Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sábado, 21 de outubro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 2

III – ANTIGUIDADE CLÁSSICA


III.1 – IMPÉRIOS MEDO E AQUEMÊNIDA (650-330 AC)

Os medos fixaram-se no norte do Planalto Iraniano, em Ecbátana (atual Hamadã, a 400 km a sudoeste de Teerã), e os persas, até então nômades, estabeleceram-se ao sul, em Parsa (atual província iraniana de Fars), na cidade de Anshan, onde Teispes (que reinou entre cerca de 675-640 AC), filho de Aquêmenes (semi-lendário, com reinado entre 700-675 AC), teria fundado um novo reino, intitulando-se “rei da cidade de Anshan”, primeiro passo do Império Aquemênida. Sucederam a Teispes, Ciro I e Cambises I. Este último casou-se com a neta do líder medo Ciáxares e foi pai de Ciro II, conhecido como o Grande. O reino de Anshan, tributário dos medos, continuou a usar o elamita como idioma oficial por algum tempo, embora a dinastia governante falasse persa, uma língua indo-européia. A posterior expansão do reino da cidade de Anshan resultaria na criação do Império Persa.
Império Neo-Assírio e suas expansões
Em 646 AC, o rei assírio Assurbanipal saqueou Susa (essa e as cidades que seguem podem ser vistas no mapa do Império Neo-Assírio), acabando com a supremacia elamita na região. Por mais de 150 anos os reis assírios do norte da Mesopotâmia estavam procurando conquistar as tribos medas do Irã ocidental, com tal pressão apenas causando a união dos pequenos reinos dessa região em estados cada vez maiores e mais centralizados. Na segunda metade do século VII AC, os medos ganharam sua independência e foram unidos por Deioces.
Império Meda (Região da Média), 678 a 549 AC
Durante anos dominadas pelos citas e pelos assírios, as tribos medas, unificadas por Ciáxares (neto de Deioces) e apoiados por Nabopolassar, rei da Babilônia, invadiram a Assíria e conquistaram Nínive, capital da Assíria, destruindo-a em 612 AC, levando à queda do Império Neo-Assírio. Urartu foi também, posteriormente, conquistado e dissolvido pelos medos. Após a derrota definitiva dos assírios em 610 AC, os medos ocuparam território no que é hoje o Irã, bem como na Ásia Menor, na Anatólia e na Lídia.
Ciro II, o Grande, rei da Pérsia,
da dinastia Aquemênida
Aos medos é creditada a fundação do Irã como nação e império, bem como o estabelecimento do primeiro Império Iraniano, o maior de seu tempo, até que Ciro II, o Grande, de origem persa, em 550 AC derrotou os medos e tomou o trono, estabelecendo um império unificado dos Medos e Persas, que conduziu ao Império Aquemênida (550 a 330 AC), ou Primeiro Império Persa, com sua capital em Pasárgada. Na verdade, medos e persas pertenciam à mesma raça iraniana e suas línguas eram quase idênticas, de forma que a ascensão de Ciro pode ser vista como uma revolução interna que não afetou o Império. Senhor dos territórios anteriormente sujeitos ao Império Medo, Ciro II tomou a antiga capital elamita de Susa, para onde foi transferida a capital persa. Em seguida, os persas conquistam a Lídia (contra quem os medos lutavam há décadas), a Jônia, a Cária, a Lícia e a Babilônia, após derrotar o Rei Nabonido em 538 AC. Sucedendo seu pai Ciro II, Cambises II conquistou, em vinte anos, por meio de força militar e de uma política liberal para com os povos submetidos, um Império que se estendia do Mediterrâneo ao Indo e que incluía o Egito (causando o colapso da 26ª Dinastia do Egito), muito maior que o da Assíria. Cambises II adoeceu e morreu antes ou quando deixava o Egito e conforme relata Heródoto, ele foi abatido por sua forte irreverência contra as deidades egípcias.
Cambises II, o rei persa liberal
Durante o período aquemênida, o Zoroastrismo, fundado por Zoroastro (Zaratustra), tornou-se a religião dos governantes e da maior parte dos povos da Pérsia. O Zoroastrismo enfatizava uma luta dualista entre o bem e o mal, e uma batalha final vindoura. O zoroastrismo e seus líderes místicos, os magi (singular mago), viriam a ser um elemento definidor da cultura persa.
Dario I, o rei persa do auge do
Império Aquemênida
Dario I reivindicou a sucessão por uma linha colateral do Império Aquemênida. A primeira capital de Dario I foi em Susa e seu programa de construção foi iniciado em Persépolis. Ele reconstruiu um canal entre o rio Nilo e o Mar Vermelho, um precursor do moderno Canal de Suez. Melhorou o extenso sistema de estradas e durante o seu reinado foi pela primeira vez mencionada a Estrada Real, uma grande estrada para ligar o seu extenso império, estendendo-se de Susa a Sardes (Turquia, às margens do Mediterrâneo), com estações de correio a intervalos regulares. As estradas também se destinavam ao comércio do Egito e da Europa com a Índia e a China, do qual a Pérsia se beneficiou grandemente. A cunhagem, na forma do Daric (moeda de ouro) e o Shekel (moeda de prata) foi padronizada, já que a cunhagem havia sido inventada mais de um século antes, na Lídia; a eficiência administrativa foi aumentada. Sob Dario I, o Império Persa Aquemênida acabou por tornar-se o maior e mais poderoso Estado que o mundo havia visto até então, quando reinou e administrou a maior parte do mundo então conhecido, além de estender-se pelos três continentes, Europa, Ásia e África. Dario dividiu o reino em cerca de vinte satrapias (províncias), supervisionadas por governadores (sátrapas). Também instituiu um sistema tributário para cobrar impostos de cada província, ampliou o sistema postal dos assírios e adotou o uso de agentes secretos (conhecidos como os Olhos e Ouvidos do Rei). A antiga língua persa aparece em inscrições reais, numa versão especialmente adaptada da escrita cuneiforme[1]. Sua maior realização foi o próprio império, que representou a primeira superpotência mundial baseada num modelo de tolerância e respeito por outras culturas e religiões. 
Império Persa cerca de 490 AC
Ao final do século VI AC, Dario I lançou sua campanha europeia, durante a qual derrotou os peonianos[2], conquistou a Trácia[3] e subjugou todas as cidades gregas costeiras, derrotando a Cítia Europeia[4] em torno do rio Danúbio. Em 512/511 AC, a Macedônia, sob Felipe I, tornou-se um reino vassalo da Pérsia.
Em 499 AC, Atenas cedeu apoio a uma revolta em Mileto[5] que resultou no saque de Sardes, conduzindo a uma campanha Aquemênida contra a Grécia continental, que ficou conhecida como as Guerras Grego-Persas (ou Guerras Médicas) e durou até a primeira metade do século V AC, uma das guerras mais importantes da história da Europa. Na primeira invasão persa, o general persa Mardonius reconquistou a Trácia e tornou a Macedônia totalmente integrada à Pérsia, embora ao final a guerra tenha se transformado em derrota. 
Relevo em rocha de Xerxes I
em sua tumba
O sucessor de Dario I foi Xerxes I e, como seu antecessor, governou o Império no seu auge territorial, de 486 AC até o seu assassinato em 465 AC, pelas mãos de Artabano, o comandante da sua guarda pessoal. Lançou a segunda invasão persa da Grécia, em 480 AC e em dado momento cerca de metade da Grécia continental havia sido conquistada pelos persas, incluindo todos os territórios ao norte do Istmo de Corinto (que liga o Peloponeso, extensa península ao sul da Grécia, à Grécia continental); contudo tal situação logo foi revertida para uma vitória grega, após as batalhas de Plataea e Salamis, quando a Pérsia perdeu sua base de operações na Europa, acabando por retirar-se dela. Pertence a esta invasão o famoso episódio histórico da Batalha das Termópilas, quando uma pequena força de espartanos comandada por um rei de Esparta, Leônidas, resistiu por três dias a um grande exército persa, embora fosse ao final derrotada. Durante as Guerras Grego-Persas, a Pérsia teve grandes vantagens territoriais e destruiu Atenas, em 480 AC. Contudo, após uma sequência de vitórias gregas, os persas foram forçados a retirar, assim perdendo o controle da Macedônia, Trácia e Jônia (região da costa sudoeste da Anatólia, hoje na Turquia, banhada pelo Mar Egeu). A luta continuou por várias décadas após os gregos terem repelido com sucesso a Segunda Invasão, com numerosas cidades-estados gregas sob a recém-formada Liga de Delos (com sua sede na cidade de Delos) e que finalmente terminou com a paz de Callias em 449 AC e término das Guerras Grego-Persas. Xerxes também esmagou revoltas no Egito e na Babilônia logo após assumir o império.
Ruínas do Palácio de Artaxerxes I, em Persépolis
Artaxerxes I, terceiro filho de Xerxes I, sucedeu a seu pai como o quinto Rei da Pérsia, reinando entre 465AC e 424 AC e durante o seu reinado foi assinada a paz de Callias, em 449AC. Seu sucessor foi seu filho Xerxes II que, após um reinado de quarenta e cinco dias, foi assassinado em 424 AC por seu irmão ilegítimo Sogdianus, figura histórica obscura que foi, por seu turno, assassinado por outro irmão ilegítimo, Dario II.
Os historiadores pouco sabem do reinado de Dario II. Enfrentou uma rebelião dos medos em 409 AC e parece ter sido muito dependente de sua esposa Parysatis. Enquanto o poder de Atenas permaneceu intacto, ele não se envolveu nos negócios gregos. Em 413 AC Atenas apoiou o rebelde Amorges, na Caria (região no sudoeste da Anatólia), e Dario II não teria interferido se, no mesmo ano, o poder ateniense não tivesse sido rompido em Siracusa (cidade histórica na região sudeste da ilha da Sicília, Itália). Como resultado do evento, Dario II deu ordem a seus sátrapas na Ásia Menor, para iniciar uma guerra contra Atenas, o que os persas efetivaram através de uma aliança com Esparta. Para maior efetividade, em 408 Dario II enviou para a Ásia menor seu filho Ciro. Dario II morreu em 404 AC, no nono ano do seu reinado, sendo sucedido como rei da Pérsia por Artaxerxes II, seu filho.
Dario II morreu logo antes da vitória final do general egípcio Amirteu, sobre os persas, em revolta do Egito. Os faraós seguintes resistiram às tentativas persas, até 343 AC, quando foi finalmente reconquistado por Artaxerxes III.
O filho mais velho de Dario II, Arsames, foi coroado como Artaxerxes II e ainda antes da coroação enfrentava oposição de seu irmão mais jovem Ciro. Este havia conseguido pacificar as rebeliões locais na Ásia Menor, tornando-se líder popular entre iranianos e gregos. Sabedor da doença de seu pai, Ciro reuniu apoio dos gregos locais e mercenários e marchou para a Babilônia, inicialmente declarando sua intenção de esmagar os exércitos revoltosos na Síria. Ao saber da morte de Dario II, Ciro declarou sua reivindicação ao trono, baseado no argumento de que ele era nascido de Dario e Parysatis, após Dario ter ascendido ao trono, ao passo que Artaxerxes nascera antes de Dario II assumir o trono. Artaxerxes II defendeu sua posição contra Ciro que, com ajuda de imenso exército tentava usurpar o seu direito. Embora Ciro tenha obtido uma vitória tática na Batalha de Cunaxa, na Babilônia (401 AC), foi morto durante a batalha, tornando a vitória irrelevante.
Artaxerxes III, de seu túmulo em Persépolis
Artaxerxes III, filho e sucessor de Artaxerxes II, reinou entre 358 e 338 AC como o Grande Rei (Xá) da Pérsia e o 11º do Império Aquemênida, bem como o 1º Faraó da 31ª dinastia do Egito. Logo após tornar-se rei, Artaxerxes III assassinou toda a família real para garantir seu lugar como rei. Iniciou duas campanhas contra o Egito. Falhou na primeira delas que foi seguida por rebeliões em todo o oeste do Império. Em 343 AC, Artaxerxes III derrotou Nectanebo II, o Faraó do Egito. Nos últimos anos de Artaxerxes, o poder de Felipe II da Macedônia, pai de Alexandre Magno, crescia na Grécia, onde ele tentava convencer os gregos a se revoltarem contra a Pérsia Aquemênida. A isso se opôs Artaxerxes III e com sua ajuda a cidade de Perinthus (ao lado da moderna Istambul) resistiu a um cerco macedônio. Há evidências de uma renovada política de construção em Persépolis, ao final de sua vida, onde Artaxerxes III erigiu um novo palácio e sua tumba, iniciando projetos de longo prazo, tais como o Portão Inacabado. Segundo uma placa cuneiforme, hoje no Museu Britânico, Artaxerxes teria morrido de causas naturais.
Felipe II da Macedônia
Artaxerxes IV, o filho mais jovem de Artaxerxes III, foi rei da Pérsia entre 338 e 336 AC. Foi um rei marionete de Bagoas, um poderoso vizir da Pérsia que poderia ter assassinado seu pai e que, de fato, exercia o poder atrás do trono. Bagoas acabou por envenenar Artaxerxes IV, levando ao trono um seu primo, como Dario III da Pérsia. Uma grande preocupação da Pérsia durante o seu curto reinado foram as hostilidades das fronteiras ocidentais com a Macedônia, sob os reis Felipe II, inicialmente, e Alexandre o Grande, posteriormente. Tais eventos se transformaram na guerra de conquista de Alexandre durante o reinado do sucessor de Artaxerxes III, Dario III.
Dario III, último rei do Império Aquemênida
Após as tentativas frustradas para conquistar a Grécia, o império aquemênida começou a declinar. Décadas de golpes, revoltas e assassinatos enfraqueceram o poder dos aquemênidas. Dario III, originalmente chamado Artashata, foi o último rei do Império Aquemênida da Pérsia, de 336 a 330 AC. Seu reinado foi instável, com grandes áreas governadas por sátrapas ciumentos e não confiáveis, habitado por súditos sem afeto e revoltosos. Em 334 AC, Alexandre, o Grande, iniciou sua invasão do Império Persa. Em 333 AC, os persas já não tinham mais força para suportar a avalanche de ataques de Alexandre, o Grande, que derrotou os persas em várias batalhas antes de saquear e destruir a capital Persépolis, incendiada em 331 AC. Com o Império Persa agora efetivamente sob o seu controle, Alexandre decidiu perseguir Dario III. Em 330 AC, antes de Alexandre captura-lo, Dario III, o último rei Aquemênida foi assassinado pelo sátrapa Bessus (que era também seu primo), com o primeiro Império Persa caindo em mãos dos gregos e macedônios. 


