Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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domingo, 28 de dezembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 06)

IV.7.2 – POPULAÇÃO E CULTURA DA SUMÉRIA

Uruk, uma das maiores cidades da Suméria, pode ter tido uma população máxima entre 50 e 80 mil habitantes; consideradas as outras cidades da Suméria e a grande população agrícola, uma estimativa grosseira para a população da Suméria pode ter sido 0,8 a 1,5 milhões de habitantes, quando a população mundial da época foi estimada em 27 milhões.
No início do Período Sumeriano (Uruk), os pictogramas primitivos sugerem que a cerâmica era abundante e as formas dos vasos, vasilhas e pratos, múltiplas; havia tigelas especiais para mel, manteiga, óleo e vinho. Alguns dos vasos possuíam pés afilados e permaneciam em suportes com as pernas cruzadas; outros eram de fundo plano e colocados em molduras de madeira quadradas ou retangulares. As jarras de óleo – e provavelmente também outras – eram seladas com argila, exatamente como no Egito antigo. Vasos e pratos de pedra eram feitos imitando argila e cestos eram tecidos de junco ou feitos de couro.
Camas, bancos e cadeira eram usados, com pernas entalhadas imitando pernas de boi. Havia lareiras e altares com fogo, tudo indicando que já usassem chaminé. Na cabeça usavam enfeites com penas.
Facas, trados, cunhas e um instrumento similar à serra também eram conhecidos, enquanto lanças, arcos, flechas e adagas (mas não espadas) eram empregadas na guerra. Tabletes eram usados para a escrita e cobre, ouro e prata eram trabalhados pelo ferreiro. Adagas com lâminas de metal e cabos de madeira eram usadas e o cobre era martelado em lâminas, ao passo que colares eram feitos de ouro. O tempo era calculado por meses lunares.
Há considerável evidência de que os sumerianos amavam a música, que parece ter sido uma importante parte da vida religiosa e civil na Suméria. As liras eram populares na Suméria e entre os mais conhecidos exemplos estavam as liras de Ur.
Inscrições descrevendo as reformas do rei Urukagina de Lagash (cerca de 2300 AC) dizem que ele aboliu o costume antigo da poliandria (opondo-se à poligamia, o casamento de uma mulher com vários homens) nesse país, prescrevendo que a mulher que tivesse múltiplos maridos fosse apedrejada com as pedras nas quais o crime tivesse sido registrado. Embora as mulheres fossem protegidas pela lei sumeriana mais nova e pudessem alcançar um status mais elevado na Suméria que em outras civilizações contemporâneas, a cultura masculina dominava. O código de Ur-Nammu, a mais antiga codificação já descoberta, datando do “Renascimento Sumeriano” Ur-III, revela um vislumbre da estrutura social na lei sumeriana mais tardia. Abaixo do rei, todos os membros da sociedade pertenciam a um de dois substratos: o “lu” ou pessoa livre e o escravo, homem ou mulher. O filho de um “lu” era chamado de “dumu-nita” até que casasse. Uma mulher (munus) passava de filha (dumu-mi) para esposa (dam); tornando-se uma viúva (numasu) poderia casar novamente.
As descobertas arqueológicas mais importantes na Suméria, foram numerosos tabletes escritos em cuneiforme. A escrita sumeriana é o mais antigo exemplo de escrita sobre a Terra. Embora figuras (hieróglifos) tivesse sido usadas no início, símbolos passaram a representar sílabas. Bambus afilados em forma triangular ou cunha eram usados para escrever em argila úmida. Centenas de milhares de textos na língua sumeriana sobreviveram, como cartas pessoais ou de negócios, receitas, listas de vocabulários, leis, hinos, orações, histórias, diários e até mesmo bibliotecas repletas de tabletes de argila. Inscrições monumentais e textos sobre diferentes objetos como estátuas ou tijolos são também muito comuns. Muitos textos sobrevivem em múltiplas cópias porque foram repetidamente transcritos por escribas em treinamento. O sumeriano continuou sendo a língua da religião e da lei na Mesopotâmia muito tempo depois que os falantes semitas se tornaram dominantes.
A língua sumeriana é geralmente vista como uma língua isolada em linguística porque ela não pertence a uma família de linguagem; o akkadiano, pelo contrário, pertence ao ramo semita das línguas afro-asiáticas. Há muitas tentativas que falharam para conectar o sumeriano a outros grupos de linguagem. Entender textos sumérios pode ser difícil hoje, mesmo para peritos, principalmente para os textos mais antigos que, em muitos casos, não dão a estrutura gramatical completa da língua.
Durante o terceiro milênio AC, desenvolveu-se uma simbiose cultural íntima entre os usuários das linguagens suméria e akkadiana, que incluiu um difundido bilinguismo. A influência do sumério sobre o acádio (e vice-versa) foi evidente em todas as áreas, do empréstimo léxico em escala maciça, à convergência sintática, morfológica e fonológica, preparando os estudiosos a referir-se ao sumeriano e akkadiano, do terceiro milênio, como uma área linguística. O akkadiano gradualmente substituiu o sumeriano, como língua falada da Mesopotâmia, em torno do terceiro e segundo milênio AC (a data exata é matéria de debate), embora esta continuasse como língua sagrada, cerimonial, literária e científica, na Mesopotâmia, até o século I DC

