Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sábado, 4 de junho de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 4)

A REVOLUÇÃO ALEMÃ DE 1918

Rosa Luxemburgo a socialista judia
polonesa naturalizada alemã.
Por volta de 1900 a socialdemocracia alemã era considerada líder do movimento internacional dos trabalhadores. Nos congressos europeus da Segunda Internacional Socialista, o SPD sempre aprovava as resoluções, que previam uma ação conjunta dos socialistas em casos de declarações de guerras. Mesmo durante a crise de julho que se seguiu ao assassinato em Sarajevo, ele organizou - como também outros partidos socialistas na Europa - grandes manifestações antiguerra. Rosa Luxemburgo, porta-voz da esquerda do partido, conclamou, em nome de todo o SPD, a rejeição à guerra e à obediência. Por isso, o governo imperial planejou a prisão dos líderes do partido imediatamente após o início das hostilidades. Friedrich Ebert, um dos dois líderes do partido desde 1913, viajou, juntamente com Otto Braun, para Zurique, a fim de manter os fundos do partido a salvo do alcance do Estado.
Mas quando no dia primeiro de agosto de 1914, ocorreu a declaração de guerra alemã contra a Rússia czarista, a maioria dos jornais favoráveis ao SPD foi contagiada pelo entusiasmo geral pela guerra, por um lado, e porque o seu inimigo prioritário era a Rússia Imperial. Suas reportagens foram severamente criticadas pela liderança do partido, mas os editores acreditavam, nos primeiros dias de agosto, estar seguindo a linha política do presidente do SPD, August Bebel, falecido em 1913. Ele havia dito ao Reichstag em 1904 que o SPD tomaria parte na defesa armada da Alemanha no caso de uma guerra de agressão estrangeira. Em 1907 confirmou, na convenção Essen, que ele mesmo "carregaria a arma em suas costas" caso a guerra fosse contra a Rússia czarista, o "inimigo de toda a cultura e todos os oprimidos".
Tendo em vista a disposição da população, que acreditava em um ataque pelas potências da Entente, muitos deputados do SPD temiam se afastar de seus eleitores devido a seu pacifismo coerente. Além disso, havia a ameaça de uma proibição dos partidos, planejada pelo chanceler do Reich Theobald von Bethmann Hollweg em caso de uma guerra. Por outro lado, o chanceler tirou proveito do posicionamento anticzarista do SPD para obter o seu consentimento para a guerra.
Karl Liebknecht, camarada revolucionário
assassinado com Rosa Luxemburgo.
A liderança do partido e o grupo parlamentar estavam divididos em seu posicionamento quanto à guerra. Com Friedrich Ebert, noventa e seis representantes responderam afirmativamente à exigência dos créditos de guerra pelo governo imperial; catorze parlamentares, liderados pelo segundo presidente Hugo Haase, se manifestaram contra, mas votaram a favor da disciplina partidária. Assim, todo o grupo parlamentar do SPD aprovou no dia 4 de agosto os créditos de guerra. Dois dias antes, os Sindicatos Livres já tinham decidido uma abdicação do direito de greve e dos salários para o tempo da guerra. Com a decisão do sindicato e do partido, tornou-se possível a mobilização total do exército alemão. Mesmo Karl Liebknecht, que mais tarde tornou-se um símbolo do pacifismo, curvou-se, inicialmente, às decisões do partido. No entanto, alguns dias mais tarde, ele juntou-se ao Grupo Internacional, fundado por Rosa Luxemburgo em 5 de agosto de 1914, que posicionou-se contrariamente à guerra anteriormente defendida pelo SPD. Tal grupo deu origem à “Liga Espartaquista”, fundada no dia 1 de janeiro de 1916.
Quanto mais tempo a guerra durava e quanto mais sacrifícios exigia, menor era o número de membros do SPD dispostos a manter a "trégua" de 1914; principalmente por que, a partir de 1916, o imperador e o governo do Reich não mais decidiam as diretivas da política alemã, agora dominada pelo alto comando de guerra sob os generais Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, que governavam como ditadores militares.
Depois da eclosão da Revolução Russa, em fevereiro de 1917, ocorreram na Alemanha as primeiras greves organizadas. Em março e abril de 1917 participaram cerca 300.000 trabalhadores da indústria de armamento. O imperador Wilhelm II tentou acalmar os participantes da greve com sua mensagem de Páscoa do dia sete de abril, prometendo eleições gerais e igualitárias também para a Prússia, onde ainda vigorava o sufrágio de três classes.
Depois da expulsão dos opositores do SPD à guerra, revisionistas como Eduard Bernstein e centristas como Karl Kautsky, juntamente com os espartaquistas, reagiram ao descontentamento entre os trabalhadores. Em uma conferência entre seis e oito de abril de 1917 fundaram, na cidade de Gotha, o “Partido Independente Social-Democrático da Alemanha” (USPD) com Hugo Haase, que exigia o término imediato da guerra e a democratização da Alemanha, mas não possuía um programa sócio-político unificado. A Liga Espartaquista, que até então recusava uma divisão do partido, formou a ala esquerda da USPD. E, para bem identificar a separação, o SPD passou a denominar-se, a partir daí até 1919, como “Partido Majoritário Social Democrata da Alemanha” (MSPD).
Manifestação de revolucionários em Berlim, 09/11/1918
A Revolução Alemã de 1918-1919 foi uma série de eventos que ocorreram naqueles anos e que marcou o final da Primeira Guerra Mundial. Tal Revolução culminou com a derrubada do Kaiser, a abolição da monarquia no Reich Germânica e o estabelecimento de uma república democrática parlamentarista. Liderada por Rosa Luxemburgo, a Liga Espartaquista, teve importante papel na revolução, apesar de o evento não se resumir à sua atuação. À semelhança da Comunista Russa, a Revolução Alemã aproveitou a aguda crise econômica causada pela Primeira Guerra Mundial e a derrota do Império Germânico no conflito. Com a Revolução, os comunistas conseguiram controlar a região da Baviera, no sul da Alemanha, onde fundaram uma República Socialista e tentaram expandir o movimento. Assim como na Rússia, aboliram a propriedade privada dos latifúndios e das fábricas na República Socialista da Baviera. No entanto, este foi um governo revolucionário de vida efêmera que acabou sendo sufocado pelo governo socialdemocrata, através do grupo paramilitar Freikorps, que retomou o controle, suprimindo a extrema esquerda, liderada pela Liga Espartaquista. A revolução foi formalmente encerrada no dia 11 de agosto de 1919 com a aprovação da nova “Constituição de Weimar”, com as funções do Kaiser sendo transmitidas ao Reichspräsident (Presidente do Império, em tradução literal) da “República de Weimar” que teve, ao todo, três monarcas.
Com a abdicação e fuga de Wilhelm II como Imperador do Império Germânico e Rei da Prússia, ao fim da Segunda Grande Guerra, a Prússia foi proclamada “Estado Livre”, ou seja, uma República (Freistaat, em alemão) dentro da nova República de Weimar e, em 1920, recebeu uma constituição democrática.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Quase todas as perdas territoriais do Império Germânico, para outros estados, durante a Primeira Grande Guerra e especificadas no Tratado de Versalhes, pertenciam anteriormente ao território da Prússia e, com isso, a Prússia Oriental tornou-se um exclave (território externo ao território nacional), apenas acessível por barco ou por uma estrada de ferro através do “corredor polonês”.
O governo alemão considerou, inicialmente, quebrar a Prússia em estados menores, mas o sentimento tradicionalista prevaleceu e a Prússia se tornou, de longe, o maior estado da República de Weimar, compreendendo 60% do seu território. De 1919 a 1932, a Prússia foi governada por uma coalizão dos partidos socialdemocrata, Centro Católico e democrata alemão. De 1921 a 1925, os governos de coalizão incluíram o Partido Popular Alemão. Ao contrário de outros estados do Reich Alemão[1], a regra da maioria dos partidos democráticos na Prússia nunca foi posta em perigo. No entanto, na Prússia Oriental e algumas áreas industriais, o Partido Nazista de Adolf Hitler ganhou mais e mais influência e apoio popular, especialmente a partir das classes mais baixas e médias, em 1930. Com exceção da região católica da Alta Silésia, o Partido Nazista, em 1932, tornou-se o maior partido na maior parte do Estado Livre da Prússia. No entanto, os partidos democráticos em coalizão permaneceram a maioria, enquanto os comunistas e os nazistas estavam na oposição. 
Chanceler Franz von Papen, em 1936
Em contraste com seu autoritarismo do pré-guerra, a Prússia era um pilar da democracia na República de Weimar. Tal sistema, entretanto, foi destruído pelo "golpe prussiano" do chanceler do Reich, Franz von Papen. Neste golpe de Estado, o governo do Reich depôs o governo da Prússia em 20 de julho de 1932, sob o pretexto de que este último havia perdido o controle da ordem pública na Prússia, forjando provas de que os socialdemocratas e os comunistas planejavam um golpe em conjunto. Papen nomeou a si mesmo comissário do Reich para a Prússia e assumiu o controle do governo facilitando, apenas meio ano depois, a tomada do poder, de forma decisiva, por Hitler, no Império Germânico, já que ele tinha todo o aparato do governo prussiano, incluindo a polícia, à sua disposição.
A Prússia foi efetivamente abolida em 1932 e o Estado que a assimilou, a República de Weimar, perdeu quase toda a importância jurídica e política que a Prússia havia conquistado. Posteriormente, as velhas elites prussianas acabaram por desempenhar um papel passivo com a criação da Alemanha nazista.
Adolf HItler, 1938, que suicidou-se em
1945 para escapar dos crimes cometidos
Após a nomeação de Adolf Hitler como o novo chanceler do Império Germânico pelo Presidente Paul Von Hindenburg, em 1933, os nazistas usaram a ausência de Franz von Papen como a oportunidade para nomear o comissário federal e Hermann Göring para o Ministério Prussiano do Interior. A eleição do Reichstag de 5 de março de 1933 reforçou a posição do Partido Nazista[2], apesar de não alcançar uma maioria absoluta.
Em uma reunião cheia de propaganda entre Hitler e o Partido Nazista, o "casamento da velha Prússia com os jovens alemães" foi celebrado, para conquistar os monárquicos, conservadores prussianos e nacionalistas e induzi-los a votar a favor da Lei de Concessão de 1933[3]. Com isso, Hitler rapidamente estabeleceu o regime totalitário conhecido como o Terceiro Reich.
No Estado centralizado criado pelos nazistas pela "Lei sobre a Reconstrução do Reich" (30 de janeiro de 1934) e a "Lei de Governadores do Reich" (30 de janeiro de 1935) os estados foram dissolvidos de fato, se não de direito. Os governos estaduais e federais passaram a ser controlados pelos governadores para o Reich, nomeados pelo chanceler. Paralelamente a isso, a organização do partido nos distritos ganhou cada vez mais importância, com um oficial no comando, também nomeado pelo chanceler, ao mesmo tempo chefe do Partido Nazista.
Na Prússia, esta política centralista foi ainda mais longe. Desde 1934 quase todos os ministérios foram fundidos e apenas alguns departamentos foram capazes de manter a sua independência. Hitler tornou-se, formalmente, o governador da Prússia, coadjuvado por Hermann Göring, primeiro-ministro da Prússia. Conforme previsto na "Grande Lei de Hamburgo", algumas trocas de territórios ocorreram. A Prússia foi estendida em 1º de abril de 1937, por exemplo, pela incorporação da Cidade Livre e Hanseática de Lübeck.
Oficialmente, o início da Segunda Guerra Mundial é tido como 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha e Rússia, com a subsequente declaração de guerra da Grã-Bretanha e França contra a Alemanha dois dias após. Também não existe concordância quanto à data exata do final da Segunda Guerra Mundial. O seu final é geralmente aceito como o dia do armistício, 14 de agosto de 1945, ao invés do dia da rendição formal do Japão em 2 de setembro de 1945. Novamente, tendo em vista os objetivos desta nossa postagem, não trataremos da Segunda Grande Guerra, como um assunto em si, mas apenas como mais um fator importante na formação do estado da Alemanha.
Inicialmente cabe dizer que, evidentemente, as terras prussianas transferidas para a Polônia pelo Tratado de Versalhes, foram reanexadas durante a Segunda Guerra Mundial, quando Terceiro Reich levava vantagem no conflito. À mesma época, em 1940, a Prússia foi legalmente abolida pelo Terceiro Reich.
Na Conferência de Potsdam[4], ocorrida entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, após a rendição incondicional do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial, em 8 de maio de 1945, os Aliados dividiram a “Zona de Ocupação Alemã” em quatro zonas de ocupação militar: a França no sudoeste, a Grã-Bretanha no noroeste, os Estados Unidos no sul e a União Soviética no leste, surgindo os dois grandes blocos, o Oriental, sob ocupação dos soviéticos e o Ocidental, sob administração dos Aliados. A Alemanha não voltou a recuperar sua independência senão em 1949.
De acordo com a “Aliança de Época de Guerra” e a “Divisão Zonal da Alemanha”, os soviéticos ocupariam a área definida pela Zona Soviética final aprovada por Potsdam, de acordo com todo o território germânico no ano de 1937, a leste da Linha Oder-Neisse. Da mesma forma, o derrotado Terceiro Reich deveria ser tratado como a área dentro de suas fronteiras em 31 de dezembro de 1937, significando que todo a expansão nazista de 1938 a 1945 (período da Segunda Guerra Mundial) fosse declarada inválida. Tal expansão incluiria a Cidade-Estado de Danzig, administrada pela Liga das Nações, Áustria, o território ocupado da Czechoslovakia, Alsácia-Lorena, Luxemburgo, Prússia Oriental, o norte da Eslovênia e outros territórios menores. As províncias germânicas a leste da linha do Oder – Neisse que estavam formalmente dentro dos limites territoriais do Terceiro Reich em 1937, (Prússia Oriental, Leste da Pomerânia e Silésia) foram removidas pelo Acordo de Potsdam. Essas áreas, com exceção do Norte da Prússia Oriental (que foi administrativamente entregue à União Soviética), foram requisitadas pelos poloneses como “Territórios Recuperados” e assim colocados sob a administração da Polônia, aguardando um tratado de paz definitivo, que apenas foi formalizado em 1990, 45 anos mais tarde, com a queda da União Soviética.
A parte norte da Prússia Oriental foi colocada sob administração soviética pelo Acordo de Potsdam que sancionou definições administrativas de vários territórios da Alemanha Oriental à Polônia e União Soviética alterando as fronteiras do que tinha sido a Alemanha antes da guerra, para o oeste. 
Perdas sofridas pela Alemanha com a Segunda Grande Guerra
Com essas divisões, a Prússia Ocidental e a Prússia Oriental ficaram divididas pela Polônia e a União Soviética. O velho Distrito de Rosenberg tornou-se então parte do Distrito de Itawa da Polônia. Todas as cidades, daí para a frente, tiveram sua nomenclatura alterada para nomes poloneses. A Prússia Oriental perdeu toda a sua população alemã depois de 1945, quando a Polônia e a União Soviética anexaram seu território. Desde então, a área está dividida entre o norte polonês (a maioria da Varmia-Masuria), o território externo russo de Kaliningrado e o sudoeste da Lituânia (na região da Klaipeda).
O pretendido corpo governamental da Alemanha foi chamado “Conselho de Controle Aliado”. Os comandantes em chefe exerceram suprema autoridade em suas respectivas zonas e atuaram em concerto nas questões que afetavam o país como um todo. Berlim, que se situava no setor soviético (oriental), foi também dividido em quatro setores, com os setores ocidentais constituindo, posteriormente, Berlim Ocidental e o setor soviético tornando-se Berlim Oriental, capital da Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha).
Como parte de seus objetivos de guerra, os aliados ocidentais procuraram a extinção da Prússia, com Stalin inicialmente favorável à manutenção daquele nome. Finalmente, a Lei nº 46 de 25 de fevereiro de 1947, do Conselho de Controle Aliado, um grupo formado após a Segunda Guerra Mundial para resolver questões relacionadas à Alemanha, proclamou, formalmente, a dissolução do Estado da Prússia.


[1] O Reich (literalmente Reino), foi sempre o nome dado ao território ou governo do estado germânico, como o Sacro Império Romano Germânico ou Primeiro Reich, de 962 a 1806; o Império Germânico ou Segundo Reich, de 1871 a 1919; a República de Weimar, de 1919 a 1933; ou o Terceiro Reich, de 1933 a 1945.
[2] O Partido Nacionalista Socialista Germânico dos Trabalhadores (PNSGT), comumente referido como Partido Nazista, foi um partido político do Império ativo entre 1920 e 1945, que teve como predecessor o Partido Germânico dos Trabalhadores, que existiu entre 1919 e 1920. O partido emergiu do grupo paramilitar Freikorps, que lutou contra os levantes comunistas do após Primeira Guerra Mundial no Império. O partido foi criado como forma de afastar os trabalhadores do comunismo e atraí-los para o nacionalismo popular. Inicialmente, a estratégia política nazista focou na oposição aos grandes negócios, à burguesia e à retórica capitalista, embora tais aspectos fossem posteriormente camuflados para ganhar o apoio das entidades industriais e, na década de 1930, passou a focar nos temas antissemita e antimarxista.
[3] A Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933 (ou Lei Habilitante) foi aprovada pelo Reichstag e assinada pelo Presidente Paul von Hindenburg em 23 de março de 1933, como o maior passo para conceder ao chanceler Adolf Hitler, legalmente, plenos poderes, estabelecendo assim a sua ditadura. A Lei foi aprovada graças aos votos decisivos do Partido do Centro Católico. O Partido Nazi e o Partido Popular Nacional Alemão (coligado aos nazistas) formavam 52% do Reichstag, mas tal percentagem não era suficiente para aprovar a Lei Habilitante, que só poderia ser aprovada por 67% do Reichstag. Hitler negociou com o Partido do Centro Católico (Zentrum), para que seus membros votassem em favor da Lei. O Zentrum e a Igreja Católica (que chefiava o Zentrum) concordaram, desde que governo alemão assinasse uma Concordata (tratado internacional celebrado entre a Santa Sé e um Estado, usualmente com a finalidade de assegurar direitos dos Católicos ou da Igreja Católica naquele Estado ou vincular o Papado ao Estado governado pelo soberano) com o Papa.
[4] A Conferência de Potsdam teve lugar no Castelo de Cecilienhof, lar do Príncipe herdeiro Wilhelm Hohenzzolern, em Potsdam, Brandenburg, Alemanha ocupada, e é algumas vezes referida como Conferência de Berlim dos Três Chefes de Estado da URSS (União Soviética), USA (Estados Unidos) e UK (Reino Unido), respectivamente representados pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Joseph Stalin, Presidente Harry S. Truman e Primeiro Ministro Winston Churchill (mais tarde substituído por Clement Attlee). Stalin, Truman e Churchill reuniram-se para decidir a administração da Alemanha Nazista, que se rendera incondicionalmente nove semanas antes. Os objetivos da Conferência incluíram o estabelecimento da ordem pós-guerra, questões do tratado de paz e a avaliação dos efeitos da guerra.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 1)

