Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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domingo, 26 de fevereiro de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 6

VI.4 – ITÁLIA E ESPANHA

Embora tenham surgido apoiadores isolados da Reforma nesses países, nenhuma organização forte ou ampla surgiu. Aqui e ali, na Itália, indivíduos influentes (por exemplo Vittoria Colonna e seu círculo) favoreceram a Reforma, mas desejando que esta ocorresse dentro e não como uma rebelião contra a Igreja. Poucos italianos abraçaram o luteranismo ou calvinismo, por exemplo, John Valdez, secretário do vice-rei de Nápoles. Nas cidades de Turim, Pavia, Veneza, Ferrara (onde a duquesa Renata favoreceu a Reforma) e Florença podiam ser encontrados adeptos dos reformadores Alemão e Suíço, embora não tão extremados quanto seus protótipos. Os mais proeminentes tiveram que deixar o país: Pietro Paolo Vergerio, que fugiu para a Suíça e então para Wittenberg, Bernardino Ochino, que fugiu para Genebra e foi mais tarde professor em Oxford, Petrus Martyr Vermigli, que fugiu para Zurique e foi posteriormente ativo em Oxford, Strasburg e novamente em Zurique. Pela vigorosa inauguração da verdadeira reforma eclesiástica no espírito do Concílio de Trento, através da atividade de numerosos santos homens (São Charles Borromeo e Felipe Neri), através da vigilância dos bispos e a diligência da Inquisição, a Reforma foi excluída da Itália. Em alguns círculos racionalistas e antitrinitarianas, as tendências se revelaram e a Itália foi o berço de dois heresiarcas, Laelius Socinus e seu sobrinho Faustus Socinus, fundadores do Socinianismo. 
Miguel Revet, denunciado por Calvino e morto
na fogueira, "não por autoridade do homem,
mas pela Glória de Deus"
O curso dos eventos foi o mesmo na Espanha. A despeito de algumas tentativas de disseminação de artigos antieclesiásticos no país, a Reforma não teve sucesso, graças ao zelo demonstrado pelas autoridades eclesiásticas e públicas no contra-ataque aos seus esforços. Os poucos espanhóis que aceitaram as novas doutrinas não puderam desenvolver qualquer atividade no país e viveram no exterior – Francisco Enzinas (Dryander), que fez uma tradução da Bíblia para o espanhol, Juan Diaz, Miguel Servet (Servetus), condenado à fogueira por Calvino, em Genebra, por sua doutrina contra a Trindade.

VI.5 – HUNGRIA E TRANSILVÂNIA (CENTRO OCIDENTE DA ROMÊNIA)

A Reforma foi difundida na Hungria por quem havia estudado em Wittenberg e lá abraçado o luteranismo. Em 1525, leis estritas foram passadas contra os adeptos das doutrinas heréticas, mas seu número continuou a crescer, principalmente entre a nobreza - que desejava confiscar a propriedade eclesiástica -, e nas cidades livres do reino. As vitórias e conquistas turcas e a guerra entre Ferdinando da Áustria e John Zapolya favoreceram os reformadores. Além dos luteranos, logo surgiram seguidores de Zwingli e Calvino no país. Cinco cidades luteranas na Hungria Superior aceitaram a Confissão de Augsburg. O calvinismo, contudo, gradualmente sobrepujou as demais crenças, embora as disputas domésticas entre as seitas reformadoras não tivessem cessado. Na Transilvânia mercadores do Hermannstadt que haviam tido contato com a heresia de Lutero em Leipzig, espalharam a Reforma após 1521. Apesar da perseguição dos reformadores, uma escola luterana iniciou em Hermannstadt e a nobreza empenhou-se no uso da Reforma como meio de confiscar a propriedade do Clero. Em 1529 as ordens regulares e os mais fortes campeões da Igreja foram expulsos da cidade. Em Kronstadt o pregador luterano Johann Honter ganhou a ascendência em 1534, com a abolição da missa e a organização do serviço divino segundo o modelo luterano. Em um sínodo que aconteceu em 1544, a nação saxônica na Transilvânia decidiu em favor da Confissão de Augsburg, enquanto os magiares rurais aceitavam o calvinismo. Na Dieta de Klausenburg, em 1556, a liberdade religiosa geral foi garantida e a propriedade eclesiástica confiscada para a defesa do país e a construção de escolas luteranas. Entre os apoiadores da Reforma, acorreram divisões adicionais. Além dos luteranos, surgiram os unitarianos (socinianos) e os anabatistas e cada uma dessas seitas provocou guerra contra as demais. Uma minoria católica sobreviveu entre os Wallaquianos gregos (a Wallachia é uma região histórica e geográfica da Romênia).

VI.6 – POLÔNIA, LIVÔNIA E CURLÂNDIA[1]

Os poloneses aprenderam sobre a Reforma por alguns jovens estudantes de Wittenberg e pelas Confrarias Bohemia e Moraviana[2]. O Arcebispo Laski de Gnesen e o rei Sigismundo I (1501 – 1548) se opuseram energicamente à difusão das doutrinas heréticas. Contudo, os apoiadores da Reforma tiveram sucesso em obter recrutas na Universidade da Cracóvia, em Posen e em Dantzig, de onde ela se espalhou para Thorn e Elbing onde alguns nobres favoreceram as novas doutrinas. Sob o governo do fraco Sigismundo II (1548 – 1572) havia na Polônia, além dos luteranos e da Confraria Bohemia, zwinglianos, calvinistas e socinianos. O Príncipe Radziwill e John Laski favoreceram o calvinismo e a Bíblia foi traduzida para o polonês, de acordo com o seu partido, em 1563. A despeito dos esforços do núncio papal, Aloisius Lippomano (1556 – 1558), a livre prática da religião foi secretamente garantida nas três cidades acima mencionadas e a nobreza pôde ter serviços religiosos privados em suas casas. As diversas seitas reformadas lutavam entre si e a fórmula de fé, introduzida no Sínodo Geral de Sandomir, em 1570, pelos reformados, luteranos e a Confraria Bohemia, não produzia qualquer unidade. Em 1573, os partidos heréticos asseguraram a paz religiosa de Varsóvia que garantia direitos iguais a católicos e dissidentes, estabelecendo a paz permanente entra as duas seções. Pela zelosa inauguração da verdadeira reforma eclesiástica, a diligente atividade dos legados papais e bispos capacitados, além dos trabalhos Jesuítas, se conseguiu evitar progressos adicionais da Reforma.
Na Livônia e na Curlândia, territórios da Ordem Teutônica, o curso da Reforma era o mesmo que na Prússia, outro território da Ordem. O comandante Gotthard Kettler, da Curlândia, abraçou a Confissão de Augsburg e transformou a terra em ducado secular hereditário, tributário da Polônia. Na Livônia, o comandante Walter de Plettenberg empenhou-se em promover o Luteranismo, que havia sido aceito em Riga, Dorpat e Reval desde 1523, esperando assim tornar-se independente do Arcebispo de Riga. Quando Margrave William de Brandenburg tornou-se Arcebispo de Riga em 1539, o Luteranismo obteve o domínio exclusivo na Livônia.

VI.7 – PAÍSES BAIXOS (Netherlands)
Carlos V, Sacro Imperador Romano Germânico,
Rei da Espanha e Senhor dos Países Baixos

Durante o reinado de Carlos V, as dezessete províncias dos Países Baixos permaneceram imunes à infecção da nova doutrina. Vários seguidores de Lutero haviam aparecido lá dispostos a disseminar os escritos e doutrinas de Lutero. Carlos V, contudo, emitiu decretos rígidos contra os luteranos e a impressão e difusão das ideias do reformador. Os excessos dos anabatistas produziram a violenta supressão do seu movimento e até 1555 a Reforma produziu poucas raízes no país. Neste ano, Carlos V transferiu o governo a seu filho Felipe II e em seu período o calvinismo fez rápidos avanços, especialmente nas províncias do norte. Muitos dos seus grandes nobres e muito da baixa nobreza empobrecida usou a Reforma para incitar os amantes da liberdade contra a administração real, os oficiais e tropas espanholas e a severidade do governo. A desavença continuou a crescer, principalmente devido às severas práticas do Duque de Alba e à sangrenta perseguição que conduziu. Guilherme de Orange-Nassau, governador da província da Holanda, por razões políticas assegurou a vitória do Calvinismo e obteve sucesso em vários distritos do norte. Colocou-se à liderança da revolução contra o domínio espanhol e nas guerras que se seguiram as províncias do norte fizeram a sua independência, a partir da qual o calvinismo ganhou ascendência. Em 1581 foi proibida qualquer atividade pública da fé católica. A “Confissão Belga” de 1562 já possuía uma base calvinista; pelos sínodos de Dordrecht, em 1574 e 1618, o calvinismo recebeu uma forma definitiva. Os católicos do país (cerca de dois quintos da população) foram sujeitados a violenta supressão.

VI.8 – INGLATERRA E ESCÓCIA
Elizabeth I, Rainha de Inglaterra e Irlanda
filha de Henry VIII e Anne Boleyn

A Reforma recebeu sua forma final na Inglaterra durante o reinado da rainha Elizabeth (1558–1603). Na base da liturgia estabelecida no “Livro da Oração Comum”, sob Edward VI (1547-1553) e da “Confissão de Quarenta e Dois Artigos” compostos pelo arcebispo Cranmer e o bispo Ridley, em 1552, e depois que a rainha Mary I (1553-1558), filha de Henry VIII com sua primeira esposa, falhou em reunir seu país com Roma e a fé católica, a ascendência do Anglicanismo foi estabelecida na Inglaterra por Elizabeth (filha de Henry VIII e sua segunda esposa). Os Quarenta e Dois Artigos foram revisados para os Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana, tornando-se, em 1562, a norma do seu credo religioso. A supremacia eclesiástica da rainha foi reconhecida e o “Juramento da Supremacia” tornou-se exigência sob pena de remoção de cargo e perda de propriedade. Vários prelados e universidades ofereceram resistência que foi vencida pela força. A maioria do baixo clero fez o juramento exigido com sempre crescente severidade por todos os membros da Casa dos Comuns, eclesiásticos, advogados e professores. Nas aparências, muito da antiga forma católica fora retida. Após o fracasso do movimento em favor de Mary Stuart da Escócia, que fugira para a Inglaterra em 1568, a opressão dos católicos ingleses continuou com crescente violência. Além da Igreja Anglicana Estabelecida, havia na Inglaterra os não conformistas calvinistas que opuseram uma organização presbiteriana popular à hierarquia episcopal; como os católicos, e foram muito oprimidos pelos governantes ingleses.
Na Escócia, a situação social e política deu um grande ímpeto à Reforma, ajudada pela ignorância e rudeza do clero (em grande parte o resultado das constantes rixas). A nobreza usou a Reforma como arma em sua guerra contra a casa real, então apoiada pelo alto clero. Já sob James V (1524-1542), os apoiadores das doutrinas luteranas (Patrick Hamilton, Henry Forest e Alexander Seton, confessor do rei) avançaram como reformadores. Os dois primeiros foram executados e o último fugiu para o Continente. Contudo, as doutrinas heréticas continuaram a encontrar novos adeptos. À morte de James V, sua filha e herdeira Mary tinha apenas seis dias de idade e a regência coube a James Hamilton que, embora previamente de sentimentos protestantes, retornou à Igreja Católica e apoiou o arcebispo David Beaton em suas enérgicas medidas contra os inovadores. Após a execução do reformador George Wishart, os protestantes formaram uma conspiração contra o arcebispo, atacando-o em seu castelo e executando-o em 1545. Os rebeldes (entre eles John Knox), apoiados por 140 nobres, fortificaram-se no castelo. Knox foi para Genebra em 1546 lá abraçando o calvinismo; a partir de 1555 foi o líder da Reforma na Escócia onde venceu a ascendência na forma do calvinismo. A confusão política prevalente na Escócia a partir da morte de James V, facilitou a introdução da Reforma.

