Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 6

Efígie de Kavad I sobre dinar de ouro

Kavad I foi um soberano enérgico e reformador, dando apoio à seita fundada por Mazdak, que exigia que o rico dividisse suas esposas e seus bens com os pobres, com a evidente intenção de quebrar a influência dos magnatas e da crescente aristocracia. Suas reformas conduziram à sua deposição e prisão no “Castelo do Esquecimento”, em Susa, com a elevação ao trono, de seu irmão mais jovem Jamasp (Zamaspes), em 496. Jamasp (496-498), instalado no trono por membros da nobreza, foi um bom rei que reduziu impostos para aliviar os camponeses e os pobres e aderiu à principal corrente da religião Zoroastriana, que haviam custado a Kavad I o trono e sua liberdade. Seu reino logo terminou quando Kavad I, que havia fugido em 498, recebendo abrigo do rei Huno, à frente de um enorme exército, retornou à capital do Império e tomou o trono.
A segunda era dourada começou com o segundo reinado de Kavad I. Com o apoio dos Hunos Brancos, Kavad I lançou uma campanha contra os romanos, conquistando Theodosiopolis (extremo leste da Turquia moderna), na Armênia, em 502 embora logo perdendo-a novamente. Em 503 ele tomou Amida, na margem direita do Tigre, hoje pertencendo à moderna Turquia. Em 504, uma invasão da Armênia pelos hunos ocidentais do Cáucaso, conduziu a um armistício, ao retorno de Amida ao controle romano e a um tratado de paz em 506. Em 521/522, Kavad perdeu o controle de Lazica (hoje região do oeste da moderna Georgia, margens do Mar Negro), cujos monarcas se aliaram aos romanos; uma tentativa dos ibéricos, em 524/525, para agir da mesma forma, desencadeou uma guerra entre Roma e a Pérsia. Em 527 uma ofensiva romana contra Nisibis foi repelida e os esforços romanos de fortificar posições próximo às fronteiras foi frustrada. Em 530 Kavad I enviou um exército para atacar Dara, importante cidade de fronteira romana ao leste, com os romanos derrotados na Batalha de Dara. Várias batalhas foram travadas nessas chamadas Guerras Ibéricas, com vitorias e derrotas de ambos os lados até que, em 532, uma paz “eterna” foi celebrada. Embora sem poder se livrar dos laços com os Hunos, Kavad I restaurou a ordem no interior e lutou com geral sucesso contra os romanos orientais, fundou várias cidades, algumas com seu nome e iniciou a regulação dos impostos e a administração interna. 
Khosrau I, o mais celebrado
monarca sassânida
Após Kavad I, reinou seu filho Khosrau I (também conhecido por Anushirvan) de 531 a 579, o mais celebrado dos monarcas sassânidas. Khosrau I ficou famoso por suas reformas no corpo governante dos anciãos sassânidas, pela introdução de um racional sistema de impostos iniciado por seu pai e por suas tentativas em aumentar a riqueza e as receitas de seu império. Desenvolveu uma nova força de cavalheiros pagos e equipados pelo governo e burocracia centrais, ligando o exército e a burocracia ainda mais proximamente do governo central do que aos lordes locais. Em 540, Khosrau I quebrou o tratado de paz invadindo a Síria, saqueando a Antióquia e arrebatando grandes somas de dinheiro de um grande número de cidades. Nos anos que se seguiram, obteve outros sucessos, interrompidos em 545 por uma trégua que foi novamente interrompida em 547; a guerra reiniciou, confinada à posse de Lazica que ficou com os bizantinos quando a paz foi concluída em 562.
Revoltas na Armênia provocaram, em 571, o massacre do governador persa e sua guarda, do que se aproveitou o imperador romano Justiniano II para interromper os pagamentos anuais a Khosrau I para a defesa dos passes do Cáucaso. As guerras recomeçaram fazendo com que Justiniano II concordasse a reiniciar os pagamentos anuais em troca de uma trégua de cinco anos na frente mesopotâmica, embora a continuação da guerra em outros locais. Em 576 Khosrau I liderou sua última campanha, uma ofensiva na Anatólia que acabou em desastre: os persas sofreram pesadas perdas em sua fuga através do Eufrates sob ataque bizantino. Aproveitando a desorganização persa, os bizantinos penetraram profundamente no território de Khosrau I, mesmo pelo Mar Cáspio. Khosrau implorou por paz, mas decidiu continuar a luta na Armênia e na Mesopotâmia. A revolta armênia chegou a um fim com uma anistia geral e o retorno da Armênia ao Império Sassânida.
Hormizd IV (579 a 590) assumiu o trono após Khosrau I. A guerra com os bizantinos prosseguiu furiosa, mas de forma inconclusiva, até que o general Bahram Chobin, dispensado e humilhado por Hormizd IV, revoltou-se em 589. No ano seguinte ele foi derrubado do palácio por um golpe e seu filho Khosrau II (590 a 628) colocado em seu lugar. Tal mudança não aplacou Bahram que derrotou Khosrau II, forçando-o a fugir para território bizantino e tomando o trono como Bahram VI. Khosrau II pediu apoio contra Bahram VI ao imperador bizantino Mauricio, oferecendo em troca o Cáucaso Ocidental aos bizantinos. Para reforçar a aliança, Khosrau II casou com Miriam, filha de Mauricio. Sob o comando de Khosrau II, com o auxílio de forças e generais romanos, a força combinada bizantino-persa derrotou Bahram na Batalha de Blarathon, em 591. Cumprindo o acordo, Khosrau II cedeu o controle da Armênia ocidental e da Ibéria caucasiana. O novo arranjo de paz permitiu aos dois impérios focar em questões militares em outros locais: Khosrau II expandiu as fronteiras orientais do Império Sassânida enquanto Mauricio restaurou o controle bizantino dos Balcãs.
Khosrau II o restaurador dos
Territórios aquemênidas
Quando Mauricio foi derrubado e morto por Phocas, em 602, Khosrau II usou o assassinato de seu benfeitor como pretexto para começar uma nova invasão que se beneficiou da guerra civil contínua no Império Bizantino, encontrando pouca resistência efetiva. Os generais de Khosrau II atacaram as fortificadas cidades da Mesopotâmia e Armênia bizantinas, lançando as fundações de uma expansão sem precedentes, aniquilando a Síria e capturando a Antióquia em 611. Em 613 os generais persas derrotaram um decisivo contra-ataque liderado pelo próprio imperador bizantino Heraclius. Depois disso, o avanço persa prosseguiu incontrolável: Jerusalém caiu em 614, Alexandria em 619 e o resto do Egito em 621. O sonho sassânida de restaurar as fronteiras aquemênidas estava quase completo, enquanto o Império Bizantino se achava à beira do colapso. Este notável pico de expansão foi acompanhado pelo florescer da arte, música e arquitetura persas.
Embora bem-sucedida num primeiro estágio (de 602 a 622), a campanha de Khosrau II havia exaurido a riqueza e o exército persas; E num esforço para reconstruir as finanças nacionais, Khosrau II sobretaxou a população. Enquanto seu império se achava à beira da derrocada, o Império Bizantino preparava uma imensa contraofensiva e partia para uma série de vitórias contra as forças persas. Como resposta, Khosrau II, em coordenação com nômades eurasianos e eslavos, lançou o cerco à capital bizantina de Constantinopla em 626. Os sassânidas atacaram a cidade pelo lado oriental do Bósforo enquanto seus aliados invadiam o lado ocidental. A frota bizantina conseguiu impedir o transporte dos persas através do Bósforo e o cerco acabou fracassando. Em contrapartida, os persas sofreram ataques dos romanos em 627-628, quando desceram o Tigre devastando o país e saqueando o palácio de Khosrau II em Dastagerd; somente não atacaram Ctesifonte por causa da destruição de pontes pelos persas, mas sofreram mais ataques no noroeste do Irã. O impacto das vitórias de Heraclius e a devastação das mais ricas terras do Império Sassânida acabaram por minar o prestígio de Khosrau II e seu apoio junto a aristocracia persa. No início de 628 ele foi destronado e assassinado por seu filho Kavad II que, imediatamente, trouxe um fim à guerra, concordando em retirar-se de todos os territórios ocupados, incluindo Jerusalém.
Kavad II morreu em dois meses, seguindo-se o caos e a guerra civil. Em um período de quatro anos - e cinco diferentes reis, incluindo duas filhas de Khosrau II e o comandante militar Shahrbaraz -, o Império Sassânida enfraqueceu consideravelmente, com o poder da autoridade central passando pelas mãos dos generais, sem tempo para a recuperação do Império.
No início de 632, Yazdegerd III, um neto de Khosrau I que se refugiara em Estakhr (cidade do sul do Irã, província de Fars, 5 km ao norte de Persépolis), assumiu o trono. Nos mesmo ano, os primeiros ataques das tribos árabes, então unidas pelo Islamismo, chegaram ao território Persa. Yazdegerd III era ainda um menino a mercê de seus conselheiros e incapaz de unir um vasto país repartido em pequenos reinos feudais, as guerras contra o Império Bizantino haviam exaurido o Império Sassânida que sofria uma enorme declínio econômico, pesados impostos e agitação religiosa e foi impossível conter a conquista islâmica da Pérsia, mesmo sem sofrer o assédio dos romanos que também eram invadidos pelos muçulmanos, que foram tomando conta, paulatinamente, de todo o Irã. A abrupta queda do Império Sassânida foi completada em um período de cinco anos com a maioria do seu território absorvida pelo califado Islâmico, embora muitas cidades iranianas tenham lutado muitas vezes contra os invasores. Yazdegerd III, acompanhado de nobres persas fugia para as províncias mais orientais quando foi assassinado por um moleiro em 651. Muitos de seus nobres se estabeleceram na Ásia Central onde contribuíram grandemente para a difusão da cultura e língua persa e para o estabelecimento da primeira dinastia iraniana islâmica nativa, a dinastia Samânida, que buscou reviver as tradições sassânidas. A população persa, inicialmente sob pequena pressão para converter-se ao islamismo, foi gradualmente se convertendo, principalmente porque as elites de língua persa tentavam ganhar posições de prestígio bem mais tarde sob o Califado Abássida.
A Era Sassânida, abarcando todo o período da Antiguidade Final, é considerado um dos mais importantes e influentes períodos históricos do Irã, com um importante impacto mundial. De várias maneiras, o período sassânida testemunhou as maiores conquistas da civilização persa e constituiu o último grande Império Iraniano antes da adoção do islamismo. A Pérsia influenciou consideravelmente a civilização romana durante a Era Sassânida, com sua influência cultural se estendendo muito além das fronteiras territoriais do império, alcançando a Europa Ocidental, África, China e Índia, bem como representando um importante papel na formação da arte medieval europeia e asiática, prosseguindo no mundo muçulmano. A cultura única e aristocrática da dinastia transformou a conquista e destruição muçulmana do Irã, num renascimento persa. Muito do que mais tarde tornou-se conhecido como cultura, arquitetura, escrita e outras contribuições islâmicas para a civilização, foram obtidas dos persas sassânidas no mais amplo mundo muçulmano.
Sobre a conquista islâmica da Pérsia, remeto os meus leitores ao meu blog, à postagem intitulada “Uma Pequena História dos Árabes Muçulmanos”, em sete partes, que a inclui, para evitar a repetição do mesmo assunto. Da mesma forma, para o significado de termos árabes que não serão reexplicados aqui, remetemos nossos leitores àquela postagem.

