Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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domingo, 15 de fevereiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 10)

IV.10 – BABILÔNIA


Considerando tudo o que já vimos até agora sobre a região da Mesopotâmia, é importante lembrar agora que a Babilônia foi, antes de tudo, a mais famosa cidade da antiga Mesopotâmia, fundada algum tempo antes do reinado de Sargão, o Grande (2334-2279 AC), fundador do império Acadiano, que lá reivindicava ter construído templos (talvez tenha mesmo sido o fundador da cidade). Nessa época, parece ter sido uma cidade sem importância a não ser por um porto importante no rio Eufrates, no ponto em que mais se aproxima do rio Tigre (Ver figura abaixo). Suas ruínas permanecem hoje no moderno Iraque, cerca de 94 km a sudoeste de Bagdá e seu nome parece significar, no Acadiano da época, “Portão dos Deuses”.
Cidade da Babilônia, rapidamente fortificada século XIX AC
Seu nome já é citado no Antigo Testamento da Bíblia, capítulo 11 do Livro da Gênesis, onde é relatado o episódio da “Torre de Babel”. Além disso, a cidade tornou-se conhecidíssima por suas impressionantes muralhas e edificações, sua reputação como um pedestal de aprendizado e cultura, a constituição de um código de leis, que antecede a Lei Mosaica, e pelos Jardins Suspensos da Babilônia, terraços de fauna e flora com um sofisticado sistema hidráulico de irrigação, construídos pelo homem, citados por Heródoto como uma das “Sete Maravilhas do Mundo”. Entretanto, qualquer que tenha sido o papel representado pela cidade no mundo antigo, ele se perdeu para os estudiosos dos dias atuais, porque o nível das águas da região cresceu de forma permanente ao longo dos séculos e as ruínas da Antiga Babilônia se tornaram inacessíveis. As que foram escavadas e são visíveis hoje, datam apenas de bem mais do que mil anos após a sua fundação, que alguns dizem ter sido estabelecida pelos amoritas após o colapso da Terceira Dinastia de Ur. Essas e outras informações pertencentes à Antiga Babilônia nos chegam através de artefatos levados da cidade após a invasão Persa ou criados em outros locais. Mas este não é o foco principal do nosso trabalho O foco do nosso trabalho é a apresentação do Estado da Babilônia e do Império Babilônico, suas origens, desenvolvimento e declínio.
A Babilônia de que queremos falar foi um antigo estado semita de língua Acadiana e uma região cultural localizada ao centro e sul da Mesopotâmia, que emergiu como estado independente em 1894 AC, tendo a cidade da Babilônia como a sua capital. Esteve frequentemente em rivalidade com o estado vizinho Acadiano da Assíria, ao norte da Mesopotâmia, tornando-se a maior potência da região após Hammurabi (1792-1750 AC, pela Cronologia Média, ou 1696-1654 AC, pela Cronologia Curta[1]) ter criado um império – de curta duração - a partir de vários dos territórios antes pertencentes ao Império Acadiano. O estado cresceu e o sul da Mesopotâmia veio a ser conhecido como Babilônia. Após a morte de Hammurabi o império dissolveu-se rapidamente e a Babilônia teve longos períodos sob a dominação assíria, kassita e elamita. Após ser destruída e então reconstruída pelos assírios, a Babilônia tornou-se novamente o assento do Império Novo Babilônio, de 608 a 539 AC, fundado pelos caldeus, do canto sudeste da Mesopotâmia, e cujo último rei foi um assírio, do norte da Mesopotâmia. Após sua queda, a Babilônia ficou sob os governos dos Impérios Aquemênida, Selêucida, Parta, Romano e Sassânida. Vamos ver com mais detalhes todos esses períodos, Mas é preciso que os leitores entendam, que não vamos repetir aqui, em detalhe, o que já foi dito quando tratamos dos prévios impérios dominantes na Mesopotâmia (Sumérios, Acadianos e Assírios), a menos que seja essencialmente necessário para o bom entendimento do assunto como um todo; de outra forma estaríamos sendo repetitivos e, como tal, cansativos. Apenas não podemos esquecer que estamos falando de impérios que existiram numa mesma região – Mesopotâmia – às vezes simultaneamente, às vezes em épocas diferentes, e muitas vezes rivalizando entre si.

IV.10.1 – PRIMEIRA DINASTIA BABILÔNICA (1894–1595 AC)

Logo após o colapso da dinastia suméria Ur-III, nas mãos dos elamitas em 2002 AC, os amoritas, um povo estrangeiro semita do noroeste, de língua canaanita, migraram para o sul da Mesopotâmia e gradualmente ganharam controle sobre a maior parte desse território, formando uma série de pequenos reinos, aos quais os estados Sumero-Acadianos do sul não puderam resistir; enquanto isso, os assírios ratificavam sua independência no norte. Finalmente, o sul da Mesopotâmia acabou caindo para os amoritas – Período Amorita – e suas cidades-estados mais importantes eram Isin e Larsa, ao sul, e Assíria, ao norte. Uma dessas dinastias amoritas, através do chefe Sumuabum, que nunca se preocupou em ser rei da Babilônia, fundou um pequeno reino que incluía uma cidade ainda menor, Babilônia, em 1894 AC, que acabaria dominando os demais e formando o curto Primeiro Império Babilônico, também chamado Antigo Período Babilônico. Sumuabum foi seguido por outros chefes que governaram do mesmo modo, até a chegada de Sin-muballit, primeiro amorita a ser visto, oficialmente, como rei da Babilônia, que permaneceu, por um século, uma pequena nação, ofuscada por reinos vizinhos mais velhos, maiores e mais poderosos, como Isin, Larsa, Assíria e Elam.
Hammurabi (1792-1750 AC)
Tradicionalmente, o principal centro religioso de toda a Mesopotâmia foi Nippur, até que Hammurabi (1792-1750 AC), sexto governante amorita, realizou importantes construções na Babilônia, transformando-a de cidade pequena em uma grande cidade digna de um reino e novo centro religioso.
Hammurabi foi um governante muito eficiente, estabelecendo uma burocracia com taxação e governo centralizado. Libertou a Babilônia do domínio elamita, expulsando-os totalmente do sul da Mesopotâmia e, gradualmente, expandindo o seu domínio com a conquista de cidades e estados como Isin, Larsa, Eshunna, Kish, Lagash, Nippur, Borsippa, Ur, Uruk, Umma Adab e Eridu. Suas conquistas deram estabilidade à região, após tempos turbulentos, e uniu a confusão de estados do sul e centro da Mesopotâmia em uma só nação e somente ao seu tempo o sul da Mesopotâmia foi conhecido historicamente como Babilônia (ver figura abaixo). Seus exércitos eram disciplinados e Hammurabi lançou-os em direção ao leste, invadindo o que em mil anos se tornaria depois a Pérsia, conquistando elamitas, gutianos e kassitas. Para o oeste conquistou os estados semitas do Levante, incluindo o poderoso reino de Mari.
Babilônia ao tempo de Hammurabi, maior potência da região.
Hammurabi então enfrentou uma prolongada guerra contra o Antigo Império Assírio, pelo controle da Mesopotâmia e do Oriente Próximo e após uma luta sem solução, que se arrastou por décadas, contra o rei assírio Ishme-Dagan, forçou o seu sucessor, Mut-Ashkur, a pagar tributo à Babilônia, em 1751 AC, com controle sobre Hattian e Hurrian, colônias centenárias da Assíria, na Ásia Menor.
Um dos mais importantes trabalhos desta “Primeira Dinastia da Babilônia”, como foi chamada pelos historiadores nativos, foi a compilação de um código de leis que repetiu e melhorou as leis escritas anteriores da Suméria, Acádia e Assíria, realizada por determinação de Hammurabi após a expulsão dos elamitas e o estabelecimento do seu reino, que ficou eterna e mundialmente conhecido como “Código de Hammurabi”. Em 1901, uma cópia de tal código foi descoberta em uma estela, em Susa, para onde havia sido levada mais tarde como despojo; esta cópia está agora no Louvre.
Estela Código de Leis
Com a transferência do centro religioso de Nippur para a Babilônia, seu deus supremo, Enlil, perdeu o lugar no Panteão do sul da Mesopotâmia, para Marduk, deus do sul da região, com Ashur permanecendo a deidade dominante na Assíria, ao norte da Mesopotâmia.
Os babilônios, como seus predecessores estados Sumero-Acadianos, se dedicaram ao comércio regular com as cidades estados amoritas e canaanitas ao oeste, com seus funcionários ou tropas passando, de vez em quando, para o Levante e para Canaã e os mercadores amoritas operando livremente por toda a Mesopotâmia. As conexões de oeste, da monarquia babilônica, permaneceram fortes por muito tempo.

