Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sexta-feira, 17 de maio de 2019

CHARLES AZNAVOUR

INTRODUÇÃO

No dia 1º de outubro do ano de 2018, há pouco findo, com a idade de 94 anos, morreu Charles Aznavour, o pequeno grande armênio mais francês que o mundo já produziu. Infelizmente, não pude dar ao evento, à época, a importância merecida, por estar envolvido com as eleições próximas para presidente do Brasil. Logo em seguida, outro mito da música popular, Michel Legrand partiu para oferecer suas composições a Deus, que será, sem dúvida, o seu maior ouvinte; e para não deixar outro postergado, ocupei-me do último, em primeiro lugar.
Atrasado, portanto, presto agora a minha insignificante homenagem a esta imensa personagem da música internacional. Não vou aqui falar das honrarias, medalhas, premiações e cargos que recebeu e ocupou Charles Aznavour, mas apenas contar um pouco do que foi e das músicas que fez. Muito, mas muito mesmo, dancei sob o som de suas canções maravilhosas, num tempo em que mesmo os jovens escutavam boas músicas, brasileiras e de muitas nações, sem discriminação e sem incorrerem no perigo de parecer “politicamente incorretos”. Eram, de fato, outros tempos ...
Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinag Aznavourian, em 22 de maio de 1924, foi um cantor, letrista e diplomata francês-armênio, conhecido por sua especial voz de tenor: clara e vibrante nos seus trechos superiores, com graves e profundas notas baixas. Numa carreira de compositor, cantor, letrista, que durou mais de 70 anos, gravou mais de 1.200 canções, interpretadas em nove línguas. Além disso, escreveu ou co-escreveu mais de 1.000 canções para si e para outros.
Foi um dos mais populares e duradouros cantores da França. Vendeu mais de 180 milhões de discos durante sua vida e foi por alguns chamado o “Frank Sinatra francês”, ao passo que o crítico musical Stephen Holden descreveu Aznavour como uma “deidade popular francesa”. Em 1998 foi chamado “Apresentador do Século” pela CNN e por usuários de todo o mundo do “Time Online”. Foi reconhecido como o mais relevante cantor do século com quase 18% dos votos totais, desclassificando, entre outros, Elvis Presley e Bob Dylan. Aznavour cantou para presidentes, papas e a realeza, bem como em eventos humanitários. Em resposta ao terremoto de 1988 na Armênia, ele fundou, com seu antigo amigo e empresário Levon Sayan, a organização de caridade “Aznavour para a Armênia”. Em 2009 foi indicado embaixador da Armênia para a Suiça, bem como delegado permanente da Armênia para as Nações Unidas, em Genebra.
Iniciou seu último tour em 2014 e em 24 de agosto de 2017 recebeu a 2.618ª estrela da Calçada da Fama de Hollywood. No mesmo ano, ele e sua irmã foram agraciados com a “Medalha Raoul Wallenberg”, através de uma declaração emitida por Reuven Rivlin, presidente de Israel, por abrigar judeus, armênios e outros refugiados durante a Segunda Guerra Mundial, com risco das próprias vidas. Seu último concerto teve lugar no NHK Hall, em Osaka, em 19 de setembro de 2018.

INÍCIO DA VIDA E CARREIRA

Filho de artistas imigrantes armênios, Charles Aznavour nasceu em Paris, de Michael Aznavourian e Knar Baghdasarian. Seu pai cantava em restaurantes franceses antes de estabelecer um restaurante caucasiano chamado “Le Caucase”. Seus pais o estimularam a cantar desde muito novo e ele deixou a escola com nove anos de idade, adotando o nome de palco, Aznavour.
Aznavour já era familiarizado com apresentações no palco ao tempo em que iniciou sua carreira como músico. Com nove anos de idade ele teve alguns papéis numa peça chamada “Um Petit Diable à Paris” (Um Pequeno Diabo em Paris) e num filme intitulado “La Guerre des Gosses” (A Guerra dos Moleques). Aznavour virou-se então para a dança profissional, apresentando-se em vários clubes noturnos. Em 1944, ele e um ator, Pierre Roche, iniciaram uma parceria e, em esforços colaborativos, apresentaram-se em outros numerosos clubes. Foi com essa parceria que Aznavour começou a escrever suas canções e a cantá-las. Os primeiros sucessos da parceria foram no Canadá, entre 1948 e 1950, quando Aznavour escreveu sua primeira canção, intitulada “J’ai Bu” (Eu Bebi).
Nos primeiros tempos de sua carreira, Aznavour abriu para Edith Piaf, no Moulin Rouge, quando ela o aconselhou a insistir em sua carreira como cantor, ajudando-o a desenvolver uma distintiva voz que estimulava a melhor de suas habilidades.
Algumas vezes descrito como “Frank Sinatra da França”, Aznavour frequentemente cantava sobre o amor. Escreveu ou co-escreveu musicais, mais de mil músicas e gravou noventa e um álbuns em estúdio. A voz de Aznavour variava em direção ao alcance do tenor, mas possuía o alcance e a coloração baixa mais típica do barítono, contribuindo ao seu som único. Falava e cantava em várias línguas - francês, inglês, italiano, espanhol, alemão, russo, armênio e napolitano -, o que muito o ajudou a apresentar-se no Carnegie Hall, Estados Unidos, bem como eu outros importantes locais em todo o mundo. Também gravou pelo menos uma canção do poeta armênio do século XVIII, Sayat-Nova e uma canção popular, “Im Yare”, em armênio. A melodia “Que c’est triste Venise”, cantada em francês, italiano, espanhol, inglês e alemão, teve muito sucesso nos anos ’60.
Charles Aznavour em 1963
Em 1974 Aznavour tornou-se um grande sucesso no Reino Unido, quando sua canção “She” foi número 1 no “UK Singles Chart” por quatro semanas numa sequência de quatorze semanas. Sua outra mais conhecida canção no Reino Unido, foi “The old fashioned way”, que permaneceu nos quadros do Reino Unido por 15 semanas.
Artistas que gravaram suas canções e colaboraram com Aznavour, incluem Edith Piaf, Fred Astaire, Frank Sinatra (Aznavour foi um dos raros cantores europeus convidados para cantar em dueto com ele), Andrea Bocelli, Bing Crosby, Ray Charles, Bob Dylan (que citou Aznavour entre ao maiores cantores vivos que ele jamais tinha visto), Dusty Springfield, Liza Minnelli, Mia Martini, Elton John, Dalida, Serge Gainsbourg, Josh Groban, Petula Clark, Tom Jones, Shirley Bassey, José Carreras, Laura Pausini, Nana Mouskouri e Julio Iglesias. Sua colega francesa, a cantora popular Mireille Mathieu, cantou e gravou com Aznavour em numerosas ocasiões. O cantor inglês Marc Almond, apontado por Aznavour como o intérprete favorito de suas canções, que o cobriu em seu “What makes a man”, nos anos ’90, o declarou como uma das principais influências do seu estilo e trabalho. Em 1974, Jack Jones registrou um álbum inteiro com composições de Aznavour intitulado “Write me a love song, Charlie” (Escreva-me uma canção de amor, Charlie), regravado em CD em 2006. Dois anos mais tarde a cantora holandesa Liesbeth List lançou seu álbum “Charles Aznavour Apresenta Liesbeth List”, em que apresentou composições de Aznavour com letras em inglês. Aznavour e o tenor italiano Luciano Pavarotti cantaram juntos a “Ave Maria” de Bach-Gounod. Apresentou-se também com o amigo violoncelista russo Mstislav Rostropovich, na posse da presidência francesa da União Europeia, em 1955. Elvis Costello gravou sua composição “She” para o filme “Notting Hill”. Um dos maiores amigos e colaboradores de Aznavour na indústria da música foi o tenor Plácido Domingo, que muitas vezes apresentou seus sucessos, principalmente uma gravação solo de “Les bateaux sont partis”, em 1985 e versões em dueto da canção, em francês e espanhol, em 2008, bem como várias apresentações da “Ave Maria” de Aznavour. Em 1994, Aznavour apresentou-se com Placido Domingo e a soprano norueguesa Sissel Kyrjebo no terceiro concerto anual “Christmas in Vienna”; nesse concerto, televisionado para todo o mundo e lançado em CD, internacionalmente, os três cantores apresentaram uma variedade de canções de Natal, medleys e duetos.
Em 1998, quando a CNN e a Time pediram ao público americano para votar em seu apresentador favorito do século XX, Charles Aznavour despontou em primeiro lugar, à frente de Frank Sinatra e Elvis Presley! O cantor francês via os Estados Unidos como o seu terceiro lar. Viveu na California e Connecticut por algum tempo, teve um romance secreto com a cantora Liza Minnelli e casou com sua terceira esposa em Las Vegas. Em reconhecimento a uma carreira que se estendeu por quase 80 anos, durante a qual gravou cerca de 1.400 canções e 390 álbuns, Charles Aznavour recebeu uma estrela na Hollywood Boulevard, em agosto de 2017, com a placa de número 6.225, ao lado da atriz Bette Davis. “Os Estados Unidos e eu temos compartilhado um romance de longa duração”, declarou o "Sinatra Francês" numa entrevista à revista “France – Amérique”, em 2009, antes de admitir, “Eu não falo inglês tão bem quanto gostaria, mas adoro cantar em inglês”.
Aznavour em New York, em 1965
No início do outono de 2006, Aznavour iniciou sua turnê de despedida, apresentando-se nos Estados Unidos e Canadá, com fantásticas audiências. Iniciou o ano de 2007 com concertos pelo Japão e toda a Ásia. Em 30 de setembro de 2006 realizou um importante concerto em Yerevan, capital da Armênia, parta iniciar a estação cultural “Armênia minha amiga”. O presidente armênio Robert Kocharyan e o francês Jacques Chirac, estavam na primeira fila de espectadores. Ainda em 2006, Aznavour gravou seu álbum “Colore ma vie”, em Cuba, com Chucho Valdés, conhecido pianista, compositor e líder de orquestra cubano. Convidado regular do “Star Academy” (importante programa de calouros), Aznavour cantou junto com o candidato Cyril Cinélu, no mesmo ano. Em 2007 ele cantou parte de “Une vie d’amour”, em russo, durante um concerto em Moscou. A segunda metade de 2007 viu Aznavour retornar a Paris para mais de 20 shows no “Palais de Congrés”, seguidos de outros concertos na Bélgica, Holanda e o resto da França. “Forever Cool” um álbum deste ano, da Capitol/EMI, apresenta Aznavour cantando um novo dueto de “Everybody loves somebody sometime”, com a voz de Dean Martin. Encerrou uma turnê em Portugal em fevereiro de 2008 e por toda a primavera deste ano se apresentou pela América do Sul, realizando muitos concertos na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Admirador de Quebec e Montreal - onde se apresentou em casas noturnas antes de se tornar famoso -, ajudou a carreira da cantora lírica Lynda Lemay, de Quebec, na França e possuía uma casa em Montreal. Em julho de 2008 foi investido na “Ordem do Canadá”. Em seguida, apresentou-se nas “Plains of Abraham” (área histórica da cidade), como personagem da celebração dos 400 anos de fundação da cidade de Quebec. Ainda em 2008, lançou o álbum de duetos “Duos”, num esforço colaborativo de Aznavour com seus grandes amigos e colaboradores ao longo de sua carreira, incluindo Céline Dion, Sting, Laura Pausini, Josh Groban, Paul Anka, Plácido Domingo e outros, durante dezembro de 2008, em todo o mundo. Seu álbum seguinte, “Charles Aznavour and the Clayton Hamilton Jazz Orchestra” (anteriormente conhecido como Jazznavour 2), foi uma continuação na mesma linha do seu sucesso “Jazznavour”, lançado em 1998, com novos arranjos de suas canções clássicas; lançado em 27 de novembro de 2009. No mesmo ano, Aznavour também se apresentou pela América na turnê chamada “Aznavour en liberté”, iniciando ao final de abril com uma série de concertos pelos Estados Unidos, Canadá, América Latina e EUA novamente.
Aznavour, Festival de Cannes, 1999
Aznavour e a cantora senegalesa Yousson N’Dour, com a colaboração de mais de 40 cantores e músicos franceses, gravaram um vídeo com o grupo musical “Band Aid”, após o catastrófico tremor de terra de 2010 no Haiti, intitulado “1º Geste pour Haiti Chérie”. Em agosto de 2011 Aznavour lançou o novo álbum “Aznavour Toujours”, apresentando onze novas canções e “Elle”, uma versão francesa do seu sucesso internacional “She”. Após este, o Aznavour de 87 anos de idade iniciou uma turnê pela França e Europa, chamada “Charles Aznavour en toute intimité” que iniciou com 21 concertos no teatro Olympia, em Paris. Em 12 de dezembro de 2011 deu um concerto no “State Kremlin Palace”, Moscou, com capacidade esgotada, ao qual seguiria uma ovação de 15 minutos. Em 2012 ele embarcou para outra turnê na América do Norte, com o mesmo show, visitando Quebec e o Anfiteatro Gibson em Los Angeles, terceiro maior teatro da California para shows múltiplos. Em 16 de agosto de 2012 Aznavour se apresentou na cidade natal de seu pai, Akhaltsikhe, na Georgia, num concerto especial, parte da cerimônia de abertura do recém restaurado Castelo Rabati.
Charles Aznavour em 2014
Em novembro de 2013 Aznavour apresentou-se, pela primeira vez em 25 anos, em Londres, no “Royal Albert Hall”, quando a demanda foi tão alta que tiveram que marcar um segundo concerto no mesmo local para junho de 2014. Em novembro de 2013, Aznavour apresentou-se com Achinoam Nini (Noa) em um concerto dedicado à paz, no “Nokia Arena”, Tel Aviv, com a presença do Presidente israelense Shimon Peres. Em dezembro de 2013 Aznavour deu dois concertos na Holanda, no “Heineken Music Hall”, Amsterdan e novamente em janeiro de 2016. Em 2014, 2015 e 2016 Aznavour prosseguiu com sua turnê internacional, incluindo concertos em Bruxelas, Berlim, Frankfurt, Barcelona, Madri, Varsóvia, Praga, Moscou, Bucareste, Antuérpia, Londres, Dubai, Montreal, Nova York, Boston, Miami, Los Angeles, Osaka, Tóquio, Lisboa, Mônaco, Verona, Amsterdan e Paris. Em 2017 e 2018, sua turnê continuou em São Paulo, Rio de Janeiro, Santiago, Buenos Aires, Moscou, Viena, Sydney, Melbourne, Haiti, Tóqio, Osaka, Madri, Milão, Roma, São Petersburgo, Paris, Londres, Amsterdan e Mônaco. Em 19 de setembro de 2018, seu último concerto teve lugar no “NHK Hall”, Osaka, Japão.
Aos 94 anos, seus quase 80 anos de palco o tornaram um pouco ruim de audição. Nos seus anos finais ainda cantaria em várias línguas e sem permanente uso de “ponto”, em geral se mantendo no inglês e francês, com italiano e espanhol menos frequentemente, na maior parte dos seus concertos. Além de cantor, Charles Aznavour teve uma longa e variada carreira paralela de ator, aparecendo em mais de oitenta filmes para o cinema e a televisão.
Charles Aznavour foi casado três vezes: Megan Rugel, de 1946 a 1952; Evelyn Plessis, de 1956 a 1960; e Ulla Thorsell, de 1967 a 2018. Destes casamentos, resultaram cinco filhos: Séda, Patrick, Katia, Mischa e Nicolas. Costumava fazer piadas do seu físico, a maior parte delas sobre sua estatura de 1,60 m. Fazia dela um humor autodepreciativo, ao longo dos anos.