I – INTRODUÇÃO

A Prússia, que se tornaria um apelido pejorativo para o militarismo e autoritarismo alemão, começou a sua história inteiramente fora da atual Alemanha, embora ao longo de sua história se tenha transformado na origem do reino e do estado da Alemanha. O povo chamado Prussiano, em alemão, que habitava as terras da costa sudeste do mar Báltico, era eslavo, ligado aos lituanos e letões. Foram conquistados e cristianizados à força, no século XIII, pelos Cavaleiros Teutônicos vindos da Terra Santa. Camponeses germânicos foram trazidos para cultivar a terra e, cerca do ano 1350, a maioria da população já era germânica, embora os poloneses tenham anexado parte da Prússia no século seguinte, deixando os Cavaleiros Teutônicos com o Leste da Prússia.
No pico de sua expansão, ao final do século XIX, a Prússia se estendia ao longo das costas dos Oceanos Báltico e do Norte, da Bélgica, Holanda, França e Luxemburgo, no oeste, para o Império Russo no leste, para a Áustria-Hungria no leste, sudeste e sul, e para a Suíça ao sul.
A Prússia moderna foi, sucessivamente, com modificações geográficas, um reino independente (1701-1871), o maior reino constituinte do Império Germânico (1871-1918), um estado ou território constituinte da República de Weimar (1919-1933) e uma divisão administrativa, compreendendo 13 províncias, do centralizado Terceiro Reich Germânico (1934-1945). Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Prússia Ocidental foi perdida para a Polônia, e a Prússia Oriental foi separada do resto do Império Germânico, em 1919, sob os termos do “Tratado de Versailles”, por uma faixa do antigo território prussiano conhecido como “Corredor Polonês” (Corredor de Dantzig ou Corredor de Gdansk), projetado para dar à Polônia uma saída ao Mar Báltico e o maior motivo da invasão da Polônia por Hitler, na “inauguração” da Segunda Guerra Mundial. As outras províncias da Prússia entre as duas Guerras Mundiais eram Reno, Brandenburgo, Pomerânia, Berlin, Saxônia, Schleswig-Holstein, Hannover, Vestfália, Grenzmark Posen-Westpreussen (atualmente na Polônia), Hessen Nassau e Hohenzollern (ambas na atual Alemanha), e Silesia (hoje parte na Polônia e parte na República Tcheca). Em 1947, após a Segunda Grande Guerra (1939-1945), a Prússia foi abolida como uma unidade política e, com exceção da Prússia Oriental, repartida em várias partes pelas quatro zonas de ocupação na Alemanha, administradas pela França, Grã Bretanha, Estados Unidos e URSS. A região nordeste da Prússia Oriental foi anexada pela URSS e o restante foi colocado sob administração polonesa. Berlin era a capital da Prússia antes da Segunda Guerra Mundial e as principais cidades incluíam Frankfurt am Main, Colônia, Essen, Dortmund, Düsseldorf, Magdeburg, Stettin (agora Szczecin) e Königsberg (agora Kaliningrado).
Este, o assunto que vamos, a partir de agora, analisar detalhadamente.


II - UMA BREVE HISTÓRIA DA PRÚSSIA



A área que foi, até modernamente, conhecida como Prússia, foi habitada, em tempos remotos, por tribos eslávicas[1] ocidentais, ancestrais dos poloneses modernos, do oeste, e tribos bálticas, muito relacionadas aos lituanos, do leste. A região e seus habitantes foram descritos pela primeira vez por Tácito, em sua obra “Germânia”, no ano de 98 DC, no período em que suevos, godos e outros povos germânicos viviam em ambos as margens do rio Vístula[2], ao lado dos éstios, os povos do leste, como os chamou Tácito em seu livro, que viviam depois dos povos germânicos da Média Germânia.
Num mapa moderno, a região original dos primeiros prussianos
É uma região histórica que se estende desde a Baía de Gdansk (na Polônia atual) e o final da Curlândia (na costa sudeste do Mar Báltico, na atual Letônia) até a Masúria, grande região no nordeste do território polonês atual. O nome Prússia tem sua origem histórica nos prussianos, um povo báltico que habitava a área em torno das lagunas da Curlândia e do rio Vístula (no que é hoje o norte polonês). Nos séculos VII e VIII os vikings também começaram a penetrar a costa oriental do mar Báltico. Os maiores centros de comércio dos prussianos, como Truso e Kaup, parecem ter absorvido alguns Vikings. Prussianos usaram o mar Báltico como uma rota comercial, frequentemente viajando de Truso a Birka (atual Suécia). No final da Era Viking, os filhos do rei dinamarquês Harald Bluetooth e Canuto, o Grande, lançaram várias expedições contra os prussianos. Eles destruíram muitas áreas na Prússia, incluindo Truso e Kaup, mas não conseguiram dominar totalmente a população. Em algum ponto após o século VII, a área foi invadida e colonizada por tribos germânicas pagãs, mais tarde conhecidas como prussianas. As pessoas do qual o nome Prússia é derivado eram, geralmente, chamados Prússicos ou Borússicos, nas fontes mais antigas. Esse povo falava uma linguagem agora conhecida como Prussiano Antigo e seguia uma mitologia prussiana pagã. 
Figura medieval representando o
martírio de Santo Adalberto

Os saxões entraram na Europa Oriental no século X e falharam em suas tentativas de converter os prussianos ao cristianismo. Em 997 o bispo e santo Adalberto foi martirizado como missionário na Prússia.
Em 1211, André II da Hungria concedeu Burzenland[3], na Transilvânia, como um feudo dos Cavaleiros Teutônicos (sobre os Cavaleiros Teutônicos, ver quadro abaixo), uma ordem religiosa militar que converteu os prussianos ao Cristianismo e levou colonizadores germânicos e holandeses para o território conquistado. Em 1225, André II expulsou os Cavaleiros Teutônicos da Transilvânia, que se transferiram para o mar Báltico. Conrado I, o duque polaco de Mazóvia, tentou em vão conquistar a Prússia pagã nas cruzadas em 1219 e 1222. Em 1226, o duque Conrado I convidou os Cavaleiros Teutônicos para conquistar as tribos prussianas bálticas em suas fronteiras, o que eles conseguiram no mesmo ano. Durante 60 anos de lutas contra os prussianos, a ordem criou um estado independente, que passou a controlar a Prússia. Em 1237, eles passaram a controlar também a Livônia (atual Letônia e Estônia). Nesta década de 1230, o território dos prussianos e dos povos vizinhos, curonianos (habitantes da Curlândia) e livônios, estiveram sob o controle do Estado da Ordem Teutônica. Por volta de 1252, eles terminaram a conquista da tribo prussiana setentrional dos escalvianos, assim como os ocidentais curonianos bálticos e ergueram o Castelo de Memel (atual Lituânia), que se tornou a cidade portuária de Memel (atual Klaipėda). 
Tribos prússicas, entre outras tribos
bálticas, cerca de 1200 DC
Foram os Cavaleiros Teutônicos que deram origem ao Ducado da Prússia e à Marca de Brandenburgo, principado do Sacro Império Romano Germânico, com papel crucial na história da Alemanha e da Europa Central. Durante séculos, a Casa de Hohenzollern governou com sucesso a região, expandindo seu tamanho por meio de um exército bem organizado e eficaz. Ao final do século XIII a região estava completamente subjugada e daí para diante foi governada pelos Cavaleiros Teutônicos, como um feudo papal, subordinados ao Papa e ao Imperador.

A ORDEM TEUTÔNICA


A “Ordem dos Cavaleiros Teutônicos de Santa Maria de Jerusalém”, conhecida apenas como “Ordem Teutônica”, foi uma ordem militar cruzada, vinculada à Igreja Católica, por votos religiosos, pelo Papa Clemente III, formada em São João do Acre, Israel, na época das Cruzadas, ao final do século XII. Seus membros usavam sobrevestes brancas com uma cruz negra. Os Cavaleiros tiveram a sua sede em Montfort, uma fortaleza construída nos tempos do Reino de Jerusalém[1] (1099-1291), durante as Cruzadas, cujos vestígios ainda se conservam ao norte de Israel.
A Torre Teutônica da cidade de Acre, em Israel
A Ordem Teutônica foi uma das mais poderosas e influentes da Europa. A maioria dos seus membros pertencia à nobreza, inclusive à família real prussiana e outros nobres germânicos. Os soberanos e a nobreza dos estados antecessores da atual Alemanha, inclusive a família soberana do Império Alemão (1871-1918) e da Prússia (1525-1947), os Von Hohenzollern, eram membros da Ordem.
Após a derrota das forças cristãs no Oriente Médio, os cavaleiros teutônicos mudaram-se para a Transilvânia, em 1211, a convite do rei André II, da Hungria, onde fundaram a cidade de Brasov, mas foram expulsos em 1224. Transferiram-se então para o norte da Polônia, onde criaram o “Estado da Ordem Teutônica” (que existiu entre 1224 e 1525). A agressividade e o poder da Ordem ameaçavam os países vizinhos, em especial o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia.
Entre 1229 e 1279 a ordem conquistou áreas na Prússia, onde os cavaleiros construíram muitas cidades e fortes. Por volta de 1329, os cavaleiros teutônicos controlavam, por domínio papal, toda a região do Báltico, desde o golfo da Finlândia até a Pomerânia, na Polônia. Na parte sul de seu domínio, a ordem foi abolida e suas terras se tornaram a Prússia, em 1525. A parte norte (Estônia e Letônia) foi dividida entre a Polônia, Rússia e Suécia, depois de 1558.
Em 1410, na batalha de Grunwald (também conhecida como batalha de Tannenberg), um exército combinado polaco-lituano, comandado pelo rei polaco Ladislau II Jagelão, derrotou a Ordem e pôs fim a seu poderio militar. O poder da Ordem continuou a declinar até 1525, quando seu grão-mestre, Alberto de Brandemburg, converteu-se ao luteranismo e assumiu o título e os direitos de duque hereditário da Prússia (embrião do Reino da Prússia, catalisador do futuro Império Alemão). O Grão-Magistério foi então transferido para Mergentheim, de onde os grão-mestres teutônicos continuavam a administrar as consideráveis posses da Ordem no Sacro Império Romano-Germânico.
Em 1806, quando Napoleão Bonaparte determinou a extinção do Sacro Império, a Ordem perdeu as suas últimas propriedades seculares, mas logrou sobreviver até o presente. O decreto papal emitido por Pio XI, a 21 de novembro de 1929, transformou os cavaleiros teutônicos numa ordem clerical composta por sacerdotes, padres e freiras. Atualmente, tem a sua sede em Viena, Áustria, e trabalha, primordialmente, com objetivos assistenciais. A cruz teutônica está na origem da célebre "Cruz de Ferro", condecoração ainda em uso pelas forças armadas alemãs.
Nas mãos de Heinrich Himmler, a SS foi estruturada segundo o modelo da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, cujos membros, acreditava-se, tinham sido guardiões do Santo Graal. Equipes da SS foram designadas para encontrar tanto o Santo Graal quanto a Arca da Aliança.

[1] O Reino de Jerusalém foi um Estado cruzado criado no Levante, em 1099, pela Primeira Cruzada. O reino durou aproximadamente 200 anos, de 1099 a 1291 quando o Acre, sua última possessão, foi destruída pelos Mamelucos, mas sua história é dividida em dois períodos distintos. O Primeiro Reino de Jerusalém (com a capital nessa cidade) existiu entre 1099 e 1187, quando foi quase totalmente tomado por Saladino, muçulmano de origem curda e primeiro sultão do Egito e Síria. Após a Terceira Cruzada, o Reino foi reestabelecido em Acre, em 1192 e durou até a sua destruição, em 1291. Esse segundo reino é algumas vezes chamado de Segundo Reino de Jerusalém ou Reino do Acre.