IV.10.2 – DECLÍNIO DA BABILÔNIA

O sul da Mesopotâmia não possuía fronteiras naturais defensáveis, ficando assim vulnerável aos ataques estrangeiros. Com a morte de Hammurabi, seu império começou a desintegrar-se rapidamente e já com seu sucessor, Samsu-iluna (1749-1712 AC), o extremo sul da Mesopotâmia foi perdido para um rei nativo Acadiano chamado Ilum-ma-ili, que formou a “Dinastia das Terras do Mar”[2], permanecendo independente da Babilônia pelos 272 anos seguintes.
Os babilônios e seus governantes amoritas foram então expulsos da Assíria, ao norte, por um governante assírio-Acadiano de nome Puzur-Sin em 1740 AC. Após uma década de guerra civil na Assíria, o rei nativo Adasi tomou o poder em 1730 AC, apropriando-se de um território anteriormente babilônio na Mesopotâmia Central.
O governo amorita sobreviveu num império muito reduzido, com vãs tentativas de recuperação das terras que possuía ao tempo de Hammurabi, acabando por contentar-se com pacíficos projetos de construção na própria Babilônia. Samsu-Ditana foi o último governante amorita da Babilônia, inicialmente sofrendo pressão dos Kassitas das montanhas do noroeste do Irã e então tendo a própria Babilônia atacada pelo Império Hitita baseado na Ásia Menor, em 1595 AC, sendo sacado do poder pelo rei hitita Mursili I, após o “Saque da Babilônia”, no mesmo ano. Os hititas não permaneceram por muito tempo, mas a destruição por eles causada finalmente permitiu aos kassitas ganharem o controle.

IV.10.3 – DINASTIA KASSITA (1595-1155 AC)

A Dinastia Kassita foi fundada por Gandash, de Mari. Os governantes kassitas, como os amoritas que os precederam, não eram nativos da Mesopotâmia, mas originários das Montanhas Zagros. Os kassitas renomearam a Babilônia, “Kar-Duniash” e seu governo durou 576 anos, a mais longa dinastia da história da Babilônia. Contudo, a Babilônia continuou sendo a capital do reino e uma das cidades “santas” da Ásia ocidental, onde os sacerdotes da religião mesopotâmica eram todo-poderosos, e o único lugar onde o direito de herança do curto Antigo Império Babilônico poderia ser conferido. A Babilônia experimentou curtos períodos de poder, mas, em geral, provou ser relativamente fraca sob o longo domínio dos kassitas, tendo muitos períodos sob dominação e interferência dos assírios e elamitas.
Agum I tomou o trono para os kassitas em 1595 AC e governou um estado que se estendia do Irã ao médio Eufrates, mantendo relações pacíficas com a Assíria mas vencendo guerra contra o Império Hitita da Ásia Menor, reconquistando deles a sagrada estátua de Marduk, 24 anos em seu poder e igualando-o à deidade kassita Shugamuna.
Os governantes kassitas sucederam-se sem acontecimentos mais significativos, sempre reatando laços de amizade com a Assíria e o Egito e tentando tomar a “Dinastia das Terras do Mar”, sem sucesso, até que Agum II conquistou o extremo sul da Mesopotâmia para a Babilônia, destruindo a sua capital.
Novamente um período de paz relativa com os governos preservando a paz com os assírios, egípcios e hititas, mas sempre tentando agora a conquista do Elam, obtida com Kurigalzu III, que saqueou a capital Susa e lá colocou um governante fantoche no trono elamita. Tal política prosseguiu com seu sucessor Kadashman-Enlil (1374-1360 AC) e os demais até que o usurpador Nazi-Bugash depôs Kara-hardash, enraivecendo Ashur-uballit I, rei da Assíria que invadiu e saqueou a Babilônia, matou o usurpador, anexou o território babilônico ao Médio Império Assírio e instalou Kurigalzu II (1345-1324 AC) como seu governante vassalo.
Este rei e vários de seus sucessores, aliados com outros povos, tentaram, sem sucesso, restabelecer o poder da Babilônia, perdendo ainda mais territórios para a expansão assíria. Até que o reino de Kashtiliash IV encerrou catastroficamente quando o rei assírio Tukulti-Ninurta I invadiu, saqueou e queimou a Babilônia, estabelecendo-se como rei e tornando-se, ironicamente, o primeiro mesopotâmio nativo a governar o estado, como mencionado anteriormente.
A Babilônia não se recuperou até o final do reinado de Adad-shuma-usur (1216-1189 AC), já que ele permaneceu como vassalo da Assíria até 1193 AC e conseguiu evitar que o rei assírio Enlil-kudurri-usur retomasse a Babilônia, a não ser por uma pequena área da região norte.
Seguiu-se um breve período de paz e a guerra ressurgiu com Marduk-apla-iddina (1171-1159 AC), quando Ashur-Dan da Assíria conquistou regiões adicionais ao norte da Babilônia e o governante elamita Shutruk-Nahhunte conquistou a maior parte da Babilônia leste. Enlil-nadin-ahhe (1157-1155 AC) foi finalmente deposto e a dinastia Kassita terminou quando Ashur-Dan conquistou ainda mais do norte e centro da Babilônia e o rei elamita Shutruk-Nahhunte penetrou no coração da Babilônia, saqueando a cidade e assassinando o rei.
A despeito da perda de território, fraqueza militar e evidente redução na cultura, a Dinastia Kassita foi a mais longa da Babilônia, durando até 1157 AC, quando a Babilônia foi conquistada pelo elamita Shutruk-Nahhunte e reconquistada poucos anos após pelo nativo Acadiano-babilônio Nabucodonosor I.

IV.10.4 – SEGUNDA DINASTIA DE ISIN (1155-1026 AC)

Os elamitas não permaneceram no controle da Babilônia por longo tempo e Marduk-kabit-ahheshu (1155-1139 AC) estabeleceu a Segunda Dinastia de Isin, primeira dinastia de língua Acádiaiana ao sul da Mesopotâmia a governar a Babilônia, que deveria permanecer no poder por 125 anos. O novo rei depôs os elamitas e evitou qualquer possível retorno kassita. Mais tarde ele entrou em guerra contra a Assíria, com alguns sucessos iniciais, brevemente capturando a cidade de Ekallatum antes de ser derrotado pelo rei assírio Ashur-Dan I.
Alguns reis dessa dinastia se sucederam com dois objetivos: sempre repelir as novas tentativas dos elamitas e tentar tomar a Assíria, sem sucesso.
Nabucodonosor I
Nabucodonosor I (1124-1103 AC) foi o mais famoso governante desta dinastia. Lutou contra, derrotou e expulsou os elamitas, do território da Babilônia, invadiu o Elam saqueando sua capital Susa e recuperou a estátua sagrada de Marduk que havia sido retirada da Babilônia. Logo em seguida, o rei do Elam foi assassinado e seu reino desintegrado por guerras civis. Falhou em estender o território da Babilônia, sendo derrotado várias vezes por Ashur-resh-eshi, rei dos assírios, pelo controle dos territórios anteriormente controlados pelos hititas na Aramea. Nos últimos dias do seu reinado, devotou-se a pacíficos projetos de construção e a garantir as fronteiras da Babilônia.
Dois de seus filhos o sucederam e outros após eles, que não tiveram qualquer sucesso e apenas viram o território da Babilônia encolher cada vez mais por guerras sucessivas contra a Assíria e repetidas invasões por outros povos, até que grandes áreas da Babilônia foram apropriadas e ocupadas por arameus (grande parte do interior e leste e central Babilônia), caldeus (sudeste da Babilônia) e suteus (desertos do oeste).

IV.10.5 – PERÍODO DE CAOS (1026-911 AC)

A dinastia nativa, então governada por Nabu-shum-libur, foi deposta por saqueadores arameus em 1026 AC e o coração da Babilônia, incluindo a capital, caiu em estado anárquico e por 20 anos nenhum rei governou a Babilônia, criando-se no sul da Mesopotâmia, um estado separado da Babilônia governado por Simbar-shipak, líder de uma clã kassita. Tal estado de anarquia permitiu que o governante assírio, Ashur-nirari, invadisse e capturasse a cidade babilônia de Atlila e algumas regiões ao norte, em 1018 AC. Essa dinastia foi então substituída por outra dinastia kassita (Dinastia VI, 1003-984 AC) que parece ter recuperado o controle sobre a Babilônia. Os elamitas depuseram essa breve recuperação com o rei Mar-biti-apla-usur, fundando a Dinastia VII (984-977 AC). Contudo, também essa dinastia caiu e os arameus mais uma vez ganharam a Babilônia.
O governo nativo foi restaurado com Nabu-mukin-apli, em 977 AC, introduzindo a Dinastia VIII. A Dinastia IX começou em 941 AC com Ninurta-kudurri-usur II. A Babilônia permaneceu fraca durante esse período, com áreas inteiras agora sob firme controle caldeu, arameu e suteu com seus governantes muitas vezes se curvando à pressão da Assíria e Elam, que haviam se apropriado de território babilônio.

