Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

CHARLEMAGNE OU CARLOS MAGNO
(Parte 3 de 4)

VI - CAMPANHAS ORIENTAIS

1 – Guerras contra os Saxões

Carlos Magno esteve envolvido em hostilidades quase constantes por todo o seu reinado, muitas vezes à frente dos seus esquadrões pessoais de elite. Nas guerras contra os saxões, tribo germânica de adoradores pagãos, que duraram trinta anos e dezoito batalhas, ele conquistou a Saxônia (correspondendo, grosseiramente, aos estados da moderna Alemanha da Baixa Saxônia, Westfália, Nordalbingia e Saxônia-Anhalt ocidental, todos no noroeste da Alemanha) dedicando-se à sua conversão ao cristianismo. Os saxões germânicos estavam divididos em quatro grupos, em quatro regiões. Mais próximo da Austrasia ficava a Westfália e mais afastado a Eastphalia. Entre elas estava a Engria e ao norte dessas três, na base da península da Jutland, ficava a Nordalbbingia.
Em sua primeira campanha, em 773, Carlos Magno forçou a submissão dos Engrians, botando abaixo um pilar Irminsul (objeto sagrado em forma de pilar que representava um importante papel no paganismo germânico dos saxões) próximo de Paderborn. A campanha foi abreviada por sua primeira expedição à Itália. Ele retornou em 775, marchando através da Westfália e conquistando o forte saxão em Sigiburg. atravessou então a Engria onde novamente derrotou os saxões. Finalmente, na Eastphalia, ele derrotou uma força saxã, convertendo seu líder Hessi ao cristianismo. Carlos Magno retornou através da Westphalia, deixando acampamentos em Sigiburg e Eresburg, então importantes bastiões saxões. Ele então controlou a Saxônia com exceção da Nordalbingia, mas a resistência saxã não havia terminado.
Após ter subjugado os Dukes de Friuli e Spoleto, Carlos Magno retornou rapidamente à Saxônia em 776, onde a rebelião havia destruído sua fortaleza de Eresburg. Os saxões foram novamente batidos, mas seu líder Widukind fugiu para a Dinamarca, lar de sua esposa. Carlos Magno construiu um novo campo em Karlstadt. Em 777 convocou uma dieta nacional em Paderborn para integrar completamente a Saxônia ao reino Franco. Muitos saxões foram batizados como cristãos.
No verão de 779, ele novamente invadiu a Saxônia, reconquistando Eastphalia, Engria e Westphalia. Em uma dieta próxima de Lippe, ele dividiu o território em distritos missionários que assistiram a vários batizados em missas (780). Ele então retornou à Itália e, pela primeira vez, os saxões não se rebelaram imediatamente, pacificados de 780 a 782. Retornou à Saxônia em 782 instituindo um código de lei e indicando condes saxões e francos. As leis eram draconianas em questões religiosas; por exemplo, a Capitulatio de partibus Saxoniae prescrevia a morte aos pagãos saxões que recusassem sua conversão ao cristianismo, o que renovou os conflitos. Naquele ano, outono, Widukind retornou e conduziu uma nova revolta. Em resposta, em Verden, Baixa Saxônia, Carlos Magno ordenou a execução de 4.500 prisioneiros por decapitação, conhecido como o “Massacre de Verden”. As mortes dispararam três anos de renovadas guerras sangrentas. Durante esta guerra, os Frisians Orientais entre os Lauwers e os Weser se uniram aos saxões em revolta e foram finalmente subjugados. A guerra terminou com Widukind aceitando o batismo. Os Frisians posteriormente pediram que missionários fossem enviados a eles e um bispo de sua própria nação, Ludger, foi enviado. Carlos Magno também proclamou um código de leis, o Lex Frisonum, o que fizera para muitos povos súditos.
Depois disso, os saxões mantiveram uma paz por sete anos, mas em 792 a Westphalia novamente se rebelou. Os Eastphalians e Nordalbingians se juntaram a eles em 793, mas a insurreição foi impopular e encerrada em 794. Uma rebelião Engrian se seguiu em 796, mas a presença de Carlos Magno, saxões e eslavos cristãos rapidamente os destruiu. A última insurreição ocorrida em 804, mais de 30 anos após a primeira campanha contra eles, também falhou.
A guerra que havia durado tantos anos afinal terminou pelo aceite dos termos do Rei: renúncia aos seus costumes religiosos nacionais e adoração de demônios, aceitação dos sacramentos da fé e religião cristã e a união com os francos para formar um só povo.

2 – Submissão da Bavária

Por 774, Carlos Magno invadira o Reino da Lombardia [1] e mais tarde anexou os territórios da Lombardia assumindo a sua coroa e colocando os Estados Papais sob a proteção franca. O Ducado de Spoleto ao sul de Roma foi adquirido em 774, enquanto nas partes centro oeste da Europa, o Ducado da Bavária foi absorvido e a política bávara de estabelecer fronteiras tributárias entre os servos eslavos e thecos prosseguiu. O poder remanescente contra os francos no leste eram os avaros. Contudo, Carlos Magno adquiriu outras áreas eslavas, incluindo a Boêmia, Moravia, Áustria e Croácia.
Em 789 Carlos Magno voltou-se contra a Bavária, queixando-se que Tassilo III, Duque da Bavária não era um governante adequado por ter quebrado seu juramento. As acusações eram exageradas, mas Tassilo foi deposto de qualquer maneira e colocado no monastério de Jumièges. Em 794 Tassilo foi obrigado a renunciar a qualquer intenção sobre a Bavária, para si e toda sua família (os Agilolfings), no sínodo de Frankfurt, quando formalmente entregou ao rei todos os direitos que possuíra. A Bavária foi subdividida em condados Francos, à semelhança da Saxônia.

3 – Campanhas Contra os Ávaros

Em 788, os Ávaros (Avares ou Abares), um grupo nômade asiático que se havia estabelecido no que hoje é a Hungria, sucessores do Hunos, invadiram Friuli (região ao nordeste da Itália) e Bavária. Ocupado com outras questões, Carlos Magno marchou, em 790, seguindo o rio Danúbio e devastou o território ávaro de Györ (hoje a mais importante cidade do noroeste da Hungria). Um exército lombardo sob Pippin então marchou para o vale do rio Drava e devastou a Pannonia [2]. As campanhas terminaram quando os saxões novamente se revoltaram em 792.
Pelos dois anos seguintes, Carlos Magno esteve ocupado, além dos eslavos, com os saxões. Pippin e o Duque de Friuli continuaram, contudo, contra os baluartes dos ávaros. Sua fortaleza mais importante foi tomada duas vezes e logo os governantes ávaros perderam a vontade de lutar, viajando a Aachen, capital de Carlos Magno para se tornarem seus vassalos e cristãos. Carlos Magno aceitou sua rendição e enviou um chefe nativo de volta à Bavária, que conseguiu manter seu povo em linha; entretanto, em 800, os búlgaros sob Khan Krum atacaram o que sobrara do estado ávaro. Em 803, Carlos Magno enviou um exército bávaro à Pannonia, derrotando e trazendo um fim à confederação ávara. Em novembro do mesmo ano, Carlos Magno foi para Regensburg onde os líderes ávaros o reconheceram como governante. Em 805, o khagan [3] ávaro, que já fora batizado, foi a Aachen pedir permissão para assentar seu povo a sudeste de Viena. Os territórios Transdanubianos tornaram-se parte integral do reino Franco que foi abolido pelos magiares em 899-900.

4 – Expedições aos eslavos do nordeste

Em 789, em reconhecimento aos seus novos vizinhos pagãos, os eslavos, Carlos Magno conduziu um exército austrasio-saxão além do rio Elba, em território dos Obotritas [4]. Os eslavos finalmente se submeteram conduzidos por seu líder Witzin. Carlos Magno então aceitou a rendição dos Veleti [5] sob Dragovit exigindo muitos reféns. Também exigiu permissão para enviar missionários a essa região pagã. O exército marchou para o Báltico antes de retornar e marchar para o Reno, fazendo muita pilhagem sem ameaças. Os eslavos que pagavam tributo se tornaram leais aliados. Em 795, quando os saxões quebraram a paz, os Obotritas e Veleti se revoltaram com seu novo mandante contra os saxões. Witzin morreu em batalha e Carlos Magno vingou-o destruindo os habitantes da Eastphalia no Elba. Thrasuco, seu sucessor, conduziu seus homens à conquista dos Nordalbingianos, entregando seus líderes a Carlos Magno. Os Obotritas permaneceram leais até a morte de Carlos Magno.

5 – Expedições aos eslavos do sudeste

Após incorporar grande parte da Europa Central, Carlos Magno trouxe o Estado Franco face a face com os ávaros e eslavos do Sudeste. Os vizinhos mais a sudeste dos Francos eram os Croatas, que se estabeleceram na Croácia Pannoniana e Croácia Dálmata. Em 796, Carlos Magno obteve uma importante vitória sobre eles. O Duque Voinomir, da Croácia Pannoniana ajudou Carlos Magno e os francos se fizeram Lordes dos Croatas do norte da Dalmácia, Eslavônia e Pannonia.
O comandante franco Eric de Friuli pretendeu estender seu domínio conquistando o Ducado do Litoral Croata. Àquela época, a Croácia Dálmata era governada pelo Duque Viseslav da Croácia. Na Batalha de Trsat as forças de Eric abandonaram suas posições e foram perseguidas pelas forças de Viseslav quando, entre outros Eric foi morto, causando grande impacto no Império Carolíngio.
Carlos Magno também dirigiu sua atenção aos eslavos a oeste do Kaganato Ávaro: os Carantanianos e os Carniolanos. Esses povos foram subjugados pelos lombardos e os bávaros, passando a pagar tributos, mas nunca foram totalmente incorporados ao Estado Franco.