[1] A escrita cuneiforme foi um dos primeiros sistemas de escrita, inventado pelos sumérios. Distinguiu-se por suas marcas em forma de cunha em tabletes de argila, feitas por meio de um bambú rombudo a funcionar como estilete.
[2] A Peônia, terra e reino dos peonianos, tem localização obscura, mas tudo indica que corresponderia à atual República da Macedônia e a uma estreita faixa do norte da Macedônia Grega, nos limites com a República da Macedônia e uma pequena parte do sudoeste da Bulgária.
[3] A Trácia é uma área geográfica e histórica no sudeste da Europa, agora dividida entre a Bulgária, Grécia e Turquia, limitada pelos Balcãs ao norte, o mar Egeu ao sul e o mar Negro ao leste. Compreende o sudeste da Bulgária, o nordeste da Grécia e a parte europeia da Turquia.
[4] A Cítia era uma região da Eurásia Central na antiguidade clássica que incluía partes da Europa Oriental, a leste do rio Vístula, e Ásia Central, com as margens orientais vagamente definidas pelos gregos, que davam este nome a todas as terras do nordeste da Europa e a costa norte do Mar Negro.
[5] Mileto era uma antiga cidade grega na costa oeste da Anatólia (atual Turquia), próxima da foz do rio Maeander na antiga região da Cária. Antes da invasão persa, Mileto era considerada a maior e mais rica das cidades gregas. Suas ruínas estão localizadas próximas da moderna vila de Balat, na província de Aydin, Turquia.

sábado, 11 de abril de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: EGITO (PARTE 04)

III.7 – NOVO REINO (1550 – 1069 AC)


Novo Reino em sua máxima extensão século XV AC 
O Novo Reino do Egito, ao qual também se refere como o Império Egípcio, é o período da história do Egito Antigo entre os séculos XVI (entre 1570 e 1544 AC) e XI AC, que cobriu da 18ª à 20ª Dinastias do Egito. Foi o período mais próspero do Egito e marcou o pico do seu poder e sua máxima extensão territorial. Os faraós do Novo Reino estabeleceram um período de prosperidade sem precedentes, pela segurança de suas fronteiras e pelo estreitamento dos laços diplomáticos com seus vizinhos, incluindo o Império Mitani, Assíria e Canaã. Os faraós do Novo Reino Promoveram a construção em larga escala, em honra ao deus Amun[1] cujo culto crescente era baseado em Karnak[2]. Eles também construíram monumentos para glorificar seus próprios sucessos, reais e imaginários.A última parte deste período, durante a 19ª e 20ª Dinastias (1292-1069 AC), é também conhecida como período Ramessita, devido aos onze faraós que tomaram o nome de Ramsés.
Máscara mortuária de Tutankamon, o jovem
rei que restaurou a antiga religião

