Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 8 de março de 2016

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 10 - Última)

X - CONCLUSÃO


E aqui encerramos esta verdadeira empreitada. Mais longe não importa ir, já que o objetivo da postagem era apenas a Revolução Russa. O que segue é a continuação de um regime que se foi gradativamente atenuando, com uma brusca reviravolta ao final da década de 1980, em direção a um capitalismo econômico, embora ainda mantendo um sistema autoritário de governo, com imprensa controlada e restos do famoso regime comunista, relativamente recente e plenamente documentado para uma busca fácil. Entretanto, à guisa de conclusão, eu gostaria de colocar uma séria pergunta aos meus leitores, para motivar uma discussão adicional: A Revolução Russa terá valido à pena?
Em primeiríssimo lugar, eu mesmo que coloco a pergunta já me antecipo e digo que de pouco adianta colocar essa questão, porque ela, boa ou ruim, de fato aconteceu e nada mais se pode fazer a respeito, além do fato de que uma quantidade significativa de pessoas pondera que “nada neste mundo acontece por acaso”.
Em segundo lugar, tal questão deveria ser colocada ao povo russo e a mais ninguém, porque foi ele que sofreu a revolução e porque, segundo os líderes revolucionários, foi em nome desse povo russo que ela foi realizada. É conversa aceita, em geral pelos profissionais revolucionários, que as revoluções são produto do povo. Entretanto, é muito fácil de entender, que Povo nenhum faz revoluções se não contar com líderes carismáticos e, principalmente, sem meios materiais importantes: armas principalmente, mas também transportes, meios de comunicação, alimentos e recursos financeiros. Na minha modestíssima opinião, a revolução russa não teria sequer acontecido – e muito menos saído vitoriosa – se os seus líderes não se tivessem aproveitado do fato de que a Rússia estava participando da Primeira Guerra Mundial. E, na falta de outras provas, a maior delas foi o fracasso de todos os seus movimentos anteriores visando melhorar as condições de vida do atrasado povo russo daquela época e substituir o poder absoluto do Czar por um poder menos tirano. Isso foi conseguido? 
Ruínas de instalações de Gulag, Sibéria
De tudo o que li e pesquisei para a realização do presente trabalho, nunca entendi que o povo russo sequer pretendesse sacar do poder o Czar, quanto mais transformar o regime vigente (fosse qual fosse à época) num regime marxista/socialista/comunista. O povo russo da época era extremamente ignorante em sua grande maioria e não é preciso rever estatísticas para aceitar essa assertiva. Não podemos confundir a nobreza, o clero e os militares russos da época do Czar, que viviam em São Petersburgo e Moscou, com o povo russo, vivendo num país rude, de clima inclemente e solo pouco produtivo (o solo mais produtivo da Rússia encontrava-se na Ucrânia)! O povo russo era composto de 95% de camponeses que habitavam uma nação de fantásticas dimensões territoriais, em sua maioria muito afastados do poder central e, em consequência, sem poder ser devidamente atendido por esse mesmo poder; além disso, a imensa maioria desse povo não possuía a menor ideia do que fosse socialismo, marxismo ou comunismo. O que esse povo queria era o que o povo de qualquer país ou região sempre desejou: alimento, moradia, educação para os seus filhos, mínimas condições de saúde e segurança. E o povo russo não possuía absolutamente nada disso. Isso poderia ter sido conseguido sem a revolução russa? Obviamente que sim! Nem o mais maquiavélico marxista / comunista se atreveria a dizer que não. Todos os países antigos ou modernos que não adotaram o comunismo, estão aí para demonstrar que sim. Alguns desses países possuíam condições de vida até mesmo piores que os russos, tiveram as suas revoluções e não fizeram essa escolha. E aí, na minha opinião, reside a grande maldade que os líderes revolucionários russos perpetraram contra o seu povo. Esses líderes, todos com problemas pessoais brutais, viveram longe do povo russo, na Europa; eram estudiosos das doutrinas marxistas e usaram esse mesmo povo para implementar a sua ideologia, na melhor das hipóteses, porque acreditavam, possivelmente, que poderiam resolver os seus problemas dessa forma. Mas não apenas isso. Não vou ao ponto de dizer que tivessem agido de má intenção, para prejudicar o povo, já que eram parte da nação. A menos da seríssima intenção de derrubar o Czarismo, até mesmo por fortes razões pessoais. Porque, na verdade, tiveram inúmeras oportunidades para resolver os problemas do povo de forma pacífica, sem matança e refugaram essas oportunidades, como ficou claramente demonstrado por tudo quanto se escreveu nessa postagem. No início da Revolução em fevereiro de 1917, o Czar já havia renunciado, havia um governo provisório constituído, pronto para formar um regime social democrático. Mas para os bolchevistas isto não era suficiente; o mais importante era a vitória da ideologia comunista. Além disso, não apenas não devemos desprezar, como devemos colocar como razão principal, a ambição pessoal de todos os líderes revolucionários da história, não apenas da revolução russa, pelo poder. Se não fosse assim, eu pergunto, por que os líderes revolucionários tornaram-se ditadores ao final da revolução ao invés de entregarem o poder ao povo? Por que um Stalin tornou-se o ditador que, na história, mais concentrou poder em suas mãos e mais matou amigos e inimigos, antes, durante e após o período revolucionário? Por que o mesmo fato ocorreu na revolução francesa, a mais decantada e celebrada revolução da história e ícone para os próprios revolucionários russos, onde os líderes, em ondas sucessivas se devoraram uns aos outros, passaram de uma monarquia a uma república, até o surgimento de um Napoleão, imperador absoluto de uma nação que fez uma revolução para tirar um rei e que, em menos de 30 anos retornava à monarquia? Que também teve um “Reino do Terror”, mas onde, pelo menos, as mortes foram contadas aos milhares e não aos milhões! Os líderes russos se aproveitaram da ignorância do povo russo para impor à nação russa a sua ideologia, adquirida durante os seus anos de exílio no exterior, uma ideologia estrangeira, importada, com duplo objetivo, se quiserem, nessa ordem: resolver, sim, o problema social do povo russo, mas implementar a ideologia marxista, em que acreditavam e, com ela, a tomada do poder com a queda do Czarismo. 
Aleksandr Solzhenitsyn,, Vladivostok
(extremo sudeste da Rússia), verão de 1994
A entrada da Rússia na 1ª Grande Guerra, grandemente favoreceu os objetivos de tais líderes. As condições de vida do povo foram agravadas por todas as razões deste mundo: recursos financeiros e materiais necessários à guerra, envio de soldados do povo para serem mortos, carência cada vez maior de recursos na pátria em alimentos e todas as demais consequências de uma guerra dessas proporções, em que o exército russo estava sendo fragorosamente derrotado. Tais líderes usaram exatamente essas bandeiras para contarem com a adesão e colaboração do povo: o término da guerra e alimentos para o povo. Notem a coincidência das datas da revolução russa com o início da derrocada da Rússia na 1ª Grande Guerra: 1917. E esses líderes saíram vencedores, em nome do povo, do mesmo povo que, posteriormente, foi brutalmente morto aos milhões, por fome e por fuzilamentos, em nome da mesma revolução que os redimiria.
Voltando à pergunta “Valeu à Pena?”, a história encarregou-se de contar o que aconteceu, através da desintegração da União Soviética em 15 países independentes, formalmente decretada em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração No 142 do Soviete Supremo da União Soviética, reconhecendo a independência das antigas Repúblicas Soviéticas e criando a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), seu colapso sendo saudado pelo oeste como uma vitória da liberdade e um triunfo da democracia sobre o totalitarismo, após 74 anos de sofrimentos. Entretanto, a desintegração soviética já se iniciara em março de 1985, com a eleição de Mikhail Gorbachev para o cargo de Secretário Geral, pelo Politburo. Mas o mais importante não foi, propriamente, o fim do regime, mas sim o reconhecimento do seu fracasso pelos novos líderes que emergiram, do ponto de vista social, econômico e político, como amplamente divulgado pela mídia internacional. De uma certa forma, um replay ampliado do que já acontecera com a morte de Stalin e a ascensão de Khrushchev, em 1953. Some-se a tudo isso, o fato de que são vários os autores que já disseram e têm dito, que Marx e Engels, criadores da teoria comunista, teriam se horrorizado se tivessem vivido para ver o que os líderes da revolução russa fizeram em nome do Marxismo/Socialismo/Comunismo. Ainda muito mais apoiados pelo fato de que tal tipo de revolução somente poderia ocorrer a partir de países desenvolvidos, com a indústria e o proletariado já bastante avançados. Tal seria o caso da Alemanha e Inglaterra, principalmente, razão pela qual tais líderes muito tempo viveram na Alemanha e Suíça, por exemplo.
