Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 7

IV.1.3 – A IDADE DE OURO MUÇULMANA, O MOVIMENTO SHU’UBIYYA E O PROCESSO DE PERSIFICAÇÃO
 
Abu Muslim Khorasani, o general
que depôs o Império Abássida
A islamização foi um longo processo pelo qual o Islamismo foi gradualmente adotado pela maioria da população do Irã. A história indica que somente 10% do Irã se converteu ao Islã durante o período Omíada. Com o período Abássida e sua mistura de mandantes persas e árabes, a percentagem da população muçulmana cresceu. À medida que que os muçulmanos persas consolidavam seu governo do país, a população muçulmana cresceu para aproximadamente 40% pelo meio do século IX até próximo de 100% pelo final do século XI, demonstrando que o rápido crescimento da conversão foi ajudado pela nacionalidade persa dos mandatários. Embora os persas tenham adotado a religião muçulmana dos seus conquistadores, com o passar dos séculos eles trabalharam para proteger e reviver sua língua e cultura diversas, num processo conhecido por persificação, com árabes e turcos participando do processo.
Nos séculos IX e X, súditos não árabes do Ummah[1] criaram um movimento chamado Shu’ubiyyah em resposta ao status privilegiado dos árabes. A maioria dos que estavam por trás do movimento eram persas, mas também foram atestadas referências a egípcios, berberes e arameus. Citando como sua base, as noções islâmicas de igualdade de raças e nações, o movimento preocupava-se, primariamente, com a preservação da cultura persa e a proteção da identidade persa, embora num contexto muçulmano. O mais notável efeito do movimento foi a sobrevivência da língua persa até os dias atuais. 
Rudaky, primeiro gênio literário da
moderna língua persa
A dinastia Samânida (819-999), fundada por Saman Khoda, conduziu ao renascimento da cultura persa e de vários dos seus festivais. O primeiro poeta persa importante após a chegada do islamismo, Rudaki, nasceu durante esta era e foi louvado pelos reis samânidas. Rudaki é visto como o primeiro grande gênio literário da moderna língua persa; compôs poemas no novo alfabeto persa e é considerado o fundador da Literatura Clássica Persa. Infelizmente, somente uma pequena parte de sua extensa poesia sobreviveu até hoje. Os samânidas foram a primeira dinastia de origem iraniana a controlar a Ásia Central e o leste do Irã, desde a invasão árabe e governaram um imenso império por 102 anos.
Seus sucessores foram os Gaznávidas (ou Gaznévidas), dinastia muçulmana de origem turca não iraniana (origem mameluca), também muito importantes para o renascimento da cultura persa. A dinastia foi fundada por Sabuktigin, após assumir o governo de Ghazna (hoje Ghazni, uma das 34 províncias do Afeganistão, localizada na região sudeste do país), com a morte de seu sogro, Alp Tigin, um ex-general do Império Samânida. Embora a dinastia fosse de origem turca da Ásia Central, ela foi fortemente persificada em termos de língua, cultura, literatura e hábitos, sendo por isso vista por alguns como uma dinastia persa e não turca. O filho de Sabuktigin, Mahmud de Ghazni, declarou sua independência do Império Samânida e expandiu o Império Gaznávida até o Amu Darya (também chamado Rio Amu, historicamente conhecido por seu nome latino Oxus, um dos principais rios da Ásia Central), na última década do século X, o Rio Indus e o Oceano Índico, no ano 1000, para o leste, e para o Rey (capital do distrito de mesmo nome, na província de Teerã, no Irã) e Hamadan (na província do mesmo nome, no Irã), ao oeste.
Sob o reino de Mas’ud I, a dinastia Gaznávida começou a perder controle sobre seus territórios ocidentais para a dinastia Seljúcida, após a batalha de Dandanagan, resultando numa limitação de suas propriedades para os modernos Afeganistão, Punjab, Paquistão e Baloquistão. Em 1151, o sultão Bahran Shah perdeu o Ghazni para o rei Ghurid, Ala al-Din Husayn. 
Estátua de Firdawsi na Praça de
mesmo nome, Teerã, Irã.
O auge do movimento de Persificação foi o Shahnameh (Livro dos Reis), o poema épico nacional do Irã, escrito quase integralmente em persa, pelo cultuado poeta Abu al-Qasim Firdawsi, durante quase trinta anos. Este volumoso trabalho reflete a antiga pré-história e história do Irã, começando com a criação do mundo, seus valores culturais sem paralelo, sua religião Zoroastriana, pré-islâmica, e seu senso de nacionalidade, terminando com a conquista islâmica da Pérsia durante o reinado de Yazdegerd III, último rei da dinastia sassânida.
Historiadores conhecidos dizem que o Irã foi islamizado, mas não foi arabizado e que os persas permaneceram persas. Foi esse islamismo persa, e não o islamismo árabe, que foi levado a novas áreas e novos povos: aos turcos, primeiro na Ásia Central e então no Oriente Médio, ao país que veio a se chamar Turquia e, com certeza, na Índia. Os turcos otomanos[2] trouxeram uma forma de civilização iraniana até os muros de Viena.
A islamização do Irã traria profundas transformações dentro da estrutura cultural, científica e política da sociedade iraniana. O desabrochar da literatura, filosofia, medicina e arte persas, tornou-se elemento fundamental da nova civilização muçulmana em formação. A herança de milhares de anos de civilização e sua situação no cruzamento das principais estradas culturais, contribuíram para que a Pérsia emergisse com o que culminou com a “Época Áurea do Islamismo”. Durante este período, centenas de estudiosos e cientistas contribuíram de maneira importante para a tecnologia, a ciência e a medicina, posteriormente influenciando a ascensão da ciência europeia durante a Renascença. Os mais importantes estudiosos de quase todas as seitas e escolas muçulmanas do pensamento foram persas ou viveram no Irã, incluindo os mais notáveis e confiáveis colecionadores Hadith (relatórios da descrição das palavras, ações ou costumes do profeta islâmico Maomé) xiitas e sunitas, os maiores teólogos, físicos, matemáticos, metafísicos, filósofos e cientistas.

IV.1.4 – ESTADOS E DINASTIAS DO PERSIANATO[3] (977-1219)

Os seljúcidas que eram, como os gaznávidas, um persianato por natureza e de origem turca, lentamente conquistaram o Irã ao longo do século XI. A dinastia tinha suas origens nas confederações tribais turcomanas da Ásia Central e marcou o início do poder turco no Oriente Médio. Eles estabeleceram um poder muçulmano sunita por partes da Ásia Central e Oriente Médio, do século XI ao século XIV. Estabeleceram um império conhecido como Grande Império Seljúcida, que se espalhou desde a Anatólia, no oeste, até o Afeganistão ocidental, no leste e as fronteiras ocidentais da moderna China, no nordeste, sendo alvo da Primeira Cruzada. Hoje eles são vistos como ancestrais culturais dos turcos ocidentais, os habitantes do atual Azerbaijão, Turquia e Turcomenistão, sendo lembrados como grandes clientes da cultura, arte, literatura e língua Persa. 
Omar Khayyam, filósofo, matemático
e poeta do Rubaiyat
O fundador da dinastia, Tughril Beg, que reinou de 1037 a 1063, dirigiu seus exércitos contra os gaznávidas, no Khorasan, movendo-se para o sul e então oeste, conquistando todas as cidades em seu caminho, sem devasta-las. Em 1055 o califa de Bagdá deu-lhe, além de túnicas e presentes, o título de “Rei do Leste”. Com seu sucessor, Malik Shah (1072-1092), o Irã assistiu a um renascimento cultural e científico, por muitos atribuído ao seu brilhante vizir iraniano Nizam al Mulk. Esses líderes estabeleceram o observatório onde Omar Khayyam realizou a maioria dos seus experimentos para um novo calendário e construíram escolas religiosas em todas as principais cidades. Trouxeram Abu Hamid Ghazali, um dos maiores teólogos muçulmanos, e outros estudiosos eminentes para Bagdá, a capital seljúcida, apoiando os seus trabalhos.
Quando Malik Shah I morreu, em 1092, o império rachou quando seus quatro filhos e seu irmão brigaram pela partilha do império entre eles. Na Anatólia, seu sucessor foi Kilij Arslan I, que fundou o Sultanato do Rum; na Síria ele foi sucedido por seu irmão Tutush I; Na Pérsia, seu sucessor foi o seu filho Mahmud I, cujo reino foi contestado por seus outros três irmãos, Barkiyaruq no Iraque, Muhammad I em Bagdá e Ahmad Sanjar no Khorasan. A medida que poder seljúcida no Irã enfraquecia, outras dinastias começaram a surgir em seu lugar, incluindo um ressurgente califado abássida e os Khwarazm Shahs. O Império Khwarezmid, correspondente, foi uma dinastia do Persianato Muçulmano Sunita, de origem turca oriental, que governou na Ásia Central. Originalmente vassalos dos seljúcidas, aproveitaram o seu declínio para a sua expansão no Irã. Em 1194, o Khwarazm Shah Ala ad-Din Tekish derrotou o sultão seljúcida Togrul III em batalha, resultando no colapso seljúcida no Irã. Com isso, do império seljúcida original somente restou o Sultanato do Rum na Anatólia.
Uma séria ameaça interna aos seljúcidas, durante seu reinado, veio dos Ismailis, ramo muçulmano xiita, uma seita secreta com quartel general em Alamut, entre Rasht e Teerã. Eles controlaram a área vizinha por mais de 150 anos e, esporadicamente, enviavam sectários para reforçar seu poder, com o assassinato de funcionários importantes. Várias das teorias sobre a etimologia da palavra assassino derivam desses matadores.
Partes do Irã noroeste foram conquistados no início do século XIII, pelo reinado da Georgia, conduzido por Tamar, o Grande.