IV.7.3 - RELIGIÃO DA SUMÉRIA

Na madrugada da história registrada, Nippur, na Mesopotâmia Central, substituiu Eridu, ao sul, como a principal cidade-templo, cujos sacerdotes também conferiram o status de hegemonia política nas outras cidades-estados. Nipur manteve seu status por todo o primeiro período sumeriano, até que Sargão de Akkad a transferiu para a Babilônia.
Os sumérios acreditavam num politeísmo antropomórfico (muitos deuses em forma humana). Não havia um conjunto comum de deuses, cada cidade tendo seus próprios padroeiros, templos e reis-sacerdotes, sem que fossem exclusivos, isto é, podendo ser reconhecidos por outras cidades. Os sumérios estão entre os primeiros povos a registrar suas crenças por escrito e foram inspiração importante na mitologia, religião e astrologia da Mesopotâmia mais tardia. Entre os deuses adorados pelo sumérios, podemos citar: An, o deus em tempo integral, equivalente a Céu, e sua consorte Ki (que significa Terra); Enki, no templo de Eridu, deus da beneficência, governador das águas profundas sob a terra, curandeiro e amigo da humanidade, responsável pela cessão das artes e ciências aos humanos, as indústrias e a própria civilização, além de ter criado o primeiro livro de leis; Enlil, deus da terra-fantasma, em Nippur, teria dado à humanidade os encantos e feitiços aos quais os espíritos do bem ou mal devem obedecer; Inanna, a deificação de Vênus, a estrela da manhã (no oriente) e do entardecer (no ocidente), no templo de Uruk, compartilhado com An; o deus-sol Utu, em Larsa, no sul e Sippar, no norte; Sin, o deus da lua, em Ur. Essas deidades formavam o panteão central, cercados de centenas de deuses menores. Os deuses sumérios podiam ter associações com diferentes cidades e sua importância religiosa muitas vezes crescia ou diminuía com o poder político dessas cidades. Dizia-se que os deuses haviam criado os humanos, de argila, para servi-los. Os templos organizavam os projetos de força de trabalho para projetos de agricultura irrigada, para os quais os cidadãos tinham um dever, embora pudessem evita-lo em troca de um pagamento em prata.
Os sumérios acreditavam que o Universo consistia de um disco plano encoberto por uma cúpula. O pós vida sumeriano envolvia uma descida em um sombrio mundo inferior para passar a eternidade numa existência infeliz como um Gidim (fantasma).
O Universo era dividido em quatro quartos: (1) ao norte estavam os Subartu, moradores das colinas que, periodicamente, saíam em busca de escravos, madeira e materiais naturais; (2) a oeste ficavam os Martu, habitantes das tendas, povo semita que viviam como pastores nômades apascentando rebanhos de ovelhas e cabras; (3) ao sul ficava a terra dos Dilmun, um estado de comércio associado com a terra dos mortos e o local da criação; (4) a leste ficavam os Elamitas, um povo rival com o qual os sumérios estavam frequentemente em guerra.
Seu mundo conhecido estendia-se do Mar Superior ou linha da costa do Mediterrâneo, ao Mar Inferior, o Golfo Pérsico e a terra de Meluhha (provavelmente o Vale do Indo) e Magan (Oman), famoso por seus minérios de cobre.
Cada ziggurat (templo sumério) tinha um nome individual e consistia de um átrio com um tanque central para purificação. O próprio templo possuía uma nave central com corredores de ambos os lados. Flanqueando os corredores, havia quartos para os sacerdotes. Em uma extremidade ficava o pódio e uma mesa de tijolos de argila para sacrifícios vegetais e animais. Silos e armazéns ficavam, em geral, situados perto dos templos. Após um tempo os sumérios começaram a colocar os templos no topo de construções quadradas de múltiplos andares, como uma série de terraços, originando o estilo Ziggurat.
Acreditava-se que quando as pessoas morriam, eram confinadas no sombrio mundo de Ereshkigal, cujo reino era guardado por portões com vários monstros criados para impedir a entrada ou saída das pessoas. Os mortos eram enterrados fora das muralhas da cidade em cemitérios onde um montículo cobria o corpo, com oferendas aos monstros e uma pequena quantidade de comida. Sacrifícios humanos foram encontrados nas covas no cemitério real de Ur, onde a rainha Puabi estava acompanhada na morte por suas servas. Diz-se também que os sumérios inventaram o primeiro instrumento semelhante ao oboé e os usavam nos funerais reais.

