Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sexta-feira, 31 de julho de 2015

HISTÓRIA DO POVO HEBREU APÓS A CONQUISTA DE JUDÁ PELA BABILÔNIA (PARTE 3 - FINAL)

IV.1 - FACÇÕES EXISTENTES À ÉPOCA

Este me parece o momento adequado para introduzir as facções surgidas em Israel, muito importantes para o bom entendimento dos desdobramentos consequentes, principalmente antes, durante e pouco após a época de Cristo.
Os essênios eram descendentes de Zadok, o sacerdote ao tempo de Davi, que se mantiveram fora do poder durante os períodos Hasmoneano e Romano. Consideravam o Templo impuro, se mudaram num exílio auto imposto para uma comunidade monástica em Qumran, no rio Jordão, e esperaram por uma batalha do fim dos tempos em que eles, como “filhos da luz”, seriam conduzidos pelo alto sacerdote e o “Mestre da Retidão” contra os filhos das trevas. Como isso aconteceu no rio Jordão, sua figura central era a reconquista de Canaã. Os essênios eram ascetas e formavam uma comunidade hierarquicamente organizada, uma seita apocalíptica fundamental. São conhecidos hoje pelos Manuscritos do Mar Morto, que contêm alguns dos seus escritos, mas a maioria são cópias dos trabalhos da Bíblia Hebreia. Os manuscritos foram descobertos no deserto da Judeia, próximo ao rio Jordão, em 1942.
É difícil dizer quando os fariseus, como uma facção, surgiram. Josephus os menciona pela primeira vez em conexão com Jônatas, o sucessor de Judas Macabeu. Um dos fatores que distinguia os fariseus de outros grupos, antes da destruição definitiva do Templo, era a sua crença de que todos os judeus tinham de observar as leis da pureza (aplicadas ao serviço do templo) fora do templo. A maior diferença, contudo, era a permanente aderência dos fariseus às leis e tradições do povo judeu com relação à assimilação. Formavam um movimento de reforma laica (não sacerdotal) e eram os guardadores do Tora oral, isto é, as interpretações orais do Tora, que eles criam foram dadas a Moisés no Monte Sinai e que ajudaram o povo a manter os mandamentos com menos possibilidade de transgressão. Transferiram muitos aspectos da pureza do Templo à esfera doméstica e enfatizaram os rituais domésticos e os serviços de sinagoga que poderiam ser feitos fora do Templo, em Jerusalém. Como Josephus observou, os fariseus eram considerados os mais versados e precisos expositores da lei judaica.
Os saduceus eram os líderes sacerdotais no poder durante a dinastia Hasmoneana, que se encontravam também em termos cordiais com Roma, quando ela dominou. Eram conservativos na crença: a autoridade era o Tora, sem interpretação oral, profetas nem escritos. Não acreditavam em ressurreição pessoal.
Durante o período hasmoneano, os saduceus e os fariseus funcionaram, primariamente, como facções políticas. Embora os fariseus tenham se oposto às guerras de expansão dos hasmoneanos e à forçada conversão dos idumeus, o racha político entre eles se tornou maior quando os fariseus exigiram que o rei Alexander Janeu escolhesse entre ser rei e ser o Alto Sacerdote. Como resposta, o rei alinhou-se abertamente com os saduceus, adotando os seus ritos no templo. Tais ações causaram um motim no templo, conduzindo a uma breve guerra civil que terminou com uma sangrenta repressão aos fariseus, embora em seu leito de morte o rei tenha pedido uma reconciliação entre as partes. Sua viúva e sucessora, Salomé Alexandra, tinha um irmão que era líder fariseu. Josephus atesta que Alexandra era favoravelmente inclinada aos fariseus, cuja influência cresceu muito durante o seu reino, especialmente na instituição denominada “Sinédrio” (uma espécie de assembleia ou conselho, famosa no tempo de Cristo). Seu filho mais velho, que a sucedeu, buscou o apoio fariseu e seu filho mais novo, Aristobulus, procurou o apoio saduceu. Como vimos, este conflito culminou numa guerra civil que terminou quando o general romano Pompeu capturou Jerusalém, em 63 AC, inaugurando o período romano da história judia.
Todas as facções mencionadas perduraram por todo o período romano, até a guerra dos Judeus, que culminou com a destruição do Templo de Jerusalém e a difusão dos judeus por todo o mundo.

