Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

CHARLEMAGNE OU CARLOS MAGNO
(Parte 3 de 4)

VI - CAMPANHAS ORIENTAIS

1 – Guerras contra os Saxões

Carlos Magno esteve envolvido em hostilidades quase constantes por todo o seu reinado, muitas vezes à frente dos seus esquadrões pessoais de elite. Nas guerras contra os saxões, tribo germânica de adoradores pagãos, que duraram trinta anos e dezoito batalhas, ele conquistou a Saxônia (correspondendo, grosseiramente, aos estados da moderna Alemanha da Baixa Saxônia, Westfália, Nordalbingia e Saxônia-Anhalt ocidental, todos no noroeste da Alemanha) dedicando-se à sua conversão ao cristianismo. Os saxões germânicos estavam divididos em quatro grupos, em quatro regiões. Mais próximo da Austrasia ficava a Westfália e mais afastado a Eastphalia. Entre elas estava a Engria e ao norte dessas três, na base da península da Jutland, ficava a Nordalbbingia.
Em sua primeira campanha, em 773, Carlos Magno forçou a submissão dos Engrians, botando abaixo um pilar Irminsul (objeto sagrado em forma de pilar que representava um importante papel no paganismo germânico dos saxões) próximo de Paderborn. A campanha foi abreviada por sua primeira expedição à Itália. Ele retornou em 775, marchando através da Westfália e conquistando o forte saxão em Sigiburg. atravessou então a Engria onde novamente derrotou os saxões. Finalmente, na Eastphalia, ele derrotou uma força saxã, convertendo seu líder Hessi ao cristianismo. Carlos Magno retornou através da Westphalia, deixando acampamentos em Sigiburg e Eresburg, então importantes bastiões saxões. Ele então controlou a Saxônia com exceção da Nordalbingia, mas a resistência saxã não havia terminado.
Após ter subjugado os Dukes de Friuli e Spoleto, Carlos Magno retornou rapidamente à Saxônia em 776, onde a rebelião havia destruído sua fortaleza de Eresburg. Os saxões foram novamente batidos, mas seu líder Widukind fugiu para a Dinamarca, lar de sua esposa. Carlos Magno construiu um novo campo em Karlstadt. Em 777 convocou uma dieta nacional em Paderborn para integrar completamente a Saxônia ao reino Franco. Muitos saxões foram batizados como cristãos.
No verão de 779, ele novamente invadiu a Saxônia, reconquistando Eastphalia, Engria e Westphalia. Em uma dieta próxima de Lippe, ele dividiu o território em distritos missionários que assistiram a vários batizados em missas (780). Ele então retornou à Itália e, pela primeira vez, os saxões não se rebelaram imediatamente, pacificados de 780 a 782. Retornou à Saxônia em 782 instituindo um código de lei e indicando condes saxões e francos. As leis eram draconianas em questões religiosas; por exemplo, a Capitulatio de partibus Saxoniae prescrevia a morte aos pagãos saxões que recusassem sua conversão ao cristianismo, o que renovou os conflitos. Naquele ano, outono, Widukind retornou e conduziu uma nova revolta. Em resposta, em Verden, Baixa Saxônia, Carlos Magno ordenou a execução de 4.500 prisioneiros por decapitação, conhecido como o “Massacre de Verden”. As mortes dispararam três anos de renovadas guerras sangrentas. Durante esta guerra, os Frisians Orientais entre os Lauwers e os Weser se uniram aos saxões em revolta e foram finalmente subjugados. A guerra terminou com Widukind aceitando o batismo. Os Frisians posteriormente pediram que missionários fossem enviados a eles e um bispo de sua própria nação, Ludger, foi enviado. Carlos Magno também proclamou um código de leis, o Lex Frisonum, o que fizera para muitos povos súditos.
Depois disso, os saxões mantiveram uma paz por sete anos, mas em 792 a Westphalia novamente se rebelou. Os Eastphalians e Nordalbingians se juntaram a eles em 793, mas a insurreição foi impopular e encerrada em 794. Uma rebelião Engrian se seguiu em 796, mas a presença de Carlos Magno, saxões e eslavos cristãos rapidamente os destruiu. A última insurreição ocorrida em 804, mais de 30 anos após a primeira campanha contra eles, também falhou.
A guerra que havia durado tantos anos afinal terminou pelo aceite dos termos do Rei: renúncia aos seus costumes religiosos nacionais e adoração de demônios, aceitação dos sacramentos da fé e religião cristã e a união com os francos para formar um só povo.

2 – Submissão da Bavária

Por 774, Carlos Magno invadira o Reino da Lombardia [1] e mais tarde anexou os territórios da Lombardia assumindo a sua coroa e colocando os Estados Papais sob a proteção franca. O Ducado de Spoleto ao sul de Roma foi adquirido em 774, enquanto nas partes centro oeste da Europa, o Ducado da Bavária foi absorvido e a política bávara de estabelecer fronteiras tributárias entre os servos eslavos e thecos prosseguiu. O poder remanescente contra os francos no leste eram os avaros. Contudo, Carlos Magno adquiriu outras áreas eslavas, incluindo a Boêmia, Moravia, Áustria e Croácia.
Em 789 Carlos Magno voltou-se contra a Bavária, queixando-se que Tassilo III, Duque da Bavária não era um governante adequado por ter quebrado seu juramento. As acusações eram exageradas, mas Tassilo foi deposto de qualquer maneira e colocado no monastério de Jumièges. Em 794 Tassilo foi obrigado a renunciar a qualquer intenção sobre a Bavária, para si e toda sua família (os Agilolfings), no sínodo de Frankfurt, quando formalmente entregou ao rei todos os direitos que possuíra. A Bavária foi subdividida em condados Francos, à semelhança da Saxônia.

3 – Campanhas Contra os Ávaros

Em 788, os Ávaros (Avares ou Abares), um grupo nômade asiático que se havia estabelecido no que hoje é a Hungria, sucessores do Hunos, invadiram Friuli (região ao nordeste da Itália) e Bavária. Ocupado com outras questões, Carlos Magno marchou, em 790, seguindo o rio Danúbio e devastou o território ávaro de Györ (hoje a mais importante cidade do noroeste da Hungria). Um exército lombardo sob Pippin então marchou para o vale do rio Drava e devastou a Pannonia [2]. As campanhas terminaram quando os saxões novamente se revoltaram em 792.
Pelos dois anos seguintes, Carlos Magno esteve ocupado, além dos eslavos, com os saxões. Pippin e o Duque de Friuli continuaram, contudo, contra os baluartes dos ávaros. Sua fortaleza mais importante foi tomada duas vezes e logo os governantes ávaros perderam a vontade de lutar, viajando a Aachen, capital de Carlos Magno para se tornarem seus vassalos e cristãos. Carlos Magno aceitou sua rendição e enviou um chefe nativo de volta à Bavária, que conseguiu manter seu povo em linha; entretanto, em 800, os búlgaros sob Khan Krum atacaram o que sobrara do estado ávaro. Em 803, Carlos Magno enviou um exército bávaro à Pannonia, derrotando e trazendo um fim à confederação ávara. Em novembro do mesmo ano, Carlos Magno foi para Regensburg onde os líderes ávaros o reconheceram como governante. Em 805, o khagan [3] ávaro, que já fora batizado, foi a Aachen pedir permissão para assentar seu povo a sudeste de Viena. Os territórios Transdanubianos tornaram-se parte integral do reino Franco que foi abolido pelos magiares em 899-900.

4 – Expedições aos eslavos do nordeste

Em 789, em reconhecimento aos seus novos vizinhos pagãos, os eslavos, Carlos Magno conduziu um exército austrasio-saxão além do rio Elba, em território dos Obotritas [4]. Os eslavos finalmente se submeteram conduzidos por seu líder Witzin. Carlos Magno então aceitou a rendição dos Veleti [5] sob Dragovit exigindo muitos reféns. Também exigiu permissão para enviar missionários a essa região pagã. O exército marchou para o Báltico antes de retornar e marchar para o Reno, fazendo muita pilhagem sem ameaças. Os eslavos que pagavam tributo se tornaram leais aliados. Em 795, quando os saxões quebraram a paz, os Obotritas e Veleti se revoltaram com seu novo mandante contra os saxões. Witzin morreu em batalha e Carlos Magno vingou-o destruindo os habitantes da Eastphalia no Elba. Thrasuco, seu sucessor, conduziu seus homens à conquista dos Nordalbingianos, entregando seus líderes a Carlos Magno. Os Obotritas permaneceram leais até a morte de Carlos Magno.

5 – Expedições aos eslavos do sudeste

Após incorporar grande parte da Europa Central, Carlos Magno trouxe o Estado Franco face a face com os ávaros e eslavos do Sudeste. Os vizinhos mais a sudeste dos Francos eram os Croatas, que se estabeleceram na Croácia Pannoniana e Croácia Dálmata. Em 796, Carlos Magno obteve uma importante vitória sobre eles. O Duque Voinomir, da Croácia Pannoniana ajudou Carlos Magno e os francos se fizeram Lordes dos Croatas do norte da Dalmácia, Eslavônia e Pannonia.
O comandante franco Eric de Friuli pretendeu estender seu domínio conquistando o Ducado do Litoral Croata. Àquela época, a Croácia Dálmata era governada pelo Duque Viseslav da Croácia. Na Batalha de Trsat as forças de Eric abandonaram suas posições e foram perseguidas pelas forças de Viseslav quando, entre outros Eric foi morto, causando grande impacto no Império Carolíngio.
Carlos Magno também dirigiu sua atenção aos eslavos a oeste do Kaganato Ávaro: os Carantanianos e os Carniolanos. Esses povos foram subjugados pelos lombardos e os bávaros, passando a pagar tributos, mas nunca foram totalmente incorporados ao Estado Franco.

VII - IMPÉRIO

1 - Coroação

Em 799, o Papa Leão III havia sido assaltado por romanos que tentaram arrancar seus olhos e língua. Conseguindo escapar, fugiu para Carlos Magno em Paderbom, Aconselhado pelo sábio Alcuin, Carlos Magno viajou para Roma em novembro de 800 e reuniu um sínodo. Em 23 de dezembro, Leão III fez um juramento a Carlos Magno e dois dias após, durante a missa do Natal (25 de dezembro), quando Carlos Magno ajoelhou-se no altar para rezar, o Papa coroou-o “Imperador dos Romanos” na Basílica de São Pedro. Com isso o Papa rejeitava a legitimidade de Imperador de Irene de Constantinopla.