Finalmente, mesmo considerando que a Revolução Comunista da Rússia tivesse valido à pena, não poderíamos deixar de perguntar: valeu à pena para quem? Para os líderes revolucionários que já estão todos mortos e nem sequer viveram para ver o resultado final? Para o povo, que vivenciou a revolução e sentiu na carne o seu drama particular, ou que viu os seus parentes, filhos, mães e pais morrerem de fome ou assassinados por um pelotão de fuzilamento, ou ainda morrerem esgotados num campo de trabalhos forçados? Ou para os que ainda viveram para ver a queda de Stalin, a esperança renovada ou ainda o fim da União Soviética, sonho de muitos russos? Que os leitores cheguem às suas próprias conclusões.
Afirmo aos meus leitores que foi imensa a bibliografia consultada para a elaboração dessa pesquisa (e daí não relacioná-la toda), que resultou nessas cinquenta e três páginas de texto, muito condensadas. Entretanto, para os que ainda quiserem se aprofundar mais no assunto que, obviamente, possui uma quantidade imensa de material produzido, apresento abaixo apenas alguns poucos títulos, que tratam de assuntos mais específicos, deixando para os meus leitores a tarefa de buscarem os mais genéricos, até mais fáceis de serem encontrados. 
Nem o grande líder Lenin escapou à derrocada da URSS:
março de 1990, na Romênia, após o fuzilamento do líder
comunista Nicolae Ceausescu.
1) “A Carta Testamento de Lenin”: Nesta carta escrita pelo próprio Lenin, em 1923, ele propõe, entre outras coisas, alterações à estrutura do governo soviético, critica os membros líderes da liderança soviética e sugere que Joseph Stalin seja removido de sua posição como Secretário Geral do Partido Comunista Soviético.
2) "Since Lenin Died" (Desde que Lenin Morreu): Neste ensaio, escrito em 1925, Max Forrester Eastman (04/01/1883 – 25/03/1969) descreveu “O Testamento de Lenin”, cópia que ele retirara da URSS clandestinamente, durante sua estadia na Rússia, onde viveu por um ano e nove meses entre 1922 e 1924 (fim da guerra civil, primeiro ano de Lenin e ano de sua morte). Eastman foi influenciado pela rivalidade mortal entre Leon Trotsky e Joseph Stalin, que culminou com o assassinato de Trotsky, e pelos indiscriminados abusos cometidos durante o “Grande Expurgo” de Stalin. Enquanto na União Soviética, Eastman iniciou uma amizade com Trotsky que durou até o seu exílio e assassinato no México. Tendo dominado a língua russa em pouco mais de um ano, Eastman traduziu vários trabalhos de Trotsky para o inglês, incluindo sua monumental “História da Revolução Soviética”, em três volumes. Após retornar aos EUA, em 1927 (depois de ficar três anos na Europa), Eastman publicou vários trabalhos que foram muito criticados pelo sistema stalinista. Em outros ensaios, Eastman descreveu as condições existentes para artistas e ativistas políticos na Rússia. Tais ensaios o tornaram muito impopular entre americanos esquerdistas da época. Posteriormente, entretanto, seus escritos sobre o assunto foram citados por muitos, da esquerda e da direita, como sóbrios e realistas retratos do sistema soviético sob Stalin. As experiências de Eastman na União Soviética e seus estudos, fizeram-no mudar sua visão do Marxismo sob os russos, mas seus compromissos com as ideias políticas esquerdistas não se abateram.
3) “A História da Revolução Soviética”: Escrito por Leon Trotsky, em 1930. E traduzido para o inglês, em 1932, por Max Eastman, em três volumes: “A Derrubada do Czarismo”; “A Tentativa da Contrarrevolução”; “O Triunfo dos Soviéticos”. É a história da Revolução Russa de 1917 escrita por um dos seus líderes. Em sua nota sobre o autor, na primeira tradução inglesa, Max Eastman escreveu que "esta presente obra ... vai tomar o seu lugar de importância na vida de Trotsky ... como uma das realizações suprema desta mente versátil e poderosa”.
4) “O Discurso Secreto”: de Nikita Khrushchev, apresentado em 25 de fevereiro de 1956, com o título “Sobre o Culto da Personalidade e suas Consequências”, foi proferido durante o 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Num discurso secreto, diante de plenário fechado, Khrushchev denunciou o culto à personalidade de Stalin. Além disso, revelou que Stalin havia prendido milhares de pessoas e enviado a um imenso sistema de campos de trabalhos políticos (o famoso Gulag). Essa revelação foi atendida com assombro por muitos dos presentes ao discurso, mas ajudou a quebrar um pouco do poder que Stalin ainda tinha sobre o povo.
5) “The Great Terror”: Este livro, do historiador britânico Robert Conquest (1917-2015), de 1968, popularizou a frase “O Grande Terror”. O título de Conquest foi uma alusão ao período que foi chamado “Reino do Terror”, ocorrido durante a Revolução Francesa de 1789, durante o seu período mais sangrento, de junho a agosto de 1794, bem como um título alternativo ao período da história soviética conhecida como “O Grande Expurgo”. Uma versão revisada do livro, com o título “O Grande Terror: Uma Reavaliação”, foi editada em 1990, após a possibilidade que teve de atualizar o texto com a consulta dos recém-abertos arquivos soviéticos.
6) “The Harvest of Sorrow (A Colheita do Sofrimento) – A Coletivização e o Terror SoviéticosFome”: É um livro de 1987, de Robert Conquest, a primeira história completa da mais horrenda tragédia do século XX. Entre 1929 e 1932, o Partido Comunista Soviético aplicou um duplo golpe no campesinato russo: a extinção dos Kulaks (Camponeses, para evitar a confusão com os Gulag), tomada de suas terras e deportação de milhões de famílias camponesas; e a coletivização, a abolição da propriedade privada da terra e a concentração dos camponeses restantes em fazendas coletivas controladas pelo Partido. Tais medidas foram seguidas, em 1932-1933, por uma “fome do terror’, infligida pelo Estado sobre os camponeses coletivizados da Ucrânia e certas outras áreas, tornando impossível altas quotas de grãos, removendo quaisquer outras fontes de alimentação e proibindo ajuda de outros locais, mesmo de outras áreas da União Soviética, para alcançar e atenuar a fome da população esfaimada. A quantidade de mortos, estimada, resultante dessas medidas de Stalin descritas nesse livro, chegou a 14,5 milhões de pessoas, mais do que o número total de mortes de todos os países na 1ª Guerra Mundial. Ambicioso, meticulosamente pesquisado e lucidamente escrito, “A Colheita do Sofrimento” é um testamente profundamente comovente àqueles que morreram, que registrará na consciência ocidental um sentimento do lado escuro da história desse século.
7) “Age of extremes - The short twentieth century: 1914-1991” (Era dos Extremos - O Breve Século XX: 1914 – 1991): Este é um livro de História escrito por Eric Hobsbawm, o maior historiador esquerdista de língua inglesa, em 1994, que discorre sobre o século XX, mais precisamente do início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, até a queda da União Soviética, no ano de 1991. É muito interessante apreciar a forma como Hobsbawm - um marxista irredutível que defendeu o indefensável, quando numa entrevista que chocou leitores, críticos e colegas, alegou que o assassinato de milhões orquestrado por Stalin na União Soviética teria valido à pena se dele tivesse resultado uma "genuína sociedade comunista" – apreciou a Revolução de 1917, principalmente quando comenta a atuação de Stalin.
8) “Le Livre Noir du Communisme – Crimes, terreur, répression” (O Livro Negro do Comunismo – Crimes, terror, repressão): Stéphane Courtois, Nicolas Werth, Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Karel Bartosek e Jean-Louis Margolin constituem a equipe de historiadores e universitários - que permanecem ou estiveram ligados à esquerda – que trazem a público, em 1999, o saldo estarrecedor de mais de sete décadas de história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando o menor esboço de oposição, fome e miséria provocadas que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, a aniquilação de homens, mulheres, crianças, soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. Os autores não hesitam em usar a palavra genocídio, pois foram cerca de 100 milhões de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o número de vítimas do nazismo e até mesmo o das duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelações dos arquivos hoje acessíveis.
Finalmente, àqueles que ainda acharam pouco e possuem estômago suficientemente forte, eu recomendo que assistam ao documentário abaixo, de uma hora e vinte e seis minutos de duração, que eu assisti. Afinal, é muito pouco tempo quando comparado ao tempo de sofrimento de todos os que são apresentados no documentário: “A VERDADEIRA HISTÓRIA DO COMUNISMO SOVIÉTICO”


Assim como esse documentário, eu dedico essa minha postagem aos vinte ou trinta milhões de vítimas russas que a União Soviética fez ao longo de sua existência.

sábado, 14 de novembro de 2015

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 3)

VI - ASPECTOS TEÓRICOS QUE CONDUZIRAM À REVOLUÇÃO DE 1917


Antes de entrar no desenvolvimento da Revolução de 1917, propriamente dita, acho importante colocar alguns aspectos teóricos que conduziram até ela e as principais ideias que forjaram o pensamento revolucionário.
É comum lermos que a Revolução Russa de 1917 teve o mesmo significado para o século XX que a Revolução Francesa para o século anterior. Ambas foram formidáveis movimentos de massas e ideias que deram novo perfil à História da Humanidade, transformando a vida de milhões e empolgando ou aterrorizando outros tantos.
É um erro dizer que o confronto antigo entre Rússia e Estados Unidos representa um choque entre Oriente e Ocidente ou entre duas “civilizações” antagônicas. Na verdade, o grande motivo são os dois sistemas econômicos, políticos e ideológicos que as duas potências defendem. As grandes provas disso são a existência de uma Cuba entre as Américas e de uma Ilha de Formosa no extremo oriente do Planeta. O real conflito situa-se entre o Capitalismo e o Socialismo nas mais variadas formas com que ambos os sistemas se apresentam. E o mais grave aspecto nessa dicotomia (sempre perigosa) é que os dois sistemas são “ecumênicos”, no sentido de que podem ser aplicados em qualquer circunstância, independentemente da cultura, raça, religião ou tradição que, embora de alguma forma, sempre vão importar.
Friedrich Engels, fundador do Socialismo
Científico e co-autor do Manifesto Comunista.
Para alguns historiadores, o Socialismo surgiu durante a Revolução Francesa, como uma de suas correntes subterrâneas, como por exemplo, o movimento de Babeuf[1]. No entanto, ele tornou-se substancialmente sólido, muito tempo depois com Karl Marx e Friedrich Engels, com a publicação do Manifesto Comunista, em 1848, e a fundação do “Socialismo Científico” em substituição ao “Socialismo Utópico”.
Sinteticamente suas ideias podem ser assim descritas: “Toda a História da Humanidade nada mais é do que um conflito permanente entre classes sociais antagônicas: senhores e escravos, patrícios e plebeus, nobres e burgueses e, na época contemporânea, burgueses e proletários. Isto é, as classes sociais e sua existência são condicionadas pela história e a sociedade do futuro implica na sua abolição e na implantação da igualdade que até hoje não existiu, por impossível”.
Segundo Carl Marx, esta abolição da sociedade de classes se faria devido a própria crise do Sistema Capitalista. Por gerar a constante concentração da Propriedade e das Rendas nas mãos de poucos, levaria a aumentar a miséria geral dos não-proprietários, que se rebelariam e destruiriam tal sistema. Como o processo histórico é dialético (união incessante de contrários), tudo aquilo que existe (O Capitalismo) será superado por uma forma social superior (O Socialismo) nascida no próprio ventre da sociedade anterior. O Feudalismo teria sido mais ameno que o Escravagismo; o Capitalismo uma forma superior ao Feudalismo e, por consequência, o Socialismo, superior ao Capitalismo. Tais transformações são feitas pelos homens organizados em classes sociais: a burguesia depôs a nobreza, o proletariado deporá a burguesia.


SOVIETES

Os Sovietes (termo russo) ou Conselhos Operários, são colegiados ou corpos deliberativos, constituídos de operários ou membros da classe trabalhadora que regulam e organizam a produção material de um determinado território, ou mesmo indústria. Esse termo é comumente usado para descrever trabalhadores governando a si mesmos, sem patrões, em regime de autogestão. Os Conselhos Operários surgiram, pela primeira vez, na Revolução Russa de 1905, por iniciativa de Trotsky, embora tenham surgido esboços desta forma de organização durante a Comuna de Paris. A partir de sua emergência na Revolução Russa de 1905, os conselhos passam a ser teorizados por Rosa Luxemburgo* (ver nota de rodapé) e, principalmente, pelos chamados comunistas de conselhos. O reaparecimento dos conselhos na Revolução Russa de 1917, e em outras da mesma época, forneceu a base para a teoria dos conselhos de Anton Pannekoek - o principal teórico dos conselhos operários - e demais comunistas conselhistas. Os sovietes, essencialmente, eram comitês de greve. Como as greves na Rússia começaram em grandes fábricas, e rapidamente se espalharam pelas cidades menores e distritos, os trabalhadores precisaram manter contato permanente. Nas oficinas, os trabalhadores se juntavam e discutiam regularmente no final da jornada de trabalho, ou continuamente, o dia inteiro, em momentos de tensão. Eles enviavam seus delegados a outras fábricas e aos comitês centrais, onde a informação era trocada, dificuldades discutidas, decisões tomadas, e novas tarefas consideradas. Mas aqui as tarefas se mostraram mais abrangentes do que em greves comuns. Os trabalhadores precisavam se livrar da pesada opressão Czarista; eles sentiram que, por sua ação, a sociedade russa estava transformando suas bases. Eles tiveram que discutir não só salários e condições de trabalho, mas todas as questões relativas à sociedade em geral. Eles tiveram que achar seu próprio rumo nesse campo e tomar decisões sobre questões políticas. Quando a greve se alastrou, se estendeu por todo o país, parou toda a indústria e tráfego e paralisou as funções do governo, os sovietes foram confrontados com novos problemas. Eles tiveram que regular a vida pública, tiveram que cuidar da ordem e da segurança públicas, eles tiveram que providenciar os serviços públicos essenciais, desempenhando funções de governo; o que eles decidiam era executado pelos trabalhadores, enquanto o governo e a polícia ficavam de lado, conscientes de sua impotência contra as massas rebeldes. Então os delegados de outros grupos, de intelectuais, camponeses, soldados, que vieram para se juntar aos sovietes centrais, tomaram parte nas discussões e decisões. Quando finalmente o governo Czarista reuniu sua força militar e golpeou o movimento, os sovietes desapareceram.

*Rosa Luxemburgo (05/03/1871-15/01/1919) foi uma teórica marxista, economista e socialista revolucionária de descendência judia-polonesa, naturalizada cidadã alemã, membro de vários partidos de base socialista na Polônia e Alemanha e co-fundadora da Liga Espartaquista (1915), que transformou-se no Partido Comunista da Alemanha. Capturada durante o levante Espartaquista, em 1919, pelos veteranos da Primeira Guerra Mundial, de orientação direitista, foi assassinada e seu corpo lançado no canal Landwehr, em Berlim.

O Socialismo seria, por sua vez, uma etapa intermediária, onde conviveriam formas da sociedade anterior (Capitalista) com formas da sociedade futura, atingindo, posteriormente, a etapa final da pré-história da Humanidade - o Comunismo. Esta etapa de transição seria gerida pela "Ditadura do Proletariado". A nova classe instalada no poder não poderia se desfazer do aparato Estatal, pois teria que enfrentar as ameaças da contrarrevolução burguesa. Para Marx, o estado tem que continuar existindo (ao contrário dos anarquistas que propunham sua imediata abolição) como uma arma de defesa da Revolução.

Ainda segundo ele, a Revolução Proletária seria, pois, inevitável, havendo dois caminhos para concretizá-la: um conquistando posições estratégicas dentro da sociedade capitalista através da dinamização dos sindicatos e dos partidos operários; outra, por um golpe dado por revolucionários audazes que empalmariam o poder em favor dos proletários. Estas duas tendências estiveram sempre latentes dentro dos escritos políticos de Marx e Engels, gerando a atual diferenciação entre socialdemocracia e comunismo.
Como consequência lógica do que foi exposto, Marx acreditava que a Revolução Proletária ocorreria num país onde o Capitalismo fosse suficientemente desenvolvido para gerar as condições necessárias à sua transformação. Para uma sociedade chegar ao Socialismo teria que, necessariamente, percorrer um longo desenvolvimento capitalista. Isto excluía a possibilidade de se chegar ao Socialismo numa sociedade atrasada onde a maioria da população fosse composta de camponeses e não de proletários urbanos (os exclusivos agentes de transformação da História). A implantação do Socialismo nas sociedades capitalistas não seria socialmente onerosa porque o desenvolvimento tecnológico permitiria atender a todos "segundo suas necessidades".
Durante séculos a Rússia permaneceu isolada das grandes transformações sociais, econômicas e culturais porque passava a Europa Ocidental. A Reforma ou o Renascimento, poucos efeitos tiveram em sua paisagem política e cultural, o mesmo acontecendo com o Iluminismo e as Revoluções burguesas. O governo dos czares - a autocracia absoluta - fora uma decorrência da necessidade de integração deste vasto território heterogêneo em tudo. Com a queda do Bizâncio para os Turcos Otomanos, o Príncipe de Moscóvia atraiu para sua capital os restos da administração e do clero grego ortodoxo, assimilando suas práticas funcionais e hierárquicas. A igreja, tal como em Constantinopla, era subordinada ao Estado e seu chefe nomeado diretamente pelo Imperador. A Rússia desconheceu, pois, o latente conflito existente na Europa Ocidental, entre o clero e o aparato estatal. Esta fusão completa entre Estado e Igreja, naturalmente, contribuiu para o sufocamento do livre-pensar. A intelectualidade russa vivia sob a vigilância permanente, ou do Estado, ou do Santo Sínodo (mandatários da Igreja Ortodoxa). No entanto, a maior aproximação da Rússia com o Ocidente, no século XIX (principalmente após as guerras napoleônicas), tornou inevitável a penetração dos ideais libertários vindos da Europa.
Em março de 1898, na cidade de Minsk (capital e maior cidade da Bielorrússia), nove delegados (entre os quais Lenin) representando as principais cidades do país, reuniram-se para a realização do 1º Congresso do POSDR, inspirados no Partido Social-Democrata alemão fundado por Lassale em 1863 e o mais poderoso partido político operário do Ocidente. Como resultado concreto do Congresso, foi difundido o Manifesto do POSDR, redigido por Struve[2] que, dentro da ortodoxia marxista, aceitava as duas etapas da futura Revolução Russa (a primeira de cunho democrático-burguesa e a segunda socialista-proletária sem fazer menção à ditadura do proletariado nem aos meios para realizar sua missão). Os marxistas diferiam profundamente dos populistas e, tanto na Rússia como no exílio, intensificaram a polêmica sobre o destino do país e quais as táticas corretas a serem empregadas para a derrubada da autocracia. Em síntese, defendiam as seguintes posições: (1) era um profundo equívoco querer transformar a Rússia em um país socialista, pois o capitalismo ainda era incipiente não gerando as condições necessárias para a transição; (2) a prática do terrorismo era absolutamente inócua pois não abalava a estrutura do regime: sai um czar e entra outro; (3) era necessário desenvolver um longo e amplo trabalho de "preparação" das massas, através da propaganda e da agitação, levando-as à consciência da certeza da derrubada do czarismo como um todo e não em ações isoladas; (4) era necessário favorecer a implantação do capitalismo na Rússia: quanto mais empresas e indústrias lá se instalassem, mais cresceria o proletariado urbano, favorecendo o surgimento da única classe verdadeiramente revolucionária. Ironicamente, esta posição dos marxistas fez com que fossem vistos como menos perigosos pela polícia secreta do Czar (Okhrana), que passou dedicar maior atenção àqueles que, no momento, lhes pareciam mais ameaçadores, os terroristas populistas.

VII - A REVOLUÇÃO DE 1917

Não bastassem os reflexos da derrota militar frente ao Japão, em 1905, a Rússia envolveu-se em um outro grande conflito, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), em que, novamente, sofreu pesadas derrotas nos combates contra os alemães.
A causa imediata da Revolução Russa foram os efeitos desastrosos do envolvimento russo na I Guerra Mundial. Na qualidade de membro da Tríplice Entente, juntamente com a Grã-Bretanha e a França, o Império Russo entrou em guerra com a Alemanha, a Áustria-Hungria e o Império Turco-Otomano, em 1914. Mas, embora seu gigantesco exército tivesse o apelido de “rolo compressor”, os russos não estavam à altura de seus adversários alemães. Estes impuseram às tropas do czar derrotas esmagadoras, que só não levaram a Rússia à rendição porque a Alemanha, dividida entre duas frentes de batalha (havia a Frente Ocidental, contra ingleses e franceses), não pôde explorar suas vitórias a fundo. Mesmo assim, boa parte do território russo encontrava-se em poder dos invasores — principalmente a Ucrânia, cujo tchernoziom (terra negra) era considerado o celeiro do Império. O desastre foi completo, com falta de alimentos e munições; o exército russo teve milhões de mortos e feridos e muitos desertaram. Em apenas doze meses o país trocou várias vezes de ministério: foram quatro primeiros ministros, três ministros de guerra, três ministros das relações exteriores.
A eclosão e os efeitos da Primeira Guerra Mundial, em 1914, demonstraram a incompetência da corte e da aristocracia russa, desmascarando a falsa ordem constitucional. Durante a guerra, a economia russa desmoronou. Especuladores obtinham grandes lucros, enquanto a maioria da população passava por necessidades. A inflação corroía os salários, empresas faliam.
É importante lembrar, pois muitas pessoas não se fixam na questão, que os primeiros movimentos revolucionários dessa época, aconteceram enquanto a Rússia se achava ainda em plena operação de guerra contra a Alemanha e seus aliados, posto que fazia parte da aliança com a Inglaterra e França. O que significa dizer que o governo oficial russo, bom ou mau, teve que lutar, ao mesmo tempo, contra um inimigo externo e contra as revoltas internas, fato extremamente favorável aos revolucionários russos. Neste cenário, os operários organizavam greves, manifestações e passeatas, e os membros do POSDR, partido da oposição, participavam ativamente do movimento contra a guerra e contra o regime.
Jardins e Palácio Tauride, sede da DUMA, início século XX
Com a crise, dois grupos passaram a planejar mais ativamente a derrubada da monarquia: (1) os liberais, que queriam fazer da Rússia uma república com democracia representativa (com os próprios cidadãos elegendo os seus representantes) e vencer a guerra contra os alemães; e (2) o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) que pretendia o país fora da guerra e, influenciado pelas ideias marxistas, transformar a economia e a sociedade russas como primeiro passo rumo à revolução do proletário mundial. Entretanto, é importante que se deixe bem claro o que nem sempre foi colocado com clareza – provavelmente, de forma proposital -, pelo menos na literatura mais conhecida, geral e menos profunda. Se a Revolução de Fevereiro de 1917 foi mais um movimento popular e espontâneo, motivado pelo triste desempenho da Rússia na Primeira Grande Guerra, pelo desejo da população que o país dela se retirasse e pelas penosas consequências que, principalmente, sobre o povo se abatiam, o prosseguimento da Revolução seguiu os mesmos padrões das grandes revoluções que a antecederam. Ou seja, sempre que uma revolução popular começa a se configurar, por razões evidentes, que afetam diretamente o povo, imediatamente surge a classe intelectual e mais poderosa, que almeja, sem qualquer dúvida, além da vitória da revolução, a tomada do poder que estará vacante após a queda do poder vigente e, mais do que isso, a imposição de suas próprias ideias, sejam elas quais forem; neste caso, os ideais socialistas/marxistas. Porque o povo, em verdade, deseja apenas interromper um processo que lhe causa danos e não lhe oferece alternativas de mudança ou atenuação dos seus sofrimentos. Mas, em geral, e este era o caso, não possui os esclarecimentos políticos ou ideológicos transportados na bagagem dos líderes intelectuais que, aproveitando as revoluções, acabam por dirigir os seus rumos e usufruir dos seus resultados, quando positivos. Tal foi, exatamente, o que aconteceu na revolução francesa, com várias organizações disputando a liderança da insurreição e vários indivíduos disputando o poder final ao seu encerramento. Senão, vejamos o desenrolar dos acontecimentos.
A Revolução de 1917 – sem incluir a guerra civil posterior, a sua etapa mais sangrenta -, compreendeu duas fases distintas: (1) a Revolução de Fevereiro (apenas para dirimir dúvidas, março de 1917, pelo calendário ocidental ou Gregoriano[3]) ou Revolução Branca, que derrubou a autocracia do Czar Nicolau II, o último Czar a governar, e procurou estabelecer, em seu lugar, uma república de cunho liberal; (2) a Revolução de Outubro (novembro de 1917, pelo calendário Gregoriano) ou Revolução Vermelha, em que os Bolcheviques derrubaram o governo provisório estabelecido e impuseram o governo socialista soviético.