[1] A Cronologia Curta é uma das cronologias da Idade do Bronze e do início da Idade do Ferro para o Oriente Próximo, que fixa o reino de Hammurabi em 1728-1686 AC e o saque da Babilônia em 1531 AC. As datas absolutas do Segundo Milênio AC, resultantes dessa decisão, têm muito pouco apoio entre os estudiosos, particularmente após recente pesquisa. A Cronologia Média, que fixa o reino de Hammurabi entre 1792 e 1752 AC, é ainda muito encontrada na literatura e trabalhos mais recentes têm desaprovado a Cronologia Curta. Para a maior parte do período em questão, as datas da Cronologia Média podem ser obtidas adicionando-se 64 anos às datas correspondentes à Cronologia Curta. Após a “Idade das Trevas” da Antiguidade, entre a queda da Babilônia e a ascensão da dinastia Kassita na Babilônia, as datas absolutas tornam-se menos incertas. Da Terceira Dinastia Babilônica para frente, a dicotomia de 64 anos entre a média e a curta cronologia não se aplica mais.
[2] As fontes consultadas, em língua inglêsa, falam de “Sealand Dinasty”, e daí a nossa tradução, possivelmente pelo fato de que esse rei e seu povo habitaram, inicialmente, a província com esse nome, situada numa região pantanosa e desolada ao sul da Mesopotâmia, que rapidamente se expandiu em direção ao sul, com o assoreamento das fozes dos rios Tigre e Eufrates.

Na próxima postagem, última parte da Mesopotâmia: Parte 11

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 08)

IV.9 - IMPÉRIO ASSÍRIO

Assíria, em verde, cerca 1450
AC, com a capital Assur
A Assíria foi um importante reino semita da Mesopotâmia e por muito tempo um império do antigo Oriente Médio, que existiu como estado independente por um período de aproximadamente 19 séculos, de 2500 AC a 605 AC. A partir daí, por mais 13 séculos, até meados do século VII DC, sobreviveu governado por potências estrangeiras, embora alguns pequenos estados novo-assírios tenham surgido por todo este período. Centrado no curso superior do rio Tigre, norte da Mesopotâmia, os assírios governaram poderosos impérios, o último dos quais tornou-se o maior e mais poderoso império que o mundo já tinha visto. No seu pico, o império assírio se estendeu de Chipre, no Mediterrâneo, à Pérsia (atual Irã) e das montanhas do Cáucaso (atuais Armênia, Geórgia, Azerbaijão) à Península Árabe e Egito.
A Assíria pegou o nome da sua capital original, a antiga cidade de Assur (Ashur) que data de 2600 AC, originariamente uma das várias cidades estados Acadianas na Mesopotâmia, que pode ser vista em qualquer da duas figuras. Até o final do século XXIV AC, os reis assírios eram somente líderes regionais e subordinados a Sargão de Acádia, que uniu todos os povos da mesopotâmia que falavam Acadiano semita e sumério na Mesopotâmia, sob o Império Acadiano. Com a queda deste império e do curto renascimento sumério, a Assíria recuperou sua plena independência.
O Império Assírio, em verde no seu auge, incluindo o Egito


A história da Assíria é, grosseiramente, dividida em três períodos, conhecidos como Antigo Assírio, Médio Assírio e Novo Assírio, que correspondem, mais ou menos, à Média Idade do Bronze, Final Idade do Bronze e Início da Idade do Ferro, respectivamente. No Antigo Assírio, a Assíria estabeleceu colônias na Ásia Menor (ou Anatólia) e no Levante e, sob o rei Ilushuma, pugnou por seus direitos sobre o sul da Mesopotâmia. A partir do século XIX AC, a Assíria entrou em conflito com o recém-criado estado da Babilônia (nosso próximo estudo), que finalmente ofuscou os estados sumero-Acadianos mais velhos, como Ur, Isin, Larsa e Kish. No Médio Assírio, a Assíria passou por grandes oscilações. Teve um período de império com Shamshi-Adad e Ishme-Dagan nos séculos XVIII e XIX AC. Após, esteve sob o domínio da Babilônia e de Mitanni-Hurrian[1] por curtos períodos, nos séculos XVIII e XV AC, respectivamente. Um outro período de grande poder ocorreu com a ascensão do Império Assírio Médio (de 1365 a 1056 AC) que incluiu reinados de reis importantes; durante este período a Assíria destruiu o Mitanni e eclipsou os impérios Hitita e Egípcio no Oriente Médio. A partir de 911 AC, com as campanhas de Adad-nirari, tornou-se novamente uma grande potência pelos três séculos seguintes, derrotando a 25ª Dinastia do Egito e conquistando o Egito, Babilônia, Elam e Urartu/Armênia, Pérsia[2] e vários outros estados, como veremos em detalhe. Após a sua queda entre 612 e 605 AC, a Assíria permaneceu como província e entidade geopolítica sob vários impérios importantes, após o que foi finalmente dissolvida e os remanescentes da população assíria tornaram-se uma minoria em sua terra natal.

IV.9.1 - A ASSÍRIA PRÉ-HISTÓRICA

Em tempos pré-históricos, a região que tornou-se conhecida como Assíria (ou Subartu) foi o lar de uma cultura Neandertal[3], como descoberto na Caverna Shanidar. Os primeiros sítios do Neolítico, na Assíria, pertenciam à cultura Jarmo (sítio arqueológico no norte do Iraque, aos pés das Montanhas Zagros), cerca de 7100 AC, e Tell Hassuna (“tell” da província de Níneve, Iraque), o centro da cultura Hassuna, cerca de 6000 AC.
As cidades de Assur e Nínive, com outras, existiram desde, pelo menos, a metade do terceiro milênio AC, embora nesta época sendo centros administrativos do governo sumério e não estados independentes. De acordo com escritores cristão-judaicos, a cidade de Assur foi fundada por Ashur, filho de Shem, deificado pelas gerações posteriores como o deus padroeiro da cidade. A tradição assíria cita um antigo rei assírio Ushipa como tendo dedicado o primeiro templo ao deus Ashur, na cidade, no século XXI AC. É muito provável que a cidade tenha sido nomeada em honra do seu deus assírio padroeiro com o mesmo nome. Fontes diversas, baseadas em relatos posteriores, apresentam datas não muito divergentes para a fundação da Assíria, conduzindo a um valor médio em torno de 2174 AC.

IV.9.2 – A ANTIGA ASSÍRIA (2600 – 2335 AC)

Os estudiosos consideram que a cidade de Ashur, com outras cidades assírias, foram estabelecidas pelo ano 2600 AC, nessa época como centros administrativos sumérios. Da história mais antiga do reino da Assíria, pouco é positivamente conhecido. Na “Lista dos Reis Assírios”, o primeiro rei registrado foi Tudiya e suas atividades foram confirmadas por um tablete (questionável após as últimas descobertas) em que ele concluiu um tratado para a operação de uma colônia de comércio em território eblaita (de Ebla, um dos mais antigos reinos da Síria). Tudiya foi sucedido na lista por Adamu e então por treze governantes adicionais, sobre cujos nomes nada se conhece de concreto, a não ser o fato de que um tablete muito posterior, listando a linhagem ancestral de Hammurabi, o rei Amorita da Babilônia, teria incluído ao mesmos nomes embora em forma bastante corrompida. Os primeiros reis, como Tudiya, registrados como reis que viviam em tendas, podem ter sido governantes pastoris seminômades Acadianos independentes. Estes reis, em algum ponto tornaram-se totalmente urbanos e fundaram a cidade-estado de Ashur.
Durante o Império Acadiano (2334-2154 AC), os assírios, como todos os semitas Acadianos e sumérios, ficaram sujeitos à dinastia da cidade-estado de Acádia. A Assíria, ao norte da sede do império, tinha também sido conhecida como Subartu, pelos sumérios, e o nome Azuhinum, nos registros Acadianos, também parece referir-se à Assíria. Os governantes assírios eram subordinados a Sargão e a cidade de Ashur tornou-se um centro administrativo regional do Império.
Por essa época, a Assíria já comerciava fortemente na Ásia Menor, através dos seus karums (postos de comércio na Anatólia), conforme documentado em tabletes cuneiformes da época, assim difundindo o uso da escrita cuneiforme mesopotâmica pela Ásia Menor e o Levante.
Ao final do reino de Sargão, o Grande, os assírios tentaram uma rebelião mal sucedida e foram fortemente reprimidos. Conforme vimos, o Império Acadiano encerrou pelo declínio econômico seguido de ataques do povo bárbaro gutiano, em 2154 AC.
Entre 2154 e 2112 AC os governantes assírios ficaram de novo totalmente independentes, pois os gutianos apenas administraram o sul da Mesopotâmia.
A maior parte da Assíria tornou-se parte do Novo Império Sumério (ou 3ª Dinastia de Ur), fundado em 2112 AC, que se estendeu até a cidade de Ashur, mas parece não ter alcançado Níneve e a extremidade norte da Assíria. Os governantes de Ashur parecem ter permanecido sob dominação suméria até cerca de 2050 AC.

