Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 2)

III – O NOVO IMPÉRIO BABILÔNICO


O Novo Império Babilônico ou Segundo Império Babilônico, historicamente conhecido como Império Caldeu, foi o último sistema governado por monarcas nativos da Mesopotâmia (região do atual Iraque). Iniciado com a coroação de Nabopolassar como rei da Babilônia em 626 AC e estabelecendo-se firmemente com a queda do Império Neo-Assírio em 612 AC, o Novo Império Babilônico foi conquistado pelo Império Persa Aquemênida em 539 AC.
A queda do Novo Império Assírio e a subsequente transferência de poder de Nínive para a Babilônia, marcou a primeira vez em que a cidade e, em geral, o sul da Mesopotâmia, havia se levantado para dominar o antigo Oriente Próximo desde o colapso do Antigo Império Babilônico sob Hamurabi, cerca de mil anos antes. O Novo Império Babilônico mantém uma posição notável na memória cultural dos dias atuais devido a um desagradável retrato da Babilônia e seu maior rei, Nabucodonosor II, pintados nos textos da Bíblia judaica. A cobertura bíblica de Nabucodonosor II foca em sua campanha militar contra o Reino de Judá e, particularmente, no cerco babilônico sobre Jerusalém em 587 AC que resultou na destruição do Templo de Salomão e o subsequente cativeiro babilônico do povo judeu. As fontes babilônicas descrevem o reino de Nabucodonosor II como uma idade dourada que transformou a Babilônia no maior império do seu tempo. 
Cidades importantes da Mesopotâmia no Novo Império
Ainda sob autoridade do rei do Novo Império Assírio na Babilônia, Sin-shar-ashkun, o então oficial do sul, general Nabopolassar, usou a política de instabilidade na Assíria, causada por uma breve guerra civil anterior entre Sin-shar-ashkun e o general Sin-shumu-lishir, para se revoltar. Em 626 AC Nabopolassar assaltou e dominou com sucesso as cidades da Babilônia e Nippur. A resposta de Sin-shar-ashkun foi rápida e decisiva, recapturando Nippur e sitiando Nabopolassar na cidade de Uruk em outubro do mesmo ano, mas sem conseguir retomar a Babilônia. Nabopolassar resistiu ao cerco de Uruk e expulsou o exército assírio. Em novembro de 626 AC Nabopolassar foi formalmente coroado Rei da Babilônia, como reino independente após mais de um século de direto mando assírio. Em 623 AC, Sin-shar-ashkun conduziu um contra-ataque maciço que poderia tê-lo tornado vitorioso, mas teve que abandonar a campanha devido a uma revolta na Assíria que ameaçava sua posição como rei. A ausência de exército assírio permitiu aos babilônios conquistar os remanescentes postos assírios na Babilônia e manter firme controle sobre Uruk e Nippur até 620 AC, assim consolidando o controle de Nabopolassar sobre toda a Babilônia, o que fez rapidamente desmoronar o Império Assírio.
Ao final de 615 AC, os Medos (da Média, Pérsia) sob o rei Cyaxares, também antigos inimigos da Assíria, conquistaram a região assíria em torno de Arrapha. No meio do ano de 614 AC, os Medos começaram a atacar as cidades de Kalhu e Nínive, além de sitiar, com sucesso, Assur, antigo coração político da Assíria, promovendo saque brutal. Nabopolassar chegou em Assur somente após o início do saque, encontrando-se com e aliando-se a Cyaxares, com quem assinou um pacto contra os assírios. Em abril ou maio de 612 AC, início do 14º ano de Nabopolassar como rei da Babilônia, o exército combinado Medo-Babilônio marchou sobre Nínive. De junho a agosto do mesmo ano sitiaram a capital assíria e em agosto as muralhas foram rompidas, conduzindo a um novo longo e brutal saque durante o qual supõe-se que Sin-shar-ashkun tenha morrido. Seu sucessor Ashur-uballit II, último rei da Assíria, foi derrotado em Harran em 609 AC. O Egito, aliado da Assíria, continuou a guerra contra a Babilônia por alguns anos, sendo finalmente derrotado pelo príncipe da coroa de Nabopolassar, Nabucodonosor, em Carchemish, em 605 AC. 
Nabucodonosor II, responsável pelo cativeiro Judeu

Nabucodonosor II sucedeu a Nabopolassar, seu pai, em 605AC. O império que herdou estava entre os mais poderosos do mundo e ele rapidamente reforçou a aliança de seu pai com os Medos, casando-se com a filha ou neta de Cyaxares, Amytis. Algumas fontes sugerem que os famosos “Jardins Suspensos da Babilônia”, uma das “Sete Maravilhas do Mundo Antigo”, foram construídos por Nabucodonosor, para sua esposa, para lembrá-la de sua terra natal. Os 43 anos do reinado de Nabucodonosor trouxeram uma idade de ouro para a Babilônia que a tornou o mais poderoso do Oriente Médio.
Suas campanhas mais famosas foram as realizadas no Levante, relativamente no início do seu reinado, para estabilizar seu reino e consolidar o seu império – a maioria dos reinos e cidades-estados recém independentes no Levante eram vassalos do Novo Império Assírio. Sua destruição de Jerusalém em 587 AC acabou com o Reino de Judá, então sob o reinado de Sedequias, e dispersou sua população, com a maioria de seus cidadãos de elite sendo enviados para a Babilônia, iniciando um período conhecido como “Cativeiro Babilônico”.
O exílio dos Judeus, de Canaã à Babiônia, segundo James Tissot, 1896
 Subsequentemente, ele sitiou o Tiro por 13 anos e embora não tivesse capturado a cidade, ela rendeu-se a ele em 573 AC, concordando em ser governada por reis vassalos. 
A partir desse ponto, a fonte principal da pesquisa passa a ser “As Antiguidades dos Judeus”, de Flavius Josephus. (Parte 3 na próxima postagem).

terça-feira, 30 de setembro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 1)


I – INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o preenchimento de uma lacuna pessoal sobre a história do povo judeu, durante o período que vai do “Cativeiro na Babilônia” até o início da Era Cristã. O Antigo Testamento é farto de material quando se refere a assuntos anteriores ao mencionado; e o Novo Testamento, dentro das suas limitações, se encarrega de apresentar o período que segue ao período acima citado. Mas o período objeto da presente postagem, pelo menos para mim, sempre ficou um tanto nebuloso.
O Cativeiro Babilônico, ocorrido entre 586 AC e 538 AC, representou um dos episódios mais traumáticos e transformadores na história do povo judeu. Caracterizado pela destruição de Jerusalém e o Primeiro Templo, em 586 AC, e pelo exílio de uma parte significativa da população judaica na Babilônia, este período não foi meramente um deslocamento político ou demográfico. A perda da terra, da monarquia e do Templo, pilares da identidade e da fé judaica, desencadeou uma profunda crise teológica que, por sua vez, levou a questionamentos existenciais sobre a natureza, o poder e a bondade de Deus, forçando uma reavaliação fundamental do que significava ser judeu.
Apesar da desolação, o exílio também se tornou um cadinho para a redefinição da identidade judaica. A população exilada conseguiu preservar sua identidade cultural e religiosa por meio da manutenção de suas tradições, como a observância da Lei, do Sábado e da circuncisão. Este período de adversidade, em vez de levar à assimilação completa ou à dissolução, impulsionou uma profunda reavaliação interna, deslocando o foco de uma religião puramente geográfica e centrada no Templo para uma fé que podia ser praticada e mantida através da adesão à Lei e à identidade comunitária, mesmo em terras estrangeiras. Essa capacidade de adaptação, forjada na adversidade, foi crucial para a sobrevivência e evolução do judaísmo a longo prazo, estabelecendo as bases para seu futuro como uma religião global.
O presente estudo abrange o período que se inicia com o retorno do Cativeiro Babilônico, aproximadamente em 538 AC, e se estende até os primeiros anos da Era Cristã, convencionalmente definidos a partir do ano 1 DC, embora estudos indiquem que o nascimento de Jesus tenha ocorrido entre 7 AC e 4 AC. O recorte temporal escolhido não é arbitrário; ele inclui uma sequência contínua de transições imperiais – persa, helenística e romana – e as complexas respostas internas do povo judeu a essas dominações. Os registros históricos consistentemente destacam esta era como "crucial" e "formativa" para o judaísmo. É um período em que a identidade judaica, despojada de sua monarquia e de seu Primeiro Templo, foi reconstruída e redefinida por meio da Lei, de novas estruturas comunitárias como a sinagoga, e de uma evolução nas compreensões teológicas, incluindo a expectativa messiânica e o desenvolvimento da Lei Oral. As constantes pressões externas atuaram como catalisadores, forçando adaptações que, em última instância, garantiram a resiliência do judaísmo e, de forma talvez inesperada, criaram o ambiente propício para o surgimento do cristianismo como um movimento religioso distinto, embora intrinsecamente ligado.
Para tentar preencher este hiato, resolvi recorrer entre outras fontes, ao historiador Flavius Josephus, que viveu no primeiro século da Era Cristã e escreveu duas grandes obras: “As Antiguidades dos Judeus” e “As Guerras dos Judeus”, além de outras menores. Nossa pesquisa vai se basear na primeira delas. Quem foi Flavius Josephus?
Titus Flavius Josephus
Titus Flavius Josephus (36 a 100 DC) nascido Yosef ben Matityahu, tornou-se um historiador judeu do primeiro século da Era Cristã. Ele era membro de uma família sacerdotal por parte de seu pai (casa e ordem de Jehoiarib), em Jerusalém; sua mãe era descendente da realeza Hasmoneana. Foi educado em Jerusalém e muito provavelmente partilhou da ideologia e simpatia pelo partido dos Fariseus[1].
Os escritos de Flavius Josephus são crucialmente importantes para várias disciplinas: o Judaísmo do Segundo Templo no primeiro século da Era Cristã, fontes de fundo para a história da Cristandade em seus primórdios, detalhes históricos dos reis clientes do Império Romano no oriente e a linha dos Imperadores Julio-Claudianos em Roma. Nas últimas décadas do século I DC, ele escreveu “As Guerras dos Judeus” (cerca de 75 DC), “As antiguidades dos Judeus” (cerca de 95 DC), “Contra Apion” (cerca de 97 DC) e “A Vida de Flavius Josephus” (cerca de 99 DC).
Como membro da aristocracia de Jerusalém, em 64 DC, Josephus viajou para Roma para negociar com Nero, o imperador romano (que reinou de 54 a 68 DC) para a libertação de alguns sacerdotes judeus mantidos como reféns por várias razões. Quando ele retornou a Jerusalém, o partido dos Zelotes[2] tinha convencido a maioria dos judeus a se revoltarem contra Roma (primeira guerra entre judeus e romanos, 66 a 73 DC). Josephus foi indicado governador militar da Galileia[3] dado que as cidades estavam divididas, com algumas aderindo à autoridade do governo romano e outras que se juntaram às forças rebeldes. Teve algum sucesso na organização da Galileia, mas todas as suas vitórias foram perdidas quando Nero indicou o General Vespasiano para invadir a região. Josephus estava sitiado nas colinas da cidade de Jotapata e com mais 40 companheiros acabaram por ficar presos em uma caverna. De acordo com sua versão da história, ele sugeriu que cometessem suicídio coletivo para não se tornarem escravos de Roma. Ajudaram a matar-se uns aos outros e acabaram restando apenas Josephus e um companheiro, quando Josephus mudou de ideia e resolveu render-se. Enquanto aguardavam a execução, Josephus lembrou a Vespasiano que todos os judeus tinham o dom da profecia e previu que Vespasiano tornar-se-ia o próximo imperador de Roma, o que de fato aconteceu. Afirmou que tinha tido uma visão que explicava a maré da guerra, com Deus usando os romanos para punir os judeus e que o papel dele, Josephus, era agora explicar o que tinha acontecido aos judeus revoltosos
A partir daí, Josephus serviu como um consultor às forças romanas. Quando Vespasiano deixou a região para desafiar, com sucesso, outros pretendentes após a morte de Nero, seu filho Titus (que reinou entre 79 e 81 DC) retirou o cerco de Jerusalém, desenvolvendo com Josephus um bom relacionamento. Após a guerra, ele foi recompensado por seus bons serviços, mudando-se para uma casa de Vespasiano em Roma, quando adotou o nome de seu patrocinador (Titus Flavius Vespasiano). Enquanto em Roma, teve acesso a registros e arquivos de onde retirou as mais importantes fontes para suas histórias.
A partir do século XIX Josephus tornou-se figura central do movimento em busca do histórico Jesus. Como a fonte principal da história e cultura do judaísmo no primeiro século da era cristã, os arqueólogos referenciam a informação de Josephus em suas reconstruções de cidades e vilas na região. Em 2013 o arqueólogo israelense Ehus Netzer declarou ter descoberto a tumba de Herodes, o Grande, através de uma cuidadosa leitura da descrição de Josephus do território circundante. Mas como todos os historiadores antigos, Josephus não se ateve estritamente aos fatos, mas incluiu moralidade e psicologia atrás de atores e ações, por exemplo, com relação aos judeus. Entretanto, a despeito dos problemas e debates, sem os escritos de Josephus teríamos tido muito pouco acesso ao povo e eventos do seu tempo.
A obra principal de Flavius Josephus, “As Antiguidades dos Judeus” dedica-se, quase que integralmente, à história do povo judeu, desde as suas origens até o fim da sua vida. Mas dedica-se pouco aos eventos paralelos, espaciais e temporais, que tiveram importância fundamental na formação do povo judeu já que, embora fundamentalmente ligados à religião judaica, constituiu uma raça, com localização própria e sofrendo, como todos os demais povos da terra, influências dos povos que a cercavam, ao longo de toda a sua história. Por isso, antes de abordar a obra mesmo de Flavius Josephus, realizei uma pequena pesquisa para esclarecer, pelo menos, como chegou até o povo judeu, o grande responsável pelo cativeiro dos judeus na Babilônia, para bem poder situar os nossos leitores no tempo e no espaço dessa narrativa.

II – O NOVO IMPÉRIO ASSÍRIO

O Novo Império Assírio (912-612 AC) foi o quarto e penúltimo estágio do antigo Império Assírio, que se estendeu através da Mesopotâmia, Levante[4], Egito, Anatólia[5] e partes da Pérsia e Arábia. Iniciou com o reino de Adad Nirari II (912-891 AC) e, com seus reis assírios, forjou o maior império no mundo até aquele tempo. A real ascensão do Novo Império Assírio foi iniciada por Tiglath Pileser III (reinando entre 745 e 727 AC), que reorganizou o poder militar e a burocracia do governo, derrotando o reino de Urartu, que se havia revoltado contra os governantes assírios, e subjugando a região da Síria.
Tiglath Pileser III foi seguido por Shamaneser V (reinando entre 727 e 722 AC) que seguiu as políticas do rei, mas não foi tão efetivo nas campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinando entre 722 e 705 AC) foi um brilhante líder militar e administrador, que expandiu o Império além de qualquer rei anterior. Foi Sargão II que fundou a dinastia Sargônida (722-612 AC), que governaria o Império Assírio até a sua queda.
Senaqueribe foi rei do Império Neo-Assírio a partir da morte de seu pai Sargão II, em 705 AC, até sua morte em 681 AC. Portanto, segundo rei da dinastia Sargônida, Senaqueribe foi um dos mais famosos reis assírios, pelo papel que representou na Bíblia Hebreia, que descreve sua campanha no Levante. Conquistou Israel, Judá[6] e as províncias gregas da Anatólia. Seu relato é contestado pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de “Reis II”, capítulos 18-19, “Crônicas II” e “Isaías 37”, que dizem ter sido Jerusalém salva por intervenção divina, com o exército de Senaqueribe expulso do campo, embora o relato bíblico confirme a conquista assíria da região. Foi assassinado por seus filhos e sucedido por seu filho mais novo Esarhaddon (Assaradão), que reinou entre 681 e 669 AC.
Maior extensão do Novo Império Assírio
Esarhaddon foi o terceiro rei da dinastia Sargônida do Império Neo-Assírio. Sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu. Ficou conhecido por reconstruir a Babilônia, destruída por seu pai, Senaqueribe. Além de restaurar a babilônia, ele também ficou conhecido por suas campanhas militares no Egito e por garantir uma tranquila sucessão para seu filho Assurbanipal (que reinou entre 668 e 627 AC).
Assurbanipal foi o último dos grandes reis da Assíria. Os gregos o conheceram como Sardanapolos e os romanos como Sardanapulus e ele obteve a maior extensão territorial do Império Assírio, que incluía a Babilônia, Pérsia, Síria e o Egito (embora o Egito tenha sido perdido por uma revolta sob o faraó Psamtik I). Ao mesmo tempo em que reunia sua biblioteca, renovava Nínive, sua capital e maior cidade, ao norte do atual Iraque, a cidade de Mosul, margem oriental do rio Tigre, e governava o império, Assurbanipal continuou a conduzir suas campanhas militares, além de supervisionar as renovações na Babilônia. Deixou o império nas mãos de seu filho Ashur-etel-ilani, mas sua decisão foi desafiada pelo irmão gêmeo do novo rei, Sin-shar-ashkun, e uma guerra civil irrompeu. Os territórios do império Assírio tiraram vantagem desta divisão e começaram a exercer maior autonomia do que lhes tinha sido permitido anteriormente. Quando Assurbanipal morreu em 627 AC, de causas naturais, o Império desmoronou, com os Medos, Persas, Babilônios, Cimérios, Scyntians e Caldeus incendiando e saqueando as cidades assírias. Em 612 AC, com o saque e incêndio da capital Nínive e as grandes conflagrações que destruíram a região, a Biblioteca de Assurbanipal foi enterrada sobre as muralhas incendiadas do seu palácio e perdida para a história por mais de 2.000 anos. Sua descoberta, contudo, alterou a forma como as eras modernas entendiam a cultura e o passado. Antes da sua descoberta, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as histórias nela contidas, consideradas sem precedentes. Escavações do século XIX por Sir Austen Henry Layard, Hormuzd Rassam e traduções feitas por George Smith trouxeram à luz um mundo até então desconhecido. (Parte 2 na próxima postagem)