[1] François-Noël Babeuf (23 de novembro 1760–27 maio 1797), conhecido como Gracchus (dos antigos tribunos romanos do povo) Babeuf, foi um jornalista e agitador do período revolucionário francês. Seu jornal, Le Tribun du Peuple (A Tribuna do Povo), foi mais conhecido por advogar em favor do povo e chamá-lo a uma revolta popular contra o “Diretório”, governo da França Revolucionária administrado por uma liderança coletiva de cinco diretores, entre o “Comitê de Segurança Pública” e o “Consulado”, deposto por Napoleão (02/11/1795-10/11/1799). Advogou pela democracia, abolição da propriedade privada e igualdade dos resultados. Enfurecendo as autoridades que fortemente restringiam as atividades de seus inimigos políticos, foi executado por elas. Embora as palavras “anarquista” e “comunista” não existissem ao tempo de Babeuf, elas foram usadas por estudiosos posteriores para descrever suas ideias. A palavra “comunismo” foi cunhada por Goodwyn Barmby numa conversa com pessoas que ele descrevia como discípulos de Babeuf, que acabou por ser chamado “O Primeiro Comunista Revolucionário”.
[2] Peter (ou Pyotr ou Petr) Berngardovich Struve (26 de janeiro de 1870- 22 de fevereiro de 1944) foi um filósofo, economista político e editor russo que iniciou como um marxista, tornando-se posteriormente um liberal e, após a Revolução Bolchevique, juntou-se aos russos brancos. A partir de 1920 viveu no exílio, em Paris onde tornou-se um proeminente crítico do comunismo russo.
[3] O calendário Gregoriano é um calendário de origem europeia, utilizado oficialmente pela maioria dos países do mundo. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII (1502–1585) em 24 de fevereiro de 1582, pela bula Inter gravíssimas, em substituição ao calendário Juliano, implantado pelo líder romano Júlio César (100–44 AC) em 46 AC, com o objetivo de fazer regressar o equinócio da primavera para o dia 21 de março, desfazendo o erro de 10 dias existente na época. Como convenção e praticidade, o calendário gregoriano foi adotado para demarcar o ano civil no mundo inteiro, assim facilitando o relacionamento entre as nações.

Prossegue com a Parte 4.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 2)

III – ALGO SOBRE A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NA RÚSSIA

É impossível falar sobre a Revolução Russa sem falar na Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, no Reino Unido, e propagada pelo mundo a partir do século XIX, e em seus desdobramentos: formação do proletariado, prática do “capitalismo selvagem” e evolução das ideias socialistas. A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Ao longo do processo, a era da agricultura foi superada, a máquina foi superando o trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs, novas relações entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, entre as quais sobressaiu a máquina a vapor. A Revolução Industrial consolidou o sistema capitalista e as relações de trabalho assalariado.
Como um grupo social novo, o proletariado demorou para adquirir consciência de classe, que lhe daria a coesão necessária para lutar por melhorias em suas condições de trabalho e de vida. Somente a partir de meados do século XIX começaram a se organizar os primeiros sindicatos e apenas em fins daquele século eles começaram a conquistar alguns direitos.
Com a miséria dos trabalhadores permanecendo sem expectativa de solução, alguns intelectuais (geralmente de origem burguesa, mas sensibilizados pela causa operária) começaram a criar teorias que propunham mudanças na estrutura econômica e social do capitalismo, com vistas a criar uma sociedade mais justa e menos diferenciada, assim surgindo as ideias socialistas. As primeiras teorias ficaram conhecidas pelo nome de socialismo utópico, porque não pregavam a destruição do capitalismo, mas apenas sua reforma; os socialistas radicais consideravam o capitalismo intrinsecamente mau, não aceitando a sua reforma, mas apenas a sua destruição. 
Karl Marx, o alemão inspirador da revolta
russa, que viveu a maior parte de sua vida
e morreu na Inglaterra.
O socialismo radical encontrou sua maior expressão em Karl Marx, criador do socialismo científico ou comunismo. Em sua teoria, o capitalismo deveria ser destruído por uma revolução proletária armada, que implantaria uma ditadura socialista. Nesta, a propriedade privada desapareceria e os meios de produção seriam coletivizados, criando o que Marx esperava fosse uma sociedade sem classes. Quando a revolução socialista se estendesse a todos os países, seria possível suprimir o Estado e estabelecer uma sociedade inteiramente igualitária: a sociedade comunista.
Embora o futuro tenha provado que o projeto de uma sociedade comunista era tão utópico quanto as teorias anteriores, o socialismo marxista seduziu milhares de intelectuais e milhões de operários e camponeses. Já em 1871, os comunistas, aliados aos socialistas utópicos e a uma facção de esquerda ainda mais radical — os anarquistas — realizaram aquela que se tornou a maior insurreição socialista antes da Revolução Russa de 1917: a Comuna de Paris. Mas a repressão do governo burguês foi implacável: 13.000 revolucionários foram fuzilados e quase 50.000, deportados.
Marx afirmava que a revolução socialista deveria triunfar nos países mais industrializados, onde o proletariado seria mais numeroso e organizado. Tal previsão falhou redondamente porque, nos países mais desenvolvidos, os operários já haviam conquistado certos direitos e benefícios, o que diminuiu seu entusiasmo por uma revolução armada. Restavam, portanto, os países atrasados, onde a exploração e a miséria dos trabalhadores ainda se encontravam no estágio do capitalismo selvagem e as condições para uma revolução proletária seriam mais favoráveis.
Nas reformas realizadas na Rússia, poucos camponeses receberam terras em quantidade suficiente. Apenas uma minoria de pequenos e médios proprietários, os kulaks[1], se beneficiaram. O restante da população do campo continuava formado por um miserável proletariado rural. O ambiente era adequado à difusão de ideias revolucionárias. O regime czarista governava o império com mão de ferro. Os opositores do regime eram perseguidos por um eficiente aparelho de repressão policial. Havia um controle severo sobre o ensino secundário, as universidades, a imprensa em geral.
Por isso tudo, o desenvolvimento industrial da Rússia começou tardiamente, em relação aos países ocidentais avançados, e apenas foi possível graças à participação de capitais estrangeiros principalmente ingleses e franceses. Mesmo assim, foi inferior ao das demais potências europeias. Em sua economia, as relações capitalistas de produção entrelaçavam-se com as do tipo feudal. O pagamento de juros sobre este capital fazia com que grande parte dos lucros não continuasse no país. Em 1877, dos 150 milhões de habitantes russos, apenas 1 milhão era de operários. Nesse clima, era fatal o surgimento de vários grupos de oposição ao sistema vigente.
Na Primeira Guerra Mundial, de 1914, o Império Russo uniu-se à “Tríplice Entente”, junto com a França e Inglaterra, contra a Tríplice Aliança, formada por Alemanha, Áustria-Hungria e o Império Turco-Otomano. A Rússia tinha interesse em obter um acesso ao Mar Mediterrâneo, e para isso pretendia anexar, sob a justificativa de proteger os “povos eslavos irmãos”, a península balcânica e os estreitos de Bósforo e Dardanelos, então sob domínio do moribundo Império Otomano. Porém a participação russa na 1ª Guerra Mundial foi desastrosa, sofrendo humilhantes derrotas para a Alemanha e abandonando a guerra, em 1917, com a assinatura do tratado de Brest-Litovsk. Isso só veio piorar a situação da Rússia já empobrecida, e toda a culpa pelo evento foi lançada às costas do Czar.