A 18ª Dinastia teve alguns dos mais famosos faraós do Egito, incluindo Ahmose I, Hatshepsut, Tutmose III, Amenotep III, Akenaten e Tutankamon. A rainha Hatshepsut, que reinou por quase vinte e dois anos, promoveu a paz e concentrou-se em expandir o comércio externo do Egito, perdido com a ocupação dos hicsos, enviando uma expedição comercial até a distante terra do Punt. Tutmose III (1479-1425 AC) - como seu avô Tutmose I - expandiu o exército egípcio e controlou-o com grande sucesso para consolidar o império de seus predecessores. Foi durante o seu reinado que o termo Faraó, originalmente se referindo ao palácio do rei, tornou-se uma espécie de título para o rei. Quando Tutmose III morreu, em 1425 AC, o Egito tinha um império que se estendia da Niya, no noroeste da Síria, até a quarta cachoeira do Nilo, na Núbia, concretando alianças e abrindo acesso a importações críticas, como bronze e madeira.
A despeito de suas realizações, Amenotep II (também conhecido como Amenófe II), herdeiro do sobrinho (e enteado) de Hatshepsut, Tutmose III, tentou apagar o seu legado durante e próximo ao final do reinado do seu pai, tornando suas muitas das realizações dela. Ele também tentou mudar muitas tradições estabelecidas durante séculos, numa fútil tentativa de evitar que outras mulheres se tornassem faraós e frear sua influência no reino.
Estátua da Rainha Hatshepsut
Cerca de 1350, a estabilidade do Reino Novo pareceu mais ameaçada quando Amenotep IV, um dos mais conhecidos faraós da 18ª Dinastia, subiu ao trono e instituiu uma série de reformas radicais e caóticas. Mudando seu nome para Akenaten (em honra de Aten, um aspecto do deus Ra), ele promoveu a obscura deidade Aten a suprema e praticamente exclusiva deidade, suprimindo a adoração das demais, no primeiro exemplo de monoteísmo da história. Atacou o poder do templo que era dominado pelos sacerdotes de Amun, em Tebas, e mudou a capital para Aketaten, tornando-se surdo aos eventos do Oriente Próximo, onde hititas, mitanis e assírios competiam pelo controle. Após a sua morte, o culto a Aten foi rapidamente abandonado, os sacerdotes de Amun recuperaram seu poder e o poder retornou a Tebas. Sob sua influência, os faraós subsequentes, Tutankamon, Ay e Horemhem, trabalharam para apagar toda a menção à heresia de Akenaten, agora conhecida como Período Amarna. Possivelmente, foi esse fervor religioso de Akenaten pelo deus único Ten, que posteriormente o tornou proscrito da história egípcia. Sob seu reinado a arte egípcia floresceu atingindo um nível inédito de realismo.
Possível localização da Terra de Punt
com rotas terrestres e marítimas
Cerca de 1279 AC, Ramsés II, também conhecido como Ramsés, o Grande, já da 19ª Dinastia, subiu ao trono e construiu mais templos, erigiu mais estátuas e obeliscos e procriou mais crianças que qualquer outro faraó na história. Procurou recuperar territórios no Levante que tinham sido ocupados pela 18ª Dinastia. Um forte líder militar, Ramsés II conduziu seu exército contra os hititas na Batalha de Kadesh e, após lutar um combate sem decisão, finalmente concordou com o primeiro tratado de paz registrado, em 1258 AC. Sem poder vencer os hititas e temeroso da expansão do Médio Império Assírio, o Egito retirou-se muito do Oriente Próximo. Com isso os hititas foram deixados competir, sem sucesso, com os poderosos assírios e os recém chegados frígios.
Seus sucessores imediatos continuaram as campanhas militares, embora uma corte crescentemente conturbada – que em algum ponto colocou no trono um usurpador, Amenmesse –, tornou difícil a um faraó a tarefa de reter o controle sem incidente.
Tutmose III, o faraó militar,
"o Napoleão do Egito"
O último grande faraó do Novo Reino é aceito pela maioria como Ramsés III, um faraó da 20ª Dinastia, que reinou por várias décadas após Ramsés II. No oitavo ano do seu reino, os Povos do Mar (Filisteus entre outros) invadiram o Egito por terra e por mar sendo batidos por Ramsés III em duas grandes batalhas de mar e terra. Ramsés pretendeu tê-los incorporado como súditos estabelecendo-os ao sul de Canaã, embora haja evidência de que eles forçaram seu caminho para Canaã. Sua presença lá pode ter contribuído para a formação de novos estados nessa região, como a Filisteia[3] (Palestina), após o colapso do Império Egípcio.
O alto custo dessas ações de guerra lentamente drenou a riqueza do Egito e contribuiu para o seu gradual declínio na Ásia. A grandeza de suas dificuldades foi tão grande que a primeira greve de trabalho registrada na história ocorreu durante o 19º ano do reinado de Ramsés III, quando não foi possível fornecer as rações para os artesãos e construtores dos túmulos reais na vila de Deir el Medina. Características climáticas incomuns impediram a adequada insolação, prejudicando o crescimento global das árvores por quase duas décadas completas, até 1140 AC, provavelmente pela erupção do vulcão Hekla, na Islândia, cuja data correta permanece em disputa.
Faraó Akenaten (Amenotep IV), fundador da
primeira religião monoteísta 
A morte de Ramsés III foi seguida por anos de disputa entre seus herdeiros, três filhos do qual ascenderam ao trono sucessivamente como Ramsés IV, Ramsés VI e Ramsés VIII. O Egito foi, cada vez mais, perturbado por secas (abaixo do nível normal das cheias do Nilo), fome, agitação civil e corrupção no governo. Além disso, a riqueza do Egito, entretanto, fê-lo um alvo tentador à invasão, particularmente pelos berberes líbios do oeste e os Povos dos Mares, uma poderosa confederação de piratas gregos, luvianos (povo da Anatólia relacionado aos hititas) e fenícios/canaanitas. Inicialmente o exército pode repelir tais invasões, mas o Egito acabou perdendo o controle dos seus territórios ao sul de Canaã, principalmente para os assírios. O poder do último faraó da dinastia, Ramsés XI tornou-se tão fraco, que os altos sacerdotes de Amun, em Tebas, tornaram-se os governantes de fato do Alto Egito; e Smendes, controlando o Baixo Egito, ainda antes da morte de Ramsés XI, acabou fundando a 21ª Dinastia em Tanis, região nordeste do Delta do Nilo, conduzindo o Egito ao Terceiro Período Intermediário.

III.8 – TERCEIRO PERÍODO INTERMEDIÁRIO (1069 – 664 AC)

