Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 4

III.3 – IMPÉRIO PARTA (OU IMPÉRIO ARSÁCIDA) (247 AC-224 DC)
 
Andrágoras, o sátrapa selêucida que
deu origem ao Império Parta
 
Para bem entendermos a ascensão do Império Parta, temos que voltar um pouco no tempo já que os partas surgiram na história do Irã, bem antes da queda do Império Selêucida.
Em 247 AC, conforme já mencionado acima, Andrágoras, o governador Selêucida (sátrapa) da Pártia, proclamou a independência dos selêucidas, no momento em que, seguindo a morte do rei da Pérsia, Antíoco II, Ptolomeu III (terceiro rei da dinastia ptolemaica, no Egito, de 246 a 222 AC) tomou o controle da capital Selêucida na Antióquia, deixando incerto, por um período, o futuro da dinastia Selêucida. 
Arsaces I, fundador da dinastia
Arsácida da Pártia
Antes que Arsaces I da Pártia se tornasse o fundador da dinastia Arsácida, ele fora eleito líder das tribos Parni (dos Parnos), uma antiga tribo do centro da Ásia, de povos de etnia iraniana oriental e uma das várias tribos nômades da confederação do Dahae. Falavam uma língua iraniana oriental, em contraste com a língua iraniana do noroeste, falada naquela época na Pártia, província do noroeste, primeiro sob os aquemênidas e então sob o Império Selêucida. Com a independência da Pártia do Império Selêucida e a resultante perda do apoio militar daquele império, Andrágoras teve dificuldade na manutenção da suas fronteiras e cerca de 238 AC, sob o comando de Arsaces I e seu irmão Tiridates, os Parnos invadiram a Pártia tomando controle da sua região norte. Logo em seguida os Parnos tomaram o resto da Pártia de Andrágoras, matando-o no processo. O Império Parta foi, portanto, o reino da dinastia Arsácida (de Arsaces I), que reuniu e governou o Platô Iraniano após a conquista Parni de Pártia, derrotando o Império Selêucida ao final século III AC, com o controle intermitente da Mesopotâmia entre 150 AC e 224 DC. O Império Parta rapidamente incluiu também a Arábia Oriental. 
Fraates I, primeiro imperador Arsácida
sem interferência Seêucida
Por um tempo, Arsaces consolidou a posição na Pártia e Hircânia (província a sudeste do mar cáspio no moderno Irã), aproveitando a invasão do território selêucida no oeste por Ptolomeu III (246-222 AC) do Egito. Este conflito com Ptolomeu, a Terceira Guerra Síria[1], também permitiu que Diodotus I (sátrapa selêucida da Báctria) se rebelasse formando o Reino Greco-Bactriano, na Ásia Central, conforme visto anteriormente. Seu sucessor, Diodotus II, formou uma aliança com Arsaces contra os Selêucidas, mas Arsaces foi temporariamente despejado da Pártia pelas forças de Selêucos II (como vimos anteriormente), em 246-225 AC. Após algum tempo no exílio entre a tribo nômade Apasiacae, Arsaces conduziu um contra-ataque e recapturou a Pártia. Antíoco III, o Grande (222-187 AC), não pode retaliar à época pois suas tropas se encontravam envolvidas no sufoco da rebelião de Molon na Média. Em 210 ou 209, entretanto, ele lançou uma campanha maciça para retomar a Pártia e Báctria, sem sucesso, mas com um armistício de paz com Arsaces II: este ficava com o título de rei em troca de sua submissão a Antíoco III como seu superior. Os Selêucidas não puderam mais intervir nos assuntos da Pártia devido à crescente intromissão da República Romana e a derrota selêucida em Magnésia (região da Grécia), em 190 AC. Phriapatius da Pártia (191-176 AC) sucedeu a Arsaces II e Fraates I da Pártia (176-171 AC) posteriormente ascendeu ao trono, governando a Pártia sem mais interferência selêucida. 
Mitrídates I, que expandiu o Império
Parta para o leste, sul e oeste
Fraates I expandiu o controle da Pártia, mas a maior expansão do seu poder e território aconteceria no reinado de seu irmão e sucessor, Mitrídates I da Pártia (já mencionado anteriormente), que escritores comparam a Ciro, o Grande.
As relações entre Pártia e Greco-Báctria se deterioraram com a morte de Diodotus II, quando Mitrídates I capturou duas eparquias[2] deste reino. Desviando seus objetivos do reino Selêucida, Mitrídates I invadiu a Média e ocupou a Ecbatana (cidade importante da Média, oeste do Irã) em 147 ou 148 AC, região desestabilizada pela supressão selêucida recente de uma rebelião conduzida por Timarchus (usurpador no reino Selêucida entre 163 e 160 AC). Essa vitória foi seguida da conquista da Babilônia, na Mesopotâmia, onde Mitrídates I teve moedas cunhadas em Selêucia e uma cerimônia de investidura oficial. Enquanto Mitrídates retirava-se para Hircânia, suas forças subjugavam reinos menores, com sua autoridade estendendo-se para leste até o rio Indus. Embora Hecatompylos tivesse servido como primeira capital Parta, Mitrídates I estabeleceu residências reais em Selêucia, Ecbatana, Ctesifonte (mais tarde a capital oficial do reino 33 quilômetros a sudeste da moderna Bagdá, Iraque) e a recém fundada cidade de Mithradatkert (fortaleza de Mitrídates, antiga Nisa, no Turquemenistão), onde tumbas dos reis Arsácidas foram construídas e mantidas.
Conforme introduzido acima, Demétrio II Nicator esboçou uma contraofensiva contra os Partas na Mesopotâmia, mas embora alguns sucessos iniciais, foi derrotado, capturado e conduzido para Hircânia onde foi tratado com toda a hospitalidade, recebendo de Mitrídates I a sua filha como esposa. Da mesma forma, Antíoco VII Sidetes, irmão de Demétrio II, assumindo o trono logo tentou a retomada da Mesopotâmia, então sob Fraates II da Pártia (138-128 AC). Houve um instante em que os Partas pediram a paz que Antíoco VII se recusou a aceitar, a menos que eles desistissem de todas as terras conquistadas, com exceção da própria Pártia, pagassem pesado tributo e libertassem Demétrio II. Os Arsácidas libertaram Demétrio II enviando-o para a Síria, mas negaram o atendimento das demais condições. Tendo que subjugar as revoltas que eclodiam, a principal força parta penetrou na região matando Antíoco VII em batalha. Seu filho Selêucos tornou-se refém dos Partas e sua filha foi adicionada ao harém de Fraates II.
Enquanto os partas voltavam a conquistar os territórios perdidos no oeste, outra ameaça surgia no leste. Em 177-176 AC, após receber invasões da China que forçaram outras invasões culminando com a ocupação das fronteiras nordeste do Império Parta, Mitrídates I foi forçado a deslocar-se para Hircânia, após sua conquista da Mesopotâmia. Uma das tribos invasoras (Saka) mantinha mercenários que lutavam com Fraates II, contra Antíoco VII, mas que chegaram tarde para participar do conflito; quando Fraates II recusou-se a pagar seus salários, os Saka se revoltaram e ele tentou submetê-los com a ajuda de antigos soldados selêucidas que também o abandonaram, se aliando aos Saka. Fraates II marchou então contra essa força combinada e foi morto em batalha. Seu sucessor Artabano I da Pártia (128-124 AC) teve destino semelhante lutando contra nômades no leste. Mitrídates II da Pártia (124-90 AC) recuperou, mais tarde, todas as terras perdidas aos Saka no Sistan[3]
Mitrídates II, iniciador do comércio da seda com a China
Em seguida à retirada Selêucida da Mesopotâmia, o governador Parta da Babilônia foi enviado pela corte Arsácida a conquistar Charakene[4] (Characene, Mesene ou Meshan), então dominada por Hyspaosines, de Charax Spasinou. Quando a tentativa falhou, Hyspaosines invadiu a Babilônia em 127 AC, ocupando a Selêucia. Contudo, em 122 AC Mitrídates II expulsou Hyspaosines da Babilônia fazendo os reis de Charakene vassalos dos Partas. Depois que Mitrídates II estendeu o controle parta mais a oeste, ocupando Dura-Europos (margem direita do Eufrates, atual Síria) em 113 AC, meteu-se em conflito com o Reino da Armênia. Suas forças derrotaram e depuseram Artavasdes I da Armênia em 97 AC, tomando seu filho Tigranes – que se tornaria Tigranes II, o Grande, da Armênia (95-55 AC) - como refém.
Durante o reino do Imperador Wu de Han (141 – 87 AC), o Império Han, da China, enviou uma delegação à corte de Mitrídates II, em 121 AC, abrindo relações comerciais oficias com a Pártia, via “Estrada da Seda”, embora sem conseguir uma desejada aliança militar para combater seus inimigos. Os mercadores da Sogdia, falando uma língua iraniana oriental, serviram como os revendedores primários desse vital comércio da seda entre a Pártia e a China Han[5].
O Império Parta transformou-se no arqui-inimigo oriental do Império Romano, limitando a sua expansão além da Capadócia (Anatólia Central). Os dois impérios colidiram por mais de dois séculos na Mesopotâmia, com sérias derrotas iniciais infligidas aos romanos, como a de Crassus, na Batalha de Carrhae (moderna Harran, a sudeste da Turquia), em 54 AC, ou a de Marco Antônio (36 AC). O Império Yuezhi Kushan, na região norte da Índia, garantia a segurança da fronteira leste da Pártia e, por isso, a partir de meados do século I AC, a corte Arsácida focou na defesa da fronteira oeste, principalmente contra Roma.
Um ano após Mitrídates II ter subjugado a Armênia, Lucius Cornelius Sulla, o pro-cônsul (funcionário romano que atuava em nome de um cônsul) romano da Cilícia[6], fez um acordo com o diplomata Parta Orobazus, pelo qual ambos acordavam que o rio Eufrates serviria como fronteira entre Pártia e Roma. A despeito desse acordo, em 93 ou 92 AC, a Pártia lutou na Síria (margem romana do Eufrates) contra o líder tribal Laodice e seu aliado selêucida Antíoco X Eusebes. Quando um dos últimos monarcas selêucidas, Demétrio III Eucaerus, tentou sitiar Beroia (moderna Alepo), a Pártia enviou ajuda militar aos habitantes e Demétrio foi derrotado.