A Coroação Imperial de Carlos Magno no ano 800
Quando Odoacro forçou a abdicação de Romulus Augustus (em 476 DC), ele não aboliu o Império Ocidental como um poder separado, mas causou a sua reunião com o Império Oriental, de modo que, dali para a frente, houvesse um único Império Romano. O Papa Leão III e Carlos Magno, como os imperadores predecessores, também queriam um Império Romano uno e indivisível e propuseram a coroação de Carlos Magno, não para proclamar a divisão do Ocidente e do Oriente, mas legitimamente preenchendo o lugar do deposto Constantino VI (deposto, cego e aprisionado por sua mãe, Irene, em 797 DC). Entretanto, sua coroação teve o efeito de estabelecer dois Impérios separados (e muitas vezes opostos) e duas demandas pela autoridade imperial, conduzindo à guerra em 802 e por muitos séculos futuros, com os imperadores do Ocidente e Oriente buscando a soberania do todo.
Historicamente, não há um consenso sobre o que realmente significou a coroação de Carlos Magno. Muitos historiadores dizem que ele sabia o que aconteceria e desejava a coroação; outros tantos afirmam que ele não desejava a coroação justamente para evitar a polêmica futura e que, ao chegar a Catedral, nem mesmo sabia que tal ato ocorreria.
Para o Papa e Carlos Magno, o Império Romano permanecia uma potência significativa na política europeia daquele tempo. O Império Bizantino, baseado em Constantinopla, continuava a manter uma parte substancial da Itália, com fronteiras não muito longe de Roma. O assento de Carlos Magno, no julgamento do Papa, poderia ser visto como usurpação das prerrogativas do Imperador em Constantinopla.
Por quem, contudo, poderia o Papa ser julgado? Quem, em outras palavras estava qualificado a proferir julgamento sobre o “Vigário de Cristo”? Em circunstâncias normais, a única resposta concebível à questão, teria sido o Imperador em Constantinopla; mas o trono imperial, no momento, era ocupado por Irene, consorte do imperador Leão IV de 775 a 780, regente durante a infância de seu filho Constantino VI de 780 a 790, comandatária de 792 até 797 e finalmente Imperatriz do Império Romano do Oriente de 797 a 802. A Imperatriz era notória por ter cegado e assassinado seu próprio filho, mas nas mentes do Papa e de Carlos Magno isso era quase imaterial, bastando que ela fosse mulher. O sexo feminino era conhecido por ser incapaz de governar e pela velha tradição sálica (a Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão), excluída de tal possibilidade. No que concerne à Europa Ocidental, o trono dos Imperadores estava vago: a reivindicação de Irene a ele era apenas uma prova adicional, se alguma fosse necessária, da degradação em que havia caído o chamado Império Romano.
Se não havia um Imperador vivo ao tempo, o Papa deu o extraordinário passo para criar um. Desde 727 o papado havia estado em conflito com os predecessores de Irene em Constantinopla por uma série de questões, principalmente a permanente aderência à doutrina do iconoclasta, a destruição de imagens ou monumentos cristãos e com isso o Império Bizantino na Itália Central, a partir de 750 havia sido anulado.
Conferindo a coroa imperial a Carlos Magno, o Papa trouxe a si próprio o direito de indicar o Imperador dos Romanos, estabelecendo a coroa imperial como seu presente pessoal, mas simultaneamente garantindo a si próprio uma implícita superioridade ao Imperador que ele havia criado. E porque os bizantinos se haviam demonstrado tão insatisfatórios de todos os pontos de vista – político, militar e doutrinário – ele selecionaria um ocidental: aquele que, por sua sabedoria, política e vastidão de seus domínios se apresentasse acima de seus contemporâneos.
Portanto, com a coroação de Carlos Magno, o Império Romano permaneceu, no que concerne a Carlos Magno e ao Papa Leão, uno e indivisível, com Carlos como seu imperador, embora a coroação tenha sido furiosamente contestada em Constantinopla.
Segundo o cronista Theophanes, membro da aristocracia bizantina e depois monge, a reação de Carlos Magno, à sua coroação, foi tomar os primeiros passos para assegurar o trono de Constantinopla, através do envio de ofertas a Irene, às quais ela teria reagido favoravelmente.
É importante distinguir entre os conceitos universal e local do Império, ainda controvertido entre historiadores. De acordo com o primeiro, o Império era uma monarquia universal, uma espécie de confederação mundial, cuja unidade transcendia qualquer distinção menor; e o Imperador, merecedor da obediência da Cristandade. De acordo com o segundo, o Imperador não tinha ambição de domínio universal; seu reino era limitado como o de qualquer outro governante e quando apresentou queixas mais amplas, tinha como objetivo se preservar dos ataques do Papa ou do imperador bizantino. De acordo com essa visão, a origem do Império deve ser explicada por circunstâncias locais específicas ao invés de teorias mais abrangentes. Entretanto, na primavera de 813, em Aachen, Carlos Magno indicou seu único filho vivo, Luís, como imperador, sem recorrer a Roma, mas apenas pela aclamação de seus francos, ou seja, uma aclamação cristã franca e não romana, significando a independência de Roma e a explicitação de um Império Franco.

2 - Título Imperial

Carlos Magno usou tais circunstâncias para reivindicar seu título de “Renovador do Império Romano”, que havia declinado sob os bizantinos.
O título de Imperador permaneceu na família Carolíngia por muitos anos, mas divisões de território e a luta pela supremacia do Estado Franco, enfraqueceram o seu significado. O próprio Papado nunca esqueceu o título nem abandonou o seu direito de concedê-lo. Quando a família de Carlos Magno deixou de produzir herdeiros de valor, o Papa, com muita satisfação, coroou qualquer magnata italiano que melhor o protegesse de seus inimigos locais. O Império permaneceria em existência contínua por mais de um milênio, como o “Sacro Império Romano”, um verdadeiro sucessor imperial de Carlos Magno.

3 - Diplomacia Imperial

A iconoclastia (destruição deliberada dos ícones ou imagens religiosas) da dinastia Isáurica bizantina (também chamada de dinastia Síria, que governou o império Bizantino entre 717 e 802) foi endossada pelos francos. O Segundo Concílio de Niceia reintroduziu a veneração de ícones, sob a Imperatriz Irene, em 787. O Concílio não foi reconhecido por Carlos Magno, já que emissários francos não haviam sido convidados, embora governasse mais de três províncias do império clássico romano e fosse considerado com a mesma dignidade do imperador bizantino. O Papa apoiava a reintrodução da veneração icônica, mas politicamente divergia do Bizâncio; certamente, ele desejava aumentar a influência do papado, para honrar seu salvador Carlos Magno e para resolver questões constitucionais que então criavam problemas a juristas europeus, em uma era em que Roma não se encontrava nas mãos de um imperador. Assim, a aceitação do título imperial não foi uma usurpação aos olhos dos francos ou italianos; mas foi assim visto no Bizâncio, onde foi protestado por Irene e seu sucessor Nikephoros I, nenhum dos quais tinha grande efeito ao manifestar seus protestos.
Os romanos orientais, contudo, ainda mantinham vários territórios na Itália: Veneza, Reggio (na Calábria), Otranto (em Apulia) e Nápoles. Tais regiões permaneceram fora das mãos francas até 804, quando os venezianos, separados por lutas internas, transferiram sua submissão à Coroa de Ferro de Pepino, filho de Carlos Magno, com isso encerrando a Paz de Nikephoros (paz entre os impérios Franco e Bizantino). Nikephoros devastou as costas com suas frotas, iniciando o único real exemplo de guerra entre bizantinos e francos. O conflito durou até 810, quando o partido pro Bizâncio de Veneza entregou esta cidade de volta ao governador bizantino e os dois imperadores da Europa fizeram paz. Em 812, o imperador bizantino Michael I Rangabe reconheceu seu status de imperador, não necessariamente “Imperador dos Romanos”.

4 - Ataques Dinamarqueses

Após a conquista da Nordalbíngia [6], a fronteira franca foi posta em contato com a Escandinávia. Os pagãos dinamarqueses, habitando a Península da Jutelândia, tinham ouvido muitas histórias sobre as ameaças dos francos e da fúria que seu rei Cristão dirigia aos seus vizinhos pagãos. Em 808 o rei dos dinamarqueses, Godfred, expandiu o vasto Danevirke, um sistema defensivo de fortificação de terra, através do istmo de Schleswig. Tal sistema protegia a terra dinamarquesa e dava a Godfred a oportunidade de ameaçar a Frisia e Flanders com ataques piratas, subjugando aliados dos francos. Assassinado por um franco ou um de seus próprios homens, Godfred foi sucedido por seu sobrinho Hemming, que concluiu, com Carlos Magno, o Tratado de Heiligen, em 811.

5 - Morte

De acordo com Einhard, Carlos Magno esteve com boa saúde até os quatro últimos anos de sua vida, quando passou a sofrer de febres e sem energia. Contudo, mesmo naqueles tempos ele seguia mais os seus próprios conselhos do que os conselhos dos médicos.
Em 813, Carlos Magno chamou à sua corte, Luís, o Pio, rei da Aquitânia, seu único filho legítimo sobrevivente, lá coroando-o como seu co-imperador e enviando-o de volta à Aquitânia. Ele então passou o outono caçando antes de retornar a Aachen, em primeiro de novembro. Em janeiro foi acometido de pleurisia, caindo em profunda depressão – principalmente porque muitos de seus planos não foram realizados – que o levou à cama em 21 de janeiro e o matou em 28 do mesmo mês, às nove horas, após tomar a comunhão, aos setenta e dois anos de idade e após 47 anos de reinado. Foi enterrado no mesmo dia, na Catedral de Aachen. 

Mapa da Europa cerca do ano 814
Luís sucedeu-o como Carlos havia pretendido. Deixou um testamento alocando seus bens em 811 que não foi atualizado antes de sua morte. Deixou a maior parte de seus bens à Igreja para serem usados como caridade. Seu Império, na totalidade, durou somente uma outra geração; sua divisão, de acordo com o costume, entre os filhos de Luís, após a sua morte, conduziu à fundação dos modernos Estados da Alemanha e da França.
Nas décadas seguintes seu império foi dividido entre seus herdeiros e ao final dos anos 800 havia sido dissolvido. Contudo, Carlos Magno tornou-se uma figura lendária de qualidades míticas.

Uma história posterior, contada por Otho de Lomello, Conde do Palácio de Aachen ao tempo do Imperador Otto III (cerca do ano 1000), atestaria que ele e Otto haviam descoberto a tumba de Carlos Magno que, segundo eles, estaria sentado em um trono, usando uma coroa e segurando um cetro, com sua carne praticamente perfeita.
Em 1165, sob o Imperador Frederick Barbarossa (1122-1190), Carlos Magno foi canonizado por razões políticas, fato não reconhecido pela Igreja. Sua tumba foi reaberta e o Imperador colocado num esquife feito de ouro e prata, conhecido como Karlsschrein.


Segue na próxima postagem com a Parte 4 de 4


[1] Povo de origem germânica que ocupou a Península Itálica na última parte do século VI, com seu reino subdividido num número variável de ducados governados por duques autônomos, ainda subdivididos a nível municipal. A capital do reino era Pavia, situada na região da Lombardia, ao norte da Itália.
[2] A Pannonia estava localizada no território atual do oeste da Hungria, leste da Áustria, norte da Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina e noroeste da Sérvia. Durante o Período das Migrações no século V, algumas partes da Pannonia foram cedidas aos Hunos pelos romanos. Após o colapso do Império Huno em 454, muito ostrogodos foram estabelecidos na área como federados aos romanos. O Império Romano do Oriente controlou partes do sul da Pannonia no século VI. Posteriormente, ela foi novamente invadida pelos ávaros e os eslavos, mas tornou-se independente apenas a partir do século VII. Em 790 foi então invadida pelos Francos.
[3] Khagan é um título de graduação imperial nas línguas turca, mongol e outras, equivalente ao status de imperador e alguém que governa um khaganato (império).
[4] Os Obotritas foram uma confederação de tribos do oeste eslavo medieval, ao norte da Alemanha. Por décadas eles foram aliados de Carlos Magno em suas guerras contra os saxões germânicos e os Veleti eslavos. Sob o comando do príncipe Thrasco, os obotritas derrotaram os saxões na batalha de Bornhöved (798). Os saxões ainda pagãos foram dispersados pelo imperador e parte de sua terra original, ao norte do Elba, foi entregue aos obotritas em 804 como recompensa por sua vitória.
[5] Os Veleti eram um grupo de tribos medievais dentro do território do que hoje é o nordeste da Alemanha, aparentado com os eslavos polabianos (poloneses). Junto com outros grupos eslavos entre os rios Elba e Oder, eles eram frequentemente descritos por fontes germânicas como Wends.
[6] Também conhecida como Albíngia do Norte, foi uma das quatro regiões administrativas do Ducado da Saxônia medieval, junto com Angria, Eastphalia e Westphalia. O nome da região é baseado no nome latino Alba, do rio Elba, e se refere à área predominantemente localizada ao norte do Baixo Elba, grosseiramente correspondendo à atual região do Holstein, norte da Alemanha, o mais antigo domínio conhecido dos saxões.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

CHARLEMAGNE OU CARLOS MAGNO
(Parte 2 de 4)

