Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

segunda-feira, 24 de maio de 2021

 

EL CHOCLO


I - INTRODUÇÃO

Minha mãe adorava os tangos! