Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 7 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 3)

 

IV – NABUCODONOSOR II E OS SUCESSORES DO SEU IMPÉRIO

O Levante Histórico em vermelho
Após ter reinado por quarenta e três anos, o rei Nabucodonosor morreu. Foi um homem ativo e mais feliz que os reis que o antecederam. Berosus menciona suas ações no terceiro livro de sua “História dos Caldeus”, onde diz: “Quando seu pai Nabopolassar foi informado de que o governador que havia colocado no Egito e as regiões da Coelesyria
[1] e Fenícia[2] haviam se revoltado, entregou parte do seu exército ao seu filho ainda jovem, Nabucodonosor, e enviou-o contra eles”. O jovem príncipe debelou todos os revoltosos e incorporou as regiões ao seu próprio país, ao mesmo tempo em que seu pai adoecia e morria na Babilônia, após reinar por 21 anos. Tendo acertado seus assuntos no Egito e outros países bem como os relativos aos transportes dos prisioneiros egípcios, fenícios, sírio e judeus bem como seu próprio exército, retornou à Babilônia assumindo o controle do reino. Construiu reforçadas muralhas em volta de toda a cidade e construiu um novo palácio para si mesmo em frente ao de seu pai.
O filho de Nabucodonosor II, Evil-Merodach, o substituiu, imediatamente colocando em liberdade e fazendo-o seu amigo íntimo, Jehoiachin, penúltimo rei de Judá, colocado por Nabucodonosor II.
Quando Evil-Merodach morreu, após um reinado de 18 anos, foi substituído por seu filho Niglissar que reinou por quarenta anos. A sucessão do reino passou para seu filho Labosordacus que reinou por apenas nove meses, sendo substituído por Baltasar, entre os babilônios, Naboandelus. Contra ele fizeram guerra Darius, o rei da Média e Ciro, o rei da Pérsia. Segundo Flavius Josephus, quando Baltasar se encontrava sitiado, teria tido um sonho que nenhum dos seus adivinhos teria conseguido interpretar. 
Mapa da região da Fenícia, em verde
Por interferência de sua avó, surge então a figura do cativo Daniel, judeu de nascimento trazido da Judeia por Nabucodonosor para a Babilônia, um sábio, que teria conseguido interpretar, apenas por influência de Deus, o sonho de Baltasar, recusando todos os presentes prometidos. Daniel teria então relatado a Baltasar que ele morreria em pouco tempo por terem, ele e Nabucodonosor blasfemado contra Deus e que, por isso, Deus partiria seu reino em pedaços dividindo-o entre Persas e Medos.
Pouco tempo depois, em 539 AC, a cidade e Baltasar foram tomados por Ciro (o primeiro general a entrar na Babilônia quando tomada pelos persas), encerrando, após um reinado de 17 anos, a posteridade de Nabucodonosor.

V – DO PRIMEIRO ANO DE CIRO ATÉ A ASCENSÃO DE ALEXANDRE, O GRANDE

Ciro II, o Grande, redentor dos Judeus
Ciro II, o Grande, filho de Cambises e neto de Ciro I, foi o fundador do Império Aquemênida, o primeiro Império Persa. Seu reinado durou 30 anos e foi criado a partir da conquista do Império Medo, do Império Lídio e, finalmente, do Novo Império Babilônio. Assumiu o trono da Pérsia em 559 AC, mas não como governante independente; como seus predecessores, teve que reconhecer a liderança dos Medos. Só após a conquista da Babilônia, em 539 AC, Ciro proclamou-se “Rei dos Quatro Cantos do Mundo”, com o maior império que o mundo tinha visto até então. 
Após a conquista persa da Babilônia, o rei Ciro, o Grande, emitiu um decreto em 538 AC (70º ano da remoção do povo judeu para a Babilônia) que não apenas permitiu, mas ativamente encorajou o retorno dos exilados judeus para Judá e a reconstrução do Templo em Jerusalém. Mais do que isso, providenciou junto aos mandatários da vizinhança da Judeia o ouro e a prata necessários para as despesas. Essa política persa de tolerância religiosa foi recebida com grande júbilo pelos exilados, a ponto de o profeta Dêutero-Isaías aclamar Ciro como "o ungido do Senhor".
A primeira onda de retornados, liderada por Zorobabel (que pode ter sido a mesma pessoa que Sesbazar) e incluindo mandatários das duas tribos, Judá (Reino de Judá após a cisão) e Benjamin, com os Levitas e sacerdotes, ocorreu por volta de 537 AC. Este grupo, composto por aproximadamente 42.360 indivíduos, além de 7.337 servos e servas e 200 cantores e cantoras, levou consigo os vasos sagrados do Templo. Contudo, é fundamental observar que este foi apenas um retorno parcial. Muitos judeus já haviam estabelecido novas vidas na Babilônia e em outras partes da diáspora, mas continuavam a considerar o Templo em Jerusalém como um poderoso símbolo de sua unidade coletiva.
A narrativa do "retorno" é central para o judaísmo pós-exílico, mas os registros históricos revelam uma contra-narrativa crucial: uma porção significativa da população judaica optou por não retornar. Isso indica que o exílio babilônico, embora traumático, também fomentou o crescimento de uma diáspora robusta e duradoura. A contínua reverência pelo Templo de Jerusalém por aqueles que permaneceram no exterior demonstra que a identidade judaica estava se tornando cada vez mais flexível, capaz de transcender as fronteiras geográficas. O estabelecimento precoce de uma grande e influente comunidade diaspórica moldaria profundamente o futuro do judaísmo, promovendo diversas expressões culturais e centros intelectuais fora da Judeia.
Os judeus que retornaram se dedicaram à reconstrução do Templo e de Jerusalém, mas foram retardados em seus esforços, pelos povos vizinhos, em especial pelos Cutheans ou Cuthitas, povo trazido da Média e Pérsia, por Nabucodonosor, para a região da Samaria, para povoar a região que ficara desabitada quando os judeus do Reino de Israel (após a cisão) foram levados para o cativeiro da Babilônia. Ciro não tinha conhecimento desses fatos porque participava de guerras contra outros povos, ocasião em que foi morto. Ciro II foi sucedido por Cambises II, em 530 AC, reinando até 522 AC, recebendo desses povos queixas contra os judeus, dizendo que assim que os seus trabalhos fossem concluídos, eles se rebelariam, deixando de pagar seus tributos. Cambises II ordenou que os judeus cessassem as construções em andamento para que os problemas anteriores ao cativeiro não voltassem a se repetir. Durante todo o reinado de Cambises II os trabalhos de reconstrução do Templo foram suspensos, só reiniciando no segundo ano de Dario I, o Grande. Cambises II foi sucedido por seu irmão mais moço Bardiya, filho de Ciro II com Atossa, sua esposa, que não era rainha. Bardiya foi assassinado por Dario I que assumiu o trono da Pérsia. Aqui a história não é bem clara e há quem diga que Bardiya não assumiu o trono, mas sim um Mago que por ele se fez passar e assim que descoberto foi assassinado por Dario I, filho de Histaspes, que assumiu o trono em 521 AC, reinando de Persépolis, capital do Império na Pérsia.
Na história de “Daniel na cova dos leões” (Daniel 6, do Antigo Testamento), Daniel continuou a servir na corte real sob Dario I, historicamente de reinado duvidoso, como alto dignatário. Seus rivais, com inveja, planejaram a sua queda, fazendo com que Dario emitisse um decreto pelo qual nenhuma oração poderia ser feita a qualquer deus ou homem além do próprio Dario, sob pena de morte. Daniel continuou a rezar ao Deus de Israel; Dario, embora profundamente desgostoso, teve que condená-lo a ser jogado na cova dos leões porque os decretos de Persas e Medos não podiam ser alterados. Ao nascer do dia o rei apressou-se ao lugar e Daniel disse-lhe que Deus havia enviado um anjo para salvá-lo. Dario então ordenou que aqueles que haviam conspirado contra Daniel fossem lançados aos leões em seu lugar, com suas esposas e filhos. Quando aqueles que tinham pretendido destruir Daniel, foram assim destruídos, o Rei Dario enviou cartas por todo o país louvando o Deus que Daniel adorava e dizendo que Ele era o único Deus verdadeiro.
A monumental tarefa de reconstruir Jerusalém e restabelecer a comunidade judaica foi reiniciada e liderada por três figuras distintas, mas complementares:

