Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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domingo, 26 de fevereiro de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 6

VI.4 – ITÁLIA E ESPANHA

Embora tenham surgido apoiadores isolados da Reforma nesses países, nenhuma organização forte ou ampla surgiu. Aqui e ali, na Itália, indivíduos influentes (por exemplo Vittoria Colonna e seu círculo) favoreceram a Reforma, mas desejando que esta ocorresse dentro e não como uma rebelião contra a Igreja. Poucos italianos abraçaram o luteranismo ou calvinismo, por exemplo, John Valdez, secretário do vice-rei de Nápoles. Nas cidades de Turim, Pavia, Veneza, Ferrara (onde a duquesa Renata favoreceu a Reforma) e Florença podiam ser encontrados adeptos dos reformadores Alemão e Suíço, embora não tão extremados quanto seus protótipos. Os mais proeminentes tiveram que deixar o país: Pietro Paolo Vergerio, que fugiu para a Suíça e então para Wittenberg, Bernardino Ochino, que fugiu para Genebra e foi mais tarde professor em Oxford, Petrus Martyr Vermigli, que fugiu para Zurique e foi posteriormente ativo em Oxford, Strasburg e novamente em Zurique. Pela vigorosa inauguração da verdadeira reforma eclesiástica no espírito do Concílio de Trento, através da atividade de numerosos santos homens (São Charles Borromeo e Felipe Neri), através da vigilância dos bispos e a diligência da Inquisição, a Reforma foi excluída da Itália. Em alguns círculos racionalistas e antitrinitarianas, as tendências se revelaram e a Itália foi o berço de dois heresiarcas, Laelius Socinus e seu sobrinho Faustus Socinus, fundadores do Socinianismo. 
Miguel Revet, denunciado por Calvino e morto
na fogueira, "não por autoridade do homem,
mas pela Glória de Deus"
O curso dos eventos foi o mesmo na Espanha. A despeito de algumas tentativas de disseminação de artigos antieclesiásticos no país, a Reforma não teve sucesso, graças ao zelo demonstrado pelas autoridades eclesiásticas e públicas no contra-ataque aos seus esforços. Os poucos espanhóis que aceitaram as novas doutrinas não puderam desenvolver qualquer atividade no país e viveram no exterior – Francisco Enzinas (Dryander), que fez uma tradução da Bíblia para o espanhol, Juan Diaz, Miguel Servet (Servetus), condenado à fogueira por Calvino, em Genebra, por sua doutrina contra a Trindade.

VI.5 – HUNGRIA E TRANSILVÂNIA (CENTRO OCIDENTE DA ROMÊNIA)

A Reforma foi difundida na Hungria por quem havia estudado em Wittenberg e lá abraçado o luteranismo. Em 1525, leis estritas foram passadas contra os adeptos das doutrinas heréticas, mas seu número continuou a crescer, principalmente entre a nobreza - que desejava confiscar a propriedade eclesiástica -, e nas cidades livres do reino. As vitórias e conquistas turcas e a guerra entre Ferdinando da Áustria e John Zapolya favoreceram os reformadores. Além dos luteranos, logo surgiram seguidores de Zwingli e Calvino no país. Cinco cidades luteranas na Hungria Superior aceitaram a Confissão de Augsburg. O calvinismo, contudo, gradualmente sobrepujou as demais crenças, embora as disputas domésticas entre as seitas reformadoras não tivessem cessado. Na Transilvânia mercadores do Hermannstadt que haviam tido contato com a heresia de Lutero em Leipzig, espalharam a Reforma após 1521. Apesar da perseguição dos reformadores, uma escola luterana iniciou em Hermannstadt e a nobreza empenhou-se no uso da Reforma como meio de confiscar a propriedade do Clero. Em 1529 as ordens regulares e os mais fortes campeões da Igreja foram expulsos da cidade. Em Kronstadt o pregador luterano Johann Honter ganhou a ascendência em 1534, com a abolição da missa e a organização do serviço divino segundo o modelo luterano. Em um sínodo que aconteceu em 1544, a nação saxônica na Transilvânia decidiu em favor da Confissão de Augsburg, enquanto os magiares rurais aceitavam o calvinismo. Na Dieta de Klausenburg, em 1556, a liberdade religiosa geral foi garantida e a propriedade eclesiástica confiscada para a defesa do país e a construção de escolas luteranas. Entre os apoiadores da Reforma, acorreram divisões adicionais. Além dos luteranos, surgiram os unitarianos (socinianos) e os anabatistas e cada uma dessas seitas provocou guerra contra as demais. Uma minoria católica sobreviveu entre os Wallaquianos gregos (a Wallachia é uma região histórica e geográfica da Romênia).

VI.6 – POLÔNIA, LIVÔNIA E CURLÂNDIA[1]

Os poloneses aprenderam sobre a Reforma por alguns jovens estudantes de Wittenberg e pelas Confrarias Bohemia e Moraviana[2]. O Arcebispo Laski de Gnesen e o rei Sigismundo I (1501 – 1548) se opuseram energicamente à difusão das doutrinas heréticas. Contudo, os apoiadores da Reforma tiveram sucesso em obter recrutas na Universidade da Cracóvia, em Posen e em Dantzig, de onde ela se espalhou para Thorn e Elbing onde alguns nobres favoreceram as novas doutrinas. Sob o governo do fraco Sigismundo II (1548 – 1572) havia na Polônia, além dos luteranos e da Confraria Bohemia, zwinglianos, calvinistas e socinianos. O Príncipe Radziwill e John Laski favoreceram o calvinismo e a Bíblia foi traduzida para o polonês, de acordo com o seu partido, em 1563. A despeito dos esforços do núncio papal, Aloisius Lippomano (1556 – 1558), a livre prática da religião foi secretamente garantida nas três cidades acima mencionadas e a nobreza pôde ter serviços religiosos privados em suas casas. As diversas seitas reformadas lutavam entre si e a fórmula de fé, introduzida no Sínodo Geral de Sandomir, em 1570, pelos reformados, luteranos e a Confraria Bohemia, não produzia qualquer unidade. Em 1573, os partidos heréticos asseguraram a paz religiosa de Varsóvia que garantia direitos iguais a católicos e dissidentes, estabelecendo a paz permanente entra as duas seções. Pela zelosa inauguração da verdadeira reforma eclesiástica, a diligente atividade dos legados papais e bispos capacitados, além dos trabalhos Jesuítas, se conseguiu evitar progressos adicionais da Reforma.
Na Livônia e na Curlândia, territórios da Ordem Teutônica, o curso da Reforma era o mesmo que na Prússia, outro território da Ordem. O comandante Gotthard Kettler, da Curlândia, abraçou a Confissão de Augsburg e transformou a terra em ducado secular hereditário, tributário da Polônia. Na Livônia, o comandante Walter de Plettenberg empenhou-se em promover o Luteranismo, que havia sido aceito em Riga, Dorpat e Reval desde 1523, esperando assim tornar-se independente do Arcebispo de Riga. Quando Margrave William de Brandenburg tornou-se Arcebispo de Riga em 1539, o Luteranismo obteve o domínio exclusivo na Livônia.

VI.7 – PAÍSES BAIXOS (Netherlands)
Carlos V, Sacro Imperador Romano Germânico,
Rei da Espanha e Senhor dos Países Baixos

Durante o reinado de Carlos V, as dezessete províncias dos Países Baixos permaneceram imunes à infecção da nova doutrina. Vários seguidores de Lutero haviam aparecido lá dispostos a disseminar os escritos e doutrinas de Lutero. Carlos V, contudo, emitiu decretos rígidos contra os luteranos e a impressão e difusão das ideias do reformador. Os excessos dos anabatistas produziram a violenta supressão do seu movimento e até 1555 a Reforma produziu poucas raízes no país. Neste ano, Carlos V transferiu o governo a seu filho Felipe II e em seu período o calvinismo fez rápidos avanços, especialmente nas províncias do norte. Muitos dos seus grandes nobres e muito da baixa nobreza empobrecida usou a Reforma para incitar os amantes da liberdade contra a administração real, os oficiais e tropas espanholas e a severidade do governo. A desavença continuou a crescer, principalmente devido às severas práticas do Duque de Alba e à sangrenta perseguição que conduziu. Guilherme de Orange-Nassau, governador da província da Holanda, por razões políticas assegurou a vitória do Calvinismo e obteve sucesso em vários distritos do norte. Colocou-se à liderança da revolução contra o domínio espanhol e nas guerras que se seguiram as províncias do norte fizeram a sua independência, a partir da qual o calvinismo ganhou ascendência. Em 1581 foi proibida qualquer atividade pública da fé católica. A “Confissão Belga” de 1562 já possuía uma base calvinista; pelos sínodos de Dordrecht, em 1574 e 1618, o calvinismo recebeu uma forma definitiva. Os católicos do país (cerca de dois quintos da população) foram sujeitados a violenta supressão.