O Terceiro Período Intermediário do Antigo Egito inicia com a morte do faraó Ramsés XI, em 1070 AC e termina com o início do Último Período, com a fundação da 26ª Dinastia, por Psamtik, em 664 AC. Foi um período de declínio e instabilidade política, marcado pela divisão do Estado e pelo governo de estrangeiros, embora muitos aspectos da vida dos egípcios comuns tenham mudado relativamente pouco.
Com a morte de Ramsés XI, em 1078 AC, Smendes assumiu o poder sobre a região norte do Egito, reinando da cidade de Tanis e constituindo a 21ª Dinastia. O sul e o médio vale estavam efetivamente controlados pelos sacerdotes de Amun, em Tebas, que reconheciam Smendes apenas no nome. Durante este período, tribos berberes, do que mais tarde se chamaria Líbia, se haviam estabelecido no delta ocidental e os chefetes desses colonizadores começaram a aumentar a sua autonomia. Príncipes líbios tomaram controle do delta sob Shoshenq I, em 945 AC, fundando a dinastia Berbere Líbia ou Bubastita – 22ª Dinastia -, que governou por cerca de 200 anos. Soshenq I também ganhou controle do sul do Egito, colocando membros da sua família em posições sacerdotais e reunificando o país. Com isso, o Egito teve estabilidade por mais de 100 anos quando, após o reinado de Osorkon II, o país rachou em dois estados, com Shoshenq III, da 22ª Dinastia, controlando o Baixo Egito por 818 AC, enquanto Takelot II e seu filho Osorkon (o futuro Osorkon III) governavam o Médio e Alto Egito. Em Tebas, uma guerra civil engolfou a cidade entre as forças de Pedubast I, que se havia proclamado Faraó e a linha existente de Takelot II/Osorkon. Essas duas facções disputaram o poder e o conflito só foi resolvido no 39º ano de Shoshenq III quando Osorkon derrotou completamente os seus inimigos, prosseguindo para fundar a Dinastia Egípcia Líbia Superior de Osorkon III – Takelot III – Rudamun; mas esse reino rapidamente fragmentou-se após a morte de Rudamun, com o surgimento de cidades estados locais sob reis como Peftjaubast de Herakleopolis, Nimblot de Hermopolis e Init em Tebas.
O reino núbio ao sul tirou vantagem dessa divisão e instabilidade política. O rei núbio Kashta, da dinastia Kushita (24ª Dinastia), já havia estendido a influência de seu reino sobre Tebas, quando obrigou Shepenupet, sacerdotisa de Amun e irmã de Takelot III, a adotar sua filha Amenirdis como sua sucessora. Então, 20 anos depois, em 732 AC, seu sucessor, Piye, marchou para o norte tomando Tebas e o Delta do Nilo, derrotando a força combinada de vários governantes egípcios nativos: Peftjaubast, Osorkon IV de Tanis, Iuput II de Leontopolis e Tefnakht de Sais. Com isso, Piye armou o cenário para a subsequente Vigésima Quinta Dinastia de faraós, que reuniu as “Duas Terras”, tornando o império do Vale do Nilo tão grande como havia sido no Reino Novo.
Piye estabeleceu a 25ª Dinastia e nomeou os governantes derrotados como seus governadores provinciais. Foi sucedido por seu irmão Shabaka e então por seus dois filhos Shebitku e Taharga. O império do Vale do Nilo reunido, da 25ª Dinastia foi tão grande quanto tinha sido desde o Reino Novo. Os faraós construíram e restauraram templos e monumentos por todo o vale, incluindo Memphis, Karnak, Kawa etc., numa espécie de renascimento do antigo Egito, trazendo de volta à sua glória, a religião, as artes e a arquitetura dos reinos Velho, Médio e Novo. Tal dinastia terminou com seus soberanos se retirando para seu lar espiritual em Napata, onde todos os faraós da 25ª Dinastia estão enterrados sob as primeiras pirâmides construídas desde o Reino Médio no Vale do Nilo. A dinastia de Napata acabou por conduzir ao Reino de Kush, que floresceu lá e em Meroe, pelo menos até o século II DC.
Napata e Meroe, então na
Núbia, hoje Sudão
Piye fez várias tentativas, sem sucesso, para estender a influência egípcia no Oriente Próximo, então controlado pela Assíria. Em 720 AC ele enviou um exército para apoiar uma rebelião contra a Assíria, que acontecia na Filisteia. Contudo, Piye foi derrotado por Sargão II e as rebeliões terminaram. Em 711 AC Piye novamente apoiou uma revolta contra os assírios, pelos israelitas, e foi novamente derrotado.
O prestígio internacional do Egito havia declinado consideravelmente por essa época, com seus aliados internacionais firmemente sob a esfera de influência da Assíria e pelo ano 700 AC restava saber quando seria a guerra entre os dois estados. Os assírios começaram a sua invasão do Egito sob o rei Esarhadon, sucessor de Senaqueribe, assassinado por seus próprios filhos, por ter destruído a revoltosa cidade da Babilônia. Em 674 AC, Taharga derrotou Esarhadon e o exército assírio, totalmente, em solo egípcio. Em 671 AC, Esarhadon expulsou os kushitas do norte do Egito de volta para a Núbia. Contudo, os governantes egípcios nativos instalados por Esarhadon não conseguiram reter o pleno controle de todo o país por muito tempo. Dois anos mais tarde Taharga voltou da Núbia e conseguiu o controle do sul do Egito, até Memphis. Esarhadon preparava-se para retornar ao Egito quando adoeceu e morreu em Nínive. Seu sucessor, Assurbanipal, enviou um general com um pequeno mas bem treinado exército que derrotou Taharga em Memphis e o expulsou novamente do Egito. Dois anos mais tarde Taharga morreu na Núbia. Seu sucessor, Tanutamun, também fez uma tentativa fracassada para recuperar o Egito para a Núbia. Derrotou Necho, o governante fantoche instalado por Assurbanípal, tomando Tebas. Os assírios enviaram então um grande exército para o sul que pôs Tanutamun em debandada de volta para a Núbia. A despeito do tamanho e poder do Egito, a Assíria possuía um suprimento maior de madeira, que lhe proporcionava o carvão necessário para a fundição do ferro de armamentos. Essa disparidade tornou-se crítica durante a invasão assíria do Egito em 670 AC. Em 664 AC os assírios lançaram o golpe mortal, saqueando Tebas e Memphis. O exército assírio saqueou Tebas de forma que ela nunca se recuperou e um governante nativo, Psamtik I, foi posto no trono como um vassalo de Assurbanipal e os núbios nunca mais foram ameaça.

III.9 – ÚLTIMO PERÍODO (664 – 332 AC)

O Último Período do Antigo Egito refere-se à última safra de soberanos nativos egípcios após o Terceiro Período Intermediário, da 26ª Dinastia das conquistas persas até a conquista por Alexandre, o Grande, e o estabelecimento do Reino Ptolomaico, de 664 a 332 AC. Embora estrangeiros tenham governado o país neste período, a cultura foi mais prevalente que nunca. Líbios e persas alternaram o poder com egípcios nativos, mas a convenção tradicional continuou nas artes. O Período é muitas vezes visto como o último intervalo de uma vez grande cultura, durante o qual o poder do Egito permanentemente decresceu.
O Alto Egito permaneceu, por algum tempo, sob a administração de Tanutamun enquanto o Baixo Egito foi governado, a partir de 664 AC, pela 26ª Dinastia, reis clientes estabelecidos pelos Assírios que, entretanto, trabalharam para conseguir a independência política do Egito durante a época conturbada do Império Assírio. Em 656 AC, Psamtik I ocupou Tebas e tornou-se faraó, o rei do Alto e Baixo Egito, trazendo crescente estabilidade ao país, num reino de 54 anos, da cidade de Sais, no Delta do Nilo. Psamtik e seus sucessores foram cuidadosos em manter relações pacíficas com a Assíria e a influência grega expandiu-se muito desde que a cidade de Naukratis, no delta do Nilo, tornou-se lar dos gregos. Quatro sucessivos reis saitas continuaram governando o Egito em outro período de prosperidade de 610 a 525 AC.
Em 609 AC Necho II foi à guerra contra a Babilônia, os caldeus, os medos e os citas, numa tentativa infrutífera de salvar a Assíria que, após uma brutal guerra civil, estava sendo assolada por esta coalizão de potências. Os egípcios haviam protelado muito a intervenção e Nínive já havia caído e o rei Sin-shar-ishkun morto quando Necho II enviou seus exércitos para o norte. Contudo, Necho varreu o exército israelita sob o rei Josias, mas logo perdeu batalha importante, junto com os assírios, em Harran, contra os babilônios, medos e citas.
Foi durante esta época que muitos judeus chegaram ao Egito, fugindo da destruição do Primeiro Templo em Jerusalém, pelos babilônios (586 AC). Necho II e Ashur-uballit II da Assíria foram finalmente derrotados na Arameia (Síria moderna), em 605 AC. Os egípcios permaneceram na área por algumas décadas, lutando com os reis babilônios Nabopolassar e Nabucodonosor II pelo controle de porções do antigo Império Assírio no Levante. Contudo, eram eventualmente empurrados de volta para o Egito, sendo que Nabucodonosor II chegou a invadir o Egito em 567 AC.
Infelizmente para esta Dinastia, um novo poder estava crescendo na Pérsia. O faraó Psamtik III havia sucedido a seu pai, Ahmose II, apenas seis meses antes, quando teve que enfrentar o Império Persa em Pelusium, numa batalha magnificamente recontada pelo historiador grego Heródoto. Os persas já haviam tomado a Babilônia e o Egito não seria páreo. Psamtik III foi derrotado e escapou para Memphis onde foi preso e depois executado, em Susa, na Pérsia (moderno Irã), a capital do rei persa Cambises, que então assumiu o título de faraó, fundando a 27ª Dinastia e deixando o Egito sob o controle de uma satrapia. Algumas revoltas exitosas contra os persas marcaram o quinto século AC, mas o Egito nunca derrotou os persas permanentemente.
Após a sua anexação à Pérsia, o Egito foi unido a Chipre e Fenícia (moderno Líbano) na sexta satrapia do Império Persa Aquemênida. O primeiro período do governo persa sobre o Egito (27ª Dinastia), terminou em 404 AC. A 28ª Dinastia foi constituída por um só rei, Amyrtaeus, príncipe de Sais, que se rebelou contra os persas. Não deixou monumentos com o seu nome e sua dinastia durou seis anos, de 404 a 398 AC. A 29ª Dinastia governou de Mendes, pelo período de 398 a 380 AC.
A 30ª Dinastia tomou sua forma de 26ª Dinastia e governou como a última casa real nativa do Egito dinástico, que terminou com o reinado de Nectanebo II, reinando de 380 AC até a sua derrota final em 343 AC para os persas, por uma breve restauração, algumas vezes chamada de Trigésima Primeira Dinastia; mas em seguida, em 332 AC, o mandatário persa Mazaces entregou o Egito a Alexandre, o Grande, sem luta.


[1] Amun (ou Amon) era uma deidade local de Tebas, reconhecido desde o Reino Antigo, junto com sua esposa Amaunet. Com a Décima Primeira Dinastia ele foi galgado à posição de deidade patrona de Tebas, em substituição a Monthu. Após a rebelião de Tebas contra os hicsos e o governo de Ahmose I, Amun adquiriu importância nacional expressa em sua fusão com o o deus Sol, Ra, como Amun-Ra.
[2] O complexo de templos de Karnak ou apenas Karnak, compreende um conjunto de ruínas de templos, capelas e outras construções, iniciadas durante o reinado de Senusret I, no Reino Médio e prosseguido no período Ptolemaico, embora a maior parte das construções existentes seja do Reino Novo. A área em torno de Karnak era o principal centro de adoração da Décima Oitava Dinastia da Tríade Tebana, com Amun como o seu deus principal, sendo parte da monumental cidade de Tebas.
[3] A Filisteia era uma pentápolis (conjunto de cinco cidades) na região sudoeste do Levante (mesma latitude do mar Morto, no Mar Mediterrâneo), compreendendo as cidades de Asquelom, Asdode, Ecrom, Gate, e Gaza, estabelecida por tribos migrantes (possivelmente os “Povos do Mar”, chamados filisteus, cerca de 1175 AC, com a derrota desses povos pelo faraó Ramsés III. A Filisteia esteve em permanente conflito e interação com os vizinhos egípcios, israelitas e canaanitas, gradualmente absorvendo sua cultura. Os filisteus foram finalmente conquistados e subjugados pelos israelitas e a Filisteia deixou de existir após a conquista assíria do Levante em 722 AC. Admite-se que a Filisteia (com os filisteus) foi a precursora dos termos helênico e romano Palestina (Phalaestine), e palestinos.