Zorobabel, o príncipe da casa de Davi que liderou a primeira leva de retornados e foi fundamental na colocação dos alicerces do Segundo Templo por volta de 536 AC. A construção do Templo foi finalmente concluída em 516 AC, durante o reinado do rei persa Dario I.
Esdras, um escriba e sacerdote altamente habilidoso, chegou mais tarde, após uma considerável lacuna cronológica. Seu foco principal era a restauração da adoração adequada e a rigorosa implementação da Torá. Ele iniciou reformas morais e espirituais significativas, incluindo a controversa condenação de casamentos mistos, tudo visando revitalizar a identidade religiosa e a devoção do povo judeu.
Neemias, que servia como copeiro do rei posterior persa Artaxerxes (cujo reinado se estendeu de 465 a 424 AC), assumiu a responsabilidade pela reconstrução das muralhas defensivas de Jerusalém, um projeto que enfrentou considerável oposição externa. Além da construção física, Neemias também se dedicou à edificação espiritual do povo e à garantia de sua adesão à aliança.

Os papéis de Zorobabel (reconstrução física e cultual), Esdras (reforma religiosa e legal) e Neemias (organização administrativa e social) ilustram uma evolução crítica na governança judaica. Com a ausência da monarquia tradicional, a liderança se diversificou. Essa divisão de autoridade, embora eficaz para uma restauração abrangente, também sinaliza uma nascente separação entre o poder religioso e o secular, com o Sumo Sacerdote ganhando influência significativa. A ênfase nas reformas espirituais e morais de Esdras e Neemias sublinha que a comunidade pós-exílica compreendia a "restauração" não apenas como um retorno a uma terra ou edifício físico, mas como uma profunda renovação espiritual e ética, centrada na Lei em vez de um rei. Esse modelo de liderança se tornaria fundamental para o futuro do judaísmo, especialmente após a destruição do Templo.
Zorobabel, feito governador dos judeus pós cativeiro, foi de Jerusalém à presença de Dario I, de quem tinha sido amigo e nas graças de quem havia caído antes mesmo que ele assumisse o reino, para solicitar-lhe o cumprimento de sua promessa de reconstrução de Jerusalém e do templo dos judeus, bem como a devolução dos vasos sagrados que Nabucodonosor havia roubado. Dario cumpriu todas as promessas feitas a Zorobabel e muito mais, isentando-o de impostos, proibindo outros povos de guerrearem contra os judeus e ainda obrigando-os a ajudarem na reconstrução da cidade e do templo. O povo saudou o retorno de Zorobabel a Jerusalém e celebrou durante sete dias o início da reconstrução e restauração do seu país.
Judá em amarelo e Israel em azul, século IX AC
A reconstrução do Templo e das muralhas foi um testemunho da fé e determinação judaica, superando adversários políticos significativos e o desânimo interno. O Segundo Templo, embora carecesse da Arca da Aliança e da Shekinah (presença divina) de seu predecessor
    e por isso fosse percebido por alguns como espiritualmente inferior, tornou-se, no entanto, o símbolo central da identidade judaica e o principal local de adoração, sacrifício ritual e reuniões comunitárias. O Templo é consistentemente destacado como um "símbolo central da identidade judaica". No entanto, a menção explícita de sua "falta de esplendor" e da ausência da Arca e da Shekinah introduz uma nuance crucial: o Segundo Templo, embora uma restauração física, não foi visto como um retorno espiritual completo à glória do Primeiro Templo. Essa sensação de imperfeição, combinada com as críticas proféticas à ganância interna e ao exclusivismo, indica que a restauração pós-exílica foi um empreendimento humano complexo, repleto de desafios internos e uma persistente sensação de incompletude espiritual. Essa tensão inerente contribuiria para as diversas expressões religiosas e expectativas que caracterizaram o período posterior do Segundo Templo.
Após dois anos e dois meses de seu retorno do cativeiro, os judeus estavam bem adiantados na construção do Templo e iniciaram as celebrações correspondentes. As nações vizinhas dos judeus, incluindo os samaritanos (da região da Samaria), voltaram a indignar-se e tentaram, de todas as nações da Síria obter novamente uma interrupção nos trabalhos dos judeus, sem tomar qualquer providência antes de saber como reagiria Dario I. Enquanto isso, os profetas Haggai e Zacarias encorajavam os judeus a não desistirem da obra nem das promessas dos Persas. Dario I não aceitou as reclamações dos vizinhos dos Judeus e voltou a hipotecar-lhes o seu apoio na reconstrução do Templo, que foi concluída em 7 anos. No nono ano de Dario I os israelitas festejaram a conclusão do novo Templo, sempre mantido o apoio persa em seu favor, sob o governo de Zorobabel, até a morte de Dario I, o Grande.
Império Persa em sua maior extensão sob Dario, o Grande
Sob o domínio persa, a comunidade judaica na província de Judá desfrutou de um grau de autonomia limitada. O principal vínculo com o vasto Império Persa era através de uma política tributária, que, embora impondo obrigação econômica, permitia uma significativa auto governança interna. Este período foi profundamente formativo para a identidade e cultura judaicas. Testemunhou o crucial processo de consolidação da liturgia judaica e a compilação dos textos que finalmente formariam o Tanakh (Bíblia Hebraica). A rigorosa observância da Lei, do Sábado e da circuncisão tornou-se elemento definidor e essencial da vida judaica.
A ausência de uma monarquia soberana e a limitada autonomia política sob a Pérsia forçaram uma reorientação fundamental da identidade judaica. A ênfase na "consolidação da liturgia e dos escritos histórico-religiosos" e a elevação da "Lei, Sábado e circuncisão" como "elementos distintivos" significam uma mudança de uma identidade nacional-política para uma identidade religiosa-textual. Os escribas tornaram-se figuras de suma importância, servindo efetivamente como os novos guardiões intelectuais e espirituais. Esse desenvolvimento foi crucial para a sobrevivência do judaísmo em um mundo sem rei e plena independência política.
Na ausência de um rei, o Sumo Sacerdote emergiu como o líder religioso preeminente e, em grande medida, líder político da comunidade judaica em Jerusalém. O cargo de Sumo Sacerdote era hereditário, traçando sua linhagem até Arão, irmão de Moisés, da tribo de Levi. Essa figura central, responsável pela mediação entre Deus e o povo através dos rituais do Templo, assumiu uma autoridade considerável na província de Judá. O surgimento de uma hierarquia sacerdotal centralizada no Templo, liderada pelo Sumo Sacerdote, foi uma resposta direta à ausência de uma monarquia e à necessidade de uma estrutura de governança interna sob o domínio persa. Essa concentração de poder religioso e, em parte, político no Sumo Sacerdote, embora garantisse a coesão da comunidade e a continuidade do culto, também plantou as sementes para futuras tensões. A dependência que tinha o sacerdócio da aprovação imperial, primeiramente persa e depois helenística e romana, para manter sua posição e privilégios, criaria divisões internas e comprometeria a independência religiosa, levando a conflitos e a uma busca por maior autonomia.
Com a morte de Dario I, seu filho Xerxes assumiu o reino persa, mantendo com os judeus o mesmo tratamento dispensado por seu pai. Por essa época, o grande sacerdote dos judeus era Joachim, filho de Jeshua. Na Babilônia, o principal sacerdote era Esdras, conhecedor das leis de Moises e bem relacionado com Xerxes. Pretendendo viajar a Jerusalém, com judeus que ainda se encontravam na Babilônia, Esdras conseguiu do rei Xerxes uma carta de recomendação que o permitisse passar com segurança pelos países do trajeto para a Judeia. Mais do que isso, permitiu à comitiva que levasse riquezas e bens da Pérsia, que servissem como sacrifícios dos judeus a Deus. Satisfeito com a boa vontade de Xerxes que o tornava responsável perante os judeus por tudo o que conseguira para levar à Judeia, Esdras organizou o povo que participaria da viagem, para o seu pleno sucesso, renunciando ao exército que Xerxes lhe oferecera como segurança. Partiram do Eufrates no 12º dia do 1º mês do 7º ano do reinado de Xerxes, chegando a Jerusalém no 5º mês do mesmo ano. Lá chegando, Esdras entregou aos tesoureiros, da família dos sacerdotes dos judeus, todos os presentes enviados por Xerxes bem como sua carta aos oficiais do Rei e aos governadores dos reinos vizinhos para que bem entendessem a boa vontade de Xerxes para com os judeus e os auxiliassem no que pudessem.
