub. Poucos meses depois, Ayyub e os Khwarazmians alcançaram uma grande vitória militar na Batalha de La Forbie, que permanentemente aleijou o poder militar cristão na Terra Santa. Contudo, os cristãos haviam então assimilado muito da cultura do Oriente Médio, influenciando enormemente a vida medieval. 
Louis IX da França, morto
na Oitava Cruzada 
A Sétima Cruzada (1248-1254) foi conduzida por Louis IX, da França. Em 1248, ele e, aproximadamente, 15.000 homens fortemente armados, que incluíam 3.000 cavalheiros e 5.000 besteiros embarcaram em 36 navios, nos portos franceses de Aigues-Mortes e Marseille. Navegaram primeiro para Chipre, onde ficaram durante o inverno, negociando com várias outras potências do Oriente: o Império Latino pedira sua ajuda contra o Império Bizantino de Niceia; o Principado de Antioquia e os Cavalheiros Templários precisavam de sua ajuda na Síria, onde os muçulmanos haviam recentemente capturado Sidon. Entretanto, o objetivo da Cruzada era o Egito e Louis IX chegou em Damietta, Nilo, em 1249. Ele cria que o Egito serviria de base para atacar Jerusalém, fornecendo recursos financeiros e grãos que manteriam os cruzados alimentados e equipados. Tomaram Damietta com facilidade, mas a cheia do Nilo não fora levada em consideração; logo seu exército ficou preso por seis meses. Ignorando o acordo da Quinta Cruzada pelo qual Damietta seria incorporada ao Reino de Jerusalém, agora um estado anexo no Acre, Louis IX estabeleceu lá um Arcebispado sob a autoridade do Patriarcado Latino de Jerusalém, usando a cidade como base para operações militares diretas contra os muçulmanos da Síria. Louis falhou em sua conquista do Cairo e tentou o sítio de Al Mansurah, para manter Damietta. Tal tentativa findou com fome e morte para os cruzados que resolveram, em março de 1250 retornar a Damietta, quando Louis foi feito cativo na batalha de Fariskur - pelo exército egípcio conduzido pelo sultão Aiúbida, Turanshah, apoiado por mamelucos Bahariyya - e seu exército aniquilado. Em maio, 800.000 bezants (moedas de ouro produzidas pelo governo do Império Bizantino) foram pagos em resgate pelo rei Louis, metade dos quais antes que ele deixasse o Egito. Como parte do acordo, Damietta também foi entregue aos árabes e Louis abandonou o Egito para o Acre, uma das poucas possessões remanescentes dos cruzados na Síria. 
Representação alegórica da Sétima Cruzada
Louis IX fez uma aliança com os Mamelucos que, à época, eram rivais do sultão de Damasco e, de sua nova base no Acre, então capital do Reino de Jerusalém, começou a reconstrução de outras cidades cruzadas, particularmente Jaffa e Saida. Em 1254 seus recursos financeiros escassearam e sua presença estava sendo exigida na França, com a morte de sua mãe; antes de voltar ele estabeleceu uma forte guarnição francesa no Acre, às expensas da coroa francesa, que lá permaneceu até a queda da capital, em 1291. Sua cruzada foi um fracasso, mas sua fama deu-lhe ainda maior autoridade na Europa do que o Imperador do Sacro Império Romano. Em 1270 ele tentaria uma nova cruzada que também terminaria em fracasso.
A Oitava Cruzada foi lançada por Louis IX contra a cidade de Tunis, em 1270. O avanço de Baibars, quarto sultão do Egito da dinastia mameluca Bahri, na Síria, durante o início dos anos 1260, alarmava a cristandade. A guerra de São Sabas, entre as repúblicas marítimas de Gênova e Veneza, que lutavam pelo controle do Acre, no Reino de Jerusalém, havia arrastado os Estados Cruzados e exaurido suas finanças e contingentes. Os povoamentos exauridos eram sistematicamente batidos pelas campanhas metódicas de Baibars que, em 1265, havia atacado a Galileia e destruído a catedral de Nazaré, capturado Cesareia e Arsuf e, temporariamente, tomado Haifa. Em 1266, Louis IX informou ao Papa Clemente IV sua intenção de formar nova cruzada.