Continuação na próxima postagem: PARTE 05

sexta-feira, 13 de março de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: EGITO (PARTE 01)

I – VISÃO GERAL


Egito e Nilo: nordeste da África, ligado à Península do Sinai.

O Antigo Egito foi uma civilização da região nordeste da África, concentrada nos trechos inferiores do Rio Nilo, no que é hoje o atual Egito. A Civilização Egípcia formou-se cerca de 3150 AC (de acordo com a cronologia convencional egípcia), com a unificação política do Alto com o Baixo Egito, sob o primeiro faraó[1]. A história do Egito ocorreu numa série de reinos estáveis, separados por períodos de relativa instabilidade, conhecidos como Períodos Intermediários: o Antigo Reino, do início da Idade do Bronze, o Reino Médio, da Média Idade do Bronze, e o Novo Reino, do final da Idade do Bronze.

O Egito alcançou o pináculo do seu poder durante o Novo Reino, no período Ramsista[2], quando rivalizou com os impérios Hitita, Assírio e Mitani, após o que entrou num período de declínio. Foi então invadido por uma sucessão de potências estrangeiras: Canaã, Líbia, Núbia, Assíria, Babilônia, Pérsia e Macedônia/Grécia, no Terceiro Período Intermediário do Egito e no último Período. Após a morte de Alexandre, o Grande, um dos seus generais, Ptolomeu Soter, estabeleceu-se como o novo dirigente do Egito e sua dinastia reinou até 30 AC quando, sob Cleópatra, caiu para o Império Romano, tornando-se sua província.
O sucesso da antiga civilização egípcia veio, parcialmente, de sua habilidade em adaptar-se às condições do vale do rio Nilo para a agricultura. A inundação previsível e a irrigação controlada do fértil vale produziam colheitas superavitárias, que atendiam uma população maior, permitindo o desenvolvimento social e cultural. Com recursos de sobra, a administração patrocinava a exploração mineral do vale e das regiões desérticas circundantes, a criação precoce de um sistema de escrita independente, a organização da construção coletiva e projetos agrícolas, o comércio com as regiões vizinhas e um exército para defender contra os invasores e garantir a dominação egípcia. A motivação e organização dessas atividades era realizada por uma burocracia da elite dos escribas, líderes religiosos e administradores, sob o controle do faraó, que garantia a cooperação e unidade do povo egípcio, no contexto de um elaborado sistema de crenças religiosas.
Os feitos dos antigos egípcios incluem a mineração, levantamentos e técnicas de construção que apoiavam a construção de monumentais pirâmides, templos e obeliscos, um sistema matemático, uma prática e efetiva medicina, sistemas de irrigação e técnicas de produção agrícola, os primeiros navios conhecidos, a tecnologia da faiança e do vidro, novas formas de literatura e o primeiro tratado de paz conhecido, feito com os hititas. O seu legado duradouro na arte e arquitetura foram copiados amplamente e suas antiguidades transportadas a longínquas partes do mundo. Suas ruínas monumentais inspiraram as imaginações de viajantes e escritores por séculos.

II - GEOGRAFIA DO EGITO


O Egito na África. Mediterrâneo ao norte, Sudão ao sul,
Líbia a oeste e Mar Vermelho e Israel a leste.
O Egito, como dissemos, está situado no nordeste da África e, curiosamente, em dois continentes, separados pelo Canal de Suez (então inexistente) que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Sua maior parte fica na África restando, para o continente asiático, apenas a Península do Sinai, margeada pelo Golfo de Suez e o Golfo de Aqaba, ambos no Mar Vermelho, por Israel a leste e pelo Mar Mediterrâneo ao norte. Esta, a sua localização atual; mas, se lembrarmos que na antiguidade não havia fronteiras demarcadas, as principais regiões do Egito formavam oásis fluviais no deserto, a saber, o vale do rio Nilo, o Delta do Nilo e Fayum (cidade a 130 km a sudoeste do Cairo). As demais regiões sofreram mudanças de acordo com o período e os governos.
A geografia do antigo Egito foi dominada, como ainda é hoje, pela combinação da falta de chuva e o Rio Nilo. O historiador grego Heródoto chamava o Egito de “Presente do Nilo”, pois o reino devia sua sobrevivência à cheia anual do Nilo e ao resultante depósito do fértil silte sobre as suas margens baixas.
Egito moderno e seus vizinhos da Africa e Oriente Médio
Quatro divisões são úteis ao considerar a geografia do Egito. A primeira delas é entre o Alto e o Baixo Egito e a segunda entre a Terra Vermelha (Deserto) e a Terra Negra (leito maior fértil). Às vezes há confusão sobre este assunto, porque o Alto Egito é no sul e o Baixo Egito no norte. Na figura abaixo, podemos ver perfeitamente as divisões de que falamos, aparecendo em verde o leito maior fértil do rio Nilo e o famoso Delta do Nilo, no Mar mediterrâneo. Pela figura podemos ver que o Alto ou Baixo Egito é um vale fluvial estreito, raramente mais largo do que 19 km e, mais frequentemente, apenas 1,6 a 3,2 km. Altos penhascos o mantêm confinado em seu leito menor, nas duas margens. O Baixo Egito é constituído pelo amplo delta em torno da moderna Cairo. A terra é plana e fértil e o solo rico da inundação, em geral, é depositado no delta. A segunda maior divisão trata do negro e fértil solo do vale do Nilo e das rubras, arenosas e áridas terras agrestes do deserto. Embora existissem oásis no deserto ocidental, o deserto oriental era em sua maioria inabitado, com exceção de algumas poucas minas e jazidas de pedras especialmente valiosas. Os egípcios eram totalmente conscientes de quão estreita era a faixa de terra cultivável em que viviam, rodeada pelo total deserto a leste e oeste.
O Alto Egito, ao sul e o
Baixo Egito, ao norte. 
O limite sul do Egito, na borda sul do Alto Egito, era tradicionalmente encerrado na Primeira Catarata, uma área de rápidos ensurdecedores e quedas d’águas, cerca de 950 km da foz do rio Nilo no Mar Mediterrâneo. Durante o Antigo Reino, esta era a máxima extensão do Egito. Durante os períodos do Médio e Novo Reinos, contudo, os exércitos egípcios forçaram para o sul, até a Sexta Catarata, numa tentativa de invadir e conquistar a Núbia (região ao longo do rio Nilo, entre o sul do Egito e o norte do Sudão) e Kush (atual Sudão Central ou moderna Etiópia), os dois países mais ao sul. Descobertas relativamente recentes, de pequenas tumbas em estilo piramidal, no Sudão, sugerem que, embora o Egito não controlasse as terras ao sul da Primeira Catarata, eles mantiveram contato cultural bem ao sul e o comércio de bens e ideias foram muito comuns.
O alto Egito se estendia de Memphis, ao norte, até Abu (Elefantina), ao sul. O oásis ocidental de Fayum fica dentro deste distrito, como ficam as importantes cidades de Herakelopolis, Quis, Thinis, Abydos, Dendera, Nekhen/Hierakonpolis e Edfu. Numerosos wadis[3] alimentam o Nilo nesta região e o rio é raramente mais largo do que 1.600 m, o vale podendo ser, muitas vezes, tão estreito quanto 10 a 16 km.
O Baixo Egito é o delta. Com quase trezentas milhas (483 km) de largura, na foz do Nilo, a grande região em forma de leque foi “a cesta de pão” do antigo Egito e, mais tarde, do Império Romano; nela pode-se ver as importantes cidades de Alexandria, Port Said e Cairo, bem como o Oásis Fayud, mais a montante). A arqueologia no Baixo Egito é complicada dado que os meandros, que se movem regularmente, e a inundação anual, muitas vezes carregaram artefatos e construções.
Close do Delta do Nilo, a "cesta de pão" do Egito.
A “Terra Vermelha” é o deserto estéril que protegeu o antigo Egito dos dois lados, separando-o dos países vizinhos e exércitos invasores. Eles também foram a fonte de metais preciosos e pedras semipreciosas para os antigos egípcios. Eles referiam-se aos desertos em torno do seu país, com a palavra “deserto”, significando “Terra Vermelha”, quente e árida, onde nenhuma alimento crescia e era sempre vista como um lugar de solidão e perigo. Apesar de sua natureza bruta e selvagem, o deserto fornecia inúmeros produtos. Os leitos secos de lagos próximos ao delta forneciam o sal usado para preservar os corpos mumificados; o quartzito - para ferramentas de moagem e perfuração -, e o calcário – para a construção -, vinham de uma região desértica a nordeste de Memphis; o cobre vinha das minas da Península do Sinai, no deserto oriental; alabastro para escultura mais fina vinha do Cusae (nome grego da cidade do Alto Egito, margem ocidental do Nilo, hoje denominada el-Qusiya); as jazidas de granito, próximo do Mar Vermelho, forneciam pedra para escultura e construção; diorito para martelos e pederneira para facas de pedra, desciam pelo rio da região da Primeira Catarata. E então, havia o ouro que, segundo um governante hitita, o Egito possuía como areia.
A “Terra Negra” era a região fértil das margens do Nilo, o local que os egípcios usavam para plantar e colher. Era a única terra do antigo Egito capaz de ser cultivada pela rica camada de silte negro depositada em cada ano após a inundação do rio Nilo. A palavra egípcia “khemet”, que significa “silte negro”, pode ter sido o termo do qual se originou o nome Egito.
Curso completo do Nilo, com
suas prováveis nascentes.
O rio Nilo é a única razão pela qual a civilização surgiu no antigo Egito. Pelo quarto século AC, o Egito não recebia chuva alguma, de forma que toda a sua água para beber, lavar, irrigar as culturas etc... vinha apenas deste rio. Tido como o mais longo rio do mundo, com 6.853 km, o Nilo é um rio internacional, com suas águas sendo repartidas por onze países e fonte primária de água do Egito e do Sudão. A nascente do Nilo é considerada com o Lago Vitória, mas há rios que o alimentam, de tamanho considerável. O rio Kagera, que entra no Lago Vitória (repartido por Uganda, Quênia e Tanzânia), perto da cidade de Bukoba, na Tanzânia, é o seu mais longo contribuinte, embora as fontes não concordem quanto ao mais longo tributário do Kagera e, por consequência, a mais distante nascente do próprio Nilo. Poderia ser o Ruvyironza, que emerge na província de Bururi, no Burundi, ou o Nyabarongo, que escoa da floresta Nyungwe, em Ruanda. Tais rios se encontram próximo das Cachoeiras Rusumo, na fronteira entre Ruanda e Tanzânia. Exatamente por suas origens, durante o pico da civilização egípcia o rio Nilo inundava anualmente quando do degelo de primavera das altas terras da Etiópia, após um enchimento lento e gradual. Diferentemente da Mesopotâmia, que possuía cheias irregulares, imprevisíveis e altamente destrutíveis, o Nilo extravasava por seu leito maior ao nível de cheia, segundo um esquema previsível, normalmente dentro de dois ou três dias após a ascensão da estrela Sírius, ao final de julho. Por um período de quase três mil anos, com poucas interrupções, os antigos egípcios podiam contar com três meses de águas altas, de agosto a novembro. A inundação, como era chamada, carregava uma fértil camada de silte e solo aluvial nas terras agricultáveis do Egito, que eram anualmente renovadas e revigoradas, tornando o país o jardim do mundo antigo. Foi essa cheia anual que definiu os padrões de vida dos egípcios de forma que quando os campos estavam inundados, eles trabalhavam nas construções dos projetos para o Faraó e os sacerdotes; de novembro a março, os agricultores restabeleciam seus campos e plantavam suas culturas; de março a junho era a estação da colheita, quando os grãos eram processados para a confecção de pão, cerveja e vinho e então os coletores de impostos do Faraó fariam a sua ronda. Em julho o povo reunia as ferramentas e preparava-se para a próxima cheia. Tão constante era essa rotina que sua interrupção pode ter causado a queda de várias dinastias.