Logo começaram a surgir queixas contra alguns dos cidadãos que haviam se casado com mulheres estranhas à nação judaica, assim transgredindo as leis do seu país. Os acusadores argumentavam que Esdras deveria obrigar os faltosos a enviar de volta para os seus países, as mulheres estrangeiras com os filhos gerados, a fim de obter o perdão de Deus. Surge a figura importante de Jechonias depondo contra os faltosos, o que motiva Esdras a obrigar os chefes dos sacerdotes, dos levitas e dos israelitas a jurarem que mandariam embora as esposas e crianças. Isto feito e a fim de apaziguar Deus, ofereceram sacrifícios de animais e outros bens. Ao 7º mês tiveram início as Festas do Tabernáculo que duraram oito dias, após o que todos retornaram às suas casas cantando hinos a Deus e agradecendo a Esdras pelo conserto das faltas introduzidas. Após ter obtido tal reputação entre o povo, Esdras morreu velho e foi enterrado de maneira magnífica em Jerusalém. Ao mesmo tempo, morreu também o alto sacerdote Joachim, sucedido por seu filho Eliasib no alto sacerdócio.
Alguns anos depois, Neemias, um judeu em Susa, metrópole da Pérsia, que servia como copeiro de Xerxes, ficou sabendo que Jerusalém e o povo estavam novamente em péssimo estado, por ação de seus vizinhos. Neemias deu conhecimento do assunto a Xerxes que novamente escreveu carta aos vizinhos dos judeus, autorizando Neemias a voltar para Jerusalém com a carta que cobrava ajuda da Samaria e adjacências para a reconstrução da cidade e manutenção do templo. No 25º ano do reinado de Xerxes, Neemias retornou a Jerusalém com muitos judeus que voluntariamente o acompanharam. Em Jerusalém ele reuniu todo o povo e informou a razão de sua ida, conclamando os judeus a se reunirem por vontade de Deus e se dedicarem com ânimo à reconstrução das muralhas e à manutenção do Templo, sem se preocuparem com as afrontas dos reinos vizinhos. E após prometer que ele mesmo, com seus servos, assistiria aos judeus (assim chamados após o retorno da Babilônia, a partir do nome da tribo de Judá) na reconstrução, Neemias dissolveu a assembleia.
Logo os moabitas, amonitas, samaritanos e sírios reiniciaram suas provocações que incluíram ameaças de morte ao próprio Neemias, provocando de parte dos judeus medidas especiais para que pudessem prosseguir em seus trabalhos. Nesses moldes, a construção das muralhas demandou dois anos e quatro meses, sendo concluídas no nono mês do 28º ano do reinado de Xerxes. Encerrada a construção, Neemias e o povo ofereceram sacrifícios a Deus e festejaram durante oito dias, o que deixou indignadas as nações vizinhas. Neemias tomou ainda várias outras providências para garantir a vida tranquila da população e morreu velho e feliz por ter realizado a felicidade do povo de Jerusalém.
Com a morte do rei Xerxes, assumiu o trono da Pérsia seu filho Artaxerxes I (que alguns conhecem por Cyrus), que se casou com uma moça judia, de família real e que teve importante papel na preservação do povo judeu. O rei separando-se de sua primeira esposa, ordenou que fossem selecionadas um grande número de virgens para que escolhesse entre elas a sua nova esposa. Artaxerxes acabou apaixonando-se por Esther, uma jovem órfã judia criada por Mordecai, seu tio. O rei casou-se com ela e levou-a para habitar o seu palácio em Shushan, abandonando a Babilônia onde vivia, sem saber que Esther era judia.
Um complô contra o rei foi descoberto por Esther e denunciado por Mordecai ao Rei, que determinou a execução dos envolvidos, tornando Mordecai, que foi habitar no palácio, um de seus favoritos. Havia no reino um amalequita (inimigo dos judeus) de nome Haman que costumava ir ao rei e a quem Artaxerxes ordenara que persas e estrangeiros o adorassem. Mordecai, de origem judia, negou-se a tal procedimento e por isso Haman descobriu que ele e sua família eram judeus e resolveu aproveitar denunciando-os ao Rei para provocar a extinção de todos os judeus, propondo-se a pagar do seu bolso um valor equivalente ao tributo pago pelo povo judeu. O rei aceitou a proposta e Haman enviou decretos a todas as nações sob o jugo persa determinando a morte de todos os judeus, suas esposas e filhos, até o 14º dia do 12º mês daquele corrente ano. Mordecai e os judeus de todas as partes fizeram tais notícias chegassem aos ouvidos do Rei e da Rainha.
Essas intrigas envolvendo o Rei Artaxerxes, sua esposa Esther, Haman e Mordecai permaneceram durante algum tempo até que todas as artimanhas de Haman foram descobertas por Artaxerxes por meio de sua esposa Esther. O rei, que então ficara sabendo do parentesco de Esther com Mordecai, chamou-o e deu-lhe o anel que antes havia dado a Haman, bem como sua casa. A rainha solicitou também ao rei que liberasse totalmente a nação dos judeus do medo da morte, ao que o rei respondeu que nada faria que a desagradasse, mas que ela escrevesse tudo o que lhe agradasse sobre os judeus, em nome do rei, que lhe aporia o selo real e o enviaria a todo o seu reino.
Após aqueles dias, como celebração, os judeus realizaram vários dias de festivais que chamaram Phurim ou Purim, que continuam a ser celebrados até hoje. Mordecai tornou-se um grande e ilustre personagem junto ao rei, assistindo-o sempre no governo do povo. Com isso, os assuntos do povo judeu foram resolvidos ainda melhor do que se poderia esperar. Esta a situação dos Judeus sob o reino de Artaxerxes.
Quando o sacerdote Eliasib morreu, seu filho Judas sucedeu-o no alto sacerdócio e com sua morte, seu filho João assumiu aquela dignidade. Foi sob o seu comando que Bagoses, general de outro exército de Artaxerxes poluiu o Templo, impondo novos tributos aos Judeus. Jesus, irmão de João, era amigo de Bagoses, que lhe havia prometido o alto sacerdócio. Por isso os dois irmão brigaram no Templo e de tal forma violenta que João acabou assassinando Jesus, crime enorme principalmente considerada a sua situação de alto sacerdote. Quando Bagoses, o general persa, soube que João, o alto sacerdote dos Judeus havia assassinado seu irmão Jesus, no Templo, quis adentrar o templo, mas os judeus não permitiram, ao que ele respondeu: “Por acaso eu não sou mais puro que o assassino do templo?” E entrou, punindo os judeus por sete anos pelo assassinato de Jesus!
Quando João morreu, seu filho Jaddua o sucedeu no alto sacerdócio. Ele tinha um irmão de nome Manasseh. Na Samaria havia nesta época um homem chamado Sanballat, do mesmo estoque dos samaritanos, que havia sido enviado por Dario. Ele sabia que os reis de Jerusalém haviam dado muitos problemas aos assírios e ao povo da Selesíria, por isso deu sua filha Nicaso em casamento a Manasseh de modo a criar um compromisso com os judeus para que esses não lhe criassem problemas. Os anciãos de Jerusalém, com o alto sacerdote Jaddua, não viram com bons olhos o casamento de Manasseh com uma estrangeira, como já tinha ocorrido anteriormente, exigindo a sua separação da esposa ou o seu afastamento definitivo do altar sagrado. Manasseh buscou o auxílio de seu sogro, Sanballat, explicando toda a situação. Sanballat prometeu-lhe a manutenção de sua dignidade, bem como dar-lhe o governo de todos os locais que ele agora governava e também a construção de um templo como o de Jerusalém, no monte Gerizzini, a mais alta montanha da Samaria, com a aprovação de Dario, se ele não se separasse de sua filha. Foi por esse tempo que morreu Jaddua, o alto sacerdote, tomando seu lugar o seu filho Onias na Jerusalém daquele tempo. (Parte 4 na próxima postagem)