III - ESPOSAS, CONCUBINAS E FILHOS

Carlos Magno teve 18 filhos com oito de suas dez esposas ou concubinas conhecidas. Entretanto, teve apenas quatro netos legítimos, os quatro filhos de seu quarto filho Luís. Além disso, ele teve um neto, Bernardo da Itália (o único filho de seu terceiro filho Carlomano, rebatizado Pepino da Itália), ilegítimo, mas incluído na linha de hereditariedade. Entre seus descendentes estão várias dinastias reais que incluem os Habsburgs, Capetas e Plantagenetas. Em consequência, a maioria, senão todas as famílias nobres europeias estabelecidas desde então podem, genealogicamente, ligar algo do seu passado a Carlos Magno.
Durante a primeira paz de alguma duração substancial em seu reino (780-782), Charles começou a colocar seus filhos em posições de autoridade. Em 781, durante visita a Roma, ele fez seus dois filhos mais novos reis, coroados pelo Papa. O mais velho dos dois, Carlomano, foi feito rei da Itália, tomando a Coroa de Ferro que seu pai havia usado pela primeira vez em 774, sendo na mesma cerimônia rebatizado como Pepino (não confundir com o mais velho e possivelmente ilegítimo filho de Carlos Magno, Pepino, o Corcunda). O mais jovem dos dois, Luís, tornou-se rei da Aquitaine. Carlos Magno ordenou que esses seus dois filhos fossem criados nos costumes de seus reinos, dando a seus regentes algum controle sobre seus sub-reinos mantendo o poder real, embora pretendendo que seus filhos herdassem seus reinos. Nunca tolerou insubordinação de seus filhos: em 792 ele baniu Pepino, o Corcunda, para a Abadia de Prüm porque o jovem uniu-se a uma rebelião contra ele.
Carlos Magno determinou-se a bem educar suas crianças, incluindo suas filhas, da mesma forma que seus pais haviam insuflado a importância de aprender com ele em tenra idade. Seus filhos também aprenderam habilidades de acordo com seus status aristocráticos, que incluíam treinamento em equitação para os homens e bordado, fiação e tecelagem para as mulheres.
Os filhos lutaram muitas guerras para seu pai. Carlos era particularmente preocupado com os bretões, cujas fronteiras ele repartia e que se insurgiram em, pelo menos, em duas ocasiões. Ele também lutou contra os saxões em múltiplas ocasiões. Em 805 e 806 ele foi enviado à Böhmerwald (moderna Bohemia) para se ocupar dos eslavos que lá residiam (tribos bohemias, ancestrais dos modernos tchecos). Sujeitou-os à autoridade franca e devastou o vale do Elba, forçando-os a pagar tributos. Pepino teve que manter as fronteiras Ávara e Beneventana e lutou contra os Eslavos ao norte. Ele foi singularmente motivado a combater o Império Bizantino, quando o conflito surgiu após a coroação imperial de Carlos Magno, e uma rebelião Veneziana. Luís, finalmente, foi o encarregado da Marca Espanhola [1] e lutou contra o Duque de Benevento no sul da Itália, pelo menos em uma ocasião. Tomou Barcelona num grande sítio, em 797.
Carlos Magno manteve suas filhas com ele, em casa, recusando-lhes casamento (embora tenha anteriormente permitido o casamento de sua filha mais velha Rotrude com Constantino VI do Bizâncio, este enlace foi anulado quando Rotrude tinha 11 anos de idade). A oposição de Carlos Magno ao casamento de suas filhas pode, possivelmente, ter pretendido evitar a criação de ramos secundários da família que pudessem desafiar a linha principal. Contudo, ele tolerou suas relações extramaritais, mesmo recompensando seus “maridos habituais” e enriquecendo os netos ilegítimos por eles produzidos. Aparentemente, ele também recusava crer nas histórias de seus comportamentos selvagens. Após sua morte, as filhas sobreviventes foram banidas da corte por seu irmão, o pio Luís, para residirem em conventos que elas tinham recebido por herança de seu pai. Pelo menos uma delas, Bertha, teve uma relação reconhecida, se não casamento, com Angilbert, um membro da corte de Carlos Magno.

IV - CAMPANHAS ITALIANAS

1 – Conquista do Reino Lombardo

Com sua ascensão em 772, o Papa Adriano I exigiu o retorno de certas cidades do antigo Exarcado de Ravena [2], de acordo com a promessa de Desiderius (último governante lombardo a exercer um reinado regional). Ao invés disso, Desiderius invadiu a Pentápolis (grupo de cinco cidades às margens do Adriático: Rimini, Pesaro, Fano, Sinigaglia e Ancona), dirigindo-se para Roma. Adriano enviou embaixadores a Carlos Magno, solicitando que ele cumprisse as promessas de seu pai Pepino. Desiderius enviou seus próprios embaixadores negando as solicitações do Papa. Os embaixadores se encontraram em Thionville e Carlos Magno tomou o partido do Papa, exigindo o cumprimento das suas solicitações, com o que jurou Desiderius nunca concordar. Carlos Magno e seu tio Bernardo atravessaram os Alpes em 773 e o perseguiram até Pavia (Próximo de Milão) que passaram a sitiar. Carlos Magno abandonou temporariamente o cerco para negociar com Adelchis, filho de Desiderius, que levantava um exército em Verona. O jovem príncipe foi perseguido até o litoral do Adriático e fugiu para Constantinopla em busca de assistência de Constantino V, que fazia guerra contra a Bulgária.
O cerco durou até 774, quando Carlos Magno visitou o Papa em Roma, onde confirmou as promessas de terras de seu pai, recebendo do Papa o título de patrício. Retornou então a Pavia, onde os lombardos iniciavam sua rendição. Em troca de suas vidas os lombardos renderam-se, abrindo seus portões no início do verão. Desiderius foi enviado para a Abadia de Corbie e seu filho Adelchis morreu em Constantinopla. Carlos Magno corou-se com a Coroa de Ferro fazendo com que os magnatas da Lombardia lhe pagassem homenagem em Pavia. Somente o Duque Arechis não se submeteu e proclamou sua independência. Com isso Carlos Magno tornou-se senhor da Itália como rei dos lombardos, deixando a Itália com uma guarnição em Pavia e alguns condes francos em posição no mesmo ano.
A instabilidade prosseguiu na Itália e em 776 os Duques Hrodgaud de Friuli e Hildebrand de Spoleto se rebelaram. Carlos Magno retornou rapidamente da Saxônia, derrotando o Duque de Friuli (assassinado em seguida) em batalha. O Duque de Spoleto assinou um tratado, mas seu vizinho conspirador, Arechis, não foi subjugado. Com isso o norte da Itália era fiel a Carlos Magno.

2 – Sul da Itália

Em 787, Carlos Magno dirigiu sua atenção para o Ducado de Benevento, onde Arechis II reinava independentemente com o autoconcedido título de Príncipe. O sítio de Salerno, por Carlos Magno, forçou Arechis II a submeter-se, mas após sua morte, em 787, seu filho Grimoald III proclamou o Ducado de Benevento novamente independente. Grimoald foi atacado várias vezes pelos exércitos de Carlos Magno ou de seus filhos sem que alcançassem vitória definitiva. Carlos Magno perdeu interesse na região e nunca mais retornou ao sul da Itália onde Grimoald manteve seu ducado livre da suserania franca.

V - EXPANSÃO CAROLÍNGIA PARA O SUL

1 – Vasconia (ou Gasconha) e os Pirineus

A guerra conduzida por Pepino, na Aquitânia, embora com um final satisfatório aos francos, provou que a estrutura de poder ao sul do Loire era fraca e não confiável. Após a derrota e morte de Waiofar (último duque independente da Aquitânia), em 768, quando a Aquitânia novamente se submetia à dinastia Carolíngia, uma nova rebelião eclodiu em 769, liderada por Hunald II, um possível filho de Waifer. Ele refugiou-se com o aliado Duque Lupus II da Gasconha o qual, por medo de uma reprise de Carlos Magno, entregou-o ao novo Rei dos Francos a quem hipotecou lealdade, o que parecia confirmar a paz na área Basca ao sul do Garone.
Cauteloso sobre novos levantes bascos, Carlos Magno parece ter tentado conter o poder do Duque Lupus fazendo Seguin o Conde de Bordeaux (778) bem como outros condes de antecedentes francos nas áreas fronteiriças (Toulouse, Condado de Fézensac). O Duque basco, por seu lado, parece ter contribuído decisivamente ou maquinado a Batalha do Passo de Roncevaux (“traição basca”). A derrota do exército de Carlos Magno em Roncevaux (778) confirmou sua determinação de governar diretamente pelo estabelecimento do Reino da Aquitaine (dirigido por Luís, o Piedoso) apoiado numa força base de oficiais francos, distribuindo terras entre colonizadores e alocando terras à Igreja, que tomara como aliada. Um programa de cristianização foi posto em prática através dos Altos Pirineus (778).
O novo arranjo político para a Vasconia não assentou bem aos lordes locais. Em 788 Adalric lutava e capturava Chorson, o conde carolíngio de Toulouse. Este foi, ao final, libertado, mas Carlos Magno, encolerizado com isso, decidiu depô-lo, colocando em seu lugar seu curador William de Gellone. Este lutou contra os bascos e derrotou-os após banir Adalric.
De 781 (Pallars, Ribagorça) a 806 (Pamplona sob influência franca, usando o ducado de Toulouse como base), Carlos Magno firmou autoridade franca sobre os Pirineus, subjugando as fronteiras sudoeste de Toulouse (790) e estabelecendo condados vassalos ao sul dos Pirineus para constituir a Marca Espanhola. Em 794, um vassalo franco, o lorde basco Belasko governou Álava, mas Pamplona permaneceu sob Cardovan e controle local até 806. Belasko e os condados da Marca Espanhola proveram a base necessária para atacar os Andaluzes (uma expedição conduzida por William Conde de Toulouse e Luís o Piedoso para capturar Barcelona em 801). Eventos no ducado de Vasconia (rebelião em Pamplona, deposição do conde em Aragon, deposição do Duque Seguin de Bordeaux, levante dos lordes bascos etc...), provaram sua efemeridade após a morte de Carlos Magno.

2 – Campanha de Roncesvalles

De acordo com o historiador muçulmano Ibn al-Athir, a Dieta (Corpo Deliberativo do Sacro Império Romano) de Paderborn havia recebido os representantes muçulmanos de Zaragoza, Girona, Barcelona e Huesca. Seus líderes haviam sido entocados na Península Ibérica por Abd ar-Rahman I, o Emir Omíada de Córdova. Esses mandatários “sarracenos” (mouros e muladis) ofereceram reverência ao rei dos Francos em troca de apoio militar. Enxergando uma oportunidade de estender a Cristandade e seu próprio poder e acreditando que os saxões eram uma nação totalmente conquistada, Carlos Magno concordou em ir à Espanha.
Em 778 ele conduziu o exército neustriano (da Nêustria, região oeste do reino dos francos) através dos Pirineus Ocidentais, enquanto os austrasianos (ducado da Austrásia), lombardos e burgundianos (de Burgundy) atravessaram pelos Pirineus Orientais. Os exércitos se encontraram em Zaragoza e Carlos Magno recebeu as reverências dos mandatários muçulmanos Sulayman al-Arabi e Kasmin ibn Yusuf, mas a cidade não caiu. De fato, Carlos Magno enfrentou a mais árdua batalha de sua carreira. Os muçulmanos o forçaram a retirar-se e ele decidiu-se a voltar para casa pois não podia confiar nos Bascos, a quem ele havia subjugado na conquista de Pamplona. Iniciou sua retirada da Iberia mas ao passar pelo Passo de Roncevaux ocorreu um dos mais famosos eventos do seu reinado. Os Bascos atacaram e destruíram sua retaguarda e carros de carga. A Batalha do Passo de Roncevaux, menos uma batalha do que uma escaramuça, deixou muitos mortos famosos, incluindo o mordomo Eggihard, o conde do palácio Anselmo e o guardião das fronteiras com a Bretanha (Breton March), Rolando, que inspirou a subsequente criação da “Canção de Rolando”.