V – PALESTINA ROMANA E FIM DOS HASMONEANOS

Retornamos ao assunto principal, no ponto em que os dois irmãos Hircano II e Aristobulus II disputavam o poder de Israel.
Pois ao tempo em que a guerra civil pelo poder se desenvolvia, o general romano Marcus Aemilius Scaurus chegou à Síria para tomar posse, em nome do Cônsul Gnaeus Pompeius Magnus (Pompeu), do reino dos selêucidas. Os dois irmãos apelaram a ele, com presentes para seduzi-lo. Inicialmente, Scaurus inclinou-se para Aristobulus, mas quando Pompeu chegou à Síria, as coisas mudaram, pois ele pretendia ter a Judeia sob o mando romano. E chegou à conclusão que para isso, seria muito mais fácil se Hircano estivesse no poder ao invés de Aristobulus. Este adivinhou as intenções de Pompeu e reuniu seus exércitos, mas foi derrotado por ele várias vezes, tendo suas cidades capturadas. Aristobulus entrincheirou-se na fortaleza de Alexandrium (entre Scythopolis e Jerusalém), mas concluindo sobre a impossibilidade de vencer, rendeu-se à primeira convocação dos romanos, comprometendo-se a entregar-lhes Jerusalém. Como os cidadãos relutavam em entregar a cidade, Pompeu teve que sitiá-la e finalmente penetrou na Cidade Santa em 63 AC. Com isso a Judeia tornou-se um protetorado de Roma, devendo-lhe impostos, sob a administração de um governador romano da Síria, mas com direito a manter um rei.
De 57 a 55 AC, Aulus Gabinius, proconsul da Síria, dividiu o reino hasmoneano anterior em Galileia (ao norte), Samaria (no centro) e Judeia (ao sul), com cinco distritos com conselhos legais e religiosos (os Sinédrios): Jerusalém, Gadara (na Jordânia, onde se encontram os limites com Síria e Israel), Amathus (sem localização), Jericó e Sepphoris (região central da Galileia, 3,7 km de Nazaré).
Com a vitória de Pompeu, Aristobulus foi levado para Roma como prisioneiro e Hircano novamente indicado Alto Sacerdote, mas com autoridade política. Entretanto, em 50 AC, Júlio Cesar, sucedendo a Pompeu, demonstrou interesse em usar Aristobulus e sua família como clientes para tomar o controle da Judeia de Hircano e Antipater, devedores de Pompeu, fazendo com que partidários de Pompeu envenenassem Aristobulus em Roma. 