[1] A Coelesyria (Selesíria) era uma região da Síria na antiguidade clássica, na maioria das vezes aplicada ao vale do Beqaa, entre as cadeias de montanhas do Líbano e Ante-Líbano. É agora parte da Síria e Líbano dos dias modernos.

[2] A Fenícia foi uma antiga civilização na região do Levante, Mediterrâneo Oriental, primariamente localizada nos modernos Líbano e Síria costeira. O território dos fenícios estendeu-se e retraiu-se através da história, com o núcleo de sua cultura estendendo-se de Trípoli (norte do Líbano moderno) até o Monte Carmel (Israel moderno). Além de sua terra natal, os fenícios se espalharam através do Mediterrâneo, de Chipre até a Península Ibérica.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 2)

III – O NOVO IMPÉRIO BABILÔNICO


O Novo Império Babilônico ou Segundo Império Babilônico, historicamente conhecido como Império Caldeu, foi o último sistema governado por monarcas nativos da Mesopotâmia (região do atual Iraque). Iniciado com a coroação de Nabopolassar como rei da Babilônia em 626 AC e estabelecendo-se firmemente com a queda do Império Neo-Assírio em 612 AC, o Novo Império Babilônico foi conquistado pelo Império Persa Aquemênida em 539 AC.
A queda do Novo Império Assírio e a subsequente transferência de poder de Nínive para a Babilônia, marcou a primeira vez em que a cidade e, em geral, o sul da Mesopotâmia, havia se levantado para dominar o antigo Oriente Próximo desde o colapso do Antigo Império Babilônico sob Hamurabi, cerca de mil anos antes. O Novo Império Babilônico mantém uma posição notável na memória cultural dos dias atuais devido a um desagradável retrato da Babilônia e seu maior rei, Nabucodonosor II, pintados nos textos da Bíblia judaica. A cobertura bíblica de Nabucodonosor II foca em sua campanha militar contra o Reino de Judá e, particularmente, no cerco babilônico sobre Jerusalém em 587 AC que resultou na destruição do Templo de Salomão e o subsequente cativeiro babilônico do povo judeu. As fontes babilônicas descrevem o reino de Nabucodonosor II como uma idade dourada que transformou a Babilônia no maior império do seu tempo. 
Cidades importantes da Mesopotâmia no Novo Império
Ainda sob autoridade do rei do Novo Império Assírio na Babilônia, Sin-shar-ashkun, o então oficial do sul, general Nabopolassar, usou a política de instabilidade na Assíria, causada por uma breve guerra civil anterior entre Sin-shar-ashkun e o general Sin-shumu-lishir, para se revoltar. Em 626 AC Nabopolassar assaltou e dominou com sucesso as cidades da Babilônia e Nippur. A resposta de Sin-shar-ashkun foi rápida e decisiva, recapturando Nippur e sitiando Nabopolassar na cidade de Uruk em outubro do mesmo ano, mas sem conseguir retomar a Babilônia. Nabopolassar resistiu ao cerco de Uruk e expulsou o exército assírio. Em novembro de 626 AC Nabopolassar foi formalmente coroado Rei da Babilônia, como reino independente após mais de um século de direto mando assírio. Em 623 AC, Sin-shar-ashkun conduziu um contra-ataque maciço que poderia tê-lo tornado vitorioso, mas teve que abandonar a campanha devido a uma revolta na Assíria que ameaçava sua posição como rei. A ausência de exército assírio permitiu aos babilônios conquistar os remanescentes postos assírios na Babilônia e manter firme controle sobre Uruk e Nippur até 620 AC, assim consolidando o controle de Nabopolassar sobre toda a Babilônia, o que fez rapidamente desmoronar o Império Assírio.
Ao final de 615 AC, os Medos (da Média, Pérsia) sob o rei Cyaxares, também antigos inimigos da Assíria, conquistaram a região assíria em torno de Arrapha. No meio do ano de 614 AC, os Medos começaram a atacar as cidades de Kalhu e Nínive, além de sitiar, com sucesso, Assur, antigo coração político da Assíria, promovendo saque brutal. Nabopolassar chegou em Assur somente após o início do saque, encontrando-se com e aliando-se a Cyaxares, com quem assinou um pacto contra os assírios. Em abril ou maio de 612 AC, início do 14º ano de Nabopolassar como rei da Babilônia, o exército combinado Medo-Babilônio marchou sobre Nínive. De junho a agosto do mesmo ano sitiaram a capital assíria e em agosto as muralhas foram rompidas, conduzindo a um novo longo e brutal saque durante o qual supõe-se que Sin-shar-ashkun tenha morrido. Seu sucessor Ashur-uballit II, último rei da Assíria, foi derrotado em Harran em 609 AC. O Egito, aliado da Assíria, continuou a guerra contra a Babilônia por alguns anos, sendo finalmente derrotado pelo príncipe da coroa de Nabopolassar, Nabucodonosor, em Carchemish, em 605 AC. 
Nabucodonosor II, responsável pelo cativeiro Judeu

Nabucodonosor II sucedeu a Nabopolassar, seu pai, em 605AC. O império que herdou estava entre os mais poderosos do mundo e ele rapidamente reforçou a aliança de seu pai com os Medos, casando-se com a filha ou neta de Cyaxares, Amytis. Algumas fontes sugerem que os famosos “Jardins Suspensos da Babilônia”, uma das “Sete Maravilhas do Mundo Antigo”, foram construídos por Nabucodonosor, para sua esposa, para lembrá-la de sua terra natal. Os 43 anos do reinado de Nabucodonosor trouxeram uma idade de ouro para a Babilônia que a tornou o mais poderoso do Oriente Médio.
Suas campanhas mais famosas foram as realizadas no Levante, relativamente no início do seu reinado, para estabilizar seu reino e consolidar o seu império – a maioria dos reinos e cidades-estados recém independentes no Levante eram vassalos do Novo Império Assírio. Sua destruição de Jerusalém em 587 AC acabou com o Reino de Judá, então sob o reinado de Sedequias, e dispersou sua população, com a maioria de seus cidadãos de elite sendo enviados para a Babilônia, iniciando um período conhecido como “Cativeiro Babilônico”.
O exílio dos Judeus, de Canaã à Babiônia, segundo James Tissot, 1896
 Subsequentemente, ele sitiou o Tiro por 13 anos e embora não tivesse capturado a cidade, ela rendeu-se a ele em 573 AC, concordando em ser governada por reis vassalos. 
A partir desse ponto, a fonte principal da pesquisa passa a ser “As Antiguidades dos Judeus”, de Flavius Josephus. (Parte 3 na próxima postagem).