VII – DIFERENTES FACÇÕES DA REFORMA

As principais formas da Reforma foram o Luteranismo, Zwinglianismo, Calvinismo e o Anglicanismo. Em cada um desses ramos, entretanto, conflitos surgiram em consequência das diversas visões dos representantes individuais. Negociações, compromissos e fórmulas de união foram buscadas, usualmente sem sucesso duradouro, para estabelecer a unidade. Toda a Reforma, repousando em autoridade humana, apresentou, desde o seu início, frente à unidade de fá católica, um aspecto de triste dissensão. Além desses ramos principais, surgiram inúmeras outras formas que deles se desviavam em pontos essenciais e que, gradualmente, deram origem a incontáveis divisões do Protestantismo. As principais dessas formas serão revistas brevemente.
Os Anabatistas, que surgiram na Alemanha e na Suíça Alemã logo após o aparecimento de Lutero e Zwingli, desejavam levar sua concepção de Igreja de volta aos tempos apostólicos. Eles negavam a validade do batismo das crianças, viam na sagrada eucaristia somente uma cerimônia comemorativa e desejavam restaurar o Reino de Deus de acordo com sua visão herética e mística. Embora atacados por outros reformadores, eles fizeram adeptos em muitos lugares. Deles também saíram os Mennonitas, fundado por Menno Simonis.
Os Schwenkfeldianos foram fundados por Kaspar Schwenkfeld, conselheiro palaciano do duque Frederick de Liegnitz - Duque de Chojnów and Strzelin a partir de 1453, de Oława e Legnica a partir de 1454, de Brzeg a partir de 1481 e de Lubin, a partir de 1482 (todas cidades do sul e sudoeste da Polônia) - e cônegos. Inicialmente ele associou-se com Lutero, mas depois de 1525 a ele se opôs em sua Cristologia, bem como em sua concepção da Eucaristia e sua doutrina de justificação. Atacados pelos reformadores alemães, seus seguidores puderam formar apenas poucas comunidades. Até hoje os Schwenkfeldianos ainda se mantêm nos Estados Unidos.
Sebastian Franck (1499-1542), um espiritualista puro, rejeitou toda a forma externa de organização eclesiástica, favorecendo uma Igreja espiritual e invisível. Assim, se absteve de fundar uma comunidade separada e apenas procurou disseminar suas ideias.
Os Socinianos e outros Antitrinitarianos. Alguns membros individuais dos primeiros reformadores atacaram a doutrina fundamental da Sagrada Trindade, especialmente o espanhol Miguel Servet (Servetus), cujo escrito “De Trinitatis Erroribus”, impresso em 1531, foi queimado por Calvino, em Genebra, 1533. Os principais fundadores do Antitrinitarismo foram Laelius Socinus, professor de jurisprudência em Siena e seu sobrinho Faustus Socinus. Obrigados a fugir de suas casas, mantiveram-se em vários lugares e fundaram comunidades Socinianas. Faustus disseminou sua doutrina especialmente na Polônia e Transilvânia.
Valentine Weigel (1533-1588) e Jacob Böhme (falecido em 1642), um sapateiro de Gorlitz (cidade do extremo leste alemão), representaram um panteísmo místico, ensinando que a revelação externa de Deus na Bíblia poderia ser reconhecida somente através de uma luz interna. Ambos tiveram numerosos discípulos. Os seguidores de Böhme receberam, mais tarde, o nome de Roza Cruzes porque foi amplamente suposto que estavam sob a direção de um líder escondido chamado Rozenkreuz.
Os Pietistas, na Alemanha, tiveram por líder Philip Jacob Spener (1635-1705). O Pietismo foi inicialmente uma reação contra a estéril ortodoxia luterana e via a religião principalmente como algo do coração.
As Comunidades Inspiração se originaram na Alemanha durante os séculos XVII e XVIII com vários visionários apocalípticos. Eles viam o reino do Espírito Santo como já chegado acreditando no presente universal da profecia e no milênio. Entre os fundadores de tais sociedades visionárias estavam Johann Wilhelm Petersen (falecido em 1727), superintendente em Luneberg, e Johann Konrad Duppel (nascido em 1734), um médico de Leiden.
Os Herrnhuter foram fundados pelo Conde Nicholas de Zinzendorf (1700-1760). No Hutberg, Alemanha, ele estabeleceu a comunidade de Herrnhut, com uma constituição especial formada de Irmãos Moravianos e Protestantes. A ênfase foi posta na doutrina da Redenção e foi inculcada uma estrita disciplina moral. Tal comunidade se espalhou para vários locais.
Os Quakers foram fundados por John George Fox de Drayton (1624-1691), em Leicestershire, região central da Inglaterra. Ele favoreceu um espiritualismo visionário e encontrou na alma de cada homem uma parte da inteligência divina. Segundo ele, todos podem orar de acordo com a forma como o espírito os incitam. Os preceitos morais de tal seita eram muito estritos. Muitos Quakers, perseguidos na Inglaterra, emigraram para os Estados Unidos onde formaram uma enorme comunidade
Os Metodistas foram fundados por John Wesley. Em 1729 ele instituiu, com seu irmão Charles e seus amigos Morgan e Kirkham, uma associação, em Oxford, Inglaterra, para o cultivo de uma vida religiosa e ascética, dessa sociedade desenvolvendo-se o Metodismo.
Os Batistas se originaram na Inglaterra, em 1608. Mantinham que o batismo era necessário apenas para os adultos, apoiavam o calvinismo em suas essências e observavam o dia de descanso no sábado ao invés de domingo.
Os Swedenborgianos, tiraram seu nome do seu fundador, Emmanuel Swedenborg (falecido em 1772) filho de um bispo protestante sueco. Acreditando em seu poder de comunicação com o mundo espírita e no recebimento de revelações divinas, fundou uma comunidade com liturgia especial, a “Nova Jerusalém”. Teve numerosos seguidores que se espalharam por muitos lugares.
Os Irvingitas tomaram o nome do seu fundador Edward Irving, um nativo da Escócia e, desde 1822, pregador numa capela presbiteriana em Londres.
Os Mormons foram fundados por Joseph Smith, nos Estados Unidos, que fez sua aparição, com supostas revelações, em 1822 (também conhecida como Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias). Muito fortes, ainda hoje, principalmente no Estado de Utah.
O Adventismo é um ramo do Protestantismo com origem no renascimento americano protestante do século XIX, conhecido como “O Segundo Grande Despertar”. O nome se refere à crença na iminente segunda vinda (ou segundo advento) de Jesus Cristo. William Miller iniciou o movimento adventista na década de 1830 e seus seguidores tornaram-se conhecidos como “Milleritas”.
Além destas ramificações mais bem conhecidas da Reforma, há muitas outras denominações, diferentes resultados da evolução de novas formas surgidas e que surgirão, devido à arbitrariedade subjetiva transformada em princípio pelo ensinamento herético do século XVI. (CONTINUA NA PARTE 7)

[1] A Curlândia é uma das regiões culturais e históricas da Latvia, país da região báltica do norte da Europa, um dos três estados bálticos. Situada no oeste da Latvia, a Curlândia corresponde, grosseiramente, aos distritos latvianos de Kuldiga, Liepaja, Saldus, Talsi, Tukums e Ventspils.
[2] "Confraria Bohemia" e "Confraria Moraviana" são as designações populares da Fraternidade Unitas, fundada na Bohemia em 1457, renovada pelo Conde Zinzendorf em 1722 e ainda ativa até hoje.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 2)

GUERRAS NAPOLEÔNICAS

Friedrich Wilhelm II, 1797.