No início da guerra civil entre Pompeu e Júlio Cesar, Hircano e Antipater preparavam-se para apoiar Pompeu, mas com o seu assassinato e a queda da República Romana para o Império Romano, conduziram as forças judias para apoiar Cesar, em dificuldades na Alexandria. Sua ajuda na hora certa, somada à sua influência junto aos judeus egípcios, recomendaram ambos a Cesar que os garantiu como extensão de sua autoridade na Palestina. A Judeia foi liberada dos tributos e taxas devidos a Roma e ganhou independência para administração interna.
A restauração de Hircano como etnarca (e alto sacerdote) em 47 AC, coincidiu com a indicação de Antipater como primeiro Procurador Romano da Judeia, permitindo-lhe promover os interesses de sua própria casa, colocando seus filhos Phasael, como governador de Jerusalém, e Herodes, como governador da Galileia. Com isso a tensão entre Hircano e a família de Antipater cresceu, culminando com o julgamento de Herodes por supostos abusos em seu governo e sua fuga para o exílio em 46 AC. Mas Hircano era tão incapaz e fraco que Herodes retornou em seguida e, quando defendeu-o contra o Sinédrio, frente a Marco Antônio, este retirou sua autoridade política nominal e seu título, entregando-as ao acusado Herodes, em 43 AC.
Herodes, o Grande, governador da Galileia e, posteriormente,
"Rei dos Judeus" pelo Senado Romano, em 40 AC 
Cesar foi assassinado em 44 AC e a confusão e intranquilidade se espalharam por todo o mundo romano, incluindo a Judeia. Antipater, o idumeu, foi assassinado por um rival em 43 AC, mas os filhos de Antipater assassinaram o rival, mantendo o controle sobre a Judeia e o fantoche de seu pai, Hircano.
Após o assassinato de Júlio Cesar, Quintus Labienus, um general romano republicano e embaixador junto aos Parta, alinhou-se com Brutus e Cassius (assassinos de Cesar) na guerra civil dos “Libertadores”. Com a sua derrota, Labienus uniu-se aos Partas, ajudando-os na invasão dos territórios romanos, em 40 AC. O exército parta atravessou o Eufrates e Labienus conseguiu a adesão das guarnições romanas de Marco Antônio em torno da Síria à sua causa. Os partas dividiram seu exército e, sob Pacorus, conquistaram o Levante da costa Fenícia até a terra de Israel.
Antigonus II Matatias, filho de Aristobulus II, instigou os partas a invadirem a Síria e a Palestina e os judeus apoiaram a descendência dos Macabeus, expulsando os odiados idumeus e seu fantoche rei judeu. A luta entre o povo e os romanos foi deflagrada e Antigonus, colocado no trono pelos partas, imaginou que uma nova era de independência havia chegado.
Phasael e Hircano II partiram em embaixada aos partas e foram presos por eles. Antigonus, presente ao evento, cortou as orelhas de Hircano II para impedi-lo de voltar a ser Alto Sacerdote e condenou Phasael à morte. Antigonus acumulou os cargos de rei e alto sacerdote por apenas três anos, porque não havia capturado Herodes, o mais perigoso dos seus inimigos. Herodes fugiu em exílio buscando o apoio de Marco Antônio e foi declarado “Rei dos Judeus” pelo Senado Romano, em 40 AC.
O conflito persistiu por alguns anos pois as forças romanas se ocupavam em derrotar os partas, faltando recursos para o apoio a Herodes. Finalmente, derrotando os partas, em 37 AC, Antigonus foi entregue a Marco Antônio e executado em seguida. Os romanos confirmaram a proclamação de Herodes, o Grande, como Rei dos Judeus, trazendo o fim da Dinastia Hasmoneana sobre a Judeia, 
mas não dos hasmoneanos, cujo destino foi ainda mais cruel.
O reino hasmoneano havia sobrevivido 103 anos antes de chegar à Dinastia Herodiana. Herodes, o Grande, casou com uma princesa hasmoneana, Mariane, tentando amenizar a situação. Aristobulus III, neto de Aristobulus II, por seu filho mais velho Alexander, foi feito alto sacerdote por muito pouco tempo e então executado em 36 AC, por ciúmes de Herodes. Sua irmã Mariane, esposa de Herodes, caiu também vítima dos seus ciúmes. Seus filhos, Aristobulus IV e Alexander, foram também executados por seu pai, Herodes, quando adultos.
Hircano II fora mantido pelos partas desde 40 AC e até 36 AC viveu entre os judeus babilônios que lhe prestavam todo o respeito. Naquele ano, Herodes, que ainda temia que ele pudesse reivindicar o trono, convidou-o a retornar a Jerusalém. Em vão os judeus babilônios o avisaram para não ir. Herodes recebeu-o com todo o respeito, deu-lhe o assento de honra em sua mesa e a presidência do conselho de estado, esperando por uma boa oportunidade para livrar-se dele. Em 30 AC, acusado de conspiração com o rei da Arábia, Hircano II, o último hasmoneano restante, foi condenado e executado. Como se vê, sua sede de matar não era pequena, sendo importante lembrar que esse Herodes, o Grande, é o mesmo Herodes da época do nascimento de Cristo que, segundo o Evangelho de Mateus, mandou matar todas os meninos com menos de um ano de idade, nascidos em Belém, com medo de perder o trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, que lhe fora revelado pelos Três Reis Magos.



