Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

terça-feira, 1 de abril de 2014

A TEORIA DO “BIG BANG” (PARTE 1 de 2)

INTRODUÇÃO

O que me motivou a escrever sobre este assunto, mais complexo do que a maioria dos assuntos sobre os quais já escrevi foi, de uma certa forma, a singeleza e a facilidade com que vejo a maioria das pessoas discutir e aceitar esta teoria sem provas, como um ato de fé, principalmente por aquelas pessoas que dizem não acreditar na existência de um Deus onipotente, onipresente e onisciente, exatamente porque não possuem provas concretas de que tal Deus exista.
Vejam bem os leitores que eu não tenho a mínima intenção de provar a existência de Deus (ufa! Tarefa árdua, já tentada por gente muito importante, assim como provar que Ele não existe, sem o menor sucesso!) nem de validar tal teoria, mas apenas expô-la e colocar algumas questões sobre ela, para que os próprios leitores possam julgar se ela pode ser totalmente aceita como verdade indiscutível, a não ser como ato de fé, sem prova, da mesma maneira que exigiria, para ser aceito, o conceito de um Deus responsável pela criação de tão formidável Universo.
Em outras palavras, eu não aceito que pessoas possam admitir tal teoria, que nunca foi provada, mas apenas exposta, como verdadeira, e não possam aceitar o conceito de Deus, da mesma forma nunca aprovado, mas que deve ser aceito como um ato de fé. Ou seja, que substituam um conceito teórico por outro, sem a menos cerimônia ou pudor. E assim vivam felizes para sempre, como pessoas “inteligentes” que não creem ou não precisam de Deus.
Aliás, acho muito importante, até mesmo como introdução, que todos saibam que a Teoria do “Big Bang”, da origem do Universo, foi originalmente proposta por um belga, astrônomo e professor de física da Universidade Católica de Louvain, chamado Georges Henry Joseph Édouard Lemaître que era, pasmem(!), um PADRE JESUÍTA, alguém que, acreditando em Deus como acreditou, até morrer, nunca teve medo de estudar tais assuntos. Monsenhor Lemaître, como era conhecido, foi a primeira pessoa a propor a teoria da expansão do Universo, ampla e erradamente atribuída a Edwin Hubble, tendo sido também o primeiro a derivar o que é hoje conhecido como “lei de Hubble”, além de realizar a primeira estimativa do que é agora chamada de “Constante de Hubble”, publicada por ele em 1927, dois anos antes do artigo de Hubble. Monsenhor Lemaître nasceu em Charleroi, Bélgica, em 17 de julho de 1894, e morreu em 20 de junho de 1966, em Leuven, Bélgica, à idade de 71 anos.
Monsenhor George Lemaître
Com o objetivo de tornar o assunto que vai ser abordado, o mais claro possível, toda vez que mencionar alguma palavra que, a meu critério, possa ser menos conhecida da maioria, procurarei dar uma breve explicação sobre ela. Mas será sempre uma explicação muito breve, que esclareça o seu significado, sem desviar a atenção do leitor do assunto principal da matéria.

APRESENTAÇÃO

Em 1959 uma pesquisa foi realizada entre cientistas de toda a América, com relação ao seu entendimento das ciências físicas. Uma questão particular foi colocada: “Qual o seu conceito da idade do Universo?”. Mais de dois terços dos cientistas questionados responderam que não havia origem do Universo, que o Universo era eterno. Cinco anos após, em 1964, os radioastrônomos Arno Penzias e Roberto Wilson descobriram um sinal de micro-onda sepultado entre seus dados. Tentaram filtrar o sinal, supondo que tratava-se, meramente, de um ruído indesejado. Contudo, logo verificaram que o sinal de fato existia: eles tinham, inadvertidamente descoberto a Micro-onda Cósmica de Fundo (Cosmic Microwave Background – CMB). A CMB havia sido predita por uma teoria em que poucos acreditavam àquele tempo, chamada “Big Bang”. Essa descoberta foi a primeira evidência de que o Universo tinha um início.
Entendido que o Universo tinha um início, os cientistas começaram a perguntar: “como ele iniciou?” e “o que existia antes dele?”.
A maioria dos cientistas agora acredita que a resposta à primeira pergunta é que o Universo surgiu de uma singularidade – um termo que os físicos usam para descrever regiões do espaço que desafiam as leis da física.
Quanto à segunda parte da questão, os cientistas ficaram frustrados. Por definição, nada existia antes do início, mas este fato cria mais perguntas que respostas. Por exemplo, se nada existia antes do “Big Bang”, o que fez a singularidade aparecer em primeiro lugar?
Uma vez que a singularidade foi criada (de fato, ela aconteceu), começou a expandir-se através de um processo chamado inchação. O Universo passou de muito pequeno, muito denso e muito quente, à fria expansão que vemos hoje. Esta teoria é hoje conhecida como “Big Bang”, termo inicialmente cunhado por Sir Fred Hoyle, durante uma transmissão de rádio da BBC, em 1950 que, por ironia, opunha-se a ela. Curiosamente, na verdade, nenhuma espécie de explosão ocorreu, como sugere o nome; apenas a rápida expansão do espaço e tempo, da mesma forma como soprando ar dentro de um balão, ele se expande externamente.

