Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (18) (Vigésima Sexta Parte)

O AMBIENTE ARTHURIANO (ÚLTIMA PARTE)
E o que dizer sobre Avalon, a Ilha mística e lugar do repouso eterno do Rei Arthur da fábula? O primeiro escritor a mencionar Avalon foi Geoffrey of Monmouth quando, em sua Historia, ele a chama “Insula Avallonis”, referindo-se a ela duas vezes: quando ele diz que a espada Caliburn, de Arthur foi forjada em Avalon e quando, após sua última batalha, ele foi transladado para lá para que suas feridas pudessem ser curadas em um berço de ouro, em troca de sua promessa de lá permanecer com Morganna.
Localização de Glastonbury, vizinho da Cornwall, a oeste e de Wales, ao norte
O local que imediatamente emerge à mente, sempre que Avalon é mencionado, é a cidade de Glastonbury, na região oeste da England, vizinho à Cornwall e ao Wales e sua reivindicação tem sido sujeita a muita controvérsia. Aninhando-se entre um grupo de colinas, Glastonbury, a mais antiga cidade cristã da England, foi, no início da Cristandade, quase uma ilha, quando a maior parte da área circundante era submersa. É, certamente, um local imponente, com sua mais alta colina, Glastonbury Tor, tendo em seu pico, uma solitária torre de pedra que pode ser vista a milhas de distância, de toda a fértil planície de Somerset, marcando as ruínas da Igreja de Saint Michael. A Tor (em português, um rochedo pontudo, ou outeiro) foi uma ilhota durante séculos pois as águas das enchentes levavam um tempo enorme para retroceder.
Glastonbury, com a Glastonbury Tor, na colina à direita, com a flecha verde
 Somerset, a região onde se situa Glastonbury, é uma abreviatura para ‘Summer Settlement’ (povoado de verão) em virtude de ser a área totalmente inundada e impossível de ser habitada durante o inverno, exceção feita à Tor. Esta era originalmente chamada ‘Ynys Witrin’ ou ‘Ilha de Vidro’ (ou ainda ‘Ilha da Visão’), ligada à terra principal somente por uma estreita faixa de terra durante a maré baixa. As pessoas que acreditam ainda acrescentam o poder de um lugar sagrado. Esse longo período de semi-isolamento pode ter, não somente preservado a natureza extraterrestre da Tor, mas também aumentado a sua aura de excepcionalidade através dos olhos da população.
Glastonbury Tor e o caminho que conduz à Torre da Igreja de St. Michael
E como veio Glastonbury a ligar-se à mística Avalon? Não existe qualquer evidência de que antes de 1190 alguém a tenha ligado à Ilha. William of Malmesbury, no início do século XII, compilou a história de Glastonbury e nem uma só vez a ligou a Arthur ou a conectou de alguma forma a Avalon. Cerca de 1140, Caradoc of Llancarfan, escreveu o primeiro texto conhecido ligando Arthur a Glastonbury, dizendo que o Abade de Glastonbury ajudou na libertação de Guinevere do rei Malwas de Somerset, mas nunca mencionando Avalon. A ligação do Rei Arthur com Glastonbury resultou de uma descoberta que se diz ter ocorrida ao final dos anos 1100’s, nos terrenos da Abadia de Glastonbury, destruída por incêndio em 1184, quando os monges iniciavam a reconstrução. Segundo consta, os monges teriam encontrado um túmulo contendo os ossos de um homem alto além de ossos menores e restos de cabelos loiros, junto com uma cruz de chumbo com uma inscrição latina que traduziria da seguinte forma:

“Aqui jaz o renomado Rei Arthur, na Ilha de Avalon, com sua segunda esposa Guinevere.”

Nem os ossos nem a cruz existem hoje, de forma que nada pode ser provado, mas a descoberta do túmulo foi muito oportuna, para dizer o mínimo, já que a Abadia necessitava desesperadamente de dinheiro para a reconstrução e a atração de peregrinos era uma maneira segura de conseguir dinheiro de contribuições para ver, não apenas o túmulo de uma lenda, mas também para conhecer a Ilha de Avalon. A menção à sua segunda esposa teria sido também um golpe de sorte, pois à época dizia-se que a esposa de Arthur chamava-se Guinevere ou Ganhumara; a existência de uma segunda esposa satisfaria a todos. Alguns anos mais tarde, quando se tornara aceito que Arthur tinha tido apenas uma esposa, foi alegado que a cruz tinha escrito apenas:


“Aqui jaz o renomado Rei Arthur, na Ilha de Avalon.”