IV.2 – INVASÃO MONGOL (1219-1221)
Genghis Khan, fundador do Império Mongol
 
O Império Khwarezmid somente durou umas poucas décadas, até a chegada dos Mongóis, um grupo étnico do leste central asiático, nativo da Mongólia. Genghis Khan havia unificado os mongóis e, sob o seu comando, o Império Mongol rapidamente se expandiu em várias direções, até que cerca de 1218, ele chegou às fronteiras do Khwarazm. Nesta época, o Império Khwarezmid era governado por Ala ad-Din Muhammad (1200-1220). A intenção de Muhammad, como a de Genghis, era expandir suas terras e já havia ganho a submissão da maior parte do Irã. Declarou-se shah e exigiu reconhecimento formal do califa abássida na-Nasir; quando o califa rejeitou sua exigência, Muhammad proclamou um de seus nobres, califa e, sem sucesso, tentou depô-lo.
A invasão mongol do Irã começou em 1219, após o massacre de duas missões diplomáticas enviadas por Genghis ao Khwarazm. Entre 1220 e 1221, Bukhara, Samarkand, Herat, Tus e Nishapur foram arrasadas e as suas populações massacradas. O Khwarazm Shah fugiu, para morrer em uma ilha da costa do mar Cáspio. Durante a invasão da Transoxiana, em 1219, com a principal força mongol, Genghis Khan fez uso de uma unidade especialista chinesa em catapultas, que foram usadas novamente, em 1220, na Pérsia. Os chineses podem ter usado as catapultas para lançar bombas de pólvora pois já as conheciam neste tempo e serviam ao exército de Genghis Khan. Muitos historiadores sugerem que a invasão mongol tinha trazido várias armas com uso de pólvora à Ásia Central, uma delas uma espécie de morteiro feito na China.

IV.2.1 – DESTRUIÇÃO SOB OS MONGÓIS

Antes de sua morte em 1227, Genghis Khan havia alcançado o Azerbaijão Ocidental, pilhando e incendiando cidades à sua passagem. A invasão mongol foi desastrosa para os iranianos. Embora os mongóis invasores eventualmente se convertessem ao islamismo e aceitassem a cultura do Irã, a destruição mongol da área central islâmica marcou uma profunda mudança de direção para a região. Muito dos seis séculos de aprendizado, cultura e estrutura islâmica foi destruída quando os invasores queimaram bibliotecas e substituíram mesquitas por templos budistas.
A destruição dos sistemas de irrigação com uso de água subterrânea, por gravidade, encerrou o padrão de povoamentos relativamente contínuos, produzindo numerosas cidades oásis em uma terra onde elas eram antigamente raras. Muitas pessoas, particularmente homens, foram mortos; entre 1220 e 1258, a população total do Irã pode ter caído de 2.500.000 para 250.000 como resultado de exterminação em massa, emigração e fome.

IV.2.2 – KHANATO (1256-1335)

Após a morte de Genghis Khan, o Irã foi governado por vários comandantes mongóis. Seu neto Hulagu Khan foi encarregado da expansão do domínio mongol embora ao tempo de sua ascensão ao poder, o Império Mongol já se tivesse dissolvido, dividido por diferentes facções. Chegando com um exército, ele estabeleceu-se na região e fundou o Ikhanato, um estado distinto do Império Mongol que governaria o Irã pelos próximos oitenta anos tornando-se um novo persianato no processo. Khanato (ou Canato) era uma entidade política governada por um Khan (como Genghis), típica de povos da estepe eurasiana, equivalente a uma chefia tribal, principado, reino ou mesmo império. O Ikhanato (ou Icanato) se estabeleceu como um canato que formava o setor sudoeste do Império Mongol, governado pela casa mongol de Hulagu; sua capital foi em Bagdá e, em 1258, executou o último califa abássida. O avanço de suas forças para o oeste foi, contudo, interrompido pelos mamelucos, na Batalha de Ain Jalut, na Palestina, em 1260. As campanhas de Hulagu contra os muçulmanos também enfureceu Berke, khan da “Horda Dourada”, convertido ao Islamismo. Berke foi o líder da “Horda Dourada”, uma divisão do Império Mongol que efetivamente consolidou o poder da “Horda Azul” e da “Horda Branca”, de 1257 a 1266. Ele sucedeu a seu irmão, Batu Khan, da “Horda Azul” (oeste) e foi responsável pelo estabelecimento do primeiro estabelecimento oficial do islamismo num khanato do Império Mongol. Hulagu e Berke lutaram entre si, demonstrando o enfraquecimento do Império Mongol. O governo do bisneto de Hulagu, Ghazan Khan (1295-1304) viu o estabelecimento do Islamismo como religião oficial do Ikhanato. Ghazan e seu famoso vizir iraniano Rashid al-Din, levaram o Irã a um breve e parcial renascimento econômico. Os mongóis reduziram os impostos para os artesãos, encorajaram a agricultura, reconstruíram e expandiram os trabalhos de irrigação e melhoraram a segurança das rotas de comércio. Como resultado, o comércio cresceu dramaticamente. Itens da Índia, China e Irã passavam facilmente através das estepes asiáticas, com isso enriquecendo culturalmente o Irã. Como exemplo, os iranianos desenvolveram um novo estilo de pintura baseado numa fusão única de pintura mesopotâmica sólida e bidimensional com plumagens, leves batidas com o pincel e outros motivos característicos da China. Após a morte do sobrinho de Ghazan, Abu Said, em 1335, contudo, o Ikhanato se inclinou para a guerra civil sendo dividido entre várias dinastias insignificantes – Jalayrids, Muzaffarids, Sarbadarsd e Kartids. A Epidemia Negra do século XIV matou cerca de 30% da população do país.

IV.2.3 – SUNISMO E XIISMO NO IRÃ PRÉ-SAFÁVIDA

Antes da ascensão do Império Safávida, a religião dominante era o islamismo sunita, praticada por 90% da população da época, que permaneceu sunita até a chegada dos Safávidas. A dominação dos sunitas não significou que os xiitas não possuíam raiz no Irã. Os escritores dos “Quatro Livros” (um termo do maior ramo muçulmano xiita que se refere às suas mais conhecidas coleções hadith xiita) eram iranianos, bem como muitos outros grandes estudiosos xiitas.
A dominação do credo sunita durante os nove primeiros séculos islâmicos caracterizou a história religiosa do Irã deste período. Houve, contudo, algumas exceções a esta dominação geral que emergiu sob a forma dos Zaiditas[4] do Tabaristão (uma das províncias do Irã, ao norte, às margens do Mar Cáspio), dos Buyidas, dos Kakuyidas (dinastia relacionada aos Buyidas que tomaram o poder na Pérsia Ocidental, Jibal e Iraque persa), do governo do Sultão Muhammad Khudabandah (oitavo governador da dinastia Iikhanid, em Tabriz, no Irã) e dos Sarbedarans (mistura de ascetas religiosos muçulmanos e governantes seculares que governaram parte do Khorasan ocidental no meio da desintegração do Ikhanato Mongol, meados do século XIV).
Além dessa dominação, ainda existiu durante esses nove séculos, primeiramente inclinações xiitas entre os muito sunitas da terra e, em seguida, o xiismo Imami, bem como o xiismo Zaydi tiveram prevalência em algumas partes do Irã. Durante este período o xiismo no Irã foi alimentado por Kufah (cidade do Iraque a 170 km ao sul de Bagdá), Bagdá e, posteriormente, por Najaf (cidade do Iraque Central, a 160 km ao sul de Bagdá) e Hillah (outra cidade do Iraque Central a cerca de 100 km ao sul de Bagdá). O xiismo foi a seita dominante no Tabaristão, Qom (oitava maior cidade do Irã a 125 km a sudoeste de Teerã), Kashan (cidade da província de Isfahan, Irã), Avaj (cidade da província de Quazvin, ao norte do Irã) e Sabzevar (cidade da província de Razavi Khorasan, no nordeste do Irã). Em muitas outras áreas uma população de xiitas e sunitas viviam fundidas.
Durante os séculos X e XI os Fatímidas (califado muçulmano do ramo ismaili dos xiitas) enviaram missionários ao Irã e outras terras muçulmanas. Quando os Ismailis se dividiram em duas seitas, os Nizaris (seu maior ramo, também conhecidos como assassinos, já mencionados) estabeleceram sua base no Irã com Hassan-i Sabbah, seu líder, conquistando fortalezas e capturando Alamut[5] em 1090, mantida até uma incursão mongol em 1256.
Após a incursão mongol e a queda dos Abássidas, as hierarquias sunitas vacilaram, perdendo seu califado para os xiitas, cujo centro não era no Irã, à época. Durante este período, várias dinastias xiitas foram então aí estabelecidas.
A partir daí a principal alteração na área religiosa ocorreu no início do século XVI, quando os ismailis fundaram a dinastia Safávida iniciando uma política religiosa para reconhecer o islamismo xiita como a religião oficial do Império Safávida. O fato do Irã permanecer até hoje como um Estado oficialmente xiita, é um resultado direto das ações dos Ismailis.


[1] Ummah é uma palavra árabe que significa “comunidade”, não com o sentido de uma nação com ancestrais e geografia comum, mas aplicada a uma comunidade supranacional com uma história comum.
[2] O Império Otomano, também historicamente conhecido na Europa Ocidental como Império Turco, Turco Otomano ou simplesmente Turquia, foi um império fundado ao final do século XIII, na região noroeste da Anatólia, na cidade de Sogut (hoje Província de Bilecik), pelo líder tribal Turco Oghuz (povo turco ocidental que falava a língua Oghuz, do ramo comum da língua turca), Osman. Após 1354, os otomanos atravessaram para a Europa e, com a conquista dos Balcãs, os principados otomanos se transformaram num império transcontinental. Os otomanos acabaram com o Império Bizantino com a conquista de Constantinopla em 1453, por Mehemd, o Conquistador.
[3] Um Persianato ou Sociedade Persificada, é uma sociedade baseada ou fortemente influenciada pela língua, cultura, literatura, arte e ou identidade persa. O termo designa persas étnicos, mas também sociedades que podem não ter sido etnicamente persa ou iraniana, mas cujas atividades culturais linguísticas, materiais ou artísticas foram influenciadas ou baseadas numa cultura de persianato. O Persianato é uma categoria cultural multirracial, mas parece ser, às vezes, uma categoria religiosa ou de origem racial.
[4] O Zaidismo, adjetivo de Zaidita, é uma seita muçulmana que emergiu no século VIII como derivação do islamismo xiita. Os Zaiditas tiraram seu nome de Zayd ibn ‘Ali, o neto de Husayn ibn ‘Ali, que eles reconhecem como o quinto Imam (principais líderes religiosos do islamismo que sucederam a Maomé).
[5] Alamut é uma região geográfica do Irã que inclui partes ocidentais e orientais da Cordilheira de Alborz, entre a seca e estéril planície de Aazvin, no sul, e as ladeiras de densas florestas da província de Mazandaran, ao norte. Alamut era também um dos castelos, com cidadela, dessa área.

A postagem prossegue com a PARTE 8

sábado, 13 de maio de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 4)