HISTÓRIA

A teoria do “Big Bang” apresenta o principal modelo cosmológico a descrever o desenvolvimento inicial do Universo(1).
A Cosmologia física estuda as estruturas e dinâmica de maior escala do Universo e trata das questões fundamentais sobre sua formação, evolução e destino final. Pela maior parte da história humana, ela foi um ramo da metafísica(2) e da religião. A Cosmologia, como uma ciência, originou-se com o princípio de Copérnico - corpos celestiais obedecem a leis físicas(3) idênticas às da Terra -, e com a mecânica Newtoniana(4) , a primeira a nos permitir entender aquelas leis.
Einstein e Lemaître, dois físicos de respeito
A cosmologia física, como é agora entendida, começou com o desenvolvimento, no século XX, da Teoria Geral da Relatividade, de Einstein, e as observações astronômicas mais apuradas de objetos extremamente distantes. Esses avanços fizeram possível especular sobre a origem do Universo e permitiram o estabelecimento da “Teoria do Big Bang”, por Lemaître, como o principal modelo cosmológico. Alguns pesquisadores ainda advogam um punhado de cosmologias alternativas; contudo, a maioria dos cosmologistas concorda que a Teoria do “Big Bang” é a que melhor explica as observações.
A teoria do “Big Bang” originou-se de observações da estrutura do Universo e de considerações teóricas. Em 1912, Vesto Slipher mediu o primeiro deslocamento Doppler(5) de uma “nebulosa espiral” (nome obsoleto para “galáxia espiral”) e logo descobriu que tais nebulosas se afastavam da Terra. Ele não captou as implicações cosmológicas do evento e, de fato, naquele tempo era controverso se essas nebulosas eram ou não “universos ilhas” fora da nossa Via Láctea. Dez anos mais tarde, Alexander Friedmann, um cosmólogo e matemático, derivou as equações de Friedmann, a partir das equações da teoria da relatividade de Einstein, mostrando que o Universo poderia estar se expandindo, em contraste com o modelo estático do Universo estático proposto por Einstein à época.
Iniciando em 1924, Hubbler desenvolveu uma série de indicadores de distância, o precursor da escada de distância cósmica (método para medição da distância a corpos celestiais a distâncias maiores que 3.000 anos-luz), usando o telescópio de Hooker de 100 polegadas, no Observatório de Monte Wilson. Isso lhe permitiu estimar distâncias a galáxias cujos redshifts(6) já haviam sido medidos, principalmente por Slipher. A medida da distância à mais próxima nebulosa espiral, por Edwin Hubble, mostrou que esses sistemas eram de fato outras galáxias.
Independentemente derivando as equações de Friedmann, em 1927, George Lemaître propôs que o afastamento inferido das nebulosas era devido à expansão do Universo, propondo, originalmente, o que se tornou conhecido como a teoria do “Big Bang” e que ele chamou de “hipótese do átomo original”. Com o passar do tempo, os cientistas desenvolveram suas ideias iniciais para formar a síntese moderna.
As equações que governam a teoria foram inicialmente formuladas por Alexander Friedmann e soluções similares foram trabalhadas por Willem de Sitter. Em 1929, Edwin Hubble descobriu que as distâncias a galáxias distantes eram fortemente correlacionadas a seus redshifts – uma ideia originalmente sugerida por Lemaître em 1927.
Em 1931 Lemaître foi mais além e sugeriu que a evidente expansão do Universo, se projetada para o passado, no tempo, significava que quanto mais longe no passado, menor seria o Universo, até que em algum tempo finito no passado, todo a massa do Universo seria concentrada num só ponto, um “átomo primitivo”, onde e quando a estrutura do tempo e espaço iniciou sua existência.
De acordo com a teoria, o “Big Bang” ocorreu há, aproximadamente, 13,798 ± 0,037 bilhões de anos atrás, considerada a idade do Universo. Naquele tempo, o Universo estaria num estado de extremo calor e densidade e começou a expandir-se rapidamente. Após a expansão inicial, o Universo resfriou-se suficientemente para permitir que a energia fosse convertida em várias partículas subatômicas, incluindo prótons, nêutrons e elétrons. Embora apenas núcleos de átomos simples tenham se formado nos primeiros três minutos após o “Big Bang”, milhares de anos se passaram antes que os primeiros átomos eletricamente neutros se formassem. A maioria dos átomos produzidos pelo “Big Bang” era formada por hidrogênio, junto com hélio e traços de lítio. Nuvens gigantes desses elementos primordiais mais tarde coalesceram através da gravidade(7)  para formar as estrelas e as galáxias; os elementos mais pesados foram combinados ou dentro das estrelas ou durante as supernovas(8).
O arcabouço do modelo “Big Bang” repousa na Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein, e hipóteses simplificadas tais como a homogeneidade (no espaço, implica na conservação da quantidade de movimento [massa x velocidade]; no tempo, implica na conservação da energia) e isotropia (uniformidade de uma característica em todas as direções) espaciais. Essas ideias foram, inicialmente, tomadas como postulados, mas hoje há esforços para testar cada uma delas, tendo sido ambas praticamente confirmadas.
Para nós, brasileiros, a complexidade do modelo é, desde o início, ainda majorada pelo próprio título da teoria, que tem o seu original em inglês. O “big”, como a maioria sabe, significa “grande”, não no sentido de importância – que seria “great” -, mas apenas no sentido do tamanho; o “bang” está muito associado a ruído ou barulho de uma explosão, que tão bem conhecemos desde os filmes do velho oeste, que víamos quando crianças e aos quais nos referíamos como filmes de “bang-bang”. Isso é importante porque o “Big Bang” não é uma explosão de matéria para fora, a encher um Universo vazio. Ao invés disso, é o próprio espaço que se expande com o tempo em todas as direções, aumentando a distância entre dois pontos do espaço. Dadas essas explicações iniciais, a tradução deixa de parecer tão importante, pelo que proponho que, ao longo de todo o assunto, mantenhamos a nomenclatura original, até para evitar outras complicações que poderiam surgir.
Durante as décadas de 1920 e 1930, todos os principais cosmólogos preferiam um Universo eterno, em estado constante e muitos se queixaram de que o início do tempo implicado pelo “Big Bang” trazia conceitos religiosos para a física; essa objeção foi, mais tarde, repetida pelos defensores da teoria do Estado Constante(9). Essa percepção foi realçada pelo fato de que o criador da teoria do “Big Bang”, Lemaître, era um padre Católico Romano.
Na década de 1930 outras ideias foram propostas como cosmologias não padronizadas para explicar as observações de Hubble – “modelo de Milne”, “Universo oscilatório” e a “hipótese da luz cansada de Fritz Zwickl”. Entretanto, após a Segunda Guerra Mundial apenas duas possibilidades distintas emergiram: uma foi a teoria do “Estado Constante”, de Fred Hoyle, e a outra foi a teoria do ““Big Bang””, de Lemaître. Por um período, o apoio geral foi dividido entre essas duas teorias. Ao final, a evidência experimental começou a favorecer a teoria do “Big Bang” sobre a do Estado Constante e a descoberta e confirmação do CMB, em 1964, já prevista por seus adeptos, considerou a “Big Bang” como a melhor teoria da origem e evolução do cosmos. Uma boa parte do trabalho atual em cosmologia inclui o entendimento de como as galáxias se formam no contexto do “Big Bang”, entendendo a física do Universo em tempos cada vez mais remotos e reconciliando as observações com a teoria básica. Um progresso significativo na cosmologia do “Big Bang” tem sido feito desde o final da década de 1990 como resultado dos avanços na tecnologia do telescópio e na análise de dados de satélites, como o COBE (Cosmic Background Explorer), o Telescópio Espacial Hubble e o WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe). Os cosmólogos têm agora medições razoavelmente precisas de muitos dos parâmetros do modelo “Big Bang” além de, inesperadamente, descobrir que a expansão do Universo parece estar se acelerando.
O “Big Bang” é a teoria científica mais consistente com as observações dos estados passado e presente do Universo, amplamente aceita na comunidade científica. Ela fornece uma explicação compreensiva de uma ampla gama de fenômenos observados, incluindo a abundância de elementos leves, o Cosmic Microwave Background (CMB), estruturas de grande escala e o diagrama de Hubble (representação visual da Lei de Hubble, acima mencionada). As ideias centrais do “Big Bang” – a expansão, o estado quente inicial, a formação dos elementos leves e a formação das galáxias – são derivadas destas e outras observações. As galáxias, que no passado estavam todas muito próximas, hoje encontram-se cada vez mais afastadas. Uma consequência disso é que as características do Universo podem ser calculadas com detalhe, de volta no tempo, a temperaturas e densidades extremas, enquanto grandes aceleradores de partículas(10) replicam tais condições que resultam na confirmação e refinamento dos detalhes do modelo “Big Bang”.


(1) O Universo é comumente definido como a totalidade da existência, incluindo os planetas, estrelas, galáxias, os conteúdos do espaço intergaláctico, as menores partículas subatômicas e toda a matéria e energia. Termos similares incluem o Cosmos, o Mundo, a Realidade e a Natureza.
(2) A Metafísica é o ramo tradicional da Filosofia, que se ocupa da explicação da natureza fundamental do “ser” e do “mundo” que o envolve, embora o termo não seja facilmente definido. Tradicionalmente, a metafísica tenta responder a duas questões básicas, nos termos mais amplos possíveis:
1. O que está ao final de tudo?
2. Como ele é?
(3) Uma lei física ou lei científica, de acordo com a o dicionário inglês de Oxford, é “um princípio teórico deduzido de fatos particulares, aplicável a um grupo ou classe definida de fenômenos e expresso pela declaração de que um fenômeno particular sempre ocorrerá se certas condições estiverem presentes”. Leis físicas são tipicamente conclusões baseadas em experimentos e observações científicas repetidas por muitos anos e que foram aceitas universalmente pela comunidade científica. A produção de uma descrição sumária do nosso ambiente na forma de tais leis, é um objetivo fundamental da ciência.
(4) Em física, a mecânica clássica e a mecânica quântica são os dois maiores subcampos da mecânica. A mecânica clássica trata de um conjunto de leis físicas que descrevem o movimento dos corpos sob a ação de um sistema de forças. O estudo do movimento dos corpos é tão antigo que faz a mecânica clássica, também chamada de mecânica Newtoniana, um dos assuntos mais velhos e amplos na ciência, engenharia e tecnologia.
(5) O “efeito Doppler” (ou deslocamento Doppler), do físico austríaco Christian Doppler, proposto em 1842, em Praga, é a alteração na frequência de uma onda (ou outro evento periódico), para um observador móvel com relação à sua fonte. Pode ser percebido quando um veículo soando uma sirene ou buzina se aproxima, passa e se afasta de um observador. Comparada à frequência emitida, a frequência recebida é maior durante a aproximação, idêntica no instante da ultrapassagem e menor durante o seu afastamento.
(6) Em física, um redshift (deslocamento para o vermelho) acontece quando a luz, ou outra radiação eletromagnética, de um objeto, tem seu comprimento de onda aumentado ou movido para a extremidade vermelha do espectro. Em geral, esteja ou não a radiação dentro do espectro visível, mais vermelho (redder) significa um aumento no comprimento de onda – equivalente a uma menor frequência e menor foto-energia, de acordo com, respectivamente, as teorias da onda e quantum da luz.
(7) Gravidade ou gravitação é o fenômeno natural pelo qual todos os corpos físicos se atraem mutuamente. Ela é mais comumente reconhecida e experimentada como o agente que dá peso aos objetos físicos e faz com que esses objetos caiam para o chão quando tombados de alguma altura.
(8) Quando uma estrela gigante, com massa pelo menos 10 vezes à do Sol, chega ao fim de sua vida, produz-se uma explosão a que se dá o nome de Supernova. Seu brilho pode ser milhões de vezes maior que o brilho da estrela antes da explosão, comparável ao brilho de uma galáxia inteira, por semanas ou meses, antes de desaparecer.
(9) Em cosmologia, a teoria do “Estado Constante”, alternativa à teoria do “Big Bang” de origem do Universo e agora obsoleta, admite que nova matéria está sendo continuamente formada com a expansão do Universo, assim aderindo ao princípio cosmológico perfeito.
(10) Um acelerador de partículas é um dispositivo que usa campos eletromagnéticos para impulsionar partículas carregadas a altas velocidades, confinando-as em bem definidos feixes de luz. Um campo eletromagnético é um campo físico produzido por objetos eletricamente carregados; ele afeta o comportamento de objetos carregados na vizinhança do campo.