Em 1962 o arqueólogo Dr. Ralegh Radford escavou o local em que os monges diziam ter cavado e, de fato, acharam indicações de um túmulo antigo que, sem a cruz para examinar serviria para muito pouco. Sobraria apenas a inscrição, ela própria muito controversa, pois, de acordo com o linguista de Oxford, James Hudson, o latim utilizado nada tinha a ver com o latim do século VI. Finalmente, os monges da época disseram também ter desenterrado St. Patrick, St. Gildas, e o Arcebispo Dunstan, que por mais de duzentos anos jazia em paz em Canterbury. Todas essas relíquias dúbias foram dispostas ao público e renderam generosas doações de seus adoradores para a construção da nova abadia. Consequentemente, este famoso local associado ao Rei Arthur pela Ilha de Avalon não suporta um escrutínio histórico científico.
A torre das ruínas da Igreja de St. Michael, no topo da Glastonbury Tor
Embora Geoffrey possa ter baseado sua Avalon em antigas lendas Celtic, muito pouco há de Celtic na sua descrição de Avalon, que muito tomou emprestado da mitologia clássica. A existência das nove mulheres, da deusa Celtic Morrigan (Morgan) e do próprio nome Avalon determinam a origem Celtic do tema, que por isso pode ter sido associado com a lenda Arthuriana original; mas tentar localizar Avalon é um assunto bem mais complexo e se tivéssemos que buscar uma ilha real, poderia ser praticamente em qualquer lugar. Existe, por exemplo a Ilha de Man, tomando o seu nome do deus Manannan, que teria sido o seu lar. Há também a própria Ireland, que o conto de Culhwch and Olwen identifica como Annwan. Ao sudoeste encontram-se as Ilhas Scilly que aparecem numa lenda datando do princípio da Idade Média, que teria Morganna como sua rainha. Na Scotland, Iona era chamada “A Ilha dos Sonhos”, um nome aplicado a Avalon em mis de um romance medieval. O disputante Welsh seria a Ilha Bardsey, por séculos o local de enterros de Santos e outros homens cristãos sagrados; uma lenda registrada no século XIII conta que Merln dorme numa caverna, preservando para sempre um calderão com os tesouros dos vencedores Britons.
Mas não vale à pena buscar por Arthur em qualquer desses lugares. De acordo com Geoffrey, Arthur vai a Avalon apenas para ser curado de suas feridas, sem que diga que ele foi enterrado lá ou pudesse inventar um local para tal. Antes de Geoffrey, William of Malmesbury escreveu que o túmulo de Arthur ainda não havia sido encontrado e o poema Welsh The Stanzas of the Graves (As Mansões dos Túmulos), que trata dos locais de enterros dos heróis Celtic, admite que o túmulo de Arthur permanece um mistério.
Sir Thomas Malory decidiu minimizar sues riscos sobre o assunto e partiu do ponto em que Geoffrey conduz Arthur em um barco para Avalon, buscando alívio para suas feridas, sem especificar que teria sido enterrado lá. Algumas linhas adiante, Bedivere chega a Glastonbury onde descobre um eremita pranteando um túmulo recente e pergunta quem estava enterrado ali, ao que lhe é respondido: ‘Nessa mesma noite, à meia-noite, aqui veio um grupo de damas trazendo um morto e rogou-me que o enterrasse’.  Bedivere então supõe que o corpo seja de Arthur embora o eremita não o confirme. Parece que Malory se empenhava em satisfazer os seus leitores no que se refere à Abadia de Glastonbury, sem estar convencido de que tal local poderia ser uma ilha. De fato, ele não se compromete com Glastonbury e inclui uma nova versão em que a sepultura de Arthur permanece incógnita. Infelizmente, os contos de Avalon poderiam conduzir a qualquer lugar e a qualquer conclusão.


EPÍLOGO

Depois de tudo o que escrevemos, após mais de um ano de postagens sobre este assunto, concluir sobre a veracidade ou não da figura do Rei Arthur nos parece uma questão totalmente supérflua e desnecessária. A verdade apresenta-se por si própria, naturalmente. O personagem certamente existiu e teve, inquestionavelmente, um papel muito importante na história da formação da nação e do povo da Britain. Se a própria história encarregou-se de supervalorizar a figura e a sua importância, é questão de somenos importância. É parte e desejo da natureza humana criar os seus mitos, porque deles necessita. Toda a humanidade usou dessa prerrogativa desde o início dos tempos e seria inevitável que uma nação da importância e com uma história tão brilhante como a que possui a Britain, também possuísse os seus próprios heróis, dos quais o Rei Arthur é, certamente, o mais potente deles. É, sem qualquer dúvida, uma figura majestosa, que encantou e continua a encantar não apenas o povo britânico, mas a população mundial de todos os tempos e épocas e para sempre permanecerá na memória desta e das futuras gerações.
Gostaria de encerrar essa imensa matéria, de cujo sucesso de publicação eu mesmo duvidei muitas vezes, dado o seu imenso escopo, com um texto que é apresentado na primeira e segunda páginas do livro “King Arthur – The True Story”, escrito por Graham Phillips e Martin Keatman. Nessas duas páginas, os autores foram, em minha opinião, de uma felicidade imensa na apresentação da essência da lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, tal como a conhecemos hoje e como gostaríamos que fosse lembrada essa maravilhosa história de realidade/ficção, mas sobretudo de caráter e honra, características cada vez mais raras e difíceis de serem encontradas no mundo moderno.

Em um tempo muito distante, quando a Britain era dividida e sem um rei, hordas bárbaras devastaram aquilo que havia sido um dia um fértil território. O trono apresentou-se vago para um homem certo e justo, que poderia libertar o povo do seu jugo servil e expulsar os invasores da sua terra. Mas apenas aquele, que arrancasse da pedra uma magnífica espada, provaria a si mesmo a sua herança por direito. Os anos passaram e muitos tentaram, mas a misteriosa espada permanecia firme e inflexível na velha e decomposta pedra. Então, um dia, um jovem emergiu da floresta e, para o assombro de todos, teve sucesso na missão que até o mais forte havia falhado. A multidão regozijou-se; o rei havia chegado e seu nome era Arthur!
Na ascensão do mais alto posto na terra, Arthur tomou as primeiras providências para restaurar o destroçado país. Após construir a inexpugnável fortaleza de Camelot e fundar a ordem dos destemidos cavaleiros, os Cavaleiros da Távola Redonda, o rei cavalgou adiante para varrer o demônio que havia devastado a terra. Os camponeses libertados rapidamente o tomaram em seus corações e Arthur reinou com justiça sobre seu novo e próspero reino, tomando por esposa a linda Lady Guinevere.
Até mesmo uma terrível praga que grassou pelo país foi derrotada pela recente decisão sobre os assuntos de Arthur, pois eles prepararam uma busca para descobrir o Santo Graal, um fabuloso cálice que portava o segredo da cura para todos os males. Mas como acontece frequentemente durante uma época de plenitude, sempre existem aqueles que são corrompidos pelo poder. Logo uma rebelião dividiu o reino, através de um levante armado conduzido por Mordred, o traiçoeiro sobrinho de Arthur. Contudo, havia uma, possuída pelas forças do mal, que se dispôs no coração da contenda: a misteriosa e satânica feiticeira Morganna. Na batalha final Mordred foi finalmente derrotado e Morganna destruída por Merlin, o mago da corte. Mas nem tudo correu bem, pois Arthur fora mortalmente ferido.
Enquanto jazia à morte, no campo de batalha, a última demanda feita pelo poderoso rei, foi que a Excalibur, a fonte de todo o seu poder, fosse lançada em um lago sagrado e perdida para sempre ao homem mortal. Quando a espada mágica caiu à água, o braço de uma sílfide elevou-se da superfície das águas, agarrando-a pelo punho e levando-a para baixo, nas profundezas cristalinas.
O último sono do Rei Arthur, pintura de Edward Burne-Jones, iniciada em 1881
 Quando o grande rei encontrava-se próximo da morte, ele foi, com regozijo, conduzido em uma barca à mística Ilha de Avalon, acompanhado por três misteriosas donzelas integralmente vestidas de branco. Muitos dizem que ele morreu e foi enterrado na Ilha, embora outros haja que creem que a alma de Arthur não será encontrada entre os mortos. Diz-se que ele apenas dorme e que retornará um dia.