[1] Os Fariseus eram uma seita que emergiu cerca do ano 150 AC e promoveu a ideia da pureza sacerdotal para todos os judeus, a crença na providência ou destino e o conceito de ressureição dos mortos, além de ensinar que, além dos Mandamentos, a Lei Oral também tinha sido passada por Moisés. O Judaísmo Rabínico (judaísmo tradicional que aceita os textos escritos como revelação divina e a Torá Oral também como fonte de autoridade) do início do século II DC reivindicava descendência espiritual dos Fariseus.
[2] Os Zelotes formavam um movimento político no Judaísmo do Segundo Templo do primeiro século, que buscava incitar o povo da Província da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsá-lo da Terra Santa pela força das armas, principalmente durante a Primeira Guerra Romana-Judia (66 a 73 DC). Segundo Josephus, havia 3 principais seitas judias à época, os Fariseus (acima), os Saduceus e os Essênios. Os Zelotes seriam uma quarta seita.
[3] Galileia é a região localizada ao norte de Israel e sul do Líbano. Normalmente refere-se à área montanhosa, dividida em Galileia Superior e Galileia Inferior. A Galileia se refere a toda área localizada ao norte da cumeeira do Monte Carmel-Monte Gilboa e ao sul da seção Leste-Oeste do rio Litani. Na direção Leste-Oeste, a região se estende da planície costeira de Israel e as praias do Mediterrâneo com o Acre, no oeste, até o vale do Jordão a leste.
[4] O Levante é um termo geográfico histórico, aproximado, que se refere a uma grande área na região do Mediterrâneo Oriental da Ásia Ocidental. Em seu sentido mais estreito, hoje em uso na arqueologia e outros contextos culturais, é equivalente a Chipre e uma faixa de terra que margeia o Mar Mediterrâneo na Ásia Ocidental, isto é, a região histórica da Síria (Síria Maior), que inclui os atuais Israel, Jordânia, Líbano, Síria, os territórios palestinos e a maior parte da Turquia a sudoeste do médio Eufrates. Sua característica mais importante é que ele representa a ponte terrestre entre a África e a Eurásia.
[5] A Anatólia, também chamada de Ásia Menor, é a península que hoje constitui a porção asiática da Turquia. Por sua localização, no ponto em que os continentes da Ásia e Europa se encontram, a Anatólia foi, desde o início da civilização, a encruzilhada para numerosos povos que migravam ou conquistavam de qualquer dos continentes
[6] O Reino de Judá foi o reino israelita do Levante Sul formado cerca de 930 AC com a cisão das Doze Tribos de Israel. Centrado na Judeia, a capital do reino era Jerusalém. O outro sistema israelita formado, o Reino de Israel, ficava ao norte. Os judeus tiraram seu nome de “Judá” e descendem, primariamente, dele.

sábado, 13 de maio de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 4)