3 – Contato com os Sarracenos [3]

A conquista da Itália colocou Carlos Magno em contato com os Sarracenos que, à época, controlavam o Mediterrâneo. Seu filho mais velho, Pepino, o Corcunda, esteve muito ocupado com os sarracenos na Itália. Carlos Magno conquistou a Córsega, Sardenha e as Ilhas Baleares. As ilhas foram frequentemente atacadas por piratas sarracenos, mas os condes de Gênova e da Toscana controlaram esses ataques com grandes frotas até o final do reinado de Carlos Magno. Ele teve também contato com a corte do califado em Bagdá e em 797 (ou possivelmente 801) o califa Harun al-Rashid o presenteou com um elefante asiático (Abul-Abas) e um relógio.

4 – Guerras com os Mouros [4]

Na Espanha, os conflitos com os mouros continuaram, sem atenuação, por toda a última metade de seu reinado, com Luís encarregado da fronteira espanhola. Em 785 seus homens capturaram Girona permanentemente e estenderam o controle franco no litoral catalão até o final do reinado de Carlos Magno (a área permaneceu nominalmente franca até o Tratado de Corbeil, em 1258). Os chefes muçulmanos no nordeste da Espanha Islâmica estavam em permanente rebelião contra a autoridade de Córdova e frequentemente recorriam à ajuda dos francos. A fronteira franca foi lentamente se estendendo até 795, quando Girona, Cardona, Ausona e Urgell foram unidas à nova fronteira Espanhola, dentro do velho ducado da Septimania.
Em 797, Barcelona, a maior cidade da região caiu aos francos, quando Zeid, seu governador, rebelou-se contra Córdova e, falhando, entregou-a a eles. A autoridade Omíada recapturou-a em 799. Entretanto, Luís da Aquitânia marchou com todo o exército de seu reino, pelos Pirineus, e sitiou Córdova por dois anos, quando ela capitulou. Os francos continuaram a pressionar contra o Emir, tomando Tarragona e Tortosa em 811. A última conquista os levou à foz do Ebro, dando-lhes acesso a Valência e forçando o Emir Al-Hakam a reconhecer suas conquistas em 813.

Segue na próxima postagem, com a Parte 3 de 4.


[1] Área militar neutra além da original província da Septimania, estabelecida por Carlos Magno em 795, como barreira defensiva entre os mouros omíadas de Al-Andalus e o Império Carolíngio Franco.
[2] O Exarcado de Ravena, ou da Itália, foi um território do Império Romano do Oriente (Império Bizantino), na Itália, que sobreviveu de 584 a 751, quando o último exarca (mantenedor de qualquer dos vários escritórios históricos, alguns deles políticos ou militares e outros eclesiásticos) foi condenado à morte pelos Lombardos (povo germânico que governou a maior parte da Península Itálica, de 568 a 774, com origens próximas do Elba, ao norte da Alemanha e sul da Suécia, antes do Período da Migração). Foi um dos dois exarcados estabelecidos pelo Imperador Justiniano em sua Reconquista do ocidente, para mais efetivamente poder administrar os territórios, junto com o Exarcado da África (Cartago).
[3] Sarraceno foi um termo usado por escritores cristãos, durante a Idade Média, para se referir a muçulmanos, principalmente de origem árabe, mas também de origem turca ou persa. O significado do termo evoluiu com o uso na história; nos primeiros séculos da era cristã, escritos gregos e latinos usaram o termo para se referir às pessoas que habitavam as áreas desérticas da província romana de Arabia Petrae ou próximas dela, bem como da Arábia Deserta. Durante os primórdios da Idade Média na Europa, o termo veio a ser associado com as tribos da Arábia. A mais antiga fonte que menciona “sarracenos” relacionados ao Islã, data do século VII e foi encontrada num comentário cristão, em grego, que discutia, entre outras coisas, a conquista do Levante pelos muçulmanos, ocorrida após o estabelecimento do Califado Rashidun, após a morte de Maomé. Pelo século XII, “sarraceno” se tornara sinônimo de “muçulmano”.
[4] O termo “Mouro” é uma palavra estrangeira primeiramente usada por cristãos europeus para designar os habitantes muçulmanos do Maghreb (região oeste do norte da África), Península Ibérica, Sicília e Malta durante a Idade Média. Os mouros eram, inicialmente, os indígenas Bérberes do Maghreb. O termo foi, posteriormente, aplicado a árabes e habitantes da Península Ibérica arabizados.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

 



CHARLEMAGNE OU CARLOS MAGNO
(Parte 1 de 4)


I - INTRODUÇÃO

Embora missionários como Patrick e Agostinho tenham feito do Cristianismo um enorme sucesso nas Ilhas Britânicas, na realidade havia somente uma tribo em toda a Europa continental que era, na época, Cristã: os Francos, cujo rei se havia convertido em 496. Todas as demais eram pagãs.
Tudo isso mudou quando Carlos Magno ou Carlos, o Grande, tornou-se Rei dos Francos, governando de 771 a 814. Ele foi um grande conquistador militar e canalizou esse talento a serviço da Igreja, pois ao conquistar a maior parte da Europa Ocidental e uma boa parte da região oriental, ele usou a força militar para constranger todos os seus súditos a se tornarem cristãos. Ele também realizou esforços missionários mais sutis, encorajou a difusão de monastérios beneditinos e, especialmente, a cópia de manuscritos teológicos.
O Papa o coroou Imperador Romano no ano 800, séculos após o colapso do antigo Império Romano na Europa, num ato que enfureceu o Imperador do Oriente, que ainda reivindicava o mando de ambos, ocidental e oriental. Seu “Sacro Império Romano” diminuiu rapidamente após a sua morte, mas permaneceu como uma força importante da Europa rumo à Reforma. Embora centrado na moderna Alemanha, sua influência espalhou-se de forma muito mais ampla.
Ironicamente, Carlos Magno presenteou os cristãos de hoje com um dilema. De um lado, perguntamos se as ações de Carlos Magno, com sede de sangue ao difundir a Igreja, não foram totalmente hostis ao evangelho de Cristo? De outro lado nos perguntamos se a Igreja teria sobrevivido sem ele?
Carlos Magno, em francês Charlemagne, em inglês Charles the Great e numerado Charles I, nascido em 2 de abril de 748 e morto em 28 de janeiro de 814, foi o Rei dos Francos a partir de 768, o Rei dos Lombardos [1] a partir de 774 e o Imperador dos Romanos a partir de 800. Durante a Antiga Idade Média, ele uniu a maioria da Europa Ocidental e Central. Ele foi o primeiro imperador reconhecido a governar a Europa Ocidental desde a queda do Império Romano Ocidental três séculos antes. O Estado Franco expandido, que Carlos Magno fundou, é também chamado de Império Carolíngio. Foi muito mais tarde canonizado pelo antipapa Pascal III.
A “Francia”, “Reino dos Francos” ou “Império dos Francos” foi o maior reino bárbaro pós-romano na Europa Ocidental. Foi governado pelos francos durante a “Antiguidade Tardia” e a “Antiga Idade Média” e predecessor dos modernos estados da França, Bélgica, Netherlands, Luxemburgo e Alemanha. Após o Tratado de Verdun, em 843, a Francia Ocidental tornou-se o predecessor da França, assim como a Francia Oriental, o da Alemanha. A Francia esteve entre os últimos reinos germânicos sobreviventes do período migratório dos povos germânicos (370 a 580) antes de sua partição em 843.
Carlos Magno era o filho mais velho de Pepino, o Breve e Bertrada de Laon, nascido antes de seu casamento canônico. Tornou-se rei dos Francos em 768 com a morte de seu pai, inicialmente como comandante com seu irmão Carlomano I, até a morte deste em 771. Como mandante único, continuou a política de seu pai em direção ao Papado, tornando-se seu protetor, removendo os Lombardos do poder no norte da Itália e liderando uma incursão à Espanha muçulmana. Realizou campanhas contra os Saxões ao seu leste, cristianizando-os sob pena de morte, conduzindo a eventos como o Massacre de Verden, em que ordenou a morte de 4.500 saxões (782), ocorrido em Verden, hoje na Baixa Saxônia, Alemanha. Alcançou o máximo do seu poder em 800, ao ser coroado Imperador dos Romanos pelo Papa Leão III, na noite de Natal, na velha basílica de São Pedro, em Roma.
Carlos Magno tem sido chamado de “Pai da Europa”, por ter unido a maioria da Europa Ocidental pela primeira vez desde a era clássica do Império Romano, e por ter unido partes da Europa que nunca tinham estado antes sob mando Franco ou Romano. Seu comando estimulou o “Renascimento Carolíngio”, um período de grande atividade cultural e intelectual na Igreja Ocidental. A Igreja Ortodoxa Oriental o viu menos favoravelmente pelo seu apoio ao “filioque [2]” e pelo Papa te-lo preferido como Imperador ao invés da primeira mulher rainha do Império Bizantino, Irene de Atenas. Esta e outras disputas conduziram ao rompimento posterior entre Roma e Constantinopla, no Grande Cisma de 1054.
Carlos Magno casou-se pelo menos quatro vezes e teve três filhos legítimos que viveram até a idade adulta, mas somente o mais jovem deles, Luís, o Piedoso, sobreviveu para sucedê-lo. Também teve numerosos filhos ilegítimos com suas concubinas. Morreu em 814 e foi conduzido ao descanso na Catedral Aachen, em sua cidade imperial de Aachen.

II - ANTECEDENTES

O termo “Francos” emergiu no século III, envolvendo as tribos Germânicas entre o Baixo Reno e o Rio Ems (hoje entre terras de Holanda, Bélgica, Alemanha e o Mar do Norte), que se estabeleceram na fronteira norte do Império Romano, incluindo os Bructeri, Ampsivarii, Chamavi, Chattuarii e Salians.

Posições aproximadas das tribos Germânicas no século III
Mais tarde o termo “francos” foi associado às dinastias germânicas romanizadas, dentro do então moribundo Império Romano do Ocidente que, ao final, comandou toda a região entre os rios Reno e Loire, impondo o seu poder a muitos outros reinos pós romanos e germânicos. Ainda mais tarde, os governantes francos foram reconhecidos pela Igreja Católica como sucessores dos antigos mandatários do Império Romano do Ocidente. O núcleo dos territórios francos dentro do Império Romano do Ocidente, ficava próximo aos rios Reno e Maas (Rio Meuse), ao norte. O núcleo territorial original do reino Franco, veio a ser conhecido por “Austrasia” (as terras orientais), ao passo que o grande reino franco romanizado ao norte da Gália veio a ser conhecido como “Neustria”.