Tribos Prussianas no Século XIII
Sua relação, inicialmente estreita, com a Coroa polonesa deteriorou depois que eles conquistaram em 1308 a Pomerânia (mar Báltico, ao norte da Polônia e vizinha de Dantzig) ou Pomerélia e Dantzig (Gdansk dos tempos modernos), controlada pelos poloneses. Durante a segunda metade do século XIV, uma forte oposição aos germânicos desenvolveu-se na Europa Oriental, causando a união dinástica da Polônia e Lituânia (União de Krewo), em 1385, que derrotou os Cavaleiros Teutônicos na Batalha de Grunwald (Tannenberg), em 1410.
Na Guerra dos Treze Anos, a Batalha da Lagoa do Vístula,
14/09/1463, entre Ordem Teutônica e Confederação Prussiana
A “Guerra dos Treze Anos” (1454-1466) começou quando a Confederação Prussiana[4], uma coalizão de cidades da Prússia Ocidental, se rebelou contra a ordem, com solicitação de ajuda ao rei polonês. Os Cavaleiros Teutônicos foram forçados a reconhecer a soberania e prestar homenagem ao rei Casimiro IV da Polônia, na Segunda Paz de Torun (1466), perdendo a Prússia Ocidental para a Polônia, que se tornou conhecida como Prússia Real Polonesa. Os termos da segunda Paz de Torun deixaram os Cavaleiros de posse da parte oriental da Prússia, mantida como um feudo da coroa polonesa. Com isso, a Prússia, que já possuía Berlim como sua capital, ficou dividida em dois estados: a Prússia Real, no oeste, e Prússia Ducal, no leste. A Prússia Real (ou Prússia Polonesa) era uma província do Reino da Polônia, parte da comunidade encravada fora do Estado da Ordem Teutônica. Administrativamente, a Prússia Real era parte da Província da Grande Polônia, junto com a própria Grande Polônia, com a capital em Poznan, formando um corredor ao Mar Báltico (Corredor Dantzig). A Prússia Ducal, um feudo da Coroa da Polônia até 1657, foi estabelecida durante a Reforma Protestante, em 1525 e foi o primeiro ducado luterano com população dominante de língua germânica e minorias polonesa e lituana. Nessa época, o porto de Dantzig foi designada uma “cidade livre”.
A Reforma Protestante, do início a meados do século XVI, viu muitos prussianos se converterem ao Protestantismo, ao passo que a Polônia permaneceu - e ainda permanece - solidamente católica. Em 1525, Alberto de Brandenburgo – Ansbach, um membro da casa de Hohenzollern, o último Grande Mestre dos Cavaleiros Teutônicos, tornou-se um luterano protestante e secularizou os restantes dos territórios prussianos da ordem para a Prússia Ducal, área a leste da foz do rio Vístula, às vezes chamada de "Prússia Adequada". Pela primeira vez, essas terras chegaram às mãos da família Hohenzollern. A dinastia Hohenzollern havia governado a “Marca de Brandemburg”, a oeste, um estado germânico centrado em Berlim, desde o século XV. Além disso, com sua renúncia da ordem, Alberto, 1º Duque da Prússia, agora podia casar-se e produzir herdeiros legítimos, o que transformou a Prússia Ducal num ducado hereditário. A unidade das duas partes da Prússia foi preservada pela manutenção das suas fronteiras, da cidadania de seus habitantes e da sua autonomia política.
Em 1618, a Prússia Ducal, ainda um estado vassalo da Polônia, passou a John Sigismund, um Hohenzollern. Com a união da Prússia Ducal com Brandenburgo, através do seu neto, Friedrich Wilhelm, Grande Eleitor de Brandenburgo, e a invasão pelos suecos em 1657, a Polônia rendeu soberania e independência à Prússia Ducal, que se transformou no Reino da Prússia, chefiado pela linha Hohenzollern, na Paz de Oliva, em 1660. Friedrich Wilhelm, que governou de 1640 até a sua morte, em 1688, transformou Brandenburgo – Prússia no mais forte dos estados germânicos do norte, criou um eficiente exército, fortificou Berlim, centralizou a administração do ducado e assumiu poderes de governança que eram anteriormente exercidos pela nobreza e as oligarquias da cidade.
Friedrich I, fundador do Reino da Prússia
Seu filho, o Eleitor Friedrich III (1657 – 1713), conhecido em Berlim como o “Fritz Torto” - um acidente de infância lhe tinha torcido a espinha e deixado uma corcunda -, apaixonado por tudo que era francês, buscava uma coroa como recompensa por ter ajudado o Imperador Leopoldo I (então Arquiduque da Áustria e imperador do Sacro Império Romano). Brandenburgo não podia ter um rei, pois que parte do Império, e não podia haver um rei da Prússia porque parte dela estava na Polônia. Por uma fórmula engenhosa, contudo, Friedrich obteve de Leopoldo I, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, onde a maior parte das terras da Prússia estava, a permissão para ser chamado “Rei na Prússia” e não “Rei da Prússia”. Tal permissão culminou com a proclamação do Reino da Prússia (em substituição ao Ducado da Prússia), com sua capital em Berlim, em 18 de janeiro de 1701, quando o Eleitor[5] Friedrich III se auto coroou Friedrich I, em Konigsberg, e o país se tornou uma das grandes potências de sua época, com maior influência nos séculos XVIII e XIX. A partir daí Brandenburgo, embora ainda teoricamente parte do Sacro Império Romano, devendo obediência ao Imperador, passou a ser tratado na prática como parte do Império da Prússia. Friedrich I e sua segunda esposa, Sophia Charlotte de Hanover, irmã de George I da Inglaterra, fez da sua corte em Berlim uma miniatura de Versailles, onde o francês era a primeira língua, a etiqueta francesa era seguida com rigor e o rei desfilava em sapatos vermelhos de saltos altos e uma longa cabeleira para esconder sua corcunda, desperdiçando dinheiro como água e imitando ao máximo Louis XIV. O estado prussiano cresceu em esplendor durante o reinado de Friedrich I, que patrocinou as artes às custas do tesouro. 
Friedrich Wilhelm I, o austero Rei Soldado
Friedrich I foi sucedido por seu filho, Friedrich Wilhelm I (que reinou de 1713 a 1740), o austero "Rei Soldado", que transformou seu reino numa autocracia militar, dando à Prússia sua duradoura reputação. Aumentou de forma significativa o tamanho do exército prussiano e reconstruiu a organização do Estado em torno de um exército profissional permanente, um dos mais poderosos da Europa, embora suas tropas apenas brevemente tivessem entrado em ação durante a Grande Guerra do Norte. Tendo em vista o tamanho do exército em relação à população total, Mirabeau diria mais tarde: A Prússia, não é um estado com um exército, mas um exército com um Estado. No tratado de Estocolmo, de 1720, adquiriu a metade da Pomerânia sueca.
O rei Friedrich Wilhelm I morreu em 1740 e foi sucedido por seu filho, Friedrich II (que reinou entre 1740 e 1786), cujas realizações levaram a sua reputação ao título de "Friedrich II, o Grande". Como príncipe herdeiro, Friedrich II concentrou-se, principalmente, na filosofia e nas artes, mas usou os recursos e o exército herdado de seu pai para tornar a Prússia uma das principais potências da Europa ao final do século XVIII. Em dezembro de 1740 ele invadiu e tomou a província austríaca da Silesia, a mais rica da Monarquia de Habsburgo, precipitando a “Guerra da Sucessão Austríaca” (1740-1748)[6]. A Silesia, repleta de solos ricos e cidades prósperas com fábricas, se tornou uma região vital para a Prússia, aumentando grandemente a área, população e riqueza do país. Ao final da “Guerra dos Sete Anos” (1756-1763)[7] o território prussiano incluía a Silesia, principal causa da iniciada rivalidade e conflitos de mais de um século entre Áustria e Prússia, os dois estados mais poderosos dentro do Sacro Império Romano-Germânico (embora, ironicamente, ambos tivessem extenso território fora do império), até 1866. 
Friedrich II, o Grande, rei da Prússia (1740-1786)
Foi durante o seu reinado e seu formidável gênio militar, que a Prússia anexou a Prússia Real Polonesa, assim ligando seu reino da Prússia, ao leste, com Brandenburgo e o corpo principal de suas possessões germânicas no oeste. Assim, a nação que consistia das províncias de Brandenburgo, Pomerânia, Danzig, Prússia Ocidental e Prússia Oriental, tornou-se a maior potência da Europa e teve uma grande influência em muitos assuntos internacionais.
Durante os últimos anos de seu reinado, Friedrich II abriu as fronteiras da Prússia aos imigrantes que fugiam da perseguição religiosa em outras partes da Europa, como os huguenotes. A Prússia tornou-se um refúgio seguro, da mesma forma que os Estados Unidos receberam imigrantes em busca da liberdade no século XIX. Friedrich, o Grande, o primeiro "Rei da Prússia", praticou o despotismo esclarecido. Ele introduziu um código civil geral, aboliu a tortura e estabeleceu o princípio de que a Coroa não iria interferir em assuntos de justiça. Ele também promoveu um ensino secundário superior, precursor do sistema (escola de gramática) que preparava os alunos mais brilhantes para os estudos universitários. O sistema de ensino prussiano foi imitado em vários países, incluindo os Estados Unidos.
Friedrich II, o Grande, foi sucedido no trono, em 1786, por Friedrich Wilhelm II, que foi, por sua vez, sucedido por Friedrich Wilhelm III, o rei das “Guerras Napoleônicas”, em 1797, e a elas dedicaremos um capítulo especial, por sua importância na formação do futuro estado da Alemanha.

[1] Os primeiros eslavos compreendiam um grupo diverso de sociedades tribais que viveram durante o período migratório e o início da Idade Média europeia, entre os séculos V e X, que indiretamente criaram as fundações para as nações eslávicas da atualidade. A primeira menção escrita do nome eslavo, data do século VI, quando as tribos eslávicas ocupavam uma vasta área da Europa leste central. Pelos dois séculos seguintes, os eslavos se espalharam mais, em direção aos Balcãs e os Alpes, ao sul e oeste e em direção ao rio Volga, no norte e leste.
[2] O Vístula é o mais longo rio da Polônia, com 1.047 km, e sua bacia hidrográfica banha cerca de 194 mil km², ou quase dois terços da superfície da Polônia. Ele tem a sua nascente nos Beskides (cadeia montanhosa entre o nordeste da República Checa, o noroeste da Eslováquia, o sul da Polônia e o oeste da Ucrânia, fazendo parte dos Cárpatos) ocidentais, na alta Silésia, a 1.106 metros de altitude escoando pela Polônia antes de desembocar no Mar Báltico, perto de Gdansk.
[3] A Burzeland é uma área histórica e etnográfica no sudeste da Transilvânia, Romênia, com uma população mista de romenos, alemães e húngaros. Situa-se nas cadeias de montanhas dos Cárpatos do Sul; sua cidade mais importante é Brasov.
[4] A Confederação Prussiana foi uma organização formada em 1440 por um grupo de 53 nobres e clérigos e 19 cidades, na Prússia, que se opuseram à Ordem Teutônica. Em 1454, o líder da confederação, Hans von Baysen, pediu formalmente a Casimiro IV, Rei da Polônia, para incorporar a Prússia ao Reino da Polônia. Isto marcou o início da Guerra dos Treze Anos (1454-1466), travada entre o vitorioso Reino da Polônia e a derrotada Ordem Teutônica. A guerra foi terminada pela Paz de Torun.
[5] Os príncipes-eleitores (ou simplesmente eleitores) do Sacro Império Romano, eram os membros do colégio eleitoral deste Império, que possuíam, desde o século XIII, o privilégio de eleger o Rei dos Romanos ou, a partir do meio do século XVI, diretamente o Sacro Imperador Romano. O herdeiro aparente de um príncipe-eleitor secular ficou conhecido como um príncipe eleitoral. A dignidade do Eleitor possuía grande prestígio e era o segundo após o Rei ou Imperador.
[6]Conflito europeu causado pela “Pragmática Sanção”, segundo a qual o imperador Carlos VI pretendeu legar o Sacro Império Romano à filha, Maria Teresa da Áustria. A guerra, desencadeada após a morte do imperador do Sacro Império Romano, Carlos VI, foi motivada pela ambição da Prússia, da Baviera e da Espanha. O fim definitivo da guerra foi selado pelo Tratado de Aquisgrão.
[7] Foi uma série de conflitos internacionais ocorridos durante o reinado de Luís XV, entre a França, a Monarquia de Habsburgo e seus aliados (Saxônia, Império Russo, Império Sueco e Espanha), de um lado, e a Inglaterra, Portugal, o Reino da Prússia e Reino de Hanôver, de outro. A guerra deu continuidade a disputas não apaziguadas pelo Tratado de Aquisgrão e foi desencadeada por vários fatores: preocupação das potências europeias com o crescente prestígio e poderio de Friedrich II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre a Monarquia de Habsburgo e o Reino da Prússia pela posse da Silésia; e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colônias das Índias e da América do Norte. Também foi motivada pela disputa por territórios situados na África, Ásia e América do Norte.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 9)