VII - IMPÉRIO

1 - Coroação

Em 799, o Papa Leão III havia sido assaltado por romanos que tentaram arrancar seus olhos e língua. Conseguindo escapar, fugiu para Carlos Magno em Paderbom, Aconselhado pelo sábio Alcuin, Carlos Magno viajou para Roma em novembro de 800 e reuniu um sínodo. Em 23 de dezembro, Leão III fez um juramento a Carlos Magno e dois dias após, durante a missa do Natal (25 de dezembro), quando Carlos Magno ajoelhou-se no altar para rezar, o Papa coroou-o “Imperador dos Romanos” na Basílica de São Pedro. Com isso o Papa rejeitava a legitimidade de Imperador de Irene de Constantinopla.

A Coroação Imperial de Carlos Magno no ano 800
Quando Odoacro forçou a abdicação de Romulus Augustus (em 476 DC), ele não aboliu o Império Ocidental como um poder separado, mas causou a sua reunião com o Império Oriental, de modo que, dali para a frente, houvesse um único Império Romano. O Papa Leão III e Carlos Magno, como os imperadores predecessores, também queriam um Império Romano uno e indivisível e propuseram a coroação de Carlos Magno, não para proclamar a divisão do Ocidente e do Oriente, mas legitimamente preenchendo o lugar do deposto Constantino VI (deposto, cego e aprisionado por sua mãe, Irene, em 797 DC). Entretanto, sua coroação teve o efeito de estabelecer dois Impérios separados (e muitas vezes opostos) e duas demandas pela autoridade imperial, conduzindo à guerra em 802 e por muitos séculos futuros, com os imperadores do Ocidente e Oriente buscando a soberania do todo.
Historicamente, não há um consenso sobre o que realmente significou a coroação de Carlos Magno. Muitos historiadores dizem que ele sabia o que aconteceria e desejava a coroação; outros tantos afirmam que ele não desejava a coroação justamente para evitar a polêmica futura e que, ao chegar a Catedral, nem mesmo sabia que tal ato ocorreria.
Para o Papa e Carlos Magno, o Império Romano permanecia uma potência significativa na política europeia daquele tempo. O Império Bizantino, baseado em Constantinopla, continuava a manter uma parte substancial da Itália, com fronteiras não muito longe de Roma. O assento de Carlos Magno, no julgamento do Papa, poderia ser visto como usurpação das prerrogativas do Imperador em Constantinopla.
Por quem, contudo, poderia o Papa ser julgado? Quem, em outras palavras estava qualificado a proferir julgamento sobre o “Vigário de Cristo”? Em circunstâncias normais, a única resposta concebível à questão, teria sido o Imperador em Constantinopla; mas o trono imperial, no momento, era ocupado por Irene, consorte do imperador Leão IV de 775 a 780, regente durante a infância de seu filho Constantino VI de 780 a 790, comandatária de 792 até 797 e finalmente Imperatriz do Império Romano do Oriente de 797 a 802. A Imperatriz era notória por ter cegado e assassinado seu próprio filho, mas nas mentes do Papa e de Carlos Magno isso era quase imaterial, bastando que ela fosse mulher. O sexo feminino era conhecido por ser incapaz de governar e pela velha tradição sálica (a Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão), excluída de tal possibilidade. No que concerne à Europa Ocidental, o trono dos Imperadores estava vago: a reivindicação de Irene a ele era apenas uma prova adicional, se alguma fosse necessária, da degradação em que havia caído o chamado Império Romano.
Se não havia um Imperador vivo ao tempo, o Papa deu o extraordinário passo para criar um. Desde 727 o papado havia estado em conflito com os predecessores de Irene em Constantinopla por uma série de questões, principalmente a permanente aderência à doutrina do iconoclasta, a destruição de imagens ou monumentos cristãos e com isso o Império Bizantino na Itália Central, a partir de 750 havia sido anulado.
Conferindo a coroa imperial a Carlos Magno, o Papa trouxe a si próprio o direito de indicar o Imperador dos Romanos, estabelecendo a coroa imperial como seu presente pessoal, mas simultaneamente garantindo a si próprio uma implícita superioridade ao Imperador que ele havia criado. E porque os bizantinos se haviam demonstrado tão insatisfatórios de todos os pontos de vista – político, militar e doutrinário – ele selecionaria um ocidental: aquele que, por sua sabedoria, política e vastidão de seus domínios se apresentasse acima de seus contemporâneos.
Portanto, com a coroação de Carlos Magno, o Império Romano permaneceu, no que concerne a Carlos Magno e ao Papa Leão, uno e indivisível, com Carlos como seu imperador, embora a coroação tenha sido furiosamente contestada em Constantinopla.
Segundo o cronista Theophanes, membro da aristocracia bizantina e depois monge, a reação de Carlos Magno, à sua coroação, foi tomar os primeiros passos para assegurar o trono de Constantinopla, através do envio de ofertas a Irene, às quais ela teria reagido favoravelmente.
É importante distinguir entre os conceitos universal e local do Império, ainda controvertido entre historiadores. De acordo com o primeiro, o Império era uma monarquia universal, uma espécie de confederação mundial, cuja unidade transcendia qualquer distinção menor; e o Imperador, merecedor da obediência da Cristandade. De acordo com o segundo, o Imperador não tinha ambição de domínio universal; seu reino era limitado como o de qualquer outro governante e quando apresentou queixas mais amplas, tinha como objetivo se preservar dos ataques do Papa ou do imperador bizantino. De acordo com essa visão, a origem do Império deve ser explicada por circunstâncias locais específicas ao invés de teorias mais abrangentes. Entretanto, na primavera de 813, em Aachen, Carlos Magno indicou seu único filho vivo, Luís, como imperador, sem recorrer a Roma, mas apenas pela aclamação de seus francos, ou seja, uma aclamação cristã franca e não romana, significando a independência de Roma e a explicitação de um Império Franco.

2 - Título Imperial

Carlos Magno usou tais circunstâncias para reivindicar seu título de “Renovador do Império Romano”, que havia declinado sob os bizantinos.
O título de Imperador permaneceu na família Carolíngia por muitos anos, mas divisões de território e a luta pela supremacia do Estado Franco, enfraqueceram o seu significado. O próprio Papado nunca esqueceu o título nem abandonou o seu direito de concedê-lo. Quando a família de Carlos Magno deixou de produzir herdeiros de valor, o Papa, com muita satisfação, coroou qualquer magnata italiano que melhor o protegesse de seus inimigos locais. O Império permaneceria em existência contínua por mais de um milênio, como o “Sacro Império Romano”, um verdadeiro sucessor imperial de Carlos Magno.

3 - Diplomacia Imperial

A iconoclastia (destruição deliberada dos ícones ou imagens religiosas) da dinastia Isáurica bizantina (também chamada de dinastia Síria, que governou o império Bizantino entre 717 e 802) foi endossada pelos francos. O Segundo Concílio de Niceia reintroduziu a veneração de ícones, sob a Imperatriz Irene, em 787. O Concílio não foi reconhecido por Carlos Magno, já que emissários francos não haviam sido convidados, embora governasse mais de três províncias do império clássico romano e fosse considerado com a mesma dignidade do imperador bizantino. O Papa apoiava a reintrodução da veneração icônica, mas politicamente divergia do Bizâncio; certamente, ele desejava aumentar a influência do papado, para honrar seu salvador Carlos Magno e para resolver questões constitucionais que então criavam problemas a juristas europeus, em uma era em que Roma não se encontrava nas mãos de um imperador. Assim, a aceitação do título imperial não foi uma usurpação aos olhos dos francos ou italianos; mas foi assim visto no Bizâncio, onde foi protestado por Irene e seu sucessor Nikephoros I, nenhum dos quais tinha grande efeito ao manifestar seus protestos.
Os romanos orientais, contudo, ainda mantinham vários territórios na Itália: Veneza, Reggio (na Calábria), Otranto (em Apulia) e Nápoles. Tais regiões permaneceram fora das mãos francas até 804, quando os venezianos, separados por lutas internas, transferiram sua submissão à Coroa de Ferro de Pepino, filho de Carlos Magno, com isso encerrando a Paz de Nikephoros (paz entre os impérios Franco e Bizantino). Nikephoros devastou as costas com suas frotas, iniciando o único real exemplo de guerra entre bizantinos e francos. O conflito durou até 810, quando o partido pro Bizâncio de Veneza entregou esta cidade de volta ao governador bizantino e os dois imperadores da Europa fizeram paz. Em 812, o imperador bizantino Michael I Rangabe reconheceu seu status de imperador, não necessariamente “Imperador dos Romanos”.