Durante o reinado de Friedrich Wilhelm II (1786-1797), a Prússia anexou território polonês através de outras Partições da Polônia[1]. Seu sucessor, Friedrich Wilhelm III (1797-1840), anunciou a união da igreja luterana da Prússia e as igrejas reformadas em uma. Com a ajuda de seus ministros, Barão vom und zum Stein e o Príncipe Karl August von Hardenberg, instituiu uma série de reformas liberais dentro do reino.
De 1801 a 1805, durante as “Guerras Napoleônicas”, a Prússia foi dominada por Napoleão I (Napoleão Bonaparte). A Prússia teve parte importante nas guerras revolucionárias francesas, mas permaneceu em silêncio por mais de uma década, devido à Paz de Basileia, de 1795, só para ir mais uma vez à guerra com a França em 1806, quando falharam as negociações com aquele país sobre a alocação dos domínios de influência no Império Germânico. Por isso, em 1806, Friedrich Wilhelm III reuniu uma coligação contra Napoleão e foi derrotado, perdendo muito do seu território.
Friedrich Wilhelm III, o rei das
Guerras Napoleônicas
 A Prússia sofreu uma derrota devastadora contra as tropas de Napoleão Bonaparte nas Batalhas gêmeas de Jena e Auerstedt, travadas em 14 de outubro de 1806. A derrota decisiva sofrida pelo exército prussiano subjugou o Reino da Prússia ao Império Francês até a Sexta Coalizão[2], formada em 1812, levando Friedrich Wilhelm III e sua família a fugir temporariamente para Memelburgo (Klaipėda)[3]. Nos termos dos Tratados de Tilsit, em 1807, o estado perdeu quase a metade do seu território, incluindo as áreas adquiridas com a segunda e a terceira Partições da Polônia, que então caíram para o Ducado de Varsóvia, além da obrigação de pagar uma grande indenização ao exército e a permissão de tropas francesas por toda a Prússia, efetivamente tornando-a um reino satélite francês.
A partir de 1806, com a formal dissolução do milenar “Sacro Império Romano-Germânico”, por Napoleão Bonaparte, em 6 de agosto, com a renúncia do seu último imperador Francisco II (a partir de 1804, Francisco I da Áustria) que manteve até 1918 o título de Imperador da Áustria, os estados alemães se encontraram muito fragmentados e, como resposta a esta derrota, reformadores como Stein e Hardenberg definiram a modernização do estado prussiano. Entre as suas reformas estavam a libertação dos camponeses da servidão e a emancipação dos judeus como cidadãos com pleno direito. O sistema escolar foi reorganizado e, em 1818, o comércio livre foi introduzido. O processo de reforma do exército terminou em 1813 com a introdução do serviço militar obrigatório.
Após a derrota de Napoleão na Rússia, em 1812, a Prússia encerrou sua aliança com a França e participou da “Sexta Coalizão” durante as "Guerras de Libertação" contra a ocupação francesa. Tropas prussianas, sob o comando do marechal Gebhard Leberecht von Blücher, contribuíram decisivamente (com os britânicos) na Batalha de Waterloo, em junho de 1815, com a vitória final sobre Napoleão e seu desterro definitivo na Ilha de Santa Helena.
O Congresso de Viena em 1815, que redesenhou o mapa político da Europa após a “Batalha de Waterloo”, que resultou na queda do Império Francês, deu como recompensa à Prússia, a recuperação de sua fortuna e seus territórios perdidos, bem como boa parte do noroeste da atual Alemanha, com toda a Renânia, Vestfália e alguns outros territórios. Essas terras ocidentais eram de vital importância, porque incluíam a área do Ruhr, área rica em carvão e centro da recente industrialização da Alemanha, especialmente na indústria de armas. Tais ganhos territoriais implicaram também na duplicação da população da Prússia. Em troca, a Prússia se retirou das áreas da Polônia central para permitir a criação do Congresso da Polônia sob a soberania russa. 
Confederação Germânica em 1815. Verde escuro, Estados
Membros; em claro, territórios dos Estados fora da Confederação
A Prússia emergiu das guerras napoleônicas como a potência dominante entre os estados alemães que, após 1815, no Congresso de Viena, passaram a ser chefiados pelo Império Austríaco, na “Confederação Germânica”, criada para coordenar as economias separadas dos países de língua alemã e substituir o antigo Sacro Império Romano. Tal era uma confederação fraca de 39 Estados, que representava apenas os soberanos e não os povos daqueles territórios. O tamanho e a influência da cada Estado variava consideravelmente. O Império Austríaco e o Reino da Prússia eram os maiores e mais importantes membros da confederação. Grandes partes de seus territórios e de suas forças armadas não foram incluídas na confederação, o que permitia a ambos atuar como países independentes; por exemplo, durante as guerras com a Dinamarca, Áustria e Prússia não combateram sob a bandeira da confederação. Ambas possuíam um voto cada na dieta (assembleia). Dois Estados-membros eram governados por soberanos estrangeiros: os reis da Dinamarca, dos Países Baixos e do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda (até 1837) eram membros da Confederação Germânica na qualidade, respectivamente, de duque de Holstein e rei de Hanôver. Cada um detinha um voto cada na dieta. Seis outros Estados contavam um voto cada na dieta: os reis da Baviera, Saxônia e Vurtemberg, o príncipe-eleitor do Hesse e os grão-duques de Baden e do Hesse. Vinte e três membros menores compartilhavam cinco votos na dieta. As quatro cidades livres de Lübeck, Frankfurt, Brêmen e Hamburgo compartilhavam um voto na dieta. As suas fronteiras eram aproximadamente as mesmas fronteiras do Sacro-Império à época da Revolução Francesa, excetuando o território que corresponde hoje à Bélgica. Os seus membros, drasticamente reduzidos em relação aos mais de 200 que constituíam o Sacro-Império, dispunham de plena soberania e comprometiam-se a uma defesa mútua, mantendo em conjunto uma série de fortalezas no Luxemburgo, em Mogúncia, Rastatt, Ulm e Landau. Os assuntos políticos, naturalmente limitados devido à grande autonomia dos estados-membros, discutiam-se na dieta federal, sob presidência austríaca, de Frankfurt.
A primeira metade do século XIX viu uma luta prolongada nos estados alemães, entre os liberais, que queriam uma Alemanha unida e federal sob uma constituição democrática, e os conservadores, que queriam manter o Império como uma colcha de retalhos de estados independentes monárquicos, com a Prússia e a Áustria competindo por influência. Um pequeno movimento que marcou o desejo de unificação alemã neste período foi o movimento estudantil Burschenschaft (corporação estudantil de antigos combatentes das guerras contra Napoleão Bonaparte, que haviam retomado seus estudos, em 1815, na Universidade de Jena), que incentivou o uso da bandeira preto-vermelho-ouro, as discussões sobre a nação alemã unificada e um sistema político progressista e liberal. Por causa do tamanho da Prússia e de sua importância econômica, os estados menores começaram a associar-se em sua área numa zona de livre comércio em 1820. A Prússia se beneficiou com a criação em 1834 da união aduaneira alemã (Zollverein), que incluiu a maioria dos estados alemães mas excluiu a Áustria.
Por essa época, o Reino da Dinamarca mantinha uma União Pessoal (uma união de estados com chefe de Estado comum) com os ducados de Schleswig e Holstein, sendo que ambos tinham laços estreitos entre si, embora apenas Holstein fizesse parte da Confederação Germânica. O Schleswig era um ducado soberano (formalmente independente), de maioria dinamarquesa, vinculado à coroa da Dinamarca por uma União Pessoal e por laços feudais. Já o Holstein era um ducado soberano, de maioria alemã, que integrara o Sacro Império Romano-Germânico e a Confederação, mas ligado à Dinamarca por uma União Pessoal desde o século XV. Em outras palavras, o rei da Dinamarca era o duque do Schleswig e do Holstein, territórios governados, na prática, pelos dinamarqueses. O chamado Tratado de Ribe (1460) dispunha que os dois ducados não poderiam ser separados. A extinção da linhagem real masculina da Dinamarca, com a morte do rei Friedrich VII, criou para os dinamarqueses o problema da manutenção do seu controle sobre o Schleswig-Holstein, cobiçado por advogados da unificação Alemã.
Por 1844 quase todos os estados germânicos estavam economicamente ligados à Prússia. Quando Friedrich VII, rei da Dinamarca, após as Revoluções de 1848, tentou integrar Schleswig, mas não Holstein, ao estado dinamarquês, promulgando uma constituição democrática comum à Dinamarca e ao Schleswig, provocou um movimento separatista nos ducados. Em março de 1848, a grande maioria alemã do Schleswig-Holstein rebelou-se contra a Dinamarca e buscou a independência frente a esta última, para se associar à Confederação Germânica. O Reino da Prússia, sob Friedrich Wilhelm IV, interveio militarmente em favor da revolta, expulsou dos ducados as tropas dinamarquesas e conseguiu levar a Confederação Germânica contra a Dinamarca na Primeira Guerra do Schleswig (1848-1851). A guerra terminou quando as grandes potências europeias pressionaram a Prússia a aceitar o Protocolo de Londres de 1852. Nos termos deste acordo de paz, a Confederação Germânica devolvia o Schleswig-Holstein à Dinamarca que, por um acordo com a Prússia, comprometia-se a não criar laços adicionais com o Schleswig mais fortes do que os deste último com o Holstein. Como se vê, um resultado não conclusivo que logo faria estalar um novo conflito.