V – DINASTIA ABÁSSIDA

O califado abássida foi o terceiro dos califados islâmicos (após Maomé). Como dissemos antes, tal dinastia era descendente do tio mais jovem de Maomé, Abbas ibn Abd al-Muttalib (566-653), de quem a dinastia tomou o nome. A dinastia governou, pela maior parte do seu período, de sua capital em Bagdá (no atual Iraque), após assumir controle sobre o Império Muçulmano dos Omíadas em 750. Inicialmente o governo foi centrado em Kufa (170 km ao sul da atual Bagdá), mas em 762 o califa Al-Mansur fundou a cidade de Bagdá, ao norte da capital sassânida de Ctesiphon. A escolha da nova capital, tão próxima da Pérsia, refletia a crescente confiança nos burocratas persas, notavelmente a família Barmakid, para governar os territórios conquistados pelos muçulmanos, além da crescente inclusão de muçulmanos não árabes na comunidade. A despeito dessa colaboração inicial, os abássidas do final do século VIII alienaram os cooperantes muçulmanos não árabes e os burocratas iranianos, sendo forçados a ceder autoridade sobre Al-Andalus e Magrebe aos Omíadas, Marrocos à dinastia Idríssida, a Ifriqiya (praticamente a atual Tunísia) à dinastia Aghlabid e o Egito ao califado shiita[1] dos Fatímidas (falaremos logo desta dinastia). O poder político dos califas, praticamente, acabou, com a ascensão dos buídas[2] e dos turcos seljúcidas[3]. Embora a liderança abássida sobre o Império Islâmico fosse gradualmente reduzida a uma função cerimonial religiosa, a dinastia manteve o controle sobre suas terras mesopotâmicas. A capital Bagdá tornou-se um centro de ciência, cultura, filosofia e invenções durante a Idade Áurea do Islã. 
Papa Urbano II, iniciador das Cruzadas
Foi bem depois dessa época a ocorrência da Primeira Cruzada, primeira de uma série de Cruzadas envolvidas com a retomada de Jerusalém que, como sabemos, havia caído em 638, durante a conquista do Levante, incluída no rol das primeiras conquistas muçulmanas, então em poder dos romanos. Tal Cruzada, convocada pelo Papa Urbano II em 1095, começou como uma peregrinação difundida pela Cristandade ocidental e terminou como uma expedição militar da Europa Católica Romana para reconquistar a Terra Santa (como sinônimo de Israel). Ela respondeu a um apelo do Imperador Bizantino (Romano) Alexios I Komnenos, que pediu que voluntários do ocidente viessem em sua ajuda para repelir a invasão dos turcos seljúcidas da Anatólia. Um objetivo adicional logo transformou-se na principal meta: a reconquista cristã da sagrada cidade de Jerusalém e da Terra Santa e a libertação de cristãos orientais do domínio islâmico. Cavalheiros, camponeses e servos de várias regiões da Europa Ocidental viajaram por terra e mar, primeiro a Constantinopla e, posteriormente, para Jerusalém. Os Cruzados chegaram em Jerusalém, lançaram um assalto à cidade e a capturaram em julho de 1099, massacrando muitos dos habitantes muçulmanos e judeus da cidade. E estabeleceram os estados cruzados do Reino Latino de Jerusalém (ao sul do Levante), o Condado de Trípoli, o Principado da Antioquia e o Condado de Edessa. Lembrar que o Levante havia sido conquistado pelos muçulmanos, entre 634 e 641, ainda durante a dinastia Rashidun, com Jerusalém caindo em 638, quando foi construída a mesquita de Al Aqsa. O Reino Cruzado durou praticamente 200 anos, até 1291, quando a última possessão, Acre (litoral norte de Israel), foi destruída pelos mamelucos, mas sua história foi dividida em dois períodos: o chamado Primeiro Reino de Jerusalém durou de 1099 a 1187, quando foi quase inteiramente devastado por Saladino; após a Terceira Cruzada, o Reino foi restabelecido no Acre, em 1192, e durou até a destruição da cidade, em 1291, como veremos adiante. Este segundo reino é muitas vezes chamado de Segundo Reino de Jerusalém ou Reino do Acre, sua nova capital. A Primeira Cruzada foi o primeiro passo importante para a reabertura do comércio internacional no ocidente, desde a queda do Império Romano do Ocidente. 
Papa Eugênio III, anunciador da Segunda Cruzada
A Segunda Cruzada (1147-1149) foi deflagrada em resposta à queda do Condado de Edessa (fundado durante a Primeira Cruzada, pelo Rei Baldwin de Bolonha, em 1098), em 1146, para Imad ad-Din Zengi. A Segunda Cruzada foi anunciada pelo Papa Eugênio III e foi a primeira conduzida por reis europeus – Luís VII da França e Conrado III da Alemanha – com a ajuda de outros nobres europeus. Os dois exércitos marcharam separadamente pela Europa e após atravessarem o território Bizantino para a Anatólia, ambos foram, separadamente, derrotados pelos turcos Seljúcidas. Fontes fidedignas dizem que o Imperador Bizantino Manuel I Komnenos, por temer os procedimentos cruzados, secretamente retardou o seu progresso, particularmente na Anatólia, onde ele, deliberadamente, ordenou aos turcos que os atacassem. Luís VII e Conrado III, com os restantes de seus exércitos, alcançaram Jerusalém e, em 1148, participaram de um ataque mal coordenado a Damasco. No Oriente, a Segunda Cruzada foi um grande fracasso e uma grande vitória para os muçulmanos. O seu grande sucesso veio com uma força combinada de belgas, frísios (das costas holandesa e germânica), normandos (norte da França), ingleses, escoceses e alemães, em 1147. Viajando da Inglaterra, de navio, para a Terra Santa, a Cruzada fez uma parada e ajudou o pequeno exército português na captura de Lisboa, expulsando os ocupantes mouros, como parte da Reconquista da Europa. 
Hulagu Khan, o mongol que decretou o
fim da idade áurea do Império Islâmico
Retornando à dinastia Abássida, a Idade Áurea do Islã, já dividido por uma série de dinastias, terminou em 1258, com a invasão e o saque de Bagdá pelos mongóis, sob Hulagu Khan (neto de Genghis Khan e irmão de Kublai Khan), quando lá reinava o último califa abássida Al-Musta’sim, um descendente direto do tio de Maomé, Abbas ibn Abd al-Muttalib. Em 1206, Genghis Khan estabelecera uma poderosa dinastia entre os mongóis da Ásia Central. Durante o século XIII, esse Império Mongol conquistou a maior parte da Eurásia, incluindo a China, no leste, e grande parte do antigo califado islâmico, no oeste. A destruição de Bagdá por Hulagu Khan em 1258, é tradicionalmente vista como o final da Idade Áurea do Império Islâmico. O último califa abássida Al-Musta’sim foi enrolado em um tapete e pisoteado por cavalos até a morte, em 20 de fevereiro de 1258. A família imediata do califa também foi executada, com exceção do seu filho mais jovem, enviado para a Mongólia, e uma filha que se tornou escrava no harém de Hulagu. 
Al-Musta'sim, o último califa Abássida
de Bagdá
No século IX, os abássidas haviam criado, em Bagdá, um exército leal apenas ao seu califado, composto por povos de origem não árabe, que ficaram conhecidos por Mamelucos. Essa força, criada no reino de al-Ma’mun (813-833) e de seu irmão e sucessor, al—Mu’tasim (833-842), evitou uma maior desagregação do Império. O exército mameluco, muitas vezes visto negativamente, ajudou e prejudicou o califado. Inicialmente ele garantiu ao governo uma força estável para cuidar de problemas domésticos e externos. Contudo, a criação desse exército de estrangeiros e a transferência da capital do Império de Bagdá para Samarra[4], no Iraque Central, criou uma divisão entre o califado e os povos que governava; além disso, o poder dos mamelucos cresceu persistentemente até que al-Radi (934-941) teve que passar a maior parte das funções reais para Muhammad ibn Ra’iq, oficial sênior desse exército e os mamelucos acabaram chegando ao poder no Egito, Levante e Hejaz. Esta dinastia dos mamelucos durou da queda da dinastia Aiúbida (que reinou entre 1171 e 1260), dinastia muçulmana de origem curda, fundada por Saladino e centrada no Egito, até a conquista otomana do Egito (1517).
Em 1261, após a devastação de Bagdá pelos mongóis, os governantes mamelucos do Egito restabeleceram o califado abássida no Cairo, com Al-Mustansir, seu primeiro califa no Cairo. Os califas abássidas – e a cultura islâmica, em geral - continuaram a manter a presença de autoridade, mas confinada a questões religiosas, até a conquista otomana do Egito, quando reinava Al-Mutawakkil III, levado como prisioneiro, por Selim I, para Constantinopla. A partir deste momento o mundo árabe praticamente passou a ser dominado pelo Império Turco Otomano.