Bons sonhos e bom descanso, Rei Arthur, nobre e valoroso cavaleiro.

domingo, 21 de agosto de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (16) (Vigesima Quarta Parte)

O AMBIENTE ARTHURIANO (PARTE 2)

Guinevere aparece num bom número de poemas Welsh da Idade Média com o nome Gwenhwyfar, que significa ‘espírito branco’, sugerindo que tenha derivado da deusa Celta Epona, representada como um cavalo branco ou uma dama branca e adorada amplamente por todo o norte da Europa em eras pré-Cristãs. Contudo é improvável que Geoffrey tenha criado a rainha de Arthur, a quem ele chamou Ganhumara, a partir de uma deusa antiga. Afinal, o nome Guinevere foi uma adição de Wace, popularizada por Chrétien.
Segundo Geoffrey, Ganhumara provinha de uma nobre família romana, mas falha em não fornecer detalhes específicos e não há registros históricos de alguma Ganhumara durante os séculos V e VI. Nos romances medievais posteriores Guinevere aparece como a filha de Leodegrance of Cameliard, casando com Arthur e tendo uma relação amorosa com Lancelot, que causaria a queda do Reino de Camelot.
Gravura da Rainha Guinevere por William Morris
Uma das primeiras histórias Arthurianas trata do sequestro de Guinevere por Maleagant e é contada na The Life of St. Gildas (cerca de 1130), por Caradoc of Llancarfan e no Welsh Dialogue of Melwas and Gwenhwyfar. A história do sequestro é a ação central em Lancelot, de Chrétien de Troyes e aparece também em Thomas Malory. Lord Tennyson apresenta Ginevere como uma pecadora que “corrompeu o objetivo” de vida de Arthur, trazendo-a, contudo, bem como a outros personagens femininos, para o papel principal, como fez um de seus contemporâneos, William Morris. Em seu poema The Defence of Guinevere, Morris é o primeiro a dar à rainha sua própria voz, iniciando uma tradição que continuaria por várias novelas futuras. Com relação aos três guerreiros mais famosos da Távola Redonda de Arthur – Galahad, Lancelot e Perceval – todos parecem ter sido invenções literárias medievais.
O último encontro de Lancelot e Guinevere (D. G. Rossetti)
Galahad é o filho de Lancelot e Elaine, concebido por artimanha que o fez crer que dormia com Guinevere. A primeira aparição de Galahad ocorre no romance medieval do Século XIII, Vulgate Cycle, surgindo no primeiro romance, Estoire del Saint Graal, onde ele é o nono da linha de Nascien; foi batizado por Josephus, filho de José da Arimatéia e um dos que levou o Cristianismo à Britain. 
Sir Galahad, o Cavaleiro Perfeito
Galahad ficou conhecido como o cavaleiro que obtém êxito na busca do Saint Grail - o Santo Graal, o cálice que guardaria o sangue de Cristo -, missão em que todos os demais haviam falhado, um tema adotado por Malory na Le Morte Darthur. Como cavaleiro eleito para tal missão, teria assento reservado à Távola Redonda no lugar do Cavaleiro do Graal. Um pequeno poema de Lord Tennyson, Sir Galahad, de sua obra Idylls of the King, apresentou a popular imagem de um cavaleiro perfeito, cuja “força era a força de dez porque seu coração era puro”.
Perceval, embora introduzido nos Romances antes de Galahad, também parece ter nascido da liberdade artística. Ele faz a sua primeira aparição no Conte del Graal (cerca de 1190) de Chrétien de Troyes, como um simples rapaz do campo que afinal transforma-se no mais exitoso dos cavaleiros de Arthur. Daí em diante ele permanece como um personagem central de quase todos os romancistas que seguem, que algumas vezes o pintam como o descobridor do Graal.
Sir Perceval, um dos três Cavaleiros do Graal
Perceval é o personagem principal de um romance da Idade Média English do século XIV, Sir Perceval of Galles, que é, aparentemente, baseado no conto de Chrétien, mas que omite totalmente o Santo Graal. No romance Le Morte dArthur, de Thomas Malory, Perceval é um dos três cavaleiros do Graal, juntamente com Galahad e Bors. Perceval funciona como o narrador do dramático monólogo que compreende a maior parte de The Holy Grail, nos Idylls of the King, de Lord Tennyson e muito do que ele narra, foca em Galahad como o cavaleiro central do Graal.
Lancelot é o maior dos cavaleiros de Arthur, filho do rei Ban of Benwick, e conhecido como "Lancelot of the Lake", por ter sido criado pela fada "Lady of the Lake".
Sir Lancelot du Lac
Entre suas muitas aventuras, encontram-se o resgate do sequestro da Rainha Guinevere por Meleagant, uma busca sem sucesso do Santo Graal e o resgate da Rainha após ter sido condenada por adultério a queimar na fogueira. Lancelot é amado por Elaine de Astolat, filha do rei Pelles, que morre por não ter o seu amor correspondido; antes disso, entretanto, engana Lancelot e o faz dormir com ela, gerando dessa união a Galahad. 
Sir Lancelot