V – DINASTIA ABÁSSIDA

O califado abássida foi o terceiro dos califados islâmicos (após Maomé). Como dissemos antes, tal dinastia era descendente do tio mais jovem de Maomé, Abbas ibn Abd al-Muttalib (566-653), de quem a dinastia tomou o nome. A dinastia governou, pela maior parte do seu período, de sua capital em Bagdá (no atual Iraque), após assumir controle sobre o Império Muçulmano dos Omíadas em 750. Inicialmente o governo foi centrado em Kufa (170 km ao sul da atual Bagdá), mas em 762 o califa Al-Mansur fundou a cidade de Bagdá, ao norte da capital sassânida de Ctesiphon. A escolha da nova capital, tão próxima da Pérsia, refletia a crescente confiança nos burocratas persas, notavelmente a família Barmakid, para governar os territórios conquistados pelos muçulmanos, além da crescente inclusão de muçulmanos não árabes na comunidade. A despeito dessa colaboração inicial, os abássidas do final do século VIII alienaram os cooperantes muçulmanos não árabes e os burocratas iranianos, sendo forçados a ceder autoridade sobre Al-Andalus e Magrebe aos Omíadas, Marrocos à dinastia Idríssida, a Ifriqiya (praticamente a atual Tunísia) à dinastia Aghlabid e o Egito ao califado shiita[1] dos Fatímidas (falaremos logo desta dinastia). O poder político dos califas, praticamente, acabou, com a ascensão dos buídas[2] e dos turcos seljúcidas[3]. Embora a liderança abássida sobre o Império Islâmico fosse gradualmente reduzida a uma função cerimonial religiosa, a dinastia manteve o controle sobre suas terras mesopotâmicas. A capital Bagdá tornou-se um centro de ciência, cultura, filosofia e invenções durante a Idade Áurea do Islã. 
Papa Urbano II, iniciador das Cruzadas
Foi bem depois dessa época a ocorrência da Primeira Cruzada, primeira de uma série de Cruzadas envolvidas com a retomada de Jerusalém que, como sabemos, havia caído em 638, durante a conquista do Levante, incluída no rol das primeiras conquistas muçulmanas, então em poder dos romanos. Tal Cruzada, convocada pelo Papa Urbano II em 1095, começou como uma peregrinação difundida pela Cristandade ocidental e terminou como uma expedição militar da Europa Católica Romana para reconquistar a Terra Santa (como sinônimo de Israel). Ela respondeu a um apelo do Imperador Bizantino (Romano) Alexios I Komnenos, que pediu que voluntários do ocidente viessem em sua ajuda para repelir a invasão dos turcos seljúcidas da Anatólia. Um objetivo adicional logo transformou-se na principal meta: a reconquista cristã da sagrada cidade de Jerusalém e da Terra Santa e a libertação de cristãos orientais do domínio islâmico. Cavalheiros, camponeses e servos de várias regiões da Europa Ocidental viajaram por terra e mar, primeiro a Constantinopla e, posteriormente, para Jerusalém. Os Cruzados chegaram em Jerusalém, lançaram um assalto à cidade e a capturaram em julho de 1099, massacrando muitos dos habitantes muçulmanos e judeus da cidade. E estabeleceram os estados cruzados do Reino Latino de Jerusalém (ao sul do Levante), o Condado de Trípoli, o Principado da Antioquia e o Condado de Edessa. Lembrar que o Levante havia sido conquistado pelos muçulmanos, entre 634 e 641, ainda durante a dinastia Rashidun, com Jerusalém caindo em 638, quando foi construída a mesquita de Al Aqsa. O Reino Cruzado durou praticamente 200 anos, até 1291, quando a última possessão, Acre (litoral norte de Israel), foi destruída pelos mamelucos, mas sua história foi dividida em dois períodos: o chamado Primeiro Reino de Jerusalém durou de 1099 a 1187, quando foi quase inteiramente devastado por Saladino; após a Terceira Cruzada, o Reino foi restabelecido no Acre, em 1192, e durou até a destruição da cidade, em 1291, como veremos adiante. Este segundo reino é muitas vezes chamado de Segundo Reino de Jerusalém ou Reino do Acre, sua nova capital. A Primeira Cruzada foi o primeiro passo importante para a reabertura do comércio internacional no ocidente, desde a queda do Império Romano do Ocidente. 
Papa Eugênio III, anunciador da Segunda Cruzada
A Segunda Cruzada (1147-1149) foi deflagrada em resposta à queda do Condado de Edessa (fundado durante a Primeira Cruzada, pelo Rei Baldwin de Bolonha, em 1098), em 1146, para Imad ad-Din Zengi. A Segunda Cruzada foi anunciada pelo Papa Eugênio III e foi a primeira conduzida por reis europeus – Luís VII da França e Conrado III da Alemanha – com a ajuda de outros nobres europeus. Os dois exércitos marcharam separadamente pela Europa e após atravessarem o território Bizantino para a Anatólia, ambos foram, separadamente, derrotados pelos turcos Seljúcidas. Fontes fidedignas dizem que o Imperador Bizantino Manuel I Komnenos, por temer os procedimentos cruzados, secretamente retardou o seu progresso, particularmente na Anatólia, onde ele, deliberadamente, ordenou aos turcos que os atacassem. Luís VII e Conrado III, com os restantes de seus exércitos, alcançaram Jerusalém e, em 1148, participaram de um ataque mal coordenado a Damasco. No Oriente, a Segunda Cruzada foi um grande fracasso e uma grande vitória para os muçulmanos. O seu grande sucesso veio com uma força combinada de belgas, frísios (das costas holandesa e germânica), normandos (norte da França), ingleses, escoceses e alemães, em 1147. Viajando da Inglaterra, de navio, para a Terra Santa, a Cruzada fez uma parada e ajudou o pequeno exército português na captura de Lisboa, expulsando os ocupantes mouros, como parte da Reconquista da Europa. 
Hulagu Khan, o mongol que decretou o
fim da idade áurea do Império Islâmico
Retornando à dinastia Abássida, a Idade Áurea do Islã, já dividido por uma série de dinastias, terminou em 1258, com a invasão e o saque de Bagdá pelos mongóis, sob Hulagu Khan (neto de Genghis Khan e irmão de Kublai Khan), quando lá reinava o último califa abássida Al-Musta’sim, um descendente direto do tio de Maomé, Abbas ibn Abd al-Muttalib. Em 1206, Genghis Khan estabelecera uma poderosa dinastia entre os mongóis da Ásia Central. Durante o século XIII, esse Império Mongol conquistou a maior parte da Eurásia, incluindo a China, no leste, e grande parte do antigo califado islâmico, no oeste. A destruição de Bagdá por Hulagu Khan em 1258, é tradicionalmente vista como o final da Idade Áurea do Império Islâmico. O último califa abássida Al-Musta’sim foi enrolado em um tapete e pisoteado por cavalos até a morte, em 20 de fevereiro de 1258. A família imediata do califa também foi executada, com exceção do seu filho mais jovem, enviado para a Mongólia, e uma filha que se tornou escrava no harém de Hulagu. 
Al-Musta'sim, o último califa Abássida
de Bagdá
No século IX, os abássidas haviam criado, em Bagdá, um exército leal apenas ao seu califado, composto por povos de origem não árabe, que ficaram conhecidos por Mamelucos. Essa força, criada no reino de al-Ma’mun (813-833) e de seu irmão e sucessor, al—Mu’tasim (833-842), evitou uma maior desagregação do Império. O exército mameluco, muitas vezes visto negativamente, ajudou e prejudicou o califado. Inicialmente ele garantiu ao governo uma força estável para cuidar de problemas domésticos e externos. Contudo, a criação desse exército de estrangeiros e a transferência da capital do Império de Bagdá para Samarra[4], no Iraque Central, criou uma divisão entre o califado e os povos que governava; além disso, o poder dos mamelucos cresceu persistentemente até que al-Radi (934-941) teve que passar a maior parte das funções reais para Muhammad ibn Ra’iq, oficial sênior desse exército e os mamelucos acabaram chegando ao poder no Egito, Levante e Hejaz. Esta dinastia dos mamelucos durou da queda da dinastia Aiúbida (que reinou entre 1171 e 1260), dinastia muçulmana de origem curda, fundada por Saladino e centrada no Egito, até a conquista otomana do Egito (1517).
Em 1261, após a devastação de Bagdá pelos mongóis, os governantes mamelucos do Egito restabeleceram o califado abássida no Cairo, com Al-Mustansir, seu primeiro califa no Cairo. Os califas abássidas – e a cultura islâmica, em geral - continuaram a manter a presença de autoridade, mas confinada a questões religiosas, até a conquista otomana do Egito, quando reinava Al-Mutawakkil III, levado como prisioneiro, por Selim I, para Constantinopla. A partir deste momento o mundo árabe praticamente passou a ser dominado pelo Império Turco Otomano.