AS GUERRAS DE UNIFICAÇÃO

Wilhelm I, proclamado imperador do Império Alemão
Sob o Rei Wilhelm I (1861 a 1888), e seu primeiro ministro e chanceler imperial, Príncipe Otto Von Bismarck (a partir de 1862), o Chanceler de Ferro, ministro presidente do Reino, a Prússia alcançou o pico do seu poder, realizando a unificação alemã através do desprezo aos recursos do liberalismo político e da opção pela política da força.
Em 1862, o rei Wilhelm I nomeou Otto von Bismarck como primeiro-ministro da Prússia, decidido a derrotar tanto os liberais quanto os conservadores e aumentar a supremacia prussiana e a sua influência entre os estados alemães. Há muito debate sobre se Bismarck realmente planejou criar uma Alemanha unida quando partiu nesta jornada, ou se ele simplesmente se aproveitou das circunstâncias. Certamente suas memórias pintam um quadro róseo de um idealista, mas estes foram escritos com o benefício da retrospectiva e certos eventos cruciais que não poderiam ser previstos. O que está claro é que Bismarck apoiou grandes setores da população com a promessa de levar a luta para uma maior unificação alemã. Em busca do seu objetivo maior, Bismarck guiou a Prússia através de três guerras que, no seu conjunto, trouxeram Wilhelm I da Prússia à posição de Imperador Alemão: (1) a guerra contra a Dinamarca em 1864; (2) a “Guerra das Sete Semanas” contra a Áustria, em 1866; (3) e a “Guerra Franco-Prussiana” em 1870. Essas três guerras colocaram a Prússia como estado líder no Império Germânico. Em 1867 tornou-se o núcleo da Confederação da Alemanha do Norte e, em 1871, do Império Germânico. Daí em diante, a história da Prússia geralmente coincide com a história da Alemanha.
Chanceler Otto Von Bismarck,
retratado por N. Repik
Em 1863, a Dinamarca introduziu uma constituição compartilhada para a Dinamarca e Schleswig. Isso levou a um conflito com a Confederação Germânica, que autorizou a ocupação de Holstein pela Confederação, da qual as forças dinamarquesas se retiraram. Em 1864, forças prussianas e austríacas cruzaram a fronteira entre Holstein e Schleswig iniciando a Segunda Guerra do Schleswig. As forças austro-prussianas derrotaram os dinamarqueses, que entregaram os dois territórios. Na Convenção de Gastein, de 1865 a Prússia assumiu a administração de Schleswig enquanto a Áustria assumiu a de Holstein.
Bismarck percebeu que a dupla administração de Schleswig e Holstein era apenas uma solução temporária, e as tensões aumentaram entre o Reino da Prússia e o Império Austríaco. A luta pela supremacia na Confederação e a disputa sobre Schleswig e Holstein, levou à Guerra Austro-Prussiana, em 1866.
Do lado austríaco, ao sul, estavam os estados alemães (incluindo a Baviera e Württemberg), alguns estados alemães centrais (incluindo Saxônia) e Hanôver, ao norte. Do lado prussiano estavam o Reino da Itália e a maioria dos estados ao norte da Confederação e alguns estados centrais menores. As tropas prussianas, melhor armadas, conquistaram a vitória fundamental na batalha de Königgrätz, sob Helmuth von Moltke. O conflito centenário entre Berlim e Viena pelo domínio da Confederação havia acabado.
Pela Paz de Praga, em 1866, a Prússia anexou quatro dos aliados austríacos no norte e no centro da Alemanha: Hanôver, Hesse-Kassel, Nassau e Frankfurt. A Prússia também ganhou o controle total de Schleswig-Holstein. Como resultado desses ganhos territoriais, a Prússia estendeu-se através de dois terços do norte da Confederação, que continha dois terços da sua população. A “Confederação Germânica” foi dissolvida e a Prússia agrupou 21 estados norte do rio Meno para formar a “Confederação da Alemanha do Norte” sob hegemonia do Reino da Prússia e excluindo a Áustria e a Baviera.
Wilhelm I, Imperador Germânico  a partir
de 18 de janeiro de 1871.
A Prússia foi o Estado dominante na nova confederação, como um reino composto praticamente de quatro quintos do território do novo Estado e da população. O controle quase total da Prússia sobre a confederação foi garantido na constituição redigida por Bismarck em 1867. O poder executivo seria realizado por um presidente, coadjuvado por um chanceler apenas a ele subordinado. A presidência foi um cargo hereditário dos governantes Hohenzollern da Prússia. Havia também uma casa de dois parlamentos. A casa baixa, ou Reichstag, eleita por sufrágio universal masculino; a casa superior, ou Bundesrat (Conselho Federal), era nomeado pelos governos estaduais e, na prática, a casa mais forte. A Prússia teve 17 de 43 votos, e poderia facilmente controlar processos através de alianças com outros estados.
A polêmica entre a Prússia e o “Segundo Império Francês”[4] sobre a candidatura de um Hohenzollern ao trono espanhol foi intensificada tanto pela França como por Bismarck. Com seu “despacho de Ems”[5], Bismarck provocou a declaração de guerra da França à Prússia, por Napoleão III, em 19 de julho de 1870. Honrando os seus tratados, os estados alemães juntaram forças e, rapidamente, derrotaram a França na Guerra Franco-Prussiana. Com a vitória, sob a liderança de Bismarck, Baden, Württemberg e a Baviera, que haviam ficado fora da Confederação da Alemanha do Norte, aceitaram a incorporação a um Império Germânico unificado.
Segundo Bismark, o Império era a solução da "Alemanha Menor" no que se refere à união de todos os povos de língua alemã em um estado, excluindo a Áustria, que permaneceu conectada ao Reino da Hungria e cujos territórios incluíam populações não-alemãs. Em 18 de janeiro de 1871 (o 170º aniversário da coroação do rei Friedrich I), Wilhelm I foi proclamado "Imperador Germânico" (não "Imperador da Alemanha") no Salão dos Espelhos, em Versalhes, perto de Paris, com a capital francesa ainda sob cerco. Esse título (em alemão, “Deutscher Kaiser”) foi o título oficial do chefe de estado do Império Germânico, (Deutsches Reich) então ocupado pelo rei da Prússia (e Bismarck como seu chanceler), e vigorou desde que a Confederação da Alemanha do Norte, após a vitória da Prússia sobre a França na Guerra Franco – Prussiana, em 1871, tornou-se um império, até 1918, com o término da Primeira Guerra Mundial e a derrota da Alemanha.

[1] As Partilhas da Polônia ocorreram ao longo do século XVIII e puseram fim à existência da soberana República das Duas Nações (Reino da Polônia e Grão Ducado da Lituânia). Elas envolveram o Reino da Prússia, o Império Russo e a Monarquia/Império Austríaco, dividindo as terras da república entre elas. As três partilhas ocorreram em: 5 de agosto de 1772; 23 de janeiro de 1793; e 24 de outubro de 1795.
[2] A Sexta Coalizão (1812-1814) reuniu Áustria, Prússia, Rússia, Reino Unido, Portugal, Suécia, Espanha e alguns Estados Germânicos que finalmente conseguiram derrotar a França e enviar Napoleão para o seu primeiro exílio, na Ilha de Elba. Com a frustrada invasão da Rússia, os seus adversários se reorganizaram, expulsaram Napoleão da Alemanha em 1813 e invadiram a França em 1814, obrigando Napoleão a abdicar restaurando os Bourbons.
[3] Klaipėda, anteriormente referida como Memelburgo, é uma cidade e único porto lituano, situada na entrada da laguna da Curlândia, que deságua no mar Báltico, fundada pelos Cavaleiros Teutônicos. Algumas de suas construções mais antigas possuem similaridades com construções alemãs, francesas, inglesas, dinamarquesas e também do sul da Suécia.
[4] O Segundo Império Francês foi o regime monárquico bonapartista implantado por Napoleão III de 1852 a 1870, entre os períodos históricos da Segunda República e da Terceira República, na França. Durante este período, a capital Paris foi centro de exposições mundiais, para onde convergiam a divulgação do progresso cultural e industrial do mundo. Com a Guerra Franco-Prussiana, o Império encontrou seu fim, mostrando seu despreparo militar, com o próprio Imperador Napoleão III sendo capturado na desastrosa batalha de Sedan e deposto em seguida.
[5] O “Despacho de Ems” é um documento histórico. Foi o telegrama que relatou o encontro, em 13 de Julho de 1870 entre o Rei da Prússia Wilhelm I e o embaixador da França, na Prússia, em Bad Ems, no rio Lahn, perto de Koblenz. O telegrama foi habilmente manipulado por Bismark, de forma a torna-lo uma afronta aos franceses, assim provocando a declaração de Guerra da França.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 1)

I – INTRODUÇÃO

A Prússia, que se tornaria um apelido pejorativo para o militarismo e autoritarismo alemão, começou a sua história inteiramente fora da atual Alemanha, embora ao longo de sua história se tenha transformado na origem do reino e do estado da Alemanha. O povo chamado Prussiano, em alemão, que habitava as terras da costa sudeste do mar Báltico, era eslavo, ligado aos lituanos e letões. Foram conquistados e cristianizados à força, no século XIII, pelos Cavaleiros Teutônicos vindos da Terra Santa. Camponeses germânicos foram trazidos para cultivar a terra e, cerca do ano 1350, a maioria da população já era germânica, embora os poloneses tenham anexado parte da Prússia no século seguinte, deixando os Cavaleiros Teutônicos com o Leste da Prússia.
No pico de sua expansão, ao final do século XIX, a Prússia se estendia ao longo das costas dos Oceanos Báltico e do Norte, da Bélgica, Holanda, França e Luxemburgo, no oeste, para o Império Russo no leste, para a Áustria-Hungria no leste, sudeste e sul, e para a Suíça ao sul.
A Prússia moderna foi, sucessivamente, com modificações geográficas, um reino independente (1701-1871), o maior reino constituinte do Império Germânico (1871-1918), um estado ou território constituinte da República de Weimar (1919-1933) e uma divisão administrativa, compreendendo 13 províncias, do centralizado Terceiro Reich Germânico (1934-1945). Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Prússia Ocidental foi perdida para a Polônia, e a Prússia Oriental foi separada do resto do Império Germânico, em 1919, sob os termos do “Tratado de Versailles”, por uma faixa do antigo território prussiano conhecido como “Corredor Polonês” (Corredor de Dantzig ou Corredor de Gdansk), projetado para dar à Polônia uma saída ao Mar Báltico e o maior motivo da invasão da Polônia por Hitler, na “inauguração” da Segunda Guerra Mundial. As outras províncias da Prússia entre as duas Guerras Mundiais eram Reno, Brandenburgo, Pomerânia, Berlin, Saxônia, Schleswig-Holstein, Hannover, Vestfália, Grenzmark Posen-Westpreussen (atualmente na Polônia), Hessen Nassau e Hohenzollern (ambas na atual Alemanha), e Silesia (hoje parte na Polônia e parte na República Tcheca). Em 1947, após a Segunda Grande Guerra (1939-1945), a Prússia foi abolida como uma unidade política e, com exceção da Prússia Oriental, repartida em várias partes pelas quatro zonas de ocupação na Alemanha, administradas pela França, Grã Bretanha, Estados Unidos e URSS. A região nordeste da Prússia Oriental foi anexada pela URSS e o restante foi colocado sob administração polonesa. Berlin era a capital da Prússia antes da Segunda Guerra Mundial e as principais cidades incluíam Frankfurt am Main, Colônia, Essen, Dortmund, Düsseldorf, Magdeburg, Stettin (agora Szczecin) e Königsberg (agora Kaliningrado).
Este, o assunto que vamos, a partir de agora, analisar detalhadamente.