Lancelot foi também introduzido por Chrétien de Troyes e seu caso de amor com Guinevere tornou-se fundamental em muitos dos romances posteriores. Na versão original de Chrétien, Le Chevalier de la Charrete, Lancelot simplesmente faz amor com a Rainha após uma épica busca para resgatá-la. Contudo, a Vulgate Cycle (e posteriormente Malory) eleva esse breve caso à causa da rebelião que, ao fim de tudo, destruiria o reino. Chrétien não fornece conhecimento anterior para o seu herói, mas afirma que o material para a sua história veio de sua patrocinadora, Marie, Condessa de Champagne, sem ficar claro que isso signifique que toda a história teria sido sua invenção.
Sir Lancelot e Guinevere
É possível que Marie tenha fornecido a Chrétien um personagem de um conto folclórico francês que ele teria adaptado para incluí-lo num poema Arthuriano. Como Galahad e Perceval, Lancelot parece ter sido uma adição posterior sem qualquer associação com o Arthur histórico.
Gawain, por outro lado, é um dos cavaleiros encontrados na Historia de Geoffrey, onde aparece como irmão (na verdade, meio-irmão) de Mordred e sobrinho de Arthur, filho de Morganna e Lot of Orkney. 
Sir Gawain
Com a morte de Lot, Gawain torna-se o líder da clã Orkney, que inclui seus irmãos Aggravain, Gaheris, Gareth e seu meio-irmão Mordred. Passaram-se mais de dois séculos e meio até que Gawain aparecesse como figura de proa no mais famoso de todos os romances da Idade Média English, Sir Gawain and the Green Knight (Sir Gawain e o Cavaleiro Verde), obra anônima de escritor do Noroeste das Midlands, em torno de 1400. Infelizmente, ficou demonstrado que Gawain foi outro personagem sem associação com o Arthur histórico. Há, até mesmo, considerável evidência de que foi adotado por Geoffrey de um herói de ficção francês chamado Walwanus, que aparece num grande número de manuscritos e cujas façanhas ecoam as de Gawain em muitos aspectos.
Destoando dos cavaleiros mencionados que são, basicamente, heróis do folclore Francês, surge a figura de Bedivere que, segundo Geoffrey, era Duque da Normandy e braço direito de Arthur e que, ao tempo de Malory, é o cavaleiro que, relutantemente, lança a espada Excalibur à Lady of the Lake (a Dama do Lago). 
Sir Bedivere lança a Excalibur à Lady of the Lake
Geoffrey apresenta Bedivere como um habilidoso lanceiro maneta, exatamente como ele é retratado no conto Culhwch and Olwen, embora aqui seu nome seja escrito como Bedwyr. Há grande evidência que demonstra ser esse conto um genuíno poema Celtic composto muito antes de Geoffrey, mas é impossível dizer se Bedwyr estava associado às lendas de Arthur antes do Século XII, embora seja muito provável que anteceda em muito a Geoffrey of Monmouth.
O mesmo Geoffrey concentrou-se muito em Merlin, apresentando-o como o real poder atrás do trono. Seus dois outros trabalhos Arthurianos incluem Merlin como o personagem principal: Prophetiae Merlini (As Profecias de Merlin), completadas em 1130, enquanto ele ainda escrevia a Historia, e a Vita Merlini (A Vida de Merlin), um longo poema escrito cerca de 1150. De acordo com Geoffrey, a mãe de Merlin era a Princesa de Demetia e seu pai um incubus, ou seja, um espírito que seduziu a filha real enquanto ela dormia.
Antigo reino de Demetia, hoje Dyfed, a sudoeste de Wales
O mesmo tema foi retomado por Robert de Boron, em torno de 1200, que fornece uma explicação da peculiar origem de Merlin. Em sua versão, um grupo de demônios delineia um plano para criar um anticristo que seria meio humano e meio demônio. Contudo um padre intervém e a mulher escolhida para gerar o diabo-profeta é abençoada. Embora o filho, Merlin, nasça com o dom da profecia, ele é inerentemente bom. No poema de Robert, Merlin retribui mais tarde ao padre, revelando-lhe como José de Arimatéia teria trazido o Santo Graal aos “Vales de Avalon”. Parece muito claro que pelo menos uma das supostas façanhas de Merlin tenha sido tomada de uma lenda originalmente associada a um personagem inteiramente diferente. A história relatada por Geoffrey, dos dois dragões sob as bases de uma fortaleza que Vortigern tentava construir é, exatamente, a mesma lenda relatada na Historia Brittonum de Nennius com a diferença de que nesta o mágico era Ambrosius, sem que haja qualquer intenção de confundir os dois personagens. Tudo leva a crer que a figura de Merlin foi baseada em um trovador (“bard”) Welsh chamado Myrddin que, por estar encarregado de louvar os feitos do seu protetor, gozava de notável influência na sociedade Welsh primitiva. Os “bards” eram, em geral, também considerados possuir o dom da vidência e eram por isso tidos como os mais cultos da tribo.
Merlin aconselha o Rei, de Gustave Doré
De acordo com Geoffrey, Merlin teria nascido na cidade de Carmarthen e, na tradição Welsh, o nome significaria “Cidade de Myrddin”. Na primitiva literatura Welsh, Merlin é muitas chamado Myrddin, embora os manuscritos que sobrevivem e que incluem esses trabalhos venham após Geoffrey. Nesses contos ele raramente é o mágico da corte de Arthur, mas sim o trovador, e um grande número de poemas Welsh são atribuídos a ele. Em conclusão, embora Merlin possa ter sido baseado em uma figura histórica, o Myrddin histórico parece ter vivido mais de meio século após o período do Arthur real, parecendo ter sido outro personagem erroneamente introduzido na saga Arthuriana.

sábado, 20 de agosto de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (15) (Vigésima Terceira Parte)

O AMBIENTE ARTHURIANO (PARTE 1)