4 - Ataques Dinamarqueses

Após a conquista da Nordalbíngia [6], a fronteira franca foi posta em contato com a Escandinávia. Os pagãos dinamarqueses, habitando a Península da Jutelândia, tinham ouvido muitas histórias sobre as ameaças dos francos e da fúria que seu rei Cristão dirigia aos seus vizinhos pagãos. Em 808 o rei dos dinamarqueses, Godfred, expandiu o vasto Danevirke, um sistema defensivo de fortificação de terra, através do istmo de Schleswig. Tal sistema protegia a terra dinamarquesa e dava a Godfred a oportunidade de ameaçar a Frisia e Flanders com ataques piratas, subjugando aliados dos francos. Assassinado por um franco ou um de seus próprios homens, Godfred foi sucedido por seu sobrinho Hemming, que concluiu, com Carlos Magno, o Tratado de Heiligen, em 811.

5 - Morte

De acordo com Einhard, Carlos Magno esteve com boa saúde até os quatro últimos anos de sua vida, quando passou a sofrer de febres e sem energia. Contudo, mesmo naqueles tempos ele seguia mais os seus próprios conselhos do que os conselhos dos médicos.
Em 813, Carlos Magno chamou à sua corte, Luís, o Pio, rei da Aquitânia, seu único filho legítimo sobrevivente, lá coroando-o como seu co-imperador e enviando-o de volta à Aquitânia. Ele então passou o outono caçando antes de retornar a Aachen, em primeiro de novembro. Em janeiro foi acometido de pleurisia, caindo em profunda depressão – principalmente porque muitos de seus planos não foram realizados – que o levou à cama em 21 de janeiro e o matou em 28 do mesmo mês, às nove horas, após tomar a comunhão, aos setenta e dois anos de idade e após 47 anos de reinado. Foi enterrado no mesmo dia, na Catedral de Aachen. 

Mapa da Europa cerca do ano 814
Luís sucedeu-o como Carlos havia pretendido. Deixou um testamento alocando seus bens em 811 que não foi atualizado antes de sua morte. Deixou a maior parte de seus bens à Igreja para serem usados como caridade. Seu Império, na totalidade, durou somente uma outra geração; sua divisão, de acordo com o costume, entre os filhos de Luís, após a sua morte, conduziu à fundação dos modernos Estados da Alemanha e da França.
Nas décadas seguintes seu império foi dividido entre seus herdeiros e ao final dos anos 800 havia sido dissolvido. Contudo, Carlos Magno tornou-se uma figura lendária de qualidades míticas.

Uma história posterior, contada por Otho de Lomello, Conde do Palácio de Aachen ao tempo do Imperador Otto III (cerca do ano 1000), atestaria que ele e Otto haviam descoberto a tumba de Carlos Magno que, segundo eles, estaria sentado em um trono, usando uma coroa e segurando um cetro, com sua carne praticamente perfeita.
Em 1165, sob o Imperador Frederick Barbarossa (1122-1190), Carlos Magno foi canonizado por razões políticas, fato não reconhecido pela Igreja. Sua tumba foi reaberta e o Imperador colocado num esquife feito de ouro e prata, conhecido como Karlsschrein.


Segue na próxima postagem com a Parte 4 de 4


[1] Povo de origem germânica que ocupou a Península Itálica na última parte do século VI, com seu reino subdividido num número variável de ducados governados por duques autônomos, ainda subdivididos a nível municipal. A capital do reino era Pavia, situada na região da Lombardia, ao norte da Itália.
[2] A Pannonia estava localizada no território atual do oeste da Hungria, leste da Áustria, norte da Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina e noroeste da Sérvia. Durante o Período das Migrações no século V, algumas partes da Pannonia foram cedidas aos Hunos pelos romanos. Após o colapso do Império Huno em 454, muito ostrogodos foram estabelecidos na área como federados aos romanos. O Império Romano do Oriente controlou partes do sul da Pannonia no século VI. Posteriormente, ela foi novamente invadida pelos ávaros e os eslavos, mas tornou-se independente apenas a partir do século VII. Em 790 foi então invadida pelos Francos.
[3] Khagan é um título de graduação imperial nas línguas turca, mongol e outras, equivalente ao status de imperador e alguém que governa um khaganato (império).
[4] Os Obotritas foram uma confederação de tribos do oeste eslavo medieval, ao norte da Alemanha. Por décadas eles foram aliados de Carlos Magno em suas guerras contra os saxões germânicos e os Veleti eslavos. Sob o comando do príncipe Thrasco, os obotritas derrotaram os saxões na batalha de Bornhöved (798). Os saxões ainda pagãos foram dispersados pelo imperador e parte de sua terra original, ao norte do Elba, foi entregue aos obotritas em 804 como recompensa por sua vitória.
[5] Os Veleti eram um grupo de tribos medievais dentro do território do que hoje é o nordeste da Alemanha, aparentado com os eslavos polabianos (poloneses). Junto com outros grupos eslavos entre os rios Elba e Oder, eles eram frequentemente descritos por fontes germânicas como Wends.
[6] Também conhecida como Albíngia do Norte, foi uma das quatro regiões administrativas do Ducado da Saxônia medieval, junto com Angria, Eastphalia e Westphalia. O nome da região é baseado no nome latino Alba, do rio Elba, e se refere à área predominantemente localizada ao norte do Baixo Elba, grosseiramente correspondendo à atual região do Holstein, norte da Alemanha, o mais antigo domínio conhecido dos saxões.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

CHARLEMAGNE OU CARLOS MAGNO
(Parte 2 de 4)

III - ESPOSAS, CONCUBINAS E FILHOS

Carlos Magno teve 18 filhos com oito de suas dez esposas ou concubinas conhecidas. Entretanto, teve apenas quatro netos legítimos, os quatro filhos de seu quarto filho Luís. Além disso, ele teve um neto, Bernardo da Itália (o único filho de seu terceiro filho Carlomano, rebatizado Pepino da Itália), ilegítimo, mas incluído na linha de hereditariedade. Entre seus descendentes estão várias dinastias reais que incluem os Habsburgs, Capetas e Plantagenetas. Em consequência, a maioria, senão todas as famílias nobres europeias estabelecidas desde então podem, genealogicamente, ligar algo do seu passado a Carlos Magno.
Durante a primeira paz de alguma duração substancial em seu reino (780-782), Charles começou a colocar seus filhos em posições de autoridade. Em 781, durante visita a Roma, ele fez seus dois filhos mais novos reis, coroados pelo Papa. O mais velho dos dois, Carlomano, foi feito rei da Itália, tomando a Coroa de Ferro que seu pai havia usado pela primeira vez em 774, sendo na mesma cerimônia rebatizado como Pepino (não confundir com o mais velho e possivelmente ilegítimo filho de Carlos Magno, Pepino, o Corcunda). O mais jovem dos dois, Luís, tornou-se rei da Aquitaine. Carlos Magno ordenou que esses seus dois filhos fossem criados nos costumes de seus reinos, dando a seus regentes algum controle sobre seus sub-reinos mantendo o poder real, embora pretendendo que seus filhos herdassem seus reinos. Nunca tolerou insubordinação de seus filhos: em 792 ele baniu Pepino, o Corcunda, para a Abadia de Prüm porque o jovem uniu-se a uma rebelião contra ele.
Carlos Magno determinou-se a bem educar suas crianças, incluindo suas filhas, da mesma forma que seus pais haviam insuflado a importância de aprender com ele em tenra idade. Seus filhos também aprenderam habilidades de acordo com seus status aristocráticos, que incluíam treinamento em equitação para os homens e bordado, fiação e tecelagem para as mulheres.
Os filhos lutaram muitas guerras para seu pai. Carlos era particularmente preocupado com os bretões, cujas fronteiras ele repartia e que se insurgiram em, pelo menos, em duas ocasiões. Ele também lutou contra os saxões em múltiplas ocasiões. Em 805 e 806 ele foi enviado à Böhmerwald (moderna Bohemia) para se ocupar dos eslavos que lá residiam (tribos bohemias, ancestrais dos modernos tchecos). Sujeitou-os à autoridade franca e devastou o vale do Elba, forçando-os a pagar tributos. Pepino teve que manter as fronteiras Ávara e Beneventana e lutou contra os Eslavos ao norte. Ele foi singularmente motivado a combater o Império Bizantino, quando o conflito surgiu após a coroação imperial de Carlos Magno, e uma rebelião Veneziana. Luís, finalmente, foi o encarregado da Marca Espanhola [1] e lutou contra o Duque de Benevento no sul da Itália, pelo menos em uma ocasião. Tomou Barcelona num grande sítio, em 797.
Carlos Magno manteve suas filhas com ele, em casa, recusando-lhes casamento (embora tenha anteriormente permitido o casamento de sua filha mais velha Rotrude com Constantino VI do Bizâncio, este enlace foi anulado quando Rotrude tinha 11 anos de idade). A oposição de Carlos Magno ao casamento de suas filhas pode, possivelmente, ter pretendido evitar a criação de ramos secundários da família que pudessem desafiar a linha principal. Contudo, ele tolerou suas relações extramaritais, mesmo recompensando seus “maridos habituais” e enriquecendo os netos ilegítimos por eles produzidos. Aparentemente, ele também recusava crer nas histórias de seus comportamentos selvagens. Após sua morte, as filhas sobreviventes foram banidas da corte por seu irmão, o pio Luís, para residirem em conventos que elas tinham recebido por herança de seu pai. Pelo menos uma delas, Bertha, teve uma relação reconhecida, se não casamento, com Angilbert, um membro da corte de Carlos Magno.