POLÍTICA E ATIVISMO

Desde o terremoto de 1988 na Armênia, Aznavour ajudou o seu país com o programa “Aznavour pour Arménie”. Com seu cunhado e coautor Georges Garvarentz, ele escreveu a canção “Pour toi Armenie” que foi apresentada por um grupo de artistas franceses famosos e permaneceu nos quadros por dezoito semanas. Há uma praça com o seu nome na Yerevan (capital e maior cidade da Armênia) central, rua Abovian e uma estátua sua construída em Gyumri (segunda maior cidade da Armênia), que viu a maior parte das vidas perdidas no terremoto. Em 1995 Aznavour foi indicado como Embaixador e Delegado permanente da Armênia para a UNESCO. Foi também um membro do Corpo de Consignatários do Fundo para a Armênia, organização que arrecadou mais de 150 milhões de dólares em ajuda humanitária e assistência para desenvolvimento de infraestrutura para a Armênia, desde 1992. Em 1997 ele foi indicado como Oficial da Legião de Honra, a mais alta ordem do mérito francês. Em 2002 Aznavour apareceu no aclamado filme “Ararat”, do diretor Atom Egoyan, sobre o genocídio dos armênios pelo Império Otomano, no início do século XX. Em 2004 Aznavour recebeu o título de “Herói Nacional da Armênia”, a mais alta comenda daquele país. Em 26 de dezembro de 2008, o presidente da Armênia, Serzh Sargsyan, assinou um decreto presidencial para concessão da cidadania da Armênia a Aznavour, a quem ele chamou de “proeminente cantor e figura pública” e “um herói do povo armênio”. Em 2011 foi inaugurado, em Yerevan, Armênia, o Museu Charles Aznavour. Em abril de 2016, Aznavour visitou a Armênia para participar da cerimônia de entrega do prêmio “Aurora Prize for Awakening Humanity”, prêmio humanitário internacional anual que reconhece indivíduos e organizações por trabalhos humanitários, em favor dos sobreviventes do genocídio armênio. Em 24 de abril, junto com Serzh Sargsyan, os católicos de “All Armenians”, sua Santidade Karekin II, chefe supremo da Igreja Apostólica Armênia, e o ator George Clooney, ele depositou flores no “Memorial do Genocídio Armênio”.
Estátua de Aznavour em Gyumri, Armênia
Além de sustentar o título, mormente cerimonial, de embaixador francês à distância para a Armênia, Aznavour concordou em manter a posição de Embaixador da Armênia para a Suíça, em fevereiro de 2009, quando teria declarado: “Inicialmente eu hesitei, pois não é tarefa fácil. Então pensei que o que é importante para a Armênia é também importante para nós. E então aceitei a proposta com amor, felicidade e um sentimento de profunda dignidade”. Escreveu uma canção sobre o Genocídio Armênio, intitulada “Ils sont tombés” (Eles tombaram).
À medida que sua carreira progredia, Aznavour envolvia-se fortemente na política armênia e internacional. Durante as eleições presidenciáveis francesas de 2002, quando o candidato de extrema direita nacionalista Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacional, passou nas eleições preparatórias, para enfrentar Jacques Chirac, Aznavour assinou a petição “Vive la France” e convidou todos os franceses a cantar a Marselhesa em protesto. Chirac, um amigo pessoal de Aznavour, acabou vencendo a eleição numa vitória esmagadora, com mais de 82% dos votos.
Fez campanhas frequentes para uma reforma da lei internacional de direitos autorais. Em novembro de 2005 ele encontrou-se com o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso para discutir a questão da revisão do termo de proteção para artistas e produtores na União Europeia, advogando uma extensão do termo de proteção da União Europeia, dos atuais 50 anos, para a lei dos EUA, que prega 95 anos, dizendo que “em termos de proteção, artistas e companhias gravadoras têm o mesmo pensamento. A extensão do termo de proteção seria boa à cultura europeia, positiva para a economia europeia e poria um fim à atual discriminação com os EUA.” Também enfrentou notavelmente a política francesa Christine Boutin no que concerne à sua defesa de uma autorização de taxa constante, tipo “licença global” para o uso de arquivos ainda protegidos, na internet, argumentando que a licença eliminaria a criatividade. Em maio de 2009 o Senado Francês aprovou um dos mais estritos projetos contra a pirataria na internet jamais visto antes, com uma das mais arrasadoras votações, de 189 contra 14. Aznavour foi um proponente vocal da medida e considerou-a uma vitória de porte.

MORTE E FUNERAIS

Em abril de 2018, logo após completar o seu 94º aniversário, Charles Aznavour foi conduzido ao um hospital em São Petersburgo, Rússia, após ter exageradamente forçado a coluna durante um ensaio para um concerto na cidade. Tal concerto teve que ser postergado até a próxima estação, mas foi afinal cancelado pela sua morte. Em maio de 2018 ainda foi convidado para participar de um programa de Graham Norton, conhecido apresentador, comediante, ator e autor irlandês vivendo em Londres, na Rádio BBC. Uma semana depois, Aznavour quebrou seu braço em duas partes, resultado de uma queda em sua casa na cidade de Mouriès, o que resultou no cancelamento de todos os seus shows até o final de junho. Este cancelamento foi ao final estendido para incluir os 18 shows programados para agosto, em função de um processo de cura prolongado. Num programa da televisão francesa levado ao ar em 28 de setembro, apenas três dias antes de sua morte, ele mencionou que ainda sentia dor. Em 1º de outubro de 2018 Charles Aznavour foi encontrado morto numa banheira de sua casa em Mouriès, com a idade de 94 anos. Ao tempo de sua morte, sua residência permanente ficava em Saint Sulpice, Vaud, Suiça. Um relatório de autópsia concluiu que Aznavour morreu de uma parada cardiorrespiratória complicada por um edema pulmonar agudo.
No dia 5 de outubro Aznavour foi honrado com um funeral oficial do Estado, no complexo militar de “Les Invalides”, com o Presidente Emmanuel Macron saudando-o como uma das mais importantes “figuras da França”. Macron louvou as letras de Aznavour dizendo que elas haviam apelado à “nossa secreta fragilidade” e que as letras do cantor foram, “para milhões de pessoas, um bálsamo, um remédio, um conforto .... Por tantas décadas ele fez nossas vidas mais doces, nossas lágrimas menos amargas.”
Uma missa funerária teve lugar no dia 6 de outubro, celebrada pelo Patriarca da Igreja Apostólica Armênia, Catholicos Karekin II, na Catedral Armênia de São João Batista, em Paris.
Seu caixão foi conduzido ao final, ao som de sua canção “Emmenez-moi” (Conduzi-me). Entre os dignatários presentes, incluíram-se o Primeiro Ministro francês Édouard Philippe, e os ex-presidentes Nicolas Sarkozy e François Hollande, bem como o Presidente armênio, Armen Sarkissian e o Primeiro Ministro armênio, Nikol Pashinyan, com suas esposas.
Foi enterrado na cripta da família, no cemitério de Montfort-l’Amaury.