França nos primórdios do século VIII
Embora todas tivessem participado do exército romano, os Salians tiveram autorização para se estabelecer dentro do Império Romano.
Alguns dos líderes francos, como Flavius Bauto e Arbogastes, se aliaram à causa dos romanos, mas outros mandatários, como Mallobaudes, estiveram ativos em solo romano por outras razões. Após a queda de Arbogastes, seu filho Arigius teve sucesso no estabelecimento de um condado hereditário em Trier (sudeste da atual Alemanha) e, após a queda do usurpador Constantino III, alguns francos apoiaram o usurpador Jovinus, morto em 413, mas os romanos tiveram cada vez mais dificuldade para gerenciar os francos dentro de suas fronteiras.
Cerca de 428, o rei Clódio, cujo reino pode ter sido no Civitas Tungrorum [3] (com sua capital em Tongeren), lançou um ataque em território romano estendendo seu reino até Camaracum (Cambrai) e o Somme. Embora relatado que Flavius Aetius derrotou uma união de casamento desse povo (cerca de 431), este período marca o início de uma situação que duraria por muitos séculos: os francos germânicos como mandatários de um número crescente de súditos Gallo-Romanos.
Após o período em que pequenos reinos interagiram com as restantes instituições Gallo-Romanas ao sul, um só reino os uniu, fundado por Clóvis I, coroado Rei dos Francos, em 496 e sua dinastia ficou conhecida como dinastia Merovíngia. Em um período de conflitos entre facções, nos anos 450 e 460, Quilderico I, um franco, foi um de vários líderes militares comandando forças romanas com várias afiliações étnicas na Gália Romana, enfrentando competição de um romano pelo reino dos francos associados às forças romanas do Loire. Os Merovíngios, portanto, considerados parentes de Clódio, surgiram dentro dos exércitos Gallo-Romano, com Quilderico I e seu filho Clóvis sendo chamados de Reis dos Francos no exército Gallo-Romano, ainda antes de ter qualquer reino territorial franco. Assim que Clóvis derrotou Syagrus, seu adversário romano, pelo poder ao norte da Gália, juntou-se aos reis dos francos ao norte e leste, bem como a outros reinos pós romanos já existentes na Gália: Visigodos, Burgundians e Alemanni.
Pelo século VI, a tribo ocidental germânica dos Francos havia sido cristianizada, em considerável medida pela conversão de Clóvis I. A Francia, governada pelos Merovíngios, era o mais poderoso dos reinos que sucederam ao Império Romano do Ocidente. Logo após a Batalha de Tertry, os Merovíngios caíram na impotência pela qual criaram os chamados “reis que não fazem nada”. Quase todos os poderes do governo eram exercidos por seu principal servidor, o “prefeito do palácio” (mordomo).
A dinastia Merovíngia foi, ao final, substituída pela Dinastia Carolíngia, criada em sua base, que se tornou, ao final, a dinastia dos Novos Imperadores da Europa Ocidental no ano 800. Sob as campanhas quase contínuas de Pepino de Herstal, Carlos Martel, Pepino o Breve, Carlos Magno e Luís o Piedoso – pai, filho, neto, bisneto e trineto – a maior expansão do Império Franco foi garantida ao início do século IX, nessa época já batizada de Império Carolíngio.
Em 687, Pepino de Herstal, prefeito do palácio de Austrasia, terminou com a contenda entre vários reis e seus prefeitos com sua vitória em Tertry. Ele tornou-se o único governante de todo o Reino Franco. Pepino era o neto de duas importantes figuras do Reino Austrasiano: Santo Arnulf de Metz e Pepino de Landen. Pepino de Herstal foi posteriormente sucedido por seu filho Carlos, mas tarde conhecido por Carlos Martel.
Após 737, Carlos governou os Francos como rei, mas declinando chamar-se Rei. Em 741, Carlos foi sucedido por seus filhos Carlomano e Pepino, o Breve (pai de Carlos Magno), como Prefeitos do Palácio. Em 743, os irmãos, para evitar o separatismo na periferia, resolveram reconhecer Quilderico III como o último rei merovíngio. Carlomano resignou ao seu posto em 746, tornando-se monge da Igreja. Como Quilderico III nunca tivesse participado dos assuntos públicos, Pepino resolveu tomar a coroa para si e enviou cartas ao Papa Zacarias, perguntando-lhe se o título de rei deveria pertencer a quem tivesse linhagem real ou a quem de fato exercesse o poder. O Papa Zacarias deu a sua decisão em 749, respondendo que quem detivesse o poder de fato, deveria ter também o título de rei, ordenando que Pepino o Breve se tornasse o verdadeiro Rei. Em 750 Pepino foi eleito por uma assembleia dos Francos e ungido pelo arcebispo assim elevado ao posto de Rei. Quilderico III foi enviado para um monastério e com isso a dinastia Merovíngia foi definitivamente substituída pela dinastia Carolíngia, nomeada de Carlos Martel.
O Papa Estevão II foi o Bispo de Roma de 26 de março de 752 até a sua morte em 25 de abril de 757 e marcou a histórica delineação entre o Papado Bizantino [4] e o Papado Franco [5]. Em 753, durante o seu pontificado, Roma estava enfrentando a invasão dos Lombardos (povo de origem germânica que governou a maior parte da Península Itálica de 568 a 774) e Estevão II fugiu da Itália para Paris em busca de ajuda de Pepino o Breve, que derrotou os Lombardos. Em retorno, Estevão II novamente ungiu e confirmou o reino de Pepino, desta vez adicionando seus jovens filhos Carolus (Carlos Magno) e Carlomano ao patrimônio real, tornando-se assim herdeiros do reino que então já cobria a maior parte da Europa Ocidental. Em 756, após derrotar os Lombardos, Pepino doou ao Papa Estevão II um território que, ao final, serviu de base legal ao estabelecimento dos Estados Papais, assim estendendo o governo temporal dos Papas além do Ducado de Roma [6].
Sob o mando Carolíngio, o Reino Franco se ampliou até abarcar uma área que incluía a maior parte da Europa Ocidental, com a divisão leste-oeste do reino formando a base da moderna França e Alemanha. A “Francia”, também chamada de “Reino dos Francos” ou “Império Franco”, foi o maior reino bárbaro pós-romano da Europa Ocidental. Ele foi governado pelos Francos durante o final da Antiguidade e o início da Idade Média, sendo o precursor dos modernos estados da França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Alemanha. Após o Tratado de Verdun, em 843, a Francia Ocidental tornou-se a precursora da França e a Francia Oriental a precursora da Alemanha.

II - ASCENÇÃO AO PODER

A data mais provável do nascimento de Carlos Magno é obtida de várias fontes que se contradizem. O ano de 742, calculado por Einhard a partir da data de sua morte, em janeiro de 814, com 72 anos, coloca o casamento de seus pais em 744. O ano de 747 dado pelos Anais Petaviani seria mais razoável, mas contradiz Einhard e outras poucas fontes, fazendo com que Carlos Magno morresse com 67 anos de idade. 

Busto de Carlos Magno
Catedral de Aachen.
O lugar exato do seu nascimento é desconhecido, embora historiadores tenham sugerido Aachen da atual Alemanha e Liège (Herstal) na Bélgica de hoje, como locais possíveis. As duas cidades ficam próximas da origem das famílias Merovíngia e Carolíngia. Outras cidades também foram sugeridas, incluindo Düren, Gauting, Mürlenbach, Quierzy e Prüm, sem que qualquer evidência definitiva resolva a questão.
Carlos Magno foi o filho mais velho de Pepino o Breve (714 a 24 de setembro de 768), que reinou de 751 à sua morte, e de sua esposa Bertrada de Laon (720 a 12 de julho de 783), filha de Caribert de Laon. Muitos historiadores consideram que Carlos Magno possa ter sido filho ilegítimo dado que Pepino só casou com Bertrada em 744, após o nascimento de Carlos Magno, fato que não o excluiu da sucessão. Os registros apenas consideram como seus irmãos, Carlomano e Gisela além de três crianças mortas em tenra idade: Pepino, Chrothais e Adelais. Seria tolice escrever algo sobre o nascimento, infância ou mesmo sua juventude, pois nada foi jamais escrito sobre o assunto.
Os mais poderosos funcionários do povo franco, o Prefeito do Palácio (Maior Domus) e um ou mais reis, eram indicados pela eleição do povo. As eleições não eram periódicas, mas eram mantidas como necessárias para eleger os servidores aos quais pertenciam os mais importantes assuntos de estado. Evidentemente, decisões provisórias podiam ser feitas pelo Papa que, ao final necessitavam ser ratificadas por uma assembleia do povo que se reunia anualmente.
Antes de ser eleito rei, em 751, Pepino o Breve, foi inicialmente um Prefeito, um alto posto que ele teve, “embora hereditário”, da mesma forma que seu pai Carlos Martelo, em propriedade conjunta com seu irmão Carlomano. Contudo, cada um tinha sua própria jurisdição geográfica. Quando Carlomano decidiu abdicar, para tornar-se um monge beneditino em Monte Cassino, a questão dessa disposição foi resolvida pelo Papa. Ele converteu a Prefeitura num reinado, concedendo a propriedade conjunta a Pepino, que ganhou o direito de passá-la por herança. 

O Reino Franco no ano de 768
Com a morte de Pepino em 24 de setembro de 768, em Paris, o reino passou para seus filhos “com assento divino”. Os francos, em assembleia geral, deram a ambos o título de rei, mas partiram o corpo do reino igualmente. Os “anais” contam uma versão levemente diferente, com o rei morrendo em Saint Denis, próximo de Paris e os dois lordes (senhores) sendo elevados à realeza, Carlos Magno em 9 de outubro, em Noyon e Carlomano, em data não especificada, em Soissons. Se nascido em 742, Carlos Magno tinha 26 anos, mas havia acompanhado seu pai, como seu braço direito, por vários anos, assim tendo obtido seu aperfeiçoamento militar. Carlomano tinha 17 anos de idade.
De qualquer forma, a língua sugere que houve duas heranças que teriam criado distintos reis, mas apenas uma herança conjunta com um reinado conjunto regido por dois reis iguais, Carlos Magno e seu irmão Carlomano. Carlos Magno recebeu a porção original de Pepino como Prefeito: as porções mais externas do reino, junto ao mar, Neustria, Aquitaine Ocidental e as partes setentrionais da Austrasia. A Carlomano coube a porção mais interna inicial de seu tio, sul da Austrasian Septimania, Aquitaine Oriental, Burgundy (Borgonha). Provence e Swabia (região cultural, histórica e linguística no sudoeste da Alemanha), na fronteira com a Itália. Não foi definitivamente estabelecido se essas duas jurisdições reverteriam ao outro irmão se um deles morresse ou se cada uma delas passaria aos descendentes do irmão falecido. Tudo continuou assim pelas décadas que vieram, até que os netos de Carlos Magno criaram reinos distintos.
O primeiro evento do reino dos irmãos foi a revolta da Aquitaine e Gasconha, em 769, no território dividido entre os dois reis. Um ano antes de sua morte, Pepino, o Breve, tinha finalmente derrotado Waifer, Duque da Aquitaine, após empreender uma destrutiva guerra de 10 anos contra a Aquitaine. Agora, Hunaldo II conduziu os aquitaineos até Angoulême. Carlos Magno encontrou-se com Carlomano, que se recusou a participar, retornando a Burgundy. Carlos partiu para a guerra, conduzindo um exército para Bordeaux, onde estabeleceu um forte em Fronsac. Hunaldo foi obrigado a fugir para a corte do Duke Lupus II da Gasconha. Lupus, temendo represália de Carlos Magno, entregou Hunaldo em troca da paz, que foi colocado num monastério. Os lordes gascões também se renderam e com isso a Aquitaine e a Gasconha foram afinal e totalmente subjugadas pelos Francos.
Os irmãos mantiveram relações indiferentes com a assistência de sua mãe Bertrada, mas em 770 Carlos Magno assinou um tratado com o Duque Tassilo III da Bavária e desposou uma princesa lombarda, Desiderata, a filha do rei Desiderius, para cercar Carlomano com seus aliados. Embora o Papa Estevão III tenha inicialmente se oposto ao casamento com uma princesa lombarda, concluiu que teria pouco a temer de uma aliança Franco-Lombarda.
Menos de um ano após o seu casamento, Carlos Magno repudiou Desiderata e desposou uma nobre de treze anos da Swabia, chamada Hildegard. A repudiada Desiderata retornou à corte de seu pai em Pavia, cuja ira aumentada o faria de bom grado aliar-se a Carlomano para derrotar Carlos Magno. Contudo, antes que hostilidades abertas fossem declaradas, Carlomano morreu em 5 de dezembro de 771, aparentemente de causas naturais, fazendo com que Gerberga, sua viúva, fugisse com seus filhos para a corte de Desiderius em busca de proteção.

Segue na próxima postagem com a parte 2 de 4.