IV - CAMPANHAS ITALIANAS

1 – Conquista do Reino Lombardo

Com sua ascensão em 772, o Papa Adriano I exigiu o retorno de certas cidades do antigo Exarcado de Ravena [2], de acordo com a promessa de Desiderius (último governante lombardo a exercer um reinado regional). Ao invés disso, Desiderius invadiu a Pentápolis (grupo de cinco cidades às margens do Adriático: Rimini, Pesaro, Fano, Sinigaglia e Ancona), dirigindo-se para Roma. Adriano enviou embaixadores a Carlos Magno, solicitando que ele cumprisse as promessas de seu pai Pepino. Desiderius enviou seus próprios embaixadores negando as solicitações do Papa. Os embaixadores se encontraram em Thionville e Carlos Magno tomou o partido do Papa, exigindo o cumprimento das suas solicitações, com o que jurou Desiderius nunca concordar. Carlos Magno e seu tio Bernardo atravessaram os Alpes em 773 e o perseguiram até Pavia (Próximo de Milão) que passaram a sitiar. Carlos Magno abandonou temporariamente o cerco para negociar com Adelchis, filho de Desiderius, que levantava um exército em Verona. O jovem príncipe foi perseguido até o litoral do Adriático e fugiu para Constantinopla em busca de assistência de Constantino V, que fazia guerra contra a Bulgária.
O cerco durou até 774, quando Carlos Magno visitou o Papa em Roma, onde confirmou as promessas de terras de seu pai, recebendo do Papa o título de patrício. Retornou então a Pavia, onde os lombardos iniciavam sua rendição. Em troca de suas vidas os lombardos renderam-se, abrindo seus portões no início do verão. Desiderius foi enviado para a Abadia de Corbie e seu filho Adelchis morreu em Constantinopla. Carlos Magno corou-se com a Coroa de Ferro fazendo com que os magnatas da Lombardia lhe pagassem homenagem em Pavia. Somente o Duque Arechis não se submeteu e proclamou sua independência. Com isso Carlos Magno tornou-se senhor da Itália como rei dos lombardos, deixando a Itália com uma guarnição em Pavia e alguns condes francos em posição no mesmo ano.
A instabilidade prosseguiu na Itália e em 776 os Duques Hrodgaud de Friuli e Hildebrand de Spoleto se rebelaram. Carlos Magno retornou rapidamente da Saxônia, derrotando o Duque de Friuli (assassinado em seguida) em batalha. O Duque de Spoleto assinou um tratado, mas seu vizinho conspirador, Arechis, não foi subjugado. Com isso o norte da Itália era fiel a Carlos Magno.

2 – Sul da Itália

Em 787, Carlos Magno dirigiu sua atenção para o Ducado de Benevento, onde Arechis II reinava independentemente com o autoconcedido título de Príncipe. O sítio de Salerno, por Carlos Magno, forçou Arechis II a submeter-se, mas após sua morte, em 787, seu filho Grimoald III proclamou o Ducado de Benevento novamente independente. Grimoald foi atacado várias vezes pelos exércitos de Carlos Magno ou de seus filhos sem que alcançassem vitória definitiva. Carlos Magno perdeu interesse na região e nunca mais retornou ao sul da Itália onde Grimoald manteve seu ducado livre da suserania franca.

V - EXPANSÃO CAROLÍNGIA PARA O SUL

1 – Vasconia (ou Gasconha) e os Pirineus

A guerra conduzida por Pepino, na Aquitânia, embora com um final satisfatório aos francos, provou que a estrutura de poder ao sul do Loire era fraca e não confiável. Após a derrota e morte de Waiofar (último duque independente da Aquitânia), em 768, quando a Aquitânia novamente se submetia à dinastia Carolíngia, uma nova rebelião eclodiu em 769, liderada por Hunald II, um possível filho de Waifer. Ele refugiou-se com o aliado Duque Lupus II da Gasconha o qual, por medo de uma reprise de Carlos Magno, entregou-o ao novo Rei dos Francos a quem hipotecou lealdade, o que parecia confirmar a paz na área Basca ao sul do Garone.
Cauteloso sobre novos levantes bascos, Carlos Magno parece ter tentado conter o poder do Duque Lupus fazendo Seguin o Conde de Bordeaux (778) bem como outros condes de antecedentes francos nas áreas fronteiriças (Toulouse, Condado de Fézensac). O Duque basco, por seu lado, parece ter contribuído decisivamente ou maquinado a Batalha do Passo de Roncevaux (“traição basca”). A derrota do exército de Carlos Magno em Roncevaux (778) confirmou sua determinação de governar diretamente pelo estabelecimento do Reino da Aquitaine (dirigido por Luís, o Piedoso) apoiado numa força base de oficiais francos, distribuindo terras entre colonizadores e alocando terras à Igreja, que tomara como aliada. Um programa de cristianização foi posto em prática através dos Altos Pirineus (778).
O novo arranjo político para a Vasconia não assentou bem aos lordes locais. Em 788 Adalric lutava e capturava Chorson, o conde carolíngio de Toulouse. Este foi, ao final, libertado, mas Carlos Magno, encolerizado com isso, decidiu depô-lo, colocando em seu lugar seu curador William de Gellone. Este lutou contra os bascos e derrotou-os após banir Adalric.
De 781 (Pallars, Ribagorça) a 806 (Pamplona sob influência franca, usando o ducado de Toulouse como base), Carlos Magno firmou autoridade franca sobre os Pirineus, subjugando as fronteiras sudoeste de Toulouse (790) e estabelecendo condados vassalos ao sul dos Pirineus para constituir a Marca Espanhola. Em 794, um vassalo franco, o lorde basco Belasko governou Álava, mas Pamplona permaneceu sob Cardovan e controle local até 806. Belasko e os condados da Marca Espanhola proveram a base necessária para atacar os Andaluzes (uma expedição conduzida por William Conde de Toulouse e Luís o Piedoso para capturar Barcelona em 801). Eventos no ducado de Vasconia (rebelião em Pamplona, deposição do conde em Aragon, deposição do Duque Seguin de Bordeaux, levante dos lordes bascos etc...), provaram sua efemeridade após a morte de Carlos Magno.

2 – Campanha de Roncesvalles

De acordo com o historiador muçulmano Ibn al-Athir, a Dieta (Corpo Deliberativo do Sacro Império Romano) de Paderborn havia recebido os representantes muçulmanos de Zaragoza, Girona, Barcelona e Huesca. Seus líderes haviam sido entocados na Península Ibérica por Abd ar-Rahman I, o Emir Omíada de Córdova. Esses mandatários “sarracenos” (mouros e muladis) ofereceram reverência ao rei dos Francos em troca de apoio militar. Enxergando uma oportunidade de estender a Cristandade e seu próprio poder e acreditando que os saxões eram uma nação totalmente conquistada, Carlos Magno concordou em ir à Espanha.
Em 778 ele conduziu o exército neustriano (da Nêustria, região oeste do reino dos francos) através dos Pirineus Ocidentais, enquanto os austrasianos (ducado da Austrásia), lombardos e burgundianos (de Burgundy) atravessaram pelos Pirineus Orientais. Os exércitos se encontraram em Zaragoza e Carlos Magno recebeu as reverências dos mandatários muçulmanos Sulayman al-Arabi e Kasmin ibn Yusuf, mas a cidade não caiu. De fato, Carlos Magno enfrentou a mais árdua batalha de sua carreira. Os muçulmanos o forçaram a retirar-se e ele decidiu-se a voltar para casa pois não podia confiar nos Bascos, a quem ele havia subjugado na conquista de Pamplona. Iniciou sua retirada da Iberia mas ao passar pelo Passo de Roncevaux ocorreu um dos mais famosos eventos do seu reinado. Os Bascos atacaram e destruíram sua retaguarda e carros de carga. A Batalha do Passo de Roncevaux, menos uma batalha do que uma escaramuça, deixou muitos mortos famosos, incluindo o mordomo Eggihard, o conde do palácio Anselmo e o guardião das fronteiras com a Bretanha (Breton March), Rolando, que inspirou a subsequente criação da “Canção de Rolando”.

3 – Contato com os Sarracenos [3]

A conquista da Itália colocou Carlos Magno em contato com os Sarracenos que, à época, controlavam o Mediterrâneo. Seu filho mais velho, Pepino, o Corcunda, esteve muito ocupado com os sarracenos na Itália. Carlos Magno conquistou a Córsega, Sardenha e as Ilhas Baleares. As ilhas foram frequentemente atacadas por piratas sarracenos, mas os condes de Gênova e da Toscana controlaram esses ataques com grandes frotas até o final do reinado de Carlos Magno. Ele teve também contato com a corte do califado em Bagdá e em 797 (ou possivelmente 801) o califa Harun al-Rashid o presenteou com um elefante asiático (Abul-Abas) e um relógio.