AS MÚSICAS DE CHARLES AZNAVOUR

E o que dizer das mais de 1400 maravilhosas melodias compostas e gravadas durante uma carreira de quase oitenta anos, como a de Charles Aznavour? Bem, como nos mais diversos ramos da atividade humana, também a música é uma questão de gosto e muito especial. E são tantas as músicas de Aznavour e tão belas, que fica muito difícil decidir quais apresentaremos nessa finita crônica.
Quando eu nasci, em 1944, Charles Aznavour já cantava, nos seus 20 anos de idade. Quatorze anos depois, na minha maravilhosa adolescência, eu já conhecia o famoso cantor francês, seguramente introduzido por meus pais, e muito viria a dançar as suas românticas melodias, de rosto colado, com minha namorada. Portanto, considerando que o próprio cantor já era um nostálgico, vou me amparar em minha discoteca para selecionar umas pouquíssimas de suas músicas, uma pequeníssima amostra do seu imenso e variado repertório, para tentar dar aos meus leitores uma tênue ideia do que foi a música do incomparável Charles Aznavour. E, claro, serão as mais conhecidas para contentar a um maior número de pessoas.
Em geral, tudo o que fala de Veneza, exerce sobre mim um fascínio enorme e por essa razão, sem considerações de cronologia, vou iniciar a lista pela canção “Que c’est triste Venise”, escrita pela escritora Françoise Dorin e composta e interpretada por Charles Aznavour, lançada em 1964 e logo tornada um sucesso internacional. Além de versões instrumentais, vários cantores famosos gravaram essa melodia, em várias línguas, incluindo o espanhol Julio Iglesias, num dueto com o compositor. Há uma gravação lindíssima dessa melodia, interpretada por Charles Aznavour num dueto com a cantora francesa Patricia Kaas, em 2004, por ocasião do 80º aniversário do compositor. Mas por uma questão de fidelidade, apresentamos uma versão apenas pelo compositor, mais antiga e autêntica. Como não poderia deixar de ser, a letra fala da melancolia de Veneza com suas gôndolas, seus canais, a Ponte dos Suspiros e, claro, dos amores perdidos que nunca são esquecidos.
Em 1972 Charles Aznavour lançou um álbum de que fazia parte uma canção chamada “Les Plaisirs Démodés” (Os Prazeres Fora de Moda), de sua autoria. Nela, o autor fala de como teria conhecido sua amada na boate enfumaçada da moda, entre pessoas da sua idade; e então, no presente, entre jovens com suas músicas modernas e barulhentas, dançando separados, ele a convidaria para redescobrir os prazeres fora de moda, ao dançar de rosto colado, coração contra coração .... A gravação original é muito interessante porque inicia com uma melodia e ritmo modernos, alterna para a melodia principal romântica num ritmo lento, quando ele a convida para dançar e descobrir os prazeres fora de moda, volta ao ritmo moderno e finalmente à melodia principal, encerrando com ela. No ano seguinte ele gravaria e lançaria a sua versão em língua inglesa, “The Old Fashioned Way” (À moda antiga), onde conseguiu, basicamente, manter a ideia original, convidando a sua amada a dançar à moda antiga e toda a melodia se concentra na forma mais lenta e romântica. Embora a gravação original seja mais interessante e completa (são mais de 5 minutos e meio de gravação), sempre preferi a versão em língua inglesa, porque combina mais com o estilo das melodias de Charles Aznavour. Essa música foi também gravada por Bing Crosby e Fred Astaire, em dueto, Petula Clark e Shirley Bassey, entre outros. Entre as gravações instrumentais, destacamos a de Mantovani com sua maravilhosa orquestra de violinos.
Em 1964, um escritor francês, de nome René Fallet, escreveu um romance chamado “Paris au mois d’aout” (Em Paris no mês de agosto). O personagem principal do romance é nele descrito como tendo muita semelhança com Charles Aznavour. Em 1966, o cineasta francês Pierre Granier-Deferre produziu o filme epônimo numa adaptação do romance, oferecendo o papel principal a Charles Aznavour, que assinou a trilha sonora original com a canção “Paris au mois d’août” (composição de Georges Garvarentz e Charles Aznavour), gravada em 1965 para o álbum “La Bohème”. Uma das minhas grandes preferidas, esta canção tem várias gravações, incluindo uma em que Aznavour a canta com a grande orquestra de Paul Mauriat, além de uma magistral versão em italiano. Entretanto, fugindo um pouco da nossa ideia original, abriremos uma exceção para apresentar aos nossos leitores uma versão mais moderna em que Charles Azanavour canta a melodia “Paris au mois d’août” num dueto maravilhoso com a cantora italiana Laura Pausini. Inesquecível!
Para os muito saudosistas como eu, faço um convite para escutarem, não a Charles Aznavour, mas agora ao famoso cantor francês dos anos ’60, Johnny Hallyday, cantando a canção de Aznavour, “Retiens la nuit”, que tanto embalou nossos bailes de adolescente. Essa canção, composta por Georges Garvarentz, com letra de Charles Aznavour, foi lançada em 1961 e permaneceu durante nove semanas como número 1 no quadro de vendas de simples, durante os meses de março a maio de 1962. O próprio Charles Aznavour veio também a gravar, posteriormente, essa canção, além da inesquecível Sylvie Vartan.
She” (Ela, em português) é a versão mais conhecida em todo o mundo, da canção “Tous Les Visages de L'amour” (Todas as Faces do Amor, em português), lançada em 1974 por Charles Aznavour, seu compositor. A versão inglesa, lançada pouco após o surgimento da original francesa, foi composta em parceria com o britânico Herbert Kretzmere e gravada por Aznavour. Sem obter grande receptividade nos Estados Unidos nem na França, chegou ao primeiro lugar na lista das mais ouvidas na Inglaterra, feito até então inédito para um músico francês. Em 1999, “She” foi regravada pelo britânico Elvis Costello, para a trilha sonora do filme Notting Hill (Um Lugar Chamado Notting Hill, na tradução brasileira), alcançando rapidamente sucesso mundial. Houve ainda uma versão em italiano, composta no mesmo ano, em parceria entre Aznavour e o compositor italiano Giorgio Calabreses, intitulada “Lei” (Ela, em português). Mais recentemente, em 2006, a cantora italiana Laura Pausini lançou nova versão em italiano, rebatizada como “Uguale a Lei” (Igual a Ela, em português). Com vocês, Charles Aznavour cantando “She”.
La Bohème” é uma canção escrita pelo músico francês Jacques Plante em parceria com Charles Aznavour. Essa é a canção assinatura de Aznavour, além de um marco e uma das mais populares canções em língua francesa. A letra da melodia fala de um pintor relembrando seus anos de juventude em Montmartre, bairro boêmio de Paris, sua vida artística e os anos quando sentia fome, mas era feliz. De acordo com Aznavour, essa canção é um adeus aos últimos dias da boêmia Montmartre. A gravação original de Aznavour foi realizada em 1965, tornando-se um sucesso internacional no mesmo ano, permanecendo por longo tempo nos quadros das dez mais da Argentina, Brasil, França e vários outros países. O próprio Aznavour gravou “La Bohème” em versões em italiano, espanhol, inglês, alemão e numa rara gravação em português, tendo sido apresentada, virtualmente, em todos os seus concertos pelo mundo.
E com essa melodia, encerramos a nossa apresentação - que poderia estender-se por várias páginas -, das músicas desse magistral chansonier que tanto encantou a nossa vida, por tantos anos. É o nosso tributo e o nosso adeus a Charles Aznavour!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 8 (Final)

V – IMPÉRIO TIMÚRIDA (1370-1507)


Reconstrução facial de Timur
a partir do crâneo
O Irã permaneceu dividido até a chegada de Amir Timur (ou Tamerlão, do turcomano Timur-i-Lenk, Timur, o coxo), de origem mongol ou turca, pertencendo à dinastia Timurid. O Império Timúrida, como seus predecessores, era também parte do mundo Persianato e no seu auge envolveu o Irã moderno, o Cáucaso, Mesopotâmia, Afeganistão, muito da Ásia Central, bem como partes do atual Paquistão, Síria e Turquia. Timur conquistou grandes partes da Ásia Central de 1363 em diante, com várias alianças, sendo reconhecido como líder entre eles em 1370.
Após estabelecer uma base de poder na Transoxiana, Timur iniciou sua campanha para o oeste em 1380, invadindo o Irã em 1381. Cerca de 1389 Timur havia adentrado o território principal da Pérsia onde teve muitos sucessos, acabando por conquistar sua maior parte. Em 1400-1401 ele conquistou Alepo e Damasco, na Síria e a área oriental da Anatólia; em 1401 ele destruiu Bagdá e em 1402 derrotou os Otomanos na Batalha de Ankara, tornando-se o mais proeminente governante muçulmano da época, com o Império Otomano mergulhando na guerra civil. Seu regime caracterizou-se pela inclusão de iranianos em posições administrativas e pela promoção da arquitetura e poesia e durou até a sua morte em 1405.
Timur indicara seus filhos e netos como líderes das diferentes partes do seu império. Após a sua morte a família caiu rapidamente em disputas e guerras civis e muitas das suas governanças tornaram-se efetivamente independentes. Entretanto os governantes timúridas continuaram a dominar muito daquela área, perdendo os territórios do Cáucaso e Anatólia cerca de 1430.
Com a destruição das cidades persas pelas guerras, o assento da cultura persa quedou-se em Samarkand e Herat, que se tornaram centros da renascença timúrida. As campanhas de Timur ficaram conhecidas por sua brutalidade: muitas cidades foram destruídas e estima-se que suas conquistas custaram a morte de 17 milhões de pessoas.
Seus sucessores Timúridas, mantiveram o poder sobre a maioria do Irã até 1452, quando perderam a maior parte para os Kara Koyunlu, que foram conquistados pelos Ak Koyunlu, liderados por Uzun Hasan, em 1468; Uzun Hasan e seus sucessores foram os governantes do Irã até a ascensão dos Safávidas.

V.1 – OS KARA KOYUNLU

Os Kara Koyunlu, também chamados “Turcomanos das Ovelhas Negras” foram uma federação tribal Oghuz Turca xiita que governou o território que compreendia os atuais Azerbaijão, Armênia, noroeste do Irã, Turquia Oriental e a região nordeste do Iraque, de 1375 a 1468. Em algum momento eles haviam estabelecido sua capital em Herat (Irã Oriental). Foram vassalos do Sultanato Jalairida, em Bagdá e Tabriz (extremo noroeste do Irã), cerca de 1375, quando o líder de sua tribo principal governava de Mosul (cidade do norte do Iraque, no rio Tigre). Eles então se rebelaram contra os Jalairidas, assegurando sua independência da dinastia com a conquista de Tabriz por Qara Yusuf. Em 1400, Timur derrotou Kara Koyunlu e Qara Yusuf fugiu para o Egito buscando refúgio com o Sultanato Mameluco. Cerca de 1406 ele reuniu um exército e tomou novamente Tabriz. Em 1410 os Kara Koyunlu capturaram Bagdá, onde instalaram uma linha secundária dos “Ovelhas Negras” que apressou a queda dos Jalairidas que eles haviam servido anteriormente. Embora a luta interna entre os descendentes de Qara Yusuf após a sua morte, em 1420, e a crescente ameaça da dinastia Timúrida, os Kara Koyunlu mantiveram um forte controle sobre as áreas que eles dominavam. Jahan Shah fez paz com o timúrida Shahrukh Mirza que durou pouco, pois quando este morreu, em 1447, os “Ovelhas Negras” anexaram porções do Iraque e a costa oriental da Península Arábica, além da região ocidental do Irã controlada pelos timúridas. Embora muito território tenha sido ganho durante o seu reinado, ele foi complicado por seus filhos rebeldes e os quase autônomos governantes de Bagdá, que ele expulsou em 1464. Em 1466, Jahan Shah tentou tomar Diyarbakir (na atual Turquia) dos Ak Koyunlu, sofrendo um catastrófico fracasso que terminou com a morte de Jahan Shah e o colapso do controle dos “Ovelhas Negras” turcomanos no Oriente Médio. Cerca de 1468, no seu auge, sob Uzun Hasan (1452-1478), os Ak Koyunlu derrotaram os Kara Koyunlu e conquistaram o Iraque, o Azerbaijão e o Irã Ocidental.