Conclui na próxima postagem.

quarta-feira, 19 de março de 2014

PEQUENA HISTÓRIA DA CRIMEIA

INTRODUÇÃO

Quando postei, há algum tempo atrás, um artigo sobre a Guerra da Crimeia, nunca imaginei que logo estaria escrevendo outro, ainda de maior interesse, posto que atual. Infelizmente, não poderia ser de outra forma. A situação geopolítica da Crimeia é por demais importante para que a região pudesse passar muito tempo sem sofrer renovadas tentativas de dominação.
Em função da atual crise que envolve Ucrânia, Crimeia, a intervenção russa e, por razões óbvias, apenas o resto do mundo, eu percebi que muito pouco conhecia da história passada da Crimeia e do seu passado recente, principalmente no que se refere à esfera de poder da Rússia sobre aquela península. Então, como sempre faço, sempre que posso, resolvi ler um pouco sobre o assunto, para me informar, principalmente, e passar essa informação aos meus leitores.
Evidentemente, não é nosso objetivo esgotar assunto tão amplo e controvertido, esse que inclui as origens, invasões e dominações sofridas pela Crimeia, por parte de um grande número de impérios e grandes potências do mundo em que vivemos. Também não fazemos aqui análise dos acontecimentos nem críticas a qualquer dos países envolvidos. Queremos apenas informar sobre um pouco da geografia e da história antiga da península famosa, bem como das transformações mais modernas sofridas pela Crimeia, uma região com mais de dois mil anos de história e principal pivô dos últimos incidentes ocorridos na Ucrânia.

LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA E TERMINOLOGIA

A Crimeia, oficialmente República Autônoma da Crimeia é uma península e uma república autônoma da Ucrânia, situada na costa setentrional do Mar Negro e na costa oeste do Mar de Azov, dominado pela Ucrânia e pela Rússia, fazendo fronteira com a província ucraniana de Kherson Oblast, ao norte. A área da Crimeia é de 26.100 km2, muito pequena se comparada à área da Ucrânia, de 603.628 km2 - incluída a área da Crimeia -, o maior país integralmente dentro da Europa. Sua população em 2007 era de 1.973.185; esses números não incluem a área e a população da cidade de Sebastopol (população de 379.200 habitantes), administrativamente separada da Crimeia.
Ucrânia e Crimeia no contexto da Eurásia
A Ucrânia, por sua vez, possui uma população (2012) de 45.693.300 habitantes, fazendo fronteiras com a Rússia a leste e nordeste, com a Belarus (ex-Bielorrússia) a noroeste, Polônia, Eslováquia e Hungria a oeste e com o Mar Negro e o Mar de Azov, ao sul e sudeste, respectivamente, através da Crimeia. A figura apresenta a localização da Ucrânia, em verde claro, e da Crimeia, em verde escuro, no contexto da Europa e Ásia. Evidentemente, mas apenas para deixar bem claro, em cinza aparecem as terras e em branco os mares e oceanos.
A Crimeia é ligada ao continente, ao norte, pelo istmo de Perekop; na extremidade oriental fica a península de Kerch, diretamente oposta à península Taman, em território Russo. Entre essas duas penínsulas situa-se o estreito de Kerch, com larguras variáveis entre 3 e 13 km, apenas, separando a Ucrânia da Rússia, ligação entre o Mar de Azov e o Mar Negro. A cidade de Yalta, que tornou-se famosa por ter acolhido a Conferência de Paz do mesmo nome, ao final da segunda guerra mundial, fica localizada ao sul da Crimeia, às margens do Mar Negro, como aparece na figura.
Yalta, sede da conferência de paz
da 2a. Guerra Mundial
A Crimeia possui uma maioria étnica predominantemente russa (58%) e ucraniana (24%); além disso, a região apresenta uma alta percentagem de muçulmanos. A República da Crimeia inclui, aproximadamente, toda a península da Crimeia ao norte do Mar Negro, com a pequena exceção da cidade de Sebastopol. É exatamente nessa situação geográfica privilegiada que reside todo o interesse estratégica da Crimeia, do qual ainda falaremos.
Entende-se por república autônoma, um tipo de divisão administrativa semelhante a uma província. Um número significativo de repúblicas autônomas pode ser encontrado nos estados sucessores da antiga União Soviética (como no Azerbaijão, Georgia, Ucrânia, Uzbequistão e Moldávia), mas a maioria está localizada dentro de Rússia (21 repúblicas autônomas só na Rússia). Muitas destas repúblicas foram estabelecidas durante o período soviético, como Repúblicas Autônomas da União Soviética, ou RASSs.
Não queremos nos afastar demais do tema principal, para não perder o foco, mas é preciso que esclareçamos aos leitores menos informados os termos União Soviética e Rússia.
A União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS em português), foi um estado socialista na Eurásia (massa de terra continental combinada da Europa e da Ásia), que existiu entre 1922 e 1991, governado como um estado de um só partido, pelo Partido Comunista, tendo Moscou como sua capital. Uma união de múltiplas Repúblicas Soviéticas subnacionais, seu governo e economia eram muito centralizados. A confusão nessa terminologia, para o público brasileiro, principalmente, vem do fato de que tal estado tem o seu próprio nome, em russo – para a maioria, impossível de ler ou pronunciar –, em inglês – muito difundido -, e em português. Começando pelo nosso próprio idioma, a união das iniciais do nome do estado, já nos fornece uma palavra muito próxima de Rússia (URSS), pelo qual foi muito tempo, e erradamente, conhecida por nós brasileiros ou, mais acertadamente, União Soviética. O mesmo nome, em russo, na ordem em que as palavras são escritas, daria a sigla abreviada CCCP (que aparece nos documentos em russo); em inglês essa mesma sigla é conhecida por USSR. A União Soviética teve suas origens na revolução russa de 1917 que depôs a autocracia imperial. Não confundir esta, com a segunda revolução que lhe seguiu, liderada por Vladimir Lenine, que acabou transformando-se numa guerra civil entre Vermelhos, partidários da revolução e Brancos, contrarrevolucionários, com a vitória dos comunistas e a formação definitiva da União Soviética. Mas isto é assunto de uma outra postagem, já em preparação e, para os nossos objetivos, o exposto já esclarece suficientemente.
A Rússia atual, por outro lado, também conhecida oficialmente por Federação Russa, é um país situado na Eurásia norte, uma república federal semipresidencial, compreendendo 83 súditos federais. Do noroeste ao sudeste, a Rússia faz fronteiras com Noruega, Finlândia, Estônia, Lituânia, Polônia, Belarus, Ucrânia, Georgia, Azerbaijão, Cazaquistão, China, Mongólia e Coreia do Norte, além de possuir fronteiras marítimas com o Japão e os Estados Unidos (pelo estado do Alasca). A Rússia, tal como é hoje, é praticamente um retorno ao passado quando, após a revolução russa, surgiu como República Socialista Federativa Soviética Russa (Rússia Soviética, Federação Russa ou simplesmente Rússia), um estado soberano e a maior, mais populosa e economicamente a mais desenvolvida república da União Soviética, acima descrita. Ela ressurgiu como uma consequência do colapso da União Soviética, em 25 de dezembro de 1991, quando foi rebatizada como Federação Russa, que permanece até hoje. Esse nome e Rússia foram especificados como os nomes oficiais do Estado, em 21 de abril de 1992, na emenda à constituição existente, e mantidos como tal na Constituição Russa de 1993.
Como república autônoma, a Crimeia é uma república parlamentar autônoma dentro da Ucrânia, governada pela constituição da Crimeia de acordo com as leis da Ucrânia. A capital e o assento administrativo do governo da república é a cidade de Simferopol, localizada no centro da península.

HISTÓRIA DA CRIMEIA

HISTÓRIA ANTIGA

Na antiguidade a Crimeia chamava-se Taurica e foi habitada por uma grande variedade de povos. Desde 700 A.C., a península trocou de mãos múltiplas vezes, tendo sido controlada por cimérios, búlgaros, gregos, cíntios, romanos, godos, hunos, kazars, Kievan Rus (antiga federação eslava do leste), gregos bizantinos, venezianos, genoveses, quipchaqs (federação tribal turca), turcos otomanos, tatars, mongóis, russos, alemães e modernos ucranianos. Em tempos mais modernos, a partir de 1783, toda a Crimeia foi anexada ao Império Russo.
Em 1853, conforme artigo já postado em nosso blog, a Guerra da Crimeia foi deflagrada e, sem entrar aqui em maiores detalhes, podemos sumarizar o evento apontando como causa maior o domínio do Mar Negro. A importância estratégica da Crimeia não pode ser negada por ninguém, pois ela é a frente avançada para o Mar Negro, o estreito de Bósforo, o mar de Mármara e o estreito de Dardanelos, todos em territórios turcos e o grande objetivo final, o Mar Mediterrâneo, com sua ligação marítima para toda a Europa, África e a saída para o Atlântico. Sem esquecer a ligação com o Oceano Índico, através do canal de Suez e tudo o que segue.
Situação geopolítica da Crimeia