II - UMA BREVE HISTÓRIA DA PRÚSSIA



A área que foi, até modernamente, conhecida como Prússia, foi habitada, em tempos remotos, por tribos eslávicas[1] ocidentais, ancestrais dos poloneses modernos, do oeste, e tribos bálticas, muito relacionadas aos lituanos, do leste. A região e seus habitantes foram descritos pela primeira vez por Tácito, em sua obra “Germânia”, no ano de 98 DC, no período em que suevos, godos e outros povos germânicos viviam em ambos as margens do rio Vístula[2], ao lado dos éstios, os povos do leste, como os chamou Tácito em seu livro, que viviam depois dos povos germânicos da Média Germânia.
Num mapa moderno, a região original dos primeiros prussianos
É uma região histórica que se estende desde a Baía de Gdansk (na Polônia atual) e o final da Curlândia (na costa sudeste do Mar Báltico, na atual Letônia) até a Masúria, grande região no nordeste do território polonês atual. O nome Prússia tem sua origem histórica nos prussianos, um povo báltico que habitava a área em torno das lagunas da Curlândia e do rio Vístula (no que é hoje o norte polonês). Nos séculos VII e VIII os vikings também começaram a penetrar a costa oriental do mar Báltico. Os maiores centros de comércio dos prussianos, como Truso e Kaup, parecem ter absorvido alguns Vikings. Prussianos usaram o mar Báltico como uma rota comercial, frequentemente viajando de Truso a Birka (atual Suécia). No final da Era Viking, os filhos do rei dinamarquês Harald Bluetooth e Canuto, o Grande, lançaram várias expedições contra os prussianos. Eles destruíram muitas áreas na Prússia, incluindo Truso e Kaup, mas não conseguiram dominar totalmente a população. Em algum ponto após o século VII, a área foi invadida e colonizada por tribos germânicas pagãs, mais tarde conhecidas como prussianas. As pessoas do qual o nome Prússia é derivado eram, geralmente, chamados Prússicos ou Borússicos, nas fontes mais antigas. Esse povo falava uma linguagem agora conhecida como Prussiano Antigo e seguia uma mitologia prussiana pagã. 
Figura medieval representando o
martírio de Santo Adalberto

Os saxões entraram na Europa Oriental no século X e falharam em suas tentativas de converter os prussianos ao cristianismo. Em 997 o bispo e santo Adalberto foi martirizado como missionário na Prússia.
Em 1211, André II da Hungria concedeu Burzenland[3], na Transilvânia, como um feudo dos Cavaleiros Teutônicos (sobre os Cavaleiros Teutônicos, ver quadro abaixo), uma ordem religiosa militar que converteu os prussianos ao Cristianismo e levou colonizadores germânicos e holandeses para o território conquistado. Em 1225, André II expulsou os Cavaleiros Teutônicos da Transilvânia, que se transferiram para o mar Báltico. Conrado I, o duque polaco de Mazóvia, tentou em vão conquistar a Prússia pagã nas cruzadas em 1219 e 1222. Em 1226, o duque Conrado I convidou os Cavaleiros Teutônicos para conquistar as tribos prussianas bálticas em suas fronteiras, o que eles conseguiram no mesmo ano. Durante 60 anos de lutas contra os prussianos, a ordem criou um estado independente, que passou a controlar a Prússia. Em 1237, eles passaram a controlar também a Livônia (atual Letônia e Estônia). Nesta década de 1230, o território dos prussianos e dos povos vizinhos, curonianos (habitantes da Curlândia) e livônios, estiveram sob o controle do Estado da Ordem Teutônica. Por volta de 1252, eles terminaram a conquista da tribo prussiana setentrional dos escalvianos, assim como os ocidentais curonianos bálticos e ergueram o Castelo de Memel (atual Lituânia), que se tornou a cidade portuária de Memel (atual Klaipėda). 
Tribos prússicas, entre outras tribos
bálticas, cerca de 1200 DC
Foram os Cavaleiros Teutônicos que deram origem ao Ducado da Prússia e à Marca de Brandenburgo, principado do Sacro Império Romano Germânico, com papel crucial na história da Alemanha e da Europa Central. Durante séculos, a Casa de Hohenzollern governou com sucesso a região, expandindo seu tamanho por meio de um exército bem organizado e eficaz. Ao final do século XIII a região estava completamente subjugada e daí para diante foi governada pelos Cavaleiros Teutônicos, como um feudo papal, subordinados ao Papa e ao Imperador.

A ORDEM TEUTÔNICA


A “Ordem dos Cavaleiros Teutônicos de Santa Maria de Jerusalém”, conhecida apenas como “Ordem Teutônica”, foi uma ordem militar cruzada, vinculada à Igreja Católica, por votos religiosos, pelo Papa Clemente III, formada em São João do Acre, Israel, na época das Cruzadas, ao final do século XII. Seus membros usavam sobrevestes brancas com uma cruz negra. Os Cavaleiros tiveram a sua sede em Montfort, uma fortaleza construída nos tempos do Reino de Jerusalém[1] (1099-1291), durante as Cruzadas, cujos vestígios ainda se conservam ao norte de Israel.
A Torre Teutônica da cidade de Acre, em Israel
A Ordem Teutônica foi uma das mais poderosas e influentes da Europa. A maioria dos seus membros pertencia à nobreza, inclusive à família real prussiana e outros nobres germânicos. Os soberanos e a nobreza dos estados antecessores da atual Alemanha, inclusive a família soberana do Império Alemão (1871-1918) e da Prússia (1525-1947), os Von Hohenzollern, eram membros da Ordem.
Após a derrota das forças cristãs no Oriente Médio, os cavaleiros teutônicos mudaram-se para a Transilvânia, em 1211, a convite do rei André II, da Hungria, onde fundaram a cidade de Brasov, mas foram expulsos em 1224. Transferiram-se então para o norte da Polônia, onde criaram o “Estado da Ordem Teutônica” (que existiu entre 1224 e 1525). A agressividade e o poder da Ordem ameaçavam os países vizinhos, em especial o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia.
Entre 1229 e 1279 a ordem conquistou áreas na Prússia, onde os cavaleiros construíram muitas cidades e fortes. Por volta de 1329, os cavaleiros teutônicos controlavam, por domínio papal, toda a região do Báltico, desde o golfo da Finlândia até a Pomerânia, na Polônia. Na parte sul de seu domínio, a ordem foi abolida e suas terras se tornaram a Prússia, em 1525. A parte norte (Estônia e Letônia) foi dividida entre a Polônia, Rússia e Suécia, depois de 1558.
Em 1410, na batalha de Grunwald (também conhecida como batalha de Tannenberg), um exército combinado polaco-lituano, comandado pelo rei polaco Ladislau II Jagelão, derrotou a Ordem e pôs fim a seu poderio militar. O poder da Ordem continuou a declinar até 1525, quando seu grão-mestre, Alberto de Brandemburg, converteu-se ao luteranismo e assumiu o título e os direitos de duque hereditário da Prússia (embrião do Reino da Prússia, catalisador do futuro Império Alemão). O Grão-Magistério foi então transferido para Mergentheim, de onde os grão-mestres teutônicos continuavam a administrar as consideráveis posses da Ordem no Sacro Império Romano-Germânico.
Em 1806, quando Napoleão Bonaparte determinou a extinção do Sacro Império, a Ordem perdeu as suas últimas propriedades seculares, mas logrou sobreviver até o presente. O decreto papal emitido por Pio XI, a 21 de novembro de 1929, transformou os cavaleiros teutônicos numa ordem clerical composta por sacerdotes, padres e freiras. Atualmente, tem a sua sede em Viena, Áustria, e trabalha, primordialmente, com objetivos assistenciais. A cruz teutônica está na origem da célebre "Cruz de Ferro", condecoração ainda em uso pelas forças armadas alemãs.
Nas mãos de Heinrich Himmler, a SS foi estruturada segundo o modelo da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, cujos membros, acreditava-se, tinham sido guardiões do Santo Graal. Equipes da SS foram designadas para encontrar tanto o Santo Graal quanto a Arca da Aliança.

[1] O Reino de Jerusalém foi um Estado cruzado criado no Levante, em 1099, pela Primeira Cruzada. O reino durou aproximadamente 200 anos, de 1099 a 1291 quando o Acre, sua última possessão, foi destruída pelos Mamelucos, mas sua história é dividida em dois períodos distintos. O Primeiro Reino de Jerusalém (com a capital nessa cidade) existiu entre 1099 e 1187, quando foi quase totalmente tomado por Saladino, muçulmano de origem curda e primeiro sultão do Egito e Síria. Após a Terceira Cruzada, o Reino foi reestabelecido em Acre, em 1192 e durou até a sua destruição, em 1291. Esse segundo reino é algumas vezes chamado de Segundo Reino de Jerusalém ou Reino do Acre.