V.2 – OS AK KOYUNLU

Os Ak Koyunlu (ou Aq Qoyunlu), também chamados de Turcomanos das “Ovelhas Brancas”, foram uma federação tribal turca do Persianato Sunita Oghuz que governou os modernos Azerbaijão, Armênia, Turquia Oriental, parte do Irã e o norte do Iraque, de 1378 a 1501. De acordo com as crônicas sobre o Império Bizantino, os Ak Koyunlu foram os primeiros do distrito de Bayburt (região da Anatólia Nordeste da Turquia), ao sul das montanhas Pontic, pelo menos desde os 1340, e a maioria de seus líderes, incluindo o fundador da dinastia, Qara Osman, casaram com princesas bizantinas. Os turcomanos Ak Koyunlu compraram suas primeiras terras em 1402, quando Timur lhes garantiu todo Diyar Bakr, a sudeste da atual Turquia. Por muito tempo os “Ovelhas Brancas” não puderam expandir seu território pois seus rivais, “Ovelhas Negras”, os mantinham cercados. Isso mudou com o governo de Uzun Hassan que derrotou seu líder Jahan Shah em 1467. Após a derrota de Abu As’id, o líder timúrida, Uzun Hasan conseguiu tomar Bagdá com vários territórios em torno do Golfo Pérsico. Expandiu seu reino para leste do Irã até o Khorasan. Contudo, por esta época, o Império Otomano iniciava sua expansão para o leste, tornando-se uma séria ameaça que forçou os Ak Koyunlu a uma aliança com os Karamanidas da Anatólia Central. Desde 1464 Uzun Hasan havia solicitado ajuda de um dos mais fortes inimigos do Império Otomano, Veneza. Embora suas promessas, a ajuda veneziana nunca chegou e, como resultado, Uzun Hasan foi derrotado pelos Otomanos na batalha de Otlukbeli, em 1473, embora os Ak Koyunli não fossem destruídos. Uzun Hasan morreu no início de 1478 e foi sucedido por seu filho Khalil Mirza, derrotado por uma confederação sob o comando de seu irmão mais jovem Ya’qub, na batalha de Khoy, em julho do mesmo ano. Ya’qub reinou de 1478 a 1490 sustentando a dinastia ainda por algum tempo. Contudo, durante seus primeiros quatro anos de reinado, sete pretendentes ao trono tiveram que ser eliminados. Após a sua morte a guerra civil irrompeu e os Ak Koyunlus se destruíram em combates internos, a ponto de deixarem de ser uma ameaça a seus vizinhos.

VI - IMPÉRIO SAFÁVIDA (1501-1736)

O Império Safávida inaugura o que na história da Pérsia é denominada de “Idade Moderna Inicial” e que vai de 1502 a 1925. Por essa razão, este será o último item da nossa publicação sobre o assunto e só o estudaremos parcialmente. 
O Império Safávida à época de sua maior extensão
A Pérsia passou por uma espécie de renascimento com a Dinastia Safávida, que reinou de 1501 a 1736 e cuja figura mais proeminente foi Shah Abbas I. Alguns historiadores creditam à dinastia Safávida a fundação do moderno Estado-Nação do Irã.
A dinastia Safávida foi uma das mais significativas dinastias governantes da Pérsia. Eles governaram um dos maiores impérios persas após a conquista muçulmana da Pérsia e estabeleceram a Escola dos Doze do islamismo xiita, como a religião oficial do seu império, marcando um dos mais pontos críticos da história muçulmana. Os Safávidas governaram de 1501 a 1722 (experimentando uma breve restauração de 1729 a 1736) e no seu auge controlaram todo o atual Irã, Azerbaijão, Armênia, a maior parte da Geórgia, o norte do Cáucaso, Iraque, Kuwait e Afeganistão, bem como partes da Turquia, Síria, Paquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. O Irã Safávida foi um dos “impérios da pólvora” muçulmanos, junto com seus vizinhos, o arquirrival e principal inimigo, o Império Otomano, e o Império Mughal (ou Mogul). 
Shah Ismail I, fundador da dinastia Safávida
O governo Safávida foi fundado por Ismail, que intitulou-se Shah Ismail I. Praticamente adorado por seus seguidores militantes xiitas do Azerbaijão, Anatólia e Curdistão (militantes Qizilbash), Ismail I invadiu o Xirvam (cidade do leste do Azerbaijão) para vingar a morte de seu pai Shaykh Haydar, morto durante o cerco de Derbente (cidade mais meridional da Rússia), na república do Daguestão, mar Cáspio. Posteriormente seguiu em campanha de conquista e logo após a captura de Tabriz (uma das capitais históricas do Irã), em julho de 1501, entronou-se como Shah do Azerbaijão e cunhou moedas com seu nome, proclamando o Xiismo como religião oficial de seus domínios.
Embora inicialmente apenas os mestres do Azerbaijão e sul do Dagestão, os Safávidas haviam, de fato, vencido a luta pelo poder na Pérsia, que persistia por quase um século entre as várias dinastias e forças políticas que se seguiram à fragmentação dos Kara Koyunlu e dos Ak Koyunlu. Após um ano de sua vitória em Tabriz, Ismail I proclamou a maior parte da Pérsia como seu domínio e rapidamente conquistou e unificou o Irã sob seu governo. Em seguida, o novo Império Safávida rapidamente conquistou regiões, nações e povos em todas as direções, incluindo a Armênia, Azerbaijão, partes da Geórgia, Mesopotâmia (Iraque), Kuwait, Síria, Dagestão, grande parte do atual Afeganistão, partes do Turquemenistão e grandes áreas da Anatólia, lançando a fundação do caráter multiétnico que influenciaria pesadamente o próprio Império (muito notadamente o Cáucaso e seus povos).
Durante o reinado de Tahmasp, ele realizou múltiplas invasões no Cáucaso, que havia sido incorporado ao Império Safávida desde Shah Ismail I e por muitos séculos adiante, e iniciou o movimento de deportação e movimentação de centenas de milhares de circassianos, georgianos e armênios para o território central do Irã. Inicialmente somente colocados nos haréns reais, guardas reais e seções menores do Império, Tahmasp acreditava que poderia eventualmente reduzir o poder dos militantes xiitas criando e completamente integrando uma nova camada na sociedade iraniana. Com essa nova camada caucasiana na sociedade iraniana, o poder indisputado dos Quizilbash seria questionado e muito diminuído à medida que a sociedade tornava-se totalmente meritocrática. 
Shah Abbas I, o maior dos
monarcas Safávidas
Shah Abbas I e seus sucessores expandiriam significativamente esta política e planejamento iniciado por Tahmasp, deportando, somente durante seu reino, cerca de duzentos mil georgianos, trezentos mil armênios e de cem a cento e cinquenta mil circassianos para o Irã, completando as fundações de uma nova camada na sociedade iraniana. Com isso e com a completa desorganização dos Qizilbash por suas ordens pessoais, ele acabou por ter um completo sucesso na substituição do poder dos Qizilbash pelo dos ghulams (soldados escravos nos impérios Abássida, Otomano, Safávida e, em menor extensão, Mughal, com plural ghilman) caucasianos. Estes novos elementos caucasianos seriam, após sua conversão ao xiismo e dependendo da função, quase sempre totalmente leais ao Shah, diferentemente dos Qizilbash. As demais massas de caucasianos foram organizados em todas as outras posições disponíveis no império, incluindo o harém, exército regular, artesãos, fazendeiros etc... Este sistema de uso em massa dos súditos caucasianos existiu até a queda da dinastia Qajar.
O maior dos monarcas Safávidas, Shah Abbas I, o Grande (1587-1629), chegou ao poder com 16 anos, lutando primeiro contra os Uzbeques (habitantes do Uzbequistão), recapturando Herat e Mashhad em 1598, perdidas por seu antecessor Mohammad Khodabanda com a Guerra Otomana-Safávida (1578-1590). Depois ele virou-se contra os Otomanos, arquirrivais dos Safávidas, recapturando Bagdá, o leste do Iraque e as províncias do Cáucaso e além, cerca de 1618. Entre 1616 e 1618, após a desobediência de seus mais leais súditos georgianos Teimuraz I e Luarsab II, Abbas realizou uma campanha punitiva nos seus territórios da Geórgia, devastando Kakheti (antiga província no extremo leste da Georgia) e Tbilisi (capital e maior cidade da atual Georgia), carregando consigo entre 130.000 e 200.000 cativos georgianos para o Irã. Seu novo exército, que havia sido grandemente melhorado de acordo com o modelo britânico, com o advento de Robert Shirley e seus irmãos, que se seguiram à primeira missão diplomática na Europa, infligiram sua primeira vitória sobre os otomanos, sobrepujando-os em poderio militar. Ele também usou sua nova força para expulsar os portugueses do Bahrain (1602) e de Ormuz (1622) com a ajuda da marinha inglesa, no Golfo Pérsico. Expandiu os laços comerciais com a Companhia das Índias Orientais, estabelecendo firmes laços com as casas reais europeias, iniciados por Ismail I, anteriormente, pela aliança Habsburg-Pérsia. Assim, Abbas I pôde quebrar a dependência dos Qizilbash de poderio militar, centralizando o controle. A dinastia Safávida já havia se estabelecido com Shah Ismail I, mas com Abbas I tornou-se uma das maiores potências mundiais, junto com seu arquirrival Império Otomano, com o qual ele pode competir em pé de igualdade. Foi iniciada a promoção do turismo no Irã e sob o seu governo a arquitetura persa floresceu novamente e viu muitos novos monumentos em várias cidades iranianas, das quais Isfahan tornou-se o mais notável exemplo.
Exceção feita a Shah Abbas, o Grande, Shah Ismail I, Shah Tahmasp I e Shah Abbas II, muitos dos governantes Safávidas foram ineficazes, muitas vezes com mais interesse em suas mulheres, álcool e outras atividades de lazer. O fim do reinado de Abbas II, em 1666, marcou o início do fim da dinastia Safávida. A despeito das receitas decrescentes e das ameaças militares, muitos dos últimos shahs tinham pródigos estilos de vida. O Shah Soltan Hosain (1694-1722), em particular, era conhecido por seu amor ao vinho e seu desinteresse pelas ações de governo.
O país em declínio era repetidamente atacado em suas fronteiras. Finalmente, o chefete Ghilzai Pashtun, nomeado Mir Wais Khanm, iniciou uma rebelião em Kandahar e derrotou o exército Safávida sob o governador georgiano iraniano sobre toda a região, Gurgin Khan. Em 1722, Pedro o Grande, da vizinha Rússia Imperial, lançou a Guerra Russo-Persa (1722-1723) capturando muito dos territórios caucasianos, incluindo Derbent, Shaki, Baku, mas também Gilan, Mazandaran e Astrabad. No meio de todo o caos, no mesmo ano de 1722, um exército afegão conduzido pelo filho de Mir Wais, Mahmud, marchou através do Irã oriental, sitiou e tomou Isfahan, com Mahmud proclamando-se Xá da Pérsia. Enquanto isso, os rivais imperiais da Pérsia, otomanos e russos, tiravam vantagem do caos no país para tomar mais territórios para si. Com esses eventos, a dinastia Safávida efetivamente terminava. Em 1742, de acordo com o tratado de Constantinopla, os otomanos e russos concordaram em dividir entre si os territórios recém conquistados do Irã.
A integridade territorial do Irã foi restaurada por um líder militar iraniano nativo de origem turca, da dinastia Afshar, do Khorasan, chamado Nader Shah. Ele derrotou e baniu os afegãos, derrotou os otomanos, reinstalou os Safávidas no trono e negociou a retirada russa dos territórios iranianos no Cáucaso, pelos tratados de Resht e Ganja. Por 1736, Nader tinha se tornado tão poderoso que pode destronar os Safávidas coroando-se Shah. Nader foi um dos últimos grandes conquistadores da Ásia e brevemente possuiu o que foi provavelmente o mais poderoso império do mundo. Para ajuda financeira em suas guerras contra seus arquirrivais otomanos, ele se dedicou ao fraco, mas rico Império Mughall a leste, na Índia. Em 1739, acompanhado por seus leais súditos caucasianos, ele invadiu a Índia Mughall, derrotou um exército numericamente superior em menos de três horas, saqueando e pilhando totalmente a sua capital, Delhi, levando uma imensa fortuna de volta à Pérsia. Em seu retorno também conquistou todos os canatos do Uzbequistão, exceto Kokand, tornando-os seus vassalos. Restabeleceu firmemente o domínio persa sobre todo o Cáucaso, Bahrain, bem como grandes áreas da Anatólia e Mesopotâmia. Sem sofrer derrotas por muitos anos, sua derrota no Daguestão, as rebeliões de guerrilha dos Lezgins que se seguiram e a sua tentativa de assassinato próximo de Mazandaran, é muitas vezes vista como o ponto crítico da impressionante carreira de Nader. Frustrante para ele, os dagestanis recorreram à guerrilha e Nader, com seu exército regular pode fazer pouco progresso contra eles. Na Batalha de Andalal e na Batalha de Avaria, o exército de Nader foi totalmente derrotado e ele foi obrigado a fugir para as montanhas. Em 1747 ele foi finalmente assassinado. Sua morte foi seguida por um período de anarquia no Irã com os comandantes rivais do exército lutando por poder. A própria família de Nader, os afsharidas, logo foram reduzidos a manter apenas um pequeno domínio no Khorasan. Muitos dos territórios caucasianos se dividiram em vários canatos caucasianos. Os otomanos recuperaram territórios perdidos na Anatólia e Mesopotâmia. Oman e os canatos do Uzbequistão de Bukhara e Khiva recuperaram sua independência. Ahmad Shah Durrani, um dos oficiais de Nader, fundou um estado independente que veio a tornar-se o atual Afeganistão. Erekle II, que havia sido indicado rei do Kakheti pelo próprio Nader em 1744, declarou-se independente e tomou para si o vizinho Reino de Kartli. Mais tarde ele uniria o Reino de Kartli-Kakheti e tornar-se ia o novo rei georgiano de uma Geórgia Oriental politicamente unida pela primeira vez em três séculos. De sua capital Shiraz, Kharim Khan, da dinastia Zand, fez uma ilha de relativa calma e paz no que anteriormente havia sido um período destrutivo e sangrento; contudo, a extensão do poder Zand foi confinado ao Irã contemporâneo e partes do Cáucaso. Entre 1747 e 1795, durante o período Zand, Erekle foi, portanto, pelos acontecimentos no Irã, capaz de manter a autonomia da Geórgia. A morte de Karim Khan em 1779 conduziu a uma outra guerra civil em que a dinastia Qajar acabou por triunfar transformando-se em reis do Irã. Durante a guerra civil, o Irã perdeu, permanentemente, Basra, capturada pelos persas durante a guerra persa-otomana em 1779 e Bahrain para a família Al Khalifa após a invasão Bani Utbah, em 1783.
A partir daí, já entramos na idade moderna do Irã, que foge do escopo de nossa apresentação do Império Persa, conforme explicitado na Introdução, razão pela qual aqui encerramos a nossa postagem.

