Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

terça-feira, 17 de novembro de 2009

BOA NOITE, MRS. CALABASH, ONDE QUER QUE ESTEJA

Uma vez eu escutei, não lembro mais onde, nem quando (já tudo começa a perder-se, nas brumas do tempo ...), uma melodia maravilhosa, cantada por uma voz e uma interpretação únicas. Não se tratava, de forma alguma, de uma grande voz, uma voz maravilhosa, mas apenas uma voz inesquecível, como também a melodia, diga-se de passagem. Não descansei mais enquanto não descobri a canção e o seu intérprete: tratava-se da antiga “Make someone happy”, interpretada por Jimmy Durante. Não demorou muito e consegui importar um CD inteiro – The Best of Jimmy Durante - gravado por ele; e foi com agradável surpresa que, nesse disco, além da música que eu buscava, descobri um conjunto de outras jóias raras. O disco inteiro é uma jóia só, mas quero, nesse artigo, tocar levemente na primeira canção mencionada acima, que foi o grande motivo da minha busca, mencionar de passagem uma segunda, “I’ll be seeing you” e dedicar, a maior parte do texto, a uma terceira do mesmo CD, chamada “I’ll see you in my dreams”.
Pelo menos as duas últimas músicas não são, absolutamente, do meu tempo, como a gente costuma dizer, toda vez que não quer parecer tão velho como é, em realidade. Lembro-me, vagamente, de minha mãe mencionar o nome do intérprete algumas vezes, não como cantor, propriamente dito, mas como ator de cinema, meio cômico, no mais das vezes.
“Make someone happy” (“Faça alguém feliz”) é uma canção popular que ficou famosa, (relativamente) recentemente, através do filme de 1993, “Sleepless in Seattle”, interpretada pelo mesmo Jimmy Durante. A letra e a música dessa canção foram criadas por Betty Comden, Adolph Green e Jule Styne e ela foi originalmente criada para o musical, de 1960, “Do, Re, Me”, estrelada por Phil Silvers, Nancy Walker, David Burns, John Reardon, Nancy Dussault e interpretada por Nancy Walker.
“I’ll be seeing you” – “Estarei vendo você” - é uma canção popular criada para o musical da Broadway “Right This Way” – “Exatamente dessa forma” -, que fechou após quinze apresentações, apenas. A música foi escrita por Sammy Fain, a letra por Irving Kahal e a canção foi publicada em 1938. Já vêm que eu tinha razão quando dizia que as músicas não eram do meu tempo, visto ter eu nascido em 1944. O tema musical tem forte poder emocional e foi muito apreciada durante a Segunda Guerra Mundial. Apresentada ao longo de todo o filme de 1944, também intitulado “I’ll be seeing you”, estrelado por Ginger Rogers e Joseph Cotten, a sua gravação por Bing Crospby tornou-se um sucesso naquele ano (oh, ano do meu nascimento!), chegando a número um na segunda semana de julho. Mais tarde a canção tornou-se notavelmente associada ao pianista Liberace, como o tema do seu espetáculo de televisão na década de 1950.
“I’ll see you in my dreams” – “Verei você em meus sonhos” -, também uma canção popular, das mais famosas e cantadas dos seus dias, foi escrita por Isham Jones, com letra de Gus Kahn. Essa, ainda mais antiga que as anteriores, foi publicada em 1924 e originalmente gravada pelo próprio Isham Jones e a Orquestra de Ray Miller. Permaneceu no quadro das mais tocadas por dezesseis semanas durante o ano de 1925 e por sete semanas como a número 1. A canção foi escolhida como a canção título do filme de mesmo nome, uma biografia musical de Gus Kahn. Posteriormente, foi gravada por muitas vozes famosas, que incluíram Mario Lanza, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, além de Jimmy Durante e ainda outros. Mais tarde, a canção tornou-se a trilha sonora do filme “Kitty Foyle”, de 1940, que premiou Ginger Rogers com o seu único Oscar como melhor atriz principal.
Desde que ouvi essa melodia pela primeira vez, fiquei muito curioso com a frase com que Jimmy Durante encerra a sua interpretação de “I’ll see you in my dreams”: Good night, Mrs. Calabash, wherever you are (Boa noite, Senhora Calabash, onde quer que esteja). Como a música é muito romântica, pus-me a conjeturar sobre o objetivo da despedida, ao final da música. Vamos às possibilidades!