Após o governo de Mitrídates II, Gotarzes I governou a Babilônia e Orodes I (90 a 80 AC) governou a Pártia separadamente; esse sistema de monarquia dividida enfraqueceu a Pártia, permitindo que Tigranes II da Armênia anexasse território parta a oeste da Mesopotâmia. Essas terras só retornariam à Pártia durante o reinado de Sanatruces da Pártia (78 a 71 AC). Logo após a eclosão da Terceira Guerra Mitridática (última das três guerras entre Roma e Pártia), Mitrídates VI do Ponto, um aliado de Tigranes II da Armênia, pediu ajuda da Pártia contra Roma, que Sanatruces recusou dar. Quando o comandante romano Lucullus marchou contra Tigranocerta, a capital da Armênia, em 69 AC, Mitrídates VI e Tigranes II pediram ajuda de Fraates III da Pártia (71 – 58 AC), que também não os atendeu. Após a queda de Tigranocerta, ele reafirmou, com Lucullus, o Eufrates como limite entre a Pártia e Roma.
O filho de Tigranes II da Armênia, Tigranes, o Jovem, tentou um golpe contra seu pai e falhou. Fugiu então para Fraates III, convencendo-o a marchar contra a nova capital armênia em Artaxarta. Quando este cerco falhou, Tigranes o Jovem fugiu novamente, desta vez para o comandante romano Pompeu, oferecendo-se como guia através da Armênia, mas quando Tigranes II submeteu-se a Roma como rei cliente, Tigranes o Jovem foi levado para Roma como refém. Fraates III exigiu a liberdade de Tigranes o Jovem, que Pompeu recusou. Em retaliação, Fraates III lançou uma invasão na Corduene (sudeste da Turquia) onde, de acordo com relatos romanos conflitantes, o cônsul romano Lucius Afranius expulsou os Partas, por meios militares ou diplomáticos.
Fraates III foi assassinado por seus filhos, Orodes II da Pártia e Mitrídates III da Pártia, após o que Orodes virou-se contra o irmão que fugiu da Média para a Síria Romana. O pro-cônsul romano na Síria, Aulus Gabibius, marchou em apoio a Mitrídates III mas teve que retornar em ajuda a Ptolomeu XII que enfrentava revolta no Egito. Mesmo sem o apoio romano, Mitrídates III conquistou a Babilônia, cunhando moedas na Selêucia até 54 AC, quando um general de Orodes II, conhecido apenas como Surena, recapturou a Selêucia executando Mitrídates III.
Marcus Licinius Crassus, um dos membros do primeiro triunvirato romano (Cesar, Crassus e Pompeu), agora pro-cônsul da Síria, invadiu a Pártia em 53 AC como atrasado apoio a Mitrídates III. Enquanto seu exército marchava para Carrhae, Orodes II invadiu a Armênia impedindo o apoio de Artavasdes II da Armênia, aliado de Roma, persuadindo Artavasdes a uma aliança de casamento entre Pacorus I da Pártia, príncipe herdeiro, com a sua irmã. Surena, com um exército com inferioridade de quatro para um, lutou e venceu o exército de Crassus, que fugiu para o interior da Armênia. À frente de seu exército, Surena aproximou-se de Crassus para propor uma negociação que Crassus aceitou. Quando montava para o encontro, um oficial seu suspeitou de uma emboscada e segurou as rédeas do seu cavalo, provocando uma súbita luta entre partas e romanos que acabou com a morte de Crassus. Com seu exército, cativos de guerra e um precioso saque, Surena viajou 700 km de volta para Selêucia onde sua vitória foi celebrada. Temendo suas ambições para com o trono Arsácida, Orodes II mandou executar Surena logo em seguida.
Estimulados por sua vitória sobre Crassus, os Partas tentaram capturar territórios romanos na Ásia Ocidental. O príncipe herdeiro Pacorus I, com seu comandante Osaces, atacou a Síria até a Antióquia, em 51 AC, mas foi repelido por Gaius Cassius Longinus que emboscou e matou Osaces. Os Arsácidas se juntaram a Pompeu contra Júlio Cesar (no Primeiro Triunvirato), enviando também tropas para apoiar as forças contra Cesar Augusto na batalha de Philippi, Macedônia, em 42 AC, que selou a vitória do Segundo Triunvirato (Gaio Julio Cesar Octaviano ou Cesar Augusto, Marco Antônio e Marco Emilio Lepido) contra os assassinos de Júlio Cesar, Cassius e Brutus. Após a ocupação da Síria, Pacorus I e seu comandante Barzapharnes invadiram o Levante romano. Subjugaram todos os povoamentos ao longo da costa do Mediterrâneo até Ptolomais (moderna Acre, em Israel), com a exceção do Tiro. Na Judea, as forças judias pró Roma, do alto sacerdote Hircano II, Fasael e Herodes foram derrotadas pelos Partas e seu aliado judeu Antígono II Matatias, mais tarde rei da Judea, enquanto Herodes fugia para sua fortaleza de Massada. A despeito desses sucessos, os Partas logo foram expulsos do Levante por uma contraofensiva romana. Uma força parta na Síria, comandada pelo general Pharnapates, foi derrotada pelo romano Ventidius na batalha de Amanus Pass, causando a retirada de Pacorus I da Síria; quando ele retornou, na primavera de 38 AC, enfrentou Ventidius em nova batalha no nordeste de Antióquia. Pacorus foi morto durante a batalha e suas forças se retiraram para além do Eufrates. Sua morte causou uma crise na sucessão, quando Orodes II escolheu Fraates IV da Pártia como seu novo herdeiro.
Assim que assumiu o trono, Fraates IV eliminou a concorrência ao trono matando e exilando seus próprios irmãos. Um deles, Monaeses, fugiu para Marco Antônio e convenceu-o a invadir a Pártia. Marco Antônio derrotou o aliado da Pártia, Antígono II Matatias, da Judea, em 37 AC, instalando Herodes o Grande, como rei cliente, em seu lugar. No ano seguinte, quando Marco Antônio marchou para Erzurum (extremo leste da Anatólia), Artavasdes II da Armênia, mudou de lado mais uma vez, enviando tropas adicionais para ele. Marco Antônio invadiu a Média Atropatene (o moderno Azerbaijão Iraniano), então governado pelo aliado da Pártia, Artavasdes I da Média Atropatene, com a intenção de capturar sua capital Praaspa. Contudo, Fraates IV emboscou a retaguarda das forças de Marco Antônio causando a retirada do apoio de Artavasdes II às forças de Marco Antônio. Os Partas perseguiram e fustigaram o exército de Marco Antônio em sua retirada para a Armênia, que finalmente conseguiu alcançar a Síria, muito enfraquecido. Através de um ardil que prometia um casamento de aliança, Marco Antônio aprisionou Artavasdes II em 34 AC, enviando-o para Roma e lá executando-o. Posteriormente tentou uma aliança com Artavasdes I da Média Atropatene, cujas relações com Fraates IV haviam recentemente azedado. Tal ideia foi abandonada quando as forças de Artavasdes I se retiraram da Armênia em 33 AC, escapando de uma invasão parta, enquanto seu rival Cesar Augusto atacava suas forças a oeste. Após o suicídio de Marco Antônio no Egito, o aliado da Pártia, Artaxis II reassumiu o trono na Armênia.
Cerca de 26 AC, Tiridates II da Pártia depôs Fraates IV - por curto espaço de tempo -, que rapidamente restabeleceu seu domínio com a ajuda dos nômades da Cítia. Tiridates II fugiu para os romanos levando consigo um dos filhos de Fraates IV. Em 20 AC Fraates IV conseguiu negociar a liberdade de seu filho com os romanos, que receberam em troca os estandartes legionários tomados em Carrhae, em 53 AC, bem como os sobreviventes prisioneiros de guerra, com isso selando uma paz com Roma, já sob Otaviano, agora Cesar Augusto, como primeiro Imperador Romano. Com o príncipe, Augusto também deu a Fraates IV uma escrava italiana que tornou-se mais tarde a rainha Musa da Pártia. Para garantir que seu filho Fraataces herdasse o trono sem incidentes, Musa convenceu Fraates IV a dar seus outros filhos a Augusto como reféns, fato que ele usou como propaganda de submissão da Pártia a Roma, como um de seus grandes feitos. Quando Fraataces assumiu o trono como Fraates V (2 AC a 4 DC), Musa casou com seu próprio filho governando junto com ele. A nobreza parta, desaprovando as relações incestuosas de mãe e filho e a noção de um rei de sangue não Arsácida, obrigou o casal ao exílio em território romano. Seu sucessor, Orodes III, reinou por apenas dois anos e foi sucedido por Vonones I, que tinha adotado maneirismos romanos por sua estada em Roma. A nobreza parta, enfurecida pelas simpatias de Vonones pelos romanos, apoiou um vindicante rival, Artabano III da Pártia (10 a 38 DC), que derrotou Vonones enviando-o para o exílio na Síria Romana.
Durante o reinado de Artabano III, dois irmãos plebeus judeus, Anilai e Asinai, de Nehardea (próxima da moderna Fallujah, Iraque), lideraram uma revolta contra o governador Parta, da Babilônia, derrotando-o e conseguindo de Artabano III o direito de governar a região, com medo de mais revoltas. A esposa Parta de Anilai envenenou Asinai com medo de que ele atacasse seu esposo por ser casado com não judia. A seguir, Anilai envolveu-se em um conflito armado contra um genro de Artabano III, que acabou derrotando-o. Com o regime judeu removido, os babilônios nativos passaram a ameaçar a comunidade judia obrigando-a a emigrar para a Selêucia. Quando esta cidade rebelou-se contra o domínio Parta, em 35-36 DC, os judeus foram novamente expulsos pelos gregos e arameus locais, desta feita para Ctesifonte, Nehardea (cidade da Babilônia próxima do encontro do Eufrates com o Nahr Malka e da moderna Faluja) e Nisibis (antiga Mesopotâmia, hoje moderna Turquia).