IV – IRÃ MEDIEVAL

IV.1 – ERA DO CALIFADO E DO SULTANATO

IV.1.1 – O CALIFADO OMÍADA E SUAS INCURSÕES NA COSTA DO MAR CÁSPIO

Após a queda do Império Sassânida em 651, os árabes do Califado Omíada adotaram muitos costumes persas, especialmente os padrões administrativos e da corte. Os governadores provinciais árabes eram, evidentemente, ou arameus[1] persificados ou persas étnicos; certamente a língua persa permaneceu para os negócios oficiais do califado até a adoção do árabe pelo fim do século VII, quando em 692 a cunhagem iniciou na capital, Damasco. As novas moedas islâmicas evoluíram de imitações das moedas sassânidas (bem como bizantinas) quando a escrita Pahlavi (forma particular e exclusivamente escrita de várias línguas do Iraniano Médio) na cunhagem foi substituída pelo alfabeto arábico.
Durante o califado Omíada, os conquistadores árabes impuseram a arábica como a língua básica dos povos súditos por todo o império. Al-Hajjaj ibn Yusuf[2], descontente com a prevalência da língua persa no divan (alto corpo governamental em vários estados islâmicos ou seu principal funcionário), ordenou que a língua oficial das terras conquistadas fosse substituída pela arábica, algumas vezes à força.
Há muitos historiadores que vêm a regra dos omíadas no estabelecimento do “dhimmah” (uma espécie de obrigação) como uma tentativa de aumentar as taxas impostas aos cidadãos não muçulmanos, num estado islâmico, para beneficiar a comunidade árabe muçulmana financeiramente e pelo desencorajamento à conversão. Os governadores se queixavam ao califa quando ele promulgava leis que tornavam a conversão mais simples, assim privando as províncias de cobrança impostos. Quando no século VII, muitos não árabes, como persas, convertiam-se ao Islamismo, eram reconhecidos como “clientes” e tratados como cidadãos de segunda classe pela elite árabe mandante, até o final do Califado Omíada. Durante essa era, o Islamismo foi inicialmente associado com a identidade étnica do árabe e exigia uma associação formal com uma tribo árabe e a adoção do status de cliente (mawali, muçulmano não árabe).
Contudo, nem todo o Irã estava ainda sob o controle árabe, com várias regiões ainda sob controles iranianos locais; tais regiões haviam sido invadidas pelos árabes sem resultados decisivos pela inacessibilidade dos seus terrenos.
Com a morte do califa omíada Hisham ibn Abd al-Malik, em 743, o mundo islâmico entrou em uma guerra civil. O general persa convertido Abu Muslim foi enviado ao Khorasan pelo califado Abássida, inicialmente, como um propagandista e então para fazer a revolta em seu nome. Ele tomou Merv derrotando seu governador omíada Nasr ibn Sayyar, tornando-se o governador abássida, de fato, do Khorasan. Durante o mesmo período, o governador persa do Tabaristão e partes do Khorasan oeste, Khurshid, da dinastia Dabuyid, declarou sua independência dos omíadas, mas logo foi forçado a reconhecer a autoridade abássida. Em 750, Abu Muslim tornou-se o líder do exército abássida e derrotou os omíadas na Batalha de Zab, atormentando Damasco, a capital do Califado Omíada, ao final do mesmo ano.

IV.1.2 – O CALIFADO ABÁSSIDA E OS GOVERNOS IRANIANOS SEMI-INDEPENDENTES

O exército abássida consistia, principalmente, de khorasanianos e era conduzido pelo general Abu Muslim Khorasani, congregando elementos árabes e iranianos, com apoio também de ambos. Os abássidas depuseram os omíadas em 750, com a revolução abássida definitivamente marcando o fim do império árabe e o início de um Estado mais inclusivo e multiétnico no Oriente Médio.
Uma das primeiras alterações por eles realizadas após a tomada do poder, foi a mudança da capital do império de Damasco, no Levante, para o Iraque, região influenciada pela história e cultura persa, parte da demanda persa mawali, por influência árabe no império. A cidade de Bagdá foi construída no rio Tigre, no ano 762, para servir de nova capital do Império Abássida.
Os abássidas criaram a posição de vizir (vice califa ou segundo em comando, mas também espécie de consultor político de alto nível ou ministro), como os Bartmakids (influente família iraniana) em sua administração. Essa mudança fez com que muitos califas dos abássidas terminassem com um papel muito mais cerimonial do que antes, deixando aos vizires o poder real. Uma nova burocracia persa começou a substituir a antiga aristocracia árabe, com toda a administração refletindo tais mudanças e demonstrando que a nova dinastia era diferente dos omíadas de várias formas.
Pelo século IX, o controle abássida começou a declinar porque os líderes regionais se abalaram aos cantos mais remotos do império desafiando a autoridade central do Califado Abássida, que começou a recrutar os mamelucos, que se haviam movido da Ásia Central para a Transoxiana, como escravos guerreiros, no início do século IX. Com isso, logo em seguida o poder dos califas abássidas caiu a tal ponto que eles se tornaram apenas títeres religiosos enquanto os mamelucos realmente governavam.
Com a diminuição do poder abássida, uma série de dinastias surgiu em várias partes do Irã, algumas com considerável influência e poder. Entre as mais importantes dessas dinastias sobrepostas, estava a dos Tairidas, no Khorasan (821-873), a dos Safáridas, no Sistão[3] (861-1003, seu governo durou como maliks, do Sistão, até 1537), e os Samânidas (819-1005), originalmente em Bukhara[4]. Os Samânidas acabaram por governar uma área que ia do Irã Central ao Paquistão.
Pelo início do século X, os abássidas quase perderam o controle para a crescente facção persa conhecida como Dinastia Buyida (934-1062). Dado que muito da administração abássida tinha mesmo sido persa, os buyidas puderam, muito calmamente, tomar o poder real em Bagdá. Entretanto, os buyidas foram derrotados no meio do século XI pelos Turcos Seljúcidas[5], que continuaram a exercer influência sobre os abássidas, enquanto publicamente hipotecavam fidelidade a eles. O equilíbrio de poder em Bagdá permaneceu assim – com os abássidas no poder, apenas no nome – até que a invasão mongol de 1258 saqueou a cidade e definitivamente encerrou a dinastia abássida.
Durante o período abássida uma alforria foi experimentada pelos mawali e uma mudança foi feita na concepção política, de um império primariamente árabe (etnia), para um império muçulmano (religião); cerca de 930, uma exigência foi decretada para que todos os burocratas do império fossem muçulmanos.


[1] Os arameus (ou arameanos) eram um povo semita que viveu em Aram (região da atual Síria) e também na Mesopotâmia. A palavra vem do Aram bíblico, filho de Sem e neto de Noé, considerado pai da antiga civilização dos Arameanos, que falavam o Aramaico.
[2] Abū Muhammad al-Ḥajjāj ibn Yūsuf ibn al-Ḥakam ibn ʿAqīl al-Thaqafī‎‎ (661–714), abreviadamente conhecido por al-Hajjaj ibn Yusuf, foi talvez o mais notável governador que serviu ao Califado Omíada. Estadista extremamente capaz, embora cruel, rígido no caráter, mas também um governante duro e exigente, foi muito temido por seus contemporâneos e tornou-se uma figura profundamente controversa bem como objeto de profunda inimizade por parte de escritores posteriores pró-abássida, que lhe atribuíram perseguições e execuções em massa.
[3] O Sistão é uma região histórica e geográfica que, nos dias atuais, incluiria o Irã Oriental, o sul do Afeganistão (Nimruz e Kandahar) e o Paquistão Ocidental.
[4] Hoje uma cidade museu do Uzbequistão.
[5] Os turcos seljúcidas ou Dinastia Seljúcida, conforme já falamos em nossa postagem sobre os Árabes Muçulmanos, foi uma dinastia muçulmana sunita (o maior ramo do Islamismo) de turcos Oghuz (da Ásia Central, de língua oghuz) que, gradualmente, tornou-se uma sociedade persa na Ásia Central e Ocidental medieval. Os seljúcidas estabeleceram o Império Seljúcida e o Sultanato de Rum que, em seu ápice, estendeu-se da Anatólia por todo o Irã.