VI.8 – INGLATERRA E ESCÓCIA
Elizabeth I, Rainha de Inglaterra e Irlanda
filha de Henry VIII e Anne Boleyn

A Reforma recebeu sua forma final na Inglaterra durante o reinado da rainha Elizabeth (1558–1603). Na base da liturgia estabelecida no “Livro da Oração Comum”, sob Edward VI (1547-1553) e da “Confissão de Quarenta e Dois Artigos” compostos pelo arcebispo Cranmer e o bispo Ridley, em 1552, e depois que a rainha Mary I (1553-1558), filha de Henry VIII com sua primeira esposa, falhou em reunir seu país com Roma e a fé católica, a ascendência do Anglicanismo foi estabelecida na Inglaterra por Elizabeth (filha de Henry VIII e sua segunda esposa). Os Quarenta e Dois Artigos foram revisados para os Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana, tornando-se, em 1562, a norma do seu credo religioso. A supremacia eclesiástica da rainha foi reconhecida e o “Juramento da Supremacia” tornou-se exigência sob pena de remoção de cargo e perda de propriedade. Vários prelados e universidades ofereceram resistência que foi vencida pela força. A maioria do baixo clero fez o juramento exigido com sempre crescente severidade por todos os membros da Casa dos Comuns, eclesiásticos, advogados e professores. Nas aparências, muito da antiga forma católica fora retida. Após o fracasso do movimento em favor de Mary Stuart da Escócia, que fugira para a Inglaterra em 1568, a opressão dos católicos ingleses continuou com crescente violência. Além da Igreja Anglicana Estabelecida, havia na Inglaterra os não conformistas calvinistas que opuseram uma organização presbiteriana popular à hierarquia episcopal; como os católicos, e foram muito oprimidos pelos governantes ingleses.
Na Escócia, a situação social e política deu um grande ímpeto à Reforma, ajudada pela ignorância e rudeza do clero (em grande parte o resultado das constantes rixas). A nobreza usou a Reforma como arma em sua guerra contra a casa real, então apoiada pelo alto clero. Já sob James V (1524-1542), os apoiadores das doutrinas luteranas (Patrick Hamilton, Henry Forest e Alexander Seton, confessor do rei) avançaram como reformadores. Os dois primeiros foram executados e o último fugiu para o Continente. Contudo, as doutrinas heréticas continuaram a encontrar novos adeptos. À morte de James V, sua filha e herdeira Mary tinha apenas seis dias de idade e a regência coube a James Hamilton que, embora previamente de sentimentos protestantes, retornou à Igreja Católica e apoiou o arcebispo David Beaton em suas enérgicas medidas contra os inovadores. Após a execução do reformador George Wishart, os protestantes formaram uma conspiração contra o arcebispo, atacando-o em seu castelo e executando-o em 1545. Os rebeldes (entre eles John Knox), apoiados por 140 nobres, fortificaram-se no castelo. Knox foi para Genebra em 1546 lá abraçando o calvinismo; a partir de 1555 foi o líder da Reforma na Escócia onde venceu a ascendência na forma do calvinismo. A confusão política prevalente na Escócia a partir da morte de James V, facilitou a introdução da Reforma.

VII – DIFERENTES FACÇÕES DA REFORMA

As principais formas da Reforma foram o Luteranismo, Zwinglianismo, Calvinismo e o Anglicanismo. Em cada um desses ramos, entretanto, conflitos surgiram em consequência das diversas visões dos representantes individuais. Negociações, compromissos e fórmulas de união foram buscadas, usualmente sem sucesso duradouro, para estabelecer a unidade. Toda a Reforma, repousando em autoridade humana, apresentou, desde o seu início, frente à unidade de fá católica, um aspecto de triste dissensão. Além desses ramos principais, surgiram inúmeras outras formas que deles se desviavam em pontos essenciais e que, gradualmente, deram origem a incontáveis divisões do Protestantismo. As principais dessas formas serão revistas brevemente.
Os Anabatistas, que surgiram na Alemanha e na Suíça Alemã logo após o aparecimento de Lutero e Zwingli, desejavam levar sua concepção de Igreja de volta aos tempos apostólicos. Eles negavam a validade do batismo das crianças, viam na sagrada eucaristia somente uma cerimônia comemorativa e desejavam restaurar o Reino de Deus de acordo com sua visão herética e mística. Embora atacados por outros reformadores, eles fizeram adeptos em muitos lugares. Deles também saíram os Mennonitas, fundado por Menno Simonis.
Os Schwenkfeldianos foram fundados por Kaspar Schwenkfeld, conselheiro palaciano do duque Frederick de Liegnitz - Duque de Chojnów and Strzelin a partir de 1453, de Oława e Legnica a partir de 1454, de Brzeg a partir de 1481 e de Lubin, a partir de 1482 (todas cidades do sul e sudoeste da Polônia) - e cônegos. Inicialmente ele associou-se com Lutero, mas depois de 1525 a ele se opôs em sua Cristologia, bem como em sua concepção da Eucaristia e sua doutrina de justificação. Atacados pelos reformadores alemães, seus seguidores puderam formar apenas poucas comunidades. Até hoje os Schwenkfeldianos ainda se mantêm nos Estados Unidos.
Sebastian Franck (1499-1542), um espiritualista puro, rejeitou toda a forma externa de organização eclesiástica, favorecendo uma Igreja espiritual e invisível. Assim, se absteve de fundar uma comunidade separada e apenas procurou disseminar suas ideias.
Os Socinianos e outros Antitrinitarianos. Alguns membros individuais dos primeiros reformadores atacaram a doutrina fundamental da Sagrada Trindade, especialmente o espanhol Miguel Servet (Servetus), cujo escrito “De Trinitatis Erroribus”, impresso em 1531, foi queimado por Calvino, em Genebra, 1533. Os principais fundadores do Antitrinitarismo foram Laelius Socinus, professor de jurisprudência em Siena e seu sobrinho Faustus Socinus. Obrigados a fugir de suas casas, mantiveram-se em vários lugares e fundaram comunidades Socinianas. Faustus disseminou sua doutrina especialmente na Polônia e Transilvânia.
Valentine Weigel (1533-1588) e Jacob Böhme (falecido em 1642), um sapateiro de Gorlitz (cidade do extremo leste alemão), representaram um panteísmo místico, ensinando que a revelação externa de Deus na Bíblia poderia ser reconhecida somente através de uma luz interna. Ambos tiveram numerosos discípulos. Os seguidores de Böhme receberam, mais tarde, o nome de Roza Cruzes porque foi amplamente suposto que estavam sob a direção de um líder escondido chamado Rozenkreuz.
Os Pietistas, na Alemanha, tiveram por líder Philip Jacob Spener (1635-1705). O Pietismo foi inicialmente uma reação contra a estéril ortodoxia luterana e via a religião principalmente como algo do coração.
As Comunidades Inspiração se originaram na Alemanha durante os séculos XVII e XVIII com vários visionários apocalípticos. Eles viam o reino do Espírito Santo como já chegado acreditando no presente universal da profecia e no milênio. Entre os fundadores de tais sociedades visionárias estavam Johann Wilhelm Petersen (falecido em 1727), superintendente em Luneberg, e Johann Konrad Duppel (nascido em 1734), um médico de Leiden.
Os Herrnhuter foram fundados pelo Conde Nicholas de Zinzendorf (1700-1760). No Hutberg, Alemanha, ele estabeleceu a comunidade de Herrnhut, com uma constituição especial formada de Irmãos Moravianos e Protestantes. A ênfase foi posta na doutrina da Redenção e foi inculcada uma estrita disciplina moral. Tal comunidade se espalhou para vários locais.
Os Quakers foram fundados por John George Fox de Drayton (1624-1691), em Leicestershire, região central da Inglaterra. Ele favoreceu um espiritualismo visionário e encontrou na alma de cada homem uma parte da inteligência divina. Segundo ele, todos podem orar de acordo com a forma como o espírito os incitam. Os preceitos morais de tal seita eram muito estritos. Muitos Quakers, perseguidos na Inglaterra, emigraram para os Estados Unidos onde formaram uma enorme comunidade
Os Metodistas foram fundados por John Wesley. Em 1729 ele instituiu, com seu irmão Charles e seus amigos Morgan e Kirkham, uma associação, em Oxford, Inglaterra, para o cultivo de uma vida religiosa e ascética, dessa sociedade desenvolvendo-se o Metodismo.
Os Batistas se originaram na Inglaterra, em 1608. Mantinham que o batismo era necessário apenas para os adultos, apoiavam o calvinismo em suas essências e observavam o dia de descanso no sábado ao invés de domingo.
Os Swedenborgianos, tiraram seu nome do seu fundador, Emmanuel Swedenborg (falecido em 1772) filho de um bispo protestante sueco. Acreditando em seu poder de comunicação com o mundo espírita e no recebimento de revelações divinas, fundou uma comunidade com liturgia especial, a “Nova Jerusalém”. Teve numerosos seguidores que se espalharam por muitos lugares.
Os Irvingitas tomaram o nome do seu fundador Edward Irving, um nativo da Escócia e, desde 1822, pregador numa capela presbiteriana em Londres.
Os Mormons foram fundados por Joseph Smith, nos Estados Unidos, que fez sua aparição, com supostas revelações, em 1822 (também conhecida como Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias). Muito fortes, ainda hoje, principalmente no Estado de Utah.
O Adventismo é um ramo do Protestantismo com origem no renascimento americano protestante do século XIX, conhecido como “O Segundo Grande Despertar”. O nome se refere à crença na iminente segunda vinda (ou segundo advento) de Jesus Cristo. William Miller iniciou o movimento adventista na década de 1830 e seus seguidores tornaram-se conhecidos como “Milleritas”.
Além destas ramificações mais bem conhecidas da Reforma, há muitas outras denominações, diferentes resultados da evolução de novas formas surgidas e que surgirão, devido à arbitrariedade subjetiva transformada em princípio pelo ensinamento herético do século XVI. (CONTINUA NA PARTE 7)