IV.7.4 – AGRICULTURA

Os sumérios adotaram o modo de vida agrícola ente 5000 e 4500 AC. A região mostrou uma grande quantidade de técnicas agrícolas que incluíam a irrigação organizada, intenso cultivo da terra em larga escala, monocultura envolvendo o uso de arado e o uso de uma força de trabalho agrícola especializada sob controle burocrático. 
No início do Período Uruk Sumeriano, os pictogramas primitivos sugerem que ovelhas, cabras, bois e porcos eram domesticados. Usavam bois como animais de carga primários e burros ou cavalos como animais de transporte; roupas “de lã”, bem como tapetes eram feitos de lã ou crina dos animais.
Nas laterais das casas havia jardins fechados com árvores e plantas diversas; trigo e outros cereais eram semeados nos campos e o shaduf (ferramenta para irrigação, constituída por vaso e haste longa) já era empregado para fins de irrigação. Além disso, plantas eram também cultivadas em vasos.
Os sumérios praticavam técnicas de irrigação similares às dos egípcios, cujos desenvolvimentos eram associados à urbanização, já que cerca de 90% da população vivia em área urbana.
Cultivavam cevada, grão de bico, lentilhas, trigo, ameixas, cebolas, alho, alface, alho-porró e mostarda. Pescavam diversos tipos de peixes e caçavam aves e gazelas. A agricultura suméria dependia fortemente da irrigação, que era realizada com o uso do shaduf, canais, valas, diques, vertedores e reservatórios. As frequentes cheias violentas do Tigre e as menos frequentes do Eufrates exigiam permanente manutenção e observação dos canais e do sistema em geral. Para isso, o governo podia exigir pessoas para trabalhar como “voluntários” sem pagamento, embora os ricos pudessem ser isentos. Como descoberto pelo “Almanaque Sumeriano do Fazendeiro[1]”, após a época das cheias, equinócio de primavera e o festival de Ano Novo, com o uso dos canais os fazendeiros deveriam inundar seus campos e então drená-las. A seguir, eles deixavam os bois pisarem o solo e matar as ervas daninhas, arrancando-as então com picaretas. Depois de secas, elas eram aradas, limpas, revolvidas três vezes e então pulverizadas com enxadas antes de semear. Infelizmente, a alta taxa de evaporação resultava em um gradual aumento na salinidade dos campos e, pelo período Ur III, os fazendeiros já haviam mudado sua principal cultura do trigo para a cevada, mais tolerante ao sal. As colheitas eram realizadas na primavera, com equipes de três pessoas: o segador, o amarrador e o guardador dos feixes.

IV.7.5 - ARQUITETURA

As planícies dos rios Tigre e Eufrates se ressentiam de minerais e árvores. As estruturas dos sumérios eram feitas de tijolos de barro sem cimento ou argamassa, que acabavam se deteriorando, sendo por isso, periodicamente destruídos, nivelados e reconstruídos no mesmo local. Essa constante reconstrução gradualmente elevava o nível das cidades que ficavam então acima da planície circundante. As colinas circundantes, conhecidas como tells, são encontradas por todo o antigo Oriente Médio.
Como a pedra era escassa, o tijolo de barro era o material ordinário de construção e com ele cidades, fortes, templos e casas eram construídos. As cidades contavam com torres sobre plataformas artificiais; as casas também tinham aparência de torres e eram providas de uma porta que girava sobre uma dobradiça e podia ser aberta com uma espécie de chave. O portão da cidade era em escala maior e dupla. As pedras de fundação – muitas vezes tijolos – de uma casa eram consagradas por certos objetos que eram depositados sobre elas.
Os mais impressionantes e famosos edifícios sumérios eram os figuras, grandes plataformas em camadas que suportavam templos. Os selos cilíndricos sumérios também representam casas construídas com juncos, como as construídas pelos árabes dos pântanos do sul do Iraque até 400 DC. Os sumérios também desenvolveram o arco, que lhes permitiu desenvolver um forte tipo de cúpula, construindo e ligando vários arcos. Os templos e palácios sumérios usaram materiais e técnicas mais avançadas, como contrafortes, nichos, meias-colunas e cones de barro.