VI – DINASTIA AIÚBIDA

Saladino, Sultão da Síria e do Egito, oposição
maior às Cruzadas no Levante

Embora algo fora do contexto e da cronologia, estamos abrindo um capítulo especial dedicado à Dinastia Aiúbida, porque foi mencionada há pouco e pelo importante papel que ela representou nas guerras pela conquista de Jerusalém e pelo seu envolvimento com as Cruzadas.
A Dinastia Aiúbida, cujo nome vem de seu pai, Najm ad-Din Ayyub, era uma dinastia islâmica de origem Curda[5], fundada por Saladino e centrada no Egito. A dinastia governou muito do Oriente Médio durante os séculos XII e XIII. Saladino havia sido o Vizir[6] do Egito Fatímida antes de extingui-la no ano 1171. Tal dinastia foi outra das dinastias muçulmanas que governou no norte da África, com centro no Egito, cujo nome deriva de Fatima bint Muhammad, a filha do profeta Maomé.
Em 1164, Nur al-Din (Nur ad-Din), membro da dinastia turca Zengid, que governou a província síria do Império Seljúcida de 1146 a 1174, enviou Shirkuh (tio de Saladino, irmão de seu pai) com uma força expedicionária para evitar o estabelecimento de uma forte presença dos Cruzados num Egito então crescentemente anárquico. Shirkuh recrutou Saladino como um oficial sob seu comando e juntos destituíram Dirgham, vizir do Egito, reinstalando seu predecessor Shawar. Após reinstalado, Shawar ordenou a retirada de Shirkuh do Egito com suas forças. Este negou-se a retirar-se pois lá estava sob as ordens de Nur al-Din. Em alguns anos, Shirkuh e Saladino derrotaram as forças combinadas dos Cruzados e de Shawar, com a batalha final em Alexandria, onde Saladino permaneceu para proteger enquanto Shirkuh perseguia as forças cruzadas pelo baixo Egito.
Shawar morreu em 1169 e Shirkuh tornou-se vizir, morrendo mais tarde no mesmo ano. Com sua morte, Saladino foi feito vizir pelo califa fatímida al-Adid, do Egito, tornando-se mais independente, para temor de Nur al-Din. Em 1171 Al-Adid morreu de causas naturais e Saladino, aproveitando o vácuo do poder, efetivamente tomou o controle do país, mudando a sujeição do Egito para o califado abássida de Bagdá, que aderira ao islamismo Sunni. Saladino consolidou seu controle no Egito ao enviar, ao final de 1172, seu irmão mais velho, Turan-Shah, para abafar uma revolta no Cairo, encenada por 50.000 núbios do exército fatímida. Após este sucesso, Saladino começou a entregar, a seus parentes, altos postos do país e a aumentar a influência do Islamismo Sunni (mais puro islamismo) sobre o Islamismo Shia, que dominava no Cairo, pela construção de numerosas escolas de direito islâmico nas principais cidades.
Embora ainda nominalmente um vassalo de Nur al-Din, Saladino adotou uma política externa cada vez mais independente, que tornou-se mais pronunciada, publicamente, após a morte de Nur al-Din em 1174. Daí para a frente, Saladino dedicou-se à conquista da Síria dos Zengids e, em 23 de novembro deste ano, foi aclamado em Damasco pelo governador da cidade. Em 1175 ele tinha o controle de Hama (cidade nas margens do rio Orontes, na Síria centro-oeste, a 213 km de Damasco) e Homs (cidade no rio Orontes, Síria Ocidental, a 162 km ao norte de Damasco), mas falhou na tomada de Alepo (norte da atual Síria). O sucesso de Saladino alarmou o emir Saif al-Din, de Mosul (cidade do Iraque, na margem ocidental do rio Tigre, a 400 km ao norte de Bagdá), líder dos Zengids à época, que via a Síria como estado de sua família e usurpada por um antigo servo de Nur al-Din. Ele reuniu um exército para enfrentar Saladino próximo de Hama e foi por ele derrotado. Após essa vitória Saladino proclamou-se rei. O califa abássida em Bagdá, al-Mustadi, graciosamente aclamou a sua subida ao poder e deu-lhe o título de Sultão[7] do Egito e da Síria, recebendo em troca a lealdade de Saladino (não esquecer que o Egito se encontrava então, sob o domínio abássida).
Em 1177 Saladino conduziu uma força de 26.000 soldados ao sul da Palestina, após ter ciência de que soldados do Reino de Jerusalém estavam sitiando Alepo. Subitamente atacados pelos Templários sob Baldwin IV de Jerusalém, próximo de Ramla (cidade no centro de Israel), o exército aiúbida foi derrotado na batalha de Montgisard, com a maioria dos soldados mortos. Saladino acampou em Homs, no próximo ano, quando ocorreram várias escaramuças entre suas tropas, comandadas por Farrukh Shah, e as tropas cruzadas. Saladino invadiu os estados cruzados pelo oeste, derrotando Baldwin na Batalha de Marj Ayyun, em 1179. No ano seguinte ele destruiu o recém construído castelo cruzado de Chastellet, na Batalha de Passo de Jacó. Na campanha de 1182, ele lutou novamente com Baldwin na indecisa batalha de Castelo Belboir, em Kawkab al-Hawa (norte do atual Israel).
Em maio de 1182, Saladino capturou Alepo após um breve sítio. Em seguida marchou para Harim, próxima da Antioquia, governada pelos cruzados, conquistando sua guarnição. A esse tempo, apenas Mosul possuía como governante um importante muçulmano rival dos aiúbidas, na figura de Izz al-Din al-Mas’ud. A possibilidade de uma união deste governante com o governador do Azerbaijão arrefeceu o ânimo de Saladino quanto a um novo ataque a Mosul. Um acordo foi negociado pelo qual al-Adil, irmão de Saladino, administraria Alepo em nome do seu filho al-Afdal, enquanto o Egito seria governado por al-Muzaffar Umar (sobrinho de Saladino) em nome de outro filho de Saladino, Uthman. Quando seus dois filhos chegassem à idade assumiriam o poder nos dois territórios, mas se um morresse, um dos irmãos de Saladino tomaria seu lugar. No verão de 1183, após devastar a Galileia Oriental, Saladino chegou à Batalha de al-Fule contra os cruzados de Guy de Lusignan, que acabou indecisa. Muitos confrontos aconteceram nesse período e, durante 1184 e 1185, uma paz relativa seguiu-se entre os Estados Cruzados e o Império Aiúbida que, por essa época mantinha sob seu controle o Egito, a Síria, o norte da Mesopotâmia, Hejaz, Iêmen e a Costa Norte Africana até a fronteira da atual Tunísia.
Saladino sitiou Tibérias, na Galileia Ocidental, em 3 de julho de 1187 e o exército cruzado tentou atacar os aiúbidas por Kafr Kanna (ao norte de Nazaré e associada à vila de Canaã do novo testamento). Em 4 de julho de 1187 foi travada a Batalha de Hattin, quando os cruzados foram batidos decisivamente pelos muçulmanos. Em 8 de julho o baluarte cruzado do Acre foi capturado por Saladino, enquanto suas forças capturavam Nazaré e Saffuriya (também ao norte de Nazaré). Outras cidades e vilas foram rapidamente tomadas e, finalmente, em 2 de outubro de 1187, o Reino de Jerusalém foi conquistado após negociações com Balian of Ibelin, o nobre cruzado local. Ao final de 1187 os aiúbidas controlavam virtualmente todo o reino cruzado no Levante, com exceção do Tiro, governado por Conrado de Montferrat. Em janeiro de 1188, Saladino reuniu um Conselho de Guerra onde decidiram pela retirada do Condado de Trípoli, às margens do Mediterrâneo, bem ao norte do atual Líbano. 
Papa Gregório VIII, autor da bula que
convocou a Terceira Cruzada
O Papa Gregório VIII convocou uma “Terceira Cruzada”, contra os muçulmanos, no ano de 1187, em resposta à derrota do Reino Cruzado de Jerusalém, na Batalha de Hattin, por meio da Bula Papal “Audita Tremendi”. Atendendo ao apelo do Papa, Friedrich Barbarossa, do Sacro Império Romano, Philippe Auguste, da França e Richard the Lionheart (Ricardo Coração de Leão), da Inglaterra, formaram uma aliança para reconquistar Jerusalém. Enquanto isso, os cruzados e aiúbidas lutavam perto do Acre, ganhando reforços da Europa. De 1189 a 1191, o Acre foi sitiado pelos cruzados e embora um sucesso inicial dos muçulmanos, ele caiu às forças de Ricardo. À tomada seguiu-se o massacre de 2.700 habitantes muçulmanos e os cruzados planejaram tomar Ascalon, no litoral sul de Israel. Sob o comando unificado de Ricardo, os cruzados derrotaram Saladino na batalha de Arsuf, o que lhes permitiu a conquista de Jaffa e grande parte da costa Palestina, sem, entretanto, conseguir recuperas as regiões interiores. Em vez disso, Ricardo assinou com Saladino um tratado, em 1192, pelo qual restaurava o Reino de Jerusalém numa uma faixa costeira entre Jaffa e Beirute, ficando este como o último maior esforço da carreira de Saladino, que morreu no ano seguinte, 1193. Após a sua morte, seus filhos contestaram o controle sobre o sultanato, mas o irmão de Saladino, al-Adi, acabou por estabelecer-se como sultão em 1200 e todos os sultões posteriores do Egito foram seus descendentes, até 1249, quando assumiram os mamelucos (já que Egito e Síria se separaram em 1230 para se reunirem em 1247, novamente). 
Ricardo I da Inglaterra, Coração de Leão
A Quarta Cruzada (1202-1204) foi uma expedição armada da Europa Ocidental convocada pelo Papa Inocêncio III, com o objetivo original de conquistar a Jerusalém controlada pelos muçulmanos, através de uma invasão pelo Egito. Entretanto, uma sequência de eventos culminou com os Cruzados saqueando a cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino (Romano) controlado pelos cristãos. Em janeiro de 1203, a caminho de Jerusalém, a maioria da liderança cruzada entrou em acordo com o príncipe bizantino Alexios IV Angelos, para desviar a Constantinopla e restaurar seu pai, Isaac II Angelus, como imperador, deposto que fora por um golpe, em 1195, de seu tio, imperador Alexius III Angelus. A intenção dos cruzados era então prosseguir para a Terra Santa, com a promessa da assistência financeira e militar bizantina. Em 23 de junho de 1203, a principal frota cruzada atingiu Constantinopla enquanto os contingentes menores seguiram para o Acre. Em agosto de 1203, após conflitos fora de Constantinopla, Alexios Angelos foi coroado coimperador (como Alexios IV Angelos), com apoio cruzado,
Inocêncio III, o Papa mais poderoso da história,
segundo os historiadores
na Igreja de Santa Sofia. Alexios foi coroado coimperador, porque o povo libertara seu pai e o queria como rei, com o que não concordaram os cruzados, pois ele havia sido cego e tornado inapto para governar. Contudo, em janeiro de 1204 Alexios foi deposto por um levante popular em Constantinopla. Com isso os cruzados perderam o seu prometido pagamento e quando Alexios foi assassinado em 8 de fevereiro de mesmo ano, os cruzados e venezianos decidiram pela completa conquista de Constantinopla. Em abril de 1204 eles capturaram e brutalmente saquearam a cidade, estabelecendo um novo Império Latino (Império Latino de Constantinopla) e repartindo outros territórios entre si. A resistência bizantina, baseada em seções não conquistadas do Império, como Niceia, Trebizonda e Épiro, acabaram por recuperar Constantinopla em 1261. Como vemos, a Quarta Cruzada, convocada como nova tentativa para a retomada de Jerusalém, não produziu qualquer impacto sobre os povos árabes, sendo citada apenas por fazer parte do grande grupo das Cruzadas. Entretanto, ela é considerada como um dos atos finais do Grande Cisma entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Oriental, além de ponto chave no declínio do Império Bizantino e da Cristandade no Oriente Médio.