IV.9.3 – O ANTIGO REINO ASSÍRIO (2050-1392 AC)

As primeiras inscrições por reis assírios “urbanizados” apareceram no meio do século XXI AC, após terem sacudido a dominação suméria. A terra da Assíria, como um todo, consistia em um número de cidades-estados e pequenos reinos semitas Acadianos, alguns dos quais, inicialmente independentes da Assíria. A fundação do primeiro templo importante na cidade de Ashur é, tradicionalmente, atribuído ao rei Ushpia, que reinou cerca de 2050 AC, possivelmente um contemporâneo de Ishbi-Erra, de Isin e de Naplanum, de Larsa. Foi sucedido por reis de que pouco se conhece, a não ser de menções muito posteriores a Kikkiya, que conduziu fortificações nas muralhas da cidade e realizou trabalhos nos templos de Ashur.
Os principais rivais, vizinhos ou parceiros de comércio aos primeiros reis assírios durante os séculos XXII a XX AC, foram os hattianos e hurrianos, ao norte da Ásia Menor, os gutianos e Turukku, ao leste, nas montanhas Zagros, os elamitas, a sudeste (moderno centro sul do Irã), os amoritas ao oeste (atual Síria) e suas cidades-estados assemelhadas do sul da Mesopotâmia, como Isin, Kish, Ur e Larsa.
Como muitas cidades-estados da história da Mesopotâmia, Ashur foi, numa grande proporção, mais uma oligarquia do que uma monarquia. A autoridade era da Cidade e o sistema tinha três principais centros de poder: um conselho de anciãos, um soberano hereditário e um epônimo. O soberano presidia sobre o Conselho e concretizava suas decisões. Não era chamado pelo termo Acadiano comum para rei, reservado a Assur, deidade patrona da cidade, de quem o soberano era alto sacerdote. O governante era somente designado como o “procurador de Assur”, onde o termo para procurador é uma palavra emprestada do sumério ensi(k). O terceiro centro de poder era o epônimo que cedia seu nome ao ano, da mesma forma que os posteriores arcontes e cônsules da antiguidade clássica. Era anualmente sorteado e responsável pela administração econômica da cidade, o que incluía o poder para prender pessoas e confiscar propriedades.
Cerca de 2025 AC, Puzur-Ashur (talvez um contemporâneo de Shu-ilishu de Larsa e Samium de Isin) parece ter deposto Kikkiya e fundado uma nova dinastia que sobreviveria por 216 anos. Seus descendentes deixaram inscrições que o mencionavam em relação à construção de templos, tais como os de Ashur, Adad e Ishtar na Assíria. A duração do seu reino é desconhecida.
Outros reis sucederam-se nessa dinastia que foi encerrada com o rei Erishum II (1818-1809), que governou por somente nove anos e foi deposto por Shamshi-Adad I, o amorita usurpador que já havia sido derrotado numa tentativa anterior e que reivindicava a legitimidade ao trono como descendente do rei assírio Ushpia, de meados do século XXI AC.
Embora visto como amorita pela tradição assíria posterior, a descendência de Shamshi-Adad I, que reinou de 1809 a 1776 AC, foi sugerida pela Lista de Reis Assírios como sendo de Ushpia, rei nativo de língua Acadiana. Colocou seu filho Ishme-Dagan no trono da cidade assíria próxima, Ekallatum, e manteve as colônias assírias na Anatólia. Conquistou o reino de Mari (na Síria Moderna) no Eufrates, colocando no trono outro de seus filhos, Yasmah-Adad. Com isso, a Assíria de Shamshi-Adad I abarcava todo o norte da Mesopotâmia, incluindo territórios da Mesopotâmia central, Ásia Menor e norte da Síria, havendo menções de que ele teria conduzido ataques às costas canaanitas do Mediterrâneo, onde teria erigido marcos para comemorar suas vitórias. Residia na nova cidade capital de Shubat-Enlil, fundada no vale de Khabur, norte da Mesopotâmia.
Seu filho Ishme Dagan herdou o trono da Assíria, mas Yasmah-Adad foi derrubado de Mari por um novo rei de nome Zimrilim, que se aliou com o rei amorita Hammurabi, da Babilônia, que tornou este recém criado estado numa potência importante. Foi do reino de Hammurabi que o sul da Mesopotâmia tornou-se conhecido como Babilônia, potência crescente com que então passou a defrontar a Assíria. Ishme-Dagan respondeu através de uma aliança com os inimigos da Babilônia e a luta pelo poder se prolongou por décadas. Como seu pai, um grande guerreiro, repelia os ataques da Babilônia ao mesmo tempo em que movia campanhas vitoriosas contra vários inimigos importantes.
Após conquistas importantes, Hammurabi finalmente sujeitou à Babilônia, cerca de 1750 AC, Mut-Ashkur, filho de Ishme-Dagan. Com Hammurabi, os vários postos de comércio na Anatólia encerraram suas atividades porque os bens da Assíria eram então comerciados com a Babilônia. A monarquia assíria sobreviveu, contudo os três reis amoritas que sucederam a Ishme-Dagan, Mut-Ashkur (1750-1740 AC), Rimush (1739-1733) e Asinum (1732 AC), tornaram-se vassalos e dependentes da Babilônia, sob Hammurabi e, por curto tempo, também seu sucessor Samsu-iluna.
Este Império Babilônico de curta vida, rapidamente desfibrou-se com a morte de Hammurabi, perdendo o controle sobre a Assíria durante o seu sucessor Samsu-iluna (1750-1712 AC). Um período de guerra civil seguiu-se após a deposição do rei amorita da Assíria, Asinum, cerca de 1732 AC, por um poderoso vice regente nativo Acadiano de nome Puzur-Sin, que via Asinum como um estrangeiro e antigo lacaio da Babilônia. Foi uma época conturbado em que vários reis se sucederam por curto período, até que Adasi (1726-1701 AC) tomou o poder, encerrando a guerra civil e estabilizando a situação na Assíria, tirando da esfera de influência dos assírios, babilônios e amoritas. Adasi foi sucedido por Bel-bani (1700-1691 AC) que infligiu derrotas adicionais aos babilônios e amoritas, reforçando e estabilizando ainda mais o reino.
Sabe-se pouco dos vários reis que o sucederam, mas a Assíria parece ter tido uma nação relativamente forte e estável, sem ser perturbada por seus vizinhos de várias etnias por mais de 200 anos, mesmo quando a Babilônia foi saqueada pelos Hititas e caiu para os Kassitas[4] em 1595 AC, mantendo um tratado mutualmente benéfico com o estado vizinho.
Nem o recém fundado Império Mitanni, na Ásia Menor, perturbou os reis do Império Assírio que mantiveram uma época de progresso e calma até o ano 1450 AC, quando iniciou o seu declínio.
Ashur-nadin-ahhe I (1450-1431 AC) foi cortejado pelos egípcios, rivais dos Mitanni da Ásia Menor, que na tentativa de ganhar uma base de apoio no Oriente Médio, lhe enviaram, na pessoa de seu rei Amenhotep II, tributo de ouro para selar aliança contra o Império Hurri-Mitanni, governado por Saushtatar. É possível que essa aliança tenha provocado a invasão da Assíria e o saque da cidade de Ashur, após o que a Assíria tornou-se um esporádico estado vassalo, com Ashur-nadin-ahhe I sendo forçado a pagar tributo a Saushtatar. Foi deposto por seu próprio irmão, Enlil-nasir II (1430-1425 AC), provavelmente com a ajuda dos Mitanni, que continuou a pagar tributo , assim como seu sucessor Ashur-nirari II (1424-1418 AC). A monarquia assíria sobreviveu já que a influência Mitanni parece ter sido esporádica, nem sempre desejosa de interferir nas relações internas e internacionais assírias.
O mesmo aconteceu com os reis assírios que o sucederam, até a ascensão ao trono, de Eriba-Adad I (1392-1366 AC) que, finalmente quebrou os laços com o Império Mitanni. Há muitos textos cuneiformes deste período, com observações precisas de eclipses lunares e solares, que foram usadas como “âncoras” nas várias tentativas de definir a cronologia da Babilônia e Assíria para o segundo milênio AC.


[1] O Mitanni foi um estado de língua hurriana, ao norte da Síria e sudeste da Anatólia, que atingiu o seu clímax cerca de 1400 AC, fundado por uma casta governante Indo-Ariana, com população predominantemente hurriana.
[2] Os persas são um povo iraniano que teria chegado ao Irã entre 2000 e 1500 AC e se estabelecido em Pars, província na região sudoeste, de onde se originaram as palavras portuguesas Pérsia e persa.
[3] O Neandertal é uma espécie humana extinta, do gênero Homo, muito próxima dos modernos humanos (diferindo no DNA por apenas 0,12%) e assim nomeada de Neandertal (Vale do Neander), local da Alemanha onde foi descoberta pela primeira vez.
[4] Os Kassitas, povo antigo do Oriente Médio, controlaram a Babilônia, após o saque da cidade pelos Hititas e a queda do Antigo Império Babilônico, em 1595 AC, até 1155 AC. Seu reinado de 500 anos criou uma base fundamental para o desenvolvimento da subsequente cultura babilônica.