[1] Os Lombardos ou Langobardos eram um povo germânico que governou a maior parte da Península Itálica, de 568 a 774, originário da Escandinávia. Os Reis dos Lombardos foram os monarcas do povo Lombardo desde o início do século VI até que a sua identidade se perdeu nos séculos IX e X. Após 568, os Reis Lombardos às vezes se se autointitulavam Reis da Itália. Após 774 não eram mais Lombardos, mas Francos. A partir do século XII, a coroa e relicário comemorativos, conhecido como a “Coroa de Ferro”, retrospectivamente tornou-se um símbolo do seu governo, embora nunca tenha sido usada pelos Reis Lombardos.
[2] Filioque é um termo latino que significa “e do Filho”, adicionado ao Credo original de Niceia e Constantinopla, comumente conhecido como Credo de Niceia, assunto de grande controvérsia entre o Cristianismo Oriental e Ocidental. É um termo que se refere ao Filho, Jesus Cristo, como um ponto de origem adicional do Espírito Santo. Não é o texto original do Credo atribuído ao Primeiro Concílio de Constantinopla (381), o segundo concílio ecumênico, que dizia que o Espírito Santo procede “do Pai”, sem adições de qualquer espécie como “e do Filho” ou “somente”.
[3] O Civitas Tungrorum foi um enorme distrito administrative romano, dominando o que é hoje o leste da Bélgica e o sul da Holanda. No início do Império Romano, ele ficava na província da Galia Belgica, mas mais tarde uniu-se aos distritos vizinhos da fronteira do rio Reno Inferior, dentro da província da Alemanha Inferior, cuja capital era Aduatuca Tungrorum, agora Tongeren. Como muitos outros distritos administrativos romanos, este tirou seu nome do grupamento tribal que ali vivia, os Tungri, embora aquele nome não fosse conhecido da área antes que ela se tornasse parte do Império Romano. Também, como outros distritos, este tornou-se a base de um bispado medieval, mas os bispos de Tongeren moveram-se primeiro para a próxima Maastricht e então para Liège.
[4] O Papado Bizantino foi o período de dominação bizantina do Papado Romano de 537 a 752, quando os papas solicitavam a aprovação do Imperador Bizantino para a consagração episcopal e muitos papas foram escolhidos por ligações entre o Papa e o Imperador ou os habitantes da Grécia, Síria ou Sicília bizantinas. Justiniano I conquistou a Península Itálica na Guerra Gótica e indicou os três Papas seguintes, uma prática que continuaria por seus sucessores e mais tarde seria delegada ao Exarcado de Ravena.
[5] De 756 a 857 o Papado mudou da órbita do Império Bizantino para os reis dos Francos que passaram a ter influência considerável na seleção e administração dos Papas.
[6] O Ducado de Roma era um Estado dentro do Exarcado (Governo Militar) Bizantino de Ravena. Como qualquer Estado bizantino na Itália, era governado por um funcionário imperial com o título de Duque. O Ducado muitas vezes entrou em conflito com o Papado pela supremacia dentro de Roma. O Ducado foi fundado com as conquistas bizantinas do Imperador Justiniano I na Itália em 533 na Guerra Gótica.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O IMPÉRIO OTOMANO (PARTE 2 - FINAL)

II.2 – RESTAURAÇÃO DO IMPÉRIO OTOMANO: 1402 A 1481

Mehmed I, iniciador
da reconquista otomana

O objetivo de Timur na Anatólia tinha sido, não a conquista, mas um flanco ocidental seguro que lhe permitiria conquistas adicionais no leste. Por isso, após sua vitória, retirou-se da Anatólia após restaurar no poder os príncipes turcomanos que se haviam aliado a ele; evidentemente, Timur assumia que uma Anatólia dividida não constituiria ameaça às suas ambições. Nem mesmo os filhos de Bayezid conseguiram assumir o controle sobre as possessões anteriores da família e o Império Otomano na Europa foi deixado praticamente intocado. Àquele tempo, uma forte Cruzada Europeia poderia ter empurrado os Otomanos totalmente fora da Europa, mas a fraqueza e a divisão ao sul do Danúbio e a dispersão para outras questões ao norte, deixaram aos Otomanos uma oportunidade para restaurar o que tinha sido feito em pedaços, sem perdas significativas. 
Divisões internas, contudo, obstaculizaram os esforços otomanos para restaurar seu poder durante um período que se tornou conhecido como o Interregno (1402 a 1413), durante o qual, quatro dos filhos de Bayezid competiram pelo direito ao controle de todo o Império. Seu filho mais velho, Suleiman, assumiu o controle na Europa, estabelecendo uma capital em Edirne e ganhou o apoio dos vassalos cristãos e daqueles que haviam estimulado Bayezid a dirigir suas conquistas para o leste. Os descendentes dos Turcomanos notáveis que haviam assistido às conquistas iniciais dos Otomanos na Europa, apoiaram as reivindicações de Mehmed, outro dos filhos de Bayezid. Com o apoio adicional das ordens religiosas muçulmanas da Anatólia e sindicatos de artesãos, Mehmed conseguiu derrotar e matar seus irmãos Mûsa Bey - que havia estabelecido sua capital em Bursa - e Isa Bey de Balikesir, no sudoeste da Anatólia, bem como Suleiman, e assim assumir a posse indisputada de todo o Império, como Sultão Mehmed (Muhammad) I.

II.2.1 – MEHMED I E MURAD II

Sob Mehmed I (governou de 1413 a 1420) e Murad II (1421 a 1451) houve um novo período de expansão em que o império de Bayezid foi restaurado e novos territórios foram incorporados. Mehmed restaurou o sistema de vassalagem[1] na Bulgária e na Sérbia, prometendo que realizaria novas incursões na Europa. Seu filho e sucessor, Murad II, foi também obrigado a devotar a maior parte dos anos iniciais do seu reinado a problemas internos, particularmente aos esforços dos comandantes ghazis e os príncipes vassalos dos Balcãs na Europa, bem como os príncipes e vassalos turcomanos na Anatólia, para reter a autonomia e, em algumas áreas, a independência que havia sido ganha durante o interregno. Em 1422-1423, Murad suprimiu a resistência dos Balcãs e colocou Constantinopla sob novo sítio que terminou somente após os Bizantinos lhe pagarem enormes tributos. Ele então restaurou o domínio Otomano na Anatólia e eliminou todos os principados turcomanos deixados por Timur, com as exceções de Karaman e Candar (Jandar, região ao norte da Anatólia, hoje Turquia), que ele deixou como autônomas, embora tributárias, para não excitar os renovados medos dos sucessores de Timur no leste.
Murad então iniciou a primeira guerra Otomana com a cidade-estado de Veneza (1423 – 1430), que havia mantido relações amistosas com os sultões a fim de desenvolver uma forte posição de comércio nos domínios otomanos, mas tinha aceito Salônica (atual Tessalônica, Grécia) do Bizâncio, a fim de prevenir a expansão otomana através da Macedônia para o Mar Adriático, seu suporte de sobrevivência para o comércio com o resto do mundo. A guerra esteve indecisa por algum tempo, com Veneza desviada por conflitos na Itália e com poucos recursos para enfrentar os otomanos em terra, ao passo que os otomanos necessitavam de tempo para construir uma força naval que pudesse enfrentar Veneza. Além disso, Murad foi desviado por um esforço dos húngaros para estabelecer seu comando na Walachia, entre o Danúbio e os Alpes Transilvanianos, um movimento que inaugurou uma série de conflitos entre otomanos e húngaros, que ocupariam muito do restante do seu reinado. Finalmente, Murad conseguiu uma frota suficientemente forte para bloquear Salônica e conquistá-la em 1430, com seu exército. Ataques otomanos navais subsequentes contra portos venezianos nos mares Adriático e Egeu, forçaram Veneza, em 1432, a fazer uma paz em que ela abandonou seus esforços para evitar o avanço otomano no Adriático, mas obteve a liderança do poder comercial nos domínios do Sultão. 
Murad II, Sultão
do Império Otomano
(1421-1444 e 1446-1451)

Murad, que fora colocado no trono pelos “turcos notáveis” (que comandavam os exércitos otomanos) que haviam aderido ao Estado Otomano durante o primeiro século de sua existência, logo começou a ressentir-se do poder que eles haviam ganho de volta; o poder daqueles notáveis havia também aumentado pelos grandes novos estados que eles haviam construído nas áreas conquistadas da Europa e Anatólia. Para neutralizar seu poder, ele começou a estimular o poder de vários grupos não turcos a seu serviço, particularmente os compostos por escravos cristãos e convertidos ao islamismo, cujo braço militar foi organizado em uma nova estrutura chamada de Corpo de Janízaros[2]. Para fortalecer tal grupo, Murad começou a distribuir muitas de suas novas conquistas aos seus membros e, para adicionar novos apoiadores daquele tipo, ele desenvolveu o famoso sistema “devsirme” (sistema tributário), pelo qual jovens cristãos eram recrutados das províncias balcânicas para conversão ao Islam e serviço vitalício ao sultão. Com seu número e receita crescentes, os “homens devsirme” e seus apoiadores alcançaram um considerável poder político. Uma vez que as novas conquistas europeias estavam sendo usadas pelo sultão para fortalecer os “devsirme”, eles queriam que as conquistas prosseguissem e se expandissem, ao passo que os “turcos notáveis”, cujo poder era diminuído pelo status crescente dos “devsirme”, se opunham às conquista adicionais. Murad, desejando retornar às políticas agressivas de expansão europeia para auxiliar os “devsirme” a reduzirem o poder dos “turcos notáveis”, renovou o conflito com a Hungria na Sérvia e Walachia (região histórica da Romênia), em 1434. Aproveitou a morte de Sigismund, o rei húngaro, em 1437, para reocupar a Sérvia (exceto Belgrado) e devastar boa parte da Hungria. Anexou então a Sérvia em 1439, iniciando uma política de substituição dos vassalos com direto mando otomano por todo o Império. O controle húngaro de Belgrado tornou-se o obstáculo primeiro ao avanço em grande escala ao norte do Danúbio. Embora tendo conquistado a região em 1443, a crescente influência dos “turcos notáveis” na corte de Murad, levou o sultão a aceitar a Paz de Edirne, em 1444, por cujos termos a Sérvia recuperava sua autonomia, a Hungria mantinha Walachia e Belgrado e os otomanos prometiam cessar seus ataques ao norte do Danúbio. No mesmo ano Murad fez a paz com o Karaman, seu principal inimigo anatoliano, retirando-se para uma vida de contemplação religiosa, voluntariamente passando o trono ao seu jovem filho Mehemed II, que já mostrava suas qualidades de liderança que distinguiria seu longo reinado embora, à época, ele confiasse, principalmente, em seus apoiadores “devsirme” para aconselhamento e assistência.
Os Bizantinos e o Papa Eugênio IV aproveitaram a oportunidade criada pelo mando de um jovem e inexperiente sultão para expulsar os otomanos da Europa, organizando uma nova cruzada – junto com Hungria e Veneza – após a garantia do Papa de que eles não eram obrigados a honrar o tratado de paz assinado com os infiéis muçulmanos. Um exército cruzado se deslocou pela Sérvia através dos Balcãs, para o Mar Negro em Varna, Bulgária, onde ele seria abastecido e transportado para Constantinopla por uma frota veneziana que velejaria pelos estreitos, enquanto usavam seu poder para evitar que Murad retornasse da Anatólia com o grosso do exército otomano. Embora tendo atingido Varna, os cruzados lá ficaram retidos por uma decisão servia de se manter leal ao sultão e pela relutância veneziana de cumprir sua parte no acordo por medo de perder sua posição comercial no caso de uma vitória otomana. Brigas adicionais entre os líderes cruzados deram a Murad tempo para retornar da Anatólia e organizar um novo exército. A vitória turca na Batalha de Varna, em 10 de novembro de 1444, terminou com o mais importante esforço cruzado europeu contra os otomanos.
Murad reassumiu o trono e restaurou o poder do corpo “devsirme”, cujas insistentes demandas de conquistas o conduziram a gastar o restante do seu reinado eliminando os vassalos e estabelecendo seu mando direto em boa parte da Trácia, Macedônia, Bulgária e Grécia. No processo, ele dividiu as terras recém adquiridas em estados, cujas receitas aumentaram o poder dos “devsirme” às expensas dos turcos notáveis. Somente a Albânia resistiu, pela liderança de seu herói nacional, Skanderbeg (George Kastrioti), que foi finalmente derrotado pelo sultão na segunda Batalha de Kosovo (1448). À época da morte de Murad em 1451, a fronteira do Danúbio estava segura e parecia que o Império Otomano estava permanentemente estabelecido na Europa. Embora a vitória em Varna trouxesse mais poder ao corpo “devsirme”, o grande vizir (chefe consultor do sultão) Candarli Halil Pasa conseguiu reter uma posição dominante dos “turcos notáveis” a quem liderou pela manutenção da confiança do sultão e pela permanente divisão de seus oponentes. Em consequência, o príncipe Mehmed II tornou-se o candidato dos “devsirme” e somente com a sua ascensão eles puderam atingir o poder político e militar possível pela base financeira construída durante as duas décadas anteriores. 
Mehmed II, o conquistador
do Império Bizantino


II.2.2 – MEHMED II

Sob o comando do sultão Mehemed II, de 1451 a 1481, pouco a pouco os “devsirme” vieram a dominar e pressionar por seu desejo de novas conquistas, a fim de tirar vantagem da fraqueza europeia criada em Varna, tornando Constantinopla seu primeiro objetivo. Para Mehmed e seus apoiadores, os domínios otomanos na Europa não poderiam nunca alcançar sua plena extensão ou ser moldados em um império real, enquanto seu natural centro administrativo e cultural permanecesse fora de suas mãos. O grande vizir e outros “turcos notáveis” opuseram-se fortemente ao ataque, ostensivamente, porque ele poderia motivar a formação de uma nova cruzada, mas de fato, por seu medo de que a captura da capital bizantina pudesse trazer o triunfo final dos “devsirme”. Mehmed II construiu a Fortaleza Rumeli no lado europeu do Bósforo, a partir da qual conduziu o cerco (6 de abril a 29 de maio de 1453) e a conquista de Constantinopla. 
Localização da Fortaleza Rumeli
com relação a Istanbul
(então Constantinopla)

Vamos introduzir aqui um pequeno parêntesis que julgamos muito importante, como adicional esclarecimento para o assunto. Rumeli ou Rumélia foram as primeiras possessões otomanas nos Balcãs. O nome significa “terra dos romanos”, no caso os bizantinos, seus sucessores. Os turcos iniciaram suas conquistas nos Balcãs em meados do século XIV, quando a região era dividida em feudos de vários tamanhos administrados por oficiais de cavalaria; notáveis locais, convertidos ao islamismo também participavam da administração. A configuração administrativa da Rumélia variou frequentemente até 1846 quando a unidade da divisão administrativa foi definida como a província (ou vilayet), que foi por sua vez dividida em sancak (subprovíncias). 
Fortaleza Rumeli, cabeça de ponte
para a conquista de Constantinopla

A queda de Constantinopla foi a captura da capital do Império Bizantino pelo Império Otomano. A cidade caiu em 29 de maio de 1453, culminando com um sítio de 53 dias que havia iniciado em 6 de abril do mesmo ano. O exército atacante otomano, de longe muito mais numeroso que os defensores de Constantinopla, era comandado pelo Sultão Mehmed II (mais tarde chamado “o Conquistador”), então com 21 anos de idade, ao passo que o exército bizantino era conduzido pelo Imperador Constantino XI Palaiologos. Após conquistar a cidade, Mehmed II fez de Constantinopla a nova capital otomana, substituindo Adrianópolis. A queda de Constantinopla marcou o fim do Império Bizantino e, efetivamente, o fim do Império Romano, um estado datava de 27 AC e durara cerca de 1500 anos. A captura de Constantinopla, uma cidade que marcou o divisor entre a Europa e a Ásia Menor, também permitiu que os otomanos mais efetivamente invadissem a Europa, finalmente conduzindo a Península Balcânica ao controle otomano.
A conquista de Constantinopla com a queda do Império Bizantino foi um evento chave do final da Idade Média, sendo considerado o fim do período Medieval, permanecendo também como um ponto decisivo na história militar. Desde tempos antigos, cidades e castelos haviam dependido de aclives e muralhas para repelir invasores. Contudo, as substanciais fortificações de Constantinopla foram dominadas com o uso da pólvora, especialmente na forma de grandes canhões e bombardas.
A transformação da cidade de Constantinopla na capital otomana de Istambul marcou um importante novo estágio na história dos otomanos. Internamente, marcou o fim do poder e influência da velha nobreza turca, cujos líderes foram executados ou exilados para a Anatólia e cujas propriedades europeias foram confiscadas, bem como o triunfo dos “devsirme” e seus apoiadores em Istambul e no Oeste. Externamente, a conquista tornou Mehmed II o mais famoso mandatário do mundo muçulmano, embora as terras do antigo califado ainda permanecessem em mãos dos mamelucos do Egito e sucessores de Timur, no Irã. Além disso, a posse de Constantinopla estimulou, em Mehmed II, o desejo de ter sob o seu domínio, não apenas os mundos islâmicos e turcos, mas também recriar o Império Bizantino e, talvez, todo o mundo cristão. Para perseguir tais objetivos, Mehmed II desenvolveu várias bases de poder. Internamente, seu primeiro objetivo foi restaurar Istambul, que ele havia poupado da devastação durante a conquista, como o centro político, econômico e social que havia anteriormente dominado. Ele trabalhou para repovoar a cidade, não somente com seus habitantes originais, mas também com elementos de todos os povos conquistados do Império, cuja residência e miscigenação forneceria um modelo para um império poderoso e integrado. Atenção especial foi dada à restauração da indústria e comércio de Istambul com substanciais concessões de impostos feitas para atrair mercadores e artesãos. Enquanto milhares de cristãos e muçulmanos eram trazidos para a cidade, gregos e armênios não eram propensos a aceitar o mando muçulmano otomano e procuravam conseguir novas cruzadas europeias. Mehmed deu então especial atenção à atração de judeus da Europa Central e Oeste, onde se encontravam sujeitos a crescente perseguição. A lealdade daqueles judeus aos otomanos foi induzida pela de seus correligionários do Bizâncio, que haviam apoiado e assistido as conquistas otomanas após a perseguição de longa duração a que haviam sido submetidos pela Igreja Ortodoxa Grega e seus seguidores. Sob o mando otomano, os principais grupos religiosos tinham permissão para estabelecer suas comunidades com governo próprio, chamadas millets, cada uma mantendo suas próprias leis religiosas, tradições e língua, sob a proteção geral do sultão. Os millets eram dirigidos por chefes religiosos que serviam de líderes religiosos e seculares e assim tinham um interesse substancial na continuação do mando otomano. Mehmed usou o exército conquistador para recuperar a estrutura física da cidade. Velhos prédios foram recuperados, ruas, aquedutos e pontes foram construídos, instalações sanitárias foram modernizadas e um vasto sistema de abastecimento foi estabelecido para fornecimento de bens aos habitantes da cidade.
Mehmed também devotou muito tempo à expansão dos seus domínios na Europa e Ásia, a fim de estabelecer sua pretensão à liderança mundial. Para isso, ele eliminou os últimos príncipes vassalos que poderiam disputar seus direitos a legítimo sucessor às dinastias Bizantina e Seljuk, estabelecendo uma administração otomana direta na maioria das províncias de todo o Império. Além disso, ele estendeu o mando otomano muito além dos territórios herdados de Murad II. De 1454 a 1463 ele concentrou-se principalmente no sudeste da Europa, anexando a Sérvia (1454-55) e conquistando a Morea[3] (1458-60), assim eliminando os últimos principais pretendentes ao trono bizantino. Quando Veneza recusou entregar seus portos importantes ao longo da costa da Morea, Mehmed iniciou a segunda guerra Otomana-Veneziana (1463-1479). Em 1461 ele anexou Trebizond (também Trabzon e historicamente Trapezus, capital de província de mesmo nome da atual Turquia, margem sudeste do Mar Negro) e as colônias comerciais genovesas que haviam sobrevivido ao longo da costa do Mar Negro da Anatólia, incluindo Sinop e Kafa, iniciando o processo pelo qual os príncipes tártaros da Crimeia foram compelidos a aceitar o sultanato otomano. Em 1463 ele ocupou e anexou a Bósnia. Como a Albânia continuasse a resistir, ajudada por suprimentos enviados por mar, de Veneza, Mehmed enviou turcomanos irregulares em grande quantidade que, em processo de conquista da Albânia, lá se estabeleceram, formando o núcleo de uma comunidade muçulmana que permanece até hoje. Como o Papa e Veneza não conseguiam montar uma nova Cruzada na Europa, eles distraíram Mehmed encorajando ataques de seus inimigos do leste, o principado turcomano de Karaman e a dinastia tártara Ak-Koyunlu (“Ovelhas Brancas”), que sob a liderança de Uzun-Hasan tinha substituído os descendentes de Timur no Irã Ocidental. Mehmed, contudo, habilmente usou divisões dinásticas para conquistar o Karaman em 1468, assim estendendo o mando direto otomano na Anatólia, até o Eufrates. Quando Uzun-Hasan respondeu, invadindo a Anatólia com o apoio de muitos príncipes turcomanos que haviam sido despojados por Mehmed, Veneza intensificou seus ataques na Morea, a Hungria se deslocou à Sérvia e Skanderbeg (herói albanês) atacou a Bósnia. Mehmed, contudo, foi capaz de se defender de todos os inimigos. Em 1473 ele liquidou com Uzun-Hasan que reconheceu o mando otomano em toda a Anatólia e retornou ao Irã. Isso colocou os otomanos em conflito com o Império Mameluco da Síria e Egito que buscavam se expandir no sudeste da Anatólia. Mehmed neutralizou as foças mamelucas embora não as derrotasse. Voltou-se então para Veneza iniciando vários ataques navais ao longo da costa adriática, que conduziram à paz em 1479, pela qual Veneza entregava suas bases na Albânia e Morea e concordava em pagar um tributo anual regular em troca da restauração dos seus privilégios comerciais. Mehmed usou então sua nova força naval para atacar a ilha de Rodes e enviar uma grande força que aportou em Otranto, sul da Itália, em 1480. O sucesso era iminente, mas sua morte prematura em 1481 trouxe seu esforço a um fim. Contudo, Mehmed havia lançado as bases para o domínio otomano na Anatólia e sudeste da Europa, que sobreviveria pelos próximos quatro séculos.
Além de conquistar um enorme Império, Mehmed trabalhou para consolidá-lo e para codificar as instituições política, administrativa, religiosa e legal desenvolvidas durante o século anterior, pela promulgação de uma série de leis seculares (kanun) compiladas por assuntos em códigos legais chamados kanunnames. Contudo, a amplitude da tarefa e seu envolvimento em numerosas campanhas, retardaram o processo em tal extensão que ela só foi completada durante o século XVI. Mehmed também só teve sucesso limitado na construção das bases econômicas e sociais do seu império. Seu mais importante problema foi garantir recursos financeiros suficientes para as suas expedições militares e os novos aparatos do governo e da sociedade. Os sistemas de impostos herdados de seus predecessores não previam os recursos necessários, principalmente porque muitas das terras conquistadas tornavam-se Estados (Timars), cujos impostos revertiam integralmente aos seus detentores para serviços militares e administrativos. Mehmed então dedicou-se a vários expedientes financeiros que rapidamente atingiram seus objetivos imediatos, mas a custa de graves dificuldades econômicas e sociais. Regularmente retirava de circulação todas as moedas e emitia novas com maior proporção de ligas metálicas de baixo valor. Para forçar a aceitação das novas moedas, ele enviava bandos armados por todo o Império, com o direito de confiscar, sem compensação, todas as moedas antigas e mais valiosas que não eram voluntariamente trocadas pelas novas. A desvalorização da cunhagem logo causou inflação que muito perturbou a indústria e o comércio que o Sultão esperara promover. Além disso, em sua busca por receitas, Mehmed criou monopólios sobre a produção e o uso de bens essenciais, que distribuía entre os maiores pretendentes que, por sua vez, cobravam preços excessivamente altos e criavam escassez artificial que garantisse seus lucros. Finalmente, Mehmed estabeleceu o princípio de que toda a propriedade com produção de receita pertenceria ao Sultão. Na persecução de tal ideia, ele confiscou muita propriedade privada e terras de fundações religiosas, criando um tremendo ressentimento e oposição entre os que perderam suas receitas, incluindo membros da classe religiosa Ulama (teólogos), os “turcos notáveis” e mesmo de alguns “devsirme”, que ameaçaram minar tanto o Sultão como o Estado. Foi somente jogando um grupo contra o outro que Mehmed conseguiu manter sua própria posição e poder para continuar suas conquistas.