[1] As Guerras Sírias foram uma série de seis guerras entre o Império Selêucida e o Reino Ptolomaico do Egito, estados sucessores do Império de Alexandre, o Grande, durante os séculos II e III AC, pela conquista da região da Coele-Síria, uma das poucas rotas para o Egito. Esses conflitos drenaram material e homens de ambas as partes conduzindo às suas eventuais destruições e conquistas por Roma e Pártia.
[2] Eparquia é uma palavra grega que pode ser traduzida como domínio ou jurisdição sobre algo como uma província, prefeitura ou território. No uso secular, a eparquia denotava um distrito administrativo na região do reino Greco-Báctria.
[3] Conhecido em épocas anteriores como Sakastan (terra dos Saka), o Sistan é uma região histórica e geográfica que seria formada pelos atuais Irã oriental, sul do Afeganistão e oeste do Paquistão.
[4] Charakene foi um reino do Império Parta localizado no início do Golfo Pérsico, parte sul do atual Iraque. Sua capital, Charax Spasinou, foi um importante porto para o comércio entre a Mesopotâmia e a Índia, também provendo instalações para a cidade de Susa, mais a montante no rio Karun.
[5] A dinastia Han foi a segunda dinastia imperial da China (201 AC a 220 DC), e seu período é considerado a era de ouro da história chinesa. Até hoje o grupo étnico majoritário da China refere-se a si próprio como o “povo Han” e a china daquela dinastia ficou sendo conhecida como China Han.
[6] Na antiguidade, a Cilícia era a região costeira da Ásia Menor, existindo como entidade política do Reino Armênio da Cilícia, durante o antigo Império Bizantino. Estendendo-se da costa sul da moderna Turquia, a Cilícia avança ao norte e nordeste da ilha de Chipre, correspondendo à moderna região de Çukurova, na Turquia.
Continua com a Parte 5

domingo, 15 de fevereiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 10)

IV.10 – BABILÔNIA


Considerando tudo o que já vimos até agora sobre a região da Mesopotâmia, é importante lembrar agora que a Babilônia foi, antes de tudo, a mais famosa cidade da antiga Mesopotâmia, fundada algum tempo antes do reinado de Sargão, o Grande (2334-2279 AC), fundador do império Acadiano, que lá reivindicava ter construído templos (talvez tenha mesmo sido o fundador da cidade). Nessa época, parece ter sido uma cidade sem importância a não ser por um porto importante no rio Eufrates, no ponto em que mais se aproxima do rio Tigre (Ver figura abaixo). Suas ruínas permanecem hoje no moderno Iraque, cerca de 94 km a sudoeste de Bagdá e seu nome parece significar, no Acadiano da época, “Portão dos Deuses”.
Cidade da Babilônia, rapidamente fortificada século XIX AC
Seu nome já é citado no Antigo Testamento da Bíblia, capítulo 11 do Livro da Gênesis, onde é relatado o episódio da “Torre de Babel”. Além disso, a cidade tornou-se conhecidíssima por suas impressionantes muralhas e edificações, sua reputação como um pedestal de aprendizado e cultura, a constituição de um código de leis, que antecede a Lei Mosaica, e pelos Jardins Suspensos da Babilônia, terraços de fauna e flora com um sofisticado sistema hidráulico de irrigação, construídos pelo homem, citados por Heródoto como uma das “Sete Maravilhas do Mundo”. Entretanto, qualquer que tenha sido o papel representado pela cidade no mundo antigo, ele se perdeu para os estudiosos dos dias atuais, porque o nível das águas da região cresceu de forma permanente ao longo dos séculos e as ruínas da Antiga Babilônia se tornaram inacessíveis. As que foram escavadas e são visíveis hoje, datam apenas de bem mais do que mil anos após a sua fundação, que alguns dizem ter sido estabelecida pelos amoritas após o colapso da Terceira Dinastia de Ur. Essas e outras informações pertencentes à Antiga Babilônia nos chegam através de artefatos levados da cidade após a invasão Persa ou criados em outros locais. Mas este não é o foco principal do nosso trabalho O foco do nosso trabalho é a apresentação do Estado da Babilônia e do Império Babilônico, suas origens, desenvolvimento e declínio.
A Babilônia de que queremos falar foi um antigo estado semita de língua Acadiana e uma região cultural localizada ao centro e sul da Mesopotâmia, que emergiu como estado independente em 1894 AC, tendo a cidade da Babilônia como a sua capital. Esteve frequentemente em rivalidade com o estado vizinho Acadiano da Assíria, ao norte da Mesopotâmia, tornando-se a maior potência da região após Hammurabi (1792-1750 AC, pela Cronologia Média, ou 1696-1654 AC, pela Cronologia Curta[1]) ter criado um império – de curta duração - a partir de vários dos territórios antes pertencentes ao Império Acadiano. O estado cresceu e o sul da Mesopotâmia veio a ser conhecido como Babilônia. Após a morte de Hammurabi o império dissolveu-se rapidamente e a Babilônia teve longos períodos sob a dominação assíria, kassita e elamita. Após ser destruída e então reconstruída pelos assírios, a Babilônia tornou-se novamente o assento do Império Novo Babilônio, de 608 a 539 AC, fundado pelos caldeus, do canto sudeste da Mesopotâmia, e cujo último rei foi um assírio, do norte da Mesopotâmia. Após sua queda, a Babilônia ficou sob os governos dos Impérios Aquemênida, Selêucida, Parta, Romano e Sassânida. Vamos ver com mais detalhes todos esses períodos, Mas é preciso que os leitores entendam, que não vamos repetir aqui, em detalhe, o que já foi dito quando tratamos dos prévios impérios dominantes na Mesopotâmia (Sumérios, Acadianos e Assírios), a menos que seja essencialmente necessário para o bom entendimento do assunto como um todo; de outra forma estaríamos sendo repetitivos e, como tal, cansativos. Apenas não podemos esquecer que estamos falando de impérios que existiram numa mesma região – Mesopotâmia – às vezes simultaneamente, às vezes em épocas diferentes, e muitas vezes rivalizando entre si.

IV.10.1 – PRIMEIRA DINASTIA BABILÔNICA (1894–1595 AC)