IX - OS ANOS DE FERRO DA ERA STALIN (Continuação)

Localização dos campos Gulag da União Soviética

O TENEBROSO GULAG SOVIÉTICO

Gulag, acrônimo da expressão russa Glavnoye Upravleniye Lagerei, que significa "Administração Central dos Campos", e a palavra que, por fim, passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados, era um sistema de campos de trabalhos forçados para criminosos, presos políticos, prisioneiros de guerra e qualquer cidadão (homens, mulheres e crianças), em geral, que se opusesse ao regime da União Soviética (todavia, a grande maioria era de presos políticos: no campo Gulag de Kengir, em junho de 1954, existiam 650 presos comuns e 5200 presos políticos). Antes da Revolução, o Gulag chamava-se Katorga e, praticamente, possuía as mesmas finalidades. Entretanto, os bolcheviques continuaram a tradição autocrática-imperial russa em uma escala dezenas de vezes maior e em condições muito piores, onde até o canibalismo foi praticado. Na União Soviética, este sistema funcionou de 1930 até 1960. Nesses campos foram aprisionadas e mortas milhões de pessoas, muitas delas vítimas das perseguições de Stalin, as consideradas "pessoas infames", para a chamada "Pátria Mãe" (a URSS), e que deveriam passar por "trabalhos forçados educacionais" para merecerem viver nela. O Gulag tornou-se um símbolo da repressão da ditadura de Stalin. Na verdade, as condições de trabalho nos campos eram bastante penosas e incluíam fome, frio, trabalho intensivo com características próprias da escravatura (por exemplo, horário de trabalho excessivo) e guardiões desumanos. Floresceram durante o regime stalinista da URSS, estendendo-se a regiões como a Sibéria e a Ucrânia, por exemplo, e destinavam-se, na verdade, a silenciar e torturar opositores ao regime, incluindo os anarquistas, trotskistas e outros.
Embora algumas vezes comparado aos campos de concentração nazistas, os motivos que presidiram à construção de ambos são bastante diferentes: para o Gulag, as motivações eram tanto a punição por crimes comuns, como para ideologias contrárias ao comunismo, delitos de opinião, ou simplesmente a necessidade de se ver livre de alguém que poderia significar concorrência ao poder; para os campos de concentração nazistas iam prisioneiros de guerra e judeus, basicamente.
O número de presos no Gulag cresceu gradualmente a partir de 1930, com 179.000, para 1934, com 510.307; em 1938 essa taxa cresceu muito mais rapidamente, por conta dos expurgos, para 1.881.570; durante a Segunda Guerra Mundial o número de presos decresceu por conta do recrutamento de presos para o Exército Vermelho (eram 1.179.819 presos em 1944). Em 1945 voltou a crescer, até 1950, atingindo um valor máximo (cerca de 2.500.000), que se manteve praticamente constante até 1953, ano da morte de Stalin. A tabela abaixo apresenta os números de presos no Gulag soviético, durante o período que vai de 1930 a 1953, segundo dados apresentados no livro “Gulag”, de Anne Applebaum, página 602, copiados de documentos da NKVD.
Os fluxos de entrada e saída dos campos de trabalhos forçados eram substanciais e o número total de detentos foi contabilizado em cerca de 18 milhões durante o período entre 1929 e 1953. Como parte do mais amplo termo "trabalhos forçados", mais 4 milhões de prisioneiros de guerra devem ser adicionados a esse número e, pelo menos, 6 milhões de "especiais", isto é, camponeses deportados durante a coletivização, chegando-se a um total de 28.000.000 de prisioneiros que terão passado pelo Gulag soviético.
O número de mortos nesses campos de concentração soviéticos, ainda está sob investigação, mas um valor provisório indica 2.749.163 baixas. Este número não leva em conta as execuções relacionadas com o sistema judicial (as execuções, apenas por razões políticas, chegam a 786.098). Segundo dados soviéticos, morreram no Gulag 1.053.829 pessoas entre 1934 e 1953, excluindo mortos em colônias de trabalho (outro tipo de prisão, segundo as informações soviéticas.

Número de prisioneiros pelos documentos da NKVD

1930
179.000
1936
1.296.494
1942
1.777.043
1948
2.199.535
1931
212.000
1937
1.196.369
1943
1.484.182
1949
2.356.685
1932
268.700
1938
1.881.570
1944
1.179.819
1950
2.561.351
1933
334.300
1939
1.672.438
1945
1.460.677
1951
2.525.146
1934
510.307
1940
1.659.992
1946
1.703.095
1952
2.504.514
1935
965.742
1941
1.929.729
1947
1.721.543
1953
2.468.524


Os campos recebiam também prisioneiros de outras nacionalidades, incluindo cidadãos americanos. Em 1931, a Amtorg Trading Corporation (primeira representação comercial soviética nos Estados Unidos) recrutou milhares de trabalhadores americanos, que sofriam as consequências da Grande Depressão, atraindo-os com promessas de boas condições de trabalho. Estes trabalhadores, que contribuíram para o desenvolvimento da indústria da URSS, eram dispensados quando não mais necessários e poucos conseguiram retornar aos EUA. Muitos, foram enviados ao Gulag, permanecendo detidos ali por anos. O telefilme de 1982 “Coming Out of the Ice(em português “Atrás da Cortina de Gelo”), baseado no livro homônimo, dramatiza a vida de Victor Herman, paraquedista estadunidense, que passou 18 anos detido na Sibéria por recusar-se a adotar a nacionalidade soviética, após bater o recorde de salto em queda livre.
De acordo com Werh Nicolas, historiador francês do “Centre National de la Recherche Scientifique”, em Paris, no livro "História da Rússia no século XX", páginas 318-9, "As estimativas do número de presos no Gulag, ao final dos anos trinta, variam entre 3.000.000 (Timasheff, Bergson, Wheatcroft) e de 9 a 10.000.000 (Dallin, Conquest, Avtorkhanov, Rosefielde, Solzhenitsyn). Os arquivos do Gulag, confirmados pelos dados dos censos de 1937 e 1939, em documentos dos Ministérios da Justiça, do Interior e da Procuradoria Geral, dão um valor de cerca de 2.000.000 prisioneiros em 1940 (cerca de 300.000 em 1932, e de 1.200.000, no início de 1937). O número acumulado de entradas no Gulag durante os anos 30, tendo em conta a alta rotatividade dos detentos, é cerca de 6.000.000 de pessoas." No mesmo livro, à página 416, lemos: "Como evidenciado pelos arquivos do Gulag, recentemente exumados, nos anos 1945-53 houve um forte aumento no número de prisioneiros nos campos de trabalho Gulag (passando de 1.200. 000 para 2.500.000 entre 1944 e 1953), e o número de deportados ‘especiais’ passou de 1.700.000 em 1943, para 2.700.000 em 1953”.
As localizações dos campos no Gulag eram um segredo (calcula-se o seu número em 476 à época da 2ª Guerra Mundial), mas o medo que despertavam era bem conhecido por russos, lituanos, poloneses, armênios e outros tantos que viveram sob a influência da antiga União Soviética. Os campos de concentração espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscou. Eles surgiram antes mesmo de suas infames contrapartidas nazistas, como Auschwitz, Sobibor e Treblinka, e continuaram a crescer muito tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje, a história do Gulag, esse sistema de repressão e punição que aterrorizou milhões, é muito bem conhecida do mundo ocidental, principalmente através de duas obras. A primeira delas, “Arquipélago Gulag”, é um clássico referencial sobre o assunto e foi escrita pelo dissidente, Alexandr Solzhenitsyn, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1973. Este livro, escrito entre 1958 e 1967, é uma narrativa de fatos que foram presenciados pelo autor, prisioneiro durante onze anos, em Kolima, um dos campos do arquipélago, e por duzentas e trinta e sete pessoas, que confiaram as suas cartas e relatos ao autor. Embora publicada em 1973 no ocidente, a obra circulou clandestinamente na União Soviética, numa versão minúscula, escondida, até à sua publicação oficial no ano de 1989. A segunda fonte, escrita após o colapso da União Soviética, “Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”, é de autoria de Anne Applebaum e recebeu o Prêmio Pulitzer de 2004. O livro apresenta um retrato completo e acurado de um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade. Longe de se limitar à frieza dos documentos oficiais, finalmente acessíveis, Applebaum enriquece a história com entrevistas e relatos de sobreviventes, que se sobressaem, não só pela força da prosa, mas também pela capacidade de sondar abaixo da superfície do horror cotidiano. Segundo a autora, e de modo ainda mais amplo, Gulag veio a significar todo o sistema repressivo soviético, o conjunto de procedimentos que os presos outrora denominaram "o moedor de carne": as prisões, os interrogatórios, o traslado em vagões de gado sem aquecimento, o trabalho forçado, a destruição de famílias, os anos de degredo, as mortes prematuras e desnecessárias.