A CRIMEIA NOS SÉCULOS XX E XXI

Durante a Guerra Civil Russa que seguiu-se ao término do Império Russo czarista, a Crimeia trocou de mãos algumas vezes e foi um baluarte do Exército Branco antibolchevista. Foi na Crimeia que os russos brancos liderados pelo general Wrangel tiveram sua última resistência contra as forças anarquistas de Nestor Makno e o Exército Vermelho, em 1920. Como consequência dessa resistência, cerca de 50.000 prisioneiros de guerra russos brancos foram sumariamente executados, por fuzilamento ou enforcamento, após a derrota do General Wrangel, ao final do mesmo ano, considerado um dos maiores massacres da Guerra Civil Russa.
Em outubro de 1921, foi criada a República Soviética Socialista Autônoma da Crimeia (RSSAC), como parte da Federação Russa, tornando-se então parte da União Soviética (muito conhecida dos ocidentais como “Cortina de Ferro”). A Crimeia experimentou, nesse período, duas extremas crises de alimentos: a Fome de 1921-1922 e o Holodomor de 1932-1933. 
Em maio de 1944 toda a população de tatars da Crimeia foi deportada ao exílio na Ásia Central, por ordem de Stalin como forma de punição coletiva na suposição de que eles teriam colaborado com as forças de ocupação nazista e formado legiões tatar antissoviéticas; estima-se que 46% dos deportados morreram de fome e doenças. Em 26 de junho do mesmo ano, as populações armênia, búlgara e grega foram também deportadas para a Ásia Central. Ao final do verão de 1944 a “purificação étnica” da Crimeia havia sido completada. Em 1967 a Crimeia dos tatars foi reabilitada mas eles foram proibidos de legalmente retornar à sua terra natal até os últimos dias da União Soviética. Em 30 de junho de 1945 a RSSAC foi abolida (ainda sob Stalin) e transformada em Província da Crimeia, pertencente à Federação Russa. Em fevereiro de 1954, o Presidium do Conselho Supremo da União Soviética decretou a transferência da Província da Crimeia, da Russia para a República Socialista Soviética da Ucrânia, como um “gesto simbólico” que marcou o 300º aniversário da Ucrânia como membro do Império Russo, quando o Secretário Geral do Partido Comunista era o ucraniano Nikita Khrushchev. Atendendo a um referendo de 20 de janeiro de 1991, a Província da Crimeia foi elevada à categoria de República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) em fevereiro de 1991, pelo Conselho Supremo da Ucrânia.
Com o colapso da União Soviética, a Crimeia tornou-se parte da recém independente Ucrânia, criando tensões entre esta e a Rússia. Com a frota do Mar Morto estacionada na Península, surgiam ocasionais preocupações de escaramuças armadas. Os tatars da Crimeia começaram a retornar de seu exílio e se restabelecer na Crimeia.
Em fevereiro de 1992 o Parlamento da Crimeia renomeou o seu status, de RSSA, para República da Crimeia, proclamando-se autogovernada em 5 de maio de 1992, a ser aprovado por referendo que aconteceria em 2 de agosto do mesmo ano, passando no mesmo dia a primeira constituição da Crimeia. Em 6 de maio de 1992 o mesmo Parlamento inseriu uma nova sentença à constituição, declarando que a Crimeia era parte da Ucrânia. Em 19 de maio, a Crimeia concordou em permanecer como parte da Ucrânia, mas comunistas da Crimeia forçaram o governo ucraniano a expandir o já extenso estado autônomo da Crimeia. No mesmo período, os presidentes Boris Yeltsin, da Rússia, e Leonid Kravchuk, da Ucrânia, concordaram em dividir a então Frota Soviética do Mar Negro entre a Rússia e a recém formada Marinha ucraniana.
Em outubro de 1993, o Parlamento da Crimeia estabeleceu o posto de Presidente da Crimeia e concordou com uma cota de representantes dos tatars da Crimeia no Conselho dos 14. Mas a desordem política prosseguiu. Emendas à constituição acalmaram o conflito, mas em março de 1995 o Parlamento da Ucrânia interveio, fragmentando a Constituição da Crimeia e removendo seu presidente, Yury Meshkov, com seu gabinete, por suas ações contra o Estado, promovendo a integração com a Rússia. Após uma constituição provisória, a atual foi colocada em efeito, com a alteração do nome do território para República Autônoma da Crimeia.
Como consequência do Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria, de maio de 1997, e a divisão da frota do Mar Negro, as tensões internacionais se acalmaram lentamente. Contudo, em setembro de 2006, protestos anti-NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) irromperam na península. Em setembro de 2008 o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Volodymyr Ohryzko, acusou a Rússia de distribuir passaportes russos à população da Crimeia e descreveu o problema como real, dada a declarada política russa de intervenção militar no estrangeiro para proteção de cidadãos russos.
Em 24 de agosto de 2009, demonstrações antiucranianas surgiram na Crimeia por residentes russos. Sergei Tsekov (do bloco russo e então deputado orador do parlamento da Crimeia) disse esperar que a Rússia desse à Crimeia o mesmo tratamento de apoio concedido à Ossetia do Sul (em conflito com a Georgia em 2008) e Abkhazia (em conflito com a Georgia em 1992). O caos instalou-se no parlamento ucraniano durante um debate sobre a extensão da saída numa base naval russa em 27 de abril de 2010, após o parlamento ter ratificado o tratado sobre a extensão da saída da Rússia de ancoradouros navais e instalações de praia no porto de Sebastopol e outras localidades da Crimeia até 2042 com renovações opcionais de 5 anos. O tratado foi ratificado pelo parlamento ucraniano e pela Duma do Estado Russo (que substituiu o Conselho Supremo Russo após a crise constitucional russa de 1993).

A CRISE DE 2014 NA CRIMEIA E A INTERVENÇÃO MILITAR RUSSA

Daqui para a frente, são fatos atuais conhecidos da maioria bem informada. Por isso, apenas faremos uma juntada resumida dos acontecimentos, para completar a narrativa que nos propusemos fazer sobre a história da Crimeia.
A revolução ucraniana de 2014 começou com uma agitação civil em Kiev, Ucrânia, como parte do protesto em andamento pela integração à União Europeia, contra o governo. Esse movimento iniciou em 21 de novembro de 2013 e teve um período de relativa calma nas demonstrações antigovernamentais que terminou em 18 de fevereiro de 2014 quando manifestantes e a polícia finalmente se defrontaram. O conflito cresceu rapidamente, causando a morte de 82 pessoas nos poucos dias seguintes, incluindo 13 policiais, e mais de 1.100 feridos.
Em 22 de fevereiro, após a confirmação do controle de Kiev por parte dos manifestantes e a fuga do presidente Yanukovych para o leste da Ucrânia, o parlamento ucraniano ratificou o seu “impeachment”, nomeando seu porta-voz, Oleksandr Turchynov, como presidente interino, em 23 de fevereiro. Em 24 de fevereiro o novo governo emitiu uma ordem de prisão para Yanukovych que fugira para a Rússia e era procurado na Ucrânia pela morte dos manifestantes. Na Crimeia, durante os dias que se seguiram, políticos nacionalistas russos e ativistas organizaram manifestações que convocavam a Rússia a defender a Crimeia do resto da Ucrânia.
Em 26 de fevereiro de 2014, milhares de protestantes pró-Rússia e pró-Ucrânia chocaram-se em frente ao parlamento, em Simferopol, sob o pretexto maior da abolição, em 23 de fevereiro recém passado, da “lei das linguagens das minorias”(1) , incluindo a russa. Tal decisão, que faria com que a Ucrânia tivesse apenas um idioma oficial, ainda não fora confirmada pelo presidente provisório da Ucrânia.
Em 28 de fevereiro de 2014, forças terrestres russas ocuparam aeroportos e outros pontos estratégicos da Crimeia, fato que o Governo Provisório da Ucrânia descreveu como invasão e ocupação da Crimeia por forças russas. Contudo, as tropas russas achavam-se estacionadas na Crimeia por mais de uma década, por um acordo com a Ucrânia, embora o número das forças presentes constituísse uma violação dos acordos do tratado Ucraniano-Russo. Homens armados - militantes armados ou forças especiais da Rússia – ocuparam o parlamento da Crimeia onde, sob guarda armada e com as portas trancadas, membros do parlamento aparentemente elegeram Sergey Aksyonov como novo Primeiro Ministro da Crimeia. O novo Primeiro Ministro declarou que só ele mantinha o controle das forças de segurança da Crimeia e que havia apelado à Rússia “para assistência na garantia da paz e calma” na península. O governo central ucraniano não reconhece a administração Aksyonov, considerando-a ilegal. O presidente ucraniano expulso, Viktor Yanukovych enviou carta a Putin pedindo uso da força militar na Ucrânia para restaurar a força e a ordem. O ministro russo das relações exteriores declarou que “o movimento de veículos blindados da frota do Mar Negro na Crimeia (...) acontece em total harmonia com os acordos básicos Russo-Ucranianos na frota do Mar Negro”.
Em 1º de março o parlamento russo concedeu ao Presidente Putin autoridade para uso de força militar na Ucrânia. Tal movimento foi condenado por várias nações ocidentais alinhadas com o ocidente. No mesmo dia o presidente em exercício da Ucrânia, Oleksndr Turchynov, censurou publicamente a indicação do Primeiro Ministro de Crimeia como inconstitucional, embora a Rússia tenha o controle de fato do território.
Em 3 de março foi relatado que o comandante russo da frota do Mar Negro deu à Ucrânia um prazo final - madrugada do dia 4 de março – para entrega do controle da Crimeia ou enfrentar um assalto das tropas russas que ocupam a área; contudo, agências de notícias indicaram um porta-voz da frota que negou que um ultimato tivesse sido emitido; nada aconteceu no prazo final.
Em 4 de março, várias bases e navios da marinha ucraniana na Crimeia relataram intimidação por forças russas, embora sem violência. Em uma manifestação, soldados ucranianos na base aérea de Belbek marcharam sem armas de suas barracas para as linhas russas, onde foram parados por sentinelas que deram tiros de advertência e os cercaram, todo o episódio registrado por jornalistas. Navios de guerra ucranianos também foram efetivamente bloqueados no seu porto de Sebastopol.
Em 6 de março, membros do Parlamento da Crimeia solicitaram ao governo russo a anexação do seu território à Federação Russa, através de um referendo popular a ser realizado em 16 de março. O governo central ucraniano, União Europeia e Estados Unidos contestam a legitimidade da solicitação e do referendo. O artigo 73 da Constituição da Ucrânia estabelece: “Alterações relativas ao território da Ucrânia serão resolvidas exclusivamente através de Referendo de todos os ucranianos”. Monitores internacionais chegaram na Ucrânia para avaliar a situação na Crimeia, mas foram impedidos por militantes armados na fronteira da Crimeia. Forças russas despacharam o cruzador Ochakov para Novoozerne, municipalidade de Yevpatoria, na costa noroeste da Crimeia, bloquear os navios da armada ucraniana no seu porto de Donuzlav Lake, locais que pertencem tanto à Ucrânia quanto à Crimeia.
Em 7 de março as forças russas despacharam um segundo navio para garantir o bloqueio do porto de Donuzlav Lake. No mesmo dia, o parlamento da Crimeia liberou as questões da cédula para o referendo de março, com as seguintes questões:

1) “Você apoia a junção da Crimeia com a Rússia como súdito da Federação Russa?”
2) “Você apoia a restauração da Constituição de 1992 da República da Crimeia e o status da Crimeia como parte da Ucrânia?”

Somente as cédulas com exatamente uma resposta positiva serão consideradas válidas. Na cédula não foi considerada a opção de manutenção do “status quo”, bem diferente da opção 2, visto que a atual constituição da Crimeia vigora desde 1999 e o artigo 135 da constituição ucraniana determina que a constituição da Crimeia deve ser aprovado pelo parlamento ucraniano.
Em 18 de março, tendo em vista o resultado proclamado do referendo de 16 de março, o Kremlin reivindicou a posse da Crimeia como parte da Federação Russa. O governo da Ucrânia, a União Europeia e os Estados Unidos não concordam com a declaração do Kremlin. Nessa mesma data, militantes armados da Crimeia renderam uma guarnição da marinha ucraniana, estacionada no porto de Sebastopol, sem resistência de qualquer forma, embora um soldado ucraniano tenha sido morto no conflito.
Pode-se notar facilmente, o evento promete desdobramentos com consequências imprevisíveis. Sanções econômicas impostas pela União Europeia e Estados Unidos, contra a Rússia, já estão em prática. O presidente Putin, da Rússia, por outro lado, não dá demonstrações de estar sendo intimidado por tais providências e toma medidas cada vez mais fortes em direção à anexação da Crimeia pela Rússia. A ONU se movimenta para tentar a solução diplomática do impasse; entretanto, a única organização internacional com poder de força é o Conselho de Segurança da ONU, do qual a Rússia é membro permanente, com poder de veto à qualquer medida proposta.

A nós, como expectadores, resta torcer para que ainda tenha sobrado um pouco de juízo, responsabilidade e boa vontade nas cabeças dos principais líderes mundiais envolvidos e seus conselheiros, embora o passado tenha deixado, neste aspecto, muito a desejar.

(1) A legislação sobre os idiomas, na Ucrânia, é baseada em sua constituição, obrigações internacionais e na lei de 2012 “Sobre os Princípios da Política do Estado na Língua”. Essa lei tinha como objetivo dar à língua da minoria russa ou qualquer outra minoria, o status de uma “língua regional”, aprovando seu uso em cortes, escolas e outras instituições governamentais em território da Ucrânia, onde a percentagem de representantes das minorias nacionais excedesse 10% da população total de um distrito administrativo definido. Na prática, tratava-se principalmente das regiões sul e leste do país, com predominância de pessoas falando russo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

HISTÓRIA DOS REIS DA INGLATERRA A PARTIR DE 1066 (PARTE 13 - ÚLTIMA)

GEORGE V – (1910-1936)
George V

George V nasceu em 3 de junho de 1865, Segundo filho de Edward VII e Alexandra. Sua educação básica foi algo insignificante se comparada à do herdeiro legítimo, seu irmão mais velho Albert. George escolheu a carreira de oficial da marinha, que serviu com competência até a morte de Albert, em 1892, com a qual assumiu o papel de herdeiro legítimo. Casou-se com Mary de Teck em 1893, que lhe deu quatro filhos e uma filha.
George subiu ao trono no meio da controvérsia do orçamento de 1910. Tories, na Casa dos Lordes, estavam em desacordo com os Liberais, na Casa dos Comuns, pressionando por reformas sociais. Quando George concordou em criar pares suficientes para aprovar a medida, os Lordes capitularam e desistiram do poder de veto absoluto, oficialmente resolvendo o problema com a aprovação da Lei do Parlamento, em 1911.
A criação da Royal Flying Corps (RFC), em abril de 1912, refletiu o reconhecimento britânico da crescente importância da aviação militar. Em 1918, a RFC foi unida à Royal Naval Air Service para formar a Royal Air Force (RAF).
Nessa época, o transatlântico ‘Titanic’, da White Star, era o maior navio no mundo, à época do seu lançamento. Seus construtores e proprietários clamavam que nada afundaria o navio, mas em sua viagem inaugural, de Southampton para New York, ele colidiu com um iceberg, afundando em horas, com perda de 1.503 vidas.
Em junho de 1914, o herdeiro do trono Austro-Húngaro, Arquiduque Franz Ferdinand, foi assassinado por Gavrilo Princip, um terrorista bosnio-servo, em Sarajevo. O governo Austro-Húngaro culpou a Servia, usando o assassinato como pretexto para a guerra. Para a maioria dos bretões, este foi um evento remoto e insignificante, mas o conflito cresceu fortemente, arrastando as “Grandes Potências” e resultando na explosão da Primeira Guerra Mundial.
Em agosto de 1914, a Rússia, aliada da Servia mobilizou seu exército. A Alemanha, aliada do império Austro-Húngaro, declarou Guerra à Rússia. Mas a aliança da França com a Rússia ameaçou a Alemanha em duas frentes e ela agiu rapidamente, invadindo a neutra Bélgica. A Bretanha, garantidora da neutralidade belga, exigiu o recuo da Alemanha, que expirou em 4 de agosto, com a sua imediata declaração de guerra. Durante a guerra, George e Mary fizeram várias visitas ao fronte e numa delas o cavalo de George rolou sobre ele, fraturando-lhe o pélvis e deixando-o com fortes dores para o resto da sua vida.
Buscando a rendição da Inglaterra, em fevereiro de 1916 os alemães declaram guerra irrestrita, por seus submarinos, a navios mercantes de todas as nacionalidades; falharam em seus objetivos e apressaram a entrada dos EUA na guerra, em abril de 1917. Nessa mesma época, sentimentos antialemães fizeram George adotar o nome de família "Windsor" (do castelo de mesmo nome), criando a famosa Casa de Windsor, que reina até hoje na figura de Elizabeth II.
Em fevereiro de 1917, o Czar Nicholas II da Rússia foi forçado a abdicar após sérios reveses na guerra contra a Alemanha. Um governo provisório, de liberais e moderados, foi estabelecido, mas também falhou no campo de batalha e foi derrubado por um golpe cuidadosamente planejado pelos bolchevistas, que prometeram ‘paz pão e terras’ ao povo russo esgotado pela guerra. Em novembro do mesmo ano, inspirado pelos escritos de Karl Marx, os bolchevistas estabeleceram um governo baseado no 'soviet' (conselho de governo), afastando-se da Guerra em março de 1918, em termos humilhantes, pelo tratado de Brest-Litovsk, com Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano. Na busca, a qualquer preço, da paz prometida pelo líder bolchevista Vladimir Lenin, a Rússia perdeu enormes faixas de território, com um terço da sua população, 50% da sua indústria e 90% de suas minas de carvão. A oposição ao Tratado ajudou a incendiar a Guerra civil russa, que durou até 1922.
Em 11 de novembro de 1918, sob termos muito onerosos, finalmente a Alemanha capitulou, assim encerrando-se a Primeira Grande Guerra com a vitória da Inglaterra e seus aliados.
A relação entre a Inglaterra e o resto do Império sofreu várias alterações. Em 1918, após o levante de Sinn Féin(1) , em 1916, foi estabelecido um Parlamento irlandês independente e o Ato do Governo da Irlanda, de 1920, dividiu a Irlanda ao longo de linhas religiosas. Em abril de 1925, em seu primeiro orçamento como Ministro das Finanças, Winston Churchill reconduziu a Bretanha ao seu sistema monetário pré 1914, pelo qual a moeda inglesa era fixada a um preço que refletia as reservas em ouro do país. O ato resultou em deflação maciça e supervalorização da Libra. Em outubro de 1926, a Imperial Conference, em Londres, reconheceu legalmente que os domínios do Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, eram autônomos e iguais em status, uma decisão mais tarde confirmada pelo Estatuto de Westminster, de 1931, que criou o British Commonwealth of Nations (Comunidade das Nações Britânicas).
Em 1922, um grupo de fabricantes de rádios, incluindo o pioneiro Guglielmo Marconi, estabeleceram a British Broadcasting Company. Em 1927 a companhia obteve uma carta patente, tornando-se a British Broadcasting Corporation (BBC), presidida por John Reith, com a missão de melhorar a Bretanha através da radiodifusão, instruindo a corporação com a famosa frase 'informar, educar e entreter'.
A Quinta Lei da Reforma de maio de 1928, proposta pelo governo Conservador, alterou a Representação da "Lei do Povo" de 1918, que havia concedido emancipação às mulheres com mais de 30 anos, com propriedade. A nova lei deu a todas as mulheres os mesmos direitos dos homens: voto a todas maiores de 21 anos.
Enquanto trabalhava no St Mary's Hospital, em Paddington, Londres, Alexander Fleming percebeu que o mofo que crescia num prato, impediu o desenvolvimento da bactérias. Howard Florey e Ernst Chain desenvolveram a penicilina posteriormente de forma que pudesse ser usada como remédio, mas apenas com a Segunda Guerra Mundial ela começou a ser produzida em massa.
A depressão mundial de 1929 a 1931 afetou profundamente a Inglaterra, levando o rei a persuadir os líderes dos partidos Conservador, Liberal e Trabalhista, a se unirem numa coalizão governamental. Ao final da década de 1920, George e os Windsors eram uma das poucas famílias reais que mantinham seu status na Europa. Em 1935, a Índia recebeu alguma autodeterminação através da Lei da Índia.
A natureza da monarquia evoluiu pela influência de George. Em contraste com à sua avó Victoria e seu pai Edward VII, a perspectiva real de George foi bem mais humilde. Ele esforçou-se em personificar as qualidades que a nação via como suas forças maiores: atividade, dignidade e dever. A monarquia passou de uma instituição de legalidade constitucional a baluarte dos valores e costumes tradicionais, particularmente os relativos à família.
George morreu após seu Jubileu de Prata (25 anos de reinado), após uma série de ataques de bronquite, em 20 de janeiro de 1936, sendo substituído por seu filho Edward.