VII - CONCLUSÃO

A história do Império Persa é bem mais complexa que a de outros impérios similares e sua pesquisa foi bem mais trabalhosa que outras publicações, por vários motivos.
Sua região física, banhada pelo Mar Báltico, ao norte, e pelo Golfo Pérsico, ao sul, rota estratégica entre os países asiáticos, o Oriente Médio e a Europa, através do Mar Mediterrâneo e a Turquia, sempre foi muito cobiçada por muitos outros povos conquistadores – quando ele mesmo não exerceu este papel. Com isso, foi inevitável que sofresse, enormemente, a influência dos gregos, romanos e muitas outras nações, mas principalmente dos árabes muçulmanos, durante todo o extenso período em que foi por eles ocupado.
Em função disso, o Irã moderno, embora tenha preservado, em muito, suas próprias origens culturais, não pode esconder a imensa influência sofrida durante os muitos anos em que foi ocupado por outras civilizações.
Prova disso, a religião do Irã é, oficialmente, o islamismo do ramo Xiita, estabelecida pela constituição do país, já que o islamismo não adota a separação entre Igreja e Estado, integrando o seu governo desde a islamização do Irã, cerca do ano 640. O islamismo é professado por 99,9% da população, sendo que 93,6 5 são adeptos do xiismo; outros 6,3% seguem a seita Sunita. Os remanescentes (0,1% da população) são seguidores de credos não islâmicos, que incluem os Zoroastrianos (religião original do Império Persa, com poucas dezenas de milhares de praticantes), Judeus, Cristãos e outros. Como vimos, antes da chegada do Islamismo ao Irã, a maioria da população era Zoroastriana, culto oficial do Império Sassânida; em 1986 estimava-se a existência de 32 mil zoroastrianos no Irã, residindo principalmente nas cidades de Teerã, Yazd e Kerman. A comunidade judaica no Irão remonta aos tempos do cativeiro da Babilônia; quando Ciro II autorizou o regresso dos Judeus a Jerusalém, muitos optaram por permanecer, adotando a língua e cultura persas. A outra minoria religiosa relevante no Irão é formada pelos cristãos, estimados em 300.000, em sua maioria ortodoxos armênios, seguidos por cristãos assírios, com autonomia nas instituições de ensino. O Cristianismo é também oficialmente protegido pela constituição iraniana.
Com relação à língua, os iranianos foram bem mais felizes e o Persa é, atualmente, o idioma oficial do país. Lembrando o que vimos anteriormente, o movimento Shu’ubiyyah, criado nos séculos IX e X em resposta ao status privilegiado dos árabes, primariamente com a intenção de preservar a cultura e a identidade persas, teve como seu mais notável efeito a manutenção da língua persa até os dias atuais. Persa, o nome mais utilizado para se referir ao idioma em português, é uma forma derivada do latim e uma forma helenizada do persa antigo Parsa. Os falantes nativos do persa iraniano chamam o idioma de Farsi, forma arabizada de Parsi já que o árabe não possui o fonema “p”.
Quanto à sua etnia, por tudo quanto dissemos anteriormente, é muito fácil entender que o Irã é hoje um país multirracial. A maioria da população do Irã (entre 67 e 80%) consiste de “povos iranianos”. O maior grupo dessa categoria inclui os persas (maioria da população iraniana) e os curdos, com comunidades menores que incluem os Gilakis, Mazandaranis, Lurs, Tats, Talysh e Baloch.
Os grupos turcos (caucasianos) constituem uma minoria substancial (cerca de 15 a 24%), cujo maior grupo é o dos Azerbaijani, segunda maior etnia do Irã bem como o maior grupo minoritário. Outros grupos turcos incluem os povos Turcomanos e Qashqai.
Os árabes respondem com cerca de 2 a 3% da população iraniana. Os restantes, compondo 1% da população iraniana, consistem de uma variedade de grupos menores, compreendendo principalmente Assírios, Armênios, Georgianos, Circassianos e Mandaeanos.
Esta a história resumida do Império Persa, iniciado há 7.000 anos AC e sobrevivendo com todos os seus percalços até hoje.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 6

Efígie de Kavad I sobre dinar de ouro

Kavad I foi um soberano enérgico e reformador, dando apoio à seita fundada por Mazdak, que exigia que o rico dividisse suas esposas e seus bens com os pobres, com a evidente intenção de quebrar a influência dos magnatas e da crescente aristocracia. Suas reformas conduziram à sua deposição e prisão no “Castelo do Esquecimento”, em Susa, com a elevação ao trono, de seu irmão mais jovem Jamasp (Zamaspes), em 496. Jamasp (496-498), instalado no trono por membros da nobreza, foi um bom rei que reduziu impostos para aliviar os camponeses e os pobres e aderiu à principal corrente da religião Zoroastriana, que haviam custado a Kavad I o trono e sua liberdade. Seu reino logo terminou quando Kavad I, que havia fugido em 498, recebendo abrigo do rei Huno, à frente de um enorme exército, retornou à capital do Império e tomou o trono.
A segunda era dourada começou com o segundo reinado de Kavad I. Com o apoio dos Hunos Brancos, Kavad I lançou uma campanha contra os romanos, conquistando Theodosiopolis (extremo leste da Turquia moderna), na Armênia, em 502 embora logo perdendo-a novamente. Em 503 ele tomou Amida, na margem direita do Tigre, hoje pertencendo à moderna Turquia. Em 504, uma invasão da Armênia pelos hunos ocidentais do Cáucaso, conduziu a um armistício, ao retorno de Amida ao controle romano e a um tratado de paz em 506. Em 521/522, Kavad perdeu o controle de Lazica (hoje região do oeste da moderna Georgia, margens do Mar Negro), cujos monarcas se aliaram aos romanos; uma tentativa dos ibéricos, em 524/525, para agir da mesma forma, desencadeou uma guerra entre Roma e a Pérsia. Em 527 uma ofensiva romana contra Nisibis foi repelida e os esforços romanos de fortificar posições próximo às fronteiras foi frustrada. Em 530 Kavad I enviou um exército para atacar Dara, importante cidade de fronteira romana ao leste, com os romanos derrotados na Batalha de Dara. Várias batalhas foram travadas nessas chamadas Guerras Ibéricas, com vitorias e derrotas de ambos os lados até que, em 532, uma paz “eterna” foi celebrada. Embora sem poder se livrar dos laços com os Hunos, Kavad I restaurou a ordem no interior e lutou com geral sucesso contra os romanos orientais, fundou várias cidades, algumas com seu nome e iniciou a regulação dos impostos e a administração interna. 
Khosrau I, o mais celebrado
monarca sassânida
Após Kavad I, reinou seu filho Khosrau I (também conhecido por Anushirvan) de 531 a 579, o mais celebrado dos monarcas sassânidas. Khosrau I ficou famoso por suas reformas no corpo governante dos anciãos sassânidas, pela introdução de um racional sistema de impostos iniciado por seu pai e por suas tentativas em aumentar a riqueza e as receitas de seu império. Desenvolveu uma nova força de cavalheiros pagos e equipados pelo governo e burocracia centrais, ligando o exército e a burocracia ainda mais proximamente do governo central do que aos lordes locais. Em 540, Khosrau I quebrou o tratado de paz invadindo a Síria, saqueando a Antióquia e arrebatando grandes somas de dinheiro de um grande número de cidades. Nos anos que se seguiram, obteve outros sucessos, interrompidos em 545 por uma trégua que foi novamente interrompida em 547; a guerra reiniciou, confinada à posse de Lazica que ficou com os bizantinos quando a paz foi concluída em 562.
Revoltas na Armênia provocaram, em 571, o massacre do governador persa e sua guarda, do que se aproveitou o imperador romano Justiniano II para interromper os pagamentos anuais a Khosrau I para a defesa dos passes do Cáucaso. As guerras recomeçaram fazendo com que Justiniano II concordasse a reiniciar os pagamentos anuais em troca de uma trégua de cinco anos na frente mesopotâmica, embora a continuação da guerra em outros locais. Em 576 Khosrau I liderou sua última campanha, uma ofensiva na Anatólia que acabou em desastre: os persas sofreram pesadas perdas em sua fuga através do Eufrates sob ataque bizantino. Aproveitando a desorganização persa, os bizantinos penetraram profundamente no território de Khosrau I, mesmo pelo Mar Cáspio. Khosrau implorou por paz, mas decidiu continuar a luta na Armênia e na Mesopotâmia. A revolta armênia chegou a um fim com uma anistia geral e o retorno da Armênia ao Império Sassânida.
Hormizd IV (579 a 590) assumiu o trono após Khosrau I. A guerra com os bizantinos prosseguiu furiosa, mas de forma inconclusiva, até que o general Bahram Chobin, dispensado e humilhado por Hormizd IV, revoltou-se em 589. No ano seguinte ele foi derrubado do palácio por um golpe e seu filho Khosrau II (590 a 628) colocado em seu lugar. Tal mudança não aplacou Bahram que derrotou Khosrau II, forçando-o a fugir para território bizantino e tomando o trono como Bahram VI. Khosrau II pediu apoio contra Bahram VI ao imperador bizantino Mauricio, oferecendo em troca o Cáucaso Ocidental aos bizantinos. Para reforçar a aliança, Khosrau II casou com Miriam, filha de Mauricio. Sob o comando de Khosrau II, com o auxílio de forças e generais romanos, a força combinada bizantino-persa derrotou Bahram na Batalha de Blarathon, em 591. Cumprindo o acordo, Khosrau II cedeu o controle da Armênia ocidental e da Ibéria caucasiana. O novo arranjo de paz permitiu aos dois impérios focar em questões militares em outros locais: Khosrau II expandiu as fronteiras orientais do Império Sassânida enquanto Mauricio restaurou o controle bizantino dos Balcãs.
Khosrau II o restaurador dos
Territórios aquemênidas
Quando Mauricio foi derrubado e morto por Phocas, em 602, Khosrau II usou o assassinato de seu benfeitor como pretexto para começar uma nova invasão que se beneficiou da guerra civil contínua no Império Bizantino, encontrando pouca resistência efetiva. Os generais de Khosrau II atacaram as fortificadas cidades da Mesopotâmia e Armênia bizantinas, lançando as fundações de uma expansão sem precedentes, aniquilando a Síria e capturando a Antióquia em 611. Em 613 os generais persas derrotaram um decisivo contra-ataque liderado pelo próprio imperador bizantino Heraclius. Depois disso, o avanço persa prosseguiu incontrolável: Jerusalém caiu em 614, Alexandria em 619 e o resto do Egito em 621. O sonho sassânida de restaurar as fronteiras aquemênidas estava quase completo, enquanto o Império Bizantino se achava à beira do colapso. Este notável pico de expansão foi acompanhado pelo florescer da arte, música e arquitetura persas.
Embora bem-sucedida num primeiro estágio (de 602 a 622), a campanha de Khosrau II havia exaurido a riqueza e o exército persas; E num esforço para reconstruir as finanças nacionais, Khosrau II sobretaxou a população. Enquanto seu império se achava à beira da derrocada, o Império Bizantino preparava uma imensa contraofensiva e partia para uma série de vitórias contra as forças persas. Como resposta, Khosrau II, em coordenação com nômades eurasianos e eslavos, lançou o cerco à capital bizantina de Constantinopla em 626. Os sassânidas atacaram a cidade pelo lado oriental do Bósforo enquanto seus aliados invadiam o lado ocidental. A frota bizantina conseguiu impedir o transporte dos persas através do Bósforo e o cerco acabou fracassando. Em contrapartida, os persas sofreram ataques dos romanos em 627-628, quando desceram o Tigre devastando o país e saqueando o palácio de Khosrau II em Dastagerd; somente não atacaram Ctesifonte por causa da destruição de pontes pelos persas, mas sofreram mais ataques no noroeste do Irã. O impacto das vitórias de Heraclius e a devastação das mais ricas terras do Império Sassânida acabaram por minar o prestígio de Khosrau II e seu apoio junto a aristocracia persa. No início de 628 ele foi destronado e assassinado por seu filho Kavad II que, imediatamente, trouxe um fim à guerra, concordando em retirar-se de todos os territórios ocupados, incluindo Jerusalém.
Kavad II morreu em dois meses, seguindo-se o caos e a guerra civil. Em um período de quatro anos - e cinco diferentes reis, incluindo duas filhas de Khosrau II e o comandante militar Shahrbaraz -, o Império Sassânida enfraqueceu consideravelmente, com o poder da autoridade central passando pelas mãos dos generais, sem tempo para a recuperação do Império.
No início de 632, Yazdegerd III, um neto de Khosrau I que se refugiara em Estakhr (cidade do sul do Irã, província de Fars, 5 km ao norte de Persépolis), assumiu o trono. Nos mesmo ano, os primeiros ataques das tribos árabes, então unidas pelo Islamismo, chegaram ao território Persa. Yazdegerd III era ainda um menino a mercê de seus conselheiros e incapaz de unir um vasto país repartido em pequenos reinos feudais, as guerras contra o Império Bizantino haviam exaurido o Império Sassânida que sofria uma enorme declínio econômico, pesados impostos e agitação religiosa e foi impossível conter a conquista islâmica da Pérsia, mesmo sem sofrer o assédio dos romanos que também eram invadidos pelos muçulmanos, que foram tomando conta, paulatinamente, de todo o Irã. A abrupta queda do Império Sassânida foi completada em um período de cinco anos com a maioria do seu território absorvida pelo califado Islâmico, embora muitas cidades iranianas tenham lutado muitas vezes contra os invasores. Yazdegerd III, acompanhado de nobres persas fugia para as províncias mais orientais quando foi assassinado por um moleiro em 651. Muitos de seus nobres se estabeleceram na Ásia Central onde contribuíram grandemente para a difusão da cultura e língua persa e para o estabelecimento da primeira dinastia iraniana islâmica nativa, a dinastia Samânida, que buscou reviver as tradições sassânidas. A população persa, inicialmente sob pequena pressão para converter-se ao islamismo, foi gradualmente se convertendo, principalmente porque as elites de língua persa tentavam ganhar posições de prestígio bem mais tarde sob o Califado Abássida.
A Era Sassânida, abarcando todo o período da Antiguidade Final, é considerado um dos mais importantes e influentes períodos históricos do Irã, com um importante impacto mundial. De várias maneiras, o período sassânida testemunhou as maiores conquistas da civilização persa e constituiu o último grande Império Iraniano antes da adoção do islamismo. A Pérsia influenciou consideravelmente a civilização romana durante a Era Sassânida, com sua influência cultural se estendendo muito além das fronteiras territoriais do império, alcançando a Europa Ocidental, África, China e Índia, bem como representando um importante papel na formação da arte medieval europeia e asiática, prosseguindo no mundo muçulmano. A cultura única e aristocrática da dinastia transformou a conquista e destruição muçulmana do Irã, num renascimento persa. Muito do que mais tarde tornou-se conhecido como cultura, arquitetura, escrita e outras contribuições islâmicas para a civilização, foram obtidas dos persas sassânidas no mais amplo mundo muçulmano.
Sobre a conquista islâmica da Pérsia, remeto os meus leitores ao meu blog, à postagem intitulada “Uma Pequena História dos Árabes Muçulmanos”, em sete partes, que a inclui, para evitar a repetição do mesmo assunto. Da mesma forma, para o significado de termos árabes que não serão reexplicados aqui, remetemos nossos leitores àquela postagem.