A postagem prossegue com a PARTE 7

domingo, 3 de dezembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 5

Embora em paz com a Pártia, Roma ainda interferia em seus assuntos. O imperador romano Tibério Graco (14 a 37 DC) envolveu-se numa trama de Farasmanes I da Ibéria (no Cáucaso, nada a ver com a Península Ibérica), para colocar seu irmão Mitrídates (de Farasmanes I e que não tem nada a ver com os Mitrídates anteriores) no trono da Armênia, pelo assassinato de rei Arsaces, da Armênia, aliado Parta dos romanos. Artabano III tentou e não conseguiu restabelecer o controle Parta da Armênia, provocando uma revolta aristocrática que o forçou a fugir para a Cítia. Os romanos liberaram um príncipe refém, Tirídates III da Pártia, para governar a região como um aliado de Roma. Pouco antes de sua morte, Artabano III conseguiu expulsar Tirídates do trono, usando tropas da Hircânia. Após a morte de Artabano III, em 38 DC, uma longa guerra civil eclodiu entre os sucessores legais Vardanes I e seu irmão Gotarzes II da Pártia. Vardanes I foi assassinado durante uma expedição de caça e a nobreza parta apelou ao imperador romano Cláudio (41 a 54 DC), em 49 DC, para libertar o príncipe refém Meherdates para desafiar Gotarzes. O tiro saiu pela culatra quando Meherdates foi traído pelo governador de Edessa (cidade da Mesopotâmia Superior fundada por Seleucos I Nicator cerca de 302 AC) e por Izates bar Monobaz, de Adiabene (pertencente ao Império Armênio), capturado e enviado a Gotarzes, que lhe permitiu viver após cortar suas orelhas, ato que o desqualificou para sempre de herdar o trono.
Logo que Radamisto (51 a 55 DC), filho de Farasmanes I, rei da Ibéria, invadiu a Armênia para depor o rei cliente de Roma, Mitrídates, Vologeses I da Pártia (51 a 77 DC) planejou invadir e colocar seu irmão, o posterior Tirídates I da Armênia, no trono. Com a queda de Radamisto e começando com o reino de Tirídates I, a Pártia manteria firme controle da Armênia – com breves interrupções – com a dinastia Arsácida da Armênia. Mesmo após a queda do Império Parta, a linha Arsácida sobreviveu através dos reis da Armênia, através dos reis da Geórgia, com a dinastia Arsácida da Ibéria e, por muitos séculos após, na Albânia Caucasiana, com a Dinastia da Albânia Caucasiana.
Quando Vardanes II da Pártia rebelou-se contra seu pai Vologeses I, em 55 DC, este retirou suas forças da Armênia, e Roma rapidamente tentou preencher o vazio político deixado. Na guerra Roma – Pártia de 58 a 63 DC, o comandante Cneu Domício Córbulo, cunhado de Calígula, obteve alguns sucessos militares contra os Partas, enquanto instalando Tigranes VI da Armênia como cliente romano. Contudo, seu sucessor Lucius Caesennius Paetus foi francamente batido pelas forças partas e abandonou a Armênia. Seguindo um tratado de paz, Tirídates I viajou para Nápoles e Roma em 63 DC, sendo cerimoniosamente coroado, em ambos os locais, Rei da Armênia, pelo imperador Nero.
Um longo período de paz seguiu-se entre Roma e a Pártia, somente registrando-se a invasão dos Alanos (povo de origem iraniana do nordeste do Cáucaso) nas regiões orientais da Pártia cerca de 72 DC, registrada por historiadores romanos. Enquanto Augusto e Nero tinham escolhido uma prudente política militar de confronto com a Pártia, os imperadores que se seguiram invadiram e tentaram conquistar o Fértil Crescente oriental, coração do Império Parta ao longo do Tigre e Eufrates, agressão em parte explicada pelas reformas militares de Roma. Contudo, os romanos não possuíam grande estratégia em seu tratamento com a Pártia e conquistaram poucos territórios com essas invasões.
Em 97 DC, o general chinês Ban Chao, “Protetor Geral das Regiões Ocidentais”[1], enviou seu emissário Gan Ying em uma missão diplomática ao Império Romano. Antes de partir em direção a Roma, Gan visitou a corte de Pacorus II (78 a 105 DC), em Hecatompilo, e viajou para o oeste até o Golfo Pérsico, onde autoridades partas o convenceram de que a única forma de chegar a Roma seria por uma árdua viagem marítima contornando a Península Arábica. Desencorajado por isso, Gan Ying voltou à corte Han onde fez ao Imperador He de Han, um detalhado relatório sobre o Império Romano baseado em relatos de seus anfitriões, que não queriam o estabelecimento de relações diplomáticas entre Roma e a China.
Já há algum tempo os partas quebravam sua união política, dividindo-se em clãs que administravam as províncias do Império, criando um governo central cada vez mais fraco. Os romanos bem souberam se aproveitar disso, logrando vitórias cada vez mais expressivas. As hostilidades entre Roma e Pártia se renovaram quando Osroes I da Pártia (reinou de 109 a128 DC) depôs o rei armênio Tirídates substituindo-o por Axidares, filho de Pacorus II, sem consultar Roma. O imperador romano Trajano (reinando entre 98 e 117 DC) matou o novo parta indicado para o trono da Armênia, em 114 DC, transformando a Armênia numa província romana. Suas forças também capturaram Nisibis, essencial para garantia das rotas principais pela planície norte da Mesopotâmia. No ano seguinte Trajano invadiu a Mesopotâmia, encontrando pouca resistência uma vez que Osroes I enfrentava uma guerra civil contra Vologases III da Pártia. Após depor Osroes I, em 116 DC, Trajano desceu o Eufrates capturando várias cidades (entre elas a importante cidade persa de Susa) até chegar ao Golfo Pérsico. Quando Sanatruces II da Pártia (filho de Mitrídates IV e sobrinho do deposto Osroes I) reuniu forças na Pártia oriental para desafiar os romanos, seu primo Parthamaspates (filho de Osroes I) da Pártia o traiu matando-o: foi coroado por Trajano como novo rei da Pártia. Nunca mais o Império Romano avançaria tão longe para o leste.
Adriano, sucessor de Trajano (subitamente morto em 117 DC), reafirmou as fronteiras Roma – Pártia no rio Eufrates, decidindo pela não invasão da Mesopotâmia dados seus então limitados recursos militares. Com a retirada dos romanos, o deposto Osroes I expulsou Parthamaspates reivindicando o trono parta. Mitrídates IV acabou por suceder a Osroes I em 129, reinando até 140 quando morreu num ataque romano. O rival de seu pai, de longa data, Vologases III, ocupou seu lugar no trono, mas outro filho de Mitrídates IV, Vologases IV (reinando de 147 a 191), chegou ao trono com a morte de Vologases III, reinando num período de paz e estabilidade. Contudo, a guerra Roma – Pártia de 161 começou quando Vologases IV invadiu a Armênia e a Síria, retomando Edessa. O então Imperador Marco Aurélio (reinando entre 161 e 180) enviou Lucius Verus para a Síria, enquanto Marcus Statius Priscus invadia a Armênia em 163 e Avidius Cassius invadia a Mesopotâmia em 164. Os romanos capturaram e incendiaram totalmente Selêucia e Ctesifonte, mas tiveram que se retirar porque seus soldados contraíram uma doença mortal (possivelmente varíola) que logo devastou o mundo romano. Embora a retirada, a cidade de Dura-Europos permaneceu em mãos romanas daí para diante.
Quando o imperador romano Sétimo Severo invadiu a Mesopotâmia em 197 DC, durante o reinado de Vologases V da Pártia (191-208), mais uma vez os romanos desceram o Eufrates, capturando Selêucia e Ctesifonte de onde só saíram em 198 DC. Cerca de 212 DC, logo após Vologases VI da Pártia tomar o trono, seu irmão Artabano V da Pártia rebelou-se, ganhado o controle da maior parte do Império. Enquanto isso, o imperador romano Caracala depunha os reis de Osroene (reino histórico da Mesopotâmia superior cuja capital era Edessa) e Armênia, que se tornavam novamente províncias romanas. Ele marchou para a Mesopotâmia sob o pretexto de desposar uma das filhas de Artabano V, mas como o casamento não foi permitido, fez guerra contra a Pártia e conquistou Arbil, a leste do rio Tigre. No ano seguinte, Caracala foi assassinado por seus soldados, e os partas fizeram um acordo com Macrino (imperador romano de abril de 217 a junho de 218) pelo qual Roma pagou à Pártia mais de 200 milhões de denarii (singular denarius, pequena moeda de prata do sistema monetário romano) com presentes adicionais.
Mas o Império Parta, que sobrevivera por cinco séculos, mais tempo que a maioria dos impérios orientais, enfraquecido por disputas internas e as guerras com Roma, seria rapidamente seguido pelo Império Sassânida. Seu fim chegou em 224 DC quando sua organização havia relaxado e o último rei foi derrotado por um dos povos vassalos do Império, os persas sob os sassânidas. Contudo, há evidências de que Vologases VI continuou a cunhar moedas em Selêucia, até 228 DC. Na verdade, a dinastia Arsácida continuou a existir por séculos pela Armênia, Ibéria e a Albânia Caucasiana (não confundir com o moderno país Albânia), ramos epônimos da dinastia.

III.4 – IMPÉRIO SASSÂNIDA (224-651 DC)

Moeda de Ardashir I, fundador
do Império Sassânida
O Império Sassânida, foi o último período do Império Persa (Irã) antes da ascensão do Islamismo e tirou seu nome da Casa de Sasan, que governou de 224 a 651 DC. Sucedendo ao Império Parta, foi reconhecido como uma das principais potências mundiais, junto com seu arquirrival vizinho, o Império Romano Bizantino, por um período de mais de 400 anos. Fundado por Ardashir I, após a queda do Império Parta e a derrota do último rei Arsácida, Artabano V, englobou em sua máxima extensão os atuais Irã, Iraque, Arábia Oriental (Bahrain, Kuwait, Oman, Qatif, Qatar, Emirados Árabes Unidos), o Levante (Síria, Palestina, Líbano, Israel, Jordânia), Armênia, o Cáucaso (Geórgia, Azerbaijão, Daguestão, Ossétia do Sul[2], Abecásia[3]), Egito, grandes partes da Turquia, a maioria da Ásia Centra (Afeganistão, Turquemenistão, Uzbequistão, Tajiquistão), Iêmen e Paquistão. De muitas formas, o período Sassânida testemunhou o pico da antiga civilização iraniana, que influenciou a cultura romana, chegando a alcançar a Europa Ocidental, África, China e Índia. Muito do que ficou mais tarde conhecido como cultura islâmica em arte, arquitetura, música e outras matérias, foi transferida dos sassânidas através do mundo islâmico. 