Logo após o colapso da dinastia suméria Ur-III, nas mãos dos elamitas em 2002 AC, os amoritas, um povo estrangeiro semita do noroeste, de língua canaanita, migraram para o sul da Mesopotâmia e gradualmente ganharam controle sobre a maior parte desse território, formando uma série de pequenos reinos, aos quais os estados Sumero-Acadianos do sul não puderam resistir; enquanto isso, os assírios ratificavam sua independência no norte. Finalmente, o sul da Mesopotâmia acabou caindo para os amoritas – Período Amorita – e suas cidades-estados mais importantes eram Isin e Larsa, ao sul, e Assíria, ao norte. Uma dessas dinastias amoritas, através do chefe Sumuabum, que nunca se preocupou em ser rei da Babilônia, fundou um pequeno reino que incluía uma cidade ainda menor, Babilônia, em 1894 AC, que acabaria dominando os demais e formando o curto Primeiro Império Babilônico, também chamado Antigo Período Babilônico. Sumuabum foi seguido por outros chefes que governaram do mesmo modo, até a chegada de Sin-muballit, primeiro amorita a ser visto, oficialmente, como rei da Babilônia, que permaneceu, por um século, uma pequena nação, ofuscada por reinos vizinhos mais velhos, maiores e mais poderosos, como Isin, Larsa, Assíria e Elam.
Hammurabi (1792-1750 AC)
Tradicionalmente, o principal centro religioso de toda a Mesopotâmia foi Nippur, até que Hammurabi (1792-1750 AC), sexto governante amorita, realizou importantes construções na Babilônia, transformando-a de cidade pequena em uma grande cidade digna de um reino e novo centro religioso.
Hammurabi foi um governante muito eficiente, estabelecendo uma burocracia com taxação e governo centralizado. Libertou a Babilônia do domínio elamita, expulsando-os totalmente do sul da Mesopotâmia e, gradualmente, expandindo o seu domínio com a conquista de cidades e estados como Isin, Larsa, Eshunna, Kish, Lagash, Nippur, Borsippa, Ur, Uruk, Umma Adab e Eridu. Suas conquistas deram estabilidade à região, após tempos turbulentos, e uniu a confusão de estados do sul e centro da Mesopotâmia em uma só nação e somente ao seu tempo o sul da Mesopotâmia foi conhecido historicamente como Babilônia (ver figura abaixo). Seus exércitos eram disciplinados e Hammurabi lançou-os em direção ao leste, invadindo o que em mil anos se tornaria depois a Pérsia, conquistando elamitas, gutianos e kassitas. Para o oeste conquistou os estados semitas do Levante, incluindo o poderoso reino de Mari.
Babilônia ao tempo de Hammurabi, maior potência da região.
Hammurabi então enfrentou uma prolongada guerra contra o Antigo Império Assírio, pelo controle da Mesopotâmia e do Oriente Próximo e após uma luta sem solução, que se arrastou por décadas, contra o rei assírio Ishme-Dagan, forçou o seu sucessor, Mut-Ashkur, a pagar tributo à Babilônia, em 1751 AC, com controle sobre Hattian e Hurrian, colônias centenárias da Assíria, na Ásia Menor.
Um dos mais importantes trabalhos desta “Primeira Dinastia da Babilônia”, como foi chamada pelos historiadores nativos, foi a compilação de um código de leis que repetiu e melhorou as leis escritas anteriores da Suméria, Acádia e Assíria, realizada por determinação de Hammurabi após a expulsão dos elamitas e o estabelecimento do seu reino, que ficou eterna e mundialmente conhecido como “Código de Hammurabi”. Em 1901, uma cópia de tal código foi descoberta em uma estela, em Susa, para onde havia sido levada mais tarde como despojo; esta cópia está agora no Louvre.
Estela Código de Leis
Com a transferência do centro religioso de Nippur para a Babilônia, seu deus supremo, Enlil, perdeu o lugar no Panteão do sul da Mesopotâmia, para Marduk, deus do sul da região, com Ashur permanecendo a deidade dominante na Assíria, ao norte da Mesopotâmia.
Os babilônios, como seus predecessores estados Sumero-Acadianos, se dedicaram ao comércio regular com as cidades estados amoritas e canaanitas ao oeste, com seus funcionários ou tropas passando, de vez em quando, para o Levante e para Canaã e os mercadores amoritas operando livremente por toda a Mesopotâmia. As conexões de oeste, da monarquia babilônica, permaneceram fortes por muito tempo.

IV.10.2 – DECLÍNIO DA BABILÔNIA

O sul da Mesopotâmia não possuía fronteiras naturais defensáveis, ficando assim vulnerável aos ataques estrangeiros. Com a morte de Hammurabi, seu império começou a desintegrar-se rapidamente e já com seu sucessor, Samsu-iluna (1749-1712 AC), o extremo sul da Mesopotâmia foi perdido para um rei nativo Acadiano chamado Ilum-ma-ili, que formou a “Dinastia das Terras do Mar”[2], permanecendo independente da Babilônia pelos 272 anos seguintes.
Os babilônios e seus governantes amoritas foram então expulsos da Assíria, ao norte, por um governante assírio-Acadiano de nome Puzur-Sin em 1740 AC. Após uma década de guerra civil na Assíria, o rei nativo Adasi tomou o poder em 1730 AC, apropriando-se de um território anteriormente babilônio na Mesopotâmia Central.
O governo amorita sobreviveu num império muito reduzido, com vãs tentativas de recuperação das terras que possuía ao tempo de Hammurabi, acabando por contentar-se com pacíficos projetos de construção na própria Babilônia. Samsu-Ditana foi o último governante amorita da Babilônia, inicialmente sofrendo pressão dos Kassitas das montanhas do noroeste do Irã e então tendo a própria Babilônia atacada pelo Império Hitita baseado na Ásia Menor, em 1595 AC, sendo sacado do poder pelo rei hitita Mursili I, após o “Saque da Babilônia”, no mesmo ano. Os hititas não permaneceram por muito tempo, mas a destruição por eles causada finalmente permitiu aos kassitas ganharem o controle.

IV.10.3 – DINASTIA KASSITA (1595-1155 AC)

A Dinastia Kassita foi fundada por Gandash, de Mari. Os governantes kassitas, como os amoritas que os precederam, não eram nativos da Mesopotâmia, mas originários das Montanhas Zagros. Os kassitas renomearam a Babilônia, “Kar-Duniash” e seu governo durou 576 anos, a mais longa dinastia da história da Babilônia. Contudo, a Babilônia continuou sendo a capital do reino e uma das cidades “santas” da Ásia ocidental, onde os sacerdotes da religião mesopotâmica eram todo-poderosos, e o único lugar onde o direito de herança do curto Antigo Império Babilônico poderia ser conferido. A Babilônia experimentou curtos períodos de poder, mas, em geral, provou ser relativamente fraca sob o longo domínio dos kassitas, tendo muitos períodos sob dominação e interferência dos assírios e elamitas.
Agum I tomou o trono para os kassitas em 1595 AC e governou um estado que se estendia do Irã ao médio Eufrates, mantendo relações pacíficas com a Assíria mas vencendo guerra contra o Império Hitita da Ásia Menor, reconquistando deles a sagrada estátua de Marduk, 24 anos em seu poder e igualando-o à deidade kassita Shugamuna.
Os governantes kassitas sucederam-se sem acontecimentos mais significativos, sempre reatando laços de amizade com a Assíria e o Egito e tentando tomar a “Dinastia das Terras do Mar”, sem sucesso, até que Agum II conquistou o extremo sul da Mesopotâmia para a Babilônia, destruindo a sua capital.
Novamente um período de paz relativa com os governos preservando a paz com os assírios, egípcios e hititas, mas sempre tentando agora a conquista do Elam, obtida com Kurigalzu III, que saqueou a capital Susa e lá colocou um governante fantoche no trono elamita. Tal política prosseguiu com seu sucessor Kadashman-Enlil (1374-1360 AC) e os demais até que o usurpador Nazi-Bugash depôs Kara-hardash, enraivecendo Ashur-uballit I, rei da Assíria que invadiu e saqueou a Babilônia, matou o usurpador, anexou o território babilônico ao Médio Império Assírio e instalou Kurigalzu II (1345-1324 AC) como seu governante vassalo.
Este rei e vários de seus sucessores, aliados com outros povos, tentaram, sem sucesso, restabelecer o poder da Babilônia, perdendo ainda mais territórios para a expansão assíria. Até que o reino de Kashtiliash IV encerrou catastroficamente quando o rei assírio Tukulti-Ninurta I invadiu, saqueou e queimou a Babilônia, estabelecendo-se como rei e tornando-se, ironicamente, o primeiro mesopotâmio nativo a governar o estado, como mencionado anteriormente.
A Babilônia não se recuperou até o final do reinado de Adad-shuma-usur (1216-1189 AC), já que ele permaneceu como vassalo da Assíria até 1193 AC e conseguiu evitar que o rei assírio Enlil-kudurri-usur retomasse a Babilônia, a não ser por uma pequena área da região norte.
Seguiu-se um breve período de paz e a guerra ressurgiu com Marduk-apla-iddina (1171-1159 AC), quando Ashur-Dan da Assíria conquistou regiões adicionais ao norte da Babilônia e o governante elamita Shutruk-Nahhunte conquistou a maior parte da Babilônia leste. Enlil-nadin-ahhe (1157-1155 AC) foi finalmente deposto e a dinastia Kassita terminou quando Ashur-Dan conquistou ainda mais do norte e centro da Babilônia e o rei elamita Shutruk-Nahhunte penetrou no coração da Babilônia, saqueando a cidade e assassinando o rei.
A despeito da perda de território, fraqueza militar e evidente redução na cultura, a Dinastia Kassita foi a mais longa da Babilônia, durando até 1157 AC, quando a Babilônia foi conquistada pelo elamita Shutruk-Nahhunte e reconquistada poucos anos após pelo nativo Acadiano-babilônio Nabucodonosor I.