                                                                 VI - EPÍLOGO


Herodes Antipas, governador da Galileia na era de Cristo
 Com a morte de Herodes, o Grande, em 4 AC, o imperador romano de então, Augustus, respeitou seu testamento, dividindo seu reino entre seus três filhos. Arquelaus recebeu o título de “etnarca” e foi indicado para governar as três regiões geográficas de Samaria, Judeia e Idumeia. Ele foi deposto e exilado em 6 DC, quando Roma juntou essas regiões na província romana da Judeia. Herodes Antipas, designado “tetrarca” (governador de um quarto), recebeu a Pereia e a Galileia (até 39 DC), onde Jesus viveu o seu ministério de adulto. Felipe recebeu partes mais remotas do reino, que nada interessam ao nosso contexto.
Mas além dos governadores, o poder nas diferentes regiões da Palestina era dividido por mais duas figuras, ao final dos anos 20 DC e início dos anos 30. Pôncio Pilates, romano, com a queda de Arquelaus, era o prefeito romano da grande Judeia (onde ficava Jerusalém). Por isso foi o responsável pelo julgamento de Cristo. José Caifás, também figura importante ao tempo de Cristo, era o grande sacerdote em Jerusalém, lembrando que a Samaria (pertencente à grande Judéia) não era judia ao tempo.
Em 44 DC, Roma instalou o mando de um Procurador Romano, paralelo aos reis herodianos que seguiram, Herodes Agripa I (41 a 44 DC) e Agripa II (50 a 100 DC)
A queda do Reino Hasmoneano marcou o fim de um século de governo judeu independente, mas o nacionalismo judeu e seu desejo por independência prosseguiram sob o domínio romano. Iniciaram com o “Censo de Quirinius”, em 6 DC (ao qual o Evangelho de Lucas relaciona o nascimento de Cristo), e conduziram a uma série de guerras judia – romanas, nos séculos I e II DC, incluindo a “Grande Revolta” (66 a 73 DC), a “Guerra de Kitos” (115 a 117 DC) e a “Revolta de Bar Kokhba” (132 a 135 DC).
Durante tais guerras, comunidades temporárias foram estabelecidas, mas que acabavam por cair ao poder sustentado de Roma. As legiões romanas de Vespasiano e Titus sitiaram Jerusalém, saquearam e incendiaram o Templo de Herodes (no ano 70 DC) e fortalezas judias, como Gamla (63 DC) e Massada (73 DC), escravizando e massacrando grande parte da população judia. A derrota das revoltas judias contra o Império Romano, contribuíram notavelmente para os números e a geografia da “Diáspora Judia”, a dispersão dos judeus que perderam seu estado ou foram vendidos como escravos por todo o império romano. Mas isso já é um outro grande assunto ...

terça-feira, 29 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (5) (Décima Terceira Parte)

II - OS ROMANOS NA GREAT BRITAIN - 43 DC – 410 DC

Introdução
Chamamos de Britain Romana, a parte da Great Britain controlada pelo Império Romano entre 43 DC e 410 DC, à qual os próprios romanos se referiam como Britannia. A conquista romana que iniciou em 43 DC, ilustra o profundo impacto cultural e político que pequenos números de pessoas podem proporcionar em algumas circunstâncias, já que os romanos não colonizaram as ilhas da Britain de forma significativa. Para uma população em torno de três milhões, seus exércitos, administração e aventureiros políticos adicionaram apenas uns poucos por cento.
As cidades e vilas da província foram, predominantemente, construídas por pessoas nativas adotando a nova cultura internacional do poder. A civilização greco-romana deslocou a cultura ‘celta’ da Europa da Idade do Ferro. Esses ilhéus, realmente, tornaram-se romanos, tanto cultural quanto legalmente (a cidadania romana era mais um status político do que uma identidade étnica). Pelo ano 300 DC, quase todos eram romanos na ‘Britannia’, legal e culturalmente, embora de descendência indígena, ainda a maioria falando dialetos ‘celtas'. O governo romano viu uma alteração cultural profunda, mas, enfaticamente, sem qualquer emigração de massa.
Antes da invasão romana, conforme vimos, a Idade do Ferro Britain já possuía laços culturais e econômicos com a Europa Continental, mas os invasores introduziram novos desenvolvimentos na agricultura, urbanização, indústria e arquitetura, deixando um legado ainda hoje aparente. Registros históricos, após a invasão inicial, eram esparsos, embora muitos historiadores romanos mencionassem, de passagem, a Britannia e os nomes de muitos de seus governadores fossem conhecidos. A maior parte do conhecimento da Britain Romana vem de investigações arqueológicas e, especialmente, de evidência epigráfica. Com a conquista romana surgiram os primeiros registros históricos da história da England.