Prossegue na PARTE 09, com o Médio Império Assírio

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 05)





IV.7 – SUMÉRIA

Suméria, significando “terra dos reis civilizados” ou “terra nativa”, foi, provavelmente, a mais antiga civilização e uma região histórica do sul da Mesopotâmia, durante a Idade do Cobre e início da Idade do Bronze, propriamente dita. O termo “sumeriano” é o nome dado aos antigos habitantes não semitas da Mesopotâmia, pelos semitas akkadianos. Os sumérios se referiam a si próprios como “pessoas de cabeça negra”. A palavra akkadiana “shumer” pode representar o nome geográfico em dialeto, mas o desenvolvimento fonológico que conduziu ao termo akkadiano “sumeru”, é incerto. Os termos hebreu “shinar”, egípcio “sngr” e hitita “sanhar”, todos se referindo ao sul da Mesopotâmia, poderiam ser variantes de “shumer”.
A área que formou a Suméria iniciava no Golfo Pérsico e alcançava o gargalo ao norte da Mesopotâmia, onde os rios Tigre e Eufrates meandram o mais próximo possível um do outro. Ao leste, assomam as montanhas Zagros, onde cidades-estados espalhadas prosperavam com o comércio e o aprendizado da Suméria; ao oeste estava a vasta extensão do deserto árabe. (Figura 1)
Figura 1: Localização da Suméria
Os rios mudaram seus cursos consideravelmente nos últimos 4.000 anos, afastando-se bastante de algumas das cidades e causando o esgotamento da complexa rede de canais, mas à época, os dois rios tinham desembocaduras separadas no Golfo reduzido (Figura 2). Algumas das cidades mais antigas, tais como Sippar, Borsippa e Kish, no norte, e Ur, Uruk e Eridu, no sul, formavam os pontos finais daquilo que se tornou a tão complexa malha de cidades e canais. Girsu e Nippur eram centros religiosos altamente importantes, mas outras cidades como Larsa, Eshnunna, Babilônia e Isin, realmente não surgiram como tal, até o final da civilização, cerca de 2000 AC. 
Embora as mais antigas formas de escrita não retroajam além de 3500 AC, historiadores modernos têm sugerido que a Suméria se estabeleceu permanentemente, entre 5500 e 4000 AC, através de um povo não semítico, que pode ou não ter falado a língua suméria, dadas as evidências de nomes de cidades, rios, ocupações básicas etc...
Figura 2: Foz dos rios Tigre e Eufrates no Golfo Pérsico
Esses povos pré-históricos são hoje chamados proto-eufrateanos ou ubaidianos (de Ubaid, site arqueológico de antigo povoamento), que se pensa terem evoluído da cultura Samarra, mais ao norte da Mesopotâmia. Os ubaidianos foram a primeira força civilizadora na Suméria, drenando pântanos para agricultura, desenvolvendo o comércio e estabelecendo indústrias de tecelagem, couro, metais, alvenaria e cerâmica. Alguns estudiosos contestam a ideia de uma língua proto-eufrateana ou básica; eles sugerem que a língua sumeriana foi originalmente a dos povos caçadores e pescadores que viviam nos pântanos e na região litoral da Arábia Oriental, parte da cultura árabe central. Registros históricos confiáveis começam muito mais tarde; não há registros antes do rei de Kish, Enmebaragesi (século XXVI AC). Estudiosos acreditam que os sumerianos se estabeleceram ao longo da Arábia oriental, hoje região do Golfo Pérsico, antes de ser inundado ao final da Idade do Gelo; a literatura sumeriana fala sobre a sua terra natal ser Dilmun, na costa oriental da Arábia.
A agricultura irrigada, junto com o reabastecimento da fertilidade do solo e o excesso de alimento armazenado em celeiros templos criados por essa economia, permitiu à população dessa região ascender a níveis nunca antes vistos, muito diferentes dos encontrados em culturas anteriores de plantio e descanso da terra. Por outro lado, essa densidade de população muito maior criou e exigiu uma força de trabalho e uma divisão de trabalho extensiva, com muitas artes e ofícios especializados. Ao mesmo tempo, o uso excessivo dos solos irrigados conduziu à sua progressiva salinização e redução na sua população, com o tempo, conduzindo à sua eclipse pelos akkadianos da Mesopotâmia Central.
A Suméria foi também o local do desenvolvimento da escrita, que evoluiu de um estágio de pré-escrita, pelo meio do quarto milênio AC, à própria escrita no terceiro milênio AC.

IV.7.1 – HISTÓRIA DA SUMÉRIA

A civilização e as cidades-estados da Suméria tomaram forma durante os períodos pré-históricos Ubaid e Uruk, quarto milênio AC, continuando durante os períodos Jemdat Nasr e Antigo Dinástico. A historia escrita da Suméria retroage ao século XXVII AC e ainda antes, mas o registro histórico permanece obscuro até o período Antigo Dinástico III, cerca do século XXIII AC, quando um novo sistema de escrita silábica decifrada foi desenvolvido, permitindo aos arqueólogos ler registros e inscrições contemporâneos. A Suméria clássica termina com a ascensão do Império Akkadiano, cerca de 2270 AC no século XXIII AC, embora a língua sumeriana continuasse a ser uma língua sagrada. Após o período Gutiano (povos bárbaros das montanhas Zagros), o governo nativo sumeriano reemergiu por um século, na Terceira Dinastia de Ur (Renascença Sumeriana), do século XXI ao XX AC, mas a linguagem akkadiana também permaneceu em uso. Essa breve renascença encerrou com as invasões semitas dos Amoritas[1], cuja dinastia de Isin persistiu até cerca de 1.700 AC, quando a Mesopotâmia foi unida sob o governo da Babilônia. Os sumérios acabaram sendo absorvidos pela população akkadiana (assíria-babilônia). Todas essas datas estão mencionadas na cronologia da Mesopotâmia, apresentada bem acima.
Para facilitar a compreensão dos nossos leitores, apresentamos abaixo uma sucinta cronologia do império sumério, antes de descrever, separadamente, cada um dos períodos:

· Período Ubaid: 5300–4100 AC (Cerâmica do Neolítico ao Calcolítico)
· Período Uruk: 4100–2900 AC (Final do Calcolítico ao Início da Idade do Bronze I)
          · Uruk XIV-V: 4100–3300 BCE
          · Período Uruk IV: 3300–3000 BCE
          · Período Jemdet Nasr (Uruk III): 3000–2900 AC
· Início do Período Dinástico (Início da Idade do Bronze II-IV)
          · Período do início do Dinástico I: 2900–2800 AC
          · Período do início do Dinástico II: 2800–2600 AC (Gilgamesh)
          · Período do início do Dinástico IIIa: 2600–2500 AC
          · Período do início do Dinástico IIIb: 2500–2334 AC
· Período do Império Akkadiano: 2334–2218 AC (Sargão)
· Período Gutiano: 2218–2112 AC (Início da Idade do Bronze IV)
· Período Ur III: 2112–2004 AC

1) Período Ubaid

O período Ubaid é marcado por um distintivo estilo de cerâmica pintada de alta qualidade, que se espalhou por toda a Mesopotâmia e o Golfo Pérsico. Durante esse tempo, o primeiro povoamento no sul da Mesopotâmia foi estabelecido em Eridu, costa do Golfo Pérsico, a primeira cidade do mundo, cerca de 5300 AC, por agricultores que trouxeram consigo a cultura Hadji Muhammed, pioneira da agricultura irrigada. Parece que essa cultura foi derivada da cultura Samarran, do norte da Mesopotâmia. Não se sabe se estes foram os sumérios reais identificados com a cultura Uruk posterior. Eridu permaneceu um importante centro religioso, quando foi gradualmente ultrapassado, em tamanho, pela vizinha cidade de Uruk. A história da passagem do “me”[2] à Inanna, deusa de Uruk, por Enki, deus da sabedoria e deus maior de Eridu, pode refletir essa alteração na hegemonia. Essa cultura antiga foi um amálgama de três distintas influências culturais: agricultores incultos vivendo em casas de junco com barro ou tijolos de argila e praticando a agricultura irrigada; pescadores e caçadores vivendo em casas de junco trançado em ilhas flutuantes de pântanos; e pastores nômades de ovelhas e cabras, vivendo em tendas negras.