[1] Shia é o substantivo; shiita é o adjetivo. Os shias (partido de Ali) são os membros do segundo maior ramo de crentes do Islamismo, constituindo 16% do total dos muçulmanos (o maior ramo é o dos muçulmanos sunitas, que são 84% da totalidade dos muçulmanos). Os shias consideram Ali, genro e primo do profeta Maomé, como o seu sucessor legítimo e consideram ilegítimos os três califas sunitas que assumiram a liderança da comunidade muçulmana após a morte de Maomé.
[2] O Império Buída ou Emirado Buída foi um Estado iraniano medieval shiita que existiu entre 934 e 1055. Foi governado pela dinastia buída, também referida como dinastia Buyida. Eles fundaram uma confederação que controlou a maior parte do Irã e do Iraque nos séculos X e XI.
[3] Os turcos seljúcidas ou Dinastia Seljúcida foi uma dinastia muçulmana Suni (o maior ramo do Islamismo) de turcos Oghuz (da Ásia Central, de língua oghuz) que, gradualmente, tornou-se uma sociedade pérsica, que muito contribuiu para a tradição turco-persa, na Ásia Central e Ocidental medieval. Os seljúcidas estabeleceram o Império Seljúcida e o Sultanato de Rum que, em seu ápice, estendia-se da Anatólia por todo o Irã.
[4] Samarra é uma cidade do Iraque Central que serviu como capital do Califado Abássida, de 836 a 892. Fundada pelo califa al-Mu’tasim, foi brevemente uma metrópole importante que se estendia por vários quilômetros ao longo da margem oriental do Tigre. Foi abandonada durante a segunda metade do século IX, em seguida ao retorno dos califas para Bagdá.
[5] Os Curdos são um grupo étnico do Oriente Médio, habitando principalmente áreas do leste e sudeste da Turquia, (Curdistão Norte), oeste do Irã (Curdistão Iraniano ou Norte), norte do Iraque (Curdistão Iraquiano Sul) e Síria (Curdistão Oeste ou Rojava). Os Curdos são cultural e linguisticamente parentes imediatos dos povos iranianos e, como resultado, frequentemente classificados como um povo iraniano. Muitos curdos se consideram descendentes dos Medos, um antigo povo iraniano.
[6] Um vizir era um conselheiro político de alto nível ou ministro. Os califas abássidas davam o título de vizir a um ministro anteriormente chamado secretário, que era, inicialmente, um mero ajudante, mas tornou-se, posteriormente o representante e sucessor do escriba oficial dos reis sassânidas. No Egito antigo era o mais alto funcionário a servir o rei ou faraó, durante os reinos antigo, médio e novo.
[7] Sultão é um título nobre com vários significados históricos. Originalmente era um nome árabe abstrato significando força, autoridade e poder. Mais tarde veio a ser usado como título para certos governantes que reivindicavam quase plena soberania em termos práticos (independência de qualquer governante superior) sem, contudo, reivindicar o “califado” ou referir-se a um poderoso governador de uma província dentro do califado. À dinastia e terras governadas por um sultão, dava-se o título de “sultanato”.

Continua com a PARTE 5

sábado, 18 de março de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 1)

I - INTRODUÇÃO

Ao longo da minha vida, muitas discussões ouvi e tive sobre as Cruzadas, mas pouco ouvi sobre a sua razão de ser, sobre as suas reais origens. Até aqui, as Cruzadas foram formadas para combater os povos de origem árabe (e de religião muçulmana), que não eram originários da Europa, como todos sabemos. O que significa que os povos islâmicos partiram de suas terras de origem para, antes, conquistar as terras da Europa, África e Ásia. Só muitos anos após essas conquistas, as Cruzadas começaram a ser formadas para combater um povo estranho às suas terras. E muito pouco se fala dessas primeiras conquistas dos povos islâmicos, como se eles tivessem sido inicialmente atacados em suas terras. A qualquer historiador que pretenda mostrar-se imparcial – na minha visão, o termo “historiador” implica imparcialidade, mesmo que característica muito difícil, ou seja, historiador propositalmente parcial não mereceria jamais tal título – é tentativa infrutífera expor as Cruzadas sem claramente colocar a expansão árabe que as antecedeu. Como isso sempre me pareceu uma injustiça, não da história, mas do conhecimento divulgado através de discussões passadas e atuais, resolvi pesquisar um pouco sobre essa parte da história, buscando esclarecimentos pessoais que pudessem me ajudar nos esclarecimentos a terceiros.
Inicialmente, de propósito, penso importante uma pequena introdução sobre os “Mouros”, para bem explicitar a diferença entre eles e os povos árabes, pois um e outro aparecem frequentemente como se sinônimos fossem. A palavra “Mouros” refere-se aos habitantes muçulmanos do Maghreb (África do Norte), Península Ibérica, Sicília e Malta, durante a Idade Média, que foram, inicialmente, povos Berberes[1] e Árabes da África do Norte. Os mouros não são um povo distinto ou auto definido e a corrente atual de estudiosos observou, em 1911, que o termo “mouros” não possui valor etnológico real. Medievais e primitivos europeus modernos aplicaram o termo a árabes, norte-africanos berberes e muçulmanos europeus. O termo também tem sido usado na Europa com um sentido mais amplo para se referir aos muçulmanos em geral, especialmente aos descendentes de árabe ou berber, vivendo na Espanha ou Norte da África. 
Em verde, os países componentes da
União Árabe Maghreb
O Maghreb (antigamente conhecido como “Costa Bárbara”) ou Maghreb Maior é usualmente definido como a maior parte da região do oeste da África do Norte ou África Noroeste, a oeste do Egito. A definição tradicional que incluía as Montanhas Atlas[2] e as planícies costeiras do Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia, foi posteriormente aumentada, especialmente após a formação, em 1989, da União Árabe Maghreb, com a inclusão da Mauritânia e o disputado território do Saara Ocidental (controlado principalmente pelo Marrocos). Durante a era do Al-Andalus (de que vamos muito falar), na Espanha (711-1492), os habitantes do Maghreb, os Maghrebis, foram conhecidos como Mouros; as áreas muçulmanas da Espanha, naquela época, eram usualmente incluídas nas definições contemporâneas do Maghreb e, em consequência, o termo “Mouros” era usado para descrever os habitantes muçulmanos da Espanha, nas fontes ocidentais. O termo “maghrib” em árabe significa “oeste” e, no estrito senso, a forma definida “al-maghrib” denota o país do Marrocos, em particular. Ele identificou os territórios mais ao oeste que sucumbiram às conquistas islâmicas do século VII. 
Península Arábica, em verde, o lar
original dos árabes
Os árabes, por sua vez, são um grupo étnico que habita, hoje, o mundo Árabe (Estados Árabes: Ásia Ocidental, Norte da África, o Corno da África – Djibouti, Eritreia, Etiópia e Somália – e as ilhas ocidentais do Oceano Índico). Os árabes foram mencionados, pela primeira vez, em meados do século IX AC, como um povo tribal vivendo na Península Arábica Central, sob a vassalagem dos Impérios Neo-Assírio (911-612 AC), de seu sucessor Neobabilônico (626-539 AC), do Aquemênida ou Primeiro Império Persa (539-332 AC), do Selêucida (312-63 AC) e do Parta (247 AC-224 DC). Tribos árabes começaram a aparecer ao sul do deserto sírio, a partir do século III DC, durante os estágios médio e final dos impérios Romano e Sassânida. A Tradição sustenta que os árabes descendem de Ismael, um dos filhos de Abrahão (com sua escrava Agar). Posteriormente, mas antes da expansão do Império Árabe, eles referiam-se a qualquer dos povos semíticos[3] nômades da Península Arábica, norte e centro, e do Deserto Sírio, mas o deserto arábico é o berço do Árabe. O “Mundo Árabe” surgiu quando do espalhamento, dos árabes por várias regiões do mundo durante as conquistas árabes dos séculos VII e VIII. Criaram os califados Rashidun (632-661), Omíada (661-750) e Abássida (750-1258), cujas fronteiras alcançaram a Espanha e o sul da França, no oeste, a China no leste, Anatólia, ao norte, e o Sudão, ao sul, além de todo o norte da África, constituindo um dos maiores impérios territoriais da história. Os laços que unem os árabes são étnicos, linguísticos, culturais, históricos, geográficos e políticos, possuindo seus próprios costumes, língua, arquitetura, arte, literatura, música, dança, cozinha, vestuário etc... Na era pré-islâmica, a maioria dos árabes seguia religiões politeístas. Algumas tribos adotaram o cristianismo ou o judaísmo e poucos indivíduos, aparentemente, observavam o monoteísmo. Isso certamente explicaria a necessidade dos árabes de possuir uma forte religião monoteísta própria, nos moldes do judaísmo e do cristianismo que os unisse também na religião. Talvez essa tenha sido a ideia original de Maomé na fundação do islamismo. É da história desses povos que pretendemos tratar nessa publicação, a partir do advento do islamismo. 
Teatro de operações das conquistas islâmicas
Resumidamente, já ao final da década de 620, Maomé teria a Península Arábica unificada e iniciado os confrontos contra os bizantinos, herdeiros do Império Romano do Ocidente. Rapidamente efetivaram a conquista do Levante, Norte da África, Mesopotâmia e Pérsia, avançando até a China e Índia. Em 711, exércitos formados, em sua maioria, por mouros do Norte da África, realizaram a conquista Omíada da Espanha. A Península Ibérica passou então a ser conhecida, em árabe clássico, como Al-Andalus, que em seu pico incluiu a maioria das atuais Espanha, Portugal e Septimânia (região a sudeste da França moderna). Em 827 os árabes ocuparam Mazara, na Sicília, desenvolvendo-a como um porto. Posteriormente consolidaram seu domínio sobre o resto da ilha e algo do sul da Itália. As diferenças em religião e cultura conduziram a um conflito de séculos de duração com os reinos cristãos da Europa que tentaram recuperar as áreas ocupadas, no que ficou conhecido como Reconquista. Em 1224 os muçulmanos foram expulsos da Sicília para o povoamento de Lucera, destruído pelos cristãos europeus em 1300. A queda de Granada, em 1492, marcou o fim do domínio muçulmano na Península Ibérica, embora uma minoria ainda tenha persistido até sua expulsão final em 1609.
Vamos ao panorama completo.