[1] A Curlândia é uma das regiões culturais e históricas da Latvia, país da região báltica do norte da Europa, um dos três estados bálticos. Situada no oeste da Latvia, a Curlândia corresponde, grosseiramente, aos distritos latvianos de Kuldiga, Liepaja, Saldus, Talsi, Tukums e Ventspils.
[2] "Confraria Bohemia" e "Confraria Moraviana" são as designações populares da Fraternidade Unitas, fundada na Bohemia em 1457, renovada pelo Conde Zinzendorf em 1722 e ainda ativa até hoje.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 3)

O IMPÉRIO GERMÂNICO


Wilhelm II,
Imperador Germânico
Neste período, a Prússia era tão grande e tão dominante no novo Império Germânico, que os Junkers[1] e outras elites prussianas eram cada vez mais identificadas como alemães e cada vez menos como prussianos. Wilhelm II, o último da dinastia Hohenzollern, tornou-se imperador da Alemanha (Kaiser) em 1888 e governou até a derrota da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Após a derrota nessa Guerra, a Alemanha foi obrigada a entregar o Corredor Danzig à Polônia e Danzig tornou-se mais uma vez uma cidade livre, fazendo com que a província da Prússia Oriental fosse separada do resto da Alemanha. O Império Germânico foi dissolvido em 1918, durante a Revolução Alemã de 1918-1919, que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial.
O Império Alemão recém-fundado era uma monarquia constitucional. Para a composição do Reichstag (Parlamento) foi instituído o sufrágio geral, igual e secreto dos homens, mas a influência do Reichstag sobre a política imperial era limitada. Leis propostas através do Reichstag só podiam entrar em vigor com a aprovação do Conselho Federal e do Imperador; eles podiam dissolver o parlamento a qualquer momento e organizar novas eleições. O único poder importante do Reichstag era a aprovação do orçamento do Estado. Quanto ao maior item, o orçamento militar, o Reichstag era autorizado a votar somente de forma generalizada e por um período total de sete anos (Septennat). O governo imperial obedecia ao Imperador, não ao Reichstag.
Prédio do Parlamento do Império Alemão, Berlim, 1894
A partir de 1871, os socialdemocratas também foram representados no Reichstag e seus partidos se uniram posteriormente ao SPD[2]. Era o único partido político no Império alemão que se declarava a favor de uma forma republicana de governo. Por causa disso, até renunciar ao cargo em 1890, Otto von Bismarck, a partir de 1878, mandou persegui-lo com base em leis antissocialistas. No entanto, os socialdemocratas aumentaram sua percentagem de votos em quase todas as eleições. Após a eleição geral de 1912, com 110 deputados e 28 por cento dos votos os socialdemocratas representaram o maior partido.
Nos 43 anos do Império até a Primeira Guerra Mundial, o SPD não só cresceu, mas também mudou seu caráter. Na discussão do Revisionismo de 1898, os revisionistas queriam excluir o objetivo revolucionário do programa do partido. Ao invés disso, lutaram por reformas sociais com base na ordem econômica existente. A maioria da base marxista do partido foi contra o revisionismo e se impôs novamente. Mas a retórica ainda revolucionária escondia somente com dificuldade o fato de que SPD havia se tornado praticamente reformista desde a abolição das leis antissocialistas em 1890. Os socialdemocratas, que foram consideradas "inimigos do Reich" e "apátridas" por muito tempo, se viam como patriotas alemães. No início da Primeira Guerra Mundial, tornou-se óbvio que o SPD era parte integral do Império, embora na oposição.
As duas décadas que se seguiram à Unificação Alemã viram o plantio e o auge do primeiro conflito mundial pelo sistema político prussiano-alemão.
A constituição do Império Germânico foi uma versão levemente modificada da constituição da Confederação da Alemanha do Norte. Oficialmente, o Império Alemão era um estado federal. Na prática, a relação do Reino da Prússia com o resto do império foi sempre um pouco confusa. O reino de Hohenzollern incluía três quintos do território alemão e dois terços da sua população. O Exército Imperial Alemão foi, na prática, um exército prussiano ampliado, embora os outros reinos (Baviera, Saxônia e Württemberg) tivessem mantido seus próprios exércitos.
A coroa imperial era um cargo hereditário da Casa de Hohenzollern, a casa real da Prússia. O primeiro-ministro da Prússia, com exceção de dois períodos curtos (janeiro a novembro de 1873 e 1892-1894), também foi chanceler imperial. Mas o próprio império não tinha o direito de cobrar impostos diretamente de seus súditos; os únicos rendimentos totalmente sob o controle federal foram os direitos aduaneiros, impostos especiais de consumo comuns, e as receitas de prestação de serviços postais e telegráficos. Embora todos os homens acima de 25 anos de idade pudessem votar nas eleições imperiais, a Prússia manteve o seu sistema de votação restritivo de três classes. Isso exigia, de forma eficaz, que o rei/imperador e o primeiro-ministro/chanceler procurassem maiorias das legislaturas eleitas por duas populações diferentes. Tanto no Reino quanto no Império, os círculos eleitorais originais nunca foram redesenhados para refletir as mudanças na população, o que fez com que as zonas rurais foram grosseiramente sobre representadas na virada do século XX.
Como resultado, o Reino da Prússia e o Império Alemão formavam um estranho paradoxo. Bismarck sabia que seu novo Reich Alemão (Império Alemão) agora era um colosso fora de qualquer proporção com relação ao resto do continente. Com isso em mente, ele declarou a Alemanha uma potência satisfeita, usando seus talentos para preservar a paz, por exemplo, no Congresso de Berlim[3].
Friedrich III, segundo imperador do Império
Germânico, por 99 dias.
Como primeiro imperador do Império Alemão, Wilhelm I foi sucedido por seu filho Friedrich III, que exerceu o cargo por apenas noventa e nove dias, em 1888, após a morte de seu pai, morrendo de câncer da laringe. Friedrich III casou-se com a Princesa Victoria, filha mais velha da Rainha Victoria, do Reino Unido. A ideologia liberal do casal conduziu-os a buscar uma maior representação dos Comuns no governo. A despeito de sua experiência familiar militar conservadora, ele havia desenvolvido tendências liberais como resultado de seus laços com a Grã-Bretanha e seus estudos na Universidade de Bonn. Enquanto ainda Príncipe, opôs-se ao Chanceler Bismarck, especialmente com relação às suas ideias de unir os estados germânicos pela força e muito fez para ofuscar a Chancelaria. Liberais do Império Germânico e Inglês esperavam que, como Imperador ele fosse liberalizar o seu Império. Infelizmente pouco pode fazer por tal, pois já sofria de câncer de laringe quando morreu em 15 de junho de 1888, com 56 anos de idade.
Em 1888, aos 29 anos, Wilhelm tornou-se o Imperador Wilhelm II, após uma juventude difícil e conflitos com sua mãe britânica Vitória, Princesa Real. Ele acabou demonstrando ser homem de pouca experiência e visão estreita e reacionária; de julgamento pobre e mau humor frequente, alienou antigos amigos e aliados. Foi o imperador da Primeira Grande Guerra e por ela foi deposto e obrigado a fugir em exílio para a Holanda.
Embora, em sua juventude, ele tivesse sido grande admirador de Bismarck, a característica impaciência de Wilhelm II logo o fez entrar em choque com o “Chanceler de Ferro”, figura dominante na fundação do seu Império. Ao contrário do seu antecedente, Wilhelm II pretendia uma expansão rápida e vigorosa para assegurar o seu “lugar ao Sol”, em oposição à cuidadosa política externa de Bismarck; além disso, o jovem Imperador veio também para reinar além de governar, diferentemente do seu avô que muito delegava a Bismarck. Assim, conflitos desde o início logo envenenaram o relacionamento entre os dois e o rompimento final iniciou logo após a tentativa de Bismarck de implementar uma lei antissocialista de longo alcance, no início da década de 1890. À medida que as discussões prosseguiam, Wilhelm tornava-se mais interessado nos problemas sociais, especialmente na greve dos mineiros de 1889, interrompendo Bismarck frequentemente, para que todos soubessem onde ele se situava na política social. Bismarck discordava francamente de sua política e com o tempo, sentindo-se pressionado por Wilhelm e solapado por seus ambiciosos conselheiros, recusou-se a assinar uma proclamação relativa à segurança de trabalhadores, junto com Wilhelm, como previa a Constituição. O rompimento final veio quando Bismarck teve que buscar nova maioria no Parlamento devido ao fiasco do projeto antissocialista. Os poderes remanescentes no Parlamento eram o Partido Católico do Centro e o Partido Conservador. Bismarck quis formar um novo bloco com o Partido do Centro e convidou o seu líder no Parlamento, Ludwig Windthorst, para discutir uma coalizão, o que provocou a explosão de Wilhelm. Pela primeira vez forçado a uma situação da qual ele não poderia tirar vantagem própria, Bismarck resignou, por insistência de Wilhelm, em 18 de março de 1890, com a idade de 75 anos, sendo sucedido por Leo von Caprivi, depois por Chlodwig, príncipe de Hohenlohe-Schillingsfürst, em 1894 e, finalmente, por Bernard von Bülow, em 1900, “seu próprio Bismarck”. Na abertura do Parlamento, em 6 de maio de 1890, o Kaiser declarou que a questão mais importante era a ampliação do projeto de lei relativo à proteção do trabalhador. Em 1891 o Parlamento aprovou o Ato de Proteção ao Trabalhador, que melhorava as condições de trabalho, protegia as mulheres e crianças e regulava as relações de trabalho, tudo a que se opunha Bismarck.
Na política externa, Bismarck havia alcançado um frágil equilíbrio de interesses entre o Império Germânico, a França e a Rússia; a paz estava bem próxima e Bismarck tentou manter este estado de coisas embora o crescente sentimento popular contra a Grã-Bretanha (com relação à suas colônias) e, especialmente, contra a Rússia. Com a saída de Bismarck os russos esperavam uma inversão na política em Berlim e rapidamente buscou a França, iniciando um processo que, no início de 1914, praticamente isolou o Império Germânico.
Por outro lado, trazendo para si pessoas como Caprivi e Hohenlohe, Wilhelm II embarcava no que é conhecido pela história como o “Novo Rumo”, em que ele esperava exercer decisiva influência no governo do Império. Os historiadores discutem sobre o seu sucesso na implementação do “governo pessoal”, mas ficou clara a diversa dinâmica existente entre a Coroa e o Chanceler (seu chefe político) na “Era Guilhermina”. Bismarck havia criado o “Mito Bismarck”, algo que os eventos futuros mostrariam, e sua saída destruiu quaisquer chances que o Império possuía de estabelecer um governo efetivo. Assim, o “Novo Rumo” foi mais caracterizado como o navio germânico fora de controle, eventualmente conduzindo, por uma série de crises, ao morticínio da Primeira e Segunda Guerra Mundiais.
No início do século XX, Wilhelm iniciou sua real agenda: a criação de uma marinha germânica que rivalizasse com a britânica e permitisse ao Império declarar-se uma potência mundial. E enquanto seus fiéis chanceleres se ocupavam dos negócios domésticos, Wilhelm II espalhava alarmes nas chancelarias da Europa com suas crescentes visões excêntricas das relações externas. Hoje é amplamente reconhecido que os vários atos espetaculares por ele perpetrados na esfera internacional foram muito influenciados pela elite da política externa germânica. A própria opinião pública britânica, que havia sido favorável ao Kaiser nos seus primeiros doze anos, tornou-se amarga ao final dos anos 1880 e durante a Primeira Guerra Mundial ele tornou-se o principal alvo da propaganda britânica antigermânica e na personificação de um inimigo odiado. Wilhelm II inventou e espalhou temores de um “perigo amarelo”, tentando interessar outros governantes europeus nos perigos que eles enfrentavam numa invasão da China. Também usou a vitória dos japoneses na guerra Russo – Japonesa, para provocar medo, no Ocidente, do perigo amarelo que eles enfrentavam num Japão ressurgente, que dizia, se uniria à China para derrotar o Ocidente. Com Wilhelm, o Império investiu no fortalecimento de suas colônias da África e do Pacífico, mas poucas tornaram-se lucrativas e foram perdidas durante a Primeira Guerra Mundial. Uma das poucas vezes em que Wilhelm foi bem-sucedido na diplomacia pessoal, foi quando em 1900 ele apoiou o casamento do Arquiduque Franz Ferdinando da Áustria[4], com Sophie Chotek, contra os desejos do Imperador Franz Joseph.
Aqui, um pequeno parêntese se faz necessário. Nesta postagem, não vou tratar da Primeira Guerra Mundial com detalhe, já que um assunto imenso e sobre o qual tanto já se escreveu. Relembro que o nosso assunto é a formação da Alemanha moderna, desde as suas origens. Assim, a Primeira Grande Guerra será aqui tratada apenas como um dos episódios importantes da formação desse país.