Evolução do número de presos no Gulag (1930-1953)
Rapidamente, a indústria soviética atinge grandes proporções de riqueza em pouco tempo, tornando-se uma grande potência mundial. Paradoxalmente e com a lei das coletivizações em marcha, o povo vivia na pobreza extrema. Além do mais, as medidas políticas de Stalin provocaram grandes ondas de fome que assolaram as repúblicas, principalmente na Ucrânia, que deu origem ao termo Holodomor (Ver Quadro “O Holodomor”, a seguir).
Até hoje os estudiosos discordam quanto às razões que teriam levado Stalin à execução dos “Anos de Terror” na União Soviética. Uma delas, com grande quantidade de seguidores acredita que com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, sua política belicista e anti-comunista tornava mais próxima a ideia de uma invasão da URSS. Não podemos esquecer que, desde 1925, Hitler vagamente declarara em seu manifesto político e autobiografia "Mein Kampf" (“Minha Luta”) que ele invadiria a União Soviética, afirmando que o povo alemão necessitava garantir espaço vital para assegurar a sobrevivência da Alemanha pelos anos futuros. 
Presos na construção do canal Mar Branco-
Báltico, 1931 - 1933

O nazismo via a União Soviética (e todo o leste europeu) como povoado por “sub humanos” não arianos, governados por conspiradores bolcheviques judeus (para igualar os comunistas aos judeus). “Minha Luta” dizia que o destino da Alemanha era avançar para o leste como havia sido feito seiscentos anos antes. Como decorrência, a política nazista estabelecia matar, deportar ou escravizar a maioria dos russos e outras populações eslavas, repovoando a terra com povos germânicos. E Stalin sabia disso. No Oriente, o expansionismo japonês (conquista da Manchúria e guerra contra a China) ameaçava o forte siberiano. Criou-se assim um clima favorável para o “alarme da Pátria socialista em perigo” e a arregimentação de todas as forças em torno da ditadura stalinista. Esta pressão externa condicionou Stalin a visualizar seus inimigos políticos (dentro do Partido) como, objetivamente, inimigos da revolução e aliados da reação fascista.



O HOLODOMOR

Holodomor é uma palavra ucraniana que significa “extermínio pela fome”. Foi o nome dado à fome causada por Stalin na República Soviética Socialista da Ucrânia, entre 1931 e 1933, que matou um número estimado entre 5,0 e 7,5 milhões de ucranianos. Porém, levando-se em conta os efeitos prolongados dessa política econômica perversa e os ucranianos que foram levados ao trabalho forçado e lá morreram, esse número pode ser superior a 14 milhões.
A Ucrânia foi o país da URSS que mais resistiu às medidas do plano de coletivização imposto por Stalin. A autonomia cultural ucraniana e sua forte identidade nacional tornavam-na intolerável aos soviéticos russos. A insurreição dos camponeses ucranianos contra as medidas de coletivização forçada e a requisição compulsória de cereais obrigou Stalin a impingir medidas ainda mais drásticas do que as executadas em outras regiões.
Stalin traçou uma campanha antiucraniana para demonstrar quão “nociva” era a postura desse país com relação aos anseios comunistas. Inicialmente, deu-se início a uma sistemática humilhação de intelectuais ucranianos, que foram submetidos a julgamentos vexaminosos e ridiculizações diversas. Houve também uma debelação de possíveis focos de organização antissoviética que pudessem irromper a longo prazo. Depois dessas medidas, Stalin passou a atacar o próprio campesinato.
A partir de 1929, deu-se início a uma ferrenha estipulação de metas de produção de cereais, destinados ao poder central soviético, que passaram a ser exigidas dos camponeses da Ucrânia. A rigidez era tão grande que esses camponeses só conseguiriam atender à demanda se deixassem de consumir sua parte do que era produzido, isto é, só se passassem fome, de fato. Tudo passou a ser de propriedade do governo. Muitas pessoas foram presas e condenadas a trabalhos forçados simplesmente por comerem batatas ou colherem espigas de milho para consumo. Progressivamente, a morte foi se acentuando na Ucrânia. Entre 1931 e 1933, o número de mortos era tão grande que os cadáveres se espalhavam pelas ruas e pelos campos. O odor dos corpos apodrecidos dominava regiões inteiras. O historiador Thomas Woods reitera esse fato:
Em 1933, Stalin estipulou uma nova meta de produção e coleta, a ser executada por uma Ucrânia agora à beira da mortandade em massa por causa da fome, que havia começado em março daquele ano. Vou poupar o leitor das descrições mais trágicas do que aconteceu a partir daqui. Mas os cadáveres estavam por todos os lados, e o forte odor da morte pairava pesadamente sobre o ar. Casos de insanidade e até mesmo de canibalismo, estão bem documentados.” (Woods, Thomas. “A Fome na Ucrânia – um dos Maiores Crimes do Estado Foi Esquecido”. Instituto Ludwig Von Mises Brasil.)
Desde 2006, o Holodomor tem sido reconhecido pela Ucrânia independente e muitos outros países como um genocídio do povo ucraniano perpetrado pela União Soviética. É impossível determinar o número exato de vítimas, mas ele aumenta significativamente quando as mortes no densamente povoado Kuban ucraniano são incluídas. Os estudiosos discordam sobre a importância relativa de fatores naturais e más políticas econômicas como causas da escassez absoluta de alimentos mas acreditam que foi um plano a longo prazo de Stalin, uma tentativa de eliminar o movimento de independência ucraniana.
Usar o Holodomor como referência à fome, enfatiza os seus aspectos de “feito pelo homem”, sustentando que ações como a proibição de ajuda externa, o confisco dos mantimentos das residências e a restrição ao movimento da população, conferem intenção, definindo a fome como genocídio e comparando o número de perdas de vidas às do Holocausto. Se as políticas e ações soviéticas estivessem conclusivamente documentadas como pretendendo erradicar a ascensão do nacionalismo ucraniano, elas teriam caído sob a definição legal de genocídio.