IV – IRÃ MEDIEVAL

IV.1 – ERA DO CALIFADO E DO SULTANATO

IV.1.1 – O CALIFADO OMÍADA E SUAS INCURSÕES NA COSTA DO MAR CÁSPIO

Após a queda do Império Sassânida em 651, os árabes do Califado Omíada adotaram muitos costumes persas, especialmente os padrões administrativos e da corte. Os governadores provinciais árabes eram, evidentemente, ou arameus[1] persificados ou persas étnicos; certamente a língua persa permaneceu para os negócios oficiais do califado até a adoção do árabe pelo fim do século VII, quando em 692 a cunhagem iniciou na capital, Damasco. As novas moedas islâmicas evoluíram de imitações das moedas sassânidas (bem como bizantinas) quando a escrita Pahlavi (forma particular e exclusivamente escrita de várias línguas do Iraniano Médio) na cunhagem foi substituída pelo alfabeto arábico.
Durante o califado Omíada, os conquistadores árabes impuseram a arábica como a língua básica dos povos súditos por todo o império. Al-Hajjaj ibn Yusuf[2], descontente com a prevalência da língua persa no divan (alto corpo governamental em vários estados islâmicos ou seu principal funcionário), ordenou que a língua oficial das terras conquistadas fosse substituída pela arábica, algumas vezes à força.
Há muitos historiadores que vêm a regra dos omíadas no estabelecimento do “dhimmah” (uma espécie de obrigação) como uma tentativa de aumentar as taxas impostas aos cidadãos não muçulmanos, num estado islâmico, para beneficiar a comunidade árabe muçulmana financeiramente e pelo desencorajamento à conversão. Os governadores se queixavam ao califa quando ele promulgava leis que tornavam a conversão mais simples, assim privando as províncias de cobrança impostos. Quando no século VII, muitos não árabes, como persas, convertiam-se ao Islamismo, eram reconhecidos como “clientes” e tratados como cidadãos de segunda classe pela elite árabe mandante, até o final do Califado Omíada. Durante essa era, o Islamismo foi inicialmente associado com a identidade étnica do árabe e exigia uma associação formal com uma tribo árabe e a adoção do status de cliente (mawali, muçulmano não árabe).
Contudo, nem todo o Irã estava ainda sob o controle árabe, com várias regiões ainda sob controles iranianos locais; tais regiões haviam sido invadidas pelos árabes sem resultados decisivos pela inacessibilidade dos seus terrenos.
Com a morte do califa omíada Hisham ibn Abd al-Malik, em 743, o mundo islâmico entrou em uma guerra civil. O general persa convertido Abu Muslim foi enviado ao Khorasan pelo califado Abássida, inicialmente, como um propagandista e então para fazer a revolta em seu nome. Ele tomou Merv derrotando seu governador omíada Nasr ibn Sayyar, tornando-se o governador abássida, de fato, do Khorasan. Durante o mesmo período, o governador persa do Tabaristão e partes do Khorasan oeste, Khurshid, da dinastia Dabuyid, declarou sua independência dos omíadas, mas logo foi forçado a reconhecer a autoridade abássida. Em 750, Abu Muslim tornou-se o líder do exército abássida e derrotou os omíadas na Batalha de Zab, atormentando Damasco, a capital do Califado Omíada, ao final do mesmo ano.

IV.1.2 – O CALIFADO ABÁSSIDA E OS GOVERNOS IRANIANOS SEMI-INDEPENDENTES

O exército abássida consistia, principalmente, de khorasanianos e era conduzido pelo general Abu Muslim Khorasani, congregando elementos árabes e iranianos, com apoio também de ambos. Os abássidas depuseram os omíadas em 750, com a revolução abássida definitivamente marcando o fim do império árabe e o início de um Estado mais inclusivo e multiétnico no Oriente Médio.
Uma das primeiras alterações por eles realizadas após a tomada do poder, foi a mudança da capital do império de Damasco, no Levante, para o Iraque, região influenciada pela história e cultura persa, parte da demanda persa mawali, por influência árabe no império. A cidade de Bagdá foi construída no rio Tigre, no ano 762, para servir de nova capital do Império Abássida.
Os abássidas criaram a posição de vizir (vice califa ou segundo em comando, mas também espécie de consultor político de alto nível ou ministro), como os Bartmakids (influente família iraniana) em sua administração. Essa mudança fez com que muitos califas dos abássidas terminassem com um papel muito mais cerimonial do que antes, deixando aos vizires o poder real. Uma nova burocracia persa começou a substituir a antiga aristocracia árabe, com toda a administração refletindo tais mudanças e demonstrando que a nova dinastia era diferente dos omíadas de várias formas.
Pelo século IX, o controle abássida começou a declinar porque os líderes regionais se abalaram aos cantos mais remotos do império desafiando a autoridade central do Califado Abássida, que começou a recrutar os mamelucos, que se haviam movido da Ásia Central para a Transoxiana, como escravos guerreiros, no início do século IX. Com isso, logo em seguida o poder dos califas abássidas caiu a tal ponto que eles se tornaram apenas títeres religiosos enquanto os mamelucos realmente governavam.
Com a diminuição do poder abássida, uma série de dinastias surgiu em várias partes do Irã, algumas com considerável influência e poder. Entre as mais importantes dessas dinastias sobrepostas, estava a dos Tairidas, no Khorasan (821-873), a dos Safáridas, no Sistão[3] (861-1003, seu governo durou como maliks, do Sistão, até 1537), e os Samânidas (819-1005), originalmente em Bukhara[4]. Os Samânidas acabaram por governar uma área que ia do Irã Central ao Paquistão.
Pelo início do século X, os abássidas quase perderam o controle para a crescente facção persa conhecida como Dinastia Buyida (934-1062). Dado que muito da administração abássida tinha mesmo sido persa, os buyidas puderam, muito calmamente, tomar o poder real em Bagdá. Entretanto, os buyidas foram derrotados no meio do século XI pelos Turcos Seljúcidas[5], que continuaram a exercer influência sobre os abássidas, enquanto publicamente hipotecavam fidelidade a eles. O equilíbrio de poder em Bagdá permaneceu assim – com os abássidas no poder, apenas no nome – até que a invasão mongol de 1258 saqueou a cidade e definitivamente encerrou a dinastia abássida.
Durante o período abássida uma alforria foi experimentada pelos mawali e uma mudança foi feita na concepção política, de um império primariamente árabe (etnia), para um império muçulmano (religião); cerca de 930, uma exigência foi decretada para que todos os burocratas do império fossem muçulmanos.