Tribos Prussianas no Século XIII
Sua relação, inicialmente estreita, com a Coroa polonesa deteriorou depois que eles conquistaram em 1308 a Pomerânia (mar Báltico, ao norte da Polônia e vizinha de Dantzig) ou Pomerélia e Dantzig (Gdansk dos tempos modernos), controlada pelos poloneses. Durante a segunda metade do século XIV, uma forte oposição aos germânicos desenvolveu-se na Europa Oriental, causando a união dinástica da Polônia e Lituânia (União de Krewo), em 1385, que derrotou os Cavaleiros Teutônicos na Batalha de Grunwald (Tannenberg), em 1410.
Na Guerra dos Treze Anos, a Batalha da Lagoa do Vístula,
14/09/1463, entre Ordem Teutônica e Confederação Prussiana
A “Guerra dos Treze Anos” (1454-1466) começou quando a Confederação Prussiana[4], uma coalizão de cidades da Prússia Ocidental, se rebelou contra a ordem, com solicitação de ajuda ao rei polonês. Os Cavaleiros Teutônicos foram forçados a reconhecer a soberania e prestar homenagem ao rei Casimiro IV da Polônia, na Segunda Paz de Torun (1466), perdendo a Prússia Ocidental para a Polônia, que se tornou conhecida como Prússia Real Polonesa. Os termos da segunda Paz de Torun deixaram os Cavaleiros de posse da parte oriental da Prússia, mantida como um feudo da coroa polonesa. Com isso, a Prússia, que já possuía Berlim como sua capital, ficou dividida em dois estados: a Prússia Real, no oeste, e Prússia Ducal, no leste. A Prússia Real (ou Prússia Polonesa) era uma província do Reino da Polônia, parte da comunidade encravada fora do Estado da Ordem Teutônica. Administrativamente, a Prússia Real era parte da Província da Grande Polônia, junto com a própria Grande Polônia, com a capital em Poznan, formando um corredor ao Mar Báltico (Corredor Dantzig). A Prússia Ducal, um feudo da Coroa da Polônia até 1657, foi estabelecida durante a Reforma Protestante, em 1525 e foi o primeiro ducado luterano com população dominante de língua germânica e minorias polonesa e lituana. Nessa época, o porto de Dantzig foi designada uma “cidade livre”.
A Reforma Protestante, do início a meados do século XVI, viu muitos prussianos se converterem ao Protestantismo, ao passo que a Polônia permaneceu - e ainda permanece - solidamente católica. Em 1525, Alberto de Brandenburgo – Ansbach, um membro da casa de Hohenzollern, o último Grande Mestre dos Cavaleiros Teutônicos, tornou-se um luterano protestante e secularizou os restantes dos territórios prussianos da ordem para a Prússia Ducal, área a leste da foz do rio Vístula, às vezes chamada de "Prússia Adequada". Pela primeira vez, essas terras chegaram às mãos da família Hohenzollern. A dinastia Hohenzollern havia governado a “Marca de Brandemburg”, a oeste, um estado germânico centrado em Berlim, desde o século XV. Além disso, com sua renúncia da ordem, Alberto, 1º Duque da Prússia, agora podia casar-se e produzir herdeiros legítimos, o que transformou a Prússia Ducal num ducado hereditário. A unidade das duas partes da Prússia foi preservada pela manutenção das suas fronteiras, da cidadania de seus habitantes e da sua autonomia política.
Em 1618, a Prússia Ducal, ainda um estado vassalo da Polônia, passou a John Sigismund, um Hohenzollern. Com a união da Prússia Ducal com Brandenburgo, através do seu neto, Friedrich Wilhelm, Grande Eleitor de Brandenburgo, e a invasão pelos suecos em 1657, a Polônia rendeu soberania e independência à Prússia Ducal, que se transformou no Reino da Prússia, chefiado pela linha Hohenzollern, na Paz de Oliva, em 1660. Friedrich Wilhelm, que governou de 1640 até a sua morte, em 1688, transformou Brandenburgo – Prússia no mais forte dos estados germânicos do norte, criou um eficiente exército, fortificou Berlim, centralizou a administração do ducado e assumiu poderes de governança que eram anteriormente exercidos pela nobreza e as oligarquias da cidade.
Friedrich I, fundador do Reino da Prússia
Seu filho, o Eleitor Friedrich III (1657 – 1713), conhecido em Berlim como o “Fritz Torto” - um acidente de infância lhe tinha torcido a espinha e deixado uma corcunda -, apaixonado por tudo que era francês, buscava uma coroa como recompensa por ter ajudado o Imperador Leopoldo I (então Arquiduque da Áustria e imperador do Sacro Império Romano). Brandenburgo não podia ter um rei, pois que parte do Império, e não podia haver um rei da Prússia porque parte dela estava na Polônia. Por uma fórmula engenhosa, contudo, Friedrich obteve de Leopoldo I, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, onde a maior parte das terras da Prússia estava, a permissão para ser chamado “Rei na Prússia” e não “Rei da Prússia”. Tal permissão culminou com a proclamação do Reino da Prússia (em substituição ao Ducado da Prússia), com sua capital em Berlim, em 18 de janeiro de 1701, quando o Eleitor[5] Friedrich III se auto coroou Friedrich I, em Konigsberg, e o país se tornou uma das grandes potências de sua época, com maior influência nos séculos XVIII e XIX. A partir daí Brandenburgo, embora ainda teoricamente parte do Sacro Império Romano, devendo obediência ao Imperador, passou a ser tratado na prática como parte do Império da Prússia. Friedrich I e sua segunda esposa, Sophia Charlotte de Hanover, irmã de George I da Inglaterra, fez da sua corte em Berlim uma miniatura de Versailles, onde o francês era a primeira língua, a etiqueta francesa era seguida com rigor e o rei desfilava em sapatos vermelhos de saltos altos e uma longa cabeleira para esconder sua corcunda, desperdiçando dinheiro como água e imitando ao máximo Louis XIV. O estado prussiano cresceu em esplendor durante o reinado de Friedrich I, que patrocinou as artes às custas do tesouro. 
Friedrich Wilhelm I, o austero Rei Soldado
Friedrich I foi sucedido por seu filho, Friedrich Wilhelm I (que reinou de 1713 a 1740), o austero "Rei Soldado", que transformou seu reino numa autocracia militar, dando à Prússia sua duradoura reputação. Aumentou de forma significativa o tamanho do exército prussiano e reconstruiu a organização do Estado em torno de um exército profissional permanente, um dos mais poderosos da Europa, embora suas tropas apenas brevemente tivessem entrado em ação durante a Grande Guerra do Norte. Tendo em vista o tamanho do exército em relação à população total, Mirabeau diria mais tarde: A Prússia, não é um estado com um exército, mas um exército com um Estado. No tratado de Estocolmo, de 1720, adquiriu a metade da Pomerânia sueca.
O rei Friedrich Wilhelm I morreu em 1740 e foi sucedido por seu filho, Friedrich II (que reinou entre 1740 e 1786), cujas realizações levaram a sua reputação ao título de "Friedrich II, o Grande". Como príncipe herdeiro, Friedrich II concentrou-se, principalmente, na filosofia e nas artes, mas usou os recursos e o exército herdado de seu pai para tornar a Prússia uma das principais potências da Europa ao final do século XVIII. Em dezembro de 1740 ele invadiu e tomou a província austríaca da Silesia, a mais rica da Monarquia de Habsburgo, precipitando a “Guerra da Sucessão Austríaca” (1740-1748)[6]. A Silesia, repleta de solos ricos e cidades prósperas com fábricas, se tornou uma região vital para a Prússia, aumentando grandemente a área, população e riqueza do país. Ao final da “Guerra dos Sete Anos” (1756-1763)[7] o território prussiano incluía a Silesia, principal causa da iniciada rivalidade e conflitos de mais de um século entre Áustria e Prússia, os dois estados mais poderosos dentro do Sacro Império Romano-Germânico (embora, ironicamente, ambos tivessem extenso território fora do império), até 1866. 
Friedrich II, o Grande, rei da Prússia (1740-1786)
Foi durante o seu reinado e seu formidável gênio militar, que a Prússia anexou a Prússia Real Polonesa, assim ligando seu reino da Prússia, ao leste, com Brandenburgo e o corpo principal de suas possessões germânicas no oeste. Assim, a nação que consistia das províncias de Brandenburgo, Pomerânia, Danzig, Prússia Ocidental e Prússia Oriental, tornou-se a maior potência da Europa e teve uma grande influência em muitos assuntos internacionais.
Durante os últimos anos de seu reinado, Friedrich II abriu as fronteiras da Prússia aos imigrantes que fugiam da perseguição religiosa em outras partes da Europa, como os huguenotes. A Prússia tornou-se um refúgio seguro, da mesma forma que os Estados Unidos receberam imigrantes em busca da liberdade no século XIX. Friedrich, o Grande, o primeiro "Rei da Prússia", praticou o despotismo esclarecido. Ele introduziu um código civil geral, aboliu a tortura e estabeleceu o princípio de que a Coroa não iria interferir em assuntos de justiça. Ele também promoveu um ensino secundário superior, precursor do sistema (escola de gramática) que preparava os alunos mais brilhantes para os estudos universitários. O sistema de ensino prussiano foi imitado em vários países, incluindo os Estados Unidos.
Friedrich II, o Grande, foi sucedido no trono, em 1786, por Friedrich Wilhelm II, que foi, por sua vez, sucedido por Friedrich Wilhelm III, o rei das “Guerras Napoleônicas”, em 1797, e a elas dedicaremos um capítulo especial, por sua importância na formação do futuro estado da Alemanha.

[1] Os primeiros eslavos compreendiam um grupo diverso de sociedades tribais que viveram durante o período migratório e o início da Idade Média europeia, entre os séculos V e X, que indiretamente criaram as fundações para as nações eslávicas da atualidade. A primeira menção escrita do nome eslavo, data do século VI, quando as tribos eslávicas ocupavam uma vasta área da Europa leste central. Pelos dois séculos seguintes, os eslavos se espalharam mais, em direção aos Balcãs e os Alpes, ao sul e oeste e em direção ao rio Volga, no norte e leste.
[2] O Vístula é o mais longo rio da Polônia, com 1.047 km, e sua bacia hidrográfica banha cerca de 194 mil km², ou quase dois terços da superfície da Polônia. Ele tem a sua nascente nos Beskides (cadeia montanhosa entre o nordeste da República Checa, o noroeste da Eslováquia, o sul da Polônia e o oeste da Ucrânia, fazendo parte dos Cárpatos) ocidentais, na alta Silésia, a 1.106 metros de altitude escoando pela Polônia antes de desembocar no Mar Báltico, perto de Gdansk.
[3] A Burzeland é uma área histórica e etnográfica no sudeste da Transilvânia, Romênia, com uma população mista de romenos, alemães e húngaros. Situa-se nas cadeias de montanhas dos Cárpatos do Sul; sua cidade mais importante é Brasov.
[4] A Confederação Prussiana foi uma organização formada em 1440 por um grupo de 53 nobres e clérigos e 19 cidades, na Prússia, que se opuseram à Ordem Teutônica. Em 1454, o líder da confederação, Hans von Baysen, pediu formalmente a Casimiro IV, Rei da Polônia, para incorporar a Prússia ao Reino da Polônia. Isto marcou o início da Guerra dos Treze Anos (1454-1466), travada entre o vitorioso Reino da Polônia e a derrotada Ordem Teutônica. A guerra foi terminada pela Paz de Torun.
[5] Os príncipes-eleitores (ou simplesmente eleitores) do Sacro Império Romano, eram os membros do colégio eleitoral deste Império, que possuíam, desde o século XIII, o privilégio de eleger o Rei dos Romanos ou, a partir do meio do século XVI, diretamente o Sacro Imperador Romano. O herdeiro aparente de um príncipe-eleitor secular ficou conhecido como um príncipe eleitoral. A dignidade do Eleitor possuía grande prestígio e era o segundo após o Rei ou Imperador.
[6]Conflito europeu causado pela “Pragmática Sanção”, segundo a qual o imperador Carlos VI pretendeu legar o Sacro Império Romano à filha, Maria Teresa da Áustria. A guerra, desencadeada após a morte do imperador do Sacro Império Romano, Carlos VI, foi motivada pela ambição da Prússia, da Baviera e da Espanha. O fim definitivo da guerra foi selado pelo Tratado de Aquisgrão.
[7] Foi uma série de conflitos internacionais ocorridos durante o reinado de Luís XV, entre a França, a Monarquia de Habsburgo e seus aliados (Saxônia, Império Russo, Império Sueco e Espanha), de um lado, e a Inglaterra, Portugal, o Reino da Prússia e Reino de Hanôver, de outro. A guerra deu continuidade a disputas não apaziguadas pelo Tratado de Aquisgrão e foi desencadeada por vários fatores: preocupação das potências europeias com o crescente prestígio e poderio de Friedrich II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre a Monarquia de Habsburgo e o Reino da Prússia pela posse da Silésia; e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colônias das Índias e da América do Norte. Também foi motivada pela disputa por territórios situados na África, Ásia e América do Norte.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 10)




IX - OS ANOS DE FERRO DA ERA STALIN (FINAL)