II - ANTECEDENTES

As prolongadas e crescentes guerras Bizantino – Sassânida[4] dos séculos VI e VII e as recorrentes eclosões de peste bubônica (Peste de Justiniano), exauriram e deixaram vulneráveis ambos impérios em face da súbita emergência da expansão dos árabes. A última dessas guerras terminou com a vitória dos bizantinos: o imperador Heráclio recuperou todos os territórios perdidos e restaurou a “Cruz Verdadeira”[5] em Jerusalém, em 629 (esses assuntos foram abordados em minha postagem “Breve História do Império Romano”). Entretanto, nenhum dos impérios teve qualquer chance de se recuperar, pois em poucos anos foram atingidos pelo ataque dos árabes recém unidos pelo Islamismo, assemelhados a um tsunami humano. Segundo George Liska, “o desnecessário e prolongado conflito persa – bizantino abriu o caminho para o islamismo”.
Visto que o enfoque deste artigo é essencialmente histórico, pretendendo tratar apenas das conquistas dos muçulmanos e mencionando, somente de passagem, a consequente reação dos europeus em forma das Cruzadas, sobre Maomé apresentaremos tão somente um pequeno resumo para nivelar o conhecimento dos leitores. 
Profeta Maomé recitando o Alcorão em Meca
Maomé (em árabe Muhammad), nascido em Meca, Península Arábica, cerca de 570 e morto em 8 de junho de 632 da era cristã, é a figura central e fundador do Islamismo, religião estruturada pelo Alcorão (ou Corão) - um texto considerado por seus adeptos como a palavra escrita de Deus (Alá) -, e pelos seus ensinamentos e exemplos normativos. Os seguidores do Islamismo são conhecidos como muçulmanos e consideram Maomé como o último profeta de Deus. Ganhou, inicialmente, poucos seguidores e enfrentou hostilidades de algumas tribos de Meca. Para escapar à perseguição, Maomé enviou seguidores à Abissínia (Etiópia) antes de emigrar com eles de Meca para Medina, no ano de 622, evento (Hégira) que marca o início do calendário islâmico. Em Medina, Maomé uniu as tribos sob a constituição de Medina e após oito anos de intermitentes conflitos com as tribos de Meca, reuniu um exército de 10.000 muçulmanos convertidos e marchou sobre Meca onde, num ataque sem oposição, tomou a cidade com pouco derramamento de sangue.
Ele estabeleceu uma nova entidade político-religiosa unificada na Península Arábica que, sob os subsequentes califados Rashidun[6] e Omíada (Omíada), viu um século de rápida expansão. O Islamismo originado no início do século VII, em Meca, rapidamente espalhou-se por toda a Península; no século VIII o império islâmico se estendia da Península Ibérica, no oeste, ao rio Indus, no leste. A idade áurea do islamismo refere-se ao período que vai do século VIII ao século XIII, quando muito do mundo islâmico histórico experimentou um florescimento científico, econômico e cultural. A expansão do mundo muçulmano envolveu vários califados e impérios, negociantes e conversões por atividades missionárias. Em 632 poucos meses após retornar da Peregrinação de Despedida, Maomé adoeceu e morreu, não sem antes ter a maioria da Península Arábica convertida ao Islamismo. O império que resultou, estendia-se das fronteiras da China e da Índia, através da Ásia Central, do Oriente Médio, África do Norte, Sicília e a Península Ibérica, até os Pirineus.
As primeiras conquistas muçulmanas, também denominadas conquistas árabes e primeiras conquistas islâmicas, começaram com o profeta islâmico Maomé, no século VII da era cristã. 
Arenas das Guerras Ridda na
Península Arábica
Ao final da década de 620, Maomé já havia conquistado e unificado muito da Arábia sob o governo muçulmano e foi sob a sua liderança que as primeiras escaramuças muçulmano-bizantinas tiveram lugar. Apenas alguns meses após Heráclio e o general persa Shahrbaraz terem concordado com a retirada das tropas persas das províncias orientais ocupadas, em 629, tropas árabes e bizantinas já se confrontaram em Mu’tah. Maomé morreu em 632 e foi sucedido por Abu-Bakr, o primeiro califa com indisputado controle de toda a Península Arábica, após as vitoriosas Guerras Ridda[7], que consolidaram o poderoso estado muçulmano em toda a península.