IV.10.4 – SEGUNDA DINASTIA DE ISIN (1155-1026 AC)

Os elamitas não permaneceram no controle da Babilônia por longo tempo e Marduk-kabit-ahheshu (1155-1139 AC) estabeleceu a Segunda Dinastia de Isin, primeira dinastia de língua Acádiaiana ao sul da Mesopotâmia a governar a Babilônia, que deveria permanecer no poder por 125 anos. O novo rei depôs os elamitas e evitou qualquer possível retorno kassita. Mais tarde ele entrou em guerra contra a Assíria, com alguns sucessos iniciais, brevemente capturando a cidade de Ekallatum antes de ser derrotado pelo rei assírio Ashur-Dan I.
Alguns reis dessa dinastia se sucederam com dois objetivos: sempre repelir as novas tentativas dos elamitas e tentar tomar a Assíria, sem sucesso.
Nabucodonosor I
Nabucodonosor I (1124-1103 AC) foi o mais famoso governante desta dinastia. Lutou contra, derrotou e expulsou os elamitas, do território da Babilônia, invadiu o Elam saqueando sua capital Susa e recuperou a estátua sagrada de Marduk que havia sido retirada da Babilônia. Logo em seguida, o rei do Elam foi assassinado e seu reino desintegrado por guerras civis. Falhou em estender o território da Babilônia, sendo derrotado várias vezes por Ashur-resh-eshi, rei dos assírios, pelo controle dos territórios anteriormente controlados pelos hititas na Aramea. Nos últimos dias do seu reinado, devotou-se a pacíficos projetos de construção e a garantir as fronteiras da Babilônia.
Dois de seus filhos o sucederam e outros após eles, que não tiveram qualquer sucesso e apenas viram o território da Babilônia encolher cada vez mais por guerras sucessivas contra a Assíria e repetidas invasões por outros povos, até que grandes áreas da Babilônia foram apropriadas e ocupadas por arameus (grande parte do interior e leste e central Babilônia), caldeus (sudeste da Babilônia) e suteus (desertos do oeste).

IV.10.5 – PERÍODO DE CAOS (1026-911 AC)

A dinastia nativa, então governada por Nabu-shum-libur, foi deposta por saqueadores arameus em 1026 AC e o coração da Babilônia, incluindo a capital, caiu em estado anárquico e por 20 anos nenhum rei governou a Babilônia, criando-se no sul da Mesopotâmia, um estado separado da Babilônia governado por Simbar-shipak, líder de uma clã kassita. Tal estado de anarquia permitiu que o governante assírio, Ashur-nirari, invadisse e capturasse a cidade babilônia de Atlila e algumas regiões ao norte, em 1018 AC. Essa dinastia foi então substituída por outra dinastia kassita (Dinastia VI, 1003-984 AC) que parece ter recuperado o controle sobre a Babilônia. Os elamitas depuseram essa breve recuperação com o rei Mar-biti-apla-usur, fundando a Dinastia VII (984-977 AC). Contudo, também essa dinastia caiu e os arameus mais uma vez ganharam a Babilônia.
O governo nativo foi restaurado com Nabu-mukin-apli, em 977 AC, introduzindo a Dinastia VIII. A Dinastia IX começou em 941 AC com Ninurta-kudurri-usur II. A Babilônia permaneceu fraca durante esse período, com áreas inteiras agora sob firme controle caldeu, arameu e suteu com seus governantes muitas vezes se curvando à pressão da Assíria e Elam, que haviam se apropriado de território babilônio.

[1] A Cronologia Curta é uma das cronologias da Idade do Bronze e do início da Idade do Ferro para o Oriente Próximo, que fixa o reino de Hammurabi em 1728-1686 AC e o saque da Babilônia em 1531 AC. As datas absolutas do Segundo Milênio AC, resultantes dessa decisão, têm muito pouco apoio entre os estudiosos, particularmente após recente pesquisa. A Cronologia Média, que fixa o reino de Hammurabi entre 1792 e 1752 AC, é ainda muito encontrada na literatura e trabalhos mais recentes têm desaprovado a Cronologia Curta. Para a maior parte do período em questão, as datas da Cronologia Média podem ser obtidas adicionando-se 64 anos às datas correspondentes à Cronologia Curta. Após a “Idade das Trevas” da Antiguidade, entre a queda da Babilônia e a ascensão da dinastia Kassita na Babilônia, as datas absolutas tornam-se menos incertas. Da Terceira Dinastia Babilônica para frente, a dicotomia de 64 anos entre a média e a curta cronologia não se aplica mais.
[2] As fontes consultadas, em língua inglêsa, falam de “Sealand Dinasty”, e daí a nossa tradução, possivelmente pelo fato de que esse rei e seu povo habitaram, inicialmente, a província com esse nome, situada numa região pantanosa e desolada ao sul da Mesopotâmia, que rapidamente se expandiu em direção ao sul, com o assoreamento das fozes dos rios Tigre e Eufrates.

Na próxima postagem, última parte da Mesopotâmia: Parte 11

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 08)

IV.9 - IMPÉRIO ASSÍRIO

Assíria, em verde, cerca 1450
AC, com a capital Assur
A Assíria foi um importante reino semita da Mesopotâmia e por muito tempo um império do antigo Oriente Médio, que existiu como estado independente por um período de aproximadamente 19 séculos, de 2500 AC a 605 AC. A partir daí, por mais 13 séculos, até meados do século VII DC, sobreviveu governado por potências estrangeiras, embora alguns pequenos estados novo-assírios tenham surgido por todo este período. Centrado no curso superior do rio Tigre, norte da Mesopotâmia, os assírios governaram poderosos impérios, o último dos quais tornou-se o maior e mais poderoso império que o mundo já tinha visto. No seu pico, o império assírio se estendeu de Chipre, no Mediterrâneo, à Pérsia (atual Irã) e das montanhas do Cáucaso (atuais Armênia, Geórgia, Azerbaijão) à Península Árabe e Egito.
A Assíria pegou o nome da sua capital original, a antiga cidade de Assur (Ashur) que data de 2600 AC, originariamente uma das várias cidades estados Acadianas na Mesopotâmia, que pode ser vista em qualquer da duas figuras. Até o final do século XXIV AC, os reis assírios eram somente líderes regionais e subordinados a Sargão de Acádia, que uniu todos os povos da mesopotâmia que falavam Acadiano semita e sumério na Mesopotâmia, sob o Império Acadiano. Com a queda deste império e do curto renascimento sumério, a Assíria recuperou sua plena independência.
O Império Assírio, em verde no seu auge, incluindo o Egito


A história da Assíria é, grosseiramente, dividida em três períodos, conhecidos como Antigo Assírio, Médio Assírio e Novo Assírio, que correspondem, mais ou menos, à Média Idade do Bronze, Final Idade do Bronze e Início da Idade do Ferro, respectivamente. No Antigo Assírio, a Assíria estabeleceu colônias na Ásia Menor (ou Anatólia) e no Levante e, sob o rei Ilushuma, pugnou por seus direitos sobre o sul da Mesopotâmia. A partir do século XIX AC, a Assíria entrou em conflito com o recém-criado estado da Babilônia (nosso próximo estudo), que finalmente ofuscou os estados sumero-Acadianos mais velhos, como Ur, Isin, Larsa e Kish. No Médio Assírio, a Assíria passou por grandes oscilações. Teve um período de império com Shamshi-Adad e Ishme-Dagan nos séculos XVIII e XIX AC. Após, esteve sob o domínio da Babilônia e de Mitanni-Hurrian[1] por curtos períodos, nos séculos XVIII e XV AC, respectivamente. Um outro período de grande poder ocorreu com a ascensão do Império Assírio Médio (de 1365 a 1056 AC) que incluiu reinados de reis importantes; durante este período a Assíria destruiu o Mitanni e eclipsou os impérios Hitita e Egípcio no Oriente Médio. A partir de 911 AC, com as campanhas de Adad-nirari, tornou-se novamente uma grande potência pelos três séculos seguintes, derrotando a 25ª Dinastia do Egito e conquistando o Egito, Babilônia, Elam e Urartu/Armênia, Pérsia[2] e vários outros estados, como veremos em detalhe. Após a sua queda entre 612 e 605 AC, a Assíria permaneceu como província e entidade geopolítica sob vários impérios importantes, após o que foi finalmente dissolvida e os remanescentes da população assíria tornaram-se uma minoria em sua terra natal.

IV.9.1 - A ASSÍRIA PRÉ-HISTÓRICA

Em tempos pré-históricos, a região que tornou-se conhecida como Assíria (ou Subartu) foi o lar de uma cultura Neandertal[3], como descoberto na Caverna Shanidar. Os primeiros sítios do Neolítico, na Assíria, pertenciam à cultura Jarmo (sítio arqueológico no norte do Iraque, aos pés das Montanhas Zagros), cerca de 7100 AC, e Tell Hassuna (“tell” da província de Níneve, Iraque), o centro da cultura Hassuna, cerca de 6000 AC.
As cidades de Assur e Nínive, com outras, existiram desde, pelo menos, a metade do terceiro milênio AC, embora nesta época sendo centros administrativos do governo sumério e não estados independentes. De acordo com escritores cristão-judaicos, a cidade de Assur foi fundada por Ashur, filho de Shem, deificado pelas gerações posteriores como o deus padroeiro da cidade. A tradição assíria cita um antigo rei assírio Ushipa como tendo dedicado o primeiro templo ao deus Ashur, na cidade, no século XXI AC. É muito provável que a cidade tenha sido nomeada em honra do seu deus assírio padroeiro com o mesmo nome. Fontes diversas, baseadas em relatos posteriores, apresentam datas não muito divergentes para a fundação da Assíria, conduzindo a um valor médio em torno de 2174 AC.