4 – Guerras com os Mouros [4]

Na Espanha, os conflitos com os mouros continuaram, sem atenuação, por toda a última metade de seu reinado, com Luís encarregado da fronteira espanhola. Em 785 seus homens capturaram Girona permanentemente e estenderam o controle franco no litoral catalão até o final do reinado de Carlos Magno (a área permaneceu nominalmente franca até o Tratado de Corbeil, em 1258). Os chefes muçulmanos no nordeste da Espanha Islâmica estavam em permanente rebelião contra a autoridade de Córdova e frequentemente recorriam à ajuda dos francos. A fronteira franca foi lentamente se estendendo até 795, quando Girona, Cardona, Ausona e Urgell foram unidas à nova fronteira Espanhola, dentro do velho ducado da Septimania.
Em 797, Barcelona, a maior cidade da região caiu aos francos, quando Zeid, seu governador, rebelou-se contra Córdova e, falhando, entregou-a a eles. A autoridade Omíada recapturou-a em 799. Entretanto, Luís da Aquitânia marchou com todo o exército de seu reino, pelos Pirineus, e sitiou Córdova por dois anos, quando ela capitulou. Os francos continuaram a pressionar contra o Emir, tomando Tarragona e Tortosa em 811. A última conquista os levou à foz do Ebro, dando-lhes acesso a Valência e forçando o Emir Al-Hakam a reconhecer suas conquistas em 813.

Segue na próxima postagem, com a Parte 3 de 4.


[1] Área militar neutra além da original província da Septimania, estabelecida por Carlos Magno em 795, como barreira defensiva entre os mouros omíadas de Al-Andalus e o Império Carolíngio Franco.
[2] O Exarcado de Ravena, ou da Itália, foi um território do Império Romano do Oriente (Império Bizantino), na Itália, que sobreviveu de 584 a 751, quando o último exarca (mantenedor de qualquer dos vários escritórios históricos, alguns deles políticos ou militares e outros eclesiásticos) foi condenado à morte pelos Lombardos (povo germânico que governou a maior parte da Península Itálica, de 568 a 774, com origens próximas do Elba, ao norte da Alemanha e sul da Suécia, antes do Período da Migração). Foi um dos dois exarcados estabelecidos pelo Imperador Justiniano em sua Reconquista do ocidente, para mais efetivamente poder administrar os territórios, junto com o Exarcado da África (Cartago).
[3] Sarraceno foi um termo usado por escritores cristãos, durante a Idade Média, para se referir a muçulmanos, principalmente de origem árabe, mas também de origem turca ou persa. O significado do termo evoluiu com o uso na história; nos primeiros séculos da era cristã, escritos gregos e latinos usaram o termo para se referir às pessoas que habitavam as áreas desérticas da província romana de Arabia Petrae ou próximas dela, bem como da Arábia Deserta. Durante os primórdios da Idade Média na Europa, o termo veio a ser associado com as tribos da Arábia. A mais antiga fonte que menciona “sarracenos” relacionados ao Islã, data do século VII e foi encontrada num comentário cristão, em grego, que discutia, entre outras coisas, a conquista do Levante pelos muçulmanos, ocorrida após o estabelecimento do Califado Rashidun, após a morte de Maomé. Pelo século XII, “sarraceno” se tornara sinônimo de “muçulmano”.
[4] O termo “Mouro” é uma palavra estrangeira primeiramente usada por cristãos europeus para designar os habitantes muçulmanos do Maghreb (região oeste do norte da África), Península Ibérica, Sicília e Malta durante a Idade Média. Os mouros eram, inicialmente, os indígenas Bérberes do Maghreb. O termo foi, posteriormente, aplicado a árabes e habitantes da Península Ibérica arabizados.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 6

VI.4 – ITÁLIA E ESPANHA

Embora tenham surgido apoiadores isolados da Reforma nesses países, nenhuma organização forte ou ampla surgiu. Aqui e ali, na Itália, indivíduos influentes (por exemplo Vittoria Colonna e seu círculo) favoreceram a Reforma, mas desejando que esta ocorresse dentro e não como uma rebelião contra a Igreja. Poucos italianos abraçaram o luteranismo ou calvinismo, por exemplo, John Valdez, secretário do vice-rei de Nápoles. Nas cidades de Turim, Pavia, Veneza, Ferrara (onde a duquesa Renata favoreceu a Reforma) e Florença podiam ser encontrados adeptos dos reformadores Alemão e Suíço, embora não tão extremados quanto seus protótipos. Os mais proeminentes tiveram que deixar o país: Pietro Paolo Vergerio, que fugiu para a Suíça e então para Wittenberg, Bernardino Ochino, que fugiu para Genebra e foi mais tarde professor em Oxford, Petrus Martyr Vermigli, que fugiu para Zurique e foi posteriormente ativo em Oxford, Strasburg e novamente em Zurique. Pela vigorosa inauguração da verdadeira reforma eclesiástica no espírito do Concílio de Trento, através da atividade de numerosos santos homens (São Charles Borromeo e Felipe Neri), através da vigilância dos bispos e a diligência da Inquisição, a Reforma foi excluída da Itália. Em alguns círculos racionalistas e antitrinitarianas, as tendências se revelaram e a Itália foi o berço de dois heresiarcas, Laelius Socinus e seu sobrinho Faustus Socinus, fundadores do Socinianismo. 
Miguel Revet, denunciado por Calvino e morto
na fogueira, "não por autoridade do homem,
mas pela Glória de Deus"
O curso dos eventos foi o mesmo na Espanha. A despeito de algumas tentativas de disseminação de artigos antieclesiásticos no país, a Reforma não teve sucesso, graças ao zelo demonstrado pelas autoridades eclesiásticas e públicas no contra-ataque aos seus esforços. Os poucos espanhóis que aceitaram as novas doutrinas não puderam desenvolver qualquer atividade no país e viveram no exterior – Francisco Enzinas (Dryander), que fez uma tradução da Bíblia para o espanhol, Juan Diaz, Miguel Servet (Servetus), condenado à fogueira por Calvino, em Genebra, por sua doutrina contra a Trindade.

VI.5 – HUNGRIA E TRANSILVÂNIA (CENTRO OCIDENTE DA ROMÊNIA)

A Reforma foi difundida na Hungria por quem havia estudado em Wittenberg e lá abraçado o luteranismo. Em 1525, leis estritas foram passadas contra os adeptos das doutrinas heréticas, mas seu número continuou a crescer, principalmente entre a nobreza - que desejava confiscar a propriedade eclesiástica -, e nas cidades livres do reino. As vitórias e conquistas turcas e a guerra entre Ferdinando da Áustria e John Zapolya favoreceram os reformadores. Além dos luteranos, logo surgiram seguidores de Zwingli e Calvino no país. Cinco cidades luteranas na Hungria Superior aceitaram a Confissão de Augsburg. O calvinismo, contudo, gradualmente sobrepujou as demais crenças, embora as disputas domésticas entre as seitas reformadoras não tivessem cessado. Na Transilvânia mercadores do Hermannstadt que haviam tido contato com a heresia de Lutero em Leipzig, espalharam a Reforma após 1521. Apesar da perseguição dos reformadores, uma escola luterana iniciou em Hermannstadt e a nobreza empenhou-se no uso da Reforma como meio de confiscar a propriedade do Clero. Em 1529 as ordens regulares e os mais fortes campeões da Igreja foram expulsos da cidade. Em Kronstadt o pregador luterano Johann Honter ganhou a ascendência em 1534, com a abolição da missa e a organização do serviço divino segundo o modelo luterano. Em um sínodo que aconteceu em 1544, a nação saxônica na Transilvânia decidiu em favor da Confissão de Augsburg, enquanto os magiares rurais aceitavam o calvinismo. Na Dieta de Klausenburg, em 1556, a liberdade religiosa geral foi garantida e a propriedade eclesiástica confiscada para a defesa do país e a construção de escolas luteranas. Entre os apoiadores da Reforma, acorreram divisões adicionais. Além dos luteranos, surgiram os unitarianos (socinianos) e os anabatistas e cada uma dessas seitas provocou guerra contra as demais. Uma minoria católica sobreviveu entre os Wallaquianos gregos (a Wallachia é uma região histórica e geográfica da Romênia).