Império Sassânida em sua maior extensão,
cerca de 620 DC, sob o rei Khosrau II
Ardashir I, o governador iraniano local de Persis (a moderna província de Fars, Irã) começou a subjugar os territórios vizinhos, desafiando o domínio Arsácida. Ele confrontou Artabano V na Batalha de Ormozdgan em 28 de abril de 224 DC, talvez num local próximo de Isfahan (na província de Isfahan do Irã moderno, 340 km ao sul de Teerã), derrotando-o e estabelecendo o Império Sassânida. Os Sassânidas não somente assumiriam o legado da Pártia como castigo persa de Roma, mas também tentariam restaurar as fronteiras do Império Aquemênida, brevemente conquistando o Levante, Anatólia e o Egito, do Império Romano do Oriente, durante o reino de Khosrau II (590 a 628 DC); contudo, eles perderiam esses territórios para Heráclio, o último imperador romano antes das conquistas árabes. 
Castelo de Firuzabad, construído por Ardashir I
Assim que designado Xá (shah é o título dado aos governantes máximos do Irã, em sua língua, e que equivale a Rei ou Imperador; entretanto, muitos desses governantes incorporaram ao seu nome o título; em português o título é mais conhecido como Xá) do Império Sassânida, Ardashir I mudou sua capital para o sul de Pars (Fars), fundando a cidade de Ardashir-Khwarrah (atual Firuzabad), protegida por altas montanhas e facilmente defendida por passos estreitos, onde construiu o castelo que seria o centro de seus esforços para ganhar mais poder. Após estabelecer domínio sobre Pars, Ardashir rapidamente estendeu seu território exigindo fidelidade dos príncipes locais e ganhando controle sobre todas as províncias vizinhas, até diretamente combater Artabano V, morto na Batalha de Hormozgan. Nos anos seguintes, rebeliões locais se formariam em torno do Império; contudo, Ardashir I expandiu seu novo império para o leste e para o noroeste, conquistando várias províncias e pequenos reinos para as possessões dos Sassânidas. A partir daí Ardashir I prosseguiu invadindo as províncias de oeste do anterior Império Parta, realizando assaltos contra Hatra, Armênia e Adiabene, embora com menor sucesso. Em 230 ele fez ataques profundos em território romano, o que provocou um contra-ataque romano dois anos mais tarde, encerrado sem conclusão, embora o imperador Alexander Severus tenha celebrado um triunfo em Roma.
Shapur I, filho de Ardashir I, continuou a expansão do Império, conquistando a Báctria e a parte oeste do Império Kushan, enquanto liderava várias campanhas contra Roma. Invadindo a Mesopotâmia romana, Shapur capturou Carrhae e Nisibis, mas em 243 os persas foram derrotados em Resena (na moderna Síria) e os territórios foram recuperados pelos romanos. Logo Shapur I reiniciou a guerra, derrotando os romanos em 253 quando tomou e saqueou a Antióquia. O contra-ataque romano, com o imperador Valeriano, terminou em desastre quando o exército romano foi derrotado e sitiado em Edessa e Valeriano capturado por Shapur I que o manteve como prisioneiro até a sua morte. Shapur I explorou tal vitória avançando até a Anatólia (260 DC), quando se retirou em desordem após derrotas ante os romanos e a perda de todos os territórios que antes havia capturado deles.
Foi durante o reinado de Shapur I – e protegido por ele - que surgiu na Pérsia o Maniqueísmo, movimento religioso fundado pelo filósofo iraniano cristão Manes ou Maniqueu. O termo foi de tal forma popularizado, que maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda a doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal. Os reis que se seguiram reverteram a política de Shapur I, de tolerância religiosa. Sob pressão dos zoroastrianos e influenciado pelo alto sacerdote Kartir, seu filho mais velho (e sucessor de seu filho mais novo, Hormizd I), Baram I, matou Manes e perseguiu seus seguidores. Como seu pai, Baram II também acedeu aos desejos dos sacerdotes de Zoroastro. Durante seu reinado a capital sassânida, Ctesifonte, foi saqueada pelos romanos, sob o imperador Carus; a maioria da Armênia, após um século de domínio persa, foi cedida a Diocleciano.
Sucedendo a Baram III (que reinou brevemente em 293), Narseh envolveu-se em outra guerra contra os romanos e após um sucesso inicial contra o imperador Galerius em 296, foi decisivamente derrotado em 298. Galerius avançou na Média e Adiabene com vitórias sucessivas, garantindo Nisibis. Deslocou-se ao longo do Tigre tomando Ctesifonte. As negociações de paz começaram na primavera de 299, com Diocleciano e Galerius presidindo. Pelas pesadas condições de paz, a Pérsia desistiria de territórios em favor de Roma, trazendo novamente o Tigre como fronteira entre os dois impérios; a Armênia voltaria ao domínio romano; a Ibéria Caucasiana pagaria submissão a Roma através de um nomeado por ela; Nisibis, agora sob domínio romano, seria a única via para comércio entre a Pérsia e Roma, com esta exercendo controle sobre as cinco satrapias entre o Tigre e Armênia, e os sassânidas concordando em não interferir nos assuntos da Armênia e Geórgia. Ao final desta derrota, Narseh entregou o trono e morreu um ano depois, passando o reino sassânida ao seu filho Hormizd II. A agitação se espalhou por toda a terra e enquanto Hormizd II suprimia revoltas em Sistan e Kushan, não podia controlar os nobres e acabou assassinado por beduínos numa viagem de caçada, em 309.
Logo após a morte de Hormizd II, os árabes do norte começaram a saquear as cidades do oeste do império, atacando até mesmo a província de Fars, lar dos reis sassânidas. Os nobres persas mataram um, cegaram outro e aprisionaram o terceiro (que acabou fugindo para território romano) dos filhos de Hormizd II, reservando o trono para Shapur II, filho ainda não nascido de uma das esposas de Hormizd II, que foi coroado em seu útero. Assim que teve idade, Shapur II assumiu o poder, rapidamente mostrando ser um ativo e efetivo governante. Conduziu seu pequeno, mas disciplinado exército e venceu os árabes do sul. Iniciou então sua primeira campanha contra os romanos no oeste, onde conseguiu uma série de vitórias sem ganhos territoriais por não conseguir a cidade chave de Nisibis. Tais campanhas cessaram por ataques nômades ao longo da fronteira leste do Império, que ameaçavam a Transoxiana[4], uma área estratégica para a Estrada da Seda. Em sua marcha para o leste destruiu as tribos da Ásia Central, anexando-as como nova província, hoje conhecida como Afeganistão. 
Cabeça de Shapur II, décimo rei
do Império Sassânida 
Essa vitória foi seguida de uma expansão cultural e a arte sassânida penetrou o Turquestão, chegando até a China. Junto com o rei nômade Grumbates, Shapur II iniciou sua segunda campanha contra os romanos em 359, retomando cidades que haviam sido recuperadas pelos romanos. Em resposta, o imperador romano Juliano penetrou profundamente no território persa e derrotou as forças de Shapur II em Ctesifonte sem, contudo, tomar a capital, sendo morto quando tentava retornar a território romano. Seu sucessor, Joviano, emboscado na margem oriental do Tigre, teve que devolver todas as províncias que os persas haviam cedido aos romanos em 298, bem como Nisibis e Singara (posto fortemente guarnecido na extremidade norte da Mesopotâmia), para ter garantida passagem segura ao seu exército, para fora da Pérsia. Shapur II perseguiu uma severa política religiosa: sob seu reinado, a coleção da Avesta, textos sagrados do Zoroastrismo, foi completada, a heresia e a apostasia foram punidas e os cristãos foram perseguidos, como reação à cristianização do Império Romano fomentada por Constantino, o Grande. Ao tempo de sua morte, o Império Persa estava mais forte do que nunca, com seus inimigos do leste pacificados e a Armênia sob controle persa.
Da morte de Shapur II até a primeira coroação de Kavad I, houve um período de muita paz com os romanos – por essa época já Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, sediado em Constantinopla -, apenas interrompida por duas breves guerras: a primeira em 421-422 e a segunda em 440. Por todo esse período a política religiosa sassânida diferiu dramaticamente de rei para rei. A despeito de uma série de fracos líderes, o sistema administrativo estabelecido por Shapur II permaneceu forte e o império continuou a funcionar efetivamente. Durante o tempo de Baram IV (388-399), a Armênia foi dividida por tratado entre os Impérios Romano (uma pequena parte do oeste da Armênia) e Sassânida (com domínio sobre a maior parte da Armênia). Yazdegerd I (399 a 421), seu filho, proibiu a perseguição contra os cristãos, punindo nobres e sacerdotes que os perseguiam. Teve uma era de paz com os romanos, com o jovem Teodosio II (408 a 450) sob sua tutela, casou com uma princesa judia e com ela teve um filho.
Seu sucessor foi seu filho Baram V (421 a 438), um dos mais conhecidos reis sassânidas e herói de muitos mitos. Em 427 ele esmagou uma invasão no leste por parte dos nômades Heftalitas, estendendo sua influência na Ásia Central onde sua figura sobreviveu por séculos na cunhagem de Bukhara (no moderno Uzbequistão). Depôs o rei vassalo da porção persa da Armênia, tornando-a uma província. Teve muitas vitórias sobre os romanos e simbolizou um rei a altura de uma idade de ouro, personificando a prosperidade real. Durante o seu tempo, as melhores peças da literatura sassânida foram escritas, peças notáveis de música sassânida foram produzidas e esportes como o polo tornaram-se passatempo real, uma tradição que permanece até hoje em muitos reinos.
Seu filho Yazdegerd II (438 a 457) foi, de muitas formas, um governante moderado, mas em contraste com Yazdegerd I, praticou uma política severa para com as religiões minoritárias, particularmente a cristã. Contudo, na Batalha de Avarayr (451), os súditos armênios, conduzidos por Vardan Mamikonian, garantiram à Armênia a livre profissão da fé cristã, mais tarde confirmado pelo tratado de Nvarsak (484). Em 443 lançou uma prolongada campanha contra os Kidaritas, que durou até a sua morte em 457.
Hormizd III (457-459), seu filho mais novo, ascendeu ao trono e entrou em luta com seu irmão mais velho, Peroz I, sendo morto por ele em 459. Os Hunos Brancos, que já haviam atacado a Pérsia no início do século V, derrotaram Peroz I (457-484) em 484, quando ele foi morto e seu exército liquidado. Após essa vitória os hunos avançaram até a cidade de Herat, lançando o império no caos. Finalmente um nobre iraniano, Sukhra, da antiga família de Karen, restaurou um pouco da ordem, elevando ao trono Balash, um dos irmãos de Peroz I. Balash (484-488) foi um monarca brando e generoso que fez concessões aos cristãos, mas não tomou qualquer providência contra os inimigos do Império, particularmente os hunos brancos. Após um reinado de quatro anos, foi cego e deposto pelos magnatas, sendo substituído por seu sobrinho Kavad I.


[1] O “Protetor Geral das Regiões Ocidentais” foi uma administração imperial imposta pela China Han sobre muitos estados menores e anteriormente independentes, que ficaram conhecidos na China como chineses das “Regiões Ocidentais”. Tais regiões referiam-se, principalmente, a áreas a oeste do Passo Yumen, especialmente as da bacia do rio Tarim.
[2] A Ossétia é uma região etno-linguística localizada nas duas vertentes do Grande Cáucaso e que é habitada principalmente pelos ossetas, um povo iraniano que fala a língua osseta (um idioma indo-iraniano). A área de língua osseta ao sul da principal cordilheira do Cáucaso encontra-se dentro das fronteiras legais da Geórgia, mas está, em grande parte, sob controle da República da Ossétia do Sul, um governo, na prática, não reconhecido internacionalmente.
[3] A Abecásia é uma região do Cáucaso, margem oriental do Mar Negro, e uma república autônoma ao norte da Geórgia, que se declara independente, desde o fim da guerra civil de 1992-1993, que arruinou a economia local e matou milhares de civis.
[4] Transoxiana ou Transoxania é o nome antigo usado para a porção da Ásia Central que corresponde, aproximadamente, aos modernos Uzbequistão, Tajiquistão, sul do Kirjistão e sudoeste do Cazaquistão. A região era uma das satrapias da dinastia Aquemênida da Pérsia, sob o nome Sogdiana.