James Francis “Jimmy” Durante, nascido a 10 de fevereiro de 1893 e falecido a 29 de janeiro de 1980, nas vésperas de celebrar 87 anos, era um cantor e ícone do cinema americano, pianista, comediante e ator, cuja distintiva ironia, linguagem cômica pesada, canções com influência no jazz e o enorme nariz – suas freqüentes piadas sobre o próprio apêndice criaram uma espécie de auto referência que tornou-se o seu apelido: “Schnozzola”, mistura de “nose” (nariz em inglês) com a sua descendência italiana – ajudaram-no a torná-lo uma das personalidades mais familiares e populares entre os anos 1920’s e os anos 1970’s.
Jimmy Durante trabalhou, por muitos anos, em shows de rádios e suas apresentações eram tradicionalmente reconhecidas por duas marcas registradas: “Inka Dinka Doo” como seu tema de abertura e a sua invariável assinatura de despedida “Good night, Mrs. Calabash, wherever you are”. Por anos, Jimmy Durante preferiu manter vivo o mistério, mas acabou condescendendo.
Uma das teorias é de que a frase referir-se-ia à proprietária de um restaurante da cidade de Calabash, na Carolina do Norte, onde Jimmy e sua trupe haviam parado uma vez para comer. Ele teria sido tão tocado pela comida servida e pelo bate-papo que teria dito à proprietária que a faria famosa; como não soubesse o seu nome, ele se referia a ela como Mrs. Calabash. De fato, ao momento do encontro, a proprietária não fazia a menor idéia da pessoa com quem estava falando. Residentes de longa data de Calabash confirmam que ela era uma pessoa real com um nome real, Lucille “Lucy” Coleman. Em 1940, Lucy teria 28 anos de idade e gerenciava um restaurante na cidade, à época uma minúscula comunidade a beira-mar, limitando com a Carolina do Sul. A filha de Lucy, Clarice Holden, disse que jamais esqueceria o que aconteceu após a conversa entre os dois. “Quando Mr. Durante e seu grupo estavam se encaminhando para a saída, após a refeição, ele voltou-se para a minha mãe e disse: boa noite Mrs. Calabash.” Lucy Coleman morreu em 1989, quase 50 anos  após seu encontro  com Jimmy Durante; os residentes de Calabash acreditam que a saudação de boa noite de Jimmy Durante era a sua maneira de dizer a Mrs. Coleman: “Olá, Lucy, eu lembro de você, se você ainda estiver por aí, agora.” Aparentemente, a popularidade de Jimmy Durante era tão grande que ele podia imortalizar a proprietária de um pequeno restaurante do Sul.
A outra teoria – sou mais simpático a essa – é de que esse “boa noite”, de despedida, seria a sua saudação pessoal à sua falecida primeira esposa, Jeanne Olsen, que ele desposou em 19 de junho de 1921 e perdeu no Valentine’s Day (espécie de Dia dos Namorados e/ou dos Amigos, festejado nos EUA) de 1943. A palavra “Calabash” pode ter sido uma típica mutilação de Jimmy Durante com relação à palavra “Calabasas”, o local do Sul da Califórnia onde o par teria constituído o seu lar durante os últimos dias da vida de Jeanne. Num encontro do “National Press Club”, em 1966 (transmitido no programa “NBC’s Monitor”), Jimmy Durante revelou que a saudação era, de fato, um tributo à primeira Mrs. Durante. Certa vez, enquanto dirigindo pelo interior, eles pararam numa pequena cidade chamada Calabash, pela qual Mrs. Durante teria se apaixonado. Ele se lembrava que a cidade situava-se próximo de Chicago. Assim, “Mrs. Calabash” tornou-se o seu apelido íntimo; anos mais tarde ele passou a assinar a sua despedida do programa de rádio com a saudação “Good Night, Mrs. Calabash”. Ele adicionou o resto “... wherever you are”, ao final do primeiro ano do programa.
Não é muito importante saber qual das duas versões seria a verdadeira; ambas são muito bonitas e é emocionante ouvi-lo dizer a frase ao final da música. Se vocês nunca a ouviram, convido-os a escutar agora, não apenas “I’ll see you in my dreams”, mas também as duas primeiras mencionadas: “Make someone happy” e “I’ll be seeing you”, pelas quais tenho um especial carinho. Mas prestem muita atenção à terceira, “I’ll see you in my dreams” e, principalmente, ao seu final, quando ele diz “Good night, Mrs. Calabash, wherever you are”, e vocês hão de concordar que é impossível ouvir essas canções sem se apaixonar pelo fantástico romântico “narigudo”, Jimmy Durante.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