VI.6 – POLÔNIA, LIVÔNIA E CURLÂNDIA[1]

Os poloneses aprenderam sobre a Reforma por alguns jovens estudantes de Wittenberg e pelas Confrarias Bohemia e Moraviana[2]. O Arcebispo Laski de Gnesen e o rei Sigismundo I (1501 – 1548) se opuseram energicamente à difusão das doutrinas heréticas. Contudo, os apoiadores da Reforma tiveram sucesso em obter recrutas na Universidade da Cracóvia, em Posen e em Dantzig, de onde ela se espalhou para Thorn e Elbing onde alguns nobres favoreceram as novas doutrinas. Sob o governo do fraco Sigismundo II (1548 – 1572) havia na Polônia, além dos luteranos e da Confraria Bohemia, zwinglianos, calvinistas e socinianos. O Príncipe Radziwill e John Laski favoreceram o calvinismo e a Bíblia foi traduzida para o polonês, de acordo com o seu partido, em 1563. A despeito dos esforços do núncio papal, Aloisius Lippomano (1556 – 1558), a livre prática da religião foi secretamente garantida nas três cidades acima mencionadas e a nobreza pôde ter serviços religiosos privados em suas casas. As diversas seitas reformadas lutavam entre si e a fórmula de fé, introduzida no Sínodo Geral de Sandomir, em 1570, pelos reformados, luteranos e a Confraria Bohemia, não produzia qualquer unidade. Em 1573, os partidos heréticos asseguraram a paz religiosa de Varsóvia que garantia direitos iguais a católicos e dissidentes, estabelecendo a paz permanente entra as duas seções. Pela zelosa inauguração da verdadeira reforma eclesiástica, a diligente atividade dos legados papais e bispos capacitados, além dos trabalhos Jesuítas, se conseguiu evitar progressos adicionais da Reforma.
Na Livônia e na Curlândia, territórios da Ordem Teutônica, o curso da Reforma era o mesmo que na Prússia, outro território da Ordem. O comandante Gotthard Kettler, da Curlândia, abraçou a Confissão de Augsburg e transformou a terra em ducado secular hereditário, tributário da Polônia. Na Livônia, o comandante Walter de Plettenberg empenhou-se em promover o Luteranismo, que havia sido aceito em Riga, Dorpat e Reval desde 1523, esperando assim tornar-se independente do Arcebispo de Riga. Quando Margrave William de Brandenburg tornou-se Arcebispo de Riga em 1539, o Luteranismo obteve o domínio exclusivo na Livônia.

VI.7 – PAÍSES BAIXOS (Netherlands)
Carlos V, Sacro Imperador Romano Germânico,
Rei da Espanha e Senhor dos Países Baixos

Durante o reinado de Carlos V, as dezessete províncias dos Países Baixos permaneceram imunes à infecção da nova doutrina. Vários seguidores de Lutero haviam aparecido lá dispostos a disseminar os escritos e doutrinas de Lutero. Carlos V, contudo, emitiu decretos rígidos contra os luteranos e a impressão e difusão das ideias do reformador. Os excessos dos anabatistas produziram a violenta supressão do seu movimento e até 1555 a Reforma produziu poucas raízes no país. Neste ano, Carlos V transferiu o governo a seu filho Felipe II e em seu período o calvinismo fez rápidos avanços, especialmente nas províncias do norte. Muitos dos seus grandes nobres e muito da baixa nobreza empobrecida usou a Reforma para incitar os amantes da liberdade contra a administração real, os oficiais e tropas espanholas e a severidade do governo. A desavença continuou a crescer, principalmente devido às severas práticas do Duque de Alba e à sangrenta perseguição que conduziu. Guilherme de Orange-Nassau, governador da província da Holanda, por razões políticas assegurou a vitória do Calvinismo e obteve sucesso em vários distritos do norte. Colocou-se à liderança da revolução contra o domínio espanhol e nas guerras que se seguiram as províncias do norte fizeram a sua independência, a partir da qual o calvinismo ganhou ascendência. Em 1581 foi proibida qualquer atividade pública da fé católica. A “Confissão Belga” de 1562 já possuía uma base calvinista; pelos sínodos de Dordrecht, em 1574 e 1618, o calvinismo recebeu uma forma definitiva. Os católicos do país (cerca de dois quintos da população) foram sujeitados a violenta supressão.

VI.8 – INGLATERRA E ESCÓCIA
Elizabeth I, Rainha de Inglaterra e Irlanda
filha de Henry VIII e Anne Boleyn

A Reforma recebeu sua forma final na Inglaterra durante o reinado da rainha Elizabeth (1558–1603). Na base da liturgia estabelecida no “Livro da Oração Comum”, sob Edward VI (1547-1553) e da “Confissão de Quarenta e Dois Artigos” compostos pelo arcebispo Cranmer e o bispo Ridley, em 1552, e depois que a rainha Mary I (1553-1558), filha de Henry VIII com sua primeira esposa, falhou em reunir seu país com Roma e a fé católica, a ascendência do Anglicanismo foi estabelecida na Inglaterra por Elizabeth (filha de Henry VIII e sua segunda esposa). Os Quarenta e Dois Artigos foram revisados para os Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana, tornando-se, em 1562, a norma do seu credo religioso. A supremacia eclesiástica da rainha foi reconhecida e o “Juramento da Supremacia” tornou-se exigência sob pena de remoção de cargo e perda de propriedade. Vários prelados e universidades ofereceram resistência que foi vencida pela força. A maioria do baixo clero fez o juramento exigido com sempre crescente severidade por todos os membros da Casa dos Comuns, eclesiásticos, advogados e professores. Nas aparências, muito da antiga forma católica fora retida. Após o fracasso do movimento em favor de Mary Stuart da Escócia, que fugira para a Inglaterra em 1568, a opressão dos católicos ingleses continuou com crescente violência. Além da Igreja Anglicana Estabelecida, havia na Inglaterra os não conformistas calvinistas que opuseram uma organização presbiteriana popular à hierarquia episcopal; como os católicos, e foram muito oprimidos pelos governantes ingleses.
Na Escócia, a situação social e política deu um grande ímpeto à Reforma, ajudada pela ignorância e rudeza do clero (em grande parte o resultado das constantes rixas). A nobreza usou a Reforma como arma em sua guerra contra a casa real, então apoiada pelo alto clero. Já sob James V (1524-1542), os apoiadores das doutrinas luteranas (Patrick Hamilton, Henry Forest e Alexander Seton, confessor do rei) avançaram como reformadores. Os dois primeiros foram executados e o último fugiu para o Continente. Contudo, as doutrinas heréticas continuaram a encontrar novos adeptos. À morte de James V, sua filha e herdeira Mary tinha apenas seis dias de idade e a regência coube a James Hamilton que, embora previamente de sentimentos protestantes, retornou à Igreja Católica e apoiou o arcebispo David Beaton em suas enérgicas medidas contra os inovadores. Após a execução do reformador George Wishart, os protestantes formaram uma conspiração contra o arcebispo, atacando-o em seu castelo e executando-o em 1545. Os rebeldes (entre eles John Knox), apoiados por 140 nobres, fortificaram-se no castelo. Knox foi para Genebra em 1546 lá abraçando o calvinismo; a partir de 1555 foi o líder da Reforma na Escócia onde venceu a ascendência na forma do calvinismo. A confusão política prevalente na Escócia a partir da morte de James V, facilitou a introdução da Reforma.