quinta-feira, 18 de maio de 2023

CISÃO DOS JUDEUS: REINOS DE JUDÁ E ISRAEL

 

I - INTRODUÇÃO


Quando olhamos para a nação do moderno Estado de Israel e lemos a Bíblia, pode haver muita confusão sobre o que você está olhando comparado ao que você está lendo no que se refere “ao que está onde”. Em algum ponto, o Reino de Israel foi completamente fracionado e nos perguntamos o que era Israel e o que era Judá e onde eles estariam agora? Enquanto a terra de Israel era originalmente um reino unido, em dado momento foi dividido em dois reinos, ambos baseados em crenças e culturas hebraica/judaica. Como foi que tudo isso aconteceu?
Como sempre faço em minhas postagens, estou expressando, nesta introdução, apenas a minha própria opinião. Sempre tive enorme admiração pelo povo judeu, principalmente por sua tenacidade como nação. Exatamente por isso e conhecedor de bastante de sua história, através do Antigo Testamento e de outras fontes não bíblicas consideradas importantes, nunca entendi direito a profunda e definitiva cisão ocorrida entre as doze tribos de Israel, historicamente um acontecimento até então inconcebível e que, pelo menos para mim, até hoje, provoca enormes dúvidas quanto ao povo que atualmente constitui o moderno Estado de Israel.
Esta postagem não pretende, de forma alguma, contar a história do povo judeu (com mais de seis mil anos de existência), nem parte dessa história. O foco da postagem restringe-se a este pequeno evento, em duração, mas de consequências importantíssimas para a história da nação judaica. Espero poder atingir, nesta curta postagem, o objetivo a que me proponho.


II - A HISTÓRIA DA CISÃO

Originalmente, as doze tribos de Israel teriam os nomes de onze dos filhos de Jacó – que teve seu nome posteriormente alterado para Israel -, já que José não teve uma tribo. A tribo que faltava foi, na verdade, constituída por duas semi tribos com os nomes dos filhos de José: Manassés e Efraim. As “Doze Tribos” tiveram, portanto, os seguintes nomes: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim e Manassés/Efraim.
Quando, segundo o Antigo Testamento, o povo de Israel pediu a Deus um rei, a nação oficialmente tornou-se um reino, mas foi avisada por Deus, que tal reino viria com todos os seus desafios. O primeiro rei de Israel foi Saul (cerca de 1.021 a 1.000 AC), escolhido pelo Juiz Samuel e por aclamação pública. A Saul seguiu, como o segundo rei de Israel, Esbaal, seu filho, que reinou por apenas dois anos, sempre em guerra com Davi, genro de Saul, e foi assassinado por dois capitães do seu próprio exército. Após Esbaal, reinou Davi, de 1010 a 970 AC, como o terceiro rei do Reino Unido de Israel. Salomão, seu filho, o sucedeu como quarto e penúltimo rei do Reino Unido de Israel (970-931 AC). Foi o construtor do Primeiro Templo de Jerusalém, dedicado a Javé, Deus dos Judeus. Com a morte de Salomão, que já teve o final do seu reinado bastante complicado, seu filho Roboão o substituiu como último rei do Reino Unido de Israel e o primeiro Rei de Judá (931 a 913 AC), um dos reinos que o sucedeu.
Como profetizado pelo Profeta Aías (Reis I, 11:31-35), a casa de Israel (formada pelas Doze Tribos originais) foi dividida em dois reinos. Essa divisão, que ocorreu cerca de 930 AC, após a morte de Salomão e durante o reinado de seu filho Roboão, aconteceu porque o povo se revoltou contra os pesados impostos cobrados por Salomão e seu filho Roboão, bem como por fortes indícios de afastamento dos preceitos originais de Javé.
Durante o reinado de Roboão, a tribo de Judá e a tribo de Benjamin (praticamente toda a tribo) o aceitaram como rei e constituíram assim o Reino de Judá, ou o Reino Sul de Israel, com sua capital em Jerusalém. As outras dez tribos (e o restante da tribo de Benjamin) – usualmente conhecidas como “As Dez Tribos” – escolheram Jeroboão como seu rei. Essas Dez Tribos retiveram o título de Israel, tornando-se também conhecidas como Efraim, que era a tribo dominante. Tornou-se o Reino do Norte com quartel general em Shechem, na região da Samaria. Desta época em diante, o povo judeu, herdeiro de Abrahão, o primeiro grande Patriarca, nunca mais voltou a ser o mesmo! 
Reinos de Judá (amarelo) e Israel (azul)
Aqui faz-se necessário uma palavrinha sobre Jeroboão, filho de Nebat, um membro da tribo de Efraim. Ainda um jovem, Salomão o fez superintendente dos homens de sua tribo na construção da fortaleza de Millo, em Jerusalém e outros serviços públicos. Assim, ele naturalmente tornou-se familiarizado com o difundido descontentamento causado pelas extravagâncias que marcaram o final do reinado de Salomão. Influenciado pelas palavras do profeta Aías, ele começou a conspirar para tornar-se rei, mas foi descoberto e fugiu para o Egito onde permaneceu sob a proteção do faraó Shishak até a morte de Salomão. Depois desse evento ele retornou e participou de uma delegação enviada para negociar junto ao novo rei Roboão a redução dos impostos. Com a negativa de Roboão e as suas maquinações, dez das doze tribos retiraram sua submissão à Casa de Davi, proclamando Jeroboão seu rei e formando o Reino Norte de Israel.
Em seu conjunto, Judá, o outro reino, permaneceu mais fiel a Javé. Quase ao mesmo tempo em que o Reino do Norte de Israel foi estabelecido, renegou a própria fé (apostasia). Embora grandes profetas como Elias e Amós ministrassem no reino, o povo adorava falsos deuses e adotava muitas práticas do Baalismo.
Pelo Antigo Testamento vemos que essas duas nações lutaram entre si, ambas tornando-se fortes e independentes e criando duas linhagens distintas na História, com seus próprios reis e seus próprios profetas. Tristemente, Israel e Judá caíram no cativeiro, embora para diferentes potências e em épocas diferentes.
Embora mais populoso que o Reino de Judá, o Reino de Israel caiu cerca de 135 anos antes. Cerca de 721 AC, Israel foi capturado pelos assírios, sob Shalmanezer, e levado embora, tornando-se, subsequentemente, perdido ao conhecimento dos homens. É hoje conhecido como “as dez tribos perdidas”, visto que Israel nunca se livrou totalmente do cativeiro assírio. Os Samaritanos foram considerados degenerados da casa de Israel, mas muitas tribos foram consideradas perdidas.
Geograficamente, Judá era menos exposta a ataques, mas em 588 Nabucodonosor, da Babilônia, sitiou Jerusalém e virtualmente encerrou com o Reino de Judá, levando seu povo cativo para a Babilônia. Após 70 anos, o rei Ciro, da Pérsia, capturou a Babilônia e permitiu a Judá retornar a Jerusalém. Muitas pessoas de Judá se haviam dispersado pela Ásia, mas a maioria retornou a Jerusalém e à reconstrução do Templo de Salomão, símbolo maior da nação judaica. Assaltados por Síria e Egito, Judá nunca recuperou seu poder original e, pelo tempo de Jesus, Jerusalém já se tinha tornado um tributário de Roma.
É importante também, para bem esclarecer o futuro de toda a região, que se digam algumas palavras sobre a Samaria. Tanto na Bíblia quanto em fontes não bíblicas, o nome “Samaria” ocorre numerosas vezes como nome de uma cidade ou designação da região de que a cidade era a capital. O nome foi aplicado à região, quando a cidade de Samaria tornou-se a capital do reino israelita do norte sob o rei Omri, no século IX AC. Após a divisão do Reino de Israel (Judá e Israel), a província da Samaria compreendia, primeiramente, todo o território ocupado pelas dez tribos revoltadas, e estendeu-se até a Galileia. Samaria é mencionada na Bíblia como o nome da montanha em que Omri construiu sua capital, nomeando-a também Samaria. Em 732 AC, os assírios aí assentaram novos estrangeiros para se misturarem ao povo de Israel, quando se tornaram conhecidos como Samaritanos. Após a conquista do Reino do Norte pelos Assírios cerca de 722 AC, o distrito circundando a cidade foi também chamado Samaria. Subjugada a cidade, o assírio Sargão mandou os seus habitantes para longe, estabelecendo-os em sítios que ficavam muito longe do país de Israel. Em conformidade com a política dos conquistadores da antiguidade, Sargão e, mais tarde, Esar-Hadom, repovoaram Samaria com gente da Babilônia, de Cuta e de outras províncias longínquas, sendo o seu fim certamente destruir os sentimentos nacionais entre os povos conquistados.
Após a destruição do Reino de Israel, os samaritanos emergiram como um grupo étnico-religioso na região da Samaria, alegando descender dos israelitas; com seu templo no Monte Gerizim, eles prosperaram por séculos.
De acordo com a versão judia dos eventos, quando o exílio das tribos de Judá terminou em 539 AC e os exilados começaram a retornar da Babilônia, os samaritanos encontraram sua pátria anterior do norte, habitada por outras pessoas que alegavam ser sua pátria, e Jerusalém, sua gloriosa capital anterior, em ruínas. Os habitantes adoravam deuses pagãos e eles apelaram ao rei da Assíria por sacerdotes israelitas para instruí-los a adorar o Deus dos Judeus. O resultado foi uma mistura de religiões em que grupos nacionais adoravam o Deus Israelita, mas também serviam a seus próprios deuses de acordo com os costumes das nações das quais eles tinham sido trazidos. Os samaritanos alegavam ser o verdadeiro Israel, como descendentes das Dez Tribos Perdidas levadas no cativeiro assírio. Além disso, alegavam que sua versão do Pentateuco era a original e que os judeus possuíam um texto falsificado produzido por Ezra, durante o exílio na Babilônia. Hoje, a maioria dos estudiosos acredita que os samaritanos eram uma mistura de israelitas com outras nacionalidades com que os assírios haviam recolonizado a região.
Por todas essas razões, os Samaritanos tornaram-se os grandes inimigos do povo judeu quando, retornando do seu exílio na Babilônia, dedicou-se à reconstrução de Jerusalém e do Templo de Salomão.
Apresentamos, para encerrar a postagem, as duas relações dos reis de Judá e de Israel, desde a cisão do Reino Unido de Israel, até a partida para os seus respectivos cativeiros:

REINO DE JUDÁ                                                REINO DE ISRAEL

Roboão                                                                   Jeroboão
Abião ou Abias                                                      Nadabe
Asa                                                                         Baasa
Jeosafá                                                                   Elá 
Jeorão                                                                    Zinri
Acazias                                                                 Omri  
Joás                                                                       Acabe
Amazias                                                                Jorão
Uzias (Ozias) ou Azarias                                      Jeú
Jotão                                                                     Jeohacaz
Acaz                                                                     Jeoás
Ezequias                                                               Jeroboão
Manassés                                                              Zacarias
Amom                                                                  Salum
Josias                                                                    Menaém
Jeoacaz                                                                 Pecaías
Eliaquim (Jeoiaquim)                                           Peca
Joaquim                                                                Oséias
Zedequias (Cativeiro e morto Babilônia)            Shalmaneser


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 1

I -INTRODUÇÃO

A história do Irã que nos propomos apresentar, registra os acontecimentos históricos no território correspondente aos atuais Irã, Afeganistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Azerbaijão e outras áreas vizinhas, ao longo de um período de tempo que começa com as primeiras civilizações pré-arianas, passa pelo Império Persa em todas as suas fases, prossegue com o período helenístico, domínio pelos muçulmanos, até o início da idade moderna. Em suas várias formas, trata-se de uma das mais antigas grandes civilizações de existência contínua. 
Localização de Anshan dentro do Império Elamita
A Pérsia é, oficialmente, admitida como um sinônimo para Irã, embora este último tenha se tornado mais usual, no Ocidente, após 1935. O país sempre foi chamado "Irã" (Terra dos Arianos, derivado de Aryanam, forma encontrada em textos persas antigos.) pelo seu povo, para se referir ao seu próprio país, pelo menos desde 600 AC, embora durante séculos tenha sido referido pelos europeus como Pérsia (Persis pelos gregos). Este termo provém do persa Pars ou Parsa ou ainda Fars, o nome do clã principal de Ciro (a ser visto com detalhe) e que também deu o nome à região onde habitavam os persas (hoje, a moderna província de Fars ao sul do Irã) principalmente devido aos escritos dos historiadores gregos. Em 1935 o governo especificou que o país deveria ser chamado Irã; entretanto, em 1959 ambos os nomes passaram a ser admitidos. No uso corrente, o termo Pérsia costuma ser reservado para referir-se ao Império Persa durante suas diversas fases históricas, uma sucessão de Estados que controlaram o Planalto Iraniano e os territórios adjacentes ao longo do tempo, a começar pela dinastia aquemênida, fundada por Ciro, o Grande, no século VI AC, fundado originalmente por um grupo étnico (os persas) a partir da cidade de Anshan (veremos adiante), no que é hoje a província iraniana de Fars, e governado por dinastias sucessivas (persas ou estrangeiras). 
Mapa topográfico do "Platô Iraniano"
O latim apanhou o termo do grego, transformando-o em Persia, forma adotada pelas diversas línguas européias. Em 1935, o Xá Reza Pahlavi solicitou, formalmente, que a comunidade internacional passasse a empregar o nome nativo do país, Iran (Irã ou Irão, em português). Em 1959, o mesmo governante anunciou que tanto Pérsia como Irã eram formas corretas de referir-se ao seu país.
O Planalto Iraniano ou Persa é uma grande formação geológica no Oriente Médio e na Ásia Ocidental e Central, parte da Placa Euroasiática meridional. Cobre a maior parte do Irã (aproximadamente 2/3 do país, da Cordilheira de Zagros para o leste), o Afeganistão (principalmente as porções meridional e oriental do país), o oeste do Paquistão (o Baluchistão e a Província da Fronteira Noroeste) e a parte sul do Turcomenistão, bem como uma pequena área do sul do Azerbaijão. Estende-se desde a Cordilheira Elburz (ou Alborz) na direção sul, até o mar. Seus extremos são marcados pela Cordilheira de Zagros, a oeste, pela Cordilheira de Hindu Kush, a leste, Mar Cáspio e a cadeia montanhosa Kopet Dag, ao norte, o Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico, ao sul. 
Localização geral do Irã moderno
A figura ao mostra o mapa do Irã, oficialmente República Islâmica do Irã, um estado soberano da Ásia Ocidental, nos dias de hoje. Palco de inúmeras guerras, personagens controvertidos e uma das culturas mais antigas do mundo, uma área cheia de conflitos históricos que ainda permanecem, desde milhares de anos antes da Era Cristã. Uma das razões de sua conturbada história, reside exatamente em sua posição geográfica: o país em foco faz fronteiras com, nada mais, nada menos, Turquemenistão, Azerbaijão, Armênia e Mar Cáspio, ao norte, Turquia e Iraque a oeste, Afeganistão e Paquistão a leste, e Golfo Pérsico e Golfo de Omã ao sul. É a história deste país que nos propomos contar nesta postagem.
A história da Pérsia no mundo ocidental, está entrelaçada com a história de uma região mais ampla, até certo ponto conhecido como “Irã Maior” ou “Grande Irã”, compreendendo a área que vai da Anatólia[1], Estreito de Bósforo e Egito, no oeste, às fronteiras da antiga Índia e o Syr Darya (rio da Ásia Central[2]), no leste, e do Cáucaso (região na fronteira entre a Europa e Ásia, situada entre os mares Negro e Cáspio) e a Estepe Eurasiática (a Grande Estepe da Eurásia), no norte, ao Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, no sul.