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945 Stalin prometeu que a URSS seria a potência industrial líder em 1960. A essas alturas, a URSS havia sido devastada pela guerra. Oficialmente, 98.000 fazendas coletivas haviam sido pilhadas e arruinadas, com a perda de 137.000 tratores, 49.000 colheitadeiras, sete milhões de cavalos, dezessete milhões de cabeças de gado, vinte milhões de porcos, vinte e sete milhões de ovelhas; 25% de todo o capital em equipamento fora destruído em 35.000 usinas e fábricas; seis milhões de edificações, incluindo 40.000 hospitais em 70.666 vilas e 4.710 cidades (40% de moradias) foram destruídas, deixando 25 milhões pessoas sem tetos; cerca de 40% de trilhos de estradas de ferro foram destruídos; oficialmente, 7,5 milhões de homens das forças armadas morreram, além de seis milhões de civis, mas talvez tenham morrido 20 milhões no total. Em 1945, a mineração e a metalurgia estavam a 40% dos níveis de 1940, a energia elétrica caiu a 52%, ferro fundido a 26% e o aço a 45%; a produção de alimentos estava em 60% do nível de 1940. Após a Polônia, a URSS havia sido o país mais duramente atingida pela guerra. A reconstrução foi retardada por uma crônica carência de força de trabalho devido ao enorme número de baixas soviéticas na guerra. Além disso, 1946 foi o ano mais seco desde 1891 e a colheita foi pobre.
Vítimas da NKVD assassinadas ao final de junho de 1941
logo após a eclosão da guerra entre Alemanha e a URSS
A partir de 1945, a URSS manteve tropas ocupando a Polônia e a parte oriental da Alemanha, criando a República Democrática da Alemanha (RDA), além de manter forças em países da Europa Central e Oriental, o que fez Churchill referir-se à região como que estando atrás de uma “Cortina de Ferra” com controle de Moscou. Tal região passou a ser chamada de “Bloco Oriental” ou “Bloco Soviético”.
Os Estados Unidos e a URSS foram incapazes de chegar a um acordo sobre o empréstimo dos EUA para a ajudar na reconstrução e este foi um dos fatores contribuintes na rápida escalada da “Guerra Fria”, entre os aliados da véspera, com Stalin acusando os Estados Unidos de “imperialistas”. Contudo, a URRS ganhou reparações da Alemanha e fez os países do leste europeu realizarem pagamentos como retribuição pelos soviéticos os terem livrado dos nazistas. Em 1947, Stalin ressuscita o Komintern, que havia sido extinto em 1943, sob o nome de Kominform.
Em 7 de outubro de 1947, a RDA foi declarada com uma nova constituição que louvava o socialismo. Em Berlim, após os cidadãos rejeitarem candidatos comunistas em uma eleição, em junho de 1948, a União Soviética bloqueou Berlim Ocidental, fora do controle soviético, impedindo totalmente o abastecimento de alimentos e outros bens. O bloqueio falhou graças a uma inesperada campanha de abastecimento aéreo levada a efeito pelas potências ocidentais, conhecida por “Transporte Aéreo de Berlim”; em 1949 Stalin reconheceu a derrota e encerrou o bloqueio.
Embora Stalin tenha prometido na Conferência de Yalta, que faria eleições livres na Polônia, após o fracasso eleitoral nas eleições chamadas “Três Vezes Sim” (três questões que, segundo os interesses da URSS deveria ter resposta SIM), uma eleição totalmente fraudulenta foi empregada para vencer uma maioria na pesquisa cuidadosamente controlada, após o que, a economia polonesa começou a ser nacionalizada.
Na Hungria, quando os soviéticos instalaram um governo comunista, Mátyás Rákosi, que se descrevia como “o melhor discípulo húngaro de Stalin” e “o melhor pupilo de Stalin”, tomou o poder. Empregando a “tática do salame”, fatiou seus inimigos como peças de salame, para enfrentar a maioria política inicial do após guerra pronta para estabelecer uma democracia. Rákosi empregou programas políticos e econômicos stalinistas e foi apelidado “o assassino calvo”, por estabelecer uma das ditaduras mais cruéis da Europa. Aproximadamente 350.000 oficiais e intelectuais húngaros foram expurgados entre 1948 e 1956.
Ainda durante a 2a Grande Guerra, na Bulgária, o Exército Vermelho cruzou a fronteira e criou as condições para um golpe de estado comunista na noite seguinte. O comandante militar soviético em Sofia assumiu a autoridade suprema, e os que ele instruíra tomaram o total controle da política doméstica.
Stalin não se abrandou com a idade. Ele praticou um reino de terror, expurgos, execuções, exílios a campos de trabalhos forçados e perseguições na URSS do após guerra, suprimindo toda dissidência e qualquer coisa que tivesse indícios de influência estrangeira, especialmente ocidental. Estabeleceu governos comunistas por todo o leste europeu e em 1949 conduziu os soviéticos à era nuclear com a explosão de uma bomba atômica.
Em 1949, o Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON) foi criado, ligando economicamente União Soviética, Bulgária, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Polônia. Tal organização foi criada de acordo com os desejos de Stalin de reforçar a dominação soviética nos países menores da Europa e abrandar alguns estados que haviam expressado interesse no Plano Marshall e que se encontravam agora, crescentemente, separadas dos seus mercados e abastecedores tradicionais na Europa Ocidental. Um terço das despesas de capital do Quarto Plano Quinquenal russo foi gasto na Ucrânia, país muito importante, agrícola e industrialmente, e que tinha sido uma das áreas mais devastadas pela guerra.
A URSS passa a ter supremacia em quase toda a Europa Oriental. Nestes países, foram mantidos governos pró-URSS durante toda a Guerra Fria, quando foram criadas várias barreiras entre os países pró-URSS e pró-EUA, algumas ideológicas como a Cortina de Ferro e outras físicas, como o Muro de Berlim em torno de Berlim Ocidental, na RDA.
Na Ásia, o Exército Vermelho havia devastado a Manchúria no último mês da Guerra e também ocupou a Coreia, acima do paralelo 38º norte. O Partido Comunista da China, de Mao-Tse-Tung, embora receptivo a um mínimo apoio soviético, derrotou o Partido Nacionalista Chinês (Kuonmintang – KMT), pró-ocidental e francamente assistido pelos americanos, na guerra civil chinesa. Houvera atrito entre Stalin e Mao desde o início. Durante a 2ª Grande Guerra Stalin havia apoiado o ditador chinês Chiang Kai-Shek (KMT) como um baluarte contra o Japão e havia fechado um olho para as mortes em massa de comunistas, colocando sua aliança com Chiang acima dos seus aliados ideológicos na China. Mesmo após a guerra, Stalin fechou um pacto de não agressão entre URSS e o regime do KMT de Chiang, na China, instruindo Mao e os comunistas chineses a cooperarem com Chiang e o KMT após a guerra. Mao ignorou o conselho, iniciando a revolução comunista contra Chiang e sem acreditar que Mao teria sucesso, pouco ajudou o último, mantendo relações diplomáticas com o KMT de Chiang até 1949 quando tornou-se claro que Mao venceria. Stalin fez então um pacto de amizade com Mao embora permanecesse um mal-estar entre os dois líderes pelo fato de Stalin não ter integralmente apoiado Mao durante a guerra civil chinesa. Os comunistas passaram a controlar a China Continental como República Popular da China enquanto os nacionalistas mantiveram apenas a Ilha de Taiwan. As relações diplomáticas entre a China e a União Soviética alcançaram o ponto mais alto quando em 1950 os dois países assinaram o Tratado Sino-Soviético de Amizade e Aliança.
Contrariamente à política americana que restringiu o armamento ilimitado a infantaria e forças policiais da Coreia do Sul, Stalin armou o exército e a força aérea da Coreia do Norte de Kim II Sung e enviou muito mais “conselheiros” do que o necessário para finalidades defensivas, a fim de facilitar a Kim (um prévio oficial soviético) o seu objetivo de conquistar o resto da península coreana. O exército coreano atacou nas primeiras horas da madrugada de 25 de junho de 1950, atravessando o paralelo 38 atrás de uma tempestade de artilharia, iniciando a invasão da Coreia do Sul. Durante a Guerra da Coreia, pilotos soviéticos pilotaram aviões soviéticos a partir de bases chinesas contra aviões das Nações Unidas que defendiam a Coreia do Sul. Pesquisa realizada após a Guerra Fria em arquivos soviéticos, revelaram que a Guerra da Coreia foi iniciada por Kim II-Sung, com a expressa permissão de Stalin.
Em 1952 e 1953 Stalin e os dirigentes soviéticos criaram a “Conspiração dos Doutores”, segundo a qual, vários médicos (a metade dos quais judeus) teriam tentado matar funcionários soviéticos. A opinião predominante entre muitos estudiosos de fora da União Soviética foi de que Stalin pretendia usar o resultado do julgamento dos médicos para lançar um maciço expurgo do Partido, mas também é visto por muitos historiadores como uma provocação antissemita; ela ocorreu imediatamente após os julgamentos de exibição do Comitê Antifascista Judeu e da execução secreta de 13 membros, sob as ordens de Stalin, na famosa “Noite dos Poetas Mortos”. Após isso, numa sessão do Politburo, em dezembro, Stalin anunciou que “Cada nacionalista judeu é um agente do serviço de inteligência americana. Os nacionalistas judeus pensam que sua nação foi salva pelos Estados Unidos (lá vocês podem ficar ricos, burgueses etc...). Eles pensam que devem aos americanos. Entre os médicos há muitos nacionalistas judeus”. Para mobilizar o povo soviético para essa campanha, Stalin ordenou que a Tass[1] e o Pravda publicassem histórias, ao mesmo tempo da alegada descoberta de Stalin da “Conspiração dos Doutores” para assassinar líderes soviéticos, incluindo Stalin, a fim de criar o cenário para novos julgamentos de exibição. No dia seguinte o Pravda publicou histórias com o texto relativo aos pretensos conspiradores “burgueses nacionalistas judeus”. Nikita Khrushchev escreveu que Stalin sugeriu-lhe incitar o antissemitismo na Ucrânia, dizendo-lhe que “os bons trabalhadores na fábrica deveriam receber porretes com que pudessem acabar com aqueles judeus”. Stalin também ordenou que os médicos falsamente acusados fossem torturados até a morte. Com relação às origens da conspiração, as pessoas que conheciam Stalin, tal como Khrushchev, sugerem que Stalin há muito havia abrigado sentimentos negativos para com os judeus e que as tendências antissemíticas nas políticas do Kremlin foram ainda mais estimuladas pelo exílio de Leon Trotsky. Ao final de janeiro de 1953, o médico pessoal de Stalin, Miron Voysi, (primo de Solomon Mikhoels, assassinado em 1948 por ordem de Stalin) foi preso no mesmo contexto da conspiração. Voysi foi solto por Lavrentiy Beria, Ministro do Interior e Chefe da NKVD, após a morte de Stalin, em 1953, como também foi o compositor Mieczyslaw Weinberg, seu genro.
Alguns historiadores têm sustentado que Stalin também planejava enviar milhões de judeus para quatro recém construídos campos de trabalhos forçados na Rússia Ocidental, usando uma “Comissão Deportação” que alegadamente agiria para salvar os judeus soviéticos de uma população soviética enfurecida pelos julgamentos da “Conspiração dos Médicos”. Indiferente ao fato de ter sido ou planejada uma conspiração para deportar judeus, no seu “Discurso Secreto”[2], em 1956, o Premier Soviético Nikita Khrushchev declarou que a Conspiração dos Médicos foi “inventada por Stalin”, que Stalin havia dito ao juiz para obter confissões dos réus, e aos membros do Politburo: “Vocês são cegos como jovens gatinhos. O que acontecerá sem mim? O país perecerá porque vocês não conseguem reconhecer inimigos.”
Com o fim da 2ª Grande Guerra a saúde de Stalin deteriorou-se, com a arteriosclerose que possuía pelo fumo exagerado e teve um derrame leve por ocasião do Desfile da Vitória e um ataque cardíaco severo em outubro de 1945.
Nas primeiras horas do amanhecer de 1º de março de 1953, após um dos frequentes jantares e cinemas, Stalin chegou à sua residência de Kuntsevo, a 15 km de Moscou, com Beria e os futuros premiers Georgy Malenkov, Nikolai Bulganin e Nikita Khrushchev, e retirou-se para dormir. Ao amanhecer Stalin não saiu de seu quarto. Embora seus guardas achassem estranho não vê-lo acordar à hora habitual, como tinham ordem de não incomodá-lo, deixaram-no só o dia inteiro. Às 22:00 hs ele foi descoberto pelo comandante de Kuntsevo, que entrou em seu quarto e encontrou Stalin deitado de costas, no chão, vestindo calça de pijama e camiseta, ensopado em urina. Como o Comandante não conseguisse ouvir palavra de Stalin, usou o telefone da cabeceira para chamar alguns oficiais do Partido, avisando que Stalin parecia ter sofrido um derrame e pedindo que enviassem médicos. Beria foi informado e chegou poucas horas depois. Os médicos chegaram ao amanhecer de 2 de março, quando trocaram as roupas de cama de Stalin para atende-lo, diagnosticando uma hemorragia cerebral (derrame), causada por hipertensão, que teria ainda causado uma hemorragia do estômago. Foi tratado em sua casa, com sanguessugas, como era costume na época. Em 3 de março seu dublê, Felix Dadaev, foi chamado de férias, para Moscou, ´para ficar de prontidão se necessário para algo, o que não aconteceu. Sem sair da cama, Stalin morreu no dia 5 de março de 1953, com a idade de 74 anos, com muitas suspeitas posteriores de que, na verdade, ele tivesse sido assassinado com uma overdose de Warfarin, uma droga anticoagulante.
Beria não podia esconder o seu contentamento e, confirmando que o “velho” estava realmente morto, deu uma leve pancada em seu corpo e retirou-se radiante, segundo Khrushchev. Stalin não havia nomeado ou recomendado um sucessor e Beria sentiu que esse era o momento. A luta pela sucessão de Stalin havia começado.
Após a visitação de 1,5 milhões de pessoas, seu corpo embalsamado foi colocado, em 9 de março de 1953, no mausoléu de Lenin. Em 31 de outubro de 1961 seu corpo foi removido do mausoléu e enterrado na Necrópole dos Muros do Kremlin, como parte do processo de desestalinização.
Sua morte chegou em muito boa hora para Beria e muitos outros, que temiam ser varridos, brevemente, em outro expurgo. Acredita-se que Stalin temia que o poder de Beria estivesse crescendo a ponto de ameaçar o seu próprio poder.
Após a morte de Stalin, uma luta pelo poder instalou-se entre os oito membros seniores do Presidium do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, listados formalmente de acordo com a ordem de precedência, em 5 de março de 1953: Georgy Malenkov, Lavrentiy Beria, Vyacheslav Molotov, Klim Voroshilov, Nikita Khrushchev, Nikolai Bulganin, Lazar Kaganovich, Anastas Mikoyan. A sucessão foi controversa e os políticos mais próximos decidiram governar juntos a URSS, mas o chefe da NKVD, Beria, resolveu tomar o poder sem o consentimento dos demais. O General Khrushchev e os demais candidatos, juntaram-se e detiveram Beria, que seria executado no mesmo ano. O impasse permaneceu até 1958 quando finalmente Khrushchev venceu, derrotando seus potenciais rivais no Presidium e tornando-se o sucessor oficial de Stalin.
A crueldade com que as relações soviéticas foram conduzidas durante o mando de Stalin, foi subsequentemente repudiada por seus sucessores na liderança do Partido Comunista, principalmente por Nikita Khrushchev, em fevereiro de 1956, durante o XX Congresso do Partido Comunista, com o seu “Discurso Secreto” (oficialmente chamado “Do Culto à Personalidade e suas Consequências”), já mencionado, a partir do qual iniciou-se um processo de “desestalinização” da União Soviética. Nessa mesma ocasião, ele condenou as deportações de Stalin como uma violação do Leninismo e reverteu a maioria delas, embora apenas em 1991, os tataros, os meskhetianos (subgrupo dos georgianos) e os alemães do Volga tiveram permissão para retornar em massa às suas terras natais. A memória das deportações até hoje representa um importante papel nos movimentos separatistas dos Estados Bálticos, o Tataristão e a Chechênia.
Um trabalho soviético de 1974, descreve a liderança de Stalin da seguinte maneira:

“Stalin manteve, desde 1922, o posto de Secretário Geral do Comitê Central do Partido Comunista. Ele fez importantes contribuições à implementação da política de construção socialista do Partido na URSS e ganhou grande popularidade por sua luta sem tréguas contra os grupos antileninistas dos Trotskystas e bukharinistas. Contudo, a partir do início da década de 1930, todos os sucessos alcançados pelo povo soviético na construção do socialismo, começou a ser arbitrariamente atribuído a Stalin. Já numa carta escrita em 1922, Lenin alertou o Comitê Central do Partido sobre o fato de que ‘o camarada Stalin, tendo se tornado secretário geral, concentrou autoridade sem limites em suas mãos e não estou certo de que ele sempre exercerá autoridade com suficiente juízo’.”
Durante os primeiros anos após a morte de Lenin, Stalin considerou suas observações críticas, mas à medida que o tempo passou, ele abusou de sua posição como Secretário Geral cada vez mais frequentemente, violando o princípio de liderança coletiva e tomando decisões independentes em importantes questões do Partido e do Estado. Tais atalhos pessoais passaram a manifestar-se cada vez com maior insistência: sua rudeza, capricho, intolerância às críticas, arbitrariedade, excessiva suspeita etc...., conduziram a injustificadas restrições da democracia, fortes violações da legalidade socialista e repressões contra proeminentes líderes militares, do Partido, governo e outras pessoas.
Após a morte de Stalin, a queda do ditador na União Soviética.
Certamente, não podemos dizer como Lenin ou Trotsky, Zinoviev, Kamenev ou Bukharin, teria governado a URSS se tivesse vencido a luta pelo poder. Contudo, pelo que sabemos de cada um deles, é improvável que qualquer desses líderes fosse igualar a monstruosa tirania de Stalin, que custou a vida de tantos milhões de russos. Não existe consenso quanto à contagem de vítimas do stalinismo. Determinadas estatísticas afirmam que entre 20 a 35 milhões de soviéticos morreram por fome, frio ou executados em campos de concentração ou de trabalhos forçados durante a época de Stalin.
Eric Hobsbawm, o escritor marxista britânico, em seu livro “A Era dos Extremos”, de 1994, escreveu sobre Stalin em uma nota de rodapé: “Este escritor, que viu o corpo embalsamado de Stalin no mausoléu da Praça Vermelha, antes dele ser removido, em 1957, lembra-se do choque da visão de um homem tão minúsculo e no entanto tão todo-poderoso. Significativamente, todos os filmes e fotografias ocultavam o fato de que ele tinha apenas 1,58 m de altura”. Apenas faltou dizer que, além de todo-poderoso, foi também o que mais vítimas fez ao longo da sua tirania.

[1] A Agência de Telégrafo da União Soviética (TASS) foi uma agência central para coleta e distribuição de notícias nacionais e internacionais para todas as estações de televisão, rádio e jornais soviéticos. Ela possuía um monopólio oficial de informação estatal liberado sob forma de um Relatório da TASS. Foi estabelecida em 25 de julho de 1925 por um decreto do Presidiu do Soviete Supremo da União Soviética, a partir da Agência de Telégrafo Russa (ROSTA), a primeira agência de notícias na Rússia Soviética. Era frequentemente usada como uma organização de frente pelas agências de inteligência como a NKVD (mais tarde KGB) com muitos de seus empregados servindo como seus informantes. 
[2] O relatório “Sobre o Culto da Personalidade e Suas Consequências”, apresentado no 20o Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 25 de fevereiro de 1956, foi profundamente crítico a Joseph Stalin, principalmente no que se refere aos expurgos realizados pelo Partido Comunista da União Soviética durante os últimos anos da década de 1930. Khrushchev acusou Stalin de ter criado um culto de personalidade do líder, a despeito de ostensivamente manter apoio aos ideais do comunismo. Superficialmente, o discurso foi uma tentativa para aproximar o Partido Comunista Soviético de Lenin. Contudo, a motivação última de Khrushchev foi legitimar e ajudar a consolidar seu controle do Governo e Partido Comunistas, poder obtido numa luta política contra Vyacheslav Molotov e Georgy Malenkov, leais a Stalin. Tal relatório ficou conhecido como “Discurso Secreto” porque liberado em uma sessão fechada dos delegados, sem a presença da imprensa. O texto foi amplamente discutido em células do Partido já no início de março, muitas vezes com a participação de não membros do Partido, mas o texto oficial russo, só foi publicado em 1989, durante a campanha da glasnost (“publicidade”, mas também abertura e transparência) do líder soviético Mikhail Gorbachev.

Na próxima postagem, o encerramento da Revolução Russa, com as Conclusões, na PARTE 11