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A Primeira Guerra Mundial, que matou 17 milhões de pessoas, traumatizou uma geração, fez desmoronar antigos impérios e alterou a ordem política mundial, ainda mantém suas origens obscuras. A mais simples resposta sobre o início da Primeira Grande Guerra é que a sua causa imediata foi o assassinato de Franz Ferdinand, Arquiduque do Império Austro-Húngaro. Sua morte pelas mãos de Gavrilo Princip, um nacionalista sérvio da Bosnia, pertencente à organização “Jovem Bosnia”, com ligações com o grupo secreto militar conhecido como “Mão Negra” (composta por militares do exército da Servia), impulsionou as maiores potências militares europeias em direção à guerra. Sob as ordens do chefe da Inteligência Militar da Servia, oficiais sérvios organizaram e facilitaram o assassinato do Arquiduque, por ocasião de sua visita à Sarajevo, na Bosnia.
Gavrilo Princip, assassino do Arquiduque Franz Ferdinand
Entretanto, os eventos que conduziram ao assassinato, são muito mais complexos, mas muitos estudiosos concordam que a emergência gradual de um grupo de alianças entre potências importantes foi causa parcial do início da guerra. Mas mesmo a teoria das alianças é hoje considerada muito simplificada pelos historiadores. A guerra não veio à Europa por acidente, mas por projeto, pondera o historiador militar Gary Sheffield, segundo o qual, a Primeira Guerra Mundial começou por duas razões fundamentais:
1) Os tomadores de decisão, em Berlim e Viena, escolheram o rumo que esperavam trar-lhes-ia significativas vantagens políticas, mesmo se conduzisse a uma guerra geral.
2) Os governos dos estados da Entente (França e aliados) aceitaram o desafio.
Sheffield acrescenta: “Na melhor das possibilidades, o Império Germânico e a Áustria-Hungria se jogaram numa aposta inconsequente que resultou totalmente errada; na pior, o ano de 1914 viu uma guerra premeditada de agressão e conquista, um conflito que provou se afastar demais da rápida e decisiva aventura que alguns esperavam.
Entretanto, conhecendo-se os antecedentes que envolviam a Áustria-Hungria, Bosnia e Servia, os patrocinadores do assassinato, comprovado o governo sérvio, jamais poderiam esperar outra reação do Império Austro-Húngaro – e seus aliados – além da declaração de guerra subsequente. O que pode sugerir duas coisas: ou uma imensa irresponsabilidade do governo sérvio ou uma ação proposital encomendada pela Entente para obter uma guerra de grandes proporções que interrompesse a caminhada imperialista dos países das Potências Centrais, outra imensa irresponsabilidade, mas agora da Entente.
Outro ponto importante a considerar, é que, longe de serem governantes remotos que desconheciam seus inimigos, os líderes dos estados da Grã-Bretanha, Império Germânico e Rússia – Rei George V, Kaiser Wilhelm II e Czar Nicolau II, respectivamente -, eram primos em primeiro grau que se conheciam muito bem. A Rainha Victoria, da Inglaterra, avó dos três líderes, tentou gerenciar a paz entre os primos, mas após a sua morte, em 1901, a boa vontade entre os ramos russo, inglês e germânico da família se dissipou conduzindo seus governantes à beira da guerra.
A investigação austro-húngara descobriu todos – com exceção de um – os assassinos e também muito da linha férrea subterrânea usada para transportar os assassinos e suas armas, da Servia para Sarajevo. Nos dois dias que se seguiram ao assassinato o Império Austro-Húngaro e o Império Germânico aconselharam a Servia a abrir uma investigação, ao que respondeu o Ministro das Relações Exteriores da Servia, Gruic: “Nada foi feito até agora e o assunto não diz respeito ao governo sérvio!”. Após isso, ásperas palavras foram trocadas de ambos os lados.
Wilhelm II, que era muito amigo de Franz Ferdinand e ficou profundamente chocado com seu assassinato em 28 de junho de 1914, ofereceu apoio à Áustria-Hungria para esmagar a “Mão Negra”, sancionando o uso da força contra a fonte presumida do movimento: a Servia (o famoso “cheque em branco”).
O Império Austro-Húngaro enviou, em 23 de julho, um “Ultimatum” ao governo Sérvio, pelo qual ele deveria, publicamente, condenar a propagando perigosa contra o Império, cujo objetivo final seria “separar da Monarquia territórios a ela pertencentes”. Além disso, o governo da Servia deveria atender a uma série de duras demandas impostas pelo Império. Um apêndice ao texto principal listava vários detalhes da investigação criminosa contra Gavrilo Princip e seus camaradas, que demonstrariam a culpabilidade e assistência fornecida aos conspiradores por vários oficiais sérvios. Instruções foram fornecidas ao ministro austríaco em Belgrado, pelo qual, se nenhuma resposta positiva incondicional fosse recebida da Servia dentro de 48 horas, o Ministro deveria abandonar a embaixada Austro-Húngara de Belgrado com todo o seu pessoal.
Enquanto os possíveis apoiadores da Servia, a aconselhavam a aceitar o ultimatum “com a menor humilhação possível”, os aliados do Império Austro-Húngaro fomentavam o início da guerra no mais curto prazo possível. A Servia aceitou todos os termos do ultimatum com exceção de um e sua resposta não foi aceita como favorável, pelo que, em 25 de julho de 1914, o Imperador Franz Joseph do Império Austro-Húngaro, assinou a mobilização para iniciar as operações contra a Servia em 28 de julho; o embaixador do Império, Giesl, deixou Belgrado. Em 28 de julho, os austro-húngaros declararam guerra à Servia e invadiram subsequentemente. A Rússia mobilizou em defesa da Servia, o Império Germânico invadiu os neutros Bélgica e Luxemburgo, antes de mover-se em direção à França, conduzindo o Reino Unido a declarar guerra contra a Alemanha.
De acordo com a teoria das alianças, em 1914 haviam resultado seis forças mais importantes que se juntaram em dois amplos grupos: Grã-Bretanha, França e Rússia formaram as Potências Aliadas (Triple Entente); o Império Germânico, Áustria-Hungria e Itália compreenderam as Potências Centrais. Embora a Itália fosse um membro das Potências Centrais, ela não se juntou a eles pelo fato da Áustria-Hungria ter tomada a ofensiva na Guerra, contra os termos da aliança. Esses acordos foram reorganizados e expandidos à medida que outras nações entraram na guerra: Itália (1915), Romênia (1916), Japão e Estados Unidos (1917) juntaram-se às Potências Aliadas, enquanto o Império Otomano (novembro de 1914) e a Bulgária (1915) juntaram-se às Potências Centrais. Os eventos chaves foram os seguintes:
· Em 28 de julho de 1914 a Áustria-Hungria declara guerra à Servia.
· Em 2 de agosto de 1914 o Império Otomano (Turquia) e o Império Germânico assinam um tratado secreto de aliança.
· Em 3 de agosto de 1914 o Império Germânico declara guerra à França.
· Em 4 de agosto de 1914 o Império Germânico invade a Bélgica, conduzindo a Grã-Bretanha a declarar guerra ao Império Germânico.
· Em 10 de agosto de 1914 a Áustria-Hungria invade a Rússia.
Finalmente, muitos outros países, incluindo Austrália, Índia e muitas colônias africanas lutaram por determinação dos seus governos imperiais.
O governo russo entrou em colapso em março de 1917, francamente solapado pela revolução comunista que tirou a Rússia da guerra através do vergonhoso tratado de Brest Litovsk, assinado por Lenin e demais líderes comunistas, constituindo uma maciça vitória germânica. Após uma formidável ofensiva germânica na Frente Ocidental, na primavera de 1918, os Aliados recuperaram-se obrigando os germânicos a retrocederem numa série de ofensivas sucessivas.
Em novembro de 1918 o Império Austro-Húngaro concordou com um armistício e o Império Germânico, com sua revolução interna, concordou com um armistício em 11 de novembro de 1918, assim encerrando a Primeira Guerra Mundial com a vitória dos Aliados.
O envolvimento na guerra havia sido desastroso para os três monarcas. Ao fim de 1918, Wilhelm II, o Kaiser Germânico, fora deposto e fugira em exílio na Holanda; Nicolau II, o Czar Russo e sua família haviam sido executados pelos comunistas; e George V, o Rei Britânico, reinava sobre um império quebrado e afogado em dívidas. Além disso, ao final da Guerra, o Império Germânico, o Império Russo, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano haviam cessado de existir. As fronteiras nacionais foram redesenhadas, com várias nações independentes restauradas ou criadas e as colônias do Império Germânico distribuídas entre os vencedores. Durante a Conferência de Paz de Paris, 1919, pelo Tratado de Versailles, os “Quatro Grandes” (Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e Itália) impuseram seus termos numa série de tratados. A “Liga das Nações” foi formada com o objetivo de prevenir a repetição de um conflito semelhante. Tal Liga logo fracassou pela depressão econômica, mas renovou o nacionalismo europeu, enfraqueceu os Estados membros e, através do sentimento germânico de humilhação, contribuiu para a ascensão do Nazismo. Tais condições, em seu conjunto e ao final, muito contribuíram para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