2) Período Uruk

A transição arqueológica entre os períodos Ubaid e Uruk é marcada por uma gradual alteração da cerâmica pintada produzida domesticamente em uma roda lenta, para uma grande variedade de massa cerâmica sem pintura produzida por especialistas em rodas rápidas.
Ao tempo do período Uruk (4100-2900 AC) o volume de bens comerciais transportados ao longo dos canais e rios do sul da Mesopotâmia, facilitou o surgimento de cidades enormes, estratificadas e centradas em templos (com populações acima de 10.000 pessoas), onde administrações centralizadas empregavam trabalhadores especializados. É quase certo que foi durante o período Uruk que as cidades da Suméria começaram a fazer uso do trabalho escravo capturado das montanhas e há ampla evidência desses escravos em textos anteriores. Artefatos e mesmo colônias da civilização Uruk foram encontrados em uma ampla que vai das Montanhas Taurus, na Turquia, ao Mar Mediterrâneo no oeste e até o Irã Central.
A civilização do período Uruk, exportada pelos comerciantes e colonizadores sumérios, teve efeito sobre todos os povos da redondeza, que gradualmente derivaram as suas próprias economias e culturas competitivas. As cidades da Suméria não podiam manter colônias a longa distância por força militar.
As cidades sumérias do período Uruk eram, provavelmente, teocráticas e muito possivelmente chefiadas por um rei-sacerdote (ensi) assistido por um conselho de anciãos, incluindo homens e mulheres. É muito possível que o panteão do final do sumério fosse modelado sobre essa estrutura política. Havia pequena evidência de violência institucionalizada ou soldados profissionais durante este período e as cidades não eram, em geral, muradas. Durante este período, Uruk tornou-se a mais urbanizada cidade do mundo, ultrapassando, pela primeira vez, os 50.000 habitantes.
A antiga lista dos reis sumérios inclui as primeiras dinastias de várias cidades proeminentes deste período. O primeiro conjunto de nomes na lista é de reis ditos terem reinado antes que uma enchente importante ocorresse. Esses nomes primitivos podem ser ficção e incluem algumas figuras legendárias e mitológicas, tais como Alulim e Dumizid.
O fim do período Uruk coincidiu com a Oscilação Piora (um abrupto período seco e frio na história do clima, de 3200 a 2900 AC) que marcou o fim de um longo período climático mais úmido e quente, 9.000 a 5.000 anos atrás, chamado Holoceno climático ótimo.

3) Antigo Período Dinástico

O período Dinástico inicia cerca de 2900 AC e inclui figuras lendárias como Enmerkar e Gilgamesh, que supõe-se tenham reinado imediatamente antes do início do registro histórico cerca de 2.700 AC, quando a escrita silábica decifrada iniciava o seu desenvolvimento a partir dos antigos pictogramas. O centro de cultura sumeriano permaneceu ao sul da Mesopotâmia ainda que governantes logo tenham começado a se expandir para áreas vizinhas e grupos semitas vizinhos tenham adotado muito da sua cultura por vontade própria.
O mais antigo rei dinástico da lista de reis sumerianos, cujo nome é conhecido de qualquer outra fonte lendária é Etana, 13º rei da primeira Dinastia de Kish (século XXVI AC), cujo nome também é mencionado no “Épico de Gilgamesh” – o que conduz à sugestão de que o próprio Gilgamesh tenha sido um histórico rei de Uruk, que teria vivido entre 2800 e 2500 AC, sendo o seu principal personagem. Como o “Épico de Gilgamesh” mostra, este período foi associado a uma violência crescente. Cidades foram muradas e a violência cresceu de forma que cidades desprotegidas no sul da Mesopotâmia despareceram. A construção das muralhas de Uruk, por exemplo, é creditada a Gilgamesh.
A dinastia de Lagash (2500 a 2270 AC), embora omitida da lista dos reis, é bem atestada por vários documentos importantes e muitos achados arqueológicos. Ainda que com pouca duração, um dos primeiros impérios conhecidos da história, foi o de Eannatum de Lagash, que anexou praticamente toda a Suméria, incluindo Kish, Uruk, Ur e Larsa, além de reduzir a tributo, a cidade-estado de Umma, sua arquirrival. Além disso, esse reino estendeu-se a partes de Elam e ao longo do Golfo Pérsico. Parece ter usado o terror como assunto de política – sua Estela dos Abutres mostra o violento tratamento dado aos inimigos. Mais tarde, Lugal-Zage-Si, o sacerdote-rei de Umma, sobrepujou a primazia da dinastia Lagash na área, conquistando Uruk que transformou em sua capital e realizando um império que se estendia do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo. Ele foi o último rei sumeriano étnico antes da chegada do rei semita Sargão de Akkad.

4) Império Akkadiano (2334 – 2147 AC)

A linguagem semita akkadiana é atestada, inicialmente, pelos nomes próprios dos reis de Kish (cerca de 2800 AC), preservados nas listas dos reis posteriores. Há textos escritos inteiramente em akkadiano antigo, datando de 2500 AC. O uso do akkadiano antigo teve o seu pico durante o governo de Sargão, o Grande (2334–2279 AC), mas, desde então, a maioria dos tabletes administrativos continuou a ser escrita em sumério, a linguagem usada pelos escribas. Gelb e Westenholz diferenciam três estágios do antigo akkadiano: o da era pré-Sargônica, o do Império Akkadiano e o da Renascença Nova Sumeriana que o seguiu. O akkadiano e o sumeriano coexistiram como línguas vernáculas por mil anos, mas em torno de 1800 AC, o sumeriano tornava-se uma língua literária familiar principalmente para estudiosos e escribas. Thorkild Jacobsen ponderou ter havido uma pequena interrupção na continuidade histórica entre os períodos pré e pós Sargão e que muita ênfase foi colocada na percepção de um conflito “semita contra sumério”. Contudo, é certo que o akkadiano foi brevemente imposto em partes vizinhas do Elam, previamente conquistadas por Sargão.

5) Período Gutiano (2147–2114 AC) – 2ª Dinastia Lagash (2157–2110 AC)

Após a queda do Império Akkadiano para os gutianos, outro governador nativo da Suméria, Gudea de Lagash, ascendeu à superioridade local e prosseguiu nas práticas de pretensão divina dos reis sargônidas. Como na dinastia Lagash anterior, Gudea e seus descendentes também promoveram o desenvolvimento artístico, legando um grande número de artefatos arqueológicos.

6) Renascimento Sumeriano (2111–2004 AC)

A 3ª Dinastia de Ur, sob Ur-Nammu e Shlgi, cujo poder estendeu-se até o norte da Mesopotâmia, foi a última grande “Renascença Sumeriana”, embora a região já se estivesse tornando mais semita do que suméria, com a ascensão ao poder dos semitas falando akkadiano e o influxo de ondas dos semitas Martu (Amoritas) que encontraram vários poderes locais competindo, incluindo Isin, Larsa e Babilônia. A última acabou por dominar o sul da Mesopotâmia como o Império Babilônico, da mesma forma como o Império Assírio fez no norte. A língua sumeriana continuou como língua sacerdotal ensinada nas escolas na Babilônia e Assíria.

7) Declínio

Esse período coincide com um importante deslocamento da população do sul para o norte da Mesopotâmia. Ecologicamente, a produtividade agrícola das terras sumérias se comprometia como resultado do aumento da salinidade, há tempos reconhecida como um importante problema. Solos irrigados pobremente drenados, em clima árido com altos índices de evaporação, conduz ao armazenamento de sais dissolvidos no solo, acabando por reduzir severamente a produção agrícola. Durante as fases Akkadiana e Ur III, houve uma mudança do cultivo do trigo para a cevada, mais tolerante ao sal, mas foi insuficiente para evitar o declínio de 3/5 da população, de 2100 a 1700 AC. Tal fato enfraqueceu o balanço de poder dentro da região, diminuindo as áreas em que se falava o sumério e reforçando as áreas onde o akkadiano era preponderante. Doravante, o sumério permaneceria somente uma língua literária e litúrgica.
Após uma invasão e saque elamita, durante o domínio de Ibbi-Sin (cerca de 1940 AC), a Suméria caiu sob o domínio Amorita (considerado como a introdução à Média Idade do Bronze). Os estados independentes amoritas dos séculos XX a XVIII são sumarizados como “Dinastia de Isin” na lista dos reis da Suméria, terminando com a ascensão da Babilônia sob Hammurabi, cerca de 1750 AC. 

[1] Os amoritas foram um antigo povo de língua semita da antiga Síria, que também ocupou uma grande parte do sul da Mesopotâmia, do século XXI ao final do século XVII AC, onde estabeleceu várias cidades-estados proeminentes, notadamente Babilônia, promovida de uma pequena cidade administrativa a um estado independente e cidade principal. O termo amurru, em textos sumérios e akkadianos, refere-se a eles e à sua principal deidade.
[2] Na mitologia suméria, um “me” é um dos decretos dos fundamentos dos deuses, para aquelas intituições sociais, práticas religiosas, tecnologias, procedimentos, costumes e condições humanas que fazem a civilização possível, tal como os sumérios entendiam. Eles são fundamentais ao entendimento sumério das relações entre a humanidade e os deuses.