VILA OLIVA

O estado do Rio Grande do Sul possui 496 municípios, sendo que um dos mais importantes, por destacar-se como a principal cidade do pólo metal-mecânico na região serrana, é o de Caxias do Sul. Este município possui 10 subprefeituras que envolvem as quatro regiões administrativas – Ana Rech, Desvio Rizzo, Forqueta e Galópolis – e os seis distritos - Criúva, Fazenda Souza, Santa Lúcia do Piai, Vila Cristina, Vila Seca e Vila Oliva. Este “post” é uma pequena homenagem a este último distrito de Caxias do Sul: Vila Oliva.
Localizado a cerca de 45 km de Caxias do Sul, o distrito de Vila Oliva é formado por campos, ótimos para a criação de gado e ovelhas, e por terras de cultura agrícola. A localidade pertencia, anteriormente, ao município de São Francisco de Paula, até que em 1954 a população requisitou sua anexação a Caxias do Sul através de um plebiscito que lhes deu ganho de causa, fazendo com que a localidade passasse então a ser um dos distritos de Caxias do Sul.
Em 1932 os irmãos Francisco e Luiz Oliva adquiriram 33.000 km² de terra, em sua maioria coberta de pinheiros e mata nativa, e começaram a explorar a madeira de pinho. Como a madeireira exigia mão de obra, diversos funcionários dos Irmãos Oliva adquiriram terrenos nas proximidades, dando origem à Vila que homenageou seus fundadores. Posteriormente as terras foram divididas e vendidas a colonos que se dedicavam à agricultura.
Os irmãos Oliva tiveram papel fundamental na construção da vila, pois construíram a atual estrada que a liga à área urbana do município. Além disso, indenizaram os donos de terrenos e construíram cercas laterais por conta própria com a intenção de transportar a madeira que exploravam até a capital do Estado.
Hoje o distrito possui uma população de aproximadamente 1300 habitantes. Sua principal atividade econômica é a fruticultura, tendo como principais produtos cultivados a maçã, o caqui e a ameixa. Ainda há, como produção representativa, os hortigranjeiros, a pecuária de corte e a extração vegetal.
E de onde vem o meu interesse pessoal em Vila Oliva?
Eu nunca havia ouvido falar nesse nome, em minha vida, até o dia em que fui estudar no Colégio Anchieta, de Porto Alegre. Quando menino, cumpri os quatro anos do ginásio daquela época, nesse Colégio, entre os anos de 1955 e 1958. Naquela época, os padres Jesuítas dirigiam e lecionavam no Colégio Anchieta, que então se localizava na Rua Duque de Caxias, muito próximo da Catedral Metropolitana e ao lado do Museu Júlio de Castilhos. Em minha opinião, os Jesuítas sempre foram professores extraordinários e sempre pretenderam proporcionar aos seus alunos uma educação muito saudável, nunca descurando de qualquer dos seus componentes, aí incluindo, obviamente, o aspecto religioso.
Paralelamente ao aspecto educacional, sempre se preocuparam com o fato de que os alunos tivessem seu tempo ocioso preenchido, tanto quanto possível, com atividades saudáveis e, preferencialmente, supervisionada. Para tanto, o complexo educacional anchietano contava com instalações exemplares tanto em Porto Alegre como fora da capital. Assim, eram muito conhecidos dos alunos do Anchieta e de seus pais, o Morro do Sabiá, em Ipanema, com a sua Casa da Juventude e as suas várias modalidades de atividades desportivas, a casa de Retiro Vila Manresa, num dos morros da Glória e a sua casa de férias de Vila Oliva, município de Caxias do Sul.
Sempre gostei muito e pratiquei esportes de vários tipos e, por essa razão, me dei muito bem no Anchieta. Freqüentava com assiduidade todas as suas instalações e atividades, sem esquecer as suas capelas no próprio Colégio ou fora dele, onde aprendi a ajudar às missas, tornando-me um “coroinha” ou sacristão, segundo a terminologia mais adequada. Mas era particularmente adepto das férias em Vila Oliva, sempre esperadas com muita ansiedade, tanto nos recessos de inverno, em julho, como nos de verão, quando poderiam acontecer em janeiro ou fevereiro.
Essas férias sempre foram uma experiência inesquecível, para nós, meninos entre os seus 11 e 15 anos de idade. Era a ocasião em que nos afastávamos dos pais por um período então nunca imaginado, que podia variar de 15 a 30 dias seguidos. Era uma verdadeira aventura! A começar pela própria viagem que, para se tornar menos cara, era realizada de trem, de Porto Alegre até Caxias e em ônibus, muito pouco confortável, de Caxias até Vila Oliva. Lembro que muitas vezes, os pais não conseguiam controlar a sua ansiedade e nos faziam pelo menos uma visita dentro do período de afastamento da casa – e como essa visita era bem vinda! – pois mesmo numa época de pura diversão e entretenimento, às vezes a saudade apertava e era sempre muito bom voltar a ver os pais. Sem contar que, quando iam, eles sempre lembravam de nos levar algumas guloseimas, raridade por lá e muito importante, tendo em vista que na Casa da Juventude, em Vila Oliva, embora pagássemos por essas férias, a alimentação era farta, mas jamais com supérfluos. Os padres não podiam dar-se ao luxo das guloseimas que sempre podíamos desfrutar quando em nossas casas. Essas viagens eram verdadeiras temeridades se fossem realizadas sem correntes colocadas sobre os pneus, dado o estado em que ficavam as estradas de terra, entre Ana Rech e Vila Oliva, na eventualidade de ocorrência de chuvas pesadas.