Penso que devemos iniciar a análise do ambiente Arthuriano, pelo castelo do Rei, ou seja, pelo local do seu nascimento, que deveria ser o local do seu reino ou próximo dele. Posteriormente, passaremos ao seu séquito, iniciando, obrigatoriamente, pela família mais próxima de Arthur, isto é, sua irmã ou meia irmã Morgan Le Fay (Fada Morganna) ou Morganna (ou ainda Morgause? Ou Anna?) e sua esposa Guinevere.
Localização da Cornwall na England e do Tintagel Castle, na costa oeste da Cornwall
 
O Arthur da imaginação popular nasceu no Castelo de Tintagel, na costa norte da Cornwall (Cornuália), originalmente mencionado por Geoffrey of Monmouth em sua História dos Reis da Britain. Qualquer um que visite a minúscula vila, durante a estação de férias, o encontrará repleto de turistas de todas as nacionalidades, com suas ruínas resistindo à margem de Tintagel, no que é, virtualmente, uma ilha envolvida em mar espumante, ligada ao continente por uma estreita cumeeira de rocha.
Vista panorâmica da localização e ruínas do Tintagel Castle, Cornwall
 Não foi por acaso que o seu nascimento foi nesse castelo: nele habitava Gorlois, o duque da Cornwall, com sua esposa Ygerna, por quem Uther Pendragon se apaixonara e com quem conseguiu fazer amor por uma magia de Merlin, concebendo a Arthur.
Ruínas das muralhas e vigilância do Tintagel Castle
Antiga janela do Tintagel Castle e a rude costa da Cornwall
 Entretanto, historicamente, esse castelo jamais poderia ser o local de nascimento do guerreiro Arthur, que viveu séculos antes do início da sua construção, ocorrida no início do século XII, por obra de Reginald, Conde da Cornwall. Embora em defesa de Geoffrey, surgisse a sugestão de que Arthur teria nascido em um castelo que teria previamente ocupado o mesmo local, escavações modernas mostraram que o promontório havia sido anteriormente ocupado por uma comunidade monástica, tornando o local incompatível para o nascimento de quem quer que fosse.
 Na busca do centro lendário do místico reino de Arthur, Camelot, surge imediatamente o fato de que não há qualquer evidência de que tenha existido, um dia, algum local com esse nome.
Winchester, condado de Hampshire, antiga Wessex, England
A primeira vez que esse nome surgiu foi na obra de Chrétien de Troyes, no século XII, apenas no conto Lancelot, mencionado uma vez e de passagem. Durante o século seguinte, com os romancistas posteriores, Camelot começa a aparecer em detalhe gráfico, como uma cidade esplêndida e seu inexpugnável castelo. Os autores diferem consideravelmente em suas descrições, mas sobretudo falham na especificação de seus arredores.
De acordo com Malory, Camelot estaria situado em Winchester, Hampshire, e no grande saguão de entrada do Castelo de Winchester, a mais famosa das relíquias Arthurianas, a Távola Redonda, ainda existe, de carvalho maciço, pendurada em uma parede, sem as pernas, com seus imponentes 5,5 m de diâmetro e pesando aproximadamente 250 kg. No tempo de Malory muitos a consideraram genuína e se acreditou que o castelo fosse a fortaleza de Arthur; infelizmente, da mesma forma como Tintagel, tal castelo não é suficientemente velho para o período Arthuriano, tendo sido construído no século XI por William the Conqueror.

Vista externa do Great Hall de Winchester Castle

A própria mesa foi datada, por métodos científicos modernos, como do século XIV, construída durante o reinado de Edward III, quando este monarca concebeu a idéia de fundar uma ordem de cavalaria baseada nos Cavaleiros da Távola Redonda, sem qualquer ligação com o Rei Arthur do século VI.
Vista interna do Great Hall com a Távola Redonda ao fundo


Wales também tem o seu candidato a Camelot e essa seria a pequena cidade de Caerleon, às margens do rio Usk, sudeste do país, mencionada por Geoffrey como tendo sido a corte de Arthur após a sua primeira campanha na Gaul. Este foi também o local de uma das batalhas importantes de Arthur, mencionada na Historia Brittonum de Nennius, como a Cidade da Legião, antiga Isca Silurum, posto avançado romano, com grande população civil. Escavações modernas revelaram um grande número de ruínas romanas no local, incluindo um anfiteatro que alegadamente seria a origem da Távola Redonda. Entretanto, Caerleon dificilmente se ajustaria às lendas de Camelot.
Cadbury Castle, um forte de colina da Idade do Ferro, na England, foi por muitos anos proposto como o local preferido para Camelot. A tradição provavelmente surgiu como resultado da palavra Camel ter sido encontrada nos nomes de duas vilas próximas: Queen Camel e West Camel.
Localização de Cadbury na Cornwall, a mais cotada localização do Reino de Camelot


A referência mais antiga data do antiquário chefe de Henry VIII, John Leland, em 1542 que, embora dissesse que o povo acreditava que Cadbury tinha originalmente sido Camelot, nunca pode descobrir qualquer lenda Arthuriana relacionada ao forte de colina. Excavações modernas em larga escala foram realizadas em Cadbury nos anos 1960’s e embora mostrassem que o campo, como outros locais similares, tivesse sido reutilizado cerca do ano 500, nenhuma evidência desenterrada o ligou ao histórico Rei Arthur.

Mais recentemente, Camelot tem apenas sido associado com os valores que se crê ter representado, sendo algumas vezes utilizado para representar um lugar ideal.
Morgan le Fay (ou a Fada Morganna) ou simplesmente Morganna, como foi posteriormente chamada, aparece pela primeira vez na Vita Merlini, de Geoffrey, como a líder de uma ordem de nove mulheres “santas”, da Ilha de Avalon ou das Maçãs. É ela que trata das feridas mortais de Arthur, sofridas na Batalha de Camlann e, de acordo com o mesmo autor, apaixona-se por ele exigindo sua promessa de ficar na Ilha, para onde havia sido levado. Neste ponto de evolução da lenda Arthuriana, ela não era sua irmã, mas apenas uma figura mística e curandeira, somente assumindo esse papel com a obra de Chrétien de Troyes.
Pode parecer estranho aos leitores das versões mais modernas da História Arthuriana que nos romances mais antigos Morganna fosse uma bondosa e fascinante mulher e não a malévola feiticeira em que depois se transformou. Foi principalmente graças à Vulgate Cycle, compilada cerca de um século após Geoffrey, que Morganna é transformada numa bruxa má cuja mágica destrói o reino. Embora ainda conduzindo o ferido Arthur para Avalon, ela despreza Guinevere, seduz a Lancelot e, constantemente, conspira contra ambos.