Continua na Parte 6

domingo, 23 de novembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 03)

IV – MESOPOTÂMIA

A palavra Mesopotâmia, etimologicamente, origina-se do grego, com o significado de “(terra) entre rios”. Geograficamente é o nome da área do sistema fluvial dos rios Tigre e Eufrates, correspondente ao atual Iraque, a região nordeste da Síria, uma parte menor ao sudeste da Turquia e partes menores do sudoeste do Irã e do Kuwait. As duas figuras que seguem (Figuras 1 e 2) mostram a localização da Mesopotâmia; na primeira, a região da Mesopotâmia é mostrada em verde escuro, iniciando um pouco ao sul da Turquia e terminando no Golfo Pérsico; na segunda, de forma mais esquemática, em amarelo (dentro do rosa), pode-se ver a sua localização em relação aos países atuais da região.
Figura 1
Mesopotâmia é o nome de uma área - e não de um país -, que possuiu, durante diversas épocas, fantásticas cidades e mesmo regiões que, a seu tempo, foram sedes de importantes impérios ou ricas culturas que floresceram no Iraque antigo, tais como: Suméria, Akkadiana, Assíria, Babilônia e muitas outras cuja influência estendeu-se a países vizinhos, a partir de 5.000 AC. Ela tem sido chamada de “o berço da civilização” porque a agricultura (irrigada ou não), criação e domesticação de animais se desenvolveram lá, muito antes do que em qualquer outro lugar.
Figura 2
A região da Mesopotâmia costuma ser dividida em duas partes: a Mesopotâmia Superior ou Norte, também conhecida como Al-Jezirah (a ilha), é a área entre o Eufrates e o Tigre, desde suas nascentes até Bagdá; a Mesopotâmia Inferior ou Sul consiste do sul do Iraque, Kuwait e partes do Irã Ocidental. Até as conquistas muçulmanas, a área era designada por Mesopotâmia; após aquela data, palavras como Síria, Jezirah e Iraque passaram a ser utilizadas para designar a área.
Há pelo menos duas formas de estudar a civilização mesopotâmica: (1) apreciá-la no conjunto de toda a região; e (2) analisar individualmente os vários impérios que a dominaram ao longo da antiguidade e que, mesmo dominantes no todo, sempre tiveram ascensões e quedas. Nós vamos tentar um misto das duas coisas; faremos, inicialmente, uma exposição sobre os aspectos gerais da Mesopotâmia, não influenciados pelo governo da época, sempre que isso for possível; posteriormente, faremos uma breve descrição dos maiores impérios que dominaram a região, no que se refere às suas mais importantes especificidades, considerando que os aspectos gerais da região já terão sido descritos.

IV.1 - GEOGRAFIA

A Mesopotâmia abarca a área entre os rios Tigre e Eufrates, ambos com as nascentes nas montanhas da Armênia, na Turquia moderna, alimentados por numerosos tributários e drenando uma vasta região montanhosa. As rotas terrestres na Mesopotâmia usualmente seguem o Eufrates, já que as margens do Tigre são frequentemente íngremes e difíceis. O clima da região é semiárido, com uma vasta extensão desértica ao norte que cede lugar a uma região de pântanos, lagoas, alagadiços e margens de juncos, com 15.000 km2, ao sul. No extremo sul, o Tigre e o Eufrates se unem para despejar suas águas no Golfo Pérsico. Trata-se de um ambiente árido, com terras ao norte onde a agricultura é mantida apenas com água da chuva, até a área ao sul onde apenas a agricultura irrigada subsiste, a partir do lençol freático alto e das águas nivais dos altos picos das Montanhas Zagros (noroeste do atual Irã) e da Cordilheira Armênia. A utilidade da irrigação depende da habilidade em mobilizar mão de obra suficiente para a construção e manutenção de canais, o que, nos tempos primitivos, foi fator fundamental para os assentamentos urbanos e sistemas centralizados de autoridade política.
Por toda a região, a agricultura foi complementada pelo pastoreio nômade que criava ovelhas e cabras (e mais tarde camelos) com as pastagens marginais, nos meses secos de verão e nas terras de pastagens das orlas desérticas dos invernos úmidos. A área sempre foi muito carente em pedras de construção, madeira e metais preciosos e, historicamente, foi obrigada a fiar-se a um comércio de produtos agrícolas de longa distância para garantir tais itens de áreas externas. Nas áreas pantanosas do sul, uma complexa cultura de pesca sempre existiu desde tempos pré-históricos, adicionada ao caldo cultural.
Interrupções periódicas no sistema cultural ocorreram por várias razões. A demanda por trabalho, de tempos em tempos, conduziam a aumentos de população que beiravam os limites da capacidade ecológica; se um período de instabilidade climática seguisse, sobreviria o colapso do governo central e a ocorrência do declínio da população. Por outro lado, a vulnerabilidade a invasões militares por tribos das colinas marginais ou pastores nômades, conduziu a períodos de colapso no comércio e ao abandono dos sistemas de irrigação. Da mesma forma, as tendências centrípetas entre as cidades estados sempre significou que a autoridade central sobre toda a região, quando imposta, tendia a ser efêmera e o localismo fragmentava o poder em unidades regionais tribais ou ainda menores, tendências que persistem até hoje no Iraque.

IV.2 - HISTÓRIA

A pré-história do Antigo Oriente Próximo[1]  inicia no período do Baixo Paleolítico, mas a escrita iniciou com a pictografia no período Uruk IV (quarto milênio AC) e o registro documentado de eventos históricos reais – e a história antiga da Mesopotâmia inferior – começou no meio do terceiro milênio AC, com registros cuneiformes dos primeiros reis dinásticos, terminando ou com a chegada do Império Aquemênida[2]  no final do século VI AC, ou com a conquista árabe islâmica da Mesopotâmia e o estabelecimento do Califado ao final do século VII DC, a partir da qual a região passou a ser conhecida como Iraque. Durante este período a Mesopotâmia abrigou alguns dos mais altamente desenvolvidos e socialmente complexos estados do mundo. A região foi uma das quatro civilizações ribeirinhas onde a escrita foi inventada, junto com o vale do Nilo, no Egito, o Vale do Indo, no subcontinente indiano, e o vale do rio Amarelo, na China. A Mesopotâmia abrigou cidades historicamente importantes (Figura 3), tais como Uruk, Nippur, Níneve, Assur e Babilônia, bem como grandes estados territoriais, como a cidade de Eridu, o reino Akkadiano, a Terceira Dinastia de Ur e os vários impérios assírios.
Figura 3
Alguns dos importantes líderes da Mesopotâmia foram Ur-Nammu (rei de Ur), Sargão (que estabeleceu o império Akkadiano), Hammurabi (que estabeleceu o estado da Velha Babilônia), Ashur-Uballit II e Tiglath-Pileser I (que estabeleceram os impérios Assírios).



CRONOLOGIA (essa cronologia ficará bem clara quando chegarmos aos impérios da Mesopotâmia)

Pré e proto-história[3]
•             Neolítico A Pré-Cerâmico (10.000–8.700 AC)
•             Neolítico B Pré-Cerâmico (8.700–6.800 AC)
•            Culturas Hassuna (~6.000 AC–? AC), Samarra (~5.700 AC–4.900 AC) e Halaf (~6.000 AC–5.300 AC)
•            Período Ubaid (~5.900–4.400 AC)
     Período Uruk (~4.400–3.100 AC)
     Período Jemdet Nasr (~3.100–2.900 AC)
Início da Idade do Bronze
     Início do período Dinástico[4] (~2.900–2.350 AC)
     Império Akkadiano (~2.350–2.100 AC)
     Período Ur III (.2112–2.004 AC)
     Início do Reino Assírio (Séculos XXIV a XVIII AC)
Idade do Bronze Médio
     Babilônia Inicial (Séculos XIX a XVIII AC)
    Colapso da Primeira Dinastia Babilônica (Séculos XVIII a XVII AC): erupção Minóica[5].
    Erupção Minóica(cerca de 1.620 AC)
Final da Idade do Bronze
    Período Médio Assírio (Séculos XVI a XI AC)
    Império Assírio (cerca de 1.365 AC a 1.076 AC)
    Colapso da Dinastia Kassita na Babilônia (cerca de 1.595 AC a 1.155 AC)
    Colapso da Idade do Bronze (Séculos XII a XI AC)
Idade do Ferro 
    Estados regionais Novo-Hitita ou Siro-Hitita (Séculos XI a VII AC)
    Império Novo-Assírio (Séculos X a VII AC)
    Império Novo-Babilônio (Séculos VII a VI AC)
•      Antiguidade Clássica
    Babilônia Persa, Assíria Aquemênida (Séculos VI a IV AC)
    Mesopotâmia Selêucida (Séculos IV a III AC)
    Babilônia Antiga Pérsia (Séculos III A.C a III DC)
    Osroene (Séculos II AC a III DC)
    Adiabene (Séculos I a II DC)
    Hatra (Séculos I a II DC)
    Mesopotâmia Romana, Assíria Romana (Século II DC)
Final da Antiguidade
    Mesopotâmia Persa, Assíria Persa (Séculos III a VII DC)
    Conquista Árabe Muçulmana da Mesopotâmia (a partir do meio do Século VII DC)