Considerando que os padres jesuítas tornavam-se, durante o período das férias, responsáveis por um número considerável de jovens alunos (que podia atingir a mais de 120 alunos), as atividades diárias tinham que ser muito bem planejadas e organizadas. Lembro, por exemplo, que todos os alunos eram separados em cerca de 10 Turmas, que sentavam-se sempre às mesmas mesas e tinham lugares pré-determinados nos dormitórios. Recordo, também, que eram poucos os padres que participavam das férias (não me lembro de que fossem mais de meia dúzia por período) e por isso, contavam eles sempre com ex-anchietanos, mais velhos e comprovadamente responsáveis, para ajudá-los, constituindo-se eles nos Chefes de Turmas. Além disso, a cada dia, um dos alunos era indicado, pelo padre mais graduado, para ser o “Fiscal do Dia”; este carregava consigo um apito e era, durante aquele dia, uma espécie de responsável pelo fiel cumprimento de todas as atividades diárias, nos seus respectivos horários, de acordo com uma agenda pré-estabelecida pela autoridade maior da casa. Essas atividades incluíam eventos desportivos, religiosos, sociais, trabalhos, além dos horários de refeições, banho e descanso, tudo perfeitamente organizado.
A Casa da Juventude de Vila Oliva incluía instalações adequadas para a realização de todas as atividades mencionadas. Entre elas, a própria casa, num laranja berrante, com os dormitórios, refeitórios, lavatórios, sempre limpíssimos, e as salas de jogos, que incluíam ping-pong, sinuca, fla-flu (pebolim ou totó) e jogos de carta e outros, de salão; a capela, da mesma cor da casa, para as missas diárias e outras atividades religiosas; a piscina, com trampolim, a quadra de futebol de salão e o mais esperado, o campo de futebol, de tamanho profissional. Ainda havia, no alto de uma colina junto à casa, uma cobertura com bancos formando um grande círculo, que servia como uma espécie de corte de justiça e teatro onde eram realizadas as chamadas Reuniões da Noite. Nessas reuniões, também diárias, aconteciam duas espécies de eventos, um imediatamente após o outro. Na primeira parte da noite era realizado o temível ajuste de contas das faltas diárias praticadas pelos alunos, com punições que variavam desde a perda da “mariola” de sobremesa até a proibição de participar de alguma evento especialmente agradável ao potencial punido. Na segunda parte da Reunião eram realizadas pequenas apresentações de teatro, de cantores ou instrumentistas e as famosas anedotas teatralizadas, tudo preparado pelos alunos e supervisionado pelos chefes de turma. Eventualmente, sempre aconteciam atividades especiais, como por exemplo um concurso de saltos ornamentais no trampolim da piscina e até mesmo um banho de piscina inesperado num dos padres, de batina e tudo, sempre façanha de responsabilidade dos alunos mais velhos.
Mas o grande evento das férias, sem qualquer dúvida, pelo menos para uma grande maioria dos alunos, era o Campeonato de Futebol, disputado durante todo o período das férias, no sistema de pontos corridos, entre pelo menos meia dúzia de times organizados de forma a tornar a competição o mais equilibrada possível, jogando todos contra todos. Nem mesmo os padres escapavam de presenciar, vez por outra, uma pancadaria generalizada entre jogadores de duas equipes que, certamente, haveriam de acertar as contas com a justiça na próxima reunião da noite.
Essa competição só era ultrapassada, em importância, pela sempre esperada disputa entre o time principal do Anchieta e o time da Vila Oliva. Essa era sempre levada muito a sério e não foram poucas as vezes em que o jogo encerrou-se com pancadaria. Já começa que o jogo era sempre apitado por residente da Vila e mais de uma vez, o bandeirinha que anulava os nossos ataques (sempre da Vila), trocava de lado, junto com o time, ao término do primeiro tempo. O time do Anchieta, pelas duras faltas praticadas pelo time da Vila, que não punha limite de idade aos seus atletas, era sempre formado pelos alunos mais velhos e mais fortes. Lembro perfeitamente de uma vez em que, por qualquer razão, faltou um jogador ao time do Anchieta e eu pedia, desesperado, aos padres que organizavam o evento, para que eles me deixassem jogar; eles bem conheciam as minhas habilidades futebolísticas, mas temerosos de me colocarem, com apenas 11 ou 12 anos de idade, para jogar contra adultos e sujeito a me machucar sem necessidade, se negavam a concordar com meus rogos. A solução foi encontrada quando, pela sugestão de um dos bons jogadores mais velhos, os padres concordaram com que eu jogasse, com a promessa de que eu não disputaria, de forma alguma, jogadas previsivelmente perigosas ou ríspidas. Foi uma promessa que nunca pude cumprir e me orgulho muito de ter desempenhado muito bem o meu papel, sem maiores conseqüências pessoais no plano físico, pelo que saí de campo muito festejado.
A Vila resumia-se, praticamente, a uma rua central, onde ficava o único Hotel existente, o único restaurante idem, e o único armazém de grande porte idem, idem. Mas como tudo parecia tão grande e maravilhoso! O hotel da vila servia como hospedagem aos pais dos alunos, quando realizavam as suas visitas; e no armazém comprávamos o presente que não poderia faltar para as nossas mães, quando do nosso retorno ao lar. Aos fins de semana, quando nossas folgas eram maiores, sempre achávamos um jeito de driblar a vigilância dos padres e dar uma fugida a uma das vinícolas locais para fazer a famosa “degustação” dos vinhos caseiros e da célebre “verdinha”, cachaça feita de menta e de um verde cristalina inesquecível.
E haveria ainda muitas outras coisas para contar, como as maravilhosas aventuras em nossos acampamentos, as fugidas para os passeios de barco no lago da represa ... Devo muito a essa Vila Oliva, de lembranças inesquecíveis do meu tempo maravilhoso do ginásio no Colégio Anchieta. Ainda volto lá, qualquer dia desses, para matar as saudades e rever as paisagens inesquecíveis de tempos tão alegres e sem arrependimentos...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O FAMOSO RUBICÃO