IV.7.6 - MATEMÁTICA

Os sumérios desenvolveram um complexo sistema de medição cerca de 4000 AC, que avançou, resultando na criação da aritmética, geometria e álgebra. De 2600 AC em diante, os sumérios escreveram tábuas de multiplicação em tabletes de argila e trabalharam com exercícios geométricos e problemas de divisão. O período entre 2700 e 2300 AC viu o surgimento do ábaco[2] e uma tábua de colunas sucessivas que delimitavam as ordens sucessivas de magnitude do seu sistema numeral sexagesimal. Os sumérios foram os primeiros a usar um sistema numérico com valor posicional. Há também evidência histórica de que os sumérios possam ter usado um tipo de régua de cálculo em cálculos astronômicos. Eles foram também os primeiros a determinar a área de um triângulo e o volume de um cubo.

IV.7.7 – ECONOMIA, COMÉRCIO E GUERRA

Descobertas de obsidiana[3] de locais muito afastados na Anatólia, lápis-lazúli[4] do Badakshan, no nordeste do Afeganistão, pérolas do Dilmun (atual Bahrain) e muitos selos inscritos com escrita do Vale do Indo, sugerem uma malha muito ampla de comércio antigo, centrado em torno do Golfo Pérsico.
O “Épico de Gilgamesh” faz referência ao comércio, com terras distantes, de bens como madeira, escassa na Mesopotâmia. Em particular, cedro do Líbano era muito apreciado. A descoberta de resina na tumba da rainha Puabi, em Ur, indica que ela era negociada de tão longe quanto Moçambique.
Os sumérios usavam escravos, embora não fossem uma parte importante da economia. Escravas mulheres trabalhavam como tecelãs, passadeiras, moleiras e carregadoras.
Oleiros sumérios decoravam potes com tinta de óleo de cedro. Os oleiros usavam uma furadeira de arco para produzir o fogo necessário ao cozimento da cerâmica. Pedreiros e joalheiros conheciam e faziam uso do alabastro (calcita), marfim, ferro, ouro, prata, cornalina (variedade vermelha da calcedônia) e lápis-lazúli.
As guerras quase constantes entre as cidades-estados da Suméria, por quase dois mil anos, elevou o desenvolvimento da tecnologia e técnicas militares do império a altos níveis. A primeira guerra registrada com algum detalhe, entre Lagash e Umma, cerca de 2525 AC, foi através da já mencionada “Estela dos Abutres”. Ela mostra o rei de Lagash conduzindo um exército sumério consistindo principalmente de infantaria, que carrega lanças, veste elmos de cobre e escudos de couro ou vime. Os lanceiros aparecem segundo uma formação em falange, que requer treinamento e disciplina, indicando que os sumérios podem ter feito uso de soldados profissionais. Os militares sumérios usavam também carros com arreios para burros, que funcionavam menos efetivamente em combate do que os usados depois e alguns estudiosos sugerem que tenham servido, principalmente, como transporte, embora a tropa carregasse machados de batalha e lanças. O carro sumeriano compreendia um dispositivo de duas ou quatro rodas manejado por uma tripulação de dois e com arreios para quatro burros. O carro era composto por um cesto tramado e as rodas tinham um sólido esquema de três peças.
As cidades sumérias eram circundadas por muralhas defensivas. Os sumérios se empenhavam em combates de cerco entre suas cidades, mas as muralhas de tijolos de lama eram capazes de deter alguns inimigos.

[1] Este teria sido o primeiro almanaque do fazendeiro de que se tem registro, datando de 1700 a 1500 AC e descoberto em 1949, por uma expedição americana ao Iraque, financiada pelo Instituto Oriental da Universidade de Chicago e pelo Museu Universitário da Universidade da Pensilvânia.
[2] O ábaco é uma ferramenta de cálculo usada antes da adoção do moderno sistema numeral escrito, ainda amplamente em uso por mercadores, comerciantes, e balconistas na Ásia, África e outros lugares. Hoje os ábacos são feitos numa estrutura de bamboo com contas que deslizam em fios, mas originalmente eram feitos de feijões ou pedras que se moviam em sulcos em areia ou em tabletes de madeira, pedra ou metal.
[3] Vidro vulcânico que ocorre naturalmente como resultado de rocha ígnea extrusiva (lava de vulcões), em geral escura, pobre de água e de aspecto vítreo.
[4] Também chamado de lazurita, é um mineral de cor azul ultramar, composto de silicato de alumínio e sódio e sulfato de sódio(três do primeiro para um do segundo), usada como pedra ornamental.