[1] Junkers eram denominados os membros da nobreza constituída por grandes proprietários de terras nos estados alemães anteriores e durante o 2º Reich (1871-1918). Essa aristocracia latifundiária teve importante papel na construção do Reino da Prússia, a partir do século XVIII. Diferentemente das nobrezas da França e da Inglaterra de então, os Junkers dedicavam-se diretamente à administração da atividade agrícola. Os trabalhadores nas propriedades dos Junkers eram povos conquistados militarmente e despojados de quaisquer direitos ou propriedades. Na colonização prussiana de terras conquistadas de povos eslavos, os Junkers administraram essas terras em moldes capitalistas, visando ao lucro e à eficiência da produção. Assim, constituíram-se como uma classe aplicada às técnicas modernas da produção econômica e paralelamente foram alçados por Friedrich II da Prússia a um monopólio absoluto sobre os quadros civis e militares do reino. Na Prússia do século XVIII, as classes mercantis urbanas não ganharam destaque político e predominou na construção do Estado a postura autoritária e fechada da aristocracia Junker.
[2] O Partido Social-Democrata da Alemanha (em alemão Sozialdemokratische Partei Deutschlands, cuja sigla é SPD) é, até hoje, um partido político alemão. O SPD permanece um dos partidos dominadores da cena política alemã. É o partido alemão mais antigo ainda em funcionamento, tendo completado, em 2015 cento e quarenta anos de existência. Foi impiedosamente perseguido durante o Terceiro Reich (1933-1945) e, na antiga Alemanha Oriental, foi obrigado pelas forças de ocupação soviéticas a se fundir com os comunistas.
[3] O Congresso de Berlim, realizado de 13 de junho a 13 de julho de1878, em Berlim, foi uma reunião entre líderes das grandes potências europeias e o Império Otomano. Na sequência da Guerra russo-turca, de 1877–1878, o objetivo da reunião era tentar reorganizar os países dos Balcãs - região sudeste da Europa que engloba a Albânia, Bosnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônia, Montenegro, Servia, o autoproclamado independente Kosovo e a porção da Turquia no continente europeu; algumas vezes, pode incluir Croácia, Romênia, Eslovênia e a Áustria. Bismarck conduziu o Congresso, e comprometeu-se a equilibrar os diferentes interesses da Grã-Bretanha, Rússia e Áustria-Hungria. Como consequência, no entanto, as diferenças entre a Rússia e a Áustria-Hungria e as questões de nacionalidade dos Balcãs foram intensificada.
[4] Franz Ferdinando era um Arquiduque da Áustria-Leste, Austro-Húngaro e Príncipe Real da Hungria e da Bohêmia e, de 1896 até a sua morte, herdeiro do trono Austro-Húngaro. Seu assassinato em Sarajevo precipitou a declaração de guerra da Austro-Húngaro contra a Servia, causa imediata da Primeira Guerra Mundial.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 10)




IX - OS ANOS DE FERRO DA ERA STALIN (FINAL)