III - HISTÓRIA

O deserto e o rio Nilo emergiram há 45 milhões de anos atrás, quando o mar que cobria a maior parte da Europa e o norte da África deslocou-se, formando a bacia do Mar Mediterrâneo, por força do deslocamento das placas terrestres, que criaram os Alpes e o Himalaia. Por milhares de anos o rio Nilo evoluiu até a sua forma atual, circundado pelos desertos do oriente e ocidente. O Nilo tem sido a linha da vida desta região por muito da história humana, permitindo a criação de uma sociedade que tornou-se a pedra angular na história da civilização humana. Os humanos modernos, nômades, caçadores e coletores, começaram a viver no vale do Nilo pelo final do Médio Pleistoceno, há cerca de 120.000 anos atrás. Pelo final do período Paleolítico, o clima árido do norte da África tornou-se incrivelmente quente e seco, forçando as populações da área a concentrar-se ao longo do rio.

III.1 – EGITO PRÉ-HISTÓRICO

A Pré-história do Egito vai desde o período do primeiro assentamento humano até o início do Primeiro Período Dinástico do Egito, cerca de 3100 AC, que iniciou com o primeiro faraó Narmer (ou Menes). O período pré-dinástico é tradicionalmente equivalente ao período Neolítico, iniciando cerca de 6.000 AC e incluindo o período proto-dinástico (Naqada III), de que voltaremos a falar.

III.1.1 – FINAL DO PALEOLÍTICO
A confecção de ferramentas Ateriana atingiu o Egito cerca de 40.000 AC. Este foi o nome dado por arqueólogos a um tipo de ferramenta de pedra datando do meio da Idade da Pedra (ou Médio Paleolítico).
Esqueleto de Nazlet-Khater
O final do Paleolítico, no Egito, começou em torno de 30.000 AC. O esqueleto de Nazlet Khater (localidade do Alto Egito onde os arqueólogos trabalharam em oito sítios diferentes) foi encontrado em 1980 e datado em 1982 a partir de nove amostras que variaram de 35.100 a 30.360 anos. Este espécime é o único esqueleto humano moderno completo do final da Idade da Pedra na África.
Escavações no Nilo expuseram antigas ferramentas de pedra, as mais antigas das quais foram encontradas no terraço de 33m e eram Chelleano[4], primitivo Acheuleano[5] e uma forma egípcia do Clactoniano[6]. No terraço de 17m havia Acheuleano desenvolvido.
Alguns dos mais velhos edifícios conhecidos, foram descobertos no Egito; tratava-se de estruturas móveis, facilmente desmontáveis , transportadas e remontadas, propiciando a humanos caçadores e coletores, uma ótima habitação semipermanente.

III.1.2 – MESOLÍTICO
A “Cultura Halfan” floresceu no vale do Nilo, no Egito e Núbia, entre 18.000 e 15.000 AC, embora um sítio Halfan date de 24.000 AC. Eles sobreviveram numa dieta de animais de grande rebanho e da tradição da pesca. Uma maior concentração de artefatos indica que não eram dados a deslocamentos sazonais, mas se estabeleciam por períodos maiores. A cultura Halfan foi derivada da cultura Khormusan, que dependia de técnicas especializadas de caça, pesca e coleta para sua sobrevivência. Os restos materiais primários desta cultura são ferramentas de pedra, lascas e uma grande quantidade de pinturas em pedra.
Cerca de vinte sítios arqueológicos na Núbia Superior mostram evidência da existência de uma cultura mesolítica de moagem de grãos chamada Cultura Qadan, que praticava a cultura de grãos ao longo do Nilo quando o ressecamento do Saara causava a retirada dos residentes dos oásis da Líbia para o vale do Nilo. Os povos Qadan desenvolveram foices e pedras de moagem para ajudar na coleta e processamento desses alimentos antes do consumo. Contudo, não há indicações do uso dessas ferramentas após cerca de 10.000 AC, quando caçadores coletores os substituíram. 

[1] Faraó é o título comum dos reis das antigas dinastias egípcias, até a conquista greco-romana. Vamos ver o assunto com muito detalhe mais adiante.
[2] O período Ramsista foi assim chamado a partir dos onze reis com o nome de Ramsés, que governaram na Décima-nona e Vigésima Dinastias. Vamos voltar a falar deles no seu devido tempo.
[3] Um wadi é o termo árabe (norte da África e sudoeste da Ásia) que tradicionalmente se refere a um vale fluvial. Em alguns casos pode referir-se leito de rio seco (efêmero), que contém água apenas durante as estações de pesadas chuvas.
[4] Louis Laurent Gabriel de Mortillet (1821–1898), professor antropologia pré-histórica na Escola de Anropologia, em Paris, publicou em 1882 “A Pré-Histórica Antiguidade do Homem”, em que foi o primeiro a caracterizar períodos pelo nome de um local. Muitos desses nomes ainda se encontram em uso. Seus dois primeiros foram Chelleano e Acheuleano. O Chelleano inclui artefatos descobertos na cidade de Chelles, um subúrbio de Paris, muito similares aos encontrados em Abbeville, o que fez antropólogos que o sucederam, substituírem Abbevilliano por Chelleano.
[5] O Acheuleano designa os artefatos encontrados em Saint-Acheul, um subúrbio de Amiens, a capital do departamento de Somme, em Picardy, onde foram encontrados, em 1859. Trata-se de uma indústria arqueológica de ferramentas de pedra caracterizadas por uma forma singular de machados ovais e em forma de pera, associados aos primeiros humanos.
[6] O Clactoniano é o nome dado por arqueólogos a uma indústria de ferramentas de pederneira que data do início do período interglacial, cerca de 400.000 anos atrás, e que foram encontrados pela primeira vez em Clacton-on-Sea, no distrito industrial de Essex, em 1911.