Muitos, com certeza, lembrar-se-ão das suas aulas de História Geral do segundo grau, quando o professor emocionado, literalmente declamava a célebre frase de Júlio César, ao atravessar o rio Rubicão: “Alea Jacta Est!”. Estas foram três coisas que, de fato, pelo menos eu, nunca esqueci: Júlio César, a frase e o Rubicão. Mas o que eu não entendi, na época, foi o real significado do fato, a sua importância e também porque nunca mais se falou do Rubicão e nem ao menos mostrou-se a região por onde ele corria. Aliás, até aí, nenhuma novidade; na minha experiência pessoal, nunca os professores de história daquele tempo ensinavam as coisas que realmente importavam no estudo da História. Na mentalidade dos professores da época, apenas datas e nomes eram as coisas importantes; as origens dos fatos, suas causas e conseqüências eram raramente mencionadas. Entretanto, no caso em particular, há pelo menos duas grandes e boas razões para que o Rubicão fosse, posteriormente ao fato, tão desprezado, senão totalmente esquecido.



A pequena cidade que aparece no centro da primeira foto chama-se “Savignano sul Rubicone”. Na verdade, “Comune de Savignano sul Rubicone”, situada na região nordeste da Itália, próximo de San Marino, Rimini e Cesena. Savignano é uma Comuna (municipalidade) que faz parte da Província de Forli-Cesena, na região italiana de Emilia-Romagna, localizada a cerca de 90 km de Bolonha e 30 km a sudeste de Forli, às margens do Mar Adriático.



Um pouco a esquerda do centro da foto, dentro do pequeno retângulo, pode-se enxergar uma pequena ponte sobre um rio. A foto seguinte, ampliação da foto anterior, mostra com mais clareza a antiga ponte romana que justamente atravessa sobre o pequeno “fiume Rubicone”; seu curso encontra-se materializado e pode ser acompanhado, na foto seguinte, pela linha negra, até a sua foz no Mar Adriático, em Forli, próximo à cidade mais importante de Rimini. Suas nascentes, que não são vistas na foto, localizadas nos montes Apeninos, situam-se a cerca de 30 km da sua foz. A próxima foto mostra em detalhe a ponte romana e o Rio Rubicão na atualidade.


A cidade tomou o seu nome do Rubicão, rio que se tornou famoso pela histórica travessia de Júlio Cesar, quando retornava a Roma, vindo da Gália Cisalpina. Desde então, uma combinação de modificações naturais e criadas pelo homem fizeram com que o Rubicão alterasse o seu curso repetidas vezes. Por séculos, a exata localização do curso original ficou desconhecida. Em 1933, o Fiumicino, um rio que atravessa a cidade de Savignano Sul Rubicone, foi identificado como a mais provável localização do Rubicão original. Antes disso a região se chamava Savignano di Romagna.



À época de Júlio César, o rio era considerado como a materialização do limite sul da Província da Gallia Cisalpina ao norte, separando-a da Itália, propriamente dita, ao sul. O rio tornou-se notável uma vez que a lei romana proibia que o rio Rubicão fosse atravessado por qualquer legião do exército romano; dessa forma, a lei assim protegia a República de ameaça militar interna. Quando Júlio César atravessou o Rubicão com o seu exército em 49 AC, supostamente em 10 de janeiro do calendário romano, para prosseguir em seu caminha para Roma, ele quebrou a lei romana e armou um conflito inevitável. Nessa ocasião, segundo o historiador Suetonius, Júlio César teria lançado a famosa frase latina “alea jacta est”, significando: a sorte está lançada! De uma certa forma, foi a travessia deste rio, por Júlio César, com suas legiões, que precipitou uma guerra civil na República Romana, finalmente conduzindo ao estabelecimento do Império Romano.



A Gallia Cisalpina (Gallia deste lado dos Alpes, lado de Roma) era o nome romano dado a uma área geográfica (mais tarde uma província da República Romana) no território do norte da Itália dos dias modernos (incluindo a Emilia-Romagna, Friuli-Venezia Giulia, Liguria, Lombardia, Piedmont, Trentino-Alto Adige/ Sudtirol e Veneto), habitada pelos Celtas. Em oposição, encontrava-se a Gallia Transalpina, região correspondente, do outro lado dos Alpes (sempre com relação a Roma). A província da Gallia Cisalpina foi anexada à Itália no ano 42 AC, como parte do programa de “italização” de Otávio (Imperador Augustus) durante o Segundo Triunvirato. A partir desse momento desapareceu a importância do Rubicão como acidente geográfico, pois deixava de representar a linha de fronteira do extremo norte da Itália. A decisão de Augustus fez com que o Rubicão perdesse muito de sua importância e, enquanto as memórias desvaneciam, o nome “Rubicão” gradualmente desapareceu da toponímia local.