PROSSEGUE NA PARTE 7

domingo, 23 de novembro de 2014

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 03)

IV – MESOPOTÂMIA

A palavra Mesopotâmia, etimologicamente, origina-se do grego, com o significado de “(terra) entre rios”. Geograficamente é o nome da área do sistema fluvial dos rios Tigre e Eufrates, correspondente ao atual Iraque, a região nordeste da Síria, uma parte menor ao sudeste da Turquia e partes menores do sudoeste do Irã e do Kuwait. As duas figuras que seguem (Figuras 1 e 2) mostram a localização da Mesopotâmia; na primeira, a região da Mesopotâmia é mostrada em verde escuro, iniciando um pouco ao sul da Turquia e terminando no Golfo Pérsico; na segunda, de forma mais esquemática, em amarelo (dentro do rosa), pode-se ver a sua localização em relação aos países atuais da região.
Figura 1
Mesopotâmia é o nome de uma área - e não de um país -, que possuiu, durante diversas épocas, fantásticas cidades e mesmo regiões que, a seu tempo, foram sedes de importantes impérios ou ricas culturas que floresceram no Iraque antigo, tais como: Suméria, Akkadiana, Assíria, Babilônia e muitas outras cuja influência estendeu-se a países vizinhos, a partir de 5.000 AC. Ela tem sido chamada de “o berço da civilização” porque a agricultura (irrigada ou não), criação e domesticação de animais se desenvolveram lá, muito antes do que em qualquer outro lugar.
Figura 2
A região da Mesopotâmia costuma ser dividida em duas partes: a Mesopotâmia Superior ou Norte, também conhecida como Al-Jezirah (a ilha), é a área entre o Eufrates e o Tigre, desde suas nascentes até Bagdá; a Mesopotâmia Inferior ou Sul consiste do sul do Iraque, Kuwait e partes do Irã Ocidental. Até as conquistas muçulmanas, a área era designada por Mesopotâmia; após aquela data, palavras como Síria, Jezirah e Iraque passaram a ser utilizadas para designar a área.
Há pelo menos duas formas de estudar a civilização mesopotâmica: (1) apreciá-la no conjunto de toda a região; e (2) analisar individualmente os vários impérios que a dominaram ao longo da antiguidade e que, mesmo dominantes no todo, sempre tiveram ascensões e quedas. Nós vamos tentar um misto das duas coisas; faremos, inicialmente, uma exposição sobre os aspectos gerais da Mesopotâmia, não influenciados pelo governo da época, sempre que isso for possível; posteriormente, faremos uma breve descrição dos maiores impérios que dominaram a região, no que se refere às suas mais importantes especificidades, considerando que os aspectos gerais da região já terão sido descritos.

IV.1 - GEOGRAFIA

A Mesopotâmia abarca a área entre os rios Tigre e Eufrates, ambos com as nascentes nas montanhas da Armênia, na Turquia moderna, alimentados por numerosos tributários e drenando uma vasta região montanhosa. As rotas terrestres na Mesopotâmia usualmente seguem o Eufrates, já que as margens do Tigre são frequentemente íngremes e difíceis. O clima da região é semiárido, com uma vasta extensão desértica ao norte que cede lugar a uma região de pântanos, lagoas, alagadiços e margens de juncos, com 15.000 km2, ao sul. No extremo sul, o Tigre e o Eufrates se unem para despejar suas águas no Golfo Pérsico. Trata-se de um ambiente árido, com terras ao norte onde a agricultura é mantida apenas com água da chuva, até a área ao sul onde apenas a agricultura irrigada subsiste, a partir do lençol freático alto e das águas nivais dos altos picos das Montanhas Zagros (noroeste do atual Irã) e da Cordilheira Armênia. A utilidade da irrigação depende da habilidade em mobilizar mão de obra suficiente para a construção e manutenção de canais, o que, nos tempos primitivos, foi fator fundamental para os assentamentos urbanos e sistemas centralizados de autoridade política.
Por toda a região, a agricultura foi complementada pelo pastoreio nômade que criava ovelhas e cabras (e mais tarde camelos) com as pastagens marginais, nos meses secos de verão e nas terras de pastagens das orlas desérticas dos invernos úmidos. A área sempre foi muito carente em pedras de construção, madeira e metais preciosos e, historicamente, foi obrigada a fiar-se a um comércio de produtos agrícolas de longa distância para garantir tais itens de áreas externas. Nas áreas pantanosas do sul, uma complexa cultura de pesca sempre existiu desde tempos pré-históricos, adicionada ao caldo cultural.
Interrupções periódicas no sistema cultural ocorreram por várias razões. A demanda por trabalho, de tempos em tempos, conduziam a aumentos de população que beiravam os limites da capacidade ecológica; se um período de instabilidade climática seguisse, sobreviria o colapso do governo central e a ocorrência do declínio da população. Por outro lado, a vulnerabilidade a invasões militares por tribos das colinas marginais ou pastores nômades, conduziu a períodos de colapso no comércio e ao abandono dos sistemas de irrigação. Da mesma forma, as tendências centrípetas entre as cidades estados sempre significou que a autoridade central sobre toda a região, quando imposta, tendia a ser efêmera e o localismo fragmentava o poder em unidades regionais tribais ou ainda menores, tendências que persistem até hoje no Iraque.