Continuação na próxima postagem: PARTE 02

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 11)

IV.10.6 – GOVERNO ASSÍRIO (911-620)

Esse assunto foi amplamente tratado no item “IV.9.4 - A NOVA ASSÍRIA (911–627 AC)” e por isso não vamos discuti-lo agora, novamente. Vamos apenas ratificar que durante este período, a Babilônia continuou existindo e lutando contra vários domínios, mas na maior parte do tempo contra o domínio assírio, com a fundação do Novo Império Assírio, em 911 AC. E lembrar que, em 622 AC, Sin-shar-ishkun assumiu como governante da Assíria e Babilônia e que foi durante o seu governo que o vasto império da Assíria começou a ruir.

IV.10.7 – O NOVO IMPÉRIO BABILÔNICO (ERA CALDEIA)

Como havíamos visto acima, quando tratando da Assíria, em 620 AC, Nabopolassar, das tribos caldeias do extremos sudeste da Mesopotâmia, tomou o controle de boa parte da Babilônia, com o apoio da maioria dos seus habitantes, com exceção da cidade de Nippur e algumas regiões ao norte que mostravam alguma lealdade ao rei assírio. A situação permaneceu indecisa por quatro anos, durante os quais um exército assírio na Babilônia tentava tirá-lo do poder e o rei assírio Sin-shar-ishkun sofria com constante revolta de seu próprio povo em Nínive. O impasse terminou em 616 AC com a aliança de Nabopolassar com os medos, persas, arameus, citas e cimérios, todos atingidos de alguma forma pelo poderio dos assírios. Após quatro anos de luta feroz, Nínive foi saqueada em 612 AC e seu rei assírio morto. A luta prosseguiu casa a casa e o último rei assírio Ashur-uballit II recebeu a proposta de prestar vassalagem aos babilônios, de acordo como que vimos na queda do Império Assírio durante a batalha final em Carchemish, em 605 AC, ocasião em que o trono do Império foi transferido para a Babilônia pela primeira vez desde Hammurabi, mais de mil anos antes.
Nabucodonosor II sucessor
de seu pai Nabopolassar
Nabopolassar foi seguido por seu filho Nabucodonosor II (605-562 AC), cujo reinado de 43 anos tornou a Babilônia, uma vez mais, a soberana da maioria do mundo civilizado, tomando conta de uma área considerável do prévio Império Assírio; as partes leste e norte foram tomadas pelos medos e o extremo norte pelos citas.
Logo os citas e os cimérios, antes aliados da Babilônia, sob Nabopolassar, tornaram-se uma ameaça e Nabucodonosor II foi forçado a marchar à Ásia Menor e dispersar suas forças, assim encerrando com a ameaça norte ao império.
Os egípcios tentaram permanecer no Oriente Médio, num esforço para restaurar a Assíria como um aliado seguro contra a Babilônia, medos e persas ou para criar o seu próprio império na região. Nabucodonosor II então lutou contra os egípcios expulsando-os para além do Sinai, sem conseguir toma-lo, como fizeram antes seus predecessores assírios, principalmente devido a uma série de rebeliões entre os judeus, fenícios e arameus do Levante e de Canaã. O rei babilônio esmagou essas rebeliões, depôs Jeoiaquim, rei de Judá, deportando uma parte significativa de sua população para a Babilônia (importante episódio do Antigo Testamento da Bíblia). Os estados fenícios de Tiro e Sidon também foram subjugados, bem como o estado arameu de Aram-Damascus e os árabes dos desertos ao sul das fronteiras com a Mesopotâmia.
Em 567 AC ele fez guerra contra o faraó Amasis e brevemente invadiu o Egito. Após garantir o seu império, o que incluiu seu casamento com uma princesa meda, ele devotou-se à manutenção do império e à execução de numerosos projetos arquitetônicos na Babilônia, entre eles, os fabulosos “Jardins Suspensos da Babilônia”.
Jardins Suspensos da Babilônia em concepção artística
(Século XIX?), sem comprovação arqueológica
Sucedeu-o no trono, Amel-Marduk, que reinou por apenas dois anos, tendo sido deposto e assassinado em 560 AC por seu sucessor Neriglissar, por ter-se conduzido impropriamente. Neriglissar, genro de Nabucodonosor II, também teve um reino curto (560-556 AC). Fez campanhas de sucesso contra Aram e Fenícia, mantendo governo babilônio nessas regiões. Morreu cedo e foi sucedido por seu filho Labashi-Marduk, ainda menino, em 556 AC. Este foi deposto e assassinado numa conspiração palaciana, no mesmo ano, armada pela mãe do seu sucessor Nabonidus.
Há muita documentação sobre Nabonidus, o último rei da Babilônia, filho da sacerdotisa assíria Adda-Guppi. Pelo menos por parte de mãe, ele não era nem caldeu, nem babilônio, mas, ironicamente, assírio.
Vários fatores conduziram à queda final da Babilônia. A população da Babilônia tornou-se inquieta e descontente com Nabonidus, por tentar centralizar a religião do Império no templo de Marduk, Babilônia, e enquanto ele tivesse assim alienado os sacerdotes locais, a classe militar também o desprezou por seus gostos antigos. Deixou a defesa do reino para seu filho Belshazzar (às vezes chamado Balthazar) - soldado capaz, mas um fraco diplomata, que alienou a elite política -, ocupando-se com os trabalhos mais adequados de escavar fundações de templos antigos e determinando as datas das suas construções. Passou também muito tempo fora da Babilônia reconstruindo prédios na cidade assíria de Harran, bem como com seus súditos árabes dos desertos do sul da Mesopotâmia. É também possível que a herança assíria de Nabonidus e seu filho pesassem contra eles. Finalmente, o poder militar da Mesopotâmia fora sempre concentrado na Assíria; sem esse poder para manter as forças estrangeiras em xeque, a Babilônia, sempre mais vulnerável à conquista e invasão do que a sua vizinha do norte, acabou ficando exposta.
Ciro II, libertador dos hebreus
Foi durante o sexto ano do reinado de Nabonidus (549 AC) que Ciro, o Grande (Ciro II), o persa Aquemênida, rei de Ansham, no Elam, revoltou-se contra seu suserano, Astyages, “Rei dos Mandas” ou medos, em Ecbatana. O exército de Astyages o traiu e Ciro estabeleceu-se nesta cidade, colocando um fim ao Império dos Medos e tornando a facção persa dominante entre os povos iranianos. Três anos mais tarde, Ciro tornou-se rei de toda a Pérsia e engajou-se numa campanha para abafar uma revolta entre os assírios. Em 539 AC, Ciro invadiu a Babilônia; os babilônios foram derrotados em Opis e, em seguida, em Sippar. Nabonidus fugiu para a Babilônia, de sua colônia na Arábia, onde se encontrava, e foi perseguido por Gobryas, general de Ciro. Dois dias após a captura de Sippar, os soldados de Ciro entraram em Babilônia, sem luta; Nabonidus foi arrastado do lugar onde se escondia e os serviços prosseguiram sem interrupção. Gobryas foi feito governador da província da Babilônia e poucos dias após Belshazzar foi morto em batalha.
Um dos primeiros atos de Ciro foi permitir que os judeus exilados retornassem aos seus lares levando consigo seus vasos sagrados do templo; essa permissão foi configurada numa proclamação pela qual o conquistador buscava justificar sua pretensão ao trono da Babilônia, como o legítimo sucessor dos antigos reis babilônicos e o vingador de Bel-Marduk.
A tribo caldeia havia perdido controle da Babilônia décadas antes do final da era que muitas vezes leva o seu nome e provavelmente se misturou à população geral; durante o Império Persa Aquemênida desapareceu como um povo distinto e o termo “caldeu” parou de referir-se a uma raça de homens, mas passou a referir-se apenas a uma classe social, sem considerações de etnia.