IV - AS CAUSAS GERAIS DA REVOLUÇÃO DE 1917

John Edward Christopher Hill, (6 de fevereiro de 1912 - 23 fevereiro de 2003), historiador inglês, membro do Partido Comunista da Grã Bretanha, aponta as seguintes “causas gerais” da Revolução Russa:
1) O desenvolvimento econômico do país era extremamente moroso, seu comércio e sua indústria encontravam-se nas mãos de estrangeiros e o grosso da produção era consumido pelo próprio estado. Isso retardou sobremaneira o desenvolvimento da burguesia e da classe média. A burguesia russa jamais atingiu a autonomia da burguesia ocidental, pois sua dependência do Estado era muito grande. O poder concentrado nas mãos do Czar pouco espaço deixava para o florescimento do liberalismo, que atingiu apenas uma pequena fração da população, justamente aqueles que já eram muito ricos.
2) A presença estrangeira no financiamento da industrialização russa, tornou a burguesia um apêndice do sistema internacional fazendo-a procurar proteção junto ao Czar (tarifas protecionistas, etc.).
3) A extraordinária concentração de operários nos grandes centros urbanos do país (perto de três milhões) e a superexploração a que estavam submetidos (o capitalista russo só sabia competir reduzindo os gastos e não implementando tecnologia, levando-os a forçar para baixo o padrão de vida dos operários).
4) Devido à exiguidade do espaço político, que o impedia de participar dos partidos e do parlamento, o operariado russo seguiu a estrada da revolução e não a do Reformismo.
Estes foram os fatores mais amplos, de estrutura, que terminaram por favorecer um tipo específico de Revolução. O colapso geral, deu-se com a entrada da Rússia na Grande Guerra. A incapacidade do czarismo em vencer e as insuportáveis condições internas, terminaram por fazer com que a eclosão do movimento revolucionário fosse incontrolável.
Apesar da Rússia ser, na época, um dos países mais poderosos do mundo em termos militares, só uma pequena parte da população (os nobres) tinha boas condições de vida. Os camponeses eram terrivelmente pobres e trabalhavam de sol-a-sol os seus terrenos sem poder possuí-los. As sucessivas derrotas em várias batalhas da Primeira Guerra Mundial e o descontentamento geral da população, fizeram com que a economia interna começasse a deteriorar-se. A instabilidade e a pobreza tiveram como consequência inevitável, uma revolta, a Revolução Bolchevique, que aconteceria em duas datas significativas: 1905 e 1917. Além disso, a Revolução de 1917, que definitivamente extinguiu o Czarismo, aconteceu em duas etapas e foi seguida por uma guerra civil que ceifou a vida de milhões de russos.

V - A REVOLUÇÃO DE 1905

Ao iniciar-se o século XX, o Império Russo apresentava um extraordinário atraso em relação às demais potências europeias. A economia ainda era basicamente agrária, praticada em latifúndios explorados de forma antiquada, através do trabalho de milhões de camponeses miseráveis. A industrialização russa foi tardia, dependente de capitais estrangeiros e se restringia a algumas grandes cidades. A sociedade russa era ainda mais desigual que a sociedade francesa às vésperas da Revolução de 1789. Havia o absoluto predomínio da aristocracia fundiária, diante de uma burguesia fraca e das massas camponesas marginalizadas. O proletariado russo era violentamente explorado; mas já possuía uma forte consciência social e política e estava concentrado nos grandes centros urbanos — o que facilitaria sua mobilização em caso de revolução.
O Império Russo era, oficialmente, uma autocracia (isto é, uma monarquia absoluta), com todos os poderes centralizados nas mãos do czar. Não havia partidos políticos legalizados, embora as agremiações clandestinas fossem bastante atuantes.
Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, a Rússia tinha a maior população da Europa, com cerca de 171 milhões de habitantes em 1904. Defrontava-se também com o maior problema social do continente, qual seja, a extrema pobreza da população em geral. Enquanto isso, as ideologias liberais e socialistas penetravam no país, desenvolvendo uma consciência de revolta contra os nobres. Entre 1860 e 1914, o número anual de estudantes universitários cresceu de 5.000 para 69.000, e o número de jornais diários cresceu de 13 para 856.
Nicolau II da Rússia, o Czar da
Revolução Soviética
A população do Império Russo era formada por povos de diversas etnias, línguas e tradições culturais. Cerca de 80% desta população era rural e 90% não sabia ler e escrever, sendo duramente explorada pelos senhores feudais. Com a industrialização, foi-se estabelecendo, progressivamente, uma classe operária, igualmente explorada, mas com maior capacidade reivindicativa e aspirações de ascensão social. A situação de extrema pobreza e exploração em que vivia a população tornou-se assim um campo fértil para o florescimento de ideias socialistas.
Em 1904-5, a Rússia entrou em guerra com o Japão, disputando territórios sobre a região chinesa da Manchúria, no Extremo Oriente, e foi por ele derrotada. As duras condições de vida da maioria da população, a corrupção que reinava na corte e a desastrosa derrota frente aos japoneses, tornaram a situação interna russa mais conflitante e a insatisfação popular se manifestou por meio de greves e motins nas principais cidades, dando origem à Revolução de 1905, que pode ser, resumidamente, descrita por três episódios distintos, todos extremamente significativos:
O encouraçado Potemkin ancorado em
Constança, Romênia, julho de 1905
O primeiro episódio ficou conhecido como a revolta do “Potemkin”, um encouraçado pertencente à frota russa do Mar Negro. Sua tripulação rebelou-se em junho de 1905, ao saber que seria enviada para lutar contra os japoneses. Os demais navios da esquadra não aderiram à revolta do “Potemkin”, cujos tripulantes acabaram refugiando-se na Romênia. De qualquer forma, tratava-se de um motim em uma grande unidade da Marinha Russa, evidenciando que as Forças Armadas já não podiam ser consideradas sustentáculos fiéis da Monarquia.
O segundo deles ficou, posteriormente, conhecido por “Domingo Sangrento”. Em 9 de janeiro, um domingo, uma manifestação pacífica de milhares de operários de São Petersburgo (então capital da Rússia), que pedia audiência ao Czar, foi violentamente dispersada, a bala, pela Guarda Imperial (Cossacos), com centenas de vítimas. Esse acontecimento abalou profundamente a confiança do povo em seu imperador e serviu de pretexto para uma série de revoltas no país inteiro. 
O "Domingo Sangrento", 9 de janeiro de 1905, São Petersburgo
O terceiro episódio foi a greve geral promovida pelos operários de São Petersburgo, Moscou e Kiev. Apesar da repressão militar, os trabalhadores resistiram por algumas semanas, sobretudo em Moscou. Dois fatos importantes ocorreram durante essa greve: foram organizados os primeiros sovietes (conselhos) de trabalhadores e houve operários que se defenderam a bala, mostrando que estavam se preparando para uma insurreição armada.
Em 1906, tendo em vista os abalos produzidos pela Revolução de 1905 e pela derrota frente ao Japão, o czar Nicolau II resolveu criar a Duma[2], como um primeiro passo em direção à liberalização. Tratava-se de uma Assembleia Legislativa com poderes extremamente limitados e tal medida surtiu escasso efeito, visto que os partidos eram sistematicamente vigiados e a Duma era controlada pela aristocracia e pelo Czar, que podia dissolvê-la a qualquer momento; além disso, como era censitária, seus deputados representavam apenas 2% do total da população.