[1] Os arameus (ou arameanos) eram um povo semita que viveu em Aram (região da atual Síria) e também na Mesopotâmia. A palavra vem do Aram bíblico, filho de Sem e neto de Noé, considerado pai da antiga civilização dos Arameanos, que falavam o Aramaico.
[2] Abū Muhammad al-Ḥajjāj ibn Yūsuf ibn al-Ḥakam ibn ʿAqīl al-Thaqafī‎‎ (661–714), abreviadamente conhecido por al-Hajjaj ibn Yusuf, foi talvez o mais notável governador que serviu ao Califado Omíada. Estadista extremamente capaz, embora cruel, rígido no caráter, mas também um governante duro e exigente, foi muito temido por seus contemporâneos e tornou-se uma figura profundamente controversa bem como objeto de profunda inimizade por parte de escritores posteriores pró-abássida, que lhe atribuíram perseguições e execuções em massa.
[3] O Sistão é uma região histórica e geográfica que, nos dias atuais, incluiria o Irã Oriental, o sul do Afeganistão (Nimruz e Kandahar) e o Paquistão Ocidental.
[4] Hoje uma cidade museu do Uzbequistão.
[5] Os turcos seljúcidas ou Dinastia Seljúcida, conforme já falamos em nossa postagem sobre os Árabes Muçulmanos, foi uma dinastia muçulmana sunita (o maior ramo do Islamismo) de turcos Oghuz (da Ásia Central, de língua oghuz) que, gradualmente, tornou-se uma sociedade persa na Ásia Central e Ocidental medieval. Os seljúcidas estabeleceram o Império Seljúcida e o Sultanato de Rum que, em seu ápice, estendeu-se da Anatólia por todo o Irã.

A postagem prossegue com a PARTE 7

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 4

III.3 – IMPÉRIO PARTA (OU IMPÉRIO ARSÁCIDA) (247 AC-224 DC)
 
Andrágoras, o sátrapa selêucida que
deu origem ao Império Parta
 
Para bem entendermos a ascensão do Império Parta, temos que voltar um pouco no tempo já que os partas surgiram na história do Irã, bem antes da queda do Império Selêucida.
Em 247 AC, conforme já mencionado acima, Andrágoras, o governador Selêucida (sátrapa) da Pártia, proclamou a independência dos selêucidas, no momento em que, seguindo a morte do rei da Pérsia, Antíoco II, Ptolomeu III (terceiro rei da dinastia ptolemaica, no Egito, de 246 a 222 AC) tomou o controle da capital Selêucida na Antióquia, deixando incerto, por um período, o futuro da dinastia Selêucida. 
Arsaces I, fundador da dinastia
Arsácida da Pártia
Antes que Arsaces I da Pártia se tornasse o fundador da dinastia Arsácida, ele fora eleito líder das tribos Parni (dos Parnos), uma antiga tribo do centro da Ásia, de povos de etnia iraniana oriental e uma das várias tribos nômades da confederação do Dahae. Falavam uma língua iraniana oriental, em contraste com a língua iraniana do noroeste, falada naquela época na Pártia, província do noroeste, primeiro sob os aquemênidas e então sob o Império Selêucida. Com a independência da Pártia do Império Selêucida e a resultante perda do apoio militar daquele império, Andrágoras teve dificuldade na manutenção da suas fronteiras e cerca de 238 AC, sob o comando de Arsaces I e seu irmão Tiridates, os Parnos invadiram a Pártia tomando controle da sua região norte. Logo em seguida os Parnos tomaram o resto da Pártia de Andrágoras, matando-o no processo. O Império Parta foi, portanto, o reino da dinastia Arsácida (de Arsaces I), que reuniu e governou o Platô Iraniano após a conquista Parni de Pártia, derrotando o Império Selêucida ao final século III AC, com o controle intermitente da Mesopotâmia entre 150 AC e 224 DC. O Império Parta rapidamente incluiu também a Arábia Oriental. 
Fraates I, primeiro imperador Arsácida
sem interferência Seêucida
Por um tempo, Arsaces consolidou a posição na Pártia e Hircânia (província a sudeste do mar cáspio no moderno Irã), aproveitando a invasão do território selêucida no oeste por Ptolomeu III (246-222 AC) do Egito. Este conflito com Ptolomeu, a Terceira Guerra Síria[1], também permitiu que Diodotus I (sátrapa selêucida da Báctria) se rebelasse formando o Reino Greco-Bactriano, na Ásia Central, conforme visto anteriormente. Seu sucessor, Diodotus II, formou uma aliança com Arsaces contra os Selêucidas, mas Arsaces foi temporariamente despejado da Pártia pelas forças de Selêucos II (como vimos anteriormente), em 246-225 AC. Após algum tempo no exílio entre a tribo nômade Apasiacae, Arsaces conduziu um contra-ataque e recapturou a Pártia. Antíoco III, o Grande (222-187 AC), não pode retaliar à época pois suas tropas se encontravam envolvidas no sufoco da rebelião de Molon na Média. Em 210 ou 209, entretanto, ele lançou uma campanha maciça para retomar a Pártia e Báctria, sem sucesso, mas com um armistício de paz com Arsaces II: este ficava com o título de rei em troca de sua submissão a Antíoco III como seu superior. Os Selêucidas não puderam mais intervir nos assuntos da Pártia devido à crescente intromissão da República Romana e a derrota selêucida em Magnésia (região da Grécia), em 190 AC. Phriapatius da Pártia (191-176 AC) sucedeu a Arsaces II e Fraates I da Pártia (176-171 AC) posteriormente ascendeu ao trono, governando a Pártia sem mais interferência selêucida. 
Mitrídates I, que expandiu o Império
Parta para o leste, sul e oeste
Fraates I expandiu o controle da Pártia, mas a maior expansão do seu poder e território aconteceria no reinado de seu irmão e sucessor, Mitrídates I da Pártia (já mencionado anteriormente), que escritores comparam a Ciro, o Grande.
As relações entre Pártia e Greco-Báctria se deterioraram com a morte de Diodotus II, quando Mitrídates I capturou duas eparquias[2] deste reino. Desviando seus objetivos do reino Selêucida, Mitrídates I invadiu a Média e ocupou a Ecbatana (cidade importante da Média, oeste do Irã) em 147 ou 148 AC, região desestabilizada pela supressão selêucida recente de uma rebelião conduzida por Timarchus (usurpador no reino Selêucida entre 163 e 160 AC). Essa vitória foi seguida da conquista da Babilônia, na Mesopotâmia, onde Mitrídates I teve moedas cunhadas em Selêucia e uma cerimônia de investidura oficial. Enquanto Mitrídates retirava-se para Hircânia, suas forças subjugavam reinos menores, com sua autoridade estendendo-se para leste até o rio Indus. Embora Hecatompylos tivesse servido como primeira capital Parta, Mitrídates I estabeleceu residências reais em Selêucia, Ecbatana, Ctesifonte (mais tarde a capital oficial do reino 33 quilômetros a sudeste da moderna Bagdá, Iraque) e a recém fundada cidade de Mithradatkert (fortaleza de Mitrídates, antiga Nisa, no Turquemenistão), onde tumbas dos reis Arsácidas foram construídas e mantidas.
Conforme introduzido acima, Demétrio II Nicator esboçou uma contraofensiva contra os Partas na Mesopotâmia, mas embora alguns sucessos iniciais, foi derrotado, capturado e conduzido para Hircânia onde foi tratado com toda a hospitalidade, recebendo de Mitrídates I a sua filha como esposa. Da mesma forma, Antíoco VII Sidetes, irmão de Demétrio II, assumindo o trono logo tentou a retomada da Mesopotâmia, então sob Fraates II da Pártia (138-128 AC). Houve um instante em que os Partas pediram a paz que Antíoco VII se recusou a aceitar, a menos que eles desistissem de todas as terras conquistadas, com exceção da própria Pártia, pagassem pesado tributo e libertassem Demétrio II. Os Arsácidas libertaram Demétrio II enviando-o para a Síria, mas negaram o atendimento das demais condições. Tendo que subjugar as revoltas que eclodiam, a principal força parta penetrou na região matando Antíoco VII em batalha. Seu filho Selêucos tornou-se refém dos Partas e sua filha foi adicionada ao harém de Fraates II.
Enquanto os partas voltavam a conquistar os territórios perdidos no oeste, outra ameaça surgia no leste. Em 177-176 AC, após receber invasões da China que forçaram outras invasões culminando com a ocupação das fronteiras nordeste do Império Parta, Mitrídates I foi forçado a deslocar-se para Hircânia, após sua conquista da Mesopotâmia. Uma das tribos invasoras (Saka) mantinha mercenários que lutavam com Fraates II, contra Antíoco VII, mas que chegaram tarde para participar do conflito; quando Fraates II recusou-se a pagar seus salários, os Saka se revoltaram e ele tentou submetê-los com a ajuda de antigos soldados selêucidas que também o abandonaram, se aliando aos Saka. Fraates II marchou então contra essa força combinada e foi morto em batalha. Seu sucessor Artabano I da Pártia (128-124 AC) teve destino semelhante lutando contra nômades no leste. Mitrídates II da Pártia (124-90 AC) recuperou, mais tarde, todas as terras perdidas aos Saka no Sistan[3]
Mitrídates II, iniciador do comércio da seda com a China
Em seguida à retirada Selêucida da Mesopotâmia, o governador Parta da Babilônia foi enviado pela corte Arsácida a conquistar Charakene[4] (Characene, Mesene ou Meshan), então dominada por Hyspaosines, de Charax Spasinou. Quando a tentativa falhou, Hyspaosines invadiu a Babilônia em 127 AC, ocupando a Selêucia. Contudo, em 122 AC Mitrídates II expulsou Hyspaosines da Babilônia fazendo os reis de Charakene vassalos dos Partas. Depois que Mitrídates II estendeu o controle parta mais a oeste, ocupando Dura-Europos (margem direita do Eufrates, atual Síria) em 113 AC, meteu-se em conflito com o Reino da Armênia. Suas forças derrotaram e depuseram Artavasdes I da Armênia em 97 AC, tomando seu filho Tigranes – que se tornaria Tigranes II, o Grande, da Armênia (95-55 AC) - como refém.
Durante o reino do Imperador Wu de Han (141 – 87 AC), o Império Han, da China, enviou uma delegação à corte de Mitrídates II, em 121 AC, abrindo relações comerciais oficias com a Pártia, via “Estrada da Seda”, embora sem conseguir uma desejada aliança militar para combater seus inimigos. Os mercadores da Sogdia, falando uma língua iraniana oriental, serviram como os revendedores primários desse vital comércio da seda entre a Pártia e a China Han[5].
O Império Parta transformou-se no arqui-inimigo oriental do Império Romano, limitando a sua expansão além da Capadócia (Anatólia Central). Os dois impérios colidiram por mais de dois séculos na Mesopotâmia, com sérias derrotas iniciais infligidas aos romanos, como a de Crassus, na Batalha de Carrhae (moderna Harran, a sudeste da Turquia), em 54 AC, ou a de Marco Antônio (36 AC). O Império Yuezhi Kushan, na região norte da Índia, garantia a segurança da fronteira leste da Pártia e, por isso, a partir de meados do século I AC, a corte Arsácida focou na defesa da fronteira oeste, principalmente contra Roma.
Um ano após Mitrídates II ter subjugado a Armênia, Lucius Cornelius Sulla, o pro-cônsul (funcionário romano que atuava em nome de um cônsul) romano da Cilícia[6], fez um acordo com o diplomata Parta Orobazus, pelo qual ambos acordavam que o rio Eufrates serviria como fronteira entre Pártia e Roma. A despeito desse acordo, em 93 ou 92 AC, a Pártia lutou na Síria (margem romana do Eufrates) contra o líder tribal Laodice e seu aliado selêucida Antíoco X Eusebes. Quando um dos últimos monarcas selêucidas, Demétrio III Eucaerus, tentou sitiar Beroia (moderna Alepo), a Pártia enviou ajuda militar aos habitantes e Demétrio foi derrotado.
Após o governo de Mitrídates II, Gotarzes I governou a Babilônia e Orodes I (90 a 80 AC) governou a Pártia separadamente; esse sistema de monarquia dividida enfraqueceu a Pártia, permitindo que Tigranes II da Armênia anexasse território parta a oeste da Mesopotâmia. Essas terras só retornariam à Pártia durante o reinado de Sanatruces da Pártia (78 a 71 AC). Logo após a eclosão da Terceira Guerra Mitridática (última das três guerras entre Roma e Pártia), Mitrídates VI do Ponto, um aliado de Tigranes II da Armênia, pediu ajuda da Pártia contra Roma, que Sanatruces recusou dar. Quando o comandante romano Lucullus marchou contra Tigranocerta, a capital da Armênia, em 69 AC, Mitrídates VI e Tigranes II pediram ajuda de Fraates III da Pártia (71 – 58 AC), que também não os atendeu. Após a queda de Tigranocerta, ele reafirmou, com Lucullus, o Eufrates como limite entre a Pártia e Roma.
O filho de Tigranes II da Armênia, Tigranes, o Jovem, tentou um golpe contra seu pai e falhou. Fugiu então para Fraates III, convencendo-o a marchar contra a nova capital armênia em Artaxarta. Quando este cerco falhou, Tigranes o Jovem fugiu novamente, desta vez para o comandante romano Pompeu, oferecendo-se como guia através da Armênia, mas quando Tigranes II submeteu-se a Roma como rei cliente, Tigranes o Jovem foi levado para Roma como refém. Fraates III exigiu a liberdade de Tigranes o Jovem, que Pompeu recusou. Em retaliação, Fraates III lançou uma invasão na Corduene (sudeste da Turquia) onde, de acordo com relatos romanos conflitantes, o cônsul romano Lucius Afranius expulsou os Partas, por meios militares ou diplomáticos.
Fraates III foi assassinado por seus filhos, Orodes II da Pártia e Mitrídates III da Pártia, após o que Orodes virou-se contra o irmão que fugiu da Média para a Síria Romana. O pro-cônsul romano na Síria, Aulus Gabibius, marchou em apoio a Mitrídates III mas teve que retornar em ajuda a Ptolomeu XII que enfrentava revolta no Egito. Mesmo sem o apoio romano, Mitrídates III conquistou a Babilônia, cunhando moedas na Selêucia até 54 AC, quando um general de Orodes II, conhecido apenas como Surena, recapturou a Selêucia executando Mitrídates III.
Marcus Licinius Crassus, um dos membros do primeiro triunvirato romano (Cesar, Crassus e Pompeu), agora pro-cônsul da Síria, invadiu a Pártia em 53 AC como atrasado apoio a Mitrídates III. Enquanto seu exército marchava para Carrhae, Orodes II invadiu a Armênia impedindo o apoio de Artavasdes II da Armênia, aliado de Roma, persuadindo Artavasdes a uma aliança de casamento entre Pacorus I da Pártia, príncipe herdeiro, com a sua irmã. Surena, com um exército com inferioridade de quatro para um, lutou e venceu o exército de Crassus, que fugiu para o interior da Armênia. À frente de seu exército, Surena aproximou-se de Crassus para propor uma negociação que Crassus aceitou. Quando montava para o encontro, um oficial seu suspeitou de uma emboscada e segurou as rédeas do seu cavalo, provocando uma súbita luta entre partas e romanos que acabou com a morte de Crassus. Com seu exército, cativos de guerra e um precioso saque, Surena viajou 700 km de volta para Selêucia onde sua vitória foi celebrada. Temendo suas ambições para com o trono Arsácida, Orodes II mandou executar Surena logo em seguida.
Estimulados por sua vitória sobre Crassus, os Partas tentaram capturar territórios romanos na Ásia Ocidental. O príncipe herdeiro Pacorus I, com seu comandante Osaces, atacou a Síria até a Antióquia, em 51 AC, mas foi repelido por Gaius Cassius Longinus que emboscou e matou Osaces. Os Arsácidas se juntaram a Pompeu contra Júlio Cesar (no Primeiro Triunvirato), enviando também tropas para apoiar as forças contra Cesar Augusto na batalha de Philippi, Macedônia, em 42 AC, que selou a vitória do Segundo Triunvirato (Gaio Julio Cesar Octaviano ou Cesar Augusto, Marco Antônio e Marco Emilio Lepido) contra os assassinos de Júlio Cesar, Cassius e Brutus. Após a ocupação da Síria, Pacorus I e seu comandante Barzapharnes invadiram o Levante romano. Subjugaram todos os povoamentos ao longo da costa do Mediterrâneo até Ptolomais (moderna Acre, em Israel), com a exceção do Tiro. Na Judea, as forças judias pró Roma, do alto sacerdote Hircano II, Fasael e Herodes foram derrotadas pelos Partas e seu aliado judeu Antígono II Matatias, mais tarde rei da Judea, enquanto Herodes fugia para sua fortaleza de Massada. A despeito desses sucessos, os Partas logo foram expulsos do Levante por uma contraofensiva romana. Uma força parta na Síria, comandada pelo general Pharnapates, foi derrotada pelo romano Ventidius na batalha de Amanus Pass, causando a retirada de Pacorus I da Síria; quando ele retornou, na primavera de 38 AC, enfrentou Ventidius em nova batalha no nordeste de Antióquia. Pacorus foi morto durante a batalha e suas forças se retiraram para além do Eufrates. Sua morte causou uma crise na sucessão, quando Orodes II escolheu Fraates IV da Pártia como seu novo herdeiro.
Assim que assumiu o trono, Fraates IV eliminou a concorrência ao trono matando e exilando seus próprios irmãos. Um deles, Monaeses, fugiu para Marco Antônio e convenceu-o a invadir a Pártia. Marco Antônio derrotou o aliado da Pártia, Antígono II Matatias, da Judea, em 37 AC, instalando Herodes o Grande, como rei cliente, em seu lugar. No ano seguinte, quando Marco Antônio marchou para Erzurum (extremo leste da Anatólia), Artavasdes II da Armênia, mudou de lado mais uma vez, enviando tropas adicionais para ele. Marco Antônio invadiu a Média Atropatene (o moderno Azerbaijão Iraniano), então governado pelo aliado da Pártia, Artavasdes I da Média Atropatene, com a intenção de capturar sua capital Praaspa. Contudo, Fraates IV emboscou a retaguarda das forças de Marco Antônio causando a retirada do apoio de Artavasdes II às forças de Marco Antônio. Os Partas perseguiram e fustigaram o exército de Marco Antônio em sua retirada para a Armênia, que finalmente conseguiu alcançar a Síria, muito enfraquecido. Através de um ardil que prometia um casamento de aliança, Marco Antônio aprisionou Artavasdes II em 34 AC, enviando-o para Roma e lá executando-o. Posteriormente tentou uma aliança com Artavasdes I da Média Atropatene, cujas relações com Fraates IV haviam recentemente azedado. Tal ideia foi abandonada quando as forças de Artavasdes I se retiraram da Armênia em 33 AC, escapando de uma invasão parta, enquanto seu rival Cesar Augusto atacava suas forças a oeste. Após o suicídio de Marco Antônio no Egito, o aliado da Pártia, Artaxis II reassumiu o trono na Armênia.
Cerca de 26 AC, Tiridates II da Pártia depôs Fraates IV - por curto espaço de tempo -, que rapidamente restabeleceu seu domínio com a ajuda dos nômades da Cítia. Tiridates II fugiu para os romanos levando consigo um dos filhos de Fraates IV. Em 20 AC Fraates IV conseguiu negociar a liberdade de seu filho com os romanos, que receberam em troca os estandartes legionários tomados em Carrhae, em 53 AC, bem como os sobreviventes prisioneiros de guerra, com isso selando uma paz com Roma, já sob Otaviano, agora Cesar Augusto, como primeiro Imperador Romano. Com o príncipe, Augusto também deu a Fraates IV uma escrava italiana que tornou-se mais tarde a rainha Musa da Pártia. Para garantir que seu filho Fraataces herdasse o trono sem incidentes, Musa convenceu Fraates IV a dar seus outros filhos a Augusto como reféns, fato que ele usou como propaganda de submissão da Pártia a Roma, como um de seus grandes feitos. Quando Fraataces assumiu o trono como Fraates V (2 AC a 4 DC), Musa casou com seu próprio filho governando junto com ele. A nobreza parta, desaprovando as relações incestuosas de mãe e filho e a noção de um rei de sangue não Arsácida, obrigou o casal ao exílio em território romano. Seu sucessor, Orodes III, reinou por apenas dois anos e foi sucedido por Vonones I, que tinha adotado maneirismos romanos por sua estada em Roma. A nobreza parta, enfurecida pelas simpatias de Vonones pelos romanos, apoiou um vindicante rival, Artabano III da Pártia (10 a 38 DC), que derrotou Vonones enviando-o para o exílio na Síria Romana.
Durante o reinado de Artabano III, dois irmãos plebeus judeus, Anilai e Asinai, de Nehardea (próxima da moderna Fallujah, Iraque), lideraram uma revolta contra o governador Parta, da Babilônia, derrotando-o e conseguindo de Artabano III o direito de governar a região, com medo de mais revoltas. A esposa Parta de Anilai envenenou Asinai com medo de que ele atacasse seu esposo por ser casado com não judia. A seguir, Anilai envolveu-se em um conflito armado contra um genro de Artabano III, que acabou derrotando-o. Com o regime judeu removido, os babilônios nativos passaram a ameaçar a comunidade judia obrigando-a a emigrar para a Selêucia. Quando esta cidade rebelou-se contra o domínio Parta, em 35-36 DC, os judeus foram novamente expulsos pelos gregos e arameus locais, desta feita para Ctesifonte, Nehardea (cidade da Babilônia próxima do encontro do Eufrates com o Nahr Malka e da moderna Faluja) e Nisibis (antiga Mesopotâmia, hoje moderna Turquia).



[1] As Guerras Sírias foram uma série de seis guerras entre o Império Selêucida e o Reino Ptolomaico do Egito, estados sucessores do Império de Alexandre, o Grande, durante os séculos II e III AC, pela conquista da região da Coele-Síria, uma das poucas rotas para o Egito. Esses conflitos drenaram material e homens de ambas as partes conduzindo às suas eventuais destruições e conquistas por Roma e Pártia.
[2] Eparquia é uma palavra grega que pode ser traduzida como domínio ou jurisdição sobre algo como uma província, prefeitura ou território. No uso secular, a eparquia denotava um distrito administrativo na região do reino Greco-Báctria.
[3] Conhecido em épocas anteriores como Sakastan (terra dos Saka), o Sistan é uma região histórica e geográfica que seria formada pelos atuais Irã oriental, sul do Afeganistão e oeste do Paquistão.
[4] Charakene foi um reino do Império Parta localizado no início do Golfo Pérsico, parte sul do atual Iraque. Sua capital, Charax Spasinou, foi um importante porto para o comércio entre a Mesopotâmia e a Índia, também provendo instalações para a cidade de Susa, mais a montante no rio Karun.
[5] A dinastia Han foi a segunda dinastia imperial da China (201 AC a 220 DC), e seu período é considerado a era de ouro da história chinesa. Até hoje o grupo étnico majoritário da China refere-se a si próprio como o “povo Han” e a china daquela dinastia ficou sendo conhecida como China Han.
[6] Na antiguidade, a Cilícia era a região costeira da Ásia Menor, existindo como entidade política do Reino Armênio da Cilícia, durante o antigo Império Bizantino. Estendendo-se da costa sul da moderna Turquia, a Cilícia avança ao norte e nordeste da ilha de Chipre, correspondendo à moderna região de Çukurova, na Turquia.
Continua com a Parte 5