IV.2 - HISTÓRIA

A pré-história do Antigo Oriente Próximo[1]  inicia no período do Baixo Paleolítico, mas a escrita iniciou com a pictografia no período Uruk IV (quarto milênio AC) e o registro documentado de eventos históricos reais – e a história antiga da Mesopotâmia inferior – começou no meio do terceiro milênio AC, com registros cuneiformes dos primeiros reis dinásticos, terminando ou com a chegada do Império Aquemênida[2]  no final do século VI AC, ou com a conquista árabe islâmica da Mesopotâmia e o estabelecimento do Califado ao final do século VII DC, a partir da qual a região passou a ser conhecida como Iraque. Durante este período a Mesopotâmia abrigou alguns dos mais altamente desenvolvidos e socialmente complexos estados do mundo. A região foi uma das quatro civilizações ribeirinhas onde a escrita foi inventada, junto com o vale do Nilo, no Egito, o Vale do Indo, no subcontinente indiano, e o vale do rio Amarelo, na China. A Mesopotâmia abrigou cidades historicamente importantes (Figura 3), tais como Uruk, Nippur, Níneve, Assur e Babilônia, bem como grandes estados territoriais, como a cidade de Eridu, o reino Akkadiano, a Terceira Dinastia de Ur e os vários impérios assírios.
Figura 3
Alguns dos importantes líderes da Mesopotâmia foram Ur-Nammu (rei de Ur), Sargão (que estabeleceu o império Akkadiano), Hammurabi (que estabeleceu o estado da Velha Babilônia), Ashur-Uballit II e Tiglath-Pileser I (que estabeleceram os impérios Assírios).



CRONOLOGIA (essa cronologia ficará bem clara quando chegarmos aos impérios da Mesopotâmia)

Pré e proto-história[3]
•             Neolítico A Pré-Cerâmico (10.000–8.700 AC)
•             Neolítico B Pré-Cerâmico (8.700–6.800 AC)
•            Culturas Hassuna (~6.000 AC–? AC), Samarra (~5.700 AC–4.900 AC) e Halaf (~6.000 AC–5.300 AC)
•            Período Ubaid (~5.900–4.400 AC)
     Período Uruk (~4.400–3.100 AC)
     Período Jemdet Nasr (~3.100–2.900 AC)
Início da Idade do Bronze
     Início do período Dinástico[4] (~2.900–2.350 AC)
     Império Akkadiano (~2.350–2.100 AC)
     Período Ur III (.2112–2.004 AC)
     Início do Reino Assírio (Séculos XXIV a XVIII AC)
Idade do Bronze Médio
     Babilônia Inicial (Séculos XIX a XVIII AC)
    Colapso da Primeira Dinastia Babilônica (Séculos XVIII a XVII AC): erupção Minóica[5].
    Erupção Minóica(cerca de 1.620 AC)
Final da Idade do Bronze
    Período Médio Assírio (Séculos XVI a XI AC)
    Império Assírio (cerca de 1.365 AC a 1.076 AC)
    Colapso da Dinastia Kassita na Babilônia (cerca de 1.595 AC a 1.155 AC)
    Colapso da Idade do Bronze (Séculos XII a XI AC)
Idade do Ferro 
    Estados regionais Novo-Hitita ou Siro-Hitita (Séculos XI a VII AC)
    Império Novo-Assírio (Séculos X a VII AC)
    Império Novo-Babilônio (Séculos VII a VI AC)
•      Antiguidade Clássica
    Babilônia Persa, Assíria Aquemênida (Séculos VI a IV AC)
    Mesopotâmia Selêucida (Séculos IV a III AC)
    Babilônia Antiga Pérsia (Séculos III A.C a III DC)
    Osroene (Séculos II AC a III DC)
    Adiabene (Séculos I a II DC)
    Hatra (Séculos I a II DC)
    Mesopotâmia Romana, Assíria Romana (Século II DC)
Final da Antiguidade
    Mesopotâmia Persa, Assíria Persa (Séculos III a VII DC)
    Conquista Árabe Muçulmana da Mesopotâmia (a partir do meio do Século VII DC)