Para completo azar do Rubicão, após a queda do Império Romano e durante os primeiros séculos da Idade Média, a planície costeira entre Ravenna e Rimini foi inundada várias vezes e durante esses períodos, como é natural ocorrer, este e vários outros pequenos rios da região tiveram seus cursos alterados. Por esta razão e também para possibilitar a regularização dos cursos d’água e a irrigação dos campos ribeirinhos, com o renascimento da agricultura após a Idade Média, durante os séculos XIV e XV, várias obras hidráulicas foram implantadas; o resultado final foi, muitas vezes, a completa retificação dos rios, como ainda hoje é feito com freqüência. Com o passar dos séculos, vários rios da costa italiana do Adriático entre Ravenna e Rimini foram considerados como sendo o antigo Rubicão. Em 1933, após vários séculos de esforços, como já mencionado, o rio chamado Fiumicino (por acaso, “pequeno rio” em italiano), que atravessava a cidade de Savignano di Romagna (atualmente Savignano Sul Rubicone), foi oficialmente identificado como o Rubicão original.



Hoje, muito pouca evidência existe da passagem histórica de César. Savignano Sul Rubicone é uma cidade industrial e o rio tornou-se um dos mais poluídos da região de Emilia-Romagna. A intensa exploração das águas subterrâneas no curso superior do Rubicão, junto com o natural esgotamento de suas nascentes, tem reduzido consideravelmente suas descargas. E o velho Rubicão acabou perdendo, além da sua fama, o seu próprio curso natural, a não ser em seu curso superior entre colinas baixas, ainda vegetadas e agora tristes. A foto ao lado mostra a foz do rio Rubicão, no Mar Adriático.


Hoje, a sua antiga fama permanece apenas na consagrada frase “Atravessar o Rubicão”, uma expressão popular consagrada com o significado de ultrapassar o ponto sem retorno, referindo-se à travessia do rio por Júlio César no ano 49 AC, considerada na época um ato de guerra.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SANTA HELENA, A TRISTE ILHA DE NAPOLEÃO (2/2)

Lembro aos meus leitores e amigos que quiserem ler o texto completo, que comecem pela primeira parte (1/2), publicada anteriormente; infelizmente, por configuração do blog, ela encontra-se abaixo desta (2/2).

Santa Helena (Saint Helena, em inglês) é um território britânico ultramarino do Atlântico Sul, localizado praticamente a meio do oceano, mas geralmente englobado nos territórios africanos por se encontrar mais perto da África do que da América do Sul. A ilha, entretanto, curiosamente foi descoberta em 1501 pelo navegador galego João da Nova, enquanto a serviço de Portugal. João da Nova dirigia-se à Índia, tendo nessa viagem também descoberto a ilha de Ascensão. Entretanto, Portugal nunca colonizou a ilha rochosa e sem praias, que veio a ser ocupada pela marinha inglesa no século XIX.

Colônia até 1981, o território é constituído pela Ilha de Santa Helena (122 km² e 4.255 habitantes) e por duas dependências muito afastadas: Ascensão (91 km² e 1.122 habitantes), a noroeste, e Tristão da Cunha (207 km² e 284 habitantes), ao sul. Relativamente à ilha de Santa Helena propriamente dita, o território mais próximo é a ilha de Ascensão, seguindo-se a costa africana do sul de Angola e do norte da Namíbia, a leste. Sua capital é Jamestown.


Longwood House foi a residência oficial de Napoleão Bonaparte durante seu exílio na ilha de Santa Helena, de 10 de dezembro de 1815 até a sua morte em 5 de maio de 1821. A casa situa-se numa planície varrida pelo vento, cerca de 6,5 km distante de Jamestown. Originalmente a residência de verão do Tenente Governador, ela foi convertida  para uso de Napoleão em 1815. O governo britânico reconheceu sua inadequabilidade como lar do ex-Imperador e seu séquito e, ao tempo de sua morte, havia construído uma nova casa, próxima daquela, que, infelizmente, ele nunca chegou a ocupar.