A Cruzada foi oficialmente formada em 24 de março de 1267, numa assembleia de seus nobres, embora com menos entusiasmo do que na Sétima, e partiu do porto de Aigues-Mortes no início do verão de 1270, em navios genoveses e marselheses. Um contingente aragonês, sob James I de Aragão, partiu de Barcelona em setembro de 1269, mas apanhado por uma tempestade foi seriamente danificado e muitos dos sobreviventes retornaram à pátria. Uma esquadra, sob o comando dos filhos do rei, Pedro Fernandez e Fernan Sanchez, alcançou o Acre, mas muito enfraquecida para enfrentar Baibars, também logo retornou para Aragão.
O plano inicial de Louis era descer por Chipre, mas foi trocado pelo desembarque em Túnis, capital da Tunísia, às margens do Mediterrâneo, por ser importante base de suprimentos para o Egito. Os cruzados construíram um campo fortificado nas ruínas de Cartago e esperaram pela chegada do contingente siciliano sob o comando de Charles de Anjou, irmão do rei. Uma epidemia de disenteria do verão norte-africano espalhou-se pelas fileiras cruzadas, matando, entre outros, o filho de Louis IX, John Tristan (03/08), e o próprio, em 25 de agosto de 1270. Seu irmão, Charles, chegou logo após a sua morte. Pelo prosseguimento das doenças, o sítio a Túnis foi abandonado em 30 de outubro por um acordo com o sultão, que garantia aos cristãos o livre comércio com Túnis e, aos monges e padres, residência na cidade. Ao saber da morte de Louis e da retirada dos cruzados de Túnis, Baibars do Egito cancelou seus planos de enviar tropas para a luta. O Príncipe Edward da Inglaterra chegou com a sua armada um dia antes dos cruzados deixarem Túnis. Ele retornou para a Sicília com o resto dos cruzados e o exército combinado ainda foi seriamente danificado por uma tempestade. Ao final de abril de 1271, os ingleses prosseguiram para o Acre, concretizando a Nona Cruzada. 
Edward da Inglaterra, o comandante
da última Cruzada
A Nona Cruzada, algumas vezes grupada à Oitava Cruzada, é considerada a última cruzada medieval importante à Terra Santa e aconteceu em 1271-1272, comandada por Edward da Inglaterra, que velejou diretamente ao Acre. Esta cruzada viu várias vitórias importantes sobre Baibars; infelizmente Edward foi ao final muito pressionado por problemas na Inglaterra e sentiu-se impossibilitado para resolver os seus conflitos internos em territórios ultramar, tendo que retirar-se.
Em 9 de maio de 1271, Edward chegou ao Acre com um contingente pequeno, mas não insignificante, de mil homens que incluíam 250 cavalheiros, exatamente quando Baibars sitiava Trípoli que, como local remanescente do Condado de Trípoli, abrigava dezenas de milhares de cristãos refugiados. Sua chegada fez Baibars alterar seus planos, afastando-se do Acre. Com forças insuficientes para enfrentar uma batalha direta contra os mamelucos, Edward optou por lançar uma série de ataques rápidos. Após capturar Nazaré, Edward atacou Saint Georges-de-Lebeyne. Com a chegada de reforços da Inglaterra e de Hugh III de Chipre, sob o comando de seu irmão mais novo, Edmund, Edward lançou um ataque maior, com o apoio dos cavalheiros Templários, Hospitalários e Teutônicos, sobre a cidade de Qaqun. Os cruzados surpreenderam uma grande força de turcomanos (adicionados ao exército de Baibars em troca de terras, cavalos e títulos), matando 1.500 deles e tomando 5.000 cavalos como saque de guerra. O comandante muçulmano do castelo foi obrigado a abandoná-lo, mas Edward retirou-se sem ocupar, antes que Baibar pudesse responder, pois sua força principal estava em Aleppo, aguardando um ataque mongol. Em dezembro de 1271 Edward e suas tropas repeliram um ataque à cidade do Acre por Baibars que, finalmente, também abandonou seu sítio à cidade de Trípoli. Em setembro de 1271 Edward obteve uma aliança com o mongol governante da Pérsia, Abagha, inimigo dos muçulmanos. A chegada dos mongóis na Síria provocou um formidável êxodo da população muçulmana para o Cairo. Além disso, os mongóis derrotaram as tropas turcomanas que protegiam Aleppo, atacando outras regiões ao sul. Mas não permaneceram na região e, quando Baibars montou uma contraofensiva do Egito, em novembro, os mongóis já haviam feito sua retirada para além do Eufrates, com farto saque de guerra. Baibars tentou uma manobra ousada para tentar a conquista de Chipre das mãos de Hugh III de Chipre (o nominal rei de Jerusalém), tirando sua frota do Acre e assim deixando o exército cruzado isolado na Terra Santa. Mas ao final os exércitos de Baibars foram forçados a retirar-se.