A Invasão Romana
Como já mencionado, Julius Caesar havia visitado a England, em 55 e 54 AC¸ mas apenas para agradar ao seu público em Roma, como propaganda política (desde aquela época já utilizada). Realmente, em 43 DC o Imperador Claudius retornou ao trabalho de Julius Caesar, ordenando a invasão da England, sob o comando de Aulus Plautius. Não se sabe quantas legiões romanas foram enviadas; diretamente atestado, apenas a legião ‘II Augusta’, comandada pelo futuro imperador Vespasiano, tomou parte na invasão. Os romanos velejaram em três divisões e, provavelmente, desembarcaram em Richborough, Kent, embora alguns sugiram que pelo menos parte da invasão desembarcou na costa sul, na área de Fishbourne, West Sussex.
Os romanos derrotaram os Catuvelaunni e seus aliados em duas batalhas: no rio Medway e no Thames, onde teria morrido Togodumnus, um de seus líderes. Plautius suspendeu a campanha no Thames e pediu ajuda a Claudius que chegou com reforços, incluindo artilharia e elefantes, para a marcha final sobre Camulodunum - nome romano para o antigo assentamento hoje conhecido por Colchester, cidade do condado de Essex), - a capital dos Catuvelaunni.

Camulodonum, atual Colchester, próximo do estuário do Thames. entrada natural dos invasores romanos
O Estabelecimento do Governo Romano
Os romanos rapidamente estabeleceram controle sobre as tribos do sudeste da England. O chefe da tribo British Catuvellauni, Caractacus, irmão de Togodumnus, inicialmente fugiu de Camulodunum para o sul de Wales, onde esboçou alguma resistência, até a sua derrota e captura em 51 DC. Afirma-se que Camulodunum é a cidade mais velha na Britain, como registrada pelos romanos, tornando-se, posteriormente, a primeira cidade romana. De fato existe evidência arqueológica de assentamento de 3.000 anos atrás. Caractacus foi posteriormente enviado para Roma, onde fez amizades nos altos escalões, sendo finalmente libertado em reconhecimento por sua coragem e acabou morrendo em Roma. A resistência ao domínio romano continuou em Wales, particularmente inspirada pelos Druidas, chefes religiosos dos povos celtas nativos.
Por dez anos a England permaneceu calma, até a morte de Prasutagus, o rei da tribo Iceni. Boudicca, sua rainha, incomodada por ter suas terras tomadas e suas duas filhas violentadas pelos romanos, optou por uma ação afirmativa ao invés de uma abordagem diplomática. Sob a liderança de Boudicca, os Iceni, com os seus vizinhos do sul, os Trinovantes, se revoltaram, incendiando até as bases as cidades de Londinium (London), Verulamium (St. Albans) e Camulodunum (Colchester). Boudicca envenenou-se após seu exército ter sido virtualmente aniquilado pelas legiões romanas que retornavam do norte de Wales, após nova tentativa para subjugar os Druidas, em Anglesey.
Durante os anos 70’ e 80’ os romanos, sob o comando de Gnaeus Julius Agricola, estenderam seu controle ao norte e oeste da England, com legiões localizadas em York (ao norte), Chester e Caerleon (a oeste) marcando os limites da ‘Zona Civil’. Agricola ainda moveu-se em direção ao norte, derrotando as tribos Caledonian, sob a liderança de Calgacus, na batalha de Mons Graupius, ao norte da Scotland, mas gradualmente desistiu de suas conquistas na região.
Por muito tempo da história da Britain romana, um grande número de soldados formou a guarnição da ilha, fazendo com que os Imperadores colocassem um militar sênior como governador da província. Como resultado, muitos futuros imperadores romanos serviram antes como governadores ou embaixadores nessa província, incluindo Vespasiano, Pertinax e Gordian I.