IV.3 - LINGUA E ESCRITA

A primeira língua escrita na Mesopotâmia, foi sumeriana, embora dialetos semíticos[6]  também fossem falados originalmente. Subartuan, a linguagem dos Zagros, talvez relacionada à família de linguagem hurro-urartuana, aparece em nomes de pessoas, rios e montanhas e em vários ofícios. O akkadiano tornou-se a língua dominante durante os Impérios Akkadiano e Assírio, mas o sumeriano foi preservado para finalidades administrativas, religiosas, literárias e científicas. O aramaico, que já havia sido comum na Mesopotâmia, tornou-se então a língua da administração provincial do primeiro Império Novo Assírio e então do Império Aquemênida Persa. O akkadiano caiu em desuso, mas ele e o sumeriano ainda foram usados em templos durante alguns séculos. Os últimos textos akkadianos datam do final do século I DC.
No início da história da Mesopotâmia (pelo milênio IV AC), a escrita cuneiforme foi inventada para a língua suméria. Literalmente, “cuneiforme” significa em forma de cunha, devido à ponta triangular do buril usado para imprimir sinais na argila úmida. A forma padronizada de cada sinal cuneiforme parece ter sido desenvolvida de pictogramas. Os primeiros textos (sete placas arcaicas) vêm do templo E (palavra ou símbolo sumério para casa ou templo), dedicado à deusa Inanna (deusa do amor, fertilidade e da guerra), em Uruk (cidade da Mesopotâmia), de um prédio designado por Templo C por seus descobridores.
O primeiro sistema logográfico[7]  de escrita cuneiforme levou vários anos para dominar. Assim, somente um número limitado de indivíduos foi contratado como escribas para serem treinados no seu uso. Apenas após a disseminação da escrita silábica ter sido adotada, sob o governo de Sargão, porções significativas da população da Mesopotâmia se tornaram literatas. Arquivos maciços de textos foram recuperados dos contextos arqueológicos das escolas escribas da antiga Babilônia, pelas quais a arte da escrita foi disseminada.
Bibliotecas e templos do império babilônico proliferavam nas cidades; mulheres, como os homens, aprendiam a ler e escrever e para os babilônios semitas, isso envolvia o conhecimento da extinta linguagem suméria, além de um complicado e extensivo silabário. Um velho provérbio sumério afirmava que “aquele que quiser sobressair na escola dos escribas, deve levantar com a madrugada”.
Uma quantidade considerável de literatura babilônica foi traduzida de originais sumérios e a língua da religião e da lei, por muito tempo continuou a ser a velha linguagem da Suméria. Vocabulários, gramáticas e traduções foram compilados para o uso dos estudantes, bem como comentários sobre os textos antigos e explicações de palavras e frases obscuras. Os caracteres do silabário foram arranjados e nomeados e listas foram redigidas.
Muitos trabalhos literários babilônicos ainda são estudados hoje. Um dos mais famosos deles é o “Épico de Gilgamesh”, em doze volumes, traduzido do original sumério por Sin-liqe-unninni. Cada divisão contém a história de uma única aventura na carreira de Gilgamesh (de quem ainda falaremos). A história completa é um produto composto, embora provável que algumas das histórias sejam artificialmente conectadas à figura central.

IV.4 - RELIGIÃO E FILOSOFIA

A religião da Mesopotâmia foi a primeira a ser registrada. Os mesopotâmios acreditavam que a Terra era um disco plano, circundado por um imenso espaço vazio, com o céu acima. Acreditavam também que a água encontrava-se em todos os lugares e que o universo havia nascido desse enorme mar. Sua religião era politeísta e embora a crença geral, havia variações regionais. A palavra suméria para universo é an-ki, que se refere ao deus Na e à deusa Ki. Seu filho era Enlil, o deus do ar que acreditavam ser o deus mais poderoso, chefe do Panteon, equivalente aos posteriores Zeus grego e Júpiter romano. Os sumérios colocaram questões filosóficas, como: “Quem somos?”, “Como chegamos aqui?”. E deram respostas a essas questões como explicações fornecidas por seus deuses.
As origens da filosofia podem ser rastreadas à sabedoria da Mesopotâmia primitiva, que incorporava certas filosofias de vida, particularmente ética, nas formas de dialética, diálogos, poesia épica, folclore, hinos, letras, prosa e provérbios. O raciocínio e racionalidade babilônicos avançaram além da observação empírica. As primeiras formas de lógica foram desenvolvidas pelos babilônios, cujo pensamento era axiomático e comparável à “lógica ordinária” descrita por John Maynard Keynes. Tal lógica foi empregada, em alguma medida, à astronomia e à medicina babilônica.
O pensamento babilônico teve uma considerável influência na filosofia inicial grega e helenística, mormente no pensamento dos sofistas e na dialética e diálogos de Platão, bem como um precursor aos métodos de Sócrates; o filósofo jônico Tales, de Mileto, foi influenciado pelas ideias cosmológicas babilônicas.