Após essa vitória, Edward sentiu que para criar uma força capaz de retomar Jerusalém seria necessário terminar com os atritos internos do Estado Cristão, agindo como mediador entre Hugh e seus cavalheiros sem entusiasmo da família Ibelin, de Chipre. Em paralelo com a mediação, Edward e Hugh começaram a negociar uma trégua com Baibars, o que foi conseguido (dez anos, dez meses e dez dias) em maio de 1272, em Cesareia. Em seguida, o príncipe Edmund partiu para a Inglaterra, enquanto Edward permanecia para assistir à concretização da trégua. No mês seguinte, uma tentativa frustrada de assassinato foi feita contra Edward, que acabou matando o assassino, mas teve um ferimento de uma adaga envenenada que acabou atrasando sua partida. Em setembro de 1272 ele partiu do Acre para a Sicília e durante sua recuperação teve notícias da morte de seu irmão John e de seu pai, alguns meses mais tarde. Em 1273 iniciou sua volta para casa via Itália, alcançando a Inglaterra em meados de 1274 e sendo coroado rei da Inglaterra em 19 de agosto de 1274.
Novas fissuras surgiram nos Estados Cristãos quando Charles de Anjou tirou vantagem de uma disputa entre Hugh III, os Cavalheiros Templários e os venezianos, para trazer ao seu controle o que deles restara. Endossando as reivindicações de Mary da Antioquia, de pretendente ao trono do Reino de Jerusalém, ele atacou Hugh III causando uma guerra civil. Em 1277, Roger de San Severino capturou o Acre para Charles. Embora a guerra fosse debilitante, ela forneceu a oportunidade de um só comandante ter o controle cruzado na pessoa de Charles. Contudo, tal esperança foi descartada quando Veneza sugeriu uma nova cruzada, não contra os mamelucos, mas contra Constantinopla, onde Michael VIII tinha recentemente restabelecido o Império Bizantino, expulsando os venezianos. O Papa Gregório não teria apoiado tal ataque, mas em 1281 o Papa Martinho IV consentiu e o fiasco que se seguiu ajudou a desencadear as “Vésperas Sicilianas”[2], em 31 de março de 1282, instigadas por Michael VIII, e obrigando Charles a voltar para casa. Esta foi a última expedição lançada contra os bizantinos na Europa ou os muçulmanos na Terra Santa. 
Nostálgica pintura do
"Último Cruzado"
Os restantes nove anos viram um aumento nas demandas dos mamelucos, incluindo tributos e perseguições aos peregrinos, em desconformidade com a trégua. Em 1289 o sultão Qalawun reuniu um enorme exército e investiu contra os habitantes remanescentes do Condado de Trípoli, tomando-o após um assalto sangrento. O assalto, entretanto, foi particularmente devastador para os mamelucos, pois a resistência cristã foi enorme e Qalawun perdeu seu filho mais velho e mais capaz no combate.