VI – DINASTIA AIÚBIDA

Saladino, Sultão da Síria e do Egito, oposição
maior às Cruzadas no Levante

Embora algo fora do contexto e da cronologia, estamos abrindo um capítulo especial dedicado à Dinastia Aiúbida, porque foi mencionada há pouco e pelo importante papel que ela representou nas guerras pela conquista de Jerusalém e pelo seu envolvimento com as Cruzadas.
A Dinastia Aiúbida, cujo nome vem de seu pai, Najm ad-Din Ayyub, era uma dinastia islâmica de origem Curda[5], fundada por Saladino e centrada no Egito. A dinastia governou muito do Oriente Médio durante os séculos XII e XIII. Saladino havia sido o Vizir[6] do Egito Fatímida antes de extingui-la no ano 1171. Tal dinastia foi outra das dinastias muçulmanas que governou no norte da África, com centro no Egito, cujo nome deriva de Fatima bint Muhammad, a filha do profeta Maomé.
Em 1164, Nur al-Din (Nur ad-Din), membro da dinastia turca Zengid, que governou a província síria do Império Seljúcida de 1146 a 1174, enviou Shirkuh (tio de Saladino, irmão de seu pai) com uma força expedicionária para evitar o estabelecimento de uma forte presença dos Cruzados num Egito então crescentemente anárquico. Shirkuh recrutou Saladino como um oficial sob seu comando e juntos destituíram Dirgham, vizir do Egito, reinstalando seu predecessor Shawar. Após reinstalado, Shawar ordenou a retirada de Shirkuh do Egito com suas forças. Este negou-se a retirar-se pois lá estava sob as ordens de Nur al-Din. Em alguns anos, Shirkuh e Saladino derrotaram as forças combinadas dos Cruzados e de Shawar, com a batalha final em Alexandria, onde Saladino permaneceu para proteger enquanto Shirkuh perseguia as forças cruzadas pelo baixo Egito.
Shawar morreu em 1169 e Shirkuh tornou-se vizir, morrendo mais tarde no mesmo ano. Com sua morte, Saladino foi feito vizir pelo califa fatímida al-Adid, do Egito, tornando-se mais independente, para temor de Nur al-Din. Em 1171 Al-Adid morreu de causas naturais e Saladino, aproveitando o vácuo do poder, efetivamente tomou o controle do país, mudando a sujeição do Egito para o califado abássida de Bagdá, que aderira ao islamismo Sunni. Saladino consolidou seu controle no Egito ao enviar, ao final de 1172, seu irmão mais velho, Turan-Shah, para abafar uma revolta no Cairo, encenada por 50.000 núbios do exército fatímida. Após este sucesso, Saladino começou a entregar, a seus parentes, altos postos do país e a aumentar a influência do Islamismo Sunni (mais puro islamismo) sobre o Islamismo Shia, que dominava no Cairo, pela construção de numerosas escolas de direito islâmico nas principais cidades.
Embora ainda nominalmente um vassalo de Nur al-Din, Saladino adotou uma política externa cada vez mais independente, que tornou-se mais pronunciada, publicamente, após a morte de Nur al-Din em 1174. Daí para a frente, Saladino dedicou-se à conquista da Síria dos Zengids e, em 23 de novembro deste ano, foi aclamado em Damasco pelo governador da cidade. Em 1175 ele tinha o controle de Hama (cidade nas margens do rio Orontes, na Síria centro-oeste, a 213 km de Damasco) e Homs (cidade no rio Orontes, Síria Ocidental, a 162 km ao norte de Damasco), mas falhou na tomada de Alepo (norte da atual Síria). O sucesso de Saladino alarmou o emir Saif al-Din, de Mosul (cidade do Iraque, na margem ocidental do rio Tigre, a 400 km ao norte de Bagdá), líder dos Zengids à época, que via a Síria como estado de sua família e usurpada por um antigo servo de Nur al-Din. Ele reuniu um exército para enfrentar Saladino próximo de Hama e foi por ele derrotado. Após essa vitória Saladino proclamou-se rei. O califa abássida em Bagdá, al-Mustadi, graciosamente aclamou a sua subida ao poder e deu-lhe o título de Sultão[7] do Egito e da Síria, recebendo em troca a lealdade de Saladino (não esquecer que o Egito se encontrava então, sob o domínio abássida).
Em 1177 Saladino conduziu uma força de 26.000 soldados ao sul da Palestina, após ter ciência de que soldados do Reino de Jerusalém estavam sitiando Alepo. Subitamente atacados pelos Templários sob Baldwin IV de Jerusalém, próximo de Ramla (cidade no centro de Israel), o exército aiúbida foi derrotado na batalha de Montgisard, com a maioria dos soldados mortos. Saladino acampou em Homs, no próximo ano, quando ocorreram várias escaramuças entre suas tropas, comandadas por Farrukh Shah, e as tropas cruzadas. Saladino invadiu os estados cruzados pelo oeste, derrotando Baldwin na Batalha de Marj Ayyun, em 1179. No ano seguinte ele destruiu o recém construído castelo cruzado de Chastellet, na Batalha de Passo de Jacó. Na campanha de 1182, ele lutou novamente com Baldwin na indecisa batalha de Castelo Belboir, em Kawkab al-Hawa (norte do atual Israel).
Em maio de 1182, Saladino capturou Alepo após um breve sítio. Em seguida marchou para Harim, próxima da Antioquia, governada pelos cruzados, conquistando sua guarnição. A esse tempo, apenas Mosul possuía como governante um importante muçulmano rival dos aiúbidas, na figura de Izz al-Din al-Mas’ud. A possibilidade de uma união deste governante com o governador do Azerbaijão arrefeceu o ânimo de Saladino quanto a um novo ataque a Mosul. Um acordo foi negociado pelo qual al-Adil, irmão de Saladino, administraria Alepo em nome do seu filho al-Afdal, enquanto o Egito seria governado por al-Muzaffar Umar (sobrinho de Saladino) em nome de outro filho de Saladino, Uthman. Quando seus dois filhos chegassem à idade assumiriam o poder nos dois territórios, mas se um morresse, um dos irmãos de Saladino tomaria seu lugar. No verão de 1183, após devastar a Galileia Oriental, Saladino chegou à Batalha de al-Fule contra os cruzados de Guy de Lusignan, que acabou indecisa. Muitos confrontos aconteceram nesse período e, durante 1184 e 1185, uma paz relativa seguiu-se entre os Estados Cruzados e o Império Aiúbida que, por essa época mantinha sob seu controle o Egito, a Síria, o norte da Mesopotâmia, Hejaz, Iêmen e a Costa Norte Africana até a fronteira da atual Tunísia.
Saladino sitiou Tibérias, na Galileia Ocidental, em 3 de julho de 1187 e o exército cruzado tentou atacar os aiúbidas por Kafr Kanna (ao norte de Nazaré e associada à vila de Canaã do novo testamento). Em 4 de julho de 1187 foi travada a Batalha de Hattin, quando os cruzados foram batidos decisivamente pelos muçulmanos. Em 8 de julho o baluarte cruzado do Acre foi capturado por Saladino, enquanto suas forças capturavam Nazaré e Saffuriya (também ao norte de Nazaré). Outras cidades e vilas foram rapidamente tomadas e, finalmente, em 2 de outubro de 1187, o Reino de Jerusalém foi conquistado após negociações com Balian of Ibelin, o nobre cruzado local. Ao final de 1187 os aiúbidas controlavam virtualmente todo o reino cruzado no Levante, com exceção do Tiro, governado por Conrado de Montferrat. Em janeiro de 1188, Saladino reuniu um Conselho de Guerra onde decidiram pela retirada do Condado de Trípoli, às margens do Mediterrâneo, bem ao norte do atual Líbano. 
Papa Gregório VIII, autor da bula que
convocou a Terceira Cruzada
O Papa Gregório VIII convocou uma “Terceira Cruzada”, contra os muçulmanos, no ano de 1187, em resposta à derrota do Reino Cruzado de Jerusalém, na Batalha de Hattin, por meio da Bula Papal “Audita Tremendi”. Atendendo ao apelo do Papa, Friedrich Barbarossa, do Sacro Império Romano, Philippe Auguste, da França e Richard the Lionheart (Ricardo Coração de Leão), da Inglaterra, formaram uma aliança para reconquistar Jerusalém. Enquanto isso, os cruzados e aiúbidas lutavam perto do Acre, ganhando reforços da Europa. De 1189 a 1191, o Acre foi sitiado pelos cruzados e embora um sucesso inicial dos muçulmanos, ele caiu às forças de Ricardo. À tomada seguiu-se o massacre de 2.700 habitantes muçulmanos e os cruzados planejaram tomar Ascalon, no litoral sul de Israel. Sob o comando unificado de Ricardo, os cruzados derrotaram Saladino na batalha de Arsuf, o que lhes permitiu a conquista de Jaffa e grande parte da costa Palestina, sem, entretanto, conseguir recuperas as regiões interiores. Em vez disso, Ricardo assinou com Saladino um tratado, em 1192, pelo qual restaurava o Reino de Jerusalém numa uma faixa costeira entre Jaffa e Beirute, ficando este como o último maior esforço da carreira de Saladino, que morreu no ano seguinte, 1193. Após a sua morte, seus filhos contestaram o controle sobre o sultanato, mas o irmão de Saladino, al-Adi, acabou por estabelecer-se como sultão em 1200 e todos os sultões posteriores do Egito foram seus descendentes, até 1249, quando assumiram os mamelucos (já que Egito e Síria se separaram em 1230 para se reunirem em 1247, novamente). 
Ricardo I da Inglaterra, Coração de Leão
A Quarta Cruzada (1202-1204) foi uma expedição armada da Europa Ocidental convocada pelo Papa Inocêncio III, com o objetivo original de conquistar a Jerusalém controlada pelos muçulmanos, através de uma invasão pelo Egito. Entretanto, uma sequência de eventos culminou com os Cruzados saqueando a cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino (Romano) controlado pelos cristãos. Em janeiro de 1203, a caminho de Jerusalém, a maioria da liderança cruzada entrou em acordo com o príncipe bizantino Alexios IV Angelos, para desviar a Constantinopla e restaurar seu pai, Isaac II Angelus, como imperador, deposto que fora por um golpe, em 1195, de seu tio, imperador Alexius III Angelus. A intenção dos cruzados era então prosseguir para a Terra Santa, com a promessa da assistência financeira e militar bizantina. Em 23 de junho de 1203, a principal frota cruzada atingiu Constantinopla enquanto os contingentes menores seguiram para o Acre. Em agosto de 1203, após conflitos fora de Constantinopla, Alexios Angelos foi coroado coimperador (como Alexios IV Angelos), com apoio cruzado,
Inocêncio III, o Papa mais poderoso da história,
segundo os historiadores
na Igreja de Santa Sofia. Alexios foi coroado coimperador, porque o povo libertara seu pai e o queria como rei, com o que não concordaram os cruzados, pois ele havia sido cego e tornado inapto para governar. Contudo, em janeiro de 1204 Alexios foi deposto por um levante popular em Constantinopla. Com isso os cruzados perderam o seu prometido pagamento e quando Alexios foi assassinado em 8 de fevereiro de mesmo ano, os cruzados e venezianos decidiram pela completa conquista de Constantinopla. Em abril de 1204 eles capturaram e brutalmente saquearam a cidade, estabelecendo um novo Império Latino (Império Latino de Constantinopla) e repartindo outros territórios entre si. A resistência bizantina, baseada em seções não conquistadas do Império, como Niceia, Trebizonda e Épiro, acabaram por recuperar Constantinopla em 1261. Como vemos, a Quarta Cruzada, convocada como nova tentativa para a retomada de Jerusalém, não produziu qualquer impacto sobre os povos árabes, sendo citada apenas por fazer parte do grande grupo das Cruzadas. Entretanto, ela é considerada como um dos atos finais do Grande Cisma entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Oriental, além de ponto chave no declínio do Império Bizantino e da Cristandade no Oriente Médio.