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945 Stalin prometeu que a URSS seria a potência industrial líder em 1960. A essas alturas, a URSS havia sido devastada pela guerra. Oficialmente, 98.000 fazendas coletivas haviam sido pilhadas e arruinadas, com a perda de 137.000 tratores, 49.000 colheitadeiras, sete milhões de cavalos, dezessete milhões de cabeças de gado, vinte milhões de porcos, vinte e sete milhões de ovelhas; 25% de todo o capital em equipamento fora destruído em 35.000 usinas e fábricas; seis milhões de edificações, incluindo 40.000 hospitais em 70.666 vilas e 4.710 cidades (40% de moradias) foram destruídas, deixando 25 milhões pessoas sem tetos; cerca de 40% de trilhos de estradas de ferro foram destruídos; oficialmente, 7,5 milhões de homens das forças armadas morreram, além de seis milhões de civis, mas talvez tenham morrido 20 milhões no total. Em 1945, a mineração e a metalurgia estavam a 40% dos níveis de 1940, a energia elétrica caiu a 52%, ferro fundido a 26% e o aço a 45%; a produção de alimentos estava em 60% do nível de 1940. Após a Polônia, a URSS havia sido o país mais duramente atingida pela guerra. A reconstrução foi retardada por uma crônica carência de força de trabalho devido ao enorme número de baixas soviéticas na guerra. Além disso, 1946 foi o ano mais seco desde 1891 e a colheita foi pobre.
Vítimas da NKVD assassinadas ao final de junho de 1941
logo após a eclosão da guerra entre Alemanha e a URSS
A partir de 1945, a URSS manteve tropas ocupando a Polônia e a parte oriental da Alemanha, criando a República Democrática da Alemanha (RDA), além de manter forças em países da Europa Central e Oriental, o que fez Churchill referir-se à região como que estando atrás de uma “Cortina de Ferra” com controle de Moscou. Tal região passou a ser chamada de “Bloco Oriental” ou “Bloco Soviético”.
Os Estados Unidos e a URSS foram incapazes de chegar a um acordo sobre o empréstimo dos EUA para a ajudar na reconstrução e este foi um dos fatores contribuintes na rápida escalada da “Guerra Fria”, entre os aliados da véspera, com Stalin acusando os Estados Unidos de “imperialistas”. Contudo, a URRS ganhou reparações da Alemanha e fez os países do leste europeu realizarem pagamentos como retribuição pelos soviéticos os terem livrado dos nazistas. Em 1947, Stalin ressuscita o Komintern, que havia sido extinto em 1943, sob o nome de Kominform.
Em 7 de outubro de 1947, a RDA foi declarada com uma nova constituição que louvava o socialismo. Em Berlim, após os cidadãos rejeitarem candidatos comunistas em uma eleição, em junho de 1948, a União Soviética bloqueou Berlim Ocidental, fora do controle soviético, impedindo totalmente o abastecimento de alimentos e outros bens. O bloqueio falhou graças a uma inesperada campanha de abastecimento aéreo levada a efeito pelas potências ocidentais, conhecida por “Transporte Aéreo de Berlim”; em 1949 Stalin reconheceu a derrota e encerrou o bloqueio.
Embora Stalin tenha prometido na Conferência de Yalta, que faria eleições livres na Polônia, após o fracasso eleitoral nas eleições chamadas “Três Vezes Sim” (três questões que, segundo os interesses da URSS deveria ter resposta SIM), uma eleição totalmente fraudulenta foi empregada para vencer uma maioria na pesquisa cuidadosamente controlada, após o que, a economia polonesa começou a ser nacionalizada.
Na Hungria, quando os soviéticos instalaram um governo comunista, Mátyás Rákosi, que se descrevia como “o melhor discípulo húngaro de Stalin” e “o melhor pupilo de Stalin”, tomou o poder. Empregando a “tática do salame”, fatiou seus inimigos como peças de salame, para enfrentar a maioria política inicial do após guerra pronta para estabelecer uma democracia. Rákosi empregou programas políticos e econômicos stalinistas e foi apelidado “o assassino calvo”, por estabelecer uma das ditaduras mais cruéis da Europa. Aproximadamente 350.000 oficiais e intelectuais húngaros foram expurgados entre 1948 e 1956.
Ainda durante a 2a Grande Guerra, na Bulgária, o Exército Vermelho cruzou a fronteira e criou as condições para um golpe de estado comunista na noite seguinte. O comandante militar soviético em Sofia assumiu a autoridade suprema, e os que ele instruíra tomaram o total controle da política doméstica.
Stalin não se abrandou com a idade. Ele praticou um reino de terror, expurgos, execuções, exílios a campos de trabalhos forçados e perseguições na URSS do após guerra, suprimindo toda dissidência e qualquer coisa que tivesse indícios de influência estrangeira, especialmente ocidental. Estabeleceu governos comunistas por todo o leste europeu e em 1949 conduziu os soviéticos à era nuclear com a explosão de uma bomba atômica.
Em 1949, o Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON) foi criado, ligando economicamente União Soviética, Bulgária, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Polônia. Tal organização foi criada de acordo com os desejos de Stalin de reforçar a dominação soviética nos países menores da Europa e abrandar alguns estados que haviam expressado interesse no Plano Marshall e que se encontravam agora, crescentemente, separadas dos seus mercados e abastecedores tradicionais na Europa Ocidental. Um terço das despesas de capital do Quarto Plano Quinquenal russo foi gasto na Ucrânia, país muito importante, agrícola e industrialmente, e que tinha sido uma das áreas mais devastadas pela guerra.
A URSS passa a ter supremacia em quase toda a Europa Oriental. Nestes países, foram mantidos governos pró-URSS durante toda a Guerra Fria, quando foram criadas várias barreiras entre os países pró-URSS e pró-EUA, algumas ideológicas como a Cortina de Ferro e outras físicas, como o Muro de Berlim em torno de Berlim Ocidental, na RDA.
Na Ásia, o Exército Vermelho havia devastado a Manchúria no último mês da Guerra e também ocupou a Coreia, acima do paralelo 38º norte. O Partido Comunista da China, de Mao-Tse-Tung, embora receptivo a um mínimo apoio soviético, derrotou o Partido Nacionalista Chinês (Kuonmintang – KMT), pró-ocidental e francamente assistido pelos americanos, na guerra civil chinesa. Houvera atrito entre Stalin e Mao desde o início. Durante a 2ª Grande Guerra Stalin havia apoiado o ditador chinês Chiang Kai-Shek (KMT) como um baluarte contra o Japão e havia fechado um olho para as mortes em massa de comunistas, colocando sua aliança com Chiang acima dos seus aliados ideológicos na China. Mesmo após a guerra, Stalin fechou um pacto de não agressão entre URSS e o regime do KMT de Chiang, na China, instruindo Mao e os comunistas chineses a cooperarem com Chiang e o KMT após a guerra. Mao ignorou o conselho, iniciando a revolução comunista contra Chiang e sem acreditar que Mao teria sucesso, pouco ajudou o último, mantendo relações diplomáticas com o KMT de Chiang até 1949 quando tornou-se claro que Mao venceria. Stalin fez então um pacto de amizade com Mao embora permanecesse um mal-estar entre os dois líderes pelo fato de Stalin não ter integralmente apoiado Mao durante a guerra civil chinesa. Os comunistas passaram a controlar a China Continental como República Popular da China enquanto os nacionalistas mantiveram apenas a Ilha de Taiwan. As relações diplomáticas entre a China e a União Soviética alcançaram o ponto mais alto quando em 1950 os dois países assinaram o Tratado Sino-Soviético de Amizade e Aliança.
Contrariamente à política americana que restringiu o armamento ilimitado a infantaria e forças policiais da Coreia do Sul, Stalin armou o exército e a força aérea da Coreia do Norte de Kim II Sung e enviou muito mais “conselheiros” do que o necessário para finalidades defensivas, a fim de facilitar a Kim (um prévio oficial soviético) o seu objetivo de conquistar o resto da península coreana. O exército coreano atacou nas primeiras horas da madrugada de 25 de junho de 1950, atravessando o paralelo 38 atrás de uma tempestade de artilharia, iniciando a invasão da Coreia do Sul. Durante a Guerra da Coreia, pilotos soviéticos pilotaram aviões soviéticos a partir de bases chinesas contra aviões das Nações Unidas que defendiam a Coreia do Sul. Pesquisa realizada após a Guerra Fria em arquivos soviéticos, revelaram que a Guerra da Coreia foi iniciada por Kim II-Sung, com a expressa permissão de Stalin.