[1] O termo “Antigo Oriente Próximo” usa uma distinção do século XIX entre “Oriente Próximo” e “Extremo Oriente” como regiões globais de interesse do Império Britânico, iniciada durante a Guerra da Crimeia. A última partição importante do oriente entre esses dois termos era corrente em diplomacia ao final do século XIX com os Massacres Hamidianos dos Armênios e Assírios pelo Império Otomano em 1894 – 1896 e a Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Esses dois teatros de guerra eram descritos pelos estadistas e conselheiros do Império Britânico como “o Oriente Próximo” e o “Extremo Oriente”. Logo eles passaram a repartir o palco com o “Oriente Médio”, que prevaleceu no século XX e prossegue nos tempos modernos.

[2] Também chamado “Primeiro Império Persa, foi um império centrado na Ásia Ocidental, Irã, fundado no século VI AC, por Ciro, o Grande. O nome vem do rei Aquemenes, que governou a Pérsia entre 705 e 675 AC. Falaremos dele quando chegarmos ao final do Império Babilônico.
[3] A “Pré História” designa o período anterior à história escrita. A Proto-História refere-se ao period entre a pré-história e a história, durante o qual uma cultura ou civilização ainda não desenvolveu a escrita, mas outras culturas já havias notado a sua existência em seus próprios registros. Por exemplo, na Europa, as tribos Celtas e Germânicas podem ser consideradas terem sido proto-históricas quando começaram a aparecer nos textos gregos e romanos. Proto-histórico pode também se referir ao período de transição entre o advento da literatura numa sociedade e os escritos dos primeiros historiadores. Sítios coloniais envolvendo um grupo literato e outro iliterato, são também estudados como situações proto-históricas.
[4] A Dinastia implica numa sequência de governantes da mesma família, raça ou grupo, de que tivemos exemplos e ainda temos em algumas partes do mundo. Nesse caso, um período dinástico, significa dizer que, naquele período, começou a imperar uma dinastia. O governo de uma tal sequência chama-se também uma dinastia, da mesma forma, que uma série de membros de uma família que se distingue por seu sucesso, poder, riqueza etc ....
[5] A Erupção Minoica, também conhecida como erupção de Thera ou de Santorini, foi uma catastrófica erupção vulcânica que atingiu a escala 6 ou 7 da escala “Indicador de Explosão Vulcânica (IEV)”, ocorrida no meio do segundo milênio AC Um dos maiores eventos vulcânicos de que se tem registro, devastou a ilha de Thera (também chamada de Santorini), localizada no arquipélago grego entre Grécia e Turquia, e incluiu o assentamento minoico de Akrotiri, bem como as comunidades e áreas agrícolas das ilhas próximas e a costa de Creta. A civilização minoica foi uma civilização da idade do Bronze, no mar Egeu, que surgiu na ilha de Creta, florescendo de 2.700 a 1.450 AC; foi redescoberta no início do século XX
[6] Um Semita é um membro de qualquer dos vários povos antigos e modernos de língua semita, originários do Oriente Médio, incluídos os Akkadianos (Assírios/Siríacos e Babilônios), Amonitas, Amoritas, Arameus, Caldeus, Canaanitas (incluindo Hebreus/Israelitas/Judeus e Fenícios/Cartagineses), Eblaitas, Dilmunitas, Edomitas, Semitas Etiópios, Hicsos, Árabes, Nabateanos, Malteses, Mandeanos, Malamitas, Moabitas, Sabanitas e Ugaritas. A palavra “semítico” é derivada de “Sem”, um dos três filhos de Noé, da Gênesis. O conceito de povo “semítico” é derivado dos relatos bíblicos das origens das culturas conhecidas aos antigos hebreus. Em um esforço para categorizar os povos conhecidos deles, aqueles que lhes eram mais próximos em cultura e língua, foram geralmente considerados como descendentes de seu antepassado Sem.
[7] Um logograma é um grafema (a menor unidade semanticamente distinguível numa linguagem escrita, da mesma forma que um fonema na linguagem falada) que representa uma palavra ou morfema (a menor unidade com significado em uma língua). Logogramas são também conhecidos como “ideogramas”, embora os últimos representem mais ideias diretamente que palavras e morfemas. Sistemas logográficos, ou logografias, incluem os primeiros sistemas reais de escrita.


Continua com a PARTE 4.