O POSDR

O Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) foi um partido político fundado em 1898, em Minsk (hoje, a capital e maior cidade da Bielorrússia), de modo a unir as várias organizações revolucionárias em um partido único. Ao final do primeiro congresso, em março de 1898, todos os nove delegados foram presos. O POSDR foi criado para fazer oposição aos narodniks e o seu populismo revolucionário, que privilegiava o campesinato. Já o programa do POSDR era baseado nas teorias de Karl Marx e Friedrich Engels - que diziam que, apesar da natureza agrária russa, o verdadeiro potencial da revolução estava no proletariado.
Antes do Segundo Congresso, um jovem intelectual, Vladimir Ilyich Ulyanov, entrou no partido, usando o pseudônimo Lênin. Em 1902 ele havia publicado “Que fazer?”, em que expunha suas ideias sobre as tarefas do partido e sua metodologia e afirmava não bastar uma luta por uma simples reforma salarial ou jornada de trabalho.
Em 1903 o Segundo Congresso reuniu-se na Bélgica numa tentativa de criar uma organização unida. Lênin teve a chance de afirmar suas posições políticas: os socialistas deveriam lutar por uma estrutura de poder centralizada; trabalhar sem alianças com outras agremiações políticas; e só aceitar no partido os versados na doutrina marxista. Na ocasião, Lênin reiterou as posições políticas que vinha defendendo na revista "Iskra", órgão de imprensa dos ativistas revolucionários, propondo-se a assumir o seu controle editorial.
Lênin foi contestado, em todas as propostas, por seu amigo e aliado, Martov, também responsável pela edição da revista. Lênin teve apoio majoritário e o partido se dividiu em duas facções irreconciliáveis, em 17 de Novembro: os Bolcheviques (maioria, em russo), liderados por Lênin; e os Mencheviques (minoria, em russo), liderados por Julius Martov. Na verdade, os Mencheviques obtiveram o apoio da maioria dos delegados ao congresso, pois eram, de fato, a maior facção; entretanto, a maior parte do comitê central, instância máxima de decisão do partido, optou por apoiar as ideias de Lênin.
Os mencheviques, liderados por Martov, defendiam que os trabalhadores podiam conquistar o poder participando normalmente das atividades políticas. Acreditavam, ainda, que era preciso esperar o pleno desenvolvimento capitalista da Rússia e o desabrochar das suas contradições, para se dar início efetivo à ação revolucionária.
Os bolcheviques, liderados por Lênin, defendiam que os trabalhadores somente chegariam ao poder pela luta revolucionária. Pregavam a formação de uma ditadura do proletariado, na qual também estivesse representada a classe camponesa.
Pouco depois de os Bolcheviques terem chegado ao poder durante a Revolução Russa de 1917, mudaram o seu nome para o Partido Comunista de Toda a Rússia (Bolcheviques) em 1918 e passaram a ser conhecidos apenas como Partido Comunista da União Soviética – PCUS a partir daí. No entanto, não seria antes de 1952 que esse partido removeria formalmente a palavra Bolchevique do seu nome.
No Brasil, Bolcheviques ou Bolchevistas são usados como sinônimos.


Até 1905, o sistema político da Rússia czarista não possuía partidos políticos, com todo o poder concentrado nas mãos do imperador. As medidas adotadas à época, embora significativas do ponto de vista político, não alteravam o quadro social da maior parte da população russa. Foi nesta ocasião que emergiram com força os Sovietes e o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR – ver o quadro acima), dividido entre Mencheviques e Bolcheviques. Tal quadro político-social foi profundamente alterado pela deflagração da Primeira Guerra Mundial.

[1] Kulak era um termo pejorativo, usado no linguajar político soviético, para se referir a camponeses relativamente ricos do Império Russo, que possuíam grandes fazendas e faziam uso de trabalho assalariado em suas atividades. 
[2] A Duma, foi extinta em 1917 com a Revolução Russa. Com o fim da União Soviética, a Duma foi restabelecida, em 1993, pelo então presidente Boris Iéltsin, após a sua vitória política na Crise constitucional daquele ano. Atualmente, junto com o Soviete da Federação (Câmara Alta), a Duma (Câmara Baixa) forma o Legislativo da Federação Russa. Sua sede encontra-se em Moscou e é composta por 450 deputados, eleitos para mandatos com a duração de quatro anos.

Continua na próxima postagem com a Parte 3.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 1)

I - INTRODUÇÃO

Claro que todos já ouvimos falar muito sobre a revolução comunista na Rússia, sobre a “auto antropofagia” que lá ocorreu durante muitos anos da história daquele povo e já lemos alguns livros sobre os acontecimentos que se seguiram durante ou imediatamente após aquela revolução – entre eles o “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, “Um Dia Na Vida de Ivan Denisovich” e o “Arquipélago Gulag”, ambos de Alexandr Solzhenitsyn, prêmio Nobel de Literatura de 1970. Entretanto, eu nunca havia lido nada histórico, sobre a Revolução Comunista de 1917, seus antecedentes, suas dissidências, grupos antagônicos que dela participaram, a brutal ditadura de Stalin e as suas consequências para o povo russo e a humanidade, de uma forma geral. Por outro lado, me orgulho de dizer que li, para conhecer as duas faces da moeda e por isso não poder ser acusado de desconhecer, os livros que mais difundiram a doutrina comunista/socialista, tidos como bandeiras de glória por todos aqueles que a professam, tais como “O Capital” de Karl Marx, “O Manifesto Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels, “O Contrato Social” de Jean Jacques Rousseau, entre outros.
Por essa razão, resolvi realizar uma pesquisa sobre o assunto e fazer uma postagem, apenas baseado em alguns dos documentos existentes, já que a documentação completa é praticamente inexaurível e o assunto extremamente controvertido. É preciso entender que a Revolução Russa de 1917 foi um acontecimento capital na História do Século XX e, apesar de o mundo socialista por ela criado haver desmoronado ao final do período, aquele evento exerceu, sem dúvida, uma extraordinária influência na vida de centenas de milhões de seres humanos. A revolução, em si, terminou em 1917, mas foram tantos os seus desdobramento e consequências dramáticas que a sucederam, que vamos prolongar a nossa pesquisa até o final da Era Stalin, último revolucionário a exercer o poder na então União Soviética. Com isso consideraremos cumprida a árdua tarefa.
Entretanto, é impossível analisar tal assunto, sem antes apresentar uma breve história da Rússia pré-revolução, para que os leitores possam melhor entender as razões que conduziram a tão sangrento e injusto evento, embora possam nunca entender a injustificável matança ocorrida durante os primeiros 40 anos do governo socialista na Rússia pós revolução.