VII – DIFERENTES FACÇÕES DA REFORMA

As principais formas da Reforma foram o Luteranismo, Zwinglianismo, Calvinismo e o Anglicanismo. Em cada um desses ramos, entretanto, conflitos surgiram em consequência das diversas visões dos representantes individuais. Negociações, compromissos e fórmulas de união foram buscadas, usualmente sem sucesso duradouro, para estabelecer a unidade. Toda a Reforma, repousando em autoridade humana, apresentou, desde o seu início, frente à unidade de fá católica, um aspecto de triste dissensão. Além desses ramos principais, surgiram inúmeras outras formas que deles se desviavam em pontos essenciais e que, gradualmente, deram origem a incontáveis divisões do Protestantismo. As principais dessas formas serão revistas brevemente.
Os Anabatistas, que surgiram na Alemanha e na Suíça Alemã logo após o aparecimento de Lutero e Zwingli, desejavam levar sua concepção de Igreja de volta aos tempos apostólicos. Eles negavam a validade do batismo das crianças, viam na sagrada eucaristia somente uma cerimônia comemorativa e desejavam restaurar o Reino de Deus de acordo com sua visão herética e mística. Embora atacados por outros reformadores, eles fizeram adeptos em muitos lugares. Deles também saíram os Mennonitas, fundado por Menno Simonis.
Os Schwenkfeldianos foram fundados por Kaspar Schwenkfeld, conselheiro palaciano do duque Frederick de Liegnitz - Duque de Chojnów and Strzelin a partir de 1453, de Oława e Legnica a partir de 1454, de Brzeg a partir de 1481 e de Lubin, a partir de 1482 (todas cidades do sul e sudoeste da Polônia) - e cônegos. Inicialmente ele associou-se com Lutero, mas depois de 1525 a ele se opôs em sua Cristologia, bem como em sua concepção da Eucaristia e sua doutrina de justificação. Atacados pelos reformadores alemães, seus seguidores puderam formar apenas poucas comunidades. Até hoje os Schwenkfeldianos ainda se mantêm nos Estados Unidos.
Sebastian Franck (1499-1542), um espiritualista puro, rejeitou toda a forma externa de organização eclesiástica, favorecendo uma Igreja espiritual e invisível. Assim, se absteve de fundar uma comunidade separada e apenas procurou disseminar suas ideias.
Os Socinianos e outros Antitrinitarianos. Alguns membros individuais dos primeiros reformadores atacaram a doutrina fundamental da Sagrada Trindade, especialmente o espanhol Miguel Servet (Servetus), cujo escrito “De Trinitatis Erroribus”, impresso em 1531, foi queimado por Calvino, em Genebra, 1533. Os principais fundadores do Antitrinitarismo foram Laelius Socinus, professor de jurisprudência em Siena e seu sobrinho Faustus Socinus. Obrigados a fugir de suas casas, mantiveram-se em vários lugares e fundaram comunidades Socinianas. Faustus disseminou sua doutrina especialmente na Polônia e Transilvânia.
Valentine Weigel (1533-1588) e Jacob Böhme (falecido em 1642), um sapateiro de Gorlitz (cidade do extremo leste alemão), representaram um panteísmo místico, ensinando que a revelação externa de Deus na Bíblia poderia ser reconhecida somente através de uma luz interna. Ambos tiveram numerosos discípulos. Os seguidores de Böhme receberam, mais tarde, o nome de Roza Cruzes porque foi amplamente suposto que estavam sob a direção de um líder escondido chamado Rozenkreuz.
Os Pietistas, na Alemanha, tiveram por líder Philip Jacob Spener (1635-1705). O Pietismo foi inicialmente uma reação contra a estéril ortodoxia luterana e via a religião principalmente como algo do coração.
As Comunidades Inspiração se originaram na Alemanha durante os séculos XVII e XVIII com vários visionários apocalípticos. Eles viam o reino do Espírito Santo como já chegado acreditando no presente universal da profecia e no milênio. Entre os fundadores de tais sociedades visionárias estavam Johann Wilhelm Petersen (falecido em 1727), superintendente em Luneberg, e Johann Konrad Duppel (nascido em 1734), um médico de Leiden.
Os Herrnhuter foram fundados pelo Conde Nicholas de Zinzendorf (1700-1760). No Hutberg, Alemanha, ele estabeleceu a comunidade de Herrnhut, com uma constituição especial formada de Irmãos Moravianos e Protestantes. A ênfase foi posta na doutrina da Redenção e foi inculcada uma estrita disciplina moral. Tal comunidade se espalhou para vários locais.
Os Quakers foram fundados por John George Fox de Drayton (1624-1691), em Leicestershire, região central da Inglaterra. Ele favoreceu um espiritualismo visionário e encontrou na alma de cada homem uma parte da inteligência divina. Segundo ele, todos podem orar de acordo com a forma como o espírito os incitam. Os preceitos morais de tal seita eram muito estritos. Muitos Quakers, perseguidos na Inglaterra, emigraram para os Estados Unidos onde formaram uma enorme comunidade
Os Metodistas foram fundados por John Wesley. Em 1729 ele instituiu, com seu irmão Charles e seus amigos Morgan e Kirkham, uma associação, em Oxford, Inglaterra, para o cultivo de uma vida religiosa e ascética, dessa sociedade desenvolvendo-se o Metodismo.
Os Batistas se originaram na Inglaterra, em 1608. Mantinham que o batismo era necessário apenas para os adultos, apoiavam o calvinismo em suas essências e observavam o dia de descanso no sábado ao invés de domingo.
Os Swedenborgianos, tiraram seu nome do seu fundador, Emmanuel Swedenborg (falecido em 1772) filho de um bispo protestante sueco. Acreditando em seu poder de comunicação com o mundo espírita e no recebimento de revelações divinas, fundou uma comunidade com liturgia especial, a “Nova Jerusalém”. Teve numerosos seguidores que se espalharam por muitos lugares.
Os Irvingitas tomaram o nome do seu fundador Edward Irving, um nativo da Escócia e, desde 1822, pregador numa capela presbiteriana em Londres.
Os Mormons foram fundados por Joseph Smith, nos Estados Unidos, que fez sua aparição, com supostas revelações, em 1822 (também conhecida como Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias). Muito fortes, ainda hoje, principalmente no Estado de Utah.
Adventismo é um ramo do Protestantismo com origem no renascimento americano protestante do século XIX, conhecido como “O Segundo Grande Despertar”. O nome se refere à crença na iminente segunda vinda (ou segundo advento) de Jesus Cristo. William Miller iniciou o movimento adventista na década de 1830 e seus seguidores tornaram-se conhecidos como “Milleritas”.
Além destas ramificações mais bem conhecidas da Reforma, há muitas outras denominações, diferentes resultados da evolução de novas formas surgidas e que surgirão, devido à arbitrariedade subjetiva transformada em princípio pelo ensinamento herético do século XVI. (CONTINUA NA PARTE 7)

[1] A Curlândia é uma das regiões culturais e históricas da Latvia, país da região báltica do norte da Europa, um dos três estados bálticos. Situada no oeste da Latvia, a Curlândia corresponde, grosseiramente, aos distritos latvianos de Kuldiga, Liepaja, Saldus, Talsi, Tukums e Ventspils.
[2] "Confraria Bohemia" e "Confraria Moraviana" são as designações populares da Fraternidade Unitas, fundada na Bohemia em 1457, renovada pelo Conde Zinzendorf em 1722 e ainda ativa até hoje.

domingo, 3 de janeiro de 2010

GUELFOS E GIBELINOS

Ao cabo do “Canto X” do “Inferno” da “Divina Comédia” de Dante, com todas as anotações muito mais do que necessárias e suficientes, de uma edição muito bem cuidada, as dúvidas se acumulavam na minha cabeça, de parcos conhecimentos. Não apenas sobre o objetivo propriamente dito da obra, que é ainda mais grave, mas também sobre personagens e suas localizações dentro do contexto da obra. Daí nasceu a idéia desse artigo, que não se propõe a analisar (nem seria preciso dizer) a “Divina Comédia”, mas apenas conhecer um seu pequeno porém importante detalhe, para uma melhor compreensão do Poema, que descreve a jornada do autor para encontrar Deus. Trata-se de um detalhe da sua faceta política.
Dante ou Durante Alighieri, nascido em Florença (Firenze, em italiano) numa época em que a Itália não existia como nação, mas seu atual território era apenas um conjunto de cidades-estado então perfeitamente autônomas, denominadas comunas, viveu durante o período de 1265 a 1321, em plena Idade Média.

Os Guelfos e os Gibelinos constituíam facções políticas que, a partir do século XII, estiveram em luta na Itália, especialmente em Florença. Os conflitos se intensificaram sobretudo a partir do século XIII. Em sua origem, tratava-se de uma disputa entre os partidários do Papado (os guelfos) e os partidários do Sacro Império Romano-Germânico (os gibelinos).
O Sacro Império Romano-Germânico foi a união de territórios da Europa Central durante a Idade Média, durante toda a Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea sob a autoridade do Sacro Imperador Romano. Embora Carlos Magno seja considerado o primeiro Sacro Imperador Romano, coroado em 25 de Dezembro de 800, a linha contínua de imperadores começou apenas com Oto o Grande em 962. O último imperador foi Francisco II, que abdicou e dissolveu o Império em 1806 durante as Guerras Napoleônicas. A partir do século XV, este estado era conhecido oficialmente como o “Sacro Império Romano da Nação Germânica”.
A extensão territorial do Império variou durante sua história, mas no seu ápice englobou os territórios dos modernos estados da Alemanha, Áustria, Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo, República Tcheca, Eslovênia, Bélgica, Países Baixos e grande parte da Polônia, França e Itália. Na maior parte da sua história, o Império consistiu de centenas de pequenos reinos, principados, ducados, condados, Cidades livres imperiais, e outros domínios. Apesar de seu nome, na maior parte da sua existência o Sacro Império Romano-Germânico não incluiu a cidade de Roma em seus domínios. No que se refere ao Sacro Império Romano-Germânico, paremos por aqui, visto ser este, isoladamente, assunto para vários livros.
As denominações "guelfos" e "gibelinos" originaram-se após a morte de Henrique V, Sacro Imperador Romano-Germânico (1125), sem deixar herdeiros diretos. Criou-se então um conflito na disputa pela sucessão do Império. Os guelfos e o Papa apoiavam a casa da Baviera e Saxônia dos Welfen (de onde provém a palavra guelfo), enquanto os gibelinos eram partidários da casa da Suábia dos Hohenstaufen, senhores do castelo de Waiblingen (de onde provém a palavra gibelino).
No interior das cidades, a mesma dicotomia se reproduziu, mas acabou perdendo o significado tradicional da luta politica entre o Papado e Império, para transformar-se em luta entre as facções da população, pelo domínio da cidade. Para aumentar sua força, as cidades, tanto guelfas quanto gibelinas, reuniam-se em ligas opostas. E, muita vezes, dentro de uma própria cidade, dominada por uma das duas grandes facções políticas, formavam-se pequenas sub-facções que frequentemente lutavam entre si.
Assim, a partir da segunda metade do século XIII, a cidade guelfa de Florença combateu a liga gibelina formada pelas cidades toscanas de Arezzo, Siena, Pistoia, Lucca e Pisa. Foi um longo conflito, cujos momentos mais dramáticos foram as batalhas de Montaperti (1260) e de Altopascio 1325. Na segunda metade do século XIII, após a batalha de Benevento, em 1266, houve nas cidades gibelinas, uma verdadeira crise, quando perderam o seu maior apoio - a dinastia suábia. Essa crise teve início com Frederico Barbarossa para concluir-se com as derrotas de Corradino e Manfredi da Sicília, entre 1266 e 1268.