Prossegue na próxima postagem com a PARTE 6

quarta-feira, 12 de abril de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 3)

III.5 – CONQUISTA DO MAGREBE (670-710)
Uqba ibn Nafi,
conquistador do norte da África

O domínio bizantino no noroeste da África, ao tempo, era principalmente confinado às planícies costeiras, enquanto as comunidades berberes controlavam o resto. Em 670 os árabes fundaram o povoamento de Qayrawan, a oeste da atual Tunísia, que deu lhes uma base avançada para sua expansão posterior. Os historiadores muçulmanos creditam ao general Uqba ibn Nafi a subsequente conquista de terras que se estenderam até a costa do Atlântico, embora pareça ter sido uma incursão temporária. O chefe berbere Kusayla e uma enigmática líder de nome Kahina (profetisa ou sacerdotisa) parecem ter montado uma resistência efetiva, embora de curta vida, ao domínio muçulmano, ao final do século VII, mas as fontes não dão um quadro claro de tais eventos. As forças árabes capturaram Cartago (Tunísia), em 698, e Tânger (Marrocos), cerca de 708. Após a queda de Tânger, muitos berberes se juntaram ao exército muçulmano. Em 740, o domínio Omíada na região foi sacudido por uma importante revolta berbere que também envolveu os muçulmanos kharijite (grupo surgido durante a crise de liderança com a morte de Maomé) berberes. Após uma série de derrotas, o califado pôde finalmente abafar a rebelião em 742, embora as dinastias berberes locais permanecessem fora do controle imperial daí em diante.
A perda do Egito e da Síria, seguida da invasão do Exarcado da África[1], também significou que o Mediterrâneo, há muito referido como o “Lago Romano”, era agora contestado entre duas potências: o Califado Muçulmano e o Império Bizantino. Nestes eventos, o Império Bizantino, embora amargamente testado, poderia manter-se na Anatólia, enquanto as poderosas muralhas de Constantinopla a salvassem durante dois grandes cercos árabes, do mesmo destino do Império Persa.
De acordo com Will Durant, em sua “História da Civilização”, a conquista da região começou para proteger o Egito de um ataque pelo flanco, da Cirene[2] bizantina. Um exército de 40.000 muçulmanos avançou através do deserto, conquistando Barca e marchando até as vizinhanças de Cartago, derrotando na passagem um exército de 20.000 bizantinos. Seguiu-se uma força de 10.000 árabes, conduzida pelo general Uqba ibn Nafi e engrossada por milhares de outros. Partindo de Damasco o exército marchou ao norte da África tomando a vanguarda. Em 670 a cidade de Kairouan (160 km ao sul da atual Túnis, já na Tunísia) foi estabelecida como refúgio e base de operações posteriores, tornando-se a capital da província islâmica de Ifriqiya, que cobriria as regiões costeiras das modernas Líbia ocidental, Tunísia e Argélia oriental. Depois disso, o general penetrou no coração do país, atravessando o deserto em que seus sucessores erigiram a esplêndida capital do Marrocos, Fes; com o tempo, acabou por atingir a borda do Atlântico e do deserto do Saara. Em sua conquista do Magrebe, ele sitiou a cidade costeira de Bugia, na Argélia, e Tânger, no Marrocos, subjugando o que havia uma vez sido a tradicional província romana de Mauritânia Tingitana[3].
Mas aqui eles pararam e foram repelidos parcialmente. Por uma rebelião universal contra a ocupação muçulmana dos territórios bizantinos e africanos, Uqba foi chamado das praias do Atlântico; em seu retorno, uma coalizão Berbere-Romana emboscou e destruiu suas forças próximo de Biskra, matando Uqba e liquidando suas tropas. O terceiro general ou governador da África, Zuheir, vingou o destino de seu antecessor, subjugando a população nativa em várias batalhas; mas acabou sendo também derrotado por um poderoso exército enviado por Constantinopla para a libertação de Cartago.
Entrementes, uma nova guerra civil entre rivais pela monarquia, explodiu na Arábia e Síria, resultando numa série de quatro califas entre a morte de Muawiya, em 680, e a ascensão de Abd al-Malik ibn Marwan (Abdalmalek), em 685; a luta terminou em 692 com a morte do líder rebelde e o retorno à ordem doméstica que permitiu ao califa reiniciar a conquista do norte da África, com nova invasão da Ifriqiya. A tarefa coube a Hassan, governador do Egito, que tinha como principal tarefa a conquista da linha da costa, ainda nas mãos dos bizantinos. Hassan subjugou e pilhou Cartago, a metrópole da África. O Império Bizantino respondeu com tropas de Constantinopla, unidas a soldados e navios da Sicília e um poderoso contingente de Visigodos da Espanha, obrigando o exército árabe invasor a retroceder para Kairouan. Na primavera seguinte, contudo, os árabes lançaram um novo assalto por mar e terra, forçando os bizantinos e seus aliados a evacuarem Cartago. Os árabes assassinaram todos os civis, destruíram totalmente a cidade, incendiando-a a seguir, deixando a área desolada pelos próximos dois séculos. Após a partida da força principal e seus aliados, os árabes venceram outra batalha próximo de Utica (a noroeste de Cartago), obrigando os bizantinos a abandonarem o norte da África para sempre. A tais fatos seguiu-se uma rebelião berbere contra os novos governantes árabes, que Hassan não teve capacidade de sufocar; as conquistas de uma era foram perdidas num dia e o chefe árabe, sufocado pela revolta, retirou-se para os confins do Egito.
Cinco anos se passaram antes que Hassan recebesse novas tropas do Califa e retornasse ao norte da África sacrificada pelo reino berbere. Em 698 os árabes haviam tomado a maior parte da região aos bizantinos, dividindo-a em três província: Egito, com seu governador em al-Fustat; Ifriqiya, com seu governador em Kairouan; e o Magrebe (atual Marrocos), com seu governador em Tânger. Musa bin Nusair, um general iemenita de sucesso na campanha foi feito governador da Ifriqiya, com a responsabilidade de debelar uma nova revolta berbere e converter a população ao Islam. Musa e seus dois filhos obtiveram êxito, assassinaram os civis e escravizaram 300.000 prisioneiros, dos quais 30.000 foram enquadrados no serviço militar. Musa ainda construiu uma frota para combater a marinha bizantina e com ela conquistou as ilhas cristãs de Ibiza, Majorca e Minorca, avançando no Magrebe e tomando Argel em 700. 
A Ilha de Ceuta, no Estreito de Gibraltar
Em torno de 709, todo o norte da África estava sob controle do califado árabe, com exceção de Ceuta, nos Pilares de Hércules[4] africanos. Nessa época, a população de Ceuta incluía muitos refugiados de uma danosa guerra civil visigótica que eclodira na Espanha antiga, incluindo a família e confederados do falecido rei Wittiza, cristãos arianos fugindo de conversões forçadas nas mãos da igreja católica visigótica e judeus. Entretanto, Musa contava com a simpatia de Julian, governante de Ceuta. Na primavera de 710, Tariq ibn Ziyad, um berbere, escravo livre e general muçulmano, tomou Tânger; Musa o fez governador da região apoiado por um exército de 6.700 homens.

III.6 – CONQUISTA DA TRANSOXIANA (673–751)
Mapa da Transoxiana e Khurasan no século VIII

A Transoxiana é a região a nordeste do Iran, além do rio Oxus ou Amu Darya, grosseiramente correspondendo aos atuais Uzbequistão, Tajiquistão e partes do Cazaquistão. As incursões iniciais através do rio Oxus, objetivaram Bukhara (673) e Samarkand (675) e seus resultados ficaram limitados a promessas de pagamento de tributo. Os avanços posteriores foram retardados por 25 anos por sublevações políticas no califado Omíada, seguidas por uma década de rápido progresso militar sob a liderança do novo governador de Khurasan, Qutayba ibn Muslim, que incluiu a conquista de Bukhara e Samarqand em 706-712 (ver figura anterior). A expansão perdeu o seu momento quando Qutayba foi morto durante um motim do exército e os árabes foram colocados na defensiva, por força de uma aliança entre os exércitos de Sogdia e Turgesh com apoio da China da dinastia Tang. Contudo, reforços da Síria viraram a maré e muitas das terras perdidas foram reconquistadas por 741. O poder muçulmano sobre a Transoxiana foi consolidado uma década mais tarde quando um exército conduzido por chineses foi derrotado na Batalha de Talas, em 751.

III.7 – CONQUISTA DO SINDH (711–714)
Sindh, área rosa claro no sudeste do Paquistão,
com sua capital Carachi

O Sindh é das quatro províncias do Paquistão, a terceira maior em área e a segunda maior em população, após Punjab, localizada na região sudeste do país. Desenvolve-se ao longo do rio Indus, que desemboca no Mar Arábico e tem como capital a maior cidade do Paquistão, Carachi.
Embora durante os anos 660 generais árabes tivessem feito incursões esporádicas na direção da Índia e uma pequena guarnição fosse estabelecida na árida região de Makran, nos anos 670, a primeira campanha em grande escala no vale do Indus ocorreu quando o general Muhammad bin Quasim invadiu Sindh em 711, em marcha costeira através do Makran[5]. Três anos mais tarde os árabes controlavam todo o baixo vale do Indus, com a maioria das cidades submetidas ao controle árabe mediante tratados de paz, mas outras tendo oferecido uma feroz resistência, principalmente pelas forças do Rajá Dahir, último governante hindu do Sidh, na importante cidade de Debal, bem próximo de Karachi. Incursões árabes em direção ao sul de Sindh foram repelidas pelos exércitos de Gurjara e Chalukya e a expansão islâmica posterior foi coibida pelo Império Rashtrakuta (dinastia real da Índia) que ganhou o controle da região logo em seguida.

III.8 – CONQUISTA DA ESPANHA E SEPTIMÂNIA (711–721)
Em azul e marrom (Septimânia), grosseiramente, a França;
em amarelo, a Espanha