Em 1291, um grupo de peregrinos do Acre foi posto sob ataque e, em retaliação, matou 19 mercadores muçulmanos numa caravana síria, pelo que Qalawun pediu um pagamento extra, em compensação. Sem resposta o sultão sitiou o Acre para acabar com o último estado cruzado na Terra Santa. Qalawun morreu durante o cerco, deixando seu membro sobrevivente como Sultão Mameluco. Com o Acre sitiado, os Estados Cruzados, fora Chipre, deixaram de existir. O centro do poder foi movido para Tortosa e, finalmente, para as praias de Chipre. O último baluarte cruzado na Terra Santa, Ilha Ruad (ao lado de Tortosa), Síria, foi perdido em 1302/1303. O período das Cruzadas para a Terra Santa havia terminado, 208 anos após o início da Primeira Cruzada.
Com relação à Síria, em 1230, seus Emires[3] tentaram sua independência do Egito, permanecendo divididos até que o sultão as-Salih Ayyub restaurou a unidade Aiúbida tomando a maior parte da Síria, com exceção de Alepo, em 1247. À época, as dinastias muçulmanas locais haviam expulso os aiúbidas do Iêmen, Hejaz e partes da Mesopotâmia. Ao morrer em 1249, as-Salih Ayyub foi sucedido, no Egito, por al-Mu’azzam Turanshah, que logo foi derrubado pelos generais mamelucos que havia repelido com sucesso o ataque dos Cruzados no delta do Nilo. Embora algumas tentativas de emires da Síria, comandados por an-Nasir Yusuf, para retomar o poder, este episódio encerrou o controle Aiúbida no Egito. Em 1260, os mongóis saquearam Alepo logo conquistando os territórios restantes dos aiúbidas (Bagdá em 1261). Em 1299, um exército mongol conduzido por Ghazan Khan, realizou uma série de ataques contra os mamelucos, numa área a nordeste de Homs (Síria), para o sul, até Gaza (oeste da Palestina, Península do Sinai); finalmente, em 1300, retirou-se para a Síria.
O último governante aiúbida de Hama morreu em 1299, quando o principado passou breve e diretamente para a soberania mameluca; contudo, em 1310, sob o patrocínio do sultão mameluco al-Nasir Muhammad, Hama foi restituída ao aiúbida Abu al-Fida, que morreu em 1331 e foi sucedido por seu filho al-Afdal Muhammad, que acabou perdendo o favor dos lordes mamelucos, sendo afastado do seu posto em 1341; a partir daí, Hama passou formalmente para o domínio mameluco.
Finalmente, pelo ano 1570, como já havíamos dito, o Império Turco Otomano controlava a maioria do mundo Árabe.
Durante seu domínio, relativamente curto, os aiúbidas anteciparam uma era de prosperidade econômica nas terras que governaram e as facilidades e apoio que patrocinaram, conduziram ao renascimento da atividade intelectual no mundo islâmico. E com isso chegamos ao ponto em que havíamos interrompido, para um parênteses à dinastia Aiúbida.

[1] O Sultanato Seljúcida de Rum foi um estado Turco-Persa muçulmano Sunni, que se estabeleceu em partes da Anatólia conquistadas do Império Bizantino pelo Império Seljúcida, estabelecido pelos turcos seljúcidas. O nome Rum vem do nome árabe de Anatólia, ar-Rum, tomado emprestado do grego para “romanos”. O Sultanato de Rum foi o sucessor do Grande Império Seljúcida sob Suleiman ibn Qutulmish, em 1077.
[2] As “Vésperas Sicilianas” é o nome dado a uma revolução de sucesso na Ilha da Sicília, deflagrada na Páscoa de 1282, contra o governo do Rei Charles I (de Anjou), nascido francês, que exercia o poder do Reino da Sicília desde 1266. Em seis semanas, três mil homens e mulheres franceses foram assassinados pelos rebeldes e o governo de Charles perdeu o controle da Ilha. Era o início da Guerra das Vésperas Sicilianas.
[3] Emir, algumas vezes transliterado como Amir, é um título de alto posto usado em muitos lugares nos países árabes e Afeganistão. Significa comandante, general ou príncipe. Quando usado como “príncipe”, a palavra “emirado” é análoga a uma principalidade soberana. Originalmente significava simplesmente um comandante-em-chefe ou líder, em geral com referência a um grupo de pessoas.

Continua na próxima postagem com a PARTE 6