[1] Shia é o substantivo; shiita é o adjetivo. Os shias (partido de Ali) são os membros do segundo maior ramo de crentes do Islamismo, constituindo 16% do total dos muçulmanos (o maior ramo é o dos muçulmanos sunitas, que são 84% da totalidade dos muçulmanos). Os shias consideram Ali, genro e primo do profeta Maomé, como o seu sucessor legítimo e consideram ilegítimos os três califas sunitas que assumiram a liderança da comunidade muçulmana após a morte de Maomé.
[2] O Império Buída ou Emirado Buída foi um Estado iraniano medieval shiita que existiu entre 934 e 1055. Foi governado pela dinastia buída, também referida como dinastia Buyida. Eles fundaram uma confederação que controlou a maior parte do Irã e do Iraque nos séculos X e XI.
[3] Os turcos seljúcidas ou Dinastia Seljúcida foi uma dinastia muçulmana Suni (o maior ramo do Islamismo) de turcos Oghuz (da Ásia Central, de língua oghuz) que, gradualmente, tornou-se uma sociedade pérsica, que muito contribuiu para a tradição turco-persa, na Ásia Central e Ocidental medieval. Os seljúcidas estabeleceram o Império Seljúcida e o Sultanato de Rum que, em seu ápice, estendia-se da Anatólia por todo o Irã.
[4] Samarra é uma cidade do Iraque Central que serviu como capital do Califado Abássida, de 836 a 892. Fundada pelo califa al-Mu’tasim, foi brevemente uma metrópole importante que se estendia por vários quilômetros ao longo da margem oriental do Tigre. Foi abandonada durante a segunda metade do século IX, em seguida ao retorno dos califas para Bagdá.
[5] Os Curdos são um grupo étnico do Oriente Médio, habitando principalmente áreas do leste e sudeste da Turquia, (Curdistão Norte), oeste do Irã (Curdistão Iraniano ou Norte), norte do Iraque (Curdistão Iraquiano Sul) e Síria (Curdistão Oeste ou Rojava). Os Curdos são cultural e linguisticamente parentes imediatos dos povos iranianos e, como resultado, frequentemente classificados como um povo iraniano. Muitos curdos se consideram descendentes dos Medos, um antigo povo iraniano.
[6] Um vizir era um conselheiro político de alto nível ou ministro. Os califas abássidas davam o título de vizir a um ministro anteriormente chamado secretário, que era, inicialmente, um mero ajudante, mas tornou-se, posteriormente o representante e sucessor do escriba oficial dos reis sassânidas. No Egito antigo era o mais alto funcionário a servir o rei ou faraó, durante os reinos antigo, médio e novo.
[7] Sultão é um título nobre com vários significados históricos. Originalmente era um nome árabe abstrato significando força, autoridade e poder. Mais tarde veio a ser usado como título para certos governantes que reivindicavam quase plena soberania em termos práticos (independência de qualquer governante superior) sem, contudo, reivindicar o “califado” ou referir-se a um poderoso governador de uma província dentro do califado. À dinastia e terras governadas por um sultão, dava-se o título de “sultanato”.

Continua com a PARTE 5

quarta-feira, 12 de abril de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 3)

III.5 – CONQUISTA DO MAGREBE (670-710)
Uqba ibn Nafi,
conquistador do norte da África

O domínio bizantino no noroeste da África, ao tempo, era principalmente confinado às planícies costeiras, enquanto as comunidades berberes controlavam o resto. Em 670 os árabes fundaram o povoamento de Qayrawan, a oeste da atual Tunísia, que deu lhes uma base avançada para sua expansão posterior. Os historiadores muçulmanos creditam ao general Uqba ibn Nafi a subsequente conquista de terras que se estenderam até a costa do Atlântico, embora pareça ter sido uma incursão temporária. O chefe berbere Kusayla e uma enigmática líder de nome Kahina (profetisa ou sacerdotisa) parecem ter montado uma resistência efetiva, embora de curta vida, ao domínio muçulmano, ao final do século VII, mas as fontes não dão um quadro claro de tais eventos. As forças árabes capturaram Cartago (Tunísia), em 698, e Tânger (Marrocos), cerca de 708. Após a queda de Tânger, muitos berberes se juntaram ao exército muçulmano. Em 740, o domínio Omíada na região foi sacudido por uma importante revolta berbere que também envolveu os muçulmanos kharijite (grupo surgido durante a crise de liderança com a morte de Maomé) berberes. Após uma série de derrotas, o califado pôde finalmente abafar a rebelião em 742, embora as dinastias berberes locais permanecessem fora do controle imperial daí em diante.
A perda do Egito e da Síria, seguida da invasão do Exarcado da África[1], também significou que o Mediterrâneo, há muito referido como o “Lago Romano”, era agora contestado entre duas potências: o Califado Muçulmano e o Império Bizantino. Nestes eventos, o Império Bizantino, embora amargamente testado, poderia manter-se na Anatólia, enquanto as poderosas muralhas de Constantinopla a salvassem durante dois grandes cercos árabes, do mesmo destino do Império Persa.
De acordo com Will Durant, em sua “História da Civilização”, a conquista da região começou para proteger o Egito de um ataque pelo flanco, da Cirene[2] bizantina. Um exército de 40.000 muçulmanos avançou através do deserto, conquistando Barca e marchando até as vizinhanças de Cartago, derrotando na passagem um exército de 20.000 bizantinos. Seguiu-se uma força de 10.000 árabes, conduzida pelo general Uqba ibn Nafi e engrossada por milhares de outros. Partindo de Damasco o exército marchou ao norte da África tomando a vanguarda. Em 670 a cidade de Kairouan (160 km ao sul da atual Túnis, já na Tunísia) foi estabelecida como refúgio e base de operações posteriores, tornando-se a capital da província islâmica de Ifriqiya, que cobriria as regiões costeiras das modernas Líbia ocidental, Tunísia e Argélia oriental. Depois disso, o general penetrou no coração do país, atravessando o deserto em que seus sucessores erigiram a esplêndida capital do Marrocos, Fes; com o tempo, acabou por atingir a borda do Atlântico e do deserto do Saara. Em sua conquista do Magrebe, ele sitiou a cidade costeira de Bugia, na Argélia, e Tânger, no Marrocos, subjugando o que havia uma vez sido a tradicional província romana de Mauritânia Tingitana[3].
Mas aqui eles pararam e foram repelidos parcialmente. Por uma rebelião universal contra a ocupação muçulmana dos territórios bizantinos e africanos, Uqba foi chamado das praias do Atlântico; em seu retorno, uma coalizão Berbere-Romana emboscou e destruiu suas forças próximo de Biskra, matando Uqba e liquidando suas tropas. O terceiro general ou governador da África, Zuheir, vingou o destino de seu antecessor, subjugando a população nativa em várias batalhas; mas acabou sendo também derrotado por um poderoso exército enviado por Constantinopla para a libertação de Cartago.
Entrementes, uma nova guerra civil entre rivais pela monarquia, explodiu na Arábia e Síria, resultando numa série de quatro califas entre a morte de Muawiya, em 680, e a ascensão de Abd al-Malik ibn Marwan (Abdalmalek), em 685; a luta terminou em 692 com a morte do líder rebelde e o retorno à ordem doméstica que permitiu ao califa reiniciar a conquista do norte da África, com nova invasão da Ifriqiya. A tarefa coube a Hassan, governador do Egito, que tinha como principal tarefa a conquista da linha da costa, ainda nas mãos dos bizantinos. Hassan subjugou e pilhou Cartago, a metrópole da África. O Império Bizantino respondeu com tropas de Constantinopla, unidas a soldados e navios da Sicília e um poderoso contingente de Visigodos da Espanha, obrigando o exército árabe invasor a retroceder para Kairouan. Na primavera seguinte, contudo, os árabes lançaram um novo assalto por mar e terra, forçando os bizantinos e seus aliados a evacuarem Cartago. Os árabes assassinaram todos os civis, destruíram totalmente a cidade, incendiando-a a seguir, deixando a área desolada pelos próximos dois séculos. Após a partida da força principal e seus aliados, os árabes venceram outra batalha próximo de Utica (a noroeste de Cartago), obrigando os bizantinos a abandonarem o norte da África para sempre. A tais fatos seguiu-se uma rebelião berbere contra os novos governantes árabes, que Hassan não teve capacidade de sufocar; as conquistas de uma era foram perdidas num dia e o chefe árabe, sufocado pela revolta, retirou-se para os confins do Egito.
Cinco anos se passaram antes que Hassan recebesse novas tropas do Califa e retornasse ao norte da África sacrificada pelo reino berbere. Em 698 os árabes haviam tomado a maior parte da região aos bizantinos, dividindo-a em três província: Egito, com seu governador em al-Fustat; Ifriqiya, com seu governador em Kairouan; e o Magrebe (atual Marrocos), com seu governador em Tânger. Musa bin Nusair, um general iemenita de sucesso na campanha foi feito governador da Ifriqiya, com a responsabilidade de debelar uma nova revolta berbere e converter a população ao Islam. Musa e seus dois filhos obtiveram êxito, assassinaram os civis e escravizaram 300.000 prisioneiros, dos quais 30.000 foram enquadrados no serviço militar. Musa ainda construiu uma frota para combater a marinha bizantina e com ela conquistou as ilhas cristãs de Ibiza, Majorca e Minorca, avançando no Magrebe e tomando Argel em 700. 
A Ilha de Ceuta, no Estreito de Gibraltar
Em torno de 709, todo o norte da África estava sob controle do califado árabe, com exceção de Ceuta, nos Pilares de Hércules[4] africanos. Nessa época, a população de Ceuta incluía muitos refugiados de uma danosa guerra civil visigótica que eclodira na Espanha antiga, incluindo a família e confederados do falecido rei Wittiza, cristãos arianos fugindo de conversões forçadas nas mãos da igreja católica visigótica e judeus. Entretanto, Musa contava com a simpatia de Julian, governante de Ceuta. Na primavera de 710, Tariq ibn Ziyad, um berbere, escravo livre e general muçulmano, tomou Tânger; Musa o fez governador da região apoiado por um exército de 6.700 homens.