Em 1952 e 1953 Stalin e os dirigentes soviéticos criaram a “Conspiração dos Doutores”, segundo a qual, vários médicos (a metade dos quais judeus) teriam tentado matar funcionários soviéticos. A opinião predominante entre muitos estudiosos de fora da União Soviética foi de que Stalin pretendia usar o resultado do julgamento dos médicos para lançar um maciço expurgo do Partido, mas também é visto por muitos historiadores como uma provocação antissemita; ela ocorreu imediatamente após os julgamentos de exibição do Comitê Antifascista Judeu e da execução secreta de 13 membros, sob as ordens de Stalin, na famosa “Noite dos Poetas Mortos”. Após isso, numa sessão do Politburo, em dezembro, Stalin anunciou que “Cada nacionalista judeu é um agente do serviço de inteligência americana. Os nacionalistas judeus pensam que sua nação foi salva pelos Estados Unidos (lá vocês podem ficar ricos, burgueses etc...). Eles pensam que devem aos americanos. Entre os médicos há muitos nacionalistas judeus”. Para mobilizar o povo soviético para essa campanha, Stalin ordenou que a Tass[1] e o Pravda publicassem histórias, ao mesmo tempo da alegada descoberta de Stalin da “Conspiração dos Doutores” para assassinar líderes soviéticos, incluindo Stalin, a fim de criar o cenário para novos julgamentos de exibição. No dia seguinte o Pravda publicou histórias com o texto relativo aos pretensos conspiradores “burgueses nacionalistas judeus”. Nikita Khrushchev escreveu que Stalin sugeriu-lhe incitar o antissemitismo na Ucrânia, dizendo-lhe que “os bons trabalhadores na fábrica deveriam receber porretes com que pudessem acabar com aqueles judeus”. Stalin também ordenou que os médicos falsamente acusados fossem torturados até a morte. Com relação às origens da conspiração, as pessoas que conheciam Stalin, tal como Khrushchev, sugerem que Stalin há muito havia abrigado sentimentos negativos para com os judeus e que as tendências antissemíticas nas políticas do Kremlin foram ainda mais estimuladas pelo exílio de Leon Trotsky. Ao final de janeiro de 1953, o médico pessoal de Stalin, Miron Voysi, (primo de Solomon Mikhoels, assassinado em 1948 por ordem de Stalin) foi preso no mesmo contexto da conspiração. Voysi foi solto por Lavrentiy Beria, Ministro do Interior e Chefe da NKVD, após a morte de Stalin, em 1953, como também foi o compositor Mieczyslaw Weinberg, seu genro.
Alguns historiadores têm sustentado que Stalin também planejava enviar milhões de judeus para quatro recém construídos campos de trabalhos forçados na Rússia Ocidental, usando uma “Comissão Deportação” que alegadamente agiria para salvar os judeus soviéticos de uma população soviética enfurecida pelos julgamentos da “Conspiração dos Médicos”. Indiferente ao fato de ter sido ou planejada uma conspiração para deportar judeus, no seu “Discurso Secreto”[2], em 1956, o Premier Soviético Nikita Khrushchev declarou que a Conspiração dos Médicos foi “inventada por Stalin”, que Stalin havia dito ao juiz para obter confissões dos réus, e aos membros do Politburo: “Vocês são cegos como jovens gatinhos. O que acontecerá sem mim? O país perecerá porque vocês não conseguem reconhecer inimigos.”
Com o fim da 2ª Grande Guerra a saúde de Stalin deteriorou-se, com a arteriosclerose que possuía pelo fumo exagerado e teve um derrame leve por ocasião do Desfile da Vitória e um ataque cardíaco severo em outubro de 1945.
Nas primeiras horas do amanhecer de 1º de março de 1953, após um dos frequentes jantares e cinemas, Stalin chegou à sua residência de Kuntsevo, a 15 km de Moscou, com Beria e os futuros premiers Georgy Malenkov, Nikolai Bulganin e Nikita Khrushchev, e retirou-se para dormir. Ao amanhecer Stalin não saiu de seu quarto. Embora seus guardas achassem estranho não vê-lo acordar à hora habitual, como tinham ordem de não incomodá-lo, deixaram-no só o dia inteiro. Às 22:00 hs ele foi descoberto pelo comandante de Kuntsevo, que entrou em seu quarto e encontrou Stalin deitado de costas, no chão, vestindo calça de pijama e camiseta, ensopado em urina. Como o Comandante não conseguisse ouvir palavra de Stalin, usou o telefone da cabeceira para chamar alguns oficiais do Partido, avisando que Stalin parecia ter sofrido um derrame e pedindo que enviassem médicos. Beria foi informado e chegou poucas horas depois. Os médicos chegaram ao amanhecer de 2 de março, quando trocaram as roupas de cama de Stalin para atende-lo, diagnosticando uma hemorragia cerebral (derrame), causada por hipertensão, que teria ainda causado uma hemorragia do estômago. Foi tratado em sua casa, com sanguessugas, como era costume na época. Em 3 de março seu dublê, Felix Dadaev, foi chamado de férias, para Moscou, ´para ficar de prontidão se necessário para algo, o que não aconteceu. Sem sair da cama, Stalin morreu no dia 5 de março de 1953, com a idade de 74 anos, com muitas suspeitas posteriores de que, na verdade, ele tivesse sido assassinado com uma overdose de Warfarin, uma droga anticoagulante.
Beria não podia esconder o seu contentamento e, confirmando que o “velho” estava realmente morto, deu uma leve pancada em seu corpo e retirou-se radiante, segundo Khrushchev. Stalin não havia nomeado ou recomendado um sucessor e Beria sentiu que esse era o momento. A luta pela sucessão de Stalin havia começado.
Após a visitação de 1,5 milhões de pessoas, seu corpo embalsamado foi colocado, em 9 de março de 1953, no mausoléu de Lenin. Em 31 de outubro de 1961 seu corpo foi removido do mausoléu e enterrado na Necrópole dos Muros do Kremlin, como parte do processo de desestalinização.
Sua morte chegou em muito boa hora para Beria e muitos outros, que temiam ser varridos, brevemente, em outro expurgo. Acredita-se que Stalin temia que o poder de Beria estivesse crescendo a ponto de ameaçar o seu próprio poder.
Após a morte de Stalin, uma luta pelo poder instalou-se entre os oito membros seniores do Presidium do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, listados formalmente de acordo com a ordem de precedência, em 5 de março de 1953: Georgy Malenkov, Lavrentiy Beria, Vyacheslav Molotov, Klim Voroshilov, Nikita Khrushchev, Nikolai Bulganin, Lazar Kaganovich, Anastas Mikoyan. A sucessão foi controversa e os políticos mais próximos decidiram governar juntos a URSS, mas o chefe da NKVD, Beria, resolveu tomar o poder sem o consentimento dos demais. O General Khrushchev e os demais candidatos, juntaram-se e detiveram Beria, que seria executado no mesmo ano. O impasse permaneceu até 1958 quando finalmente Khrushchev venceu, derrotando seus potenciais rivais no Presidium e tornando-se o sucessor oficial de Stalin.
A crueldade com que as relações soviéticas foram conduzidas durante o mando de Stalin, foi subsequentemente repudiada por seus sucessores na liderança do Partido Comunista, principalmente por Nikita Khrushchev, em fevereiro de 1956, durante o XX Congresso do Partido Comunista, com o seu “Discurso Secreto” (oficialmente chamado “Do Culto à Personalidade e suas Consequências”), já mencionado, a partir do qual iniciou-se um processo de “desestalinização” da União Soviética. Nessa mesma ocasião, ele condenou as deportações de Stalin como uma violação do Leninismo e reverteu a maioria delas, embora apenas em 1991, os tataros, os meskhetianos (subgrupo dos georgianos) e os alemães do Volga tiveram permissão para retornar em massa às suas terras natais. A memória das deportações até hoje representa um importante papel nos movimentos separatistas dos Estados Bálticos, o Tataristão e a Chechênia.
Um trabalho soviético de 1974, descreve a liderança de Stalin da seguinte maneira:

“Stalin manteve, desde 1922, o posto de Secretário Geral do Comitê Central do Partido Comunista. Ele fez importantes contribuições à implementação da política de construção socialista do Partido na URSS e ganhou grande popularidade por sua luta sem tréguas contra os grupos antileninistas dos Trotskystas e bukharinistas. Contudo, a partir do início da década de 1930, todos os sucessos alcançados pelo povo soviético na construção do socialismo, começou a ser arbitrariamente atribuído a Stalin. Já numa carta escrita em 1922, Lenin alertou o Comitê Central do Partido sobre o fato de que ‘o camarada Stalin, tendo se tornado secretário geral, concentrou autoridade sem limites em suas mãos e não estou certo de que ele sempre exercerá autoridade com suficiente juízo’.”
Durante os primeiros anos após a morte de Lenin, Stalin considerou suas observações críticas, mas à medida que o tempo passou, ele abusou de sua posição como Secretário Geral cada vez mais frequentemente, violando o princípio de liderança coletiva e tomando decisões independentes em importantes questões do Partido e do Estado. Tais atalhos pessoais passaram a manifestar-se cada vez com maior insistência: sua rudeza, capricho, intolerância às críticas, arbitrariedade, excessiva suspeita etc...., conduziram a injustificadas restrições da democracia, fortes violações da legalidade socialista e repressões contra proeminentes líderes militares, do Partido, governo e outras pessoas.
Após a morte de Stalin, a queda do ditador na União Soviética.
Certamente, não podemos dizer como Lenin ou Trotsky, Zinoviev, Kamenev ou Bukharin, teria governado a URSS se tivesse vencido a luta pelo poder. Contudo, pelo que sabemos de cada um deles, é improvável que qualquer desses líderes fosse igualar a monstruosa tirania de Stalin, que custou a vida de tantos milhões de russos. Não existe consenso quanto à contagem de vítimas do stalinismo. Determinadas estatísticas afirmam que entre 20 a 35 milhões de soviéticos morreram por fome, frio ou executados em campos de concentração ou de trabalhos forçados durante a época de Stalin.
Eric Hobsbawm, o escritor marxista britânico, em seu livro “A Era dos Extremos”, de 1994, escreveu sobre Stalin em uma nota de rodapé: “Este escritor, que viu o corpo embalsamado de Stalin no mausoléu da Praça Vermelha, antes dele ser removido, em 1957, lembra-se do choque da visão de um homem tão minúsculo e no entanto tão todo-poderoso. Significativamente, todos os filmes e fotografias ocultavam o fato de que ele tinha apenas 1,58 m de altura”. Apenas faltou dizer que, além de todo-poderoso, foi também o que mais vítimas fez ao longo da sua tirania.

[1] A Agência de Telégrafo da União Soviética (TASS) foi uma agência central para coleta e distribuição de notícias nacionais e internacionais para todas as estações de televisão, rádio e jornais soviéticos. Ela possuía um monopólio oficial de informação estatal liberado sob forma de um Relatório da TASS. Foi estabelecida em 25 de julho de 1925 por um decreto do Presidiu do Soviete Supremo da União Soviética, a partir da Agência de Telégrafo Russa (ROSTA), a primeira agência de notícias na Rússia Soviética. Era frequentemente usada como uma organização de frente pelas agências de inteligência como a NKVD (mais tarde KGB) com muitos de seus empregados servindo como seus informantes. 
[2] O relatório “Sobre o Culto da Personalidade e Suas Consequências”, apresentado no 20o Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 25 de fevereiro de 1956, foi profundamente crítico a Joseph Stalin, principalmente no que se refere aos expurgos realizados pelo Partido Comunista da União Soviética durante os últimos anos da década de 1930. Khrushchev acusou Stalin de ter criado um culto de personalidade do líder, a despeito de ostensivamente manter apoio aos ideais do comunismo. Superficialmente, o discurso foi uma tentativa para aproximar o Partido Comunista Soviético de Lenin. Contudo, a motivação última de Khrushchev foi legitimar e ajudar a consolidar seu controle do Governo e Partido Comunistas, poder obtido numa luta política contra Vyacheslav Molotov e Georgy Malenkov, leais a Stalin. Tal relatório ficou conhecido como “Discurso Secreto” porque liberado em uma sessão fechada dos delegados, sem a presença da imprensa. O texto foi amplamente discutido em células do Partido já no início de março, muitas vezes com a participação de não membros do Partido, mas o texto oficial russo, só foi publicado em 1989, durante a campanha da glasnost (“publicidade”, mas também abertura e transparência) do líder soviético Mikhail Gorbachev.

Na próxima postagem, o encerramento da Revolução Russa, com as Conclusões, na PARTE 11