Ruínas de teatro romano em Verulamium, atual St. Albans, Hertfordshire, Great Britain
 Não há fonte histórica descrevendo as décadas que se seguiram à retirada de Agricola, incluindo o nome do seu substituto. A arqueologia tem mostrado que alguns fortes romanos ao sul do istmo do Forth-Clyde foram reconstruídos e aumentados, embora outros tenham sido abandonados. Moedas e cerâmica romanas circularam em assentamentos nativos nas Lowlands scottish antes de 100 DC, indicando a crescente romanização. Contudo, em torno de 105 DC parece ter havido um sério recuo por conta dos Picts: vários fortes foram destruídos pelo fogo, indicando hostilidades nas áreas do sudeste da Scotland, embora os próprios romanos tivessem o hábito de destruir seus fortes durante retiradas ordenadas para negar recursos ao inimigo.
Ao visitar a Britannia, cerca de 120 DC, o Imperador Adriano dirigiu a construção de uma extensa muralha de defesa, conhecida como Muralha de Adriano, com comprimento de cerca 130 km, de Newcastle, na costa leste, a Carlisle, na costa oeste, projetada para marcar os limites do Império Romano. Ruínas desta muralha podem ser vistas até hoje.
Quando Adriano morreu em 138 DC, seu sucessor Antonius Pius (138-161 DC) abandonou a recém completada muralha e fez uma nova investida em direção ao norte, estabelecendo uma nova fronteira através da Muralha Antonina, construída entre as foz do rio Forth e do rio Clyde, na Scotland. Em torno de 160 DC a Muralha Antonina foi abandonada e a Muralha de Adriano novamente tornou-se o limite norte do Império Romano na Britain. Entretanto, os romanos não abandonaram totalmente a Scotland por essa época, mantendo um grande forte em Newstead com sete postos avançados menores, pelo menos até 180 DC. Enorme quantidade de prata romana foi encontrada na Scotland, a sugerir mais do que um comércio comum, sendo provável que os romanos estivessem reforçando acordos formais, pagando tributo aos seus implacáveis inimigos, os Picts.
Em 175 DC uma grande força de 5.500 homens de cavalaria da Sarmácia (atual Irã) chegou à Britannia, provavelmente para reforçar tropas lutando contra revoltas sem registro. Em 180 DC a Muralha de Adriano foi rompida pelos Picts e nessa batalha, morto o oficial comandante ou governador da Província.

Localização das Muralhas de Adriano e Antonina na Great Britain
 Ulpius Marcellus foi enviado como governador substituto e pelo ano 184 conseguiu uma nova paz, para enfrentar um motim de suas próprias tropas. Descontentes com a inflexibilidade de Marcellus, eles tentaram eleger um conselheiro chamado Priscus, como governador usurpador; ele recusou, e Marcellus deu-se por muito feliz por deixar a província com vida.

Ruínas da Muralha de Adriano na Great Britain atual
 O futuro imperador Pertinax foi enviado à Britannia para dominar o motim e teve sucesso, inicialmente. Contudo, um levante eclodiu entre as tropas e Pertinax foi atacado e deixado como morto. Enviado a Roma sucedeu, por breve período, a Commodus, como imperador, em 192 DC.
Os romanos nunca tiveram sucesso em subjugar totalmente a Britain, tendo sempre que manter uma presença militar significativa para controlar a ameaça das tribos não conquistadas. Mas a maior parte dos habitantes acatou a disciplina e a ordem romana. Cidades apareceram pela primeira vez na Great Britain, que incluíam York, Chester, St. Albans, Bath, Lincoln, Gloucester e Colchester. Todos esses centros maiores ainda encontram-se ligados pelo sistema romano de estradas militares, irradiando do grande porto de London, que também permitiam a distribuição de supérfluos romanos, como condimentos, vinhos, vidros etc., trazidos de outras regiões do império. É provável que a ‘romanização’ da Britain tenha afetado principalmente a aristocracia, que teria aumentado o seu ‘status’ adotando a forma e as práticas romanas, como por exemplo, o banho regular. A grande maioria da ‘populaça’ teria permanecido intocada pela civilização romana, vivendo da terra e ganhando a vida com dificuldade.

quinta-feira, 24 de março de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (4) (Duodécima Parte)

Antes de Roma: Os Celtas
Ao final da Idade do Ferro (os últimos 700 anos AC) encontramos nossas primeiras testemunhas oculares da Britain, através de autores Greco-romanos, incluindo Julius Caesar, que a invadiu em 55 e 54 AC. Essas revelam um mosaico de povos distintos mas há pouco indício de que tais grupos tivessem algum senso de identidade coletiva mais apurado do que os ilhéus do ano 100 DC, que se consideravam ‘Britons’. Contudo, há algo em que romanos, modernos arqueólogos e os próprios ilhéus da Idade do Ferro, concordariam: eles não eram celtas. Esta foi uma invenção do século XVIII; o nome nunca foi usado antes. A ideia veio da descoberta, cerca de 1700 DC, de que as línguas não inglesas da Ilha, se relacionam à     dos antigos Gauleses do continente, que realmente eram chamados Celtas. Este antigo rótulo étnico continental foi aplicado à mais ampla família das línguas. Mas ‘Celtic’ logo foi estendida para descrever monumentos, arte, cultura e povos insulares, antigos e modernos: a identidade ‘celtic’ nasceu, como ‘britishness’, no século XVIII. Contudo, a linguagem não determina etnicidade (o que faria os modernos ilhéus ‘Germans’, uma vez que a maioria deles fala inglês, classificada como língua ‘germanic’). De qualquer forma, ninguém sabe como ou quando as línguas que escolhemos chamar ‘celtic’, chegaram no arquipélago – elas já estavam estabelecidas há muito e tinham se diversificado em várias línguas quando nossa evidência começou. Certamente, não há razão para ligar a vinda da língua ‘celtic’ com qualquer grande ‘invasão celtic’ da Europa durante a Idade do Ferro porque não há qualquer forte evidência a sugerir que tivesse existido alguma. Os arqueólogos concordam plenamente sobre duas coisas na Idade do Ferro British: suas muitas culturas regionais se desenvolveram a partir da Idade do Bronze local precedente e não derivaram de ondas de invasores continentais ‘celtas’; em segundo lugar, chamar a Idade do Ferro British ‘celtic’ é tão enganoso que é melhor abandonar. Certamente há importantes semelhanças e conexões culturais entre Britain, Ireland e Europa continental, que refletem contatos íntimos e, sem dúvida, o movimento de algumas pessoas, mas o mesmo poderia ser dito para vários outros períodos da história. As coisas que rotulamos como ícones ‘celtas’ – tais como fortes de colina, arte, armas e joias – eram muito mais relacionadas a aspectos aristocráticos, políticos, militares e religiosos do que à etnia comum.