O Irã é o lar de uma das mais velhas civilizações contínuas do mundo, com povoações históricas e urbanas que datam de 7.000 AC. As áreas sudoeste e oeste do Platô Iraniano, participaram do tradicional Antigo Oriente Próximo com o Elam (sudoeste do Irã moderno), do início da Idade do Bronze e, mais tarde, com vários outros povos, como os Cassitas, Manneanos (noroeste do atual Irã) e Gutianos. 
Localização das ruínas de Persépolis
Georg Wilhelm Friedrich Hegel diz que os persas foram o primeiro Povo Histórico. Os Medas (ou Medos) unificaram o Irã como nação e império em 625 AC. O Império Aquemênida (550-330 AC), fundado por Ciro II, o Grande, foi o primeiro dos impérios persas a reinar dos Balcãs à África Norte e também na Ásia Central, cobrindo três continentes a partir do seu trono de poder em Persis (Persépolis, cidade dos persas), capital cerimonial do Império Aquemênida, situada a 60 km da cidade de Shiraz, na província de Fars, Irã. Os mais antigos vestígios de Persépolis datam de 515 AC, exemplificando o estilo de arquitetura Aquemênida, tendo sido declarado pela UNESCO, em 1979, Sítio de Herança Mundial. A palavra portuguesa Persépolis é a própria palavra grega, composta de Perses e Polis e significando a “Cidade dos Persas”. Para os persas antigos, a cidade era conhecida como Parsa, palavra usada para “Persia” ou, mais precisamente, a região de Persis. Foi o maior império jamais visto e o primeiro império mundial. O Primeiro Império Persa foi a única civilização em toda a história a conectar mais de 40% da população global, avaliada em 49,4 milhões da população mundial de 112,4 milhões de pessoas, cerca de 480 AC. Eles foram sucedidos pelos Impérios Selêucida, Parta e Sassânida, que sucessivamente governaram o Irã por quase 1.000 anos e o fizeram novamente uma importante potência mundial. Seu arquirrival foi o Império Romano e seu sucessor, o Império Bizantino. O Império Persa, propriamente dito, iniciou na Idade do Ferro, seguindo o influxo dos povos iranianos, que deram origem aos impérios que o sucederam na antiguidade clássica.
Como um império de tais proporções, o Irã também resistiu a várias invasões, pelos gregos, árabes, turcos e mongóis. Ao longo dos séculos, o Irã continuamente reafirmou sua identidade nacional, desenvolvendo uma entidade política e cultural distintas.
A conquista muçulmana da Pérsia (633-656) encerrou o Império Sassânida, definindo um ponto de inflexão na história iraniana. A “islamização” do Irã teve lugar entre os séculos VIII e X, conduzindo ao declínio do Zoroastrismo[3] bem como de várias de suas crenças. Contudo, as conquistas das civilizações persas anteriores não foram perdidas, mas foram, numa grande extensão, absorvidas pelo novo sistema político e civilização.
O Irã, com sua longa história de culturas e impérios originais, havia sofrido muito, particularmente com o final da Idade Média e início do Período Moderno. Muitas invasões de tribos nômades, cujos líderes tornaram-se governantes deste país, afetaram-no negativamente.
O Irã foi mais uma vez reunido, como estado independente, em 1501, pela Dinastia Safávida (falaremos dela adiante), que converteu o Irã ao Islamismo Xiita (que também veremos em detalhe, oportunamente), como religião oficial do seu império, no ponto crítico da história do Islamismo. Novamente atuando como uma potência líder, desta feita na vizinhança do Império Otomano, seu arquirrival por séculos, o Irã havia sido uma monarquia comandada por um imperador, quase sem interrupção, de 1501 até a revolução iraniana de 1979, quando oficialmente tornou-se uma república islâmica em abril de 1979.
Ao longo da primeira metade do século XIX o Irã perdeu muitos dos seus territórios no Cáucaso (que ele havia governado intermitentemente por milênios), compreendendo hoje a Geórgia Oriental, Dagestão, Azerbaijão e Armênia (todos ao noroeste do Irã), para o seu rival vizinho, rapidamente emergente e em expansão, o Império Russo, após as guerras Russo-Persa, entre 1804-1813 e 1826-1828.

II – PRÉ-HISTÓRIA

II.1 – PALEOLÍTICO (2,5 milhões de anos a 10.000 AC)
Divisão da História
em Eras

Apenas para simplificar a vida dos nossos leitores que não estejam muito acostumados com o assunto, apresentamos ao lado uma tabela simplificada com as divisões da História em eras.
Os mais antigos artefatos arqueológicos no Irã foram encontrados nos sítios de Kashafrud e Ganj Par, que datam do ano 100.000, no Paleolítico Médio. As ferramentas de pedra Musteriana (ou Musteriense, nome dado por arqueólogos a um estilo de ferramentas ou indústria predominantemente de pederneira) feitas por homens de Neandertal[4], também foram encontradas. Há mais resíduos culturais dos homens de Neandertal datando do período do Médio Paleolítico que foram principalmente encontrados na região das montanhas Zagros e alguns poucos no Irã Central, em vários sítios arqueológicos. Em 1949 um rádio (osso do braço) Neanderthal foi descoberto por Carleton S. Coon, na caverna de Bisitun. Há também evidências dos períodos Paleolítico Superior e Epipaleolítico (final do Paleolítico Superior, já mergulhando no Mesolítico), principalmente nas Montanhas Zagros, nas cavernas de Kermanshah e Khorramabad e alguns sítios no Alborz e Irã Central.

II.2 – NEOLÍTICO AO CALCOLÍTICO

O Calcolítico é a transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze, também chamada de Idade do Cobre, porque aí surgiram o cobre e os monumentos megalíticos.
As mais antigas comunidades agrícolas começaram a florescer cerca de 10.000 AC na região das montanhas Zagros e entorno, no Irã ocidental. Pela mesma época, os mais antigos vasos de argila e figuras humanas e de animais, de terracota começaram a ser produzidas, também no oeste do Irã. O sudoeste do Irã era parte do “Fértil Crescente”[5], onde a maioria das primeiras culturas importantes foram realizadas, em vilas como Susa, um dos mais velhos povoamentos do Irã e do mundo, fundado, possivelmente cerca de 4.400 AC (próximo de Anshan) e povoamentos como Chogha Mish, datando de 6.800 AC; há jarras de vinho escavadas nas montanhas Zagros, com cerca de 7.000 anos de idade e ruínas de povoamentos da mesma idade. As duas povoações principais do Iraniano neolítico são a Cultura do rio Zayandeh e Ganj Dareh.