IV.9.2 – A ANTIGA ASSÍRIA (2600 – 2335 AC)

Os estudiosos consideram que a cidade de Ashur, com outras cidades assírias, foram estabelecidas pelo ano 2600 AC, nessa época como centros administrativos sumérios. Da história mais antiga do reino da Assíria, pouco é positivamente conhecido. Na “Lista dos Reis Assírios”, o primeiro rei registrado foi Tudiya e suas atividades foram confirmadas por um tablete (questionável após as últimas descobertas) em que ele concluiu um tratado para a operação de uma colônia de comércio em território eblaita (de Ebla, um dos mais antigos reinos da Síria). Tudiya foi sucedido na lista por Adamu e então por treze governantes adicionais, sobre cujos nomes nada se conhece de concreto, a não ser o fato de que um tablete muito posterior, listando a linhagem ancestral de Hammurabi, o rei Amorita da Babilônia, teria incluído ao mesmos nomes embora em forma bastante corrompida. Os primeiros reis, como Tudiya, registrados como reis que viviam em tendas, podem ter sido governantes pastoris seminômades Acadianos independentes. Estes reis, em algum ponto tornaram-se totalmente urbanos e fundaram a cidade-estado de Ashur.
Durante o Império Acadiano (2334-2154 AC), os assírios, como todos os semitas Acadianos e sumérios, ficaram sujeitos à dinastia da cidade-estado de Acádia. A Assíria, ao norte da sede do império, tinha também sido conhecida como Subartu, pelos sumérios, e o nome Azuhinum, nos registros Acadianos, também parece referir-se à Assíria. Os governantes assírios eram subordinados a Sargão e a cidade de Ashur tornou-se um centro administrativo regional do Império.
Por essa época, a Assíria já comerciava fortemente na Ásia Menor, através dos seus karums (postos de comércio na Anatólia), conforme documentado em tabletes cuneiformes da época, assim difundindo o uso da escrita cuneiforme mesopotâmica pela Ásia Menor e o Levante.
Ao final do reino de Sargão, o Grande, os assírios tentaram uma rebelião mal sucedida e foram fortemente reprimidos. Conforme vimos, o Império Acadiano encerrou pelo declínio econômico seguido de ataques do povo bárbaro gutiano, em 2154 AC.
Entre 2154 e 2112 AC os governantes assírios ficaram de novo totalmente independentes, pois os gutianos apenas administraram o sul da Mesopotâmia.
A maior parte da Assíria tornou-se parte do Novo Império Sumério (ou 3ª Dinastia de Ur), fundado em 2112 AC, que se estendeu até a cidade de Ashur, mas parece não ter alcançado Níneve e a extremidade norte da Assíria. Os governantes de Ashur parecem ter permanecido sob dominação suméria até cerca de 2050 AC.

IV.9.3 – O ANTIGO REINO ASSÍRIO (2050-1392 AC)

As primeiras inscrições por reis assírios “urbanizados” apareceram no meio do século XXI AC, após terem sacudido a dominação suméria. A terra da Assíria, como um todo, consistia em um número de cidades-estados e pequenos reinos semitas Acadianos, alguns dos quais, inicialmente independentes da Assíria. A fundação do primeiro templo importante na cidade de Ashur é, tradicionalmente, atribuído ao rei Ushpia, que reinou cerca de 2050 AC, possivelmente um contemporâneo de Ishbi-Erra, de Isin e de Naplanum, de Larsa. Foi sucedido por reis de que pouco se conhece, a não ser de menções muito posteriores a Kikkiya, que conduziu fortificações nas muralhas da cidade e realizou trabalhos nos templos de Ashur.
Os principais rivais, vizinhos ou parceiros de comércio aos primeiros reis assírios durante os séculos XXII a XX AC, foram os hattianos e hurrianos, ao norte da Ásia Menor, os gutianos e Turukku, ao leste, nas montanhas Zagros, os elamitas, a sudeste (moderno centro sul do Irã), os amoritas ao oeste (atual Síria) e suas cidades-estados assemelhadas do sul da Mesopotâmia, como Isin, Kish, Ur e Larsa.
Como muitas cidades-estados da história da Mesopotâmia, Ashur foi, numa grande proporção, mais uma oligarquia do que uma monarquia. A autoridade era da Cidade e o sistema tinha três principais centros de poder: um conselho de anciãos, um soberano hereditário e um epônimo. O soberano presidia sobre o Conselho e concretizava suas decisões. Não era chamado pelo termo Acadiano comum para rei, reservado a Assur, deidade patrona da cidade, de quem o soberano era alto sacerdote. O governante era somente designado como o “procurador de Assur”, onde o termo para procurador é uma palavra emprestada do sumério ensi(k). O terceiro centro de poder era o epônimo que cedia seu nome ao ano, da mesma forma que os posteriores arcontes e cônsules da antiguidade clássica. Era anualmente sorteado e responsável pela administração econômica da cidade, o que incluía o poder para prender pessoas e confiscar propriedades.
Cerca de 2025 AC, Puzur-Ashur (talvez um contemporâneo de Shu-ilishu de Larsa e Samium de Isin) parece ter deposto Kikkiya e fundado uma nova dinastia que sobreviveria por 216 anos. Seus descendentes deixaram inscrições que o mencionavam em relação à construção de templos, tais como os de Ashur, Adad e Ishtar na Assíria. A duração do seu reino é desconhecida.
Outros reis sucederam-se nessa dinastia que foi encerrada com o rei Erishum II (1818-1809), que governou por somente nove anos e foi deposto por Shamshi-Adad I, o amorita usurpador que já havia sido derrotado numa tentativa anterior e que reivindicava a legitimidade ao trono como descendente do rei assírio Ushpia, de meados do século XXI AC.
Embora visto como amorita pela tradição assíria posterior, a descendência de Shamshi-Adad I, que reinou de 1809 a 1776 AC, foi sugerida pela Lista de Reis Assírios como sendo de Ushpia, rei nativo de língua Acadiana. Colocou seu filho Ishme-Dagan no trono da cidade assíria próxima, Ekallatum, e manteve as colônias assírias na Anatólia. Conquistou o reino de Mari (na Síria Moderna) no Eufrates, colocando no trono outro de seus filhos, Yasmah-Adad. Com isso, a Assíria de Shamshi-Adad I abarcava todo o norte da Mesopotâmia, incluindo territórios da Mesopotâmia central, Ásia Menor e norte da Síria, havendo menções de que ele teria conduzido ataques às costas canaanitas do Mediterrâneo, onde teria erigido marcos para comemorar suas vitórias. Residia na nova cidade capital de Shubat-Enlil, fundada no vale de Khabur, norte da Mesopotâmia.
Seu filho Ishme Dagan herdou o trono da Assíria, mas Yasmah-Adad foi derrubado de Mari por um novo rei de nome Zimrilim, que se aliou com o rei amorita Hammurabi, da Babilônia, que tornou este recém criado estado numa potência importante. Foi do reino de Hammurabi que o sul da Mesopotâmia tornou-se conhecido como Babilônia, potência crescente com que então passou a defrontar a Assíria. Ishme-Dagan respondeu através de uma aliança com os inimigos da Babilônia e a luta pelo poder se prolongou por décadas. Como seu pai, um grande guerreiro, repelia os ataques da Babilônia ao mesmo tempo em que movia campanhas vitoriosas contra vários inimigos importantes.
Após conquistas importantes, Hammurabi finalmente sujeitou à Babilônia, cerca de 1750 AC, Mut-Ashkur, filho de Ishme-Dagan. Com Hammurabi, os vários postos de comércio na Anatólia encerraram suas atividades porque os bens da Assíria eram então comerciados com a Babilônia. A monarquia assíria sobreviveu, contudo os três reis amoritas que sucederam a Ishme-Dagan, Mut-Ashkur (1750-1740 AC), Rimush (1739-1733) e Asinum (1732 AC), tornaram-se vassalos e dependentes da Babilônia, sob Hammurabi e, por curto tempo, também seu sucessor Samsu-iluna.
Este Império Babilônico de curta vida, rapidamente desfibrou-se com a morte de Hammurabi, perdendo o controle sobre a Assíria durante o seu sucessor Samsu-iluna (1750-1712 AC). Um período de guerra civil seguiu-se após a deposição do rei amorita da Assíria, Asinum, cerca de 1732 AC, por um poderoso vice regente nativo Acadiano de nome Puzur-Sin, que via Asinum como um estrangeiro e antigo lacaio da Babilônia. Foi uma época conturbado em que vários reis se sucederam por curto período, até que Adasi (1726-1701 AC) tomou o poder, encerrando a guerra civil e estabilizando a situação na Assíria, tirando da esfera de influência dos assírios, babilônios e amoritas. Adasi foi sucedido por Bel-bani (1700-1691 AC) que infligiu derrotas adicionais aos babilônios e amoritas, reforçando e estabilizando ainda mais o reino.
Sabe-se pouco dos vários reis que o sucederam, mas a Assíria parece ter tido uma nação relativamente forte e estável, sem ser perturbada por seus vizinhos de várias etnias por mais de 200 anos, mesmo quando a Babilônia foi saqueada pelos Hititas e caiu para os Kassitas[4] em 1595 AC, mantendo um tratado mutualmente benéfico com o estado vizinho.
Nem o recém fundado Império Mitanni, na Ásia Menor, perturbou os reis do Império Assírio que mantiveram uma época de progresso e calma até o ano 1450 AC, quando iniciou o seu declínio.
Ashur-nadin-ahhe I (1450-1431 AC) foi cortejado pelos egípcios, rivais dos Mitanni da Ásia Menor, que na tentativa de ganhar uma base de apoio no Oriente Médio, lhe enviaram, na pessoa de seu rei Amenhotep II, tributo de ouro para selar aliança contra o Império Hurri-Mitanni, governado por Saushtatar. É possível que essa aliança tenha provocado a invasão da Assíria e o saque da cidade de Ashur, após o que a Assíria tornou-se um esporádico estado vassalo, com Ashur-nadin-ahhe I sendo forçado a pagar tributo a Saushtatar. Foi deposto por seu próprio irmão, Enlil-nasir II (1430-1425 AC), provavelmente com a ajuda dos Mitanni, que continuou a pagar tributo , assim como seu sucessor Ashur-nirari II (1424-1418 AC). A monarquia assíria sobreviveu já que a influência Mitanni parece ter sido esporádica, nem sempre desejosa de interferir nas relações internas e internacionais assírias.
O mesmo aconteceu com os reis assírios que o sucederam, até a ascensão ao trono, de Eriba-Adad I (1392-1366 AC) que, finalmente quebrou os laços com o Império Mitanni. Há muitos textos cuneiformes deste período, com observações precisas de eclipses lunares e solares, que foram usadas como “âncoras” nas várias tentativas de definir a cronologia da Babilônia e Assíria para o segundo milênio AC.