A Crescente Influência Romana

Pelo final do segundo século AC a influência romana passou a estender-se ao Mediterrâneo ocidental e sul da França, o que causou o crescente contato entre a Britain e o mundo romano através do English Channel (Canal da Mancha). Esse contato foi inicialmente confinado ao comércio de pequenas quantidades de bens supérfluos romanos, como vinho, provavelmente cambiados por escravos, minerais e grãos, através de locais como Hengistbury Head, em Dorset e Mount Batten, próximo de Plymouth, em Devon. Após 50 AC e a conquista da Gaul (França moderna) por Julius Caesar, esse comércio intensificou e focou o sudeste da England.
Além de relações comerciais intensas, parece que Roma estabeleceu relações diplomáticas com um bom número de tribos e pode ter exercido considerável influência política antes da conquista romana da England no ano 43 DC. No mesmo tempo, novos tipos de grandes assentamentos chamados ‘oppida’ apareceram ao sul da Britain, aparentemente para atuar como centros políticos, econômicos e religiosos. Outros apareceram como centros de produção de moedas da Idade do Ferro, que muitas vezes deram os nomes dos governantes, alguns se autodenominando ‘rex’, em latim, para ‘rei’.
Após 43 DC, todo o Wales e England, ao sul da linha da Muralha de Hadrian, tornou-se parte do império romano. Além dessa linha, na Scotland e Ireland, a Idade do Ferro e suas tradições permaneceram, com ocasionais incursões romanas na Scotland e algum comércio com a Ireland.

Tribos Nativas da Britain
As Ilhas British e as regiões tribais no primeiro século DC

Regiões Tribais Chaves

01: Caledones (Caledonii);
02: Taexali; 03: Carvetii; 04: Venicones; 05: Epidii; 06: Damnonii; 07: Novantae; 08: Selgovae; 09: Votadini; 10: Brigantes; 11: Parisi; 12: Cornovii; 13: Deceangli; 14: Ordovices; 15: Corieltauvi; 16: Iceni; 17: Demetae; 18: Catuvellauni; 19: Silures; 20: Dubunni; 21: Dumnonii; 22: Durotriges; 23: Belgae; 24: Atrebates; 25: Regni; 26: Cantiaci; 27: Trinovantes.

O mapa acima mostra a localização aproximada das principais tribos que viviam na Britain ao tempo da conquista romana, no primeiro século DC, unicamente de acordo com escritores romanos que visitaram a Britain. Um dos melhores observadores das tribos da Britain celta foi Tacitus, que escreveu sobre eventos hstóricos na Britain, seguido de um geógrafo chamado Ptolemy, que fez uma descrição da Britain, listando os nomes das muitas tribos british. Contudo, devemos tratar estes escritos com cuidado, pois os cronistas romanos muitas vezes mal entendiam os eventos british ou mesmo os nomes das tribos. Isso é especialmente verdade no que se refere às suas descrições de tribos ao norte, onde o conhecimento dos romanos era ainda mais limitado. De fato, uma informação precisa sobre onde essas tribos viviam, é inteiramente ausente de registros romanos contemporâneos.