A Septimânia era a região oeste da província romana da Galia Narbonensis (o sul da França), que passou ao controle dos visigodos em 462, quando cedida ao seu rei, Teodorico II.
A conquista da Península Ibérica foi notável por sua brevidade e falibilidade das fontes disponíveis. Após a morte do rei visigodo da Espanha, Wittiza, em 710, o reino passou por um período de divisão política. Em 711 Musa ordenou que os mouros, sob a liderança do general africano berbere, Tariq ibn-Ziyad, invadissem a Espanha cristã dos visigodos, o que foi realizado pelo desembarque, de Ceuta, em navios fornecidos por Julian, seu governador. Tariq lançou-se sobre a Península Ibérica, derrotou Roderico, sitiando a capital do Reino, Toledo. Com seus exércitos árabes e berberes, os muçulmanos avançaram capturando, uma após a outra, todas as cidades do reino gótico, algumas delas com a concordância do pagamento de tributo e com a aristocracia local mantendo algo de sua influência prévia. 
Tariq ibn Ziyad, general omíada de origem berbere,
conquistador da Península Ibérica
Pelo ano 713 a Ibéria estava quase totalmente sob o controle muçulmano e os eventos dos 10 anos seguintes, com detalhes obscuros, incluíram a captura de Barcelona, Narbonne e uma incursão sobre Toulose seguida de uma expedição a Burgundy, em 725. A última incursão de grande escala para o norte acabou com uma derrota dos muçulmanos na Batalha de Tours, nas mãos dos francos, comandados pelo franco Charles Martel, em 732.
Os mouros dominaram a península Ibérica – exceto por áreas ao noroeste (como as Astúrias, onde foram parados na batalha de Covadonga) - e a maior parte das regiões bascas, nos Pirineus, por séculos, e embora o número de mouros fosse pequeno, eles ganharam um grande número de convertidos.
A Revolução Abássida foi a derrubada do Califado Omíada (661-750 DC), o segundo dos quatro maiores califados do início da história islâmica, pelo Califado Abássida (750-1258 DC). Chegando ao poder três décadas após a morte de Maomé e imediatamente após o Califado Rashidun, os Omíadas constituíram um império feudal árabe que governou sobre uma população constituída esmagadoramente por não árabes e primariamente por não muçulmanos. Os não árabes eram tratados como cidadãos de segunda classe, fossem ou não convertidos ao islamismo, e tal situação, desprezando diversas fés e etnias, conduziu finalmente à derrocada dos Omíadas, com a família Abássida reivindicando descendência de al-Abbas, um tio de Maomé. A revolução definitivamente marcou o fim do Império Árabe e o início de um Estado mais inclusivo e multiétnico no Oriente Médio; lembrada como uma das mais bem organizadas revoluções durante seu período na história, ela reorientou o foco do mundo islâmico para o oriente. 
Na Batalha de Tours, a vitória do franco Charles Martel
À época da revolução Abássida, no meio do século VIII, os exércitos muçulmanos enfrentavam uma combinação de barreiras naturais e estados poderosos que impediram um progresso militar adicional. As guerras produziam retornos decrescentes em ganhos pessoais e os soldados abandonavam o exército por ocupações civis. As prioridades dos dirigentes também se alteraram da conquista de novas terras para a administração do império adquirido. Embora a era abássida testemunhasse alguns novos ganhos territoriais, como a conquista da Sicília e de Creta, o período de rápida expansão cedia espaço a uma era onde a expansão do islamismo seria lenta e realizada através dos esforços de dinastias locais, missionários e comerciantes. É por essa razão mesma, que encerramos aqui o detalhamento das conquistas árabes.

IV – RESULTADOS ATÉ 750

As vitórias militares a partir da Península Arábica anunciaram a expansão da cultura e religião dos árabes. As conquistas foram seguidas por uma migração em grande escala de famílias e tribos inteiras da Arábia para as terras do Oriente Médio. Os árabes conquistadores já possuíam uma sociedade complexa e sofisticada. Emigrantes do Iêmen levaram consigo tradições agrícolas, urbanas e monárquicas; membros das confederações tribais dos Ghassânida e Lakhmid possuíam experiência na colaboração com os impérios. A hierarquia e as unidades dos exércitos foram tiradas das tribos nômades e sedentárias, ao passo que a liderança veio, principalmente, da classe mercante Hejaz (região a oeste da atual Arábia Saudita, que abriga Meca e Medina).
Duas políticas fundamentais foram implementadas durante o reino do segundo califa Omar (634-644): os árabes não danificariam a produção agrícola das terras conquistadas e a liderança cooperaria com as elites locais. Para esse fim os exércitos árabes eram fixados em alojamentos segregados ou em novas cidades guarnições. Aos soldados eram pagos salários e eram proibidos de apoderar-se de terras. Governadores árabes supervisionavam a coleta e distribuição de impostos deixando as anteriores ordens religiosa e social intactas. Inicialmente muitas províncias retiveram um grande grau de autonomia por acordos com os comandantes árabes; com a passagem do tempo, os conquistadores buscaram ampliar seu controle sobre os negócios locais e fazer funcionar a máquina administrativa para o novo regime, o que envolveu muita reorganização. Na região mediterrânea, cidades-estados que tradicionalmente se autogovernavam foram substituídas por uma burocracia territorial que separava a administração urbana da rural. No Egito, estados e municipalidades finalmente independentes foram abolidos em favor de um sistema administrativo simplificado. No Irã, foram feitas a reorganização administrativa e a construção de muralhas de proteção à aglomeração de quadras e vilas em grandes cidades. Locais notáveis do Irã, que antes possuíam quase completa autonomia, foram incorporados na burocracia central no período Abássida.
A sociedade dos novos povoados árabes gradualmente se estratificou em classes, baseadas na riqueza e no poder. Também foi reorganizada em novas unidades comunais que preservaram nomes do clã e tribais, mas foram de fato apenas frouxamente baseados em velhos vínculos de parentesco. Os colonizadores árabes se dirigiram a ocupações civis e em regiões orientais se estabeleceram como uma aristocracia fundiária. Ao mesmo tempo, as distinções entre os conquistadores e populações locais começaram a desaparecer. No Irã os árabes assimilaram muito da cultura local adotando a língua, costumes e casando com mulheres persas. No Iraque, colonizadores não árabes juntaram-se a cidades-fortes. Soldados e administradores do antigo regime vieram para buscar suas fortunas com os novos mestres, ao passo que escravos, trabalhadores e camponeses fugiram para lá escapando das duras condições de vida no campo. Não árabes convertidos ao Islã foram absorvidos na sociedade árabe muçulmana através de uma adaptação da instituição árabe tribal de clientela, em que a proteção do poderoso era trocada pela lealdade dos subordinados. Os clientes e seus herdeiros eram vistos como membros virtuais dos clãs, que se tornavam cada vez mais, econômica e socialmente, estratificadas.
Contrariamente à crença de escritores mais antigos, não há evidência de conversões em massa ao Islamismo como consequência imediata das conquistas. Os primeiros grupos a se converterem foram tribos árabes cristãs, embora algumas delas tivessem mantido sua religião na era Abássida, mesmo quando servindo às tropas do califado. Foram seguidos pelas antigas elites do Império Sassânida, cuja conversão ratificou seus velhos privilégios. Com o tempo, o enfraquecimento das elites não muçulmanas facilitou o colapso dos velhos laços comunais e reforçou os incentivos de conversão que prometiam vantagens econômicas e mobilidade social. Pelo início do século VIII, as conversões tornaram-se uma questão política para o califado. Foram favorecidas por ativistas religiosos e muitos árabes aceitaram a igualdade de árabes e não árabes. Contudo, a conversão foi associada a vantagens econômicas e políticas e as elites muçulmanas relutavam por ver seus privilégios diluídos. A política pública, com relação aos convertidos, variava dependendo da região e se alterava com os sucessivos califas Omíada. Estas circunstâncias provocaram a oposição dos convertidos não árabes cujas classes incluíam muitos soldados ativos e ajudaram a montar o cenário para a guerra civil que acabou com a dinastia Omíada. 
O Califado Omíada em sua maior extensão
Em sua “História do Declínio e Queda do Império Romano”, Edward Gibbon escreve: “Sob o último dos Omíadas (750), o império árabe estendia-se por uma jornada de duzentos dias de leste para oeste, dos confins da Tartária e Índia às margens do Oceano Atlântico .... A língua e as leis do Corão foram estudadas com igual devoção em Samarcand (cidade do atual Uzbequistão e uma das mais antigas cidades habitadas da Ásia Central) e Sevilha: o mouro e o indiano juntos, como cidadãos e irmãos de peregrinação em Meca; e a língua árabe adotada como idioma popular em todas as províncias a oeste do Tigre.”
Em sua maior extensão, o Califado Omíada cobriu 11.100.000 km2 e 62 milhões de pessoas (29% da população mundial à época), tornando-o um dos maiores impérios da história, tanto em área quanto em população.
As conquistas muçulmanas alavancaram o colapso do Império Sassânida e uma grande perda territorial do Império Bizantino. As razões do sucesso muçulmano são difíceis de encontrar em retrospectiva, principalmente porque somente fontes fragmentárias do período sobreviveram. A maioria dos historiadores concorda que os impérios Sassânida Persa e Bizantino Romano foram militar e economicamente exauridos por décadas de luta entre si. Muitos judeus e cristãos do Império Sassânida e judeus e monofisistas (Cristo com uma só natureza divina após a encarnação) da Síria, encontravam-se descontentes e bem receberam as forças muçulmanas, principalmente pelo conflito religioso entre os dois impérios; em outras vezes, árabes cristãos se aliaram com os persas e bizantinos contra os invasores muçulmanos. Outros autores sugerem que a formação de um Estado na Península Arábica, além da ideológica (religiosa) coerência e mobilização, foram a razão primária para que os exércitos muçulmanos pudessem, no espaço de apenas cem anos, estabelecer o maior império pré-moderno até aquele tempo.

[1] O Exarcado da África ou de Cartago, por sua capital, era o nome da divisão administrativa do Império Bizantino envolvendo suas possessões no Mediterrâneo Ocidental, governada por um exarca (vice-rei). Foi criado pelo imperador Mauricius ao final dos anos 580’ e sobreviveu até a conquista muçulmana ao final do século VII.
[2] Cirene (ou Cirena) foi uma antiga cidade grega e romana, próxima da atual Shahhat, Líbia. Era a mais antiga e importante das cinco cidades gregas da região. Deu à Líbia oriental o nome clássico Cirenaica (já mencionado acima), que reteve até tempos modernos.
[3] Com a morte de Ptolomeu de Mauritânia, seu último rei, em 40 DC, o imperador romano Claudius dividiu o reino em duas províncias romanas: Mauritânia Tingitana e Mauritânia Caesariensis, separadas pelo rio Mulucha, localizado a 60 k, a oeste da moderna Oran, Argélia. A Mauritânia Tingitana (latim para “Mauritânia Tangerina”) coincidia, grosseiramente, com a parte norte do atual Marrocos e sua capital era a moderna Tânger.
[4] “Pilares de Hércules” foi a expressão aplicada na antiguidade aos promontórios que flanqueiam a entrada ao Estreito de Gibraltar. O pilar norte, Cabo Mons, é a Rocha de Gibraltar (parte do território ultramarino britânico de Gibraltar). O pico correspondente, no norte da África, Abila Mons, sem ser predominante, tem sua identidade (a do pilar sul) disputada ao longo da história, entre o Monte Hacho, em Ceuta, e Jebel Musa, no Marrocos. Ceuta é uma cidade espanhola autônoma de 18,5 km2, localizada na costa norte da África, repartindo a fronteira oeste com o Marrocos; separada da Península Ibérica pelo Estreito de Gibraltar, Ceuta se situa ao longo da divisa entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico.
[5] O Makran é uma faixa costeira semidesértica no Baloquistão (outra das províncias do Paquistão) e Irã, ao longo da costa do golfo Pérsico e golfo de Omã.

A postagem prossegue com a PARTE 4

domingo, 26 de março de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 2)

III.2 – CONQUISTA DO EGITO (639 – 642)
Impérios Bizantino, Sassânida e Árabe (Califado Rashidun),
Consolidada a conquista da Península Arábica.