Fome na Ucrânia, em 1933
Dado o despreparo do país para enfrentar um ataque conjunto alemão-japonês, era inevitável que a oposição terminasse por questionar sua autoridade sobre o país. Ele passou a agir de forma "preventiva" antes que a oposição ganhasse vulto, explorando a insatisfação contra o Regime. As abjetas confissões a que os velhos revolucionários foram submetidos, tinham por objetivo degradá-los perante a opinião pública - ao mesmo tempo que consagravam Stalin como o único e exclusivo seguidor do Leninismo e da pureza revolucionária. A industrialização acelerada, feita sem nenhum amparo em referências anteriores, fez com que os inevitáveis acidentes e dificuldades fossem apontados como sabotagem contrarrevolucionária. Desta forma eximia-se a facção dirigente das inevitáveis calamidades que uma industrialização galopante traz em seu bojo. O terror passou a exercer uma função pedagógica. As falhas e a incompetência eram punidas com a prisão ou fuzilamento, fazendo com que as eficiências de formação fossem superadas pela dedicação integral ao trabalho. Os processos e fuzilamentos atuavam também como uma espécie de "compensação" psicológica para a massa da população. Apesar dos sofrimentos a que estavam submetidos, pelas condições do trabalho, pela escassez de víveres e de habitação, "consolavam-se" ao ver os privilegiados do regime stalinista pagar com a vida sua indisposição com a facção dirigente. Mas não foram apenas os quadros políticos e técnicos os atingidos pelas grandes purgas. Nem o Exército nem a polícia secreta ficaram imunes: 65% dos oficiais graduados foram executados ou presos e mais de três mil “chekists”[1] foram fuzilados. De certa forma isto foi interpretado como demonstração de fraqueza do Estado Soviético, pois ao eliminarem os quadros da nova intelligentsia militar (pincipalmente o grande estrategista, Marechal Tukaschevski) favoreceram os preparativos belicistas de Hitler. Os resultados internos, no entanto, consagraram o domínio absoluto de Stalin. Uma nova equipe dirigente foi colocada a sua disposição. Duros, eficientes e cruéis, propiciaram uma centralização efetiva do poder. Deve-se observar que o stalinista típico, tinha formação cultural bem inferior à dos membros da Velha Guarda partidária. Poucos conheciam o exterior, ficando suas raízes em solo russo. Ao contrário da elite intelectual dos primeiros tempos, fornida pela alta especulação teórica, os homens de Stalin dominavam o jargão convencional do marxismo. Sua própria situação social era distinta. Excetuando talvez Molotov e Malenkov, seus próximos emergiram da baixa classe média e do operariado, como Kalinin e Kruschev. Foi durante seu período de pleno poder que a Ciência, as Artes e a Literatura tornaram-se adstritas à política. Nenhum ramo do conhecimento atuava à margem dos interesses partidários imediatos, tornando-se instrumento da propaganda oficialista, sob a batuta do Ministro da Cultura Zhadanov. Artistas e historiadores viviam sob a vigilância permanente e seus textos, muitas vezes, eram censurados pelo próprio Stalin (de acordo com a tradição czarista, pois Nicolau I fazia o mesmo com as rimas do grande poeta Puschkin). Mesmo assim, os alcances da instrução massiça atingiram as multidões. 
Documento de Beria sobre assinado por
Stalin para matar 15 mil oficiais polacos
e 10 mil intelectuais na Floresta Katyn.
O terceiro plano quinquenal desenvolveu-se apenas por três anos, de 1938 a 1941, quando a Alemanha invadiu a União Soviética, durante e Segunda Guerra Mundial. À medida que a guerra se aproximava, mais recursos eram lançados no desenvolvimento de armamentos de todas as espécies, bem como na construção de novas fábricas militares a leste dos Montes Urais. Os primeiros dois anos deste terceiro plano foram mais um desapontamento em termos da proclamada produção de objetivos. Contudo, ainda uma taxa relatada de crescimento de 12% a 13% foi atingida na união soviética durante a década de 1930.
Em 23 de agosto de 1939 Stalin firma um pacto de não agressão com a Alemanha hitlerista, conhecido como Pacto Molotov - Ribbentrop, imediatamente antes da invasão alemã na Polônia que disparou o gatilho da 2ª Guerra Mundial na Europa. UM protocolo secreto ao Pacto, resumia um acordo entre Alemanha e União Soviética sobre a divisão dos estados nas fronteiras do leste europeu, entre suas respectivas “esferas de influência”: a União Soviética e a Alemanha repartiriam a Polônia no caso de uma invasão pela Alemanha e a Rússia poderia ocupar os Estados Bálticos e a Finlândia. Como conclusão do pacto, no mês seguinte a União Soviética de Stalin invadiu a Polônia, promovendo a anexação da parte leste do país e deixando o mundo atônito tendo em vista a mútua hostilidade prévia das duas partes e suas ideologias conflitantes. Em março e setembro de 1940, aproveitando o fato de “não estar participando da Segunda Guerra Mundial”, Stalin respectivamente ocupa partes da Finlândia e da Romênia.
Massacre na Floresta Katyn em 1940
Como resultado do pacto, Alemanha e União Soviética mantiveram ralações diplomáticas razoavelmente fortes por dois anos, promovendo importante relação econômica. Em 1940 os dois países assinaram um pacto de comércio pelo qual os soviéticos recebiam equipamento militar e bens de consumo alemão, fornecendo aos alemães matéria prima como óleo e trigo como ajuda para frustrar o bloqueio inglês à Alemanha. A despeito das aparentes relações cordiais ostensivas, cada lado suspeitava fortemente das intenções do outro. Após a formação do Eixo, com Japão e Itália, a Alemanha iniciou negociações para uma potencial entrada da União Soviética no Eixo e após dois dias de negociações em Berlim, de 12 a 14 de novembro de 1940, a Alemanha apresentou uma proposta escrita para a entrada da União Soviética no Eixo. Em 25 de novembro de 1940, a União Soviética ofereceu uma contraproposta por escrito, para unir-se ao eixo, sob a condição de que a Alemanha suspendesse sua interferência sobre a esfera de influência da União Soviética, não respondida pela Alemanha. Como os dois lados começaram a colidir na Europa Oriental, o conflito surgiu como mais provável, embora ainda assinassem um acordo comercial e de fronteiras sobre várias questões, em janeiro de 1941.
Desfile conjunto alemão-soviético em 23/09/1939,
ao final da campanha da Polônia.
Imediatamente antes, durante e logo após a 2ª Guerra mundial, Stalin conduziu uma série de deportações, em tão grande escala a ponto de profundamente afetar o mapa étnico da União Soviética, provavelmente por não confiar em etnias particulares, como os coreanos soviéticos, os alemães do Volga, chechenos e poloneses. Estima-se que entre 1941 e 1949, aproximadamente 3,3 milhões foram deportados para a Sibéria e as repúblicas da Ásia Central. Por algumas estimativas, até 43% da população reassentada morreu de doenças e desnutrição. As razões oficiais mencionadas para as deportações foram o separatismo, a resistência ao mando soviético e a colaboração com os alemães invasores. As circunstâncias individuais dos que passaram algum tempo em territórios ocupados pelos alemães não foram examinadas. Após a breve ocupação nazista do Cáucaso, toda a população de cinco dos pequenos povos das montanhas e os tártaros da Crimeia – no total, mais de um milhão de pessoas – foram deportados sem aviso prévio ou qualquer oportunidade de apanhar suas posses.
Finalmente, em 22 de junho de 1941, a Alemanha declara guerra à URSS, através da “Operação Barba Ruiva”, sem uma declaração oficial de guerra, embora os preparativos bélicos e todos os planos de ataque e de defesa dos dois lados, ao longo de toda a fronteira. Cerca de 03:15 hs de 22 de junho de 1941, as forças do Eixo iniciaram a invasão da União Soviética pelo bombardeio das principais cidades da Polônia ocupadas pelos soviéticos e por uma barragem de artilharia sobre as defesas do Exército Vermelho em toda a frente. Em torno do meio dia a invasão foi transmitida à população pelo Ministro das Relações Exteriores Vyacheslav Molotov: “ .... Sem uma declaração de Guerra, as forças germânicas caíram sobre nosso país, atacaram nossas fronteiras em vários pontos ... O Exército Vermelho e toda a nação travarão uma vitoriosa Guerra Patriótica por nosso amado país, pela honra, pela liberdade ...”. Ao conclamar a devoção da população à Nação e não ao Partido, Molotov tocou uma corda patriótica que ajudou um povo atordoado a absorver notícias perturbadoras. Stalin só se dirigiu à nação, sobre a invasão, no dia 3 de julho e, como Molotov, clamou por uma “Guerra Patriótica” de todo o povo soviético.
Não resta dúvida de que houve êxito na reconstrução do país e na elevação do nível econômico e cultural da população soviética, tornando a URSS, juntamente com os Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), uma das superpotências mundiais, embora a União Soviética tenha tido perdas humanas e materiais que nunca poderão ser comparadas com qualquer dos países que participou da guerra. Com a vitória dos aliados sobre o eixo nazi-fascista (Alemanha, Japão e Itália), a União Soviética, principal oponente da Alemanha na Europa, passou a dispor de enorme prestígio internacional, embora as suas imensas perdas.

[1] Cheka foi a primeira de uma sucessão de organizações de segurança do estado soviético, criada em 20/12/1917, por um decreto de Lenin. Até o final de 1918, centenas de Chekas haviam sido criadas em várias cidades, em múltiplos níveis. Milhares de dissidentes, desertores e outras pessoas foram presas, torturadas e executadas por vários grupos Cheka. Após 1922, grupos Cheka passaram por uma série de reorganizações, com a NKVD, em corpos cujos membros continuaram a ser chamados “Chekistas”, até a década de 1980.

Prossegue na próxima postagem com a PARTE 10