III – CAMPANHAS MILITARES

III.1 – CONQUISTA DO LEVANTE (634 A 641)
A Região do Levante e fronteiras

O Levante é um termo geográfico histórico aproximado, que se refere a uma grande área do Mediterrâneo Oriental. Situado no sudoeste da Ásia ao sul das Montanhas Taurus, é limitado pelo Mar Mediterrâneo, a oeste, o Deserto Arábico, ao sul e a Mesopotâmia, a leste. O termo é hoje algumas vezes usado para se referir a eventos ou estados modernos na região que fazem fronteiras imediatas com o Mediterrâneo Oriental: Chipre, Israel, Jordânia, Líbano, Palestina e Síria. No seu mais amplo senso histórico, o Levante incluiria, além do Mediterrâneo Oriental e suas ilhas, todos os países em suas costas, desde a Grécia até a Cirenaica (região costeira oriental da Líbia).
Embora as forças árabes muçulmanas tenham aparecido nas fronteiras do sul, mesmo antes da morte de Maomé, em 632, a invasão real do Levante – que se tornaria a Província Islâmica de Bilad al-Sham, como parte das conquistas islâmicas - começou em 634, com os seus sucessores, califas Abu Bakr e Umar ibn Khattab, da dinastia Rashidun, tendo Khalid ibn al-Walid como seu mais importante líder militar.
A Síria (que não tem nada a ver com a atual Síria, mas que ocuparia hoje todas as suas terras, além do Líbano e parte da Turquia) tinha estado sob domínio romano por séculos (desde 64 AC), antes da conquista dos árabes muçulmanos e havia sido invadida pelos persas sassânidas em várias ocasiões durante os séculos III, VI e VII, além de sujeita aos ataques dos aliados árabes dos sassânidas, os Lakhmids[8]. Durante o período romano, após a queda de Jerusalém no ano 70 DC, toda a região da Judeia, Samaria e Galileia foi rebatizada de Palestina (I e II). Os romanos também renomearam uma área de terra que envolvia o Negev[9], Sinai e a costa ocidental da Península Arábica como Palestina Salutoris (Palestina III). Durante a última das guerras Romano-Persa, iniciada em 603, os persas, sob Khosrau II, tiveram sucesso na ocupação da Síria, Palestina e Egito por mais de uma década antes de serem forçados pelas vitórias de Heráclio a aceitar a paz de 628. Assim, às vésperas das conquistas muçulmanas, os romanos (agora convencionalmente chamados bizantinos), estavam ainda em processo de reconstrução da sua autoridade nesses territórios, em algumas das áreas perdidas por eles por quase 20 anos. A Síria era, em sua maioria, uma terra siríaca e helenizada com alguma presença judia e uma população parcialmente árabe, especialmente em suas áreas leste e sul. Os cristãos siríacos, judeus e árabes estavam por lá desde tempos pré-romanos e alguns haviam abraçado o cristianismo desde que Constantino o havia legalizado no século IV e mudado a capital da Itália para o Bizâncio (renomeado Constantinopla), do qual é derivado o nome bizantino.
Os árabes da Síria possuíam pouco significado até a migração da poderosa tribo Ghassan do Iêmen (extremo sul da Península Arábica) para lá, a qual, a partir daí, governou um estado semiautônomo com seu próprio rei sob os romanos. Essa dinastia Ghassan tornou-se uma das dinastias do Império, principescamente honrada, com o rei governando árabes da Jordânia e sul da Síria, desde sua capital em Bosra. O último dos reis Ghassan, que governava ao tempo da invasão muçulmana, foi Jabla-bin-Al-Aiham.
O imperador bizantino (romano) Heráclio, após retomar a Síria dos Sassânidas, estabeleceu novas linhas de defesa, de Gaza (noroeste do atual Israel) até a extremidade sul do mar Morto. Tais linhas foram projetadas somente para proteger as comunicações de bandidos e o grosso das defesas bizantinas estavam concentradas ao norte da Síria, voltadas para seus tradicionais inimigos, os persas sassânidas. Essa linha de defesa tinha como desvantagem o fato de permitir aos muçulmanos, que vinham do deserto ao sul, chegarem até Gaza antes de encontrar as tropas bizantinas regulares. O século VII foi uma época de rápidas mudanças militares no Império Bizantino. Certamente, ele não estava num estado de colapso ao enfrentar o novo desafio da Arábia, após exaurido pelas recentes guerras Romano-Persas, mas falhou completamente ao lidar efetivamente com o problema. 
Abu Bakr, sucessor de Maomé (com o rosto coberto),
impede que a população de Meca o apedreje
Maomé morreu em junho de 632 e Abu Bakr foi indicado Califa e sucessor político em Medina; o ano 12 da Hégira, 18 de março de 633, amanheceu com a Arábia unida sob a sua autoridade central, a do Califa em Medina, após vencer as Guerras Ridda. É difícil dizer se Abu Bakr pretendia uma completa conquista imperial; contudo, ele pôs em movimento uma trajetória histórica que em apenas umas poucas décadas conduziria a um dos maiores impérios da história, iniciando com uma confrontação com o Império Persa, sob o general Khalid ibn al-Walid.
A província da Síria foi a primeira a ser arrancada do controle bizantino. Os ataques árabe-muçulmanos que se seguiram às guerras Ridda, prepararam os bizantinos para enviar uma expedição maior ao sul da Palestina, derrotada pelas forças árabes sob o comendo de Khalid ibn al-Walid, na batalha de Ajnadayn (634). Seguindo suas vitórias, os exércitos árabes tomaram Damasco em 636, ao que se seguiu a tomada de Baalbek, Homs e Hama. Contudo, outras cidades fortificadas resistiram a despeito da horda do exército imperial e tiveram de ser conquistadas individualmente. Jerusalém caiu em 638, Cesareia em 640 enquanto outras aguentaram até 641.
De acordo com a tradição muçulmana, em alguma noite do ano 621, o profeta Maomé teria sido carregado por seu corcel mitológico, “al-Buraq”, de Meca para o “Monte do Templo”[10], em Jerusalém. De acordo com a tradição, de lá ele ascendeu ao Céu onde falou com Alá. É dessa época o nascimento do amor eterno dos árabes por Jerusalém, que levantaria tantas questões internacionais e que perdura até hoje. Embora o Corão não esclareça onde exatamente Maomé subiu ao Céu, em seguida à conquista muçulmana da região da Palestina, o califado aí construiu a mesquita de Al-Aqsa, como símbolo do evento; ela é hoje considerada a mais antiga edificação islâmica do mundo, ainda em uso. Além dessa, várias outras estruturas muçulmanas foram construídas por toda a região da Palestina. 

[1] Berberes são os grupos étnicos nômades indígenas das regiões norte-africanas da antiga Barbária (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito) e do Saara. Distribuíam-se numa área que ia do Oceano Atlântico ao Oásis Siwa, no Egito, e do Mar Mediterrâneo ao Rio Niger. Historicamente falavam línguas berberes que, juntas, formam o ramo Berbere da família Afro-Asiática.
[2] As Montanhas Atlas são uma cadeia montanhosa no Maghreb. Elas se estendem por 2.500 km através da Argélia, Marrocos e Tunísia. O pico mais alto da cadeia é o Jebel Toubkal, com uma altura de 4.167 m, no sudoeste do Marrocos. Elas separam as costas do Mediterrâneo e do Atlântico do Deserto do Saara e são basicamente habitadas por populações berberes.
[3] Semítico é um termo usado para definir um grupo étnico, cultural ou racial que fala ou falava línguas semíticas, um ramo da família afro-asiática de línguas originadas no Oriente Médio.
[4] As guerras Bizantino – Sassânida (285 a 629 DC), também conhecidas como guerras Iraniana- Bizantina, referem-se a uma série de conflitos entre o Império Romano (Bizantino) do Oriente e a dinastia Sassânida do Império Persa. Uma continuação das Guerras Romana – Persa (que iniciaram em 54 AC), o conflito envolveu diversas campanhas menores e tratados de paz que perduraram por vários anos.
[5] A “Cruz Verdadeira” é o nome dado a resíduos físicos que, por tradição católica, acredita-se ser da cruz em que Cristo foi crucificado. Muitas igrejas possuem fragmentos que, alegadamente, são da Cruz Verdadeira. Sua autenticidade não é universalmente aceita pelas igrejas cristãs e a precisão dos relatórios que cercam a sua descoberta é questionada por algumas delas.
[6] Um Califado é uma área que possui um administrador islâmico conhecido como Califa, uma pessoa considerada sucessor religioso de Maomé e líder de toda a comunidade muçulmana. Os califas Rashidun, que sucederam diretamente a Maomé como líderes da comunidade muçulmana, foram escolhidos pela shura, um processo de consulta à comunidade que alguns consideram como uma forma primitiva de democracia islâmica. Durante a história do Islã após o período Rashidun, muitos estados muçulmanos, quase todos eles monarquias hereditárias, têm alegado ser califados. Embora os califas retroajam a Maomé, não são tidos como tendo o mesmo poder profético que ele tinha. O Califado Rashidun foi o califado islâmico do período inicial do Islã, compreendendo os quatro primeiros califas, os “Corretamente Guiados” ou califas Rashidun. O califado Omíada foi o segundo dos quatro principais califados árabes estabelecidos após a morte de Maomé.
[7] As Guerras Ridda, também conhecidas como Guerras de Apostasia, foram uma série de campanhas militares lançadas pelo califa Abu Bakr, contra tribos rebeldes árabes, entre 632 e 633, logo após a morte de Maomé. A posição dos rebeldes era a de que eles se haviam submetido a Maomé como o Profeta de Deus, mas não deviam nada a Abu Bakr. A maioria das tribos rebeldes foram derrotadas e reintegradas no Califado.
[8] Os Lakhmids formavam um reino árabe ao sul do Iraque, que fizeram sua capital em al-Hirah, em 266. Os poetas o descreviam como um paraíso na terra. As ruínas de al-Hirah estão situadas 3 km ao sul de Kufa, na margem ocidental do rio Eufrates.
[9] O Negev é uma região desértica e semidesértica do sul de Israel com área próxima da metade da área do país. Em sua extremidade sul fica o Golfe de Aqaba e a cidade turística de Eilat.
[10] O “Monte do Templo”, uma colina localizada na Cidade Antiga de Jerusalém, é um dos mais importantes locais religiosos do mundo. Tem sido venerado como local sagrado por milhares de anos pelo Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. O sítio é dominado por três monumentais estruturas do início do período Omíada: a mesquita Al-Aqsa, a Cúpula da Rocha e a Cúpula da Corrente, bem como quatro minaretes. Os muros e portões de Herodes, com acréscimos, datando do final do período bizantino e início do islâmico, correm pelos flancos do Monte.

(Continua com a Parte 2)