Morgana lançando a Excalibur no lago

Na Morte dArthur, de Sir Thomas Malory, Morganna é uma das três filhas de Igrayne e do Duque da Cornwall e, portanto, a meia irmã de Arthur por parte da sua mãe. Mais tarde torna-se esposa do rei Lot of Orkney e mãe de Gawaine, Gaheris, Agravaine, Gareth e Mordred, filho incestuoso com o Rei Arthur. Em adaptações modernas da lenda Arthuriana, baseadas em Malory, o episódio do incesto é totalmente arquitetado pela própria Morgause, e ela é, não apenas a mãe biológica de Mordred, mas também a sua mãe psicológica, usando-o como uma ferramenta para destruir o seu pai. Morgana é também apresentada como a permanente adversária de Arthur: ela dá a espada Excalibur ao seu amante Accolon para que ele possa usá-la contra o Rei Arthur (uma história recontada no poema de Madison J. Cawein Accolon of Gaul) e quando a trama falha, ela rouba a bainha da Excalibur que protege Arthur e a lança em um lago. No Sir Gawain and the Green Knight ela é apresentada como a instigadora da visita do Green Knight à corte do Rei Arthur, parcialmente motivada pelo seu desejo de amedrontar Guinevere, cuja inimizade tem sua origem no Lancelot da Vulgate, onde Morgana tem um relacionamento com Guiomar, primo de Guinevere, que põe fim ao caso. Morgana também é dita ser a esposa do Rei Uriens e a mãe de Yvain ou Ywain, raramente aparecendo em trabalhos pós-medievais, até o século XX quando surge um interesse renovado em seu caráter. Dependendo do texto, ela é, algumas vezes, confundida com Anna (em Historia Regnum Brittaniae, de Geoffrey of Monmouth ou em Brut, de Layamon), com Morgause tornando-se então a mãe de Mordred, como no caso do filme Excalibur, de John Boorman e em alguns romances modernos, ou ainda com Belisent (como em Alliterative Morte Arthure dos Idylls of the King, de Lord Tennyson). Uma das mais interessantes representações modernas de Morgana aparece no Arthur Rex (Arthur Rei) de Thomas Berger, onde após uma vida devotada ao mal ela decide tornar-se freira por sua crença em que “a corrupção foi desde cedo trazida à humanidade pelas forças da virtude”.
The Wicked Day, de Mary Stewart, demonstra o insaciável apetite de Morgause por homens mais jovens, notadamente por Lamorak, filho do Rei Pellinore. Ao descobrir Morgause em flagrante com o jovem cavalheiro, Gaheris assassina sua mãe num ataque de fúria e, mais tarde, com a assistência de seus irmãos, persegue e mata Lamorak num combate claramente injusto.
A notável exceção à grande tradição de tratar Morgause como vilã nas novelas modernas é Marion Zimmer Bradley, em suas The Mists of Avalon. Nessa novela, a primeira representação de Camelot de uma perspectiva quase totalmente feminina, Morgause é uma afetiva figura de mãe, uma forte intelectual esposa do Rei Lot e, mais tarde, uma esposa sexualmente liberada. Ao mesmo tempo, a sua crueldade em alcançar seus fins políticos é realçada pela insensibilidade de Morgaine e Viviane. A Morgause de Bradley apenas encontra o seu término na velhice, derrotada pela rejeição de um potencial amante mais jovem.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

UMA PEQUENA HISTÓRIA DA INGLATERRA CONTADA POR UM GAÚCHO DE PORTO ALEGRE, DESCENDENTE DE PORTUGUESES E RESIDENTE EM GRAMADO - A HISTÓRIA PROPRIAMENTE DITA (14) (Vigésima Segunda Parte)