[1] O Mitanni foi um estado de língua hurriana, ao norte da Síria e sudeste da Anatólia, que atingiu o seu clímax cerca de 1400 AC, fundado por uma casta governante Indo-Ariana, com população predominantemente hurriana.
[2] Os persas são um povo iraniano que teria chegado ao Irã entre 2000 e 1500 AC e se estabelecido em Pars, província na região sudoeste, de onde se originaram as palavras portuguesas Pérsia e persa.
[3] O Neandertal é uma espécie humana extinta, do gênero Homo, muito próxima dos modernos humanos (diferindo no DNA por apenas 0,12%) e assim nomeada de Neandertal (Vale do Neander), local da Alemanha onde foi descoberta pela primeira vez.
[4] Os Kassitas, povo antigo do Oriente Médio, controlaram a Babilônia, após o saque da cidade pelos Hititas e a queda do Antigo Império Babilônico, em 1595 AC, até 1155 AC. Seu reinado de 500 anos criou uma base fundamental para o desenvolvimento da subsequente cultura babilônica.

Prossegue na PARTE 09, com o Médio Império Assírio

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 07)

IV.8 - IMPÉRIO ACADIANO

O Império Acadiano foi outro antigo império semita da Mesopotâmia, surgido na cidade de Acádia e seus arredores, que uniu todos os Acadianos indígenas falando o semita e o sumério. O Império Acadiano acabou por controlar a Mesopotâmia, o Levante e partes do Irã. Durante o terceiro milênio AC desenvolveu-se uma simbiose cultural muito íntima entre os sumérios e os Acadianos semitas, que incluiu um difundido bilinguismo.
O Império Acadiano em seu auge, podendo-se ver a capital,
Acádia (Akkad), sem localização precisa, e a importante Kish 
O império Acadiano (figura ao lado) alcançou seu pico político entre os séculos XXIV e XXII AC, após a conquista por seu fundador Sargão de Acádia (2334 a 2279 AC) e durante o qual e seus descendentes, a língua Acadiana foi brevemente imposta aos estados vizinhos, como por exemplo, o Elam. Com o fim do Império Acadiano, seu povo da Mesopotâmia acabou se unindo em duas nações principais falando o Acadiano: Assíria ao norte e, alguns séculos mais tarde, a Babilônia ao sul.
O sítio arqueológico exato da cidade-estado de Acádia ainda nunca foi encontrado. A forma Agade aparece em sumério, por exemplo, na Lista dos Reis da Suméria; a forma posterior assírio-babilônio Acadiau (de ou pertencente a Acádia) provavelmente derivou desta. Séculos mais tarde, o rei babilônio Nabonidus mencionou em seus registros arqueológicos que a adoração de Ishtar em Agade foi mais tarde ultrapassado pela da deusa Anunit, cujo templo era em Sippar, sugerindo proximidade entre essas duas cidades. Embora as numerosas buscas, a cidade nunca foi encontrada. Uma teoria sustenta que Agade situava-se em frente a Sippar na margem esquerda do Eufrates e fosse talvez a parte mais velha de Sippar. Uma outra teoria diz que as ruínas de Acádia deveriam ser encontradas sob a moderna Bagdá. Reputadamente, ela teria sido destruída pelos invasores gutianos com a queda do império Acadiano.

IV.8.1 - HISTÓRIA DO IMPÉRIO ACADIANO

Usuários da língua Acadiana já estavam presentes na Mesopotâmia ao alvorecer do período histórico e logo alcançaram precedência, com a primeira Dinastia de Kish, em numerosas localidades ao norte as Suméria, onde governantes com nomes Acadianos já se tinham estabelecido pelo terceiro milênio AC. O rei Sargão foi muitas vezes sido citado como o primeiro governante do império combinado da Acádia e Suméria, embora dados descobertos mais recentemente sugiram expansões sumérias sob reis anteriores.
Sargão de Acádia, que significa “legítimo rei”, e que ele talvez tenha ganho junto com o poder, derrotou e capturou Lugal-Zage-Si, da Suméria, na Batalha de Uruk, conquistando seu império. Os primeiros registros em língua Acadiana datam do tempo de Sargão, tido como filho de La’ibum ou Itti-Bel, uma humilde jardineira e, possivelmente, uma hierodoulos[1] ou sacerdotisa de Ishtar ou Inanna. Alegações posteriores, em favor de Sargão, dizem que sua mãe era uma alta sacerdotisa, o que pode ter sido uma forma da garantir-lhe uma descendência nobre, já que somente uma família nobre poderia alcançar tal posição. Originalmente um copeiro de Ur-Zababa, rei de Kish, Sargão tornou-se um jardineiro, responsável pela tarefa de limpeza de canais de irrigação, o que lhe deu acesso a um disciplinado corpo de trabalhadores, que podem ter servido como seus primeiros soldados. Depondo Ur-Zababa, Sargão foi coroado rei e iniciou uma carreira de conquista estrangeira. Invadiu a Síria e Canaã quatro vezes e passou três anos tenazmente subjugando os países do “ocidente” para uni-los com a Mesopotâmia num só império. Contudo, Sargão ampliou tal proposta, conquistando muitas das regiões circundantes, para criar um império que alcançou, para o oeste, o Mar Mediterrâneo e talvez Chipre; ao norte, foi até as montanhas (um texto hitita posterior afirma que ele lutou contra o rei Hattiano Nurdagal de Burushanda, em plena Anatólia; na direção leste, até Elam; e para o sul, até Magan (Oman) – uma região sobre a qual reinou, supostamente, por 56 anos. Consolidou seu domínio em seus territórios, substituindo os governantes anteriores por nobres cidadãos de Acádia, sua cidade natal, assim garantindo a sua lealdade.
O comércio se estendeu, das minas de prata da Anatólia, às minas de lápis-lazúli no Afeganistão, os cedros do Líbano e o cobre de Magan. Essa consolidação das cidades-estados da Suméria e Acádia, refletiu o crescente poder econômico e político da Mesopotâmia. A “cesta alimentar” do império era o sistema agrícola do norte da Mesopotâmia (Assíria), alimentado por chuva, e uma cadeia de fortificações foi construída para controlar a produção de trigo imperial.
Imagens de Sargão foram erigidas nas praias do Mediterrâneo como testemunho de suas vitórias e cidades e palácios foram construídos na Mesopotâmia com os espólios das terras conquistadas. A região de Elam e o norte da Mesopotâmia foram também subjugadas e rebeliões na Suméria foram debeladas. Tabletes de contratos foram encontrados, datando dos anos das campanhas contra Canaã e contra Sarlak, rei de Gutium. Alguns dos textos historiográficos mais antigos sugerem que ele reconstruiu a cidade da Babilônia em seu novo local, próximo de Acádia.
Ao longo de sua longa vida, Sargão mostrou especial respeito para com as deidades sumérias, particularmente Inanna (Ishtar), sua protetora, e Zababa, o deus guerreiro de Kish. Chamava-se “o sacerdote ungido de Anu[2] e o grande ensi de Enlil”; sua filha, Enheduanna foi feita sacerdotisa de Nanna no templo de Ur.
Os problemas se multiplicaram ao final do seu reinado e mesmo depois de velho esmagou a oposição. As dificuldades recrudesceram no reinado de seus filhos. Revoltas eclodiram durante o reinado de nove anos (2278-2270 AC) de Rimush, que lutou muito para reter o império até que foi assassinado por alguns de seus cortesãos. Manishtushu, seu irmão mais velho, sucedeu-o e reinou por 15 anos (2269-2255 AC). Este último rei parece ter lutado uma batalha naval contra uma coligação de 32 reis e, tendo vencido, adquiriu o controle das terras que hoje constituem os Emirados Árabes Unidos e Oman. A despeito do seu sucesso, como seu irmão, foi assassinado numa conspiração palaciana.
A partir daí, os reis se sucederam, com o enfraquecimento do império e muitas revoltas, como costuma acontecer, após atingir um período, maior ou menor, de prosperidade e calma. O Império Acadiano ruiu em 2154 AC após 180 anos da sua fundação, a partir da invasão dos Gutianos, anunciando um período negro de declínio regional que durou até a ascensão da Terceira Dinastia de Ur, em 2112 AC. Ainda durante o período Gutiano, o rei Ur-Nammu, da Suméria, removeu os gutianos da Mesopotâmia.
No período entre 2112 e 2004 AC, conhecido como Período Ur III, os documentos começaram novamente a ser escritos em sumério, embora essa língua estivesse se tornando uma língua puramente literária ou litúrgica.