II - ORIGENS DA RÚSSIA

Mapa político da Rússia atual, ou Federação Russa
A Rússia atual, oficialmente Federação Russa ou Federação da Rússia, após a desintegração da União Soviética, em 1991, é um país localizado no norte da Eurásia (conjunto formado pela Europa e Ásia). Faz fronteira com os seguintes países (de noroeste para sudeste): Noruega, Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia (através da província de Kaliningrado), Bielorrússia, Ucrânia, Geórgia, Azerbaijão, Cazaquistão, China, Mongólia e Coreia do Norte. Faz também fronteiras marítimas com o Japão (pelo Mar de Okhotsk) e com os Estados Unidos (pelo Estreito de Bering). Com 17.075.400 quilômetros quadrados, a Rússia é o país com maior área do planeta, cobrindo mais de um nono da área terrestre. A Rússia também é o nono país mais populoso, com 142 milhões de habitantes.
A história do país começou com os eslavos do Leste, que surgiram como um grupo étnico reconhecido na Europa entre os séculos III e VIII da era Cristã. Fundado e dirigido por uma classe nobre de guerreiros vikings e pelos seus descendentes, o primeiro Estado Eslavo do Leste, o Principado de Kiev, surgiu no século IX e adotou o cristianismo ortodoxo, do Império Bizantino, em 988, dando início à síntese das culturas bizantina e eslava que definiram a cultura russa. O Principado de Kiev finalmente se desintegrou e suas terras foram divididas em muitos pequenos estados feudais. O estado sucessor do Principado de Kiev foi Moscóvia (Moscou), que serviu como a principal força no processo de reunificação da Rússia e na luta de independência contra a Horda de Ouro (o mais duradouro reino do Império Mongol). Moscóvia gradualmente reunificou os principados russos e passou a dominar o legado cultural e político do Principado de Kiev. Sob a liderança de Ivan III, o Grande, Moscou venceu os tártaros em 1480, na Batalha do Rio Ugra, livrando-se enfim de 240 anos do jugo tártaro-mongol e, praticamente fundando o Império Russo, maior império e maior estado nacional de todos os tempos, em área.
Sob o reinado de Ivan IV, o Terrível, oficialmente coroado o primeiro czar[1] da Rússia, em 1547, vários territórios e os canatos[2] de Astrakhan e Kazan foram reconquistados aos tártaros e anexados ao nascente Império Russo. Ivan IV criou uma Rússia multicultural e multireligiosa, mas foi sempre lembrado pelas atrocidades cometidas durante sua época. 
Czar Pedro I da Rússia, início Dinastia Romanov
É com a Dinastia Romanov (iniciada em 1613) que se inicia o grande processo de "imperialização" da Rússia. Pedro, o Grande, ou Pedro I da Rússia, derrotou a Suécia na Grande Guerra do Norte forçando o inimigo a ceder partes do seu território. E é na Íngria[3] que se forma uma nova capital: São Petersburgo (em homenagem a São Pedro).
Com as ideias do Oeste Europeu, Pedro I faz evoluir a Rússia que antes se encontrara numa situação de pobreza extrema e prepara o caminho para o auge do país. O território do império aumenta e, em 1648, o líder cossaco Semyon Dezhnyov descobre o estreito que separa a América da Ásia: o atual Estreito de Bering. Nasce assim o maior império da história da Rússia. O Império Russo, termo geralmente utilizado para se referir ao período de tempo que começa com a expansão iniciada por Pedro I, até o reinado de Nicolau II, deposto pelas revoluções de 1917, expandiu-se até o Oceano Pacífico entre os séculos XVII e XIX.
A czarina Catarina, a Grande, continuou o trabalho de Pedro, derrotando a Polônia e anexando a Bielorrússia e a Ucrânia - outrora o principado de Kiev. Catarina assina um acordo com o reino da Geórgia de modo a evitar invasões do império turco – a Geórgia passa a ser protegida militarmente pela Rússia.
Durante o século XVIII, o país teve grande expansão através da conquista, anexação e exploração de territórios, tornando-se o Império Russo, que foi o terceiro maior império da história e se estendia da Polônia, na Europa, até o Alasca, na América do Norte.
Em 1812, quando a Rússia se achava sob o governo de Alexandre I, o exército de Napoleão entra em Moscou, mas vê-se forçado a abandoná-la, pois a encontra vazia e sem mantimentos com a retirada do exército russo. O frio e a falta de recursos foram responsáveis pela morte de 95% das tropas francesas. Durante o regresso de Napoleão à França, os russos perseguiram-no até Paris, trazendo para o império as ideias liberais que estavam em marcha na França e na Europa Ocidental. Ainda durante a perseguição de Napoleão, a Rússia conquista a Finlândia e a Polônia. O golpe final sobre Napoleão foi dado em 1813 quando o império e os seus aliados – austríacos e prussianos - venceram as forças de Napoleão na batalha de Leipzig. 
Alexandre II, o czar modernizador da Rússia
A ascensão de Nicolau I (1825-1855) que travara o desenvolvimento da Rússia em meados do século XIX, principalmente devido à lei da servidão, obrigando os camponeses a lavrar as terras sem possui-las, é compensada por seu sucessor, Alexandre II (1855-1881), que cria reformas que vão fazer com que a Rússia consiga um maior desenvolvimento.
Alexandre II tinha consciência da necessidade de promover reformas modernizadoras no país, para aliviar as tensões sociais internas e transformar a Rússia num Estado mais respeitado internacionalmente. Com sua política reformista, Alexandre II realizou a abolição da servidão agrária, beneficiando cerca de 40 milhões de camponeses que ainda permaneciam submetidos ao mais cruel sistema de exploração; desenvolveu o ensino elementar e a concessão de autonomia acadêmica às universidades; concedeu maior autonomia administrativa aos diferentes governos das províncias.
Mesmo sem provocar alterações significativas na estrutura social existente na Rússia, a política reformista do czar encontrou forte oposição das classes conservadoras da aristocracia, extremamente sensíveis a quaisquer perdas de privilégios sociais em favor de concessões ao povo. Por isso, apesar das medidas reformistas, o clima de tensão social aumentava entre os setores populares. A terra distribuída aos camponeses era insuficiente, fortemente concentrada nas mãos de uma aristocracia latifundiária, a quem faltavam recursos técnicos e financeiros para modernização da agricultura. O resultado era a baixa produtividade agrícola, que provocava frequentes crises de abastecimentos alimentares, afetando tanto os camponeses como a população urbana. Em 1881, Alexandre II foi assassinado por um dos grupos de oposição política (os Pervomartovtsky) que lutavam pelo fim da monarquia vigente, responsabilizada pela situação de injustiça social existente.
Ao final do século XIX o tamanho do Império era cerca de 22.400.000 km2, abrangendo vastas áreas da Europa Oriental e do norte e centro da Ásia. Seus limites eram o Oceano Ártico, ao norte, o Cáucaso e as fronteiras com a Pérsia e o Afeganistão, ao sul, o Oceano Pacífico e as fronteiras com a China, Coreia e Japão, a leste, e os Montes Cárpatos, onde fazia fronteira com a Alemanha e a Áustria -Hungria, a oeste. O Império Russo ainda chegou a contar com um território na América, o Alasca, que foi vendido aos Estados Unidos, em 1867. Em seu apogeu, o Império Russo incluía, além do território russo atual, os estados bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), a Finlândia, o Cáucaso, Ucrânia, Bielorrússia, boa parte da Polônia (antigo reino da Polônia), Moldávia (Bessarábia) e quase toda a Ásia Central. Também contava com zonas de influência no Irã, Mongólia e norte da China. Em 1914, o Império Russo estava dividido em 81 províncias (guberniyas) e 20 regiões (oblasts). Vassalos e protetorados do Império incluíam os canatos de Khiva e Bukhara e, após 1914, Tuva.
Com o assassinato de Alexandre II, as forças conservadoras russas uniram-se em torno do novo czar, Alexandre III, que retomou o antigo vigor do regime monárquico absolutista. Concedeu grandes poderes à polícia política do governo (Okhrana), que exercia severo controle sobre os setores educacionais, imprensa e tribunais, além dos dois importantes partidos políticos, Narodnik e o Partido Operário Social Democrata Russo, de ideologia marxista, que queriam acabar com a autocracia e passaram a atuar na clandestinidade. Embora desarticulado dentro da Rússia em 1898, voltou a organizar-se no exterior, tendo como líderes principais Gueorgui Plekhanov, Vladimir Ilyich Ulyanov (de codinome Lenin) e Lev Bronstein (conhecido como Trotsky).
Impedidos de protestar contra a exploração de que eram vítimas, camponeses e trabalhadores urbanos continuaram sob a opressão da aristocracia agrária e dos empresários industriais, celeiro dos futuros oficiais do exército russo e membros da Igreja Ortodoxa Russa. Estes, associando-se a capitais franceses, impulsionavam o processo de industrialização do país. Apesar da repressão política comandada pela Okhrana, as ideias socialistas eram introduzidas no país por intelectuais preocupados em organizar a classe trabalhadora.
Alexandre III faleceu em 1894 e foi sucedido por Nicolau II, que procurou facilitar a entrada de capitais estrangeiros para promover a industrialização do país, principalmente da França, da Alemanha, da Inglaterra e da Bélgica, que ocorreu posteriormente à maioria dos países da Europa Ocidental. O desenvolvimento capitalista russo foi ativado por medidas como o início da exportação do petróleo, a implantação de estradas de ferro e da indústria siderúrgica.
Os investimentos industriais foram concentrados em centros urbanos populosos, como Moscou, São Petersburgo, Odessa e Kiev. Nessas cidades, formou-se um operariado de aproximadamente 3 milhões de pessoas, que recebiam salários miseráveis e eram submetidas a jornadas de 12 a 16 horas diárias de trabalho, não recebiam alimentação e trabalhavam em locais imundos, sujeitos a doenças. Nessa dramática situação de exploração do operariado, as ideias socialistas encontraram um campo fértil para o seu florescimento. E Nicolau II viria a ser o Czar da Revolução Comunista, sendo deposto e morto, com o seu advento.

[1] Czar, tsar ou tzar foi o título usado pelos monarcas do Império Russo entre 1546 e 1917. Foi adotado por Ivan IV da Rússia como um símbolo da natureza da monarquia russa. O termo "tsar" ou "czar", tal como o alemão kaiser, tem a sua origem na palavra latina Caesar, título adotado pelos imperadores romanos.
[2] Canato, Canado ou Khanato era um ente político governado por um Khan, que em mongol e em turco, significa "líder tribal" ou senhor de um território; ou seja um principado, reino ou mesmo um império.
[3] A Íngria é uma região histórica, cuja maior parte encontra-se, atualmente, localizada na Rússia, compreendendo a área ao longo da bacia do rio Neva, entre o Golfo da Finlândia, o rio Narva, o lago Peipsi no Oeste, e o lago Ladoga e a planície pantanosa ao sul deste, no leste. Historicamente a Íngria foi povoada pelos povos fínicos (da Finlândia) dos izorianos, vótios (os povos nativos da Íngria) e mais tarde também pelos finlandeses da Íngria e estonianos. Foi russificada na década de 1930.

Prossegue com a Parte 2.