III.6 – CONQUISTA DA TRANSOXIANA (673–751)
Mapa da Transoxiana e Khurasan no século VIII

A Transoxiana é a região a nordeste do Iran, além do rio Oxus ou Amu Darya, grosseiramente correspondendo aos atuais Uzbequistão, Tajiquistão e partes do Cazaquistão. As incursões iniciais através do rio Oxus, objetivaram Bukhara (673) e Samarkand (675) e seus resultados ficaram limitados a promessas de pagamento de tributo. Os avanços posteriores foram retardados por 25 anos por sublevações políticas no califado Omíada, seguidas por uma década de rápido progresso militar sob a liderança do novo governador de Khurasan, Qutayba ibn Muslim, que incluiu a conquista de Bukhara e Samarqand em 706-712 (ver figura anterior). A expansão perdeu o seu momento quando Qutayba foi morto durante um motim do exército e os árabes foram colocados na defensiva, por força de uma aliança entre os exércitos de Sogdia e Turgesh com apoio da China da dinastia Tang. Contudo, reforços da Síria viraram a maré e muitas das terras perdidas foram reconquistadas por 741. O poder muçulmano sobre a Transoxiana foi consolidado uma década mais tarde quando um exército conduzido por chineses foi derrotado na Batalha de Talas, em 751.

III.7 – CONQUISTA DO SINDH (711–714)
Sindh, área rosa claro no sudeste do Paquistão,
com sua capital Carachi

O Sindh é das quatro províncias do Paquistão, a terceira maior em área e a segunda maior em população, após Punjab, localizada na região sudeste do país. Desenvolve-se ao longo do rio Indus, que desemboca no Mar Arábico e tem como capital a maior cidade do Paquistão, Carachi.
Embora durante os anos 660 generais árabes tivessem feito incursões esporádicas na direção da Índia e uma pequena guarnição fosse estabelecida na árida região de Makran, nos anos 670, a primeira campanha em grande escala no vale do Indus ocorreu quando o general Muhammad bin Quasim invadiu Sindh em 711, em marcha costeira através do Makran[5]. Três anos mais tarde os árabes controlavam todo o baixo vale do Indus, com a maioria das cidades submetidas ao controle árabe mediante tratados de paz, mas outras tendo oferecido uma feroz resistência, principalmente pelas forças do Rajá Dahir, último governante hindu do Sidh, na importante cidade de Debal, bem próximo de Karachi. Incursões árabes em direção ao sul de Sindh foram repelidas pelos exércitos de Gurjara e Chalukya e a expansão islâmica posterior foi coibida pelo Império Rashtrakuta (dinastia real da Índia) que ganhou o controle da região logo em seguida.

III.8 – CONQUISTA DA ESPANHA E SEPTIMÂNIA (711–721)
Em azul e marrom (Septimânia), grosseiramente, a França;
em amarelo, a Espanha

A Septimânia era a região oeste da província romana da Galia Narbonensis (o sul da França), que passou ao controle dos visigodos em 462, quando cedida ao seu rei, Teodorico II.
A conquista da Península Ibérica foi notável por sua brevidade e falibilidade das fontes disponíveis. Após a morte do rei visigodo da Espanha, Wittiza, em 710, o reino passou por um período de divisão política. Em 711 Musa ordenou que os mouros, sob a liderança do general africano berbere, Tariq ibn-Ziyad, invadissem a Espanha cristã dos visigodos, o que foi realizado pelo desembarque, de Ceuta, em navios fornecidos por Julian, seu governador. Tariq lançou-se sobre a Península Ibérica, derrotou Roderico, sitiando a capital do Reino, Toledo. Com seus exércitos árabes e berberes, os muçulmanos avançaram capturando, uma após a outra, todas as cidades do reino gótico, algumas delas com a concordância do pagamento de tributo e com a aristocracia local mantendo algo de sua influência prévia. 
Tariq ibn Ziyad, general omíada de origem berbere,
conquistador da Península Ibérica
Pelo ano 713 a Ibéria estava quase totalmente sob o controle muçulmano e os eventos dos 10 anos seguintes, com detalhes obscuros, incluíram a captura de Barcelona, Narbonne e uma incursão sobre Toulose seguida de uma expedição a Burgundy, em 725. A última incursão de grande escala para o norte acabou com uma derrota dos muçulmanos na Batalha de Tours, nas mãos dos francos, comandados pelo franco Charles Martel, em 732.
Os mouros dominaram a península Ibérica – exceto por áreas ao noroeste (como as Astúrias, onde foram parados na batalha de Covadonga) - e a maior parte das regiões bascas, nos Pirineus, por séculos, e embora o número de mouros fosse pequeno, eles ganharam um grande número de convertidos.
A Revolução Abássida foi a derrubada do Califado Omíada (661-750 DC), o segundo dos quatro maiores califados do início da história islâmica, pelo Califado Abássida (750-1258 DC). Chegando ao poder três décadas após a morte de Maomé e imediatamente após o Califado Rashidun, os Omíadas constituíram um império feudal árabe que governou sobre uma população constituída esmagadoramente por não árabes e primariamente por não muçulmanos. Os não árabes eram tratados como cidadãos de segunda classe, fossem ou não convertidos ao islamismo, e tal situação, desprezando diversas fés e etnias, conduziu finalmente à derrocada dos Omíadas, com a família Abássida reivindicando descendência de al-Abbas, um tio de Maomé. A revolução definitivamente marcou o fim do Império Árabe e o início de um Estado mais inclusivo e multiétnico no Oriente Médio; lembrada como uma das mais bem organizadas revoluções durante seu período na história, ela reorientou o foco do mundo islâmico para o oriente. 
Na Batalha de Tours, a vitória do franco Charles Martel
À época da revolução Abássida, no meio do século VIII, os exércitos muçulmanos enfrentavam uma combinação de barreiras naturais e estados poderosos que impediram um progresso militar adicional. As guerras produziam retornos decrescentes em ganhos pessoais e os soldados abandonavam o exército por ocupações civis. As prioridades dos dirigentes também se alteraram da conquista de novas terras para a administração do império adquirido. Embora a era abássida testemunhasse alguns novos ganhos territoriais, como a conquista da Sicília e de Creta, o período de rápida expansão cedia espaço a uma era onde a expansão do islamismo seria lenta e realizada através dos esforços de dinastias locais, missionários e comerciantes. É por essa razão mesma, que encerramos aqui o detalhamento das conquistas árabes.