Disso resultou o fortalecimento dos guelfos que, finalmente, predominaram na Península Itálica, apoiados militarmente tanto pelo Rei de Nápoles, Carlos I da Sicília, como pelos vários Papas. Com isso, os guelfos chegaram a se reapoderar de Florença, a partir de 1269, quando derrotaram os gibelinos de Siena.
Ao final do século XIII, o partido guelfo se dividiu em duas facções: os Guelfos Brancos (Guelfi Bianchi), liderados por Vieri dei Cerchi, e os Guelfos Negros (Guelfi Neri), liderados por Corso Donati, que, de certa forma, seriam Gibelinos, numa versão tímida. Na origem dessa divisão existia uma querela de clãs que opunha os Cerchi aos Donati. A divisão era também social, sendo os Cerchi - uma antiga família patrícia florentina - mais próximos do povo, enquanto os Donati - uma das famílias mais numerosas e importantes da Florença medieval – eram mais ligados à elite florentina.
As cores foram atribuídas primeiramente por Vieri dei Cerchi, que apoiou a família Grandi, de Pistoia, conhecida localmente como la parte bianca (o partido branco). Corso Donati, por consequência, protegeu o partido oposto, la parte nera - a parte negra. Em 1300, na Praça da Santíssima Trindade, em Florença, explode uma batalha que marcará a clivagem definitiva entre os dois partidos. Os guelfos negros, muito próximos do Papa Bonifácio VIII, levam vantagem sobre os brancos, incapazes de se defender, e Carlos de Valois (1270-1325), vindo da França para apoiar o Papa, ataca Florença sem encontrar resistência. A partir de janeiro de 1302, começa o exílio dos brancos, dentre os quais Dante Alighieri. Cante Gabrielli de Gubbio reinará sobre a cidade.
Até pouco antes disso, Dante se havia mantido neutro em suas atividades cívicas, em face das lutas travadas entre Brancos e Negros. Deixou entretanto de ser neutro, e de forma muito coerente, quando se tratou de defender Florença contra o Papa Bonifácio VIII, fazendo então causa comum com o sBrancos, quando a sorte não lhe sorriu. Com a vitória dos Negros, Dante foi condenado por seus adversários políticos a pagar multa de 5.000 “liras de florins pequenos” e a passar dois anos no exílio. Como se tivesse auto-exilado antes e nunca se tivesse defendido de qualquer das acusações contra si, o Poeta foi novamente condenado, desta feita a ser queimado vivo em praça pública. Em consequência, durante mais de vinte anos, Dante preferiu viver no exílio – com uma alternativa dessas ... -, nunca mais voltando a Florença, mas ainda desenvolvendo atividades políticas, desta feita convertido aos Gibelinos. Alguns anos mais tarde, não desejando mais ser guelfo ou gibelino, fez “parte per sé stesso”, ou seja, tornou-se o “partido político de um homem só”. O roteiro do exílio de Dante ainda não foi totalmente esclarecido. Tem-se notícia de que o Poeta apareceu em várias cidades da Itália e que, numa certa época, esteve em Paris onde morou por algum tempo. Posteriormente passou a viver em Verona e, por último, em Ravena, onde finalmente morreu na noite de 13 para 14 de setembro de 1321.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O FAMOSO RUBICÃO

Muitos, com certeza, lembrar-se-ão das suas aulas de História Geral do segundo grau, quando o professor emocionado, literalmente declamava a célebre frase de Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão: “Alea Jacta Est!”. Estas foram três coisas que, de fato, pelo menos eu, nunca esqueci: Júlio César, a frase e o Rubicão. Mas o que eu não entendi, na época, foi o real significado do fato, a sua importância e também porque nunca mais se falou do Rubicão e nem ao menos mostrou-se a região por onde ele corria. Aliás, até aí, nenhuma novidade; na minha experiência pessoal, nunca os professores de história daquele tempo ensinavam as coisas que realmente importavam no estudo da História. Na mentalidade dos professores da época, apenas datas e nomes eram as coisas importantes; as origens dos fatos, suas causas e conseqüências eram raramente mencionadas. Entretanto, no caso em particular, há pelo menos duas grandes e boas razões para que o Rubicão fosse, posteriormente ao fato, tão desprezado, senão totalmente esquecido.



A pequena cidade que aparece no centro da primeira foto chama-se “Savignano sul Rubicone”. Na verdade, “Comune de Savignano sul Rubicone”, situada na região nordeste da Itália, próximo de San Marino, Rimini e Cesena. Savignano é uma Comuna (municipalidade) que faz parte da Província de Forli-Cesena, na região italiana de Emilia-Romagna, localizada a cerca de 90 km de Bolonha e 30 km a sudeste de Forli, às margens do Mar Adriático.



Um pouco a esquerda do centro da foto, dentro do pequeno retângulo, pode-se enxergar uma pequena ponte sobre um rio. A foto seguinte, ampliação da foto anterior, mostra com mais clareza a antiga ponte romana que justamente atravessa sobre o pequeno “fiume Rubicone”; seu curso encontra-se materializado e pode ser acompanhado, na foto seguinte, pela linha negra, até a sua foz no Mar Adriático, em Forli, próximo à cidade mais importante de Rimini. Suas nascentes, que não são vistas na foto, localizadas nos montes Apeninos, situam-se a cerca de 30 km da sua foz. A próxima foto mostra em detalhe a ponte romana e o Rio Rubicão na atualidade.


A cidade tomou o seu nome do Rubicão, rio que se tornou famoso pela histórica travessia de Júlio Cesar, quando retornava a Roma, vindo da Gália Cisalpina. Desde então, uma combinação de modificações naturais e criadas pelo homem fizeram com que o Rubicão alterasse o seu curso repetidas vezes. Por séculos, a exata localização do curso original ficou desconhecida. Em 1933, o Fiumicino, um rio que atravessa a cidade de Savignano Sul Rubicone, foi identificado como a mais provável localização do Rubicão original. Antes disso a região se chamava Savignano di Romagna.



À época de Júlio César, o rio era considerado como a materialização do limite sul da Província da Gallia Cisalpina ao norte, separando-a da Itália, propriamente dita, ao sul. O rio tornou-se notável uma vez que a lei romana proibia que o rio Rubicão fosse atravessado por qualquer legião do exército romano; dessa forma, a lei assim protegia a República de ameaça militar interna. Quando Júlio César atravessou o Rubicão com o seu exército em 49 AC, supostamente em 10 de janeiro do calendário romano, para prosseguir em seu caminha para Roma, ele quebrou a lei romana e armou um conflito inevitável. Nessa ocasião, segundo o historiador Suetonius, Júlio César teria lançado a famosa frase latina “alea jacta est”, significando: a sorte está lançada! De uma certa forma, foi a travessia deste rio, por Júlio César, com suas legiões, que precipitou uma guerra civil na República Romana, finalmente conduzindo ao estabelecimento do Império Romano.



A Gallia Cisalpina (Gallia deste lado dos Alpes, lado de Roma) era o nome romano dado a uma área geográfica (mais tarde uma província da República Romana) no território do norte da Itália dos dias modernos (incluindo a Emilia-Romagna, Friuli-Venezia Giulia, Liguria, Lombardia, Piedmont, Trentino-Alto Adige/ Sudtirol e Veneto), habitada pelos Celtas. Em oposição, encontrava-se a Gallia Transalpina, região correspondente, do outro lado dos Alpes (sempre com relação a Roma). A província da Gallia Cisalpina foi anexada à Itália no ano 42 AC, como parte do programa de “italização” de Otávio (Imperador Augustus) durante o Segundo Triunvirato. A partir desse momento desapareceu a importância do Rubicão como acidente geográfico, pois deixava de representar a linha de fronteira do extremo norte da Itália. A decisão de Augustus fez com que o Rubicão perdesse muito de sua importância e, enquanto as memórias desvaneciam, o nome “Rubicão” gradualmente desapareceu da toponímia local.



Para completo azar do Rubicão, após a queda do Império Romano e durante os primeiros séculos da Idade Média, a planície costeira entre Ravenna e Rimini foi inundada várias vezes e durante esses períodos, como é natural ocorrer, este e vários outros pequenos rios da região tiveram seus cursos alterados. Por esta razão e também para possibilitar a regularização dos cursos d’água e a irrigação dos campos ribeirinhos, com o renascimento da agricultura após a Idade Média, durante os séculos XIV e XV, várias obras hidráulicas foram implantadas; o resultado final foi, muitas vezes, a completa retificação dos rios, como ainda hoje é feito com freqüência. Com o passar dos séculos, vários rios da costa italiana do Adriático entre Ravenna e Rimini foram considerados como sendo o antigo Rubicão. Em 1933, após vários séculos de esforços, como já mencionado, o rio chamado Fiumicino (por acaso, “pequeno rio” em italiano), que atravessava a cidade de Savignano di Romagna (atualmente Savignano Sul Rubicone), foi oficialmente identificado como o Rubicão original.



Hoje, muito pouca evidência existe da passagem histórica de César. Savignano Sul Rubicone é uma cidade industrial e o rio tornou-se um dos mais poluídos da região de Emilia-Romagna. A intensa exploração das águas subterrâneas no curso superior do Rubicão, junto com o natural esgotamento de suas nascentes, tem reduzido consideravelmente suas descargas. E o velho Rubicão acabou perdendo, além da sua fama, o seu próprio curso natural, a não ser em seu curso superior entre colinas baixas, ainda vegetadas e agora tristes. A foto ao lado mostra a foz do rio Rubicão, no Mar Adriático.


Hoje, a sua antiga fama permanece apenas na consagrada frase “Atravessar o Rubicão”, uma expressão popular consagrada com o significado de ultrapassar o ponto sem retorno, referindo-se à travessia do rio por Júlio César no ano 49 AC, considerada na época um ato de guerra.