Apenas como lembrança, ao início da conquista muçulmana do Egito, este era também parte do Império Romano do Oriente/Bizantino, que tinha a sua capital em Constantinopla. Apenas uma década antes, o Egito havia sido tomado pelo Império Persa, sob Khosrau II (616-629 DC); contudo, o imperador Heráclio recapturou o Egito após uma série de campanhas contra os persas sassânidas, antes de perde-lo novamente para o exército muçulmano Rashidun dez anos após. Como vimos, antes de perder o Egito para os muçulmanos, os bizantinos já haviam perdido também o Levante – com o seu aliado árabe, o reino Gassânida[1] – ficando assim perigosamente expostos e vulneráveis.
A província bizantina do Egito possuía grande importância estratégica por sua produção de grãos, parques navais e como base para futuras conquistas na África. O general Amr.ibn.al-‘As iniciou a conquista da província por sua própria iniciativa em 639. Ao final de dezembro ou início de janeiro de 640, os muçulmanos chegaram a Pelúsio, considerado o portão mais oriental do Egito; em fevereiro de 640 o forte e a cidade foram assaltados e capturados. As perdas do exército muçulmano foram substituídas pelos beduínos do Sinai que a ele se haviam juntado voluntariamente. Após a queda de Pelúsio os muçulmanos marcharam para Bilbeis, primeiro lugar do Egito em que os bizantinos ofereceram resistência, mas que acabou caindo após um mês, em março de 640; com a queda de Bilbeis, os árabes se encontravam apenas a um dia de viagem da cabeça do delta do Nilo.
Mapa da Invasão do Egito pelos muçulmanos
Após a queda de Bilbeis os árabes avançaram para Babilônia, próximo da moderna Cairo, cidade fortificada que os romanos haviam preparado para o cerco. Este começou em maio de 640 e a luta permaneceu indecisa por dois meses, quando Amr solicitou reforços ao califa Omar. Tais reforços não foram suficientes e novas adições significativas chegaram a Babilônia em setembro de 640. Entrementes, em julho do mesmo ano, os árabes se voltaram para Heliópolis, a 10 km desta cidade, e conseguiram ocupá-la rapidamente, retornando para Babilônia.
Ao longo do seu retorno cidades menores foram tomadas e após muitas escaramuças, Babilônia tombou em 21 de dezembro de 640, com o general bizantino Theodorus e seu exército fugindo para a ilha de Rauda
Em 22 de dezembro, o patriarca Cyrus, da Alexandria, fez um acordo com os muçulmanos, por onde reconhecia a soberania islâmica sobre todo o Egito, incluindo o Thebaid (região do antigo Egito que compreendia os treze distritos mais ao sul do Egito Superior) e concordava em pagar Jizya[2] aos conquistadores. Tal tratado deveria ser aprovado pelo imperador Heráclio e pelo califa Omar, que foram informados, respectivamente, por Cyrus e por Amr. Heráclio repudiou o tratado, removeu Cyrus do seu posto de vice-rei (embora tenha permanecido como líder dos cristãos no Egito) e deu ordens ao comandante das forças bizantinas para que expulsassem os muçulmanos do Egito. Omar, por seu lado, ordenou a Amr que atacasse e expulsasse da Alexandria os bizantinos, antes que pudessem reunir mais forças. Com a promessa de que os muçulmanos manteriam o tratado com os cristãos, estes passaram a ajudar os muçulmanos em seu esforço de guerra, abastecimento, construção de estradas e pontes e apoio moral. 
Omar, o segundo Califa
Em fevereiro de 641 Amr marchou para a Alexandria com seu exército, enfrentando pequenas forças bizantinas por todo o caminho, propositalmente deixadas. Tais escaramuças prosseguiram por 10 dias, sem decisão, até que os muçulmanos lançaram um vigoroso assalto, obrigando os bizantinos a retirar-se para Alexandria. Com isso o caminho para a cidade estava limpo e as forças muçulmanas alcançaram os arredores de Alexandria em março de 641, quando iniciou o sítio.
Heráclio havia reunido um grande exército em Constantinopla e pretendia marchar como líder, pessoalmente para Alexandria, mas morreu nessa ocasião. As tropas se dispersaram e nenhuma ajuda seguiu para Alexandria que, embora pesadamente fortificada e com provisões, não conseguiu resistir ao cerco por mais de seis meses, sendo capturada pelos muçulmanos em setembro de 641.
Com a queda de Alexandria, os muçulmanos tornaram-se senhores do Egito, de que ela era a capital. Os muçulmanos eram vivamente impressionados e atraídos por Alexandria, que chamavam “a rainha das cidades”; por isso, Amr escreveu a Omar pedindo licença para torna-la a capital islâmica do Egito. Tal proposta foi rejeitada por Omar que a considerava, como cidade marítima, perigosa quanto a novos ataques navais bizantinos, sugerindo que a capital fosse estabelecida num local central, sem massa de água importante entre Arábia e Egito. O local escolhido por Amr para ser a nova capital do Egito foi o mesmo onde ele havia acampado ao tempo da batalha da Babilônia, a leste da cidade, e foi denominado Fustat (tenda em árabe). A primeira estrutura da cidade construída foi a mesquita que mais tarde ficou famosa como a “Mesquita de Amr ibn al-As”. Com o tempo, Fustat estendeu-se, incluindo a Babilônia e cresceu para tornar-se uma cidade agitada e o centro comercial do Egito.
Para consolidar seu domínio no Egito, Omar impôs a jizya aos egípcios, que antes só fora paga por bizantinos e gregos. Com a autorização de Omar, o general Amr abriu o canal “Nahar Amir ul Mu’minee” (Canal do Comandante do Fiel) que ligou o Nilo ao mar Vermelho e que faria florescer o comércio com a Arábia e o Iraque através de novo e fácil caminho.
A perda permanente do Egito significou a perda de uma imensa quantidade de alimentos e riquezas dos bizantinos. No ano de 645 uma tentativa foi feita para recuperar Alexandria para o Império Bizantino, mas ela foi retomada por Amr em 646. No mesmo ano, Mu‘awiya, o governador árabe da Síria e futuro fundador da dinastia Omíada, ordenou a construção de uma frota naval que foi posta a navegar três anos após, num ataque de pilhagem a Chipre[3]. Em 650 um segundo ataque seguiu-se que foi encerrado com um tratado pelo qual os cipriotas entregaram boa parte de suas riquezas e escravos. Em 688 a ilha foi transformada numa dominação conjunta do califado e do império bizantino que durou por quase 300 anos.
Em 654 uma frota de invasão enviada ao Egito, por Constante II, foi repelida. A partir daí nenhum novo sério esforço foi feito pelos bizantinos para recuperação do Egito. Os árabes permaneceram no controle do Egito, desde essa época até o ano de 1250, quando caiu sob o domínio dos Mamelucos[4], dos quais ainda voltaremos a falar.

III.3 – CONQUISTA DO NORTE DA ÁFRICA (642-643)

Após uma tentativa mal sucedida na Núbia, ao sul do Egito, o general Amr decidiu realizar campanhas para o oeste, afim se garantir as fronteiras a oeste do Egito e limpar a região de Cirenaica, Tripolitânia (região administrativa do reino da Líbia, ao norte) e Fezã (região administrativa do reino da Líbia ao sul) da influência bizantina. Em setembro de 642, Amr conduziu suas tropas para oeste e após um mês de marcha atingiu as cidades de Pentápolis (outro nome da Cirenaica). De Barce (uma das cinco cidades de Pentápolis), Uqbah bin Nafi liderou uma coluna em campanha contra Fezã, diretamente contra sua capital, Zaweela; nenhuma resistência foi oferecida e todo o distrito de Fezã submeteu-se aos muçulmanos. Uqbah retornou a Barce e logo em seguido marchou para oeste, chegando em Trípoli (na costa norte da Tripolitânia) na primavera de 643 e iniciando o cerco da cidade que caiu em um mês. De Trípoli, Amr enviou um destacamento a Sabratha (cidade a cerca de 64 km a oeste de Trípoli), que ofereceu fraca resistência, rendendo-se e concordando com o pagamento da Jizya. De Trípoli, Amr reportou suas vitórias ao califa Omar, comunicando que o caminho para o oeste estava limpo.
Omar, cujos exércitos se encontravam empenhados em maciça campanha para conquista do Império Sassânida, não quis se comprometer mais ao longo do norte da África, enquanto o domínio do Egito não se encontrava totalmente seguro. Assim, ordenou que Amr primeiro consolidasse a posição muçulmana no Egito, enfatizando que não houvesse campanhas adicionais. Amr obedeceu, abandonando Trípoli e Barce e retornando a Fustat, ao final de 643.
No ano de 647, os árabes retornaram ao norte da África, para a conquista do que se chamava de Exarcado da África, ou de Cartago, sua capital, uma divisão administrativa do império Bizantino, que abarcava todas as suas possessões no Mediterrâneo ocidental, governada por um exarca (vice-rei). Essa divisão havia sido criada pelo Imperador Mauricio ao final dos anos 580, sobrevivendo até a conquista muçulmana do Maghreb ao final do século VII.
Localização da Anatólia na Eurásia (retângulo vermelho)
Desta feita o exército tomou a Tripolitânia após a batalha de Sufetula (a 240 km de Cartago), em 647. As forças árabes retornaram ao Egito em 648 em troca por tributo. Todas as conquistas árabes adicionais foram logo interrompidas por força de uma guerra civil entre facções árabes que resultou na morte do califa Uthman, em 656, substituído por Ali Ibn Abi Talib, que por sua vez foi assassinado em 661. A dinastia Omíada (de que falaremos ainda) estabeleceu-se em Damasco e o califa Muawiya I começou a consolidação do império desde o mar Aral até a fronteira oeste do Egito. Colocou um governador local no Egito em al-Fustat, criando um assento subordinado de poder que continuaria pelos dois próximos séculos. Ele então continuou a invasão dos estados vizinhos não muçulmanos, atacando a Sicília e a Anatólia, em 663. A figura mostra a localização da Turquia, na Ásia Menor, dentro do retângulo, com referência ao continente europeu. A Anatólia corresponde, grosseiramente, à parte asiática da Turquia, com exceção das partes orientais, historicamente conhecidas como “Altas Terras da Armênia”.