III – O APOGEU DO PODER OTOMANO (1481 - 1566)

Durante o século que seguiu o reinado de Mehmed II, o Império Otomano alcançou o auge do seu poder e riqueza. Novas conquistas estenderam seus domínios bem além da Europa Central e por toda a porção árabe do velho Califado Islâmico e uma nova mistura de organizações e tradições políticas, religiosas, sociais e econômicas foram institucionalizadas e desenvolvidas num todo vivo e trabalhador. 0
Bayezid II, o consolidador do
Império Otomano

O reino do sucessor imediato de Mehmed II, Bayezid II, foi em grande parte um período de descanso. As conquistas prévias foram consolidadas e muitos dos problemas políticos, econômicos e sociais causados pelas políticas internas de Mehmed foram resolvidos, deixando uma base firme para as conquistas dos sultões do século XVI. A escassez financeira, imposta para financiar as campanhas de Mehmed II, haviam conduzido o Império, durante o ano final do seu reinado, a uma virtual guerra civil entre as principais facções em Istambul, os “devsirme” e a aristocracia turca. Bayezid II foi instalado no trono pelos Janízaros, por sua dominação militar da capital, enquanto seu irmão mais militante, Cem, fugiu para a Anatólia onde preparou uma revolta inicialmente apoiada pelos “turcos notáveis”. Bayezid tentou a conciliação expondo a eles seus planos essencialmente pacíficos, o que minorou a influência dos “devsirme”, deixando Cem sem apoio importante e obrigando-o a fugir então, em exílio, para a Síria mameluca, no verão de 1481. Ele retornou no ano seguinte com a ajuda dos mamelucos e o último governante turcomano do Karaman, mas seu esforço para garantir o apoio dos nômades turcomanos falhou por sua atração às políticas religiosas heterodoxas de Bayezid. Cem permaneceu no exílio, primeiro na corte dos Cavaleiros Cruzados de Rhodes e então com o Papa, em Roma, até sua morte em 1495. Os esforços europeus para usá-lo como ponta de lança de uma nova cruzada para recuperar Istambul fracassaram. Enquanto isso, a ameaça de que Cem pudesse liderar o ataque estrangeiro, compeliu Bayezid a concentrar-se numa consolidação interna. A maior parte das propriedades confiscadas por seu pai para campanhas militares, foi devolvida aos seus antigos proprietários. Impostos iguais foram estabelecidos por todo o Império de maneira que todos os súditos pudessem cumprir suas obrigações com o governo sem o tipo de interrupção ou insatisfação que caracterizavam o antigo regime. Particularmente importante foi o estabelecimento do imposto do “tesouro de guerra”, que arcava com as despesas extraordinárias de guerra sem confiscações especiais ou pesadas taxações. O valor da cunhagem foi restaurado e os planos de expansão econômica de Mehmed II finalmente se concretizaram. Para isso, milhares de judeus expulsos da Espanha pela Inquisição durante o verão de 1492, foram encorajados a imigrar ao Império Otomano. Eles se estabeleceram principalmente em Istambul, Salônica (atual Tessalônica, Grécia) e Edirne, onde se juntaram aos seus irmãos de religião, numa idade áurea do Judaísmo Otomano que durou até o século XVII, quando o declínio otomano e a ascensão do poder dos diplomatas e mercadores europeus permitiu-lhes promover os interesses dos súditos cristãos do Sultão às expensas dos muçulmanos e judeus igualmente. Bayezid II completou os esforços iniciados por Mehmed II para substituir os vassalos com administração direta otomana por todo o Império. Pela primeira vez o governo central operava regularmente sob um orçamento equilibrado. Culturalmente, Bayezid estimulava uma forte reação contra as tendências de cristianização da primeira metade do século. A língua turca e as tradições muçulmanas foram enfatizadas.
Embora Bayezid preferisse manter a paz – para ter tempo e recursos para concentrar no seu desenvolvimento interno – ele foi forçado a realizar um bom número de campanhas pelas exigências do período e pelas demandas de seus seguidores “devsirme” mais combativos. Na Europa, ele completou o Império ao sul dos rios Danúbio e Sava, tomando Herzegovina (1483), ficando apenas Belgrado fora do comando Otomano. O rei húngaro Matthias Corvinus (reinou entre 1458 e 1490) estava principalmente interessado no estabelecimento do seu controle sobre a Bohemia e concordou na paz com os otomanos (1484); após a sua morte, conflitos pela sucessão deixaram aquela frente relativamente calma pelo restante do reinado de Bayezid. Para o nordeste, o sultão estendeu o território otomano ao norte do Danúbio, ao longo das margens do Mar Negro, capturando em 1484, os portos de Kilia (atual Kiliya) e Akkerman (Bilhorod-Dnistrovskyy) – ambos no que é hoje a Ucrânia – que controlavam as fozes do Danúbio e do Dniester. Assim, os otomanos controlavam os principais entrepostos do comércio do norte da Europa com o Mar Negro e o Mediterrâneo. Esses avanços conflitaram com as ambições da Polônia e a guerra aconteceu, até que as ameaças de Moscou, sob Ivan III, sobre a Polônia, deixassem também aquela frente calma após 1484.
Bayezid então virou-se para o leste, onde as conquistas anteriores até o rio Eufrates haviam levado os otomanos até o Império Mameluco. O controle sobre o pequeno principado turcomano de Dulkadir e o desejo otomano de disputar com os muçulmanos o controle das cidades santas de Mecca e Medina, conduziu a uma guerra intermitente entre 1485 e 1491, inconclusiva, que conduziu à dissenção crítica por parte dos seus seguidores mais aguerridos. Para se opor a isso, Bayezid apoiou as lutas internas húngaras para tomar Belgrado, sem sucesso. Forças enviadas à Transilvânia, Croácia e Carinthia (atual Áustria) foram rechaçadas. Em 1495 Cem morreu e uma nova paz com a Hungria esvaziou os objetivos de Bayezid que então voltou-se contra Veneza, seu outro principal inimigo europeu, que encorajava revoltas contra o sultão em várias regiões. Em 1489 Veneza ganhara o controle de Chipre, construíra uma importante base naval, recusando a Bayezid o seu uso contra os Mamelucos e usando-a como base para ataques piratas contra navios e praias otomanas. Na guerra que se seguiu contra Veneza (1499-1503), todos os objetivos de Bayezid foram alcançados, com exceção da ilha de Chipre. A frota otomana emergiu, pela primeira vez, como o principal poder naval do Mediterrâneo e os otomanos tornaram-se uma parte integrante das relações diplomáticas europeias. 
Selim I, ampliador do
Império Otomano

Bayezid nunca pôde usar a situação para fazer novas conquistas na Europa porque novas revoltas na Anatólia oriental ocuparam muito de sua atenção durante os últimos anos de seu reinado. No final, a natureza crescentemente mística e pacífica de Bayezid, levaram os Janízaros a destroná-lo em favor de seu aguerrido e ativo filho Selim I.
Durante o século XVI a expansão do Império Otomano prosseguiu com a derrota dos Mamelucos no Egito e Síria, em 1517, Algiers em 1518 e Hungria em 1526 e 1541. Além disso, partes da Grécia também caíram sob o controle dos otomanos no século XVI. 
O ápice do Império Otomano

Em 1535, o reinado de Suleiman I começou e a Turquia ganhou mais poder do que já tinha tido sob seus líderes precedentes. Durante o reinado de Suleiman I, o sistema jurídico turco foi reorganizado e a cultura turca cresceu significativamente. Com sua morte, o Império começou a perder força quando o seu poder militar foi derrotado durante a Batalha de Lepanto, em 1571, pela “Liga Santa” (formada por potências cristãs do Mediterrâneo), que definitivamente impediu sua influência para o oeste e marcou o início da queda do Império Otomano. 
Suleiman I, o imperador do
auge do Império Otomano


IV – CONCLUSÃO

O objetivo principal desta postagem, como explicado em nossa introdução, era mostrar aos leitores a origem de império tão formidável a ponto de conseguir derrubar de uma vez por todas o Império Romano, que sobreviver a mais de quinze séculos. Consideramos que isto tenha sido conseguido e apresentamos a seguir apenas mais algumas muito resumidas linhas, até a constituição da República da Turquia. O permanente declínio do Império Otomano ocorreu com participações importantes em várias guerras, que incluíram a Guerra da Crimeia e a Primeira Guerra Mundial quando, derrotado em todas as frentes de batalha, assinou o Armistício de Mudros em 30 de outubro de 1918. A divisão do Império Otomano foi finalizada sob os termos do Tratado de Sèvres que, projetado na Conferência de Londres, permitiu ao Sultão reter sua posição e título. O status da Anatólia tornou-se problemático dada a ocupação aliada de Constantinopla e Smirna, quando ocorreu uma oposição nacionalista no Movimento Nacional Turco, que acabou vencendo a Guerra Turca de Independência (1919-1923), sob a liderança de Mustafá Kemal. O Sultanato foi abolido em 1º de novembro de 1922 e o último Sultão, Mehmed VI (reinou de 1918 a 1922) deixou o país em 17 de novembro de 1922. A nova e independente Grande Assembleia Nacional da Turquia foi internacionalmente reconhecida com o Tratado de Lausanne, em 24 de julho do mesmo ano e oficialmente declarada a República da Turquia em 29 de outubro de 1923, com sua nova capital em Ankara. O Califado foi constitucionalmente abolido vários meses após, em 3 de março de 1924.

[1] Um vassalo, na sociedade feudal ou feudalismo (termo historiográfico que designa as condições social, econômica e política na Europa Ocidental durante o início da Idade Média, longo período de tempo entre os séculos V e XII), era alguém investido com um feudo (pedaço de terra) como recompensa por serviços prestados a um lorde superior. Alguns vassalos não possuíam feudos e viviam na corte de seus lordes como cavaleiros da corte. Alguns vassalos que recebiam seus feudos diretamente da coroa, eram usuários principais e formavam o mais importante grupo feudal, os barões.

[2] Significando “nova força” ou “novos soldados”, eram membros de uma força de elite no exército permanente do Império Otomano. Altamente respeitados por sua bravura militar nos séculos XV e XVI, os Janízaros tornaram-se uma poderosa força política dentro do estado otomano. Durante períodos de paz eles eram usados como guarnições de cidades de fronteira e polícia da capital. Constituíram o primeiro exército permanente moderno na Europa.

[3] O Despotado da Morea era um principado autônomo localizado no Peloponeso Grego (Morea). Foi estabelecido no meio do século XIV pelo imperador bizantino João VI Cantacuzenus (que reinou entre 1347 e 1354), como um apanágio ao seu filho Manuel Cantacuzenus, que consolidou seu território contra as pretensões dos latinos (europeus ocidentais) e as investidas dos turcos.