IV – RESULTADOS ATÉ 750

As vitórias militares a partir da Península Arábica anunciaram a expansão da cultura e religião dos árabes. As conquistas foram seguidas por uma migração em grande escala de famílias e tribos inteiras da Arábia para as terras do Oriente Médio. Os árabes conquistadores já possuíam uma sociedade complexa e sofisticada. Emigrantes do Iêmen levaram consigo tradições agrícolas, urbanas e monárquicas; membros das confederações tribais dos Ghassânida e Lakhmid possuíam experiência na colaboração com os impérios. A hierarquia e as unidades dos exércitos foram tiradas das tribos nômades e sedentárias, ao passo que a liderança veio, principalmente, da classe mercante Hejaz (região a oeste da atual Arábia Saudita, que abriga Meca e Medina).
Duas políticas fundamentais foram implementadas durante o reino do segundo califa Omar (634-644): os árabes não danificariam a produção agrícola das terras conquistadas e a liderança cooperaria com as elites locais. Para esse fim os exércitos árabes eram fixados em alojamentos segregados ou em novas cidades guarnições. Aos soldados eram pagos salários e eram proibidos de apoderar-se de terras. Governadores árabes supervisionavam a coleta e distribuição de impostos deixando as anteriores ordens religiosa e social intactas. Inicialmente muitas províncias retiveram um grande grau de autonomia por acordos com os comandantes árabes; com a passagem do tempo, os conquistadores buscaram ampliar seu controle sobre os negócios locais e fazer funcionar a máquina administrativa para o novo regime, o que envolveu muita reorganização. Na região mediterrânea, cidades-estados que tradicionalmente se autogovernavam foram substituídas por uma burocracia territorial que separava a administração urbana da rural. No Egito, estados e municipalidades finalmente independentes foram abolidos em favor de um sistema administrativo simplificado. No Irã, foram feitas a reorganização administrativa e a construção de muralhas de proteção à aglomeração de quadras e vilas em grandes cidades. Locais notáveis do Irã, que antes possuíam quase completa autonomia, foram incorporados na burocracia central no período Abássida.
A sociedade dos novos povoados árabes gradualmente se estratificou em classes, baseadas na riqueza e no poder. Também foi reorganizada em novas unidades comunais que preservaram nomes do clã e tribais, mas foram de fato apenas frouxamente baseados em velhos vínculos de parentesco. Os colonizadores árabes se dirigiram a ocupações civis e em regiões orientais se estabeleceram como uma aristocracia fundiária. Ao mesmo tempo, as distinções entre os conquistadores e populações locais começaram a desaparecer. No Irã os árabes assimilaram muito da cultura local adotando a língua, costumes e casando com mulheres persas. No Iraque, colonizadores não árabes juntaram-se a cidades-fortes. Soldados e administradores do antigo regime vieram para buscar suas fortunas com os novos mestres, ao passo que escravos, trabalhadores e camponeses fugiram para lá escapando das duras condições de vida no campo. Não árabes convertidos ao Islã foram absorvidos na sociedade árabe muçulmana através de uma adaptação da instituição árabe tribal de clientela, em que a proteção do poderoso era trocada pela lealdade dos subordinados. Os clientes e seus herdeiros eram vistos como membros virtuais dos clãs, que se tornavam cada vez mais, econômica e socialmente, estratificadas.
Contrariamente à crença de escritores mais antigos, não há evidência de conversões em massa ao Islamismo como consequência imediata das conquistas. Os primeiros grupos a se converterem foram tribos árabes cristãs, embora algumas delas tivessem mantido sua religião na era Abássida, mesmo quando servindo às tropas do califado. Foram seguidos pelas antigas elites do Império Sassânida, cuja conversão ratificou seus velhos privilégios. Com o tempo, o enfraquecimento das elites não muçulmanas facilitou o colapso dos velhos laços comunais e reforçou os incentivos de conversão que prometiam vantagens econômicas e mobilidade social. Pelo início do século VIII, as conversões tornaram-se uma questão política para o califado. Foram favorecidas por ativistas religiosos e muitos árabes aceitaram a igualdade de árabes e não árabes. Contudo, a conversão foi associada a vantagens econômicas e políticas e as elites muçulmanas relutavam por ver seus privilégios diluídos. A política pública, com relação aos convertidos, variava dependendo da região e se alterava com os sucessivos califas Omíada. Estas circunstâncias provocaram a oposição dos convertidos não árabes cujas classes incluíam muitos soldados ativos e ajudaram a montar o cenário para a guerra civil que acabou com a dinastia Omíada. 
O Califado Omíada em sua maior extensão
Em sua “História do Declínio e Queda do Império Romano”, Edward Gibbon escreve: “Sob o último dos Omíadas (750), o império árabe estendia-se por uma jornada de duzentos dias de leste para oeste, dos confins da Tartária e Índia às margens do Oceano Atlântico .... A língua e as leis do Corão foram estudadas com igual devoção em Samarcand (cidade do atual Uzbequistão e uma das mais antigas cidades habitadas da Ásia Central) e Sevilha: o mouro e o indiano juntos, como cidadãos e irmãos de peregrinação em Meca; e a língua árabe adotada como idioma popular em todas as províncias a oeste do Tigre.”
Em sua maior extensão, o Califado Omíada cobriu 11.100.000 km2 e 62 milhões de pessoas (29% da população mundial à época), tornando-o um dos maiores impérios da história, tanto em área quanto em população.
As conquistas muçulmanas alavancaram o colapso do Império Sassânida e uma grande perda territorial do Império Bizantino. As razões do sucesso muçulmano são difíceis de encontrar em retrospectiva, principalmente porque somente fontes fragmentárias do período sobreviveram. A maioria dos historiadores concorda que os impérios Sassânida Persa e Bizantino Romano foram militar e economicamente exauridos por décadas de luta entre si. Muitos judeus e cristãos do Império Sassânida e judeus e monofisistas (Cristo com uma só natureza divina após a encarnação) da Síria, encontravam-se descontentes e bem receberam as forças muçulmanas, principalmente pelo conflito religioso entre os dois impérios; em outras vezes, árabes cristãos se aliaram com os persas e bizantinos contra os invasores muçulmanos. Outros autores sugerem que a formação de um Estado na Península Arábica, além da ideológica (religiosa) coerência e mobilização, foram a razão primária para que os exércitos muçulmanos pudessem, no espaço de apenas cem anos, estabelecer o maior império pré-moderno até aquele tempo.

[1] O Exarcado da África ou de Cartago, por sua capital, era o nome da divisão administrativa do Império Bizantino envolvendo suas possessões no Mediterrâneo Ocidental, governada por um exarca (vice-rei). Foi criado pelo imperador Mauricius ao final dos anos 580’ e sobreviveu até a conquista muçulmana ao final do século VII.
[2] Cirene (ou Cirena) foi uma antiga cidade grega e romana, próxima da atual Shahhat, Líbia. Era a mais antiga e importante das cinco cidades gregas da região. Deu à Líbia oriental o nome clássico Cirenaica (já mencionado acima), que reteve até tempos modernos.
[3] Com a morte de Ptolomeu de Mauritânia, seu último rei, em 40 DC, o imperador romano Claudius dividiu o reino em duas províncias romanas: Mauritânia Tingitana e Mauritânia Caesariensis, separadas pelo rio Mulucha, localizado a 60 k, a oeste da moderna Oran, Argélia. A Mauritânia Tingitana (latim para “Mauritânia Tangerina”) coincidia, grosseiramente, com a parte norte do atual Marrocos e sua capital era a moderna Tânger.
[4] “Pilares de Hércules” foi a expressão aplicada na antiguidade aos promontórios que flanqueiam a entrada ao Estreito de Gibraltar. O pilar norte, Cabo Mons, é a Rocha de Gibraltar (parte do território ultramarino britânico de Gibraltar). O pico correspondente, no norte da África, Abila Mons, sem ser predominante, tem sua identidade (a do pilar sul) disputada ao longo da história, entre o Monte Hacho, em Ceuta, e Jebel Musa, no Marrocos. Ceuta é uma cidade espanhola autônoma de 18,5 km2, localizada na costa norte da África, repartindo a fronteira oeste com o Marrocos; separada da Península Ibérica pelo Estreito de Gibraltar, Ceuta se situa ao longo da divisa entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico.
[5] O Makran é uma faixa costeira semidesértica no Baloquistão (outra das províncias do Paquistão) e Irã, ao longo da costa do golfo Pérsico e golfo de Omã.

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