IV.8.2 – GOVERNO NA ACÁDIA

O governo Acadiano formou um padrão clássico com o qual todos os futuros estados mesopotâmicos se compararam. Tradicionalmente, o ensi era o mais alto funcionário das cidades-estados na Suméria; nas tradições posteriores, alguém tornava-se um ensi casando-se com a deusa Inanna, assim legitimando o governo por consentimento divino. Inicialmente, o monárquico lugal era subordinado ao sacerdotal ensi, e era indicado em épocas de problemas; ao final dos tempos dinásticos, era o lugal que havia emergido como o papel superior, tendo o seu próprio palácio, independente do estabelecimento do templo. À época de Mesalim (rei da cidade-estado de Kish em 2500 AC), qualquer dinastia que controlasse a cidade de Kish era reconhecida como rei de Kish e considerada como superior na Suméria, possivelmente porque localizada onde os dois rios se aproximavam, assim tendo o controle dos sistemas de irrigação das outras cidades de jusante.
À medida que Sargão estendia suas conquistas do Golfo Pérsico ao Mar Mediterrâneo, sentia-se que ele governava a “totalidade das terras sob o céu” ou “do nascente ao poente”, como punham os textos contemporâneos. Sob Sargão, os ensis geralmente retinham suas posições, mas eram mais vistos como governadores provinciais. O título “rei de Kish” era reconhecido como “Senhor do Universo”.
Com Naram-Sin, neto de Sargão, o caso foi mais longe, com o rei não apenas sendo chamado “Senhor dos Quatro Quartos (da Terra)”, mas também elevado à categoria de deus, com seu próprio templo. Antigamente um governante poderia tornar-se divino após a morte, mas os reis Acadianos, de Naram-Sin para a frente, eram considerados deuses na terra durante suas vidas. Seus retratos os mostravam em tamanhos maiores que meros mortais e a alguma distância de seus servidores.
Uma estratégia adotada por Sargão e Naram-Sin para manter o controle do país, foi instalar suas filhas Enheduanna e Emmenanna, respectivamente, como altas sacerdotisas de Sin, a versão acadiana da deidade lunar suméria, Nanna, em Ur, instalar filhos como governadores provinciais em localidades estratégicas, e casar suas filhas com governadores de partes periféricas ao império.

IV.8.3 – ECONOMIA

A população de Acádia, como quase todos os estados pré-modernos, era inteiramente dependente dos sistemas agrícolas da região, que parecem ter tido dois centros principais: as terras agricultáveis do sul do Iraque que, tradicionalmente produziam 30 grãos por cada grão plantado e a agricultura regada pela chuva, do norte do Iraque, conhecido por “País Superior”. O sul do Iraque, durante o período Acadiano, parece ter-se aproximado de seu nível moderno de precipitação, de menos de 20 mm por ano, com agricultura totalmente dependente de irrigação. Antes do Acadiano, a progressiva salinização dos solos, produzida por irrigação pobremente drenada, vinha reduzindo a produção de trigo na região sul, conduzindo à mudança para o cultivo da cevada, mais tolerante ao sal. As populações urbanas haviam alcançado um pico em 2600 AC e as pressões ecológicas eram grandes, contribuindo ao militarismo manifesto imediatamente antes do período Acadiano (como visto na “Estela dos Abutres”). As guerras entre as cidades-estados haviam conduzido a um declínio da população que permitiu a Acádia um repouso temporário. Foi este alto grau de produtividade agrícola no sul, que permitiu o crescimento das mais altas densidades populacionais no mundo daquele tempo, dando a Acádia sua vantagem militar. O lençol freático nessa região era muito alto e se reabastecia regularmente com as chuvas de inverno nas nascentes do Tigre e Eufrates, de outubro a março e com o degelo de março a julho. Os níveis de cheia que haviam ficado estáveis de 3000 a 2600 AC, começaram a cair e pelo período Acadiano estavam meio metro abaixo do que o registrado anteriormente. Ainda assim, a região plana e as incertezas climáticas faziam as cheias muito imprevisíveis; enchentes sérias pareciam ter ocorrência regular, exigindo manutenção permanente das valas de irrigação e sistemas de drenagem. Os agricultores eram recrutados em regimentos para este trabalho, de agosto a outubro – um período de carência de alimentos – sob o controle das autoridades do templo da cidade, que atuava como uma forma de diminuição do desemprego.
A colheita acontecia ao final da primavera e durante os meses secos do verão. Os nômades amoritas do noroeste levavam seus rebanhos de ovelhas e cabras para pastar no que restava e beber do rio e canais de irrigação. Por este privilégio eles pagavam uma taxa em lã, carne, leite e queijo para os templos, que poderiam distribuir esses produtos à burocracia e ao clero. Em anos bons, tudo funcionava bem, mas em maus anos havia carência de pastagens, os nômades buscavam pastagens para seus rebanhos nos campos de grãos e ocorriam conflitos com os agricultores. Nessas ocasiões parece ter havido ajuda às populações do sul pelo Império, pela importação de trigo das regiões do norte, com a recuperação econômica e o crescimento da população nessas regiões.
Como resultado, a Suméria e a Acádia tiveram um excedente de produtos agrícolas, mas carência de tudo o mais, particularmente minério de metais, madeira e pedra de construção, que tinham que ser importadas. A expansão do estado Acadiano em direção à “montanha de prata” (possivelmente as Montanhas Taurus), aos cedros do Líbano e aos depósitos de cobre de Magan, deve ter sido motivada com o objetivo de assegurar o controle sobre essas importações.

IV.8.4 – CULTURA

Durante o terceiro milênio AC, como já foi comentado anteriormente, desenvolveu-se uma simbiose cultural muito íntima entre sumérios e acadianos, que incluiu um difundido bilinguismo, com uma evidente influência recíproca entre ambos. Gradualmente, o acadiano substituiu o sumério como língua falada, em torno da virada do terceiro para o segundo milênio AC, com o sumério permanecendo como a língua sagrada, cerimonial, literária e científica na Mesopotâmia, até o século I DC.
O "disco de Enheduanna" , calcita, com 25 cm de diâmetro. Atrás
do sacerdote à esquerda, Enheduanna, de longas tranças e chapéu
A literatura suméria prosseguiu em rico desenvolvimento durante o período Acadiano. Notável exemplo foi Enheduanna, esposa de Nanna e filha de Sargão, do templo de Sin em Ur, que viveu cerca de 2285 a 2250 AC, a primeira poetisa da história conhecida pelo nome. Seus trabalhos conhecidos incluem hinos à deusa Inanna, Exaltação a Inanna e In-nin-sa-gur-ra. Um terceiro trabalho, Hinos do Templo, uma coleção de hinos específicos, dedicado aos templos sagrados, seus ocupantes e à deidade à qual eram consagrados. Os trabalhas desta poetisa são significativos; iniciando com a terceira pessoa e alternando para a primeira pessoa na voz da poetisa, marcam um significativo desenvolvimento no uso do cuneiforme. Como poetisa, princesa e sacerdotisa, foi uma personalidade que estabeleceu padrões para os três papéis, por séculos vindouros.
Um tablete do período diz: “Até então ninguém havia feito uma estátua de chumbo, mas Rimush, rei de Kish, tinha uma estátua sua feita de chumbo. Ela ficava em frente a Enlil e recitava suas virtudes aos deuses”. A estátua Bassetki, de cobre, fundida pelo método da “cera perdida”[3], atesta o alto nível de habilidade que os artesãos atingiram durante o período Acadiano.
O império era todo ligado por estradas, ao longos das quais havia um regular serviço de correio. Selos de argila, que tomaram o lugar de selos, levavam os nomes de Sargão e seu filho. Uma sondagem cadastral também parece ter sido instituída e um dos elementos relacionadas a ela, estabelece que um certo Uru-Malik, cujo nome parece indicar origem canaanita, foi governador da terra dos amoritas, povo seminômade da Síria e Canaã. É provável que a primeira coleção de observações astronômicas e augúrios terrestres tenha sido feita por uma biblioteca estabelecida por Sargão. Os primeiros “nomes de anos”, pelo qual cada ano do reinado de um rei era chamado, após um evento significativo realizado por aquele rei, datam do reinado de Sargão. Listas desses “nomes de anos” tornaram-se doravante um sistema de calendário usado na maioria das cidades-estados da Mesopotâmia.



[1] A palavra grega hierodoulos tem sido usada muitas vezes com o significado de “prostituta sagrada”, mas é mais provável que se refira a uma ex-escrava liberta para ser “dedicada” a um deus. A prostituição sagrada/religiosa/de templo, é um ritual sexual realizado no contexto de adoração religiosa, talvez como uma forma de ritual de fertilidade ou casamento divino.

[2]Anu era o deus do céu e a primeira figura da tríade que incluía Enlil (deus do ar) e Enki (deus da água) passando, por isso, a ser considerado como o pai e o primeiro, rei dos deuses.

[3] A fundição de “cera perdida” é o processo pelo qual uma escultura de metal é duplicada a partir da escultura original, através de um processo mais ou menos padronizado Variações no processo incluem: “perda do molde”, quando outros materiais além da cera podem ser utilizados, como sebo e resina; e “processo com perda de cera”, quando o molde é destruído para remover o item fundido.

Prossegue com a PARTE 8