IV.10.8 – A BABILÔNIA PERSA

Portanto, a Babilônia foi absorvida pelo Império Aquemênida em 539 AC.
Dario I da Pérsia
Um ano antes de sua morte, em 529 AC, Ciro elevou seu filho Cambises II a rei da Babilônia, reservando para si próprio o título de “rei das outras províncias” do Império. Em 521 AC, Dario Hystaspis (Dario I) tomou o trono persa e governou-o como representante da religião Zoroastriana[1], que a velha tradição havia quebrado; com isso, a alegação da Babilônia de conferir legitimidade aos governantes da Ásia Ocidental deixou de ser reconhecida.
Imediatamente após Dario ter tomado a Pérsia, a Babilônia recuperou sua independência brevemente, através de um governante nativo, Nidinta-bel, que adotou o nome de Nabucodonosor III e reinou de 522 a 520 AC, quando Dario tomou a cidade de assalto. Poucos anos após, a Babilônia revoltou-se novamente sob o rei armênio Arakha; nesta ocasião, após sua captura pelos persas, as muralhas da cidade foram parcialmente destruídas, mas E-Sagilla, o grande templo de Bel, prosseguiu sob reparos como centro dos sentimentos religiosos babilônios.
Alexandre, o Grande, da Macedônia[2], conquistou a Babilônia em 333 AC, para os gregos e morreu em 323, deixando o caos na partilha do seu império. Babilônia e Assíria tornaram-se parte do Império Grego Selêucida, e a capital da Babilônia transferiu-se para a recém fundada Selêucida, embora a vida urbana aí tenha continuado até a idade Parta (150 AC a 226 DC) e a região um campo de batalha entre gregos e partas. Houve um breve interlúdio com a conquista romana sob Trajano (116 a 118 DC), após o qual os parta reassumiram o controle.
Embora a história continue, sempre interessante, a partir daí, já na era cristã, a região perde o seu interesse como berço da Civilização, nosso objetivo. Para concluir o Império da Babilônia, apenas apresentaremos algo sobre a sua cultura, ao longo de suas várias épocas.

IV.10.9 – A CULTURA BABILÔNICA

Da Idade do Bronze até o início da Idade do Ferro, a cultura mesopotâmica, em geral, é resumida como “Assírio-Babilônica, pela relação cultural próxima entre os dois centros políticos. O termo “Babilônia”, especialmente nos escritos dos anos 1900 DC, fora anteriormente utilizado para incluir a história antiga do sul da Mesopotâmia e não apenas referida à cidade-estado da Babilônia. Esse uso geográfico do nome “Babilônia” tem sido substituído pelo termo “Suméria”, mais preciso, em publicações recentes.
Na Babilônia, a abundância de argila e a carência de pedra fez com que os templos babilônios fossem estruturas maciças de tijolos grosseiros suportados por contrafortes equipados com drenos para a água da chuva; em Ur encontrou-se um desses drenos feito de chumbo. O uso de tijolos conduziu ao desenvolvimento precoce de colunas e pilastras, bem como de afrescos e telhas esmaltadas. As paredes eram brilhantemente coloridas e muitas vezes com zinco, ouro ou azulejos. Cones de terracota pintados, para tochas, eram também incrustadas no reboco. Na Babilônia, ao invés de baixo-relevo, fazia-se muito uso das figuras tridimensionais – os primeiros exemplos são as Estátuas de Gudea, realísticas, embora um tanto toscas. A escassez da pedra tornava precioso cada seixo, conduzindo a uma alta perfeição na arte do corte de gemas.
Tabletes de antes do Antigo Período Babilônio documentam a aplicação da matemática na variação da duração da luz solar ao longo do ano. Séculos de observação babilônia dos fenômenos celestes estão registrados nas séries de tabletes cuneiformes conhecidos como “Enuma Anu Enlil”. O mais antigo texto astronômico significativo lista a primeira e a última ascensão visíveis de Vênus para um período de 21 anos, sendo a mais antiga evidência de que os fenômenos de um planeta eram reconhecidos como periódicos. O mais antigo astrolábio[3] retangular é da Babilônia, cerca de 1100 AC. O MUL.APIN, título convencional dado a um compêndio que trata de diversos aspectos da astronomia e astrologia babilônica, contém catálogos de estrelas e constelações bem como esquemas para a previsão do surgimento e ocaso dos planetas, extensão da luz solar e outros dados.
Na área da medicina, os babilônios criaram a ciência médica da sintomatologia, com sua dupla característica de diagnose, que explica o passado e o presente, e o prognóstico, sugerindo o futuro. Os mais velhos textos babilônios de medicina datam da Primeira Dinastia Babilônia, segundo milênio AC. O mais extenso deles é o “Manual do Diagnóstico”, escrito pelo principal estudioso do assunto, Esagil-kin-apli, de Borsippa, durante o governo do rei Adad-apla-iddina (1069-1046 AC). Este texto inclui, além de outras coisas, uma lista de sintomas médicos e muitas vezes observações empíricas detalhadas com regras lógicas usadas para combinar sintomas observados em um paciente, com sua diagnose e prognóstico.
Na área da literatura, havia muitas bibliotecas e templos na maioria das cidades da Babilônia. Uma quantidade considerável da literatura babilônica foi traduzida dos originais sumérios. Vocabulários, gramáticas e traduções interlineares foram compiladas para uso dos estudantes, bem como comentários dos textos mais antigos e explicações sobre palavras e frases obscuras. Há muitos trabalhos literários babilônicos cujos títulos chegaram até nós. Um dos mais famosos destes foi o Épico de Gilgamesh, já mencionado anteriormente.
O breve ressurgimento de uma identidade babilônica, durante os séculos VII e VI AC, foi acompanhado por importantes desenvolvimentos culturais. Foi dessa época a invenção do zodíaco e a possibilidade de previsão das eclipses do sol e da lua pelos babilônios. A astronomia babilônica foi a base de tudo o que foi feito sobre astronomia grega, indo, sassânida, bizantina e síria, na antiguidade, bem como na islâmica medieval, asiática central e europeia ocidental. O desenvolvimento de métodos babilônicos de previsão do movimento dos planetas é considerado o maior episódio da história da astronomia. O único astrônomo babilônio a apoiar o modelo heliocêntrico de movimento dos planetas foi Seleucus de Selêucia (190 AC), conhecido pelos escritos de Plutarco, que afirma ter ele provado o sistema, embora não se saiba os argumentos que ele utilizou.
Os textos matemáticos da Babilônia são abundantes e bem editados. Cronologicamente, caem em dois grupos bem identificados: Primeira Dinastia Babilônica (1830-1531 AC) e Selêucida, dos últimos três ou quatro séculos AC. Com relação ao conteúdo não há praticamente diferença entre eles, tendo ficado praticamente estagnado por quase dois milênios. O sistema matemático da Babilônia era sexagesimal (de base 60), de onde derivou o uso atual de 60 segundos num minuto, 60 minutos em uma hora, 360 (60 x 6) graus num círculo etc... Entre os feitos matemáticos dos babilônios encontram-se a raiz quadrada de dois, correta até sete decimais, e o teorema de Pitágoras, bem antes de Pitágoras, como ficou evidenciado da tradução de um tablete datando de 1900 AC. Outros conhecimentos matemáticos, como cálculos de áreas e volumes, bem como do valor de π, foram apresentados quando falamos da Mesopotâmia, como um todo, e não vamos repetir aqui para não cansar o leitor.
As origens da filosofia babilônica podem ser rastreadas até a literatura erudita da Mesopotâmia, que envolvia certas filosofias de vida, particularmente ética, na forma de dialética, diálogos, poesia épica, folclore, hinos, prosa e provérbios. O raciocínio e a racionalidade da Babilônia se desenvolveram além da observação empírica. É possível que a filosofia babilônica tenha influenciado a filosofia grega, particularmente a helenística (período entre a morte de Alexandre, o Grande, em 323 AC, até a emergência do Império Romano, definido pela Batalha de Actium, em 31 AC). Sabe-se, por exemplo, que o filósofo Thales, de Mileto, estudou filosofia na Mesopotâmia.

Com isso, consideramos cumprido o nosso primeiro objetivo parcial desta enorme postagem, qual seja, a apresentação da primeira grande civilização da Terra, a Civilização da Região da Mesopotâmia. Na próxima edição, iniciaremos com o Egito.

[1] O Zoroastrianismo, também chamado Zaratustraismo, Mazdaismo ou Magianismo, é uma antiga religião monoteísta e uma filosofia religiosa, surgida na região oriental do antigo Império Persa, quando o filósofo religioso Zoroastro simplificou o panteão dos primitivos deuses iranianos em duas forças opostas: Spenta Mainyu (mentalidade progressiva) e Angra Mainyu (mentalidade destrutiva), sob o deus único Ahura Mazda (sabedoria que ilumina). Foi uma vez a religião do estado dos impérios Aquemênida, Parta e Sasano. As ideias de Zoroastro conduziram a uma religião formal cerca do século VI AC e influenciou religiões posteriors, incluindo o Judaísmo, Cristianismo e Islamismo.
[2] A Macedônia é uma região geográfica e histórica da Grécia, ao sul dos Balcãs. É a maior e segunda mais populosa região grega, dominada pelas montanhas no interior e pelas cidades portuárias da Tessalônica e Kavala na sua linha costeira, ao sul.
[3] O astrolábio é um instrumento elaborado, historicamente usado por astrônomos, navegadores e astrólogos e seus usos incluem a localização e a previsão das posições do Sol, Lua, planetas e estrelas, a determinação da hora local dada a latitude local e vice-versa, levantamentos, triangulação e a elaboração de horóscopos.

O trabalho prossegue com a CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA (PARTE 1)