IV.3 - LINGUA E ESCRITA

A primeira língua escrita na Mesopotâmia, foi sumeriana, embora dialetos semíticos[6]  também fossem falados originalmente. Subartuan, a linguagem dos Zagros, talvez relacionada à família de linguagem hurro-urartuana, aparece em nomes de pessoas, rios e montanhas e em vários ofícios. O akkadiano tornou-se a língua dominante durante os Impérios Akkadiano e Assírio, mas o sumeriano foi preservado para finalidades administrativas, religiosas, literárias e científicas. O aramaico, que já havia sido comum na Mesopotâmia, tornou-se então a língua da administração provincial do primeiro Império Novo Assírio e então do Império Aquemênida Persa. O akkadiano caiu em desuso, mas ele e o sumeriano ainda foram usados em templos durante alguns séculos. Os últimos textos akkadianos datam do final do século I DC.
No início da história da Mesopotâmia (pelo milênio IV AC), a escrita cuneiforme foi inventada para a língua suméria. Literalmente, “cuneiforme” significa em forma de cunha, devido à ponta triangular do buril usado para imprimir sinais na argila úmida. A forma padronizada de cada sinal cuneiforme parece ter sido desenvolvida de pictogramas. Os primeiros textos (sete placas arcaicas) vêm do templo E (palavra ou símbolo sumério para casa ou templo), dedicado à deusa Inanna (deusa do amor, fertilidade e da guerra), em Uruk (cidade da Mesopotâmia), de um prédio designado por Templo C por seus descobridores.
O primeiro sistema logográfico[7]  de escrita cuneiforme levou vários anos para dominar. Assim, somente um número limitado de indivíduos foi contratado como escribas para serem treinados no seu uso. Apenas após a disseminação da escrita silábica ter sido adotada, sob o governo de Sargão, porções significativas da população da Mesopotâmia se tornaram literatas. Arquivos maciços de textos foram recuperados dos contextos arqueológicos das escolas escribas da antiga Babilônia, pelas quais a arte da escrita foi disseminada.
Bibliotecas e templos do império babilônico proliferavam nas cidades; mulheres, como os homens, aprendiam a ler e escrever e para os babilônios semitas, isso envolvia o conhecimento da extinta linguagem suméria, além de um complicado e extensivo silabário. Um velho provérbio sumério afirmava que “aquele que quiser sobressair na escola dos escribas, deve levantar com a madrugada”.
Uma quantidade considerável de literatura babilônica foi traduzida de originais sumérios e a língua da religião e da lei, por muito tempo continuou a ser a velha linguagem da Suméria. Vocabulários, gramáticas e traduções foram compilados para o uso dos estudantes, bem como comentários sobre os textos antigos e explicações de palavras e frases obscuras. Os caracteres do silabário foram arranjados e nomeados e listas foram redigidas.
Muitos trabalhos literários babilônicos ainda são estudados hoje. Um dos mais famosos deles é o “Épico de Gilgamesh”, em doze volumes, traduzido do original sumério por Sin-liqe-unninni. Cada divisão contém a história de uma única aventura na carreira de Gilgamesh (de quem ainda falaremos). A história completa é um produto composto, embora provável que algumas das histórias sejam artificialmente conectadas à figura central.

IV.4 - RELIGIÃO E FILOSOFIA

A religião da Mesopotâmia foi a primeira a ser registrada. Os mesopotâmios acreditavam que a Terra era um disco plano, circundado por um imenso espaço vazio, com o céu acima. Acreditavam também que a água encontrava-se em todos os lugares e que o universo havia nascido desse enorme mar. Sua religião era politeísta e embora a crença geral, havia variações regionais. A palavra suméria para universo é an-ki, que se refere ao deus Na e à deusa Ki. Seu filho era Enlil, o deus do ar que acreditavam ser o deus mais poderoso, chefe do Panteon, equivalente aos posteriores Zeus grego e Júpiter romano. Os sumérios colocaram questões filosóficas, como: “Quem somos?”, “Como chegamos aqui?”. E deram respostas a essas questões como explicações fornecidas por seus deuses.
As origens da filosofia podem ser rastreadas à sabedoria da Mesopotâmia primitiva, que incorporava certas filosofias de vida, particularmente ética, nas formas de dialética, diálogos, poesia épica, folclore, hinos, letras, prosa e provérbios. O raciocínio e racionalidade babilônicos avançaram além da observação empírica. As primeiras formas de lógica foram desenvolvidas pelos babilônios, cujo pensamento era axiomático e comparável à “lógica ordinária” descrita por John Maynard Keynes. Tal lógica foi empregada, em alguma medida, à astronomia e à medicina babilônica.
O pensamento babilônico teve uma considerável influência na filosofia inicial grega e helenística, mormente no pensamento dos sofistas e na dialética e diálogos de Platão, bem como um precursor aos métodos de Sócrates; o filósofo jônico Tales, de Mileto, foi influenciado pelas ideias cosmológicas babilônicas.


[1] O termo “Antigo Oriente Próximo” usa uma distinção do século XIX entre “Oriente Próximo” e “Extremo Oriente” como regiões globais de interesse do Império Britânico, iniciada durante a Guerra da Crimeia. A última partição importante do oriente entre esses dois termos era corrente em diplomacia ao final do século XIX com os Massacres Hamidianos dos Armênios e Assírios pelo Império Otomano em 1894 – 1896 e a Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Esses dois teatros de guerra eram descritos pelos estadistas e conselheiros do Império Britânico como “o Oriente Próximo” e o “Extremo Oriente”. Logo eles passaram a repartir o palco com o “Oriente Médio”, que prevaleceu no século XX e prossegue nos tempos modernos.

[2] Também chamado “Primeiro Império Persa, foi um império centrado na Ásia Ocidental, Irã, fundado no século VI AC, por Ciro, o Grande. O nome vem do rei Aquemenes, que governou a Pérsia entre 705 e 675 AC. Falaremos dele quando chegarmos ao final do Império Babilônico.
[3] A “Pré História” designa o período anterior à história escrita. A Proto-História refere-se ao period entre a pré-história e a história, durante o qual uma cultura ou civilização ainda não desenvolveu a escrita, mas outras culturas já havias notado a sua existência em seus próprios registros. Por exemplo, na Europa, as tribos Celtas e Germânicas podem ser consideradas terem sido proto-históricas quando começaram a aparecer nos textos gregos e romanos. Proto-histórico pode também se referir ao período de transição entre o advento da literatura numa sociedade e os escritos dos primeiros historiadores. Sítios coloniais envolvendo um grupo literato e outro iliterato, são também estudados como situações proto-históricas.
[4] A Dinastia implica numa sequência de governantes da mesma família, raça ou grupo, de que tivemos exemplos e ainda temos em algumas partes do mundo. Nesse caso, um período dinástico, significa dizer que, naquele período, começou a imperar uma dinastia. O governo de uma tal sequência chama-se também uma dinastia, da mesma forma, que uma série de membros de uma família que se distingue por seu sucesso, poder, riqueza etc ....
[5] A Erupção Minoica, também conhecida como erupção de Thera ou de Santorini, foi uma catastrófica erupção vulcânica que atingiu a escala 6 ou 7 da escala “Indicador de Explosão Vulcânica (IEV)”, ocorrida no meio do segundo milênio AC Um dos maiores eventos vulcânicos de que se tem registro, devastou a ilha de Thera (também chamada de Santorini), localizada no arquipélago grego entre Grécia e Turquia, e incluiu o assentamento minoico de Akrotiri, bem como as comunidades e áreas agrícolas das ilhas próximas e a costa de Creta. A civilização minoica foi uma civilização da idade do Bronze, no mar Egeu, que surgiu na ilha de Creta, florescendo de 2.700 a 1.450 AC; foi redescoberta no início do século XX
[6] Um Semita é um membro de qualquer dos vários povos antigos e modernos de língua semita, originários do Oriente Médio, incluídos os Akkadianos (Assírios/Siríacos e Babilônios), Amonitas, Amoritas, Arameus, Caldeus, Canaanitas (incluindo Hebreus/Israelitas/Judeus e Fenícios/Cartagineses), Eblaitas, Dilmunitas, Edomitas, Semitas Etiópios, Hicsos, Árabes, Nabateanos, Malteses, Mandeanos, Malamitas, Moabitas, Sabanitas e Ugaritas. A palavra “semítico” é derivada de “Sem”, um dos três filhos de Noé, da Gênesis. O conceito de povo “semítico” é derivado dos relatos bíblicos das origens das culturas conhecidas aos antigos hebreus. Em um esforço para categorizar os povos conhecidos deles, aqueles que lhes eram mais próximos em cultura e língua, foram geralmente considerados como descendentes de seu antepassado Sem.
[7] Um logograma é um grafema (a menor unidade semanticamente distinguível numa linguagem escrita, da mesma forma que um fonema na linguagem falada) que representa uma palavra ou morfema (a menor unidade com significado em uma língua). Logogramas são também conhecidos como “ideogramas”, embora os últimos representem mais ideias diretamente que palavras e morfemas. Sistemas logográficos, ou logografias, incluem os primeiros sistemas reais de escrita.


Continua com a PARTE 4.