III.4 – CONQUISTA DA MESOPOTÂMIA E PÉRSIA (633-651)

A conquista da Pérsia (atual Irã) pelos muçulmanos conduziu ao fim do Império Sassânida, em 651 e ao declínio posterior da religião Zoroastriana na Pérsia. É importante lembrar que, a esse tempo, o império Sassânida era formado por Iraque e Irã (Mesopotâmia e Pérsia), além de outros territórios menores.
A ascensão dos muçulmanos havia coincidido com um significativo enfraquecimento político, social, econômico e militar da Pérsia, conforme já mencionamos, pelas exaustivas batalhas travadas pelo Império Sassânida contra o Império Bizantino.
Logo após as guerras Ridda, que consolidaram o califado de Abu Bakr em 633, um chefe tribal do nordeste da Arábia, Al-Muthanna ibn Haritha, forte o bastante para atacar o Império Persa ao nordeste e o Império Bizantino ao noroeste, atacou pela primeira vez cidades persas na Mesopotâmia, por determinação do califa. Ele tinha três objetivos com essas conquistas: (1) ao longo das fronteiras árabes com esses dois impérios haviam numerosas tribos árabes nômades que atuavam como um estado amortecedor entre romanos e persas; Abu Bakr cria que essas tribos aceitariam o Islamismo ajudando em sua difusão; (2) as populações persas e romanas sofriam com impostos muito altos e Abu Bakr acreditava que elas podiam ser persuadidas a ajudar os muçulmanos com a promessa de liberá-los dos tributos excessivos; (3) dois impérios gigantescos cercavam a Arábia, tornando inseguras as fronteiras do Estado Islâmico (rever Figura 007); Abu Bakr esperava que atacando Iraque e Síria, pudesse remover o perigo de suas fronteiras. Os sucessos iniciais e posteriores de Al-Muthanna ibn Haritha fizeram-no pensar sobre a expansão do Império Rashidun. Khalid ibn al-Walid, seu melhor general foi posto no comando e, com 10.000 homens e mais 8.000 dos chefes tribais das fronteiras, penetrou no Império Persa na terceira semana de março de 633.
Mapa detalhando a rota de Khalid ibn al-Walid, as batalhas
travadas e cidades conquistadas na conquista da Mesopotâmia
Até a última semana de julho, a maior parte do que é hoje o Iraque estava sob controle islâmico. Três batalhas adicionais em Zumail, Sanni e Muzieh, em novembro de 633, encerraram o controle persa na Mesopotâmia, deixando sua capital, Ctesiphon desguarnecida e vulnerável ao ataque muçulmano. Antes de avançar à capital, em dezembro de 633, Khalid venceu sua última batalha na conquista da Mesopotâmia, em Firaz, contra um exército combinado de persas, bizantinos e árabes cristãos. Nesse momento ele recebeu ordens do califa Abu Bakr para assumir o comando dos exércitos muçulmanos na luta contra a Síria romana, conforme já vimos acima.
Com a saída de Khalid, os persas decidiram tomar de volta seus territórios perdidos. Seu novo imperador Yazdgerd III buscou aliança com o imperador bizantino Heráclio através do casamento com sua filha e prepararam juntos ataques coordenados, no Levante e na Mesopotâmia para acabar com seu inimigo comum, o novo califa, Omar. Esses ataques não tiveram sucesso porque Yazdgerd III não conseguiu reunir seu exército a tempo e já sabemos o resultado da campanha dos árabes contra os bizantinos.
O exército sassânida, entretanto, era ainda uma força poderosa que se encontrou com as forças islâmicas em Qadisiyyah, em 636, início da segunda invasão. O general muçulmano, Saad ibn Abi Waqqas, dentro de três meses derrotou o exército persa na batalha de Qadisiyyah, efetivamente encerrando o domínio sassânida a oeste da Pérsia. Com o grosso das forças persas derrotadas, Saad conquistou Babilônia, Koosie, Bahrasher e Madein. Ctesiphon, a capital imperial do império sassânida, caiu em março de 637, após um cerco de três meses. Com a queda de mais algumas cidades que incluíram Jalula e a região de Tikrit-Mosul, o domínio muçulmano na Mesopotâmia foi estabelecido.
Em fevereiro de 638 a força dos combates amainou na frente persa. O Suwad (fértil área entre os vales do Tigre e do Eufrates), o Vale do Tigre e o Vale do Eufrates estavam agora sob o total controle dos muçulmanos. Os Persas se haviam retirado para a própria Pérsia, a leste das Montanhas Zagros[5], barreira natural entre o califado Rashidun e o Império Sassânida, que não cessou de realizar contra-ataques até janeiro de 641 quando os muçulmanos conquistaram Susa e Junde Sabur (província do Khuzistan), dois locais de grande importância militar e Omar pretendeu a paz. 
Isfahan, capital da província de Isfahan, Pérsia, atual Irã
Numa última tentativa de expulsar os muçulmanos, os persas conseguiram reunir 100.000 homens em Nahavand. Informado do fato, Omar enviou todas as suas forças para aquela cidade, onde se travou a batalha decisiva para os dois impérios. A Batalha de Nahavand, em 642, foi vencida pelos muçulmanos e com ela selado o destino do império Sassânida, ocorrido em 651.
Após a devastadora derrota em Nahavand, o último imperador sassânida, Yazdegerd III, fugiu por diferentes partes da Pérsia para levantar um novo exército, sem muito sucesso, com Omar tentando capturá-lo quando havia ganho vantagem psicológica sobre os persas. Um plano de ação foi formulado e os preparativos completados em janeiro de 642. Poucos meses depois, um dos principais objetivos de Omar, a província de Isfahan (capital Isfahan), no centro do império e importante ponto de comunicação entre os exércitos persas, foi tomada. O ataque à segunda das grandes províncias pretendidas por Omar, Fars, com capital em Persépolis, havia iniciado em 639, mas só foi vencida em 651; mesmo assim os habitantes da Província ainda se rebelariam, mais tarde, várias vezes contra os árabes.
Província de Fars, lar do povo persa
 A conquista do Azerbaijão Iraniano, terceiro grande objetivo dos árabes, encerrou em 651 com um pacto pelo qual a província se rendia ao Califado sob os termos usuais do pagamento da Jizya. A Armênia
[6] bizantina já havia sido conquistada entre 638 e 639. Por essa época, com exceção do Khorasan (região histórica situada no nordeste da Pérsia) e da Armênia persa, situada ao norte do Azerbaijão, Omar possuía o controle de todo o Império Persa. Ao final do ano 643, Omar enviou expedições contra essas duas regiões; o avanço sobre a Armênia foi encerrado em novembro de 644 com a morte do Califa Omar, quando praticamente todo o sul do Cáucaso havia sido capturado. O Khorasan era a segunda maior província do império Sassânida, estendendo-se do que é hoje o nordeste do Irã, noroeste do Afeganistão e sul do Turquemenistão, com capital em Balkh (norte do Afeganistão), onde encontrava-se Yazdegerd III com as forças que ainda conseguira reunir. Em 651 seu exército foi derrotado na batalha do Rio Oxus, sua capital ocupada pelos árabes e com essa ocupação a guerra acabou. O imperador Yazdegerd fugiu através do Oxus para a Transoxiana[7] e teve uma pequena chance de fugir para a China, mas foi assassinado por um moleiro local por sua bolsa. Os muçulmanos haviam alcançado as últimas fronteiras persas a oeste; além dessas, restavam apenas as terras dos turcos e ainda além, a China. O velho e poderoso império dos sassânidas havia deixado de existir. 
Azerbaijão iraniano, noroeste da Pérsia
(atual Irã)
Após sua vitória sobre o exército imperial, os invasores, desde 644 sob o califa Uthman ibn Affan (já pertencente à dinastia Omíada, embora o regime Omíada tenha sido fundado por Muawiya ibn Abi Sufyan, governador da Síria, após o fim da primeira guerra civil muçulmana, em 661), ainda tiveram que lutar com diversos principados da Pérsia, militarmente fracos, mas geograficamente inacessíveis, o que exigiu décadas para dar o total controle ao califado. A conversão ao islamismo foi gradual, parcialmente como resultado dessa violenta resistência; contudo, as escrituras zoroastrianas foram queimadas e muitos sacerdotes executados. Contudo, os persas começaram a se reafirmar mantendo a língua e a cultura persa. Não obstante, o islamismo foi adotado por muitos, por ameaça e extorsão, por razões políticas e econômicas, ou simplesmente por persuasão, tornando-se a religião dominante na idade média.
Os omíadas prosseguiram com as conquistas muçulmanas, incorporando o Cáucaso, Transoxiana, Sindh e a Península Ibérica ao mundo islâmico, como veremos a seguir. 

[1] Os Gassânidas eram um grupo de árabes que emigraram no início do século III do sul da Península Arábica para a região do Levante onde alguns se mesclaram com as comunidades cristãs de fala grega, convertendo-se ao cristianismo nos primeiros séculos DC, enquanto outros já eram cristãos antes de emigrarem para o norte escapando da perseguição religiosa. Poucos gassânidas tornaram-se muçulmanos acompanhando a conquista islâmica, mas a maioria permaneceu cristã unindo-se às comunidades Melkita e Siríaca, dentro do que é hoje a Jordânia, Palestina, Síria e Líbano.
[2] Jizya é uma taxa anual per capita historicamente imposta pelos estados islâmicos sobre certos súditos não islâmicos (dhimmis) residindo permanentemente em terras muçulmanas, sob lei islâmica. Os juristas muçulmanos exigiam o pagamento da Jizya por parte de adultos, libertos e homens sãos da comunidade dhimma, deixando isentas as mulheres, crianças, idosos, deficientes, doentes, insanos, eremitas, escravos e moradores temporários. Os dhimmis que se uniam ao serviço militar e aqueles que não podiam pagar eram isentos do pagamento.
[3] O Chipre é a terceira maior e a terceira mais populosa ilha do mar Mediterrâneo oriental. Está localizada ao sul da Turquia, oeste da Síria e do Líbano, noroeste de Israel e Palestina, norte do Egito e sudeste da Grécia.
[4] Mameluco é a designação árabe para escravo, mais usado para se referir a soldados escravos de muçulmanos e a governantes muçulmanos de origem escrava. O mais duradouro reino mameluco foi a casta militar nobre do Egito da Idade Média, que surgiu de soldados escravos em sua maioria de povos turcos, mas também cristãos do Egito, circassianos e georgianos. Com o tempo os mamelucos tornaram-se uma poderosa casta militar em várias sociedades então controladas por muçulmanos. Particularmente no Egito, mas também no Levante, Mesopotâmia e Índia, os mamelucos sustentaram grande poder político e militar.
[5] As montanhas Zagros formam a maior cadeia montanhosa no Irã, Iraque e sudeste da Turquia, com um comprimento de 1.500 km. Grosseiramente, ela corre pela fronteira entre Irã e Iraque, desde o Golfo Pérsico, infletindo para o oeste ao estremo norte do Iraque e correndo entre Iraque, Síria e Turquia até o mar Mediterrâneo.
[6] O Reino da Armênia, que teve o seu auge entre 95 e 66 AC, durante as guerras Bizantino-Sassânidas foi repartida em Armênia Bizantina (em 387 DC) e Armênia Persa (em 428 DC).
[7] Transoxiana é a área além do rio Oxus, antigo nome da porção da Ásia Central correspondente aos atuais Uzbequistão, Tajiquistão, sul do Quirguistão e sudoeste do Cazaquistão).

Prossegue com a Parte 3