EDWARD VIII – (1936)
Edward VIII, o rei que abdicou

Edward VIII, filho mais velho de George V e Mary de Teck, nasceu em 23 de junho de 1894. Casou-se com uma americana divorciada, Wallis Simpson, após abdicar ao trono, após escassos onze meses de reinado. O casal não teve filhos.
Rumores relativos à ligação entre Edward e Mrs. Simpson circulavam antes da morte de George V. A situação chegou à beira de uma crise constitucional com a sua ascensão: a Igreja da Inglaterra (a mesma de Henry VIII), da qual era o líder, censurava o divórcio, o Parlamento recusou qualquer título a Wallis, o povo opôs-se a ter uma mulher duas vezes divorciada como consorte do rei e a lei inglesa não possuía precedente para uma esposa de rei sem título ou capacidade oficial. O Primeiro Ministro Stanley Baldwin avisou-lhe que o povo britânico não a aceitaria. Se Edward insistisse na questão, a monarquia constitucional seria irrevogavelmente ferida. Na iminência de perder a mulher que amava, Edward preferiu abdicar, transmitindo sua decisão à nação em 11 de dezembro de 1936. Casou-se com Wallace Simpson, na França, em junho de 1937, tornando-se Duque e Duquesa de Windsor. Baldwin recebeu o crédito de ter evitado uma crise constitucional que poderia ter acabado com a monarquia.
Edward era imensamente popular quando assumiu o trono; sua viúva, a duquesa de Windsor lamentou sua abdicação após a sua morte, em 1972: “Ele teria sido um grande rei; o povo o amava!”

GEORGE VI – (1936 – 1952)
George VI, do Reino Unido

O irmão mais novo de Edward VIII, o Duque de York, foi coroado George VI. Nascido em 14 de Dezembro de 1895, George era o Segundo filho de George V e Mary de Teck. Era um jovem tímido e modesto que muito admirava seu irmão Edward, Príncipe de Gales. Da infância aos trinta anos, George muito sofreu pela gagueira em seus discursos, o que exacerbava sua timidez; Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano, teve um papel fundamental na ajuda a George para vencer a gagueira.
George casou-se com Elizabeth Bowes-Lyon em 1923, que lhe deu duas filhas, Elizabeth e Margaret. Ele e sua esposa, rainha Elizabeth (posteriormente a rainha mãe), tornaram-se figuras inspiradoras para a Bretanha, durante a segunda guerra mundial. O monarca visitou seus exércitos em diversas frentes de batalha e fundou a Cruz de George para ‘atos de grande heroísmo ou da mais notável coragem em circunstâncias de extremo perigo’.
Em 1o de setembro as forças alemãs invadiram a Polônia. O Primeiro Ministro Neville Chamberlain ainda evitou declarar Guerra à Alemanha, mas uma ameaçadora revolta no gabinete e um forte sentimento público de que Hitler tinha que ser confrontado, forçaram-no a honrar o tratado anglo-polonês. Após vários anos de políticas de apaziguamento, a Grã Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha em 3 de setembro de 1939, pela segunda vez em 25 anos.
George, seguindo os passos de seu pai, visitou as tropas, fábricas de munições, docas de abastecimento e áreas atingidas por bombas, em apoio aos esforços de guerra. Embora os bombardeios nazistas a Londres, a família real permaneceu no Palácio de Buckingham. George chegou ao ponto de praticar tiro ao alvo com seu revolver, jurando defender o Palácio até a morte, o que nunca foi necessário. Todas essas ações, durante os anos de Guerra, muito somaram ao prestígio da monarquia.
No início de maio de 1940, o Primeiro Ministro Neville Chamberlain havia perdido a confiança na Casa dos Comuns. Os ministros trabalhistas recusaram servir numa coalizão nacional tendo Chamberlain como líder e ele resignou. Churchill tornou-se o Primeiro Ministro de coalizão em 10 de maio, mesmo dia em que a Alemanha invadiu a Holanda e a Bélgica.
Sir Winston Churchill,
Primeiro Ministro da Guerra
Em 26 de maio de 1940, 338.000 soldados ingleses e franceses foram evacuados na épica retirada de Dunkirk, de que participaram destroieres e centenas de pequenas embarcações voluntárias. Em 25 de junho de 1940 a França capitulou.
Os EUA entraram na Guerra com os aliados, em dezembro de 1941, após o ataque japonês a Pearl Harbor e a subsequente declaração de guerra alemã aos Estados Unidos. Milhões de homens e milhares de aviões foram despachados para a Bretanha, que tornou-se a base para pilotos americanos bombardearem a Europa, uma plataforma para tropas americanas lutarem no norte da África e, crucialmente, o ponto de lançamento para as invasões do “Dia D”, início da libertação da Europa Ocidental.
Em 6 de junho de 1944, as forças aliadas invadiram a Normandia no “Dia D”, no maior ataque anfíbio da história, com 150.000 homens nas praias da Normandia no primeiro dia, numa ação combinada de centenas de navios e total superioridade aérea. Ao final do “Dia D”, cinco cabeças de praia haviam sido tomadas e os aliados finalmente tinham um pé na França.
Hitler suicidou-se em 30 de abril de 1945, quando as forças soviéticas de aproximavam do “bunker” de Berlim, e o grande almirante alemão, Karl Dönitz, rendia-se ao general aliado Dwight Eisenhower em 7 de maio do mesmo ano. No dia seguinte a Bretanha celebrou o fim da guerra com o dia da vitória na Europa. Em 15 de agosto de 1945, o dia da vitória sobre o Japão marca o fim da Segunda Guerra Mundial.
Na Conferência de Yalta, início de 1945, os “Três Grandes”, Winston Churchill, da Bretanha, Presidente Franklin D. Roosevelt dos EUA e o líder soviético Joseph Stalin, concordaram em estabelecer uma nova organização global – as Nações Unidas (ONU), oficialmente entrando em atividade em 24 de outubro, com a Bretanha como um dos cinco membros do seu “Conselho de Segurança”, com poder de veto.
Em 23 de outubro de 1951 o governo trabalhista caiu, com os conservadores obtendo uma clara maioria. Singularmente, Winston Churchill tornou-se Primeiro Ministro novamente com a idade de 76 anos, focando seu governo nas relações exteriores, incluindo a redução da escalada das tensões da Guerra Fria e mantendo um especial relacionamento com os EUA.
George, desde o início de 1941, predissera as privações do fim da Segunda Guerra Mundial. De 1945 a 1950, a Grã Bretanha passou por marcadas transições. O Banco da Inglaterra, bem como muitas facetas da indústria, transporte, produção de energia e saúde, passaram a ter algum grau de propriedade pública. As dores do parto do estatismo e a mudança do Império para uma Comunidade multirracial, perturbaram o nervoso rei, deixando-o física e emocionalmente drenado à época de sua morte. O “esbelto e calmo homem de olhos cansados” tivera um reinado conturbado, mas havia feito o possível para deixar a monarquia em melhores condições do que a havia encontrado. George morreu de câncer em 6 de fevereiro de 1952.