A LENDA DO REI ARTHUR E SEU SÉQUITO

Até aqui tudo é histórico, se essa credibilidade podemos conceder a todos os documentos mencionados até então. Nesse caso, como e por quais razões teria ocorrido a evolução dos fatos históricos sobre Arthur, para esse magnífico conjunto de lendas que tanto encantou e continua empolgando milhões de pessoas em todo o mundo ao longo de vários séculos de civilização? Para que se chegasse até as fabulosas narrativas montadas em torno de tão ilustre personagem, uma longa caminhada teve que acontecer e desta tentaremos identificar pelo menos alguns passos, para mantermos acesa a chama da lenda.
Inicialmente é preciso que se diga que a impressão que se tem é que Arthur teria sido, alegadamente, o rei de cada Reino Celta conhecido. O Século VI certamente viu muitos homens chamados Arthur nascidos entre as famílias reais celtas da Britain, mas, a despeito das tentativas de identificar o grande homem entre eles, há pouca dúvida de que essas pessoas apenas foram assim chamadas em sua honra. Muitas vezes, príncipes com outros nomes eram identificados com a palavra “Arthwyr”, que muitos hoje têm certeza de ser um título, semelhante a “Vortigern”, ao invés de um nome próprio. Bem recentemente, um historiador chamado David Nash Ford, editor do Departamento de História da “Britannia”, uma companhia sediada no Delaware, USA, com mais de 80 prêmios desde que lançou sua publicação de mesmo nome em 1996, na WEB, adotou essa linha de raciocínio e publicou um artigo com uma série de Reis Arthur, Arthwyr e assemelhados que teriam governado pequenos reinos na England durante o final do Século V e início do Século VI. Trata-se de uma reunião de artigos de vários autores, que são analisados quanto à sua possibilidade de veracidade com relação ao Rei Arthur original. Suas conclusões foram muito pessimistas.
Deixando de lado os adornos aportados, da Renascença para a frente, em geral e por tudo quanto vimos até agora acredita-se que existiu um Arthur real: a grande figura do longo conflito entre British e Saxons foi Arthur, guerreiro de tradições romanas, líder de uma força móvel encarregado da proteção da integridade da província romana. Entretanto, é muito menos claro se ele realmente teria sido um rei ou apenas um guerreiro. Acredita-se que ele tenha sido o líder das forças “britonicas”, tendo sido morto após a batalha de Camlann, cerca de 515 DC.
Além disso, a favor da historicidade do Rei Arthur, o fato de que há documentos Welsh que narram lendas envolvendo o nome de Arthur, remontando ao Século VII. Há vários exemplos dessa afirmação. A figura de Arthur apareceu, pela primeira vez, na literatura Welsh. “The Gododdin”, um dos mais antigos poemas que sobrevivem, escritos em Welsh, pelo “bardo” (um poeta profissional) Aneirin, em torno do ano 594 DC, contém a referência conhecida mais antiga de Arthur. Teliesin, um contemporâneo de Aneirin, dito ter sido, ele próprio, um bardo de Arthur, em seu poema “O Trono do Soberano”, faz referência a “Arthur, o Abençoado”. Outro trabalho de Teliesin, “Preiddeu Annwn”, menciona o valor do guerreiro; e “Jornada para Deganwy” lembra um tempo “na Batalha de Badon com Arthur, principal doador de festas, com suas enormes espadas vermelhas da batalha que todos os homens lembram”.
Há, pelo menos, três elementos muito importantes que devem ser considerados nessa matéria que temos tentado relatar. Primeiramente, parece-nos suficientemente claro que, tal como nos foi pintado através de livros, filmes, relatos etc, o Rei Arthur realmente não existiu, infelizmente para nós que somos amantes de toda essa maravilhosa lenda Arthuriana. Se existiu – e tudo leva a creditar que, de fato, tenha existido – agora já sabemos que terá sido um chamado “dux bellorum” – “senhor das guerras” -, um guerreiro importante, certamente descendente dos romanos, que haviam recém deixado a Britain cerca de 410 DC, que teria vivido da última metade do século V para a frente, tendo deixado este mundo pela primeira metade do século VI. De forma alguma poderia ter tido a aparência com que nos brindaram os autores de suas façanhas do século XII e dos que se seguiram, muito menos aquela que nos foi apresentada através dos filmes modernos dos séculos XX e XXI. Muitos argumentos podem ser apresentados além dos vários que já o foram, para garantir essa afirmação. Naquela época em que ele teria vivido, a Britain não possuía ainda um rei único, mas apenas líderes tribais ou pequenos reinos; a nação continuava sem uma unicidade de comando, pela origem das várias tribos, pela presença dos anglo-saxons que a dominavam militarmente, pelas tentativas ainda presentes das invasões dos picts da Scotland, dos scots da Ireland, e pela grande diversidade cultural existente nas várias regiões do país. Além disso, o ambiente em que nos é apresentado o Rei Arthur que conhecemos e o seu próprio séquito, nada tem a ver com o meio em que vivia o Arthur de sua real época, quase de barbárie. Hoje ele nos é apresentado como são pintados - embora nem isso seja verdade -, os personagens da plena Idade Média.
Um outro aspecto que nos parece muito importante mencionar é a razão principal da criação do mito Arthuriano. Quando os Anglo-Saxons invadiram a Britain, no início do século V, os romanos havia estado por lá durante 4 séculos e haviam implantado uma cultura que se mesclou com a dos nativos britons ou celtas, como queiram, além de deixarem uma descendência romana, criando uma nova raça que rejeitaria, de qualquer forma, quaisquer novas tentativas de invasão. Sem o suporte do poderio bélico romano, na ocasião em que uma reação, de fato, esboçou-se aos invasores anglo-saxon, era muito importante o surgimento da figura de um líder, fisicamente real, mas com poderes sobre humanos, capaz de criar na nova raça British a sensação de que, lutando sob a sua liderança, seria capaz de resistir à ocupação e expulsar os potenciais novos invasores. Esse poderoso líder seria Arthur. Por outro lado, quando da Invasão Normanda, no Século XI, a tática utilizada foi exatamente a mesma, mas agora, ironicamente, pelos novos invasores normandos. Não podemos esquecer que o novo conquistador, William da Normandia, com os seus liderados, consideravam-se cristãos (de fato, haviam sido batizados), descendentes da cultura romana, que havia subjugado anteriormente toda a Gaul (França). Opondo-se a uma raça de pagãos considerados como bárbaros, com relação aos “civilizados” britons, eles representariam, de certa forma, o retorno ao cristianismo introduzido, originariamente, pelos romanos, dos quais Arthur seria um descendente direto. Dessa forma, o ressurgimento do mito Arthuriano nos séculos XI, XII e posteriores, teria vindo de encomenda para ligá-lo aos novos conquistadores, como se descendentes dele o fossem. E a figura de Arthur retornou com toda a força pelos escritos de Geoffrey de Monmouth, Thomas Malory e tantos outros da época e posteriores.
Outra característica importante, que chama a atenção de qualquer pesquisador do mítico Rei Arthur, é o fato de que a maior parte do romantismo da lenda, envolvendo os vários personagens e elementos místicos que compõem o seu círculo, tal como o conhecemos hoje, foram sendo incorporados ao longo do tempo, pelos vários autores que sobre ele escreveram. Entre esses elementos, estão incluídos os contos de Camelot, Avalon, o Cálice Sagrado, bem como os tão cantados e decantados Lancelot, Gawain e Galahad, que serão comentados mais adiante.
Em síntese, a moderna história Arthuriana foi popularizada pelo clérigo Welsh Geoffrey of Monmouth, através de sua obra “História dos Reis da Britain”, escrita em torno de 1135. De acordo com ele, Arthur teria nascido no Castelo de Tintagel, na Cornwall e, após vários feitos notáveis, teria sido finalmente transportado para a Ilha de Avalon, após ter sido ferido na Batalha de Camlann, na mesma Cornwall. O trabalho de Geoffrey of Monmouth rapidamente instigou a imaginação popular, inspirando escritores de toda a Europa a relatarem as aventuras do Rei Arthur.