II.3 – IDADE DO BRONZE

O Elam foi uma das primeiras civilizações de que se tem registro no extremo oeste e sudoeste do que é hoje o Irã, sendo tradicionalmente considerada o ponto inicial da história do Império Persa (e, em decorrência, do Irã). Existiu cerca de 2700 AC até cerca de 539 AC, em seguida ao chamado Período Proto-Elamita, que teve início em cerca de 3200 AC (a cidade capital era Anshan), quando Susa, que viria a ser a capital dos elamitas, começou a ser influenciada por culturas do Planalto Iraniano. Baseado na busca de idade com o C14 (Carbono 14 ou radio carbono, é um isótopo radioativo do carbono, cuja presença em materiais orgânicos é a base do método para determinação de idades de amostras arqueológicas, geológicas e hidrogeológicas), a época de fundação de Susa é cerca de 4.400 AC, além da época de civilização da Mesopotâmia. A percepção geral entre os arqueólogos é que Susa foi uma extensão da cidade sumeriana de Uruk. Há também dúzias de sítios pré-históricos no platô iraniano indicando a existência de culturas antigas e povoações urbanas no quarto milênio. 
Área do Império Elamita, em vermelho, e áreas vizinhas
O Elam situava-se a leste da Suméria e da Acádia (atualmente, o Iraque). No período Elamita Antigo, constituía-se de reinos no Planalto Iraniano, cujo centro era Anshan, e, a partir do II milênio AC, Susa. Sua cultura desempenhou um papel fundamental no Império Persa, em especial durante a dinastia Aquemênida (que veio a suceder a civilização elamita na região), quando a língua elamita continuou a ser empregada oficialmente. O período elamita costuma ser considerado o ponto inicial da história do Irã (embora tenha havido culturas mais antigas no Planalto Iraniano). Os elamitas foram rivais dos sumérios e acádios e, posteriormente, dos babilônios, na disputa pela hegemonia no Oriente Próximo, até que finalmente foram dominados definitivamente por Nabucodonosor II da Babilônia, no século VII AC. Posteriormente, quando a Babilônia caiu ante os persas de Ciro, o Grande, os elamitas passaram a ser gradativamente absorvidos por outras populações iranianas e semitas.
A língua elamita não tem parentesco com as línguas iranianas (nem com as línguas indo-europeias ou as semíticas), embora alguns estudiosos enxerguem uma relação com as línguas dravídicas. O Elam conviveu com o Reino Jiroft, uma das mais antigas civilizações do platô iraniano, estabelecido no que são hoje as províncias orientais do Irã, enquanto que os elamitas controlavam a porção ocidental, na região da Cordilheira de Zagros; posteriormente sucedeu-o, estendendo-se por todo o platô iraniano. 
Taça de prata de Marvdasht
do terceiro milênio AC
Suas escavações arqueológicas conduziram à descoberta de vários objetos pertencentes ao quarto milênio AC. Há uma grande quantidade de objetos decorados com inconfundíveis gravações de animais, figuras mitológicas e motivos arquitetônicos. Os objetos e sua iconografia diferem de qualquer outra coisa já vista por arqueólogos. Muitos são feitos de clorita, pedra macia verde-cinza; outros são de cobre, bronze, terracota e até lápis-lazúli. Escavações recentes no local produziram a inscrição mais antiga do mundo, que antecede as inscrições da Mesopotâmia.
Há registros de numerosas outras civilizações antigas no platô iraniano antes da emergência dos povos iranianos durante a primitiva Idade do Ferro. O início da Idade do Bronze viu a ascensão da urbanização em cidades-estados organizadas e na invenção da escrita (Período Uruk) no Oriente Próximo. Enquanto o Elam da Idade do Bronze usou a escrita em tempos antigos, a escrita Proto-Elamita permanece indecifrada e registros da Suméria pertencentes ao Elam são escassos.
Há uma corrente teológica que afirma terem sido os elamitas descendentes de Elam, um dos filhos de Sem e neto de Noé nascido após o dilúvio bíblico.

II.4 – INÍCIO DA IDADE DO FERRO

O princípio do primeiro milênio AC testemunhou a segunda grande invasão do Planalto Iraniano por tribos indo-arianas provenientes da Transoxiana[6] e do Cáucaso, entre as quais os medos e os persas. O primeiro registro a respeito dos persas vem de uma inscrição assíria de cerca de 844 AC, que se refere aos parsu (Parsuash, Parsumash), localizando-os na área do Lago Urmia (noroeste do Irã), juntamente com outro grupo, os madai (medos).
Os registros tornam-se mais tangíveis com a ascensão do Império Neo-Assírio (911-612 AC), na Mesopotâmia, e seus registros de incursões do Platô Iraniano. A partir do século XX AC, tribos emigraram da estepe Ponto-Caspiana (hoje territórios da Ucrânia, Rússia e Cazaquistão) para o Platô Iraniano. A chegada no Platô Iraniano forçou os elamitas a renunciarem às suas áreas, buscando refúgio no Elam, Khuzistão ou Khuzestão (uma das províncias do Irã) e áreas vizinhas que só então se tornaram limítrofes com o Elam. Pelo meio do primeiro milênio AC, medas, persas e partas povoavam o Platô Iraniano. Até a ascensão dos medas, todos permaneceram sob dominação assíria, como o resto do Oriente Próximo.

[1] Anatólia, também conhecida como Ásia Menor, denota a protrusão ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da Turquia. A região é banhada pelo mar Negro ao norte, o mar Mediterrâneo ao sul e o mar Egeu, a oeste. O mar de Mármara forma uma ligação entre os mares Negro e Egeu através dos estreitos de Bósforo e Dardanelos e separa a Anatólia da Trácia, no continente europeu. Aproximadamente corresponde a dois terços ocidentais da parte asiática da Turquia.
[2] A Ásia Central espalha-se do Mar Cáspio, no oeste, à China, no leste e do Afeganistão, no sul, à Rússia, no norte, mas nunca houve uma demarcação oficial da área. Coloquialmente, ela se refere também aos “stãos”, já que os países geralmente considerados dentro da região, possuem todos o sufixo persa “stão”, que significa “terra de”.
[3] O zoroastrismo, masdaísmo, masdeísmo ou parsismo é uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. De acordo com historiadores da religião, algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias, viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Tem seus fundamentos fixados no Avesta (parte das escrituras sagradas do Zoroastrismo) e admite a existência de duas divindades (dualismo), as quais representam o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã). Da luta entre essas divindades, sairia vencedora a divindade do Bem.
[4] O Neandertal (algumas vezes chamado de "Vale do Neander") é um pequeno vale do rio Düssel, no estado alemão do North Rhine-Westphalia, localizado cerca de 12 km a leste de Düsseldorf, a capital do estado. Em agosto de 1856 a área tornou-se famosa com a descoberta do Neanderthal 1, o primeiro espécime do Homo neanderthalensis a ser encontrado.
[5] Também conhecido como “Berço da Civilização”, o “Fértil Crescente” é uma região em forma de quarto crescente que contém a terra comparativamente úmida e fértil das terras áridas e semiáridas da Ásia Ocidental, o vale do Nilo e o Delta do Nilo. O conceito originou-se no estudo da história antiga e logo desenvolveu-se, retendo hoje significados nas relações geopolíticas e diplomáticas internacionais. No uso corrente, todas as definições do Fértil Crescente incluem a Mesopotâmia, as áreas dos vales dos rios Tigre e Eufrates e o Levante, a costa oriental do Mar Mediterrâneo. Os países atuais, com território significativo no Fértil Crescente, são Iraque, Síria, Líbano, Chipre, Jordânia, Israel, Estado da Palestina, Egito, bem como a borda sudeste da Turquia e as bordas do Irã ocidental. A região viu o desenvolvimento de algumas das mais antigas civilizações que floresceram graças às fontes hídricas e recursos agrícolas existentes no Fértil Crescente. Avanços tecnológicos da região incluem o desenvolvimento da escrita, o vidro, a roda, a agricultura e a irrigação.
[6] A Transoxiana é uma denominação obsoleta para uma região da Ásia Central correspondente aos atuais Uzbequistão, Tadjiquistão e sudoeste do Cazaquistão. Geograficamente, localiza-se entre os rios Amu Dária e Sir Dária. No período Aquemênida, a região chamava-se Sogdiana.