Após a morte de Napoleão , Longwood House foi revertida à Companhia das Índias Orientais e, posteriormente, à Coroa Inglesa, passando a ser usada para finalidades agrícolas. Relatórios sobre o seu abandono chegaram a Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte, inicialmente Presidente e, posteriormente, Imperador da França. Desde 1854 negociava ele com o governo britânico  a sua transferência à França. Em 1858 Longwood House foi transferida ao governo francês junto com o Valley of the Tomb por uma soma de £7.100 (sete mil e cem libras). O Valley of the Tomb (Sane Valley) foi o local escolhido por Napoleão para o seu túmulo, muito simples, sem qualquer ostentação. Ele chegou até Sane Valley em uma de suas solitárias caminhadas e ficou deleitado pela paisagem de paz e pelas plantas que lá cresciam. Desde então, ambos têm estado sob controle do Ministro das Relações Exteriores Francês e um representante do governo francês vive na ilha, como responsável pelo gerenciamento das duas propriedades. Em 1959 uma terceira propriedade, The Briars, onde Napoleão passou os seus dois primeiros meses na Ilha, enquanto Longwood estava sendo preparado, foi também doado ao governo francês.
Como resultado da destruição pelos cupins, o governo francês considerou a demolição do prédio na década de 1940. Longwood House e Balcombe House, nos Briars, foram demolidas nessa época, mas Longwood House foi salva e tem sido fielmente restaurada por curadores franceses. Os degraus de pedra na entrada constituem a única parte original da estrutura a sobreviver. Os restos mortais do Imperador encontram-se hoje nos Invalides, em Paris.
Atuamente, a indústria do turismo local explora muito tal particular aspecto da história, bem como o calmo estilo de vida da população de Santa Helena. Por não possuir praias e ser o seu litoral completamente rochoso, a ilha sempre foi utilizada como prisão. Não há uma saída fácil do seu interior, a não ser através da capital, Jamestown.

Santa Helena não possui aeroporto, sendo todo o transporte de pessoas e cargas feito através de barcos. Existe um projeto para construção de um aeroporto, que provavelmente será concluído no ano de 2010, como forma de viabilização econômica da ilha, principalmente através do turismo. Santa Helena é ainda muito dependente de recursos vindos da Inglaterra.




Um triste fim? Sim, muito triste para um homem que realizou, ao longo da sua atribulada vida, feitos tão memoráveis. Um fim justo? Bem, Napoleão julgou a si próprio quando declarou, já em Santa Helena, sozinho com suas reflexões: “O infortúnio também encerra glória e heroísmo. Se tivesse morrido no trono, com a auréola da onipotência, a minha história ficaria incompleta para muita gente. Hoje, mercê da desgraça, posso ser julgado por aquilo que realmente sou”.  É tarefa impossível, para qualquer outro mortal, julgá-lo com justiça. Deixemo-la aos cuidados de Deus!

SANTA HELENA, A TRISTE ILHA DE NAPOLEÃO (1/2)


Toda a vez que ouço falar ou cito Santa Helena, a ilha para a qual Napoleão Bonaparte foi desterrado após o seu último governo dos “Cem Dias”, não posso deixar de enxergar a triste figura do ex-imperador francês e conquistador de quase toda a Europa, sentado em um dos seus rochedos, cabisbaixo e meditabundo. E deduzo que ele estaria, possivelmente, rememorando os seus dias de glória, mas também, certamente, avaliando e pesando as suas ações durante o período em que o mundo a ele se curvava, com medo.
Esse artigo não pretende falar sobre a vida de Napoleão, mas sim sobre a ilha, pouco conhecida, onde o ex-imperador - que, ao contrário de Carlos Magno que humildemente dirigiu-se a Roma, convocou o Papa para coroá-lo em Paris -, passou seus últimos e solitários dias. Entretanto, para que os leitores possam, com mais fundamento, raciocinar ou emitir opinião acerca do merecimento ou não do seu triste fim, apresentamos também um curtíssimo resumo da sua trajetória desde o início da sua notabilidade nas cortes européias e do mundo. Como em geral acontece, a pesquisa tornou-se demasiado longa para uma só publicação, razão pela qual este “post” refere-se apenas à primeira parte da idéia. A segunda parte será publicada imediatamente, a seguir.
Digam o que disserem os historiadores que forem contra, e sejam os motivos os que foram, à época, a grande verdade é que Napoleão Bonaparte, de general francês vitorioso, em pouco tempo tornou-se imperador da França, com o mesmo poder absoluto da realeza que a Revolução Francesa, que não era sua, derrubara pouco antes.
Napoleão Bonaparte começou a destacar-se, militarmente, em 1795, ao sufocar uma revolução monarquista em Paris, após o término do período do terror, numa Revolução já combalida. Após ter-se destacado na guerra contra a Itália e na Campanha do Egito, foi escolhido para chefiar o golpe que depôs o Diretório, com o auxílio de militares e membros do governo, em 10 de novembro de 1799 ou, segundo o calendário republicano, no 18 Brumário, sendo designado General-em-Chefe  do Exército do Interior. Entretanto, a derrubada do Diretório não lhe foi suficiente e após aquela, dissolveu também a Assembléia e implantou o Consulado, numa ditadura disfarçada, além de retomar princípios do Antigo Regime e encerrar dez anos de lutas revolucionárias que influenciariam, como influenciaram profundamente, os movimentos de independência na América Latina e a organização dos países da Europa.
O Consulado foi o período de 1799 a 1804, durante o qual Napoleão promulgou uma nova Constituição, reestruturou o aparelho burocrático e criou o ensino controlado pelo Estado. Em 1801 declarou o Estado leigo, com a subordinação do clero às autoridades seculares. Em 1804 promulgou o Código Napoleônico, que garantia a liberdade individual, a igualdade perante a lei, o direito à propriedade privada, o divórcio e incorporou o primeiro código comercial. Entretanto, como se não bastasse, no mesmo ano Napoleão criou o seu Império – coroando-se Imperador, com o nome de Napoleão I -, espécie de monarquia vitalícia sustentada pelo êxito das guerras e reformas internas. E, como não poderia deixar de ser, em 1805 a França voltou a adotar o tão bom e antigo calendário gregoriano, sofrendo um governo ditatorial, com censura à imprensa e repressão policial e do exército.

A partir desse estado de coisas, Napoleão passou a intervir em toda a Europa, derrotando as tropas austríacas, prussianas e russas, passando a controlar a Áustria, Holanda, Suíça, Itália e Bélgica. Avançou na Espanha, enfrentando a resistência de guerrilheiros locais e obrigou a família real portuguesa, temerosa da expansão napoleônica, a fugir, em 1808, para o Brasil, sua colônia na América.
Em 1806, após a derrota da marinha francesa na Batalha de Trafalgar, na Espanha, para a marinha britânica do Almirante Nelson, Napoleão decretou o “Bloqueio Continental” contra a Inglaterra, proibindo que qualquer país europeu abrisse seus portos ao comércio com a Inglaterra, com o óbvio objetivo de enfraquecer os ingleses e, ao mesmo tempo, reservar o mercado continental europeu às manufaturas francesas. Em 1807 o bloqueio recebeu a adesão da Espanha e da Rússia; Portugal, tradicional aliado da Inglaterra, recusou-se a aderir, sendo invadido pelas tropas francesas.
Em 1812 o Império Napoleônico incorporou 50 (cinqüenta) milhões dos 175 (cento e setenta e cinco) milhões de habitantes do continente europeu e introduziu as reformas burguesas nos demais países da Europa, quebrando as estruturas feudais remanescentes. Impôs o sistema métrico decimal, implantou o direito moderno e (pasmem, mesmo sendo um Imperador!) difundiu amplamente as idéias de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa.
No mesmo ano, pretextando punição contra o abandono do Bloqueio Continental pela Rússia, Napoleão declarou guerra a Moscou, mas, subestimando o famoso inverno russo, transformou a sua própria campanha num completo desastre. O formidável escritor russo Tolstoi declara, explicitamente, em seu monumental romance “Guerra e Paz”, que é lenda a história de que, diante da iminência da invasão o governador russo teria ordenado o incêndio da cidade após o abandono da sua população; segundo ele, tal incêndio teria sido, na verdade, acidental. Fato ou lenda, o exército napoleônico encontrou apenas destroços e, sem possibilidade de reabastecer seus suprimentos, dos seus 600 mil soldados conseguiu manter apenas cerca de 37 mil, para a desastrada retirada que ainda sofreu permanente assédio da guerrilha russa até às vizinhanças de Paris.
Tal derrota estimulou a formação de uma coalizão que reuniu russos, ingleses, espanhóis, prussianos, suecos e austríacos contra a França. Em1813, os exércitos aliados conseguiram derrubar o sistema napoleônico e libertar a Alemanha, a Holanda e o norte da Itália. Em 1814 tomaram Paris e formaram um governo provisório, dirigido por Talleyrand, que depôs Napoleão desterrando-o para a Ilha de Elba, na costa Italiana. Os Bourbon retornaram ao poder e entronizaram Luís XVIII, irmão de Luís XVI, guilhotinado durante a Revolução Francesa.
Napoleão, do fundo de seu retiro, nunca deixou de informar-se do que sucedia no continente. Conhecendo as deficiências do governo enfraquecido, sabia que o exército queria vê-lo novamente no comando. Em tais circunstâncias, Napoleão fugiu da Ilha de Elba e desembarcou na costa Meridional da França, a 1º de março de 1815, sendo recebido em toda a parte com alegria delirante pelos camponeses e pelos ex-soldados. Entrou triunfalmente em Paris a 20 de março de 1815 e, a partir daí, reinou por mais cem dias, desta feita de forma moderada, organizando o regime através de um “Ato Adicional” à Constituição, tornando-se um “imperador liberal”.
Entretanto, os soberanos estrangeiros coligados, reunidos no Congresso de Viena e surpreendidos com o acontecimento, renovaram a aliança, declararam Napoleão fora da lei e levantaram novo exército destinado a, definitivamente, destruir Napoleão Bonaparte. Entendendo ser melhor tomar a ofensiva, a fim de frustrar os planos de seus inimigos, Napoleão marchou sobre a Bélgica e venceu os prussianos, comandados por Blücher, em Ligny. Entretanto, em 18 de junho de 1815, em Waterloo, foi fragorosamente derrotado pelo Duque de Wellington e pelo general Blücher, à frente de um exército coligado. Entregando-se aos ingleses foi por eles deportado em exílio definitivo, no dia 21 de junho, para Santa Helena, uma pequena ilha perdida no Atlântico Sul, onde morreu em 5 de maio de 1821.