ELIZABETH II – (1952 ATÉ O PRESENTE)
Elizabeth II e o Duque de
Edinburgh, na Coroação

Elizabeth II é, atualmente, a rainha da Inglaterra, a rainha da geração atual, da minha geração. É, portanto, a rainha da época em que vivemos, da época que vivenciamos. Ainda lembro da época em que ela ascendeu ao trono, na flor dos meus oito anos. Por esta razão, e até para não ser monótono, não daremos maiores detalhes do seu reinado, mas apenas as generalidades que dizem respeito à própria monarca.
Elizabeth II, nascida em 21 de abril de 1926, era a filha mais velha de George VI e Elizabeth Bowes-Lyon. Casou-se com Philip Mountbatten, um primo distante, em 1947; o casal tem 4 filhos: Charles, príncipe de Gales, Anne, Andrew e Edward. Ela já reina por sessenta e um anos e tudo indica que ainda permanecerá no trono por um bom tempo.
A monarquia, como instituição na Europa, quase desapareceu durante as duas guerras mundiais: escassos dez reis permanecem hoje, sete dos quais possuem família ligada à Inglaterra. Elizabeth é, de longe, a mais conhecida e mais viajada chefe de estado no mundo. Ela aprova a transformação de império para Comunidade, descrevendo a troca como “uma metamorfose benéfica e civilizada”. A indivisibilidade da Coroa foi formalmente abandonada, por estatuto, em 1953 e, “Líder da Comunidade”, foi adicionada à longa lista de títulos reais que ela possui.
As viagens de Elizabeth renderam-lhe a lisonja de seus súditos; ela é saudada com honesto entusiasmo e calorosa estima em cada visita ao exterior. Tem sido o elo principal de uma cadeia forjada entre os vários países da Comunidade. A monarquia, bem como o Império, evoluiu - o que era antes a imagem do poder absoluto é agora um símbolo de fraternidade.
Elizabeth tem trabalhado muito para manter uma clara divisão entre seu público e sua vida privada. Foi a primeira monarca a enviar seus filhos a internatos, a fim de removê-los da mídia indiscreta. Ela possui um forte senso de dever e zelo, despachando suas obrigações reais com grande eficiência e dignidade. Seu conhecimento das situações e tendências atuais é singularmente atual, muitas vezes criando embaraço em seus Primeiros Ministros. Harold Wilson, ao aposentar-se, observou: "Certamente aconselharei meu sucessor a fazer seu dever de casa antes da audiência". Churchill, que serviu a quatro reis, era impressionado e encantado por seu conhecimento e juízo. Ela possui um senso de humor raramente exibido onde uma presença digna é o objetivo.
Elizabeth II, a "velha" rainha do
Reino Unido e Commonwealth
Elizabeth, como seu pai antes dela, elevou o caráter da monarquia através de suas ações. Infelizmente, as ações de seus filhos têm desdourado o seu nome real. Os divórcios públicos de Charles e Diana e Andrew e Sarah Ferguson, foram seguidos por indiscrições adicionais dos príncipes, levando uma população sobrecarregada por impostos, a repensar a necessidade de uma monarquia. Talvez Elizabeth não venha a reinar tanto quanto Victoria, mas seu reinado, excepcionalmente longo, já deixou uma brilhante marca na vida do seu país.
E com esta postagem marcamos o fim desta longa publicação, considerando cumprida nossa proposta de relatar a "HISTÓRIA DOS REIS DA INGLATERRA A PARTIR DE 1066", uma história das pessoas que, de uma forma ou de outra, em suas respectivas épocas, lograram atenuar as tensões entre o estado, a sociedade e a igreja, entre os povos nativos, invasores ou convidados, de forma a forjar, por séculos de conflitos entremeados por períodos de paz, o maior império que o mundo jamais viu.


(1) Sinn Féin (em português “Nós Mesmos”) era o nome de partido político irlandês fundado em 1905 por Arthur Griffith, que deu foco ao nacionalismo e republicanismo irlandês, em várias formas. De fato, o Sinn Féin não esteve envolvido no fracassado “Levante da Páscoa”, durante a semana da Páscoa de 1916, a despeito da culpa que lhe imputou o governo inglês. Os líderes do levante buscavam mais do que a proposta do partido de uma separação mais forte do que um governo nacional sob uma monarquia dupla.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

HISTÓRIA DOS REIS DA INGLATERRA A PARTIR DE 1066 (PARTE 12)