Castelo de Tintagel, berço do Rei Arthur, segundo Geoffrey of Monmouth
O primeiro deles foi o poeta Wace (para saber mais sobre Wace, siga o link), da Ilha de Jersey, na costa da Normandia, que compôs, em 1155, o poema “Romance de Brut”, que contém uma importante adição à história Arthuriana de Geoffrey, qual seja, a “Távola Redonda”; apta a acomodar 50 cavalheiros de Arthur, seu objetivo principal, segundo Wace, era promover um senso de igualdade entre os nobres da época.
Entretanto, foi o escritor francês Chrétien de Troyes o principal responsável pelo estabelecimento do Rei Arthur como um assunto da moda da literatura romântica. Nas suas cinco histórias Arthurianas, escritas entre 1160 e 1180, Chrétien imaginativamente desenvolveu a narrativa introduzindo noções de cavalaria e romance palaciano medievais. Foi ele que introduziu muitos dos cavalheiros (incluindo Sir Lancelot), além de introduzir o som mais lírico Guinevere para o nome da rainha e Camelot como o nome da corte do Rei Arthur.
O Rei Arthur presidindo à Távola Redonda

Nas décadas seguintes, o Rei Arthur foi a grande moda e ao final dos anos 1190, Robert de Boron compôs uma trilogia de versos Arthurianos e foi responsável por introduzir um dos temas mais populares da história, o Santo Graal, ganhando com isso credibilidade cristã. Em consequência, o padre English Layamon, escrevendo em torno de 1200, foi o primeiro a relatar a saga em inglês nativo. Seu trabalho “Brut” foi uma adaptação da obra de Wace e na sua versão Arthur sobrevive como um imortal na sagrada Ilha de Avalon, com a promessa de que retornará um dia.
Pelo início do Século XIII, o restante dos temas já haviam sido adicionados ao que viria a tornar-se a história Arthuriana aceita. Entre 1215 e 1235 um número de histórias Arthurianas, coletivamente conhecidas como “Vulgate Cycle” (Ciclo da Vulgata) foram reunidas anonimamente e tornaram-se responsáveis por muitos dos adornos complementares, em particular a noção de que Mordred seria o filho incestuoso de Arthur com sua irmã Morgause. Também conhecida como “Lancelot – Graal”, “Prosa sobre Lancelot” ou ainda “Ciclo do Pseudo-Map”, o “Vulgate Cycle” é a maior fonte da lenda Arthuriana escrita em francês e em prosa, em vez de verso. Trata-se de uma série de cinco volumes - sobre cuja autoria os estudiosos divergem -, que narram a história da busca pelo Santo Graal e do romance de Lancelot e Guinevere. O “Post-Vulgate Cycle” (O Ciclo da Pós Vulgata) é, essencialmente, um remanejo do “Ciclo da Vulgata” anterior, com retiradas de alguns trechos e adição de outros. Os dois ciclos de trabalhos são considerados uma das mais importantes fontes da obra “A Morte de Arthur”, de Thomas Malory.
Seguindo o “Ciclo da Vulgata”, sucessivos escritores adicionaram outros temas, até que o final do Século XV produziu a mais conhecida versão da lenda Arthuriana, “Le Morte Darthur” (A Morte de Arthur), por Sir Thomas Malory (para saber mais sobre Thomas Malory, siga o link), de Newbold Revel, em Warwickshire. Completada em 1470, a obra foi impressa por William Caxton em 1485 e, como tal, foi um dos primeiros livros publicados com ampla circulação. A obra consiste de oito contos separados que Malory originalmente intitulou “The Whole Book of King Arthur and his Noble Knights of the Round Table” (O Livro Completo do Rei Arthur e seus Nobres Cavalheiros da Távola Redonda). “A Morte de Arthur” era, originalmente, o título do último conto, que sobreviveu até o dia de hoje como o título simplificado da obra completa. “Le Morte Darthur” inicia com Arthur concebido como o filho ilegítimo de Uther Pendragon e, tendo crescido em segredo, prova ser o legítimo pretendente ao trono inglês ao conseguir retirar a espada de uma pedra (falaremos sobre essa espada, que nada tem a ver com a espada Excalibur). Ele desposa Guinevere, cria os Cavalheiros da Távola Redonda em Camelot – que Malory identifica como Winchester -, gera Mordred (ou Modred, em Welsh Medraut ou Medrod), de um provável incesto com sua meia irmã Morgause (ou Anne ou Ana). Após um período de prosperidade, os Cavalheiros de Arthur iniciam a busca pelo Santo Graal, durante a qual Lancelot consuma uma relação adúltera com a Rainha Guinevere. Finalmente a relação é descoberta por Arthur que persegue Lancelot já em território francês, deixando Mordred como regente do trono, que tenta usurpar. Na batalha final de Camlann, Mordred morre e Arthur é mortalmente ferido, sendo transportado em barco para o Vale de Avalon. Após a batalha, a espada Excalibur é, relutantemente, lançada à Lady do Lago por Sir Bedivere, enquanto Lancelot e Guinevere entram para ordens religiosas, terminando suas vidas em paz.
A morte de Arthur segundo James Archer. pintando a lenda desde 1859

Esta foi a evolução da história Arthuriana na literatura. Mas é ela totalmente ficção ou possui alguma base histórica? Embora possam ter usado exagero artístico em seus épicos Arthurianos, os romancistas medievais parecem aceitar a realidade histórica de Arthur, conforme já exposto anteriormente, embora não tenham certeza quanto às datas dos eventos que descrevem, infelizmente, ponto crítico para descobrir quando Arthur teria vivido. Para completar a nossa apresentação, daremos uma caminhada pelo ambiente gerado por todos esses romancistas em torno do Rei Arthur e seus Cavalheiros da Távola Redonda.