A ERA VITORIANA (1837 - 1901)
Rainha Victoria, o mais longo reinado do UK

Victoria, nascida em 24 de maio de 1819, era filha de Edward, Duque de Kent e Strathearn, e Victoria de Saxe-Coburg-Saalfeld. Edward morreu quando Victoria tinha apenas 8 meses de idade, após o que sua mãe determinou um rígido regime para evitar as cortes de seus tios, George IV e William IV. Casou-se com o Príncipe Albert de Saxe-Coburg-Gotha in 1840 e a união produziu quatro filhos e cinco filhas.
Victoria subiu ao trono com a morte de William IV, recém completados 18 anos, e recusou qualquer influência além da sua dominante mãe, governando por si própria. O respeito popular pela Coroa era muito baixo à época da sua coroação, mas a modesta e direta jovem rainha venceu os corações de seus súditos. Desejava ser informada dos assuntos políticos, embora não tivesse acesso direto nas decisões da política. A ‘Lei da Reforma’, de 1832, havia estabelecido que o padrão da autoridade legislativa residia na Casa dos Lordes e a autoridade executiva, em um Gabinete formado por membros da Casa dos Comuns, com o monarca, essencialmente, removido do circuito. Ela respeitava e trabalhou muito bem com Lorde Melbourne, Primeiro Ministro nos primeiros anos do seu reinado, e a Inglaterra cresceu social e economicamente.
Albert, príncipe consorte
O Príncipe Albert, a quem ela era fortemente devotada, substituiu Melbourne como a influência masculina dominante na vida de Victoria. O povo, contudo, não simpatizava  com o príncipe alemão: ele foi excluído de qualquer posição política oficial, nunca possuiu um título de nobreza e só foi chamado Príncipe Consorte após 17 anos de casamento. Victoria não fazia nada sem a aprovação de seu marido. Seus interesses em arte, ciência e indústria, o estimularam a organizar a ‘Exibição do Palácio de Cristal’, em 1851, uma convenção industrial altamente lucrativa. Ele usou os lucros (algo em torno de £186,000), para adquirir terras em Kensington para o estabelecimento de vários museus culturais e industriais. Em janeiro de 1858, por influência do Príncipe consorte, o pianista e condutor Charles Hallé fundou a primeira orquestra sinfônica britânica, indicando o crescimento das atividades culturais proporcionadas aos cidadãos do Reino Unido. A morte de Alberto, de tifo, em 1861, afetou profundamente a mente de Victoria, que entrou numa reclusão por mais de 25 anos, só saindo dela para as celebrações do Jubileu Dourado de 1887, a celebração do seu 50º ano no trono. Uma geração inteira criou-se sem jamais ter visto a face de sua rainha.
A reforma do governo permitiu que a Inglaterra evitasse as condições politicamente tumultuadas que varriam a Europa no meio do século XIX. O continente experimentava as crescentes dores do conservadorismo, liberalismo, socialismo e as lutas nacionalistas por unificação política. A Inglaterra focou no desenvolvimento industrial e comercial e na expansão do alcance imperial. Durante o reinado de Victoria o império dobrou o seu tamanho, abarcando o Canadá, Austrália, Índia e vários locais da África e sul do Pacífico. Seu reinado, quase livre de guerras, enfrentou um levante irlandês (1848), as Guerras dos Boers(1)  na África do Sul (1881, 1899-1902) e uma rebelião na Índia (1857), além da Guerra da Crimeia (1853-56) que, unida à França, travou contra a Rússia, e venceu. Os sucessos em evitar envolvimentos europeus foi devido, em grande parte, aos casamentos dos filhos de Victoria: ou diretamente, ou por casamento, ela ficou ligada às casas reais da Alemanha, Rússia, Grécia, Romênia, Suécia, Dinamarca, Noruega e Bélgica. Nicholas II da Rússia foi casado com uma neta de Victoria, Alexandra e o temível imperador da Alemanha, Kaiser Wilhelm II, era o seu neto "Willy". Durante sua reclusão, ela governou sua família com a mão de ferro que lhe foi negada pelo arranjo institucional inglês.
O governo Whig, sob o visconde Melbourne, enfrentou crescentes dificuldades de ordem financeira e pública. Em agosto de 1841, Sir Robert Peel forçou uma eleição geral, após derrotar os Whigs numa moção de ‘não confiança’ na Casa dos Comuns. Os Tories venceram uma maioria por mais de 70, na Casa dos Comuns, escolhendo Peel como novo primeiro ministro. Essa foi a primeira eleição dos tempos modernos, em que um partido politico com maioria parlamentar foi derrotado por outro, que ganhou uma marcante maioria. Os velhos partidos políticos da Inglaterra, os Whigs e os Tories, se transformaram durante o reinado de Victoria. O apoio de Robert Peel para o Corn Law Repeal(2) (Anulação da Lei dos Cereais), em 1846, contra a ideia dos seus próprios pares, dividiu os Tories em dois campos. Os adeptos de Peel juntaram-se com os Whigs para criar o Partido Liberal e os Tories contrários a Peel, tornaram-se o Partido Conservador. Ao contrário da maioria da Europa, os políticos ingleses concordaram nas principais questões da estrutura governamental e ideologia política, mas diferiram nas questões menores de prática política e sua implementação. Os Liberais representavam comerciantes e artesãos, enquanto os Conservadores representavam a pequena nobreza proprietária de terra. O papel de Victoria nesse realinhamento politico foi o de mediadora entre os Primeiros Ministros que saíam e que chegavam (o Primeiro Ministro era escolhido pelo partido que tinha o controle da Casa dos Comuns). Ela gostava particularmente do Conservador Benjamin Disraeli que, por ligar Victoria à expansão do Império, respeitava a monarquia que havia faltado desde a reclusão de Victoria. Por outro lado, desprezou o proeminente Primeiro Ministro Liberal William Gladstone, cujo partido dominou o Parlamento de 1846 a 1874.
Mesmo entre as dores do luto, durante a sua reclusão, Victoria deu muita atenção aos negócios e administração diários, num tempo de grande evolução política e social. Foram muitas e importantes as leis apresentadas e aprovadas em sua era, incluindo as Leis da Reforma de 1867 e 1884 que ampliaram o sufrágio.
O termo Victorian England (Inglaterra Victoriana), derivou da ética e gostos pessoais da Rainha que, em geral, refletiam os da classe media. O Jubileu de Ouro retirou-a de sua concha e ela voltou a abraçar a vida pública. Visitou as possessões inglesas e a França (primeira monarca inglesa a fazer isso desde a coroação de Henry VI, em 1431. Quando ela morreu, com avançada idade, uma inteira era morreu com ela.
Antes de encerrar o seu reinado, porque muito importantes, gostaríamos de alinhar alguns fatos relacionados à era victoriana.
O escritor Charles Dickens
Charles Dickens foi um dos maiores novelistas victorianos. No ano de 1838, 'Oliver Twist' foi, como muitas das suas outras novelas, originalmente publicada em capítulos, trazendo à atenção pública contemporânea vários de seus males sociais. Outros trabalhos de Dickens incluem 'The Pickwick Papers' (As Aventuras de Mr. Pickwick), 'A Christmas Carol' (Um Conto de Natal), 'David Copperfield' e 'Great Expectations' (Grandes Esperanças), uma de suas obras primas de minha preferência.
Outro grande nome da ciência e literatura victoriana, Charles Darwin, publicou, em novembro de 1859, sua obra universal “Sobre a Origem das Espécies”, após vinte anos de pesquisas. Embora a polêmica levantada pela obra, poucos cientistas victorianos adotaram uma posição ateísta por sua leitura; imagino porque, de fato, ele nunca a escreveu com essa intenção.
Fato importante e desconhecido da maioria, servindo inclusive como explicação, mais ou menos recente, para os incidentes religiosos na Irlanda, a estabelecida Igreja da Irlanda era anglicana, embora somente 3% da população irlandesa pertencesse a ela, a vasta maioria sendo Católica Romana. A legislação de William Gladstone colocou as propriedades da Igreja nas mãos de comissários que podiam usá-las para ‘esquemas sociais’, incluindo alívio da pobreza e a expansão da educação superior. Os bispos irlandeses não mais puderam ter assento na Casa dos Lordes.
Charles Darwin
É também da era victoriana (17 de novembro de 1869) a abertura do canal de Suez, ligando o Mar Mediterrâneo ao mar Vermelho. A Bretanha se havia oposto à construção do canal por uma companhia internacional, mas mudou sua posição em 1875, quando o governo Conservador de Benjamin Disraeli comprou 40% das cotas da Companhia do Canal. O canal então tornou-se de interesse estratégico vital, particularmente como rota para a Índia e o Oriente, sendo protegido por tropas britânicas desde 1883.
A partir de agosto de 1880, a educação tornou-se obrigatória na Grã Bretanha, para crianças entre 5 e dez anos de idade. As despesas estatais com a educação, que eram da ordem de 1,25 milhões de libras em 1870, passaram para 4 milhões e chegariam a 12 milhões de libras ao final do reinado de Victoria (a total dessemelhança com o que ocorre no Brasil, não é mera coincidência).
Em janeiro de 1881, a mansão do magnata da Engenharia, Sir William Armstrong, tornou-se a primeira casa da Inglaterra a ter luz elétrica. Construída em Cragside in Rothbury (Northumberland) e projetada pelo arquiteto escocês Richard Norman Shaw, incorporou todas as modernidades possíveis; suas lâmpadas eram energizadas pela água de um riacho local passando por um gerador rudimentar.
Guglielmo Marconi, inventor
O físico italiano de Nascimento, Guglielmo Marconi, conduziu um grande número de experimentos ligados à comunicação, ao sul da Bretanha, entre 1896 e 1897, recebendo a patente em julho de 1897, logo após sua primeira comunicação através da água, de Lavernock Point, South Wales, para Flat Holm Island, no Canal de Bristol. Ele estabeleceu o primeiro sinal transatlântico em dezembro de 1901, inaugurando a ‘Era Sem Fio’.
Em 22 de janeiro de 1901, com a idade de 81 anos, Victoria morreu, tornado o seu reinado de 63 anos, o mais longo da Bretanha e marcando, realmente, o fim de uma era.

AS DUAS GUERRAS MUNDIAIS E A CONSTRUÇÃO DA MODERNA GRÃ-BRETANHA (1901 – 1945)

EDWARD VII – (1901-1910)

Edward VII rei do UK
Edward VII, nascido em 9 de novembro de 1841, era o primogênito da rainha Victoria e tomou o nome da família de seu pai, o príncipe consorte Albert, daí a troca de linhagem, embora fosse ainda Hanoverian por parte de sua mãe. Casou-se com a princesa Alexandra da Dinamarca, em 1863, com apenas 22 aos de idade, e com ela teve três filhos e três filhas.
Victoria e Albert impuseram um regime estrito sobre Edward e mesmo após a morte de seu pai, Victoria sempre lhe negou papel oficial no governo, com o que ele se rebelou, entregando-se às mulheres, comidas, bebidas, jogos, esportes e viagens. Alexandra fez vistas grossas às suas atividades extramaritais, que continuaram até os seus sessenta anos e o implicaram em vários casos de divórcios.
Edward sucedeu no trono após a morte de Victoria e, a despeito de sua má reputação, lançou-se ao seu papel de rei com vitalidade. Suas muitas viagens à Europa lhe deram sólida fundação como embaixador em relações exteriores, ajudado por suas relações com as casas reais do continente. Os receios de Victoria foram provados errados: as incursões de Edward na política externa foram muito eficientes nas alianças entre Grã Bretanha, França e Rússia, e a par de suas indiscrições sexuais, suas maneiras e estilos o valorizaram frente ao povo inglês.
A legislação social foi o foco do Parlamento durante o reinado de Edward. A Lei da Educação, de 1902, forneceu educação secundária subsidiada, e o governo Liberal passou uma série de leis beneficiando as crianças, após 1906; após 1908, foram estabelecidas pensões aos idosos. A Lei das Trocas de Emprego, de 1909, lançou as bases para o seguro de saúde nacional, que conduziu a uma crise constitucional sobre os meios de financiamento de tal legislação. O orçamento feito por David Lloyd-George propôs importantes aumentos de impostos sobre ricos proprietários de terras e foi derrotado no Parlamento. O Primeiro Ministro Asquith apelou a Edward para criar vários novos lordes que pudessem virar a votação, mas ele recusou fortemente.
Edward morreu em 6 de maio de 1910, com a idade de 68 anos, após uma série de ataques do coração, no meio da crise orçamentária que foi resolvida no ano seguinte com a aprovação da lei pelo governo Liberal.


(1) A África do Sul é um país africano colonizado, principalmente, por holandeses e ingleses, embora também franceses e alemães tenham participado da colonização. Os Trekboer (posteriormente chamados Grensboer e finalmente Boer - palavra holandesa para “fazendeiros”), eram pastores nômades descendentes, em grau praticamente igual, de colonizadores holandeses, franceses e alemães, que começaram migrando das áreas adjacentes ao atual Cape Town, durante o século XVII e por todo o século XVIII, e posteriormente durante o século XIX para se estabelecer no Orange Free State, Transvaal (no conjunto conhecido como “República dos Boers”) e, em menor número, Natal. Sua principal motivação para deixar Cape Town foi escapar ao governo inglês e das constantes lutas entre o governo britânico e as tribos da fronteira leste. As “Boer Wars” (Guerras dos Boer) foram duas guerras lutadas, durante 1880-1881 e 1899-1902, entre o Império Britânico e as duas repúblicas Boer independentes de Orange Free State e Transvaal.
(2) A Corn Law foi uma lei de comércio criada para proteger os produtores de cereais do Reino Unido contra a competição com produtos importados mais baratos, através da imposição de altos impostos de importação; tal lei permitia que os agricultores cobrassem os valores que quisessem, sem a possibilidade de importação a preços mais competitivos mesmo quando o povo do Reino Unido mais necessitasse dos cereais (épocas de fome). A lei foi criada em 1815, pelo Ato de Importação, e revogada em 1846, pelo mesmo Ato, com o decisivo apoio de Peel, num significativo avanço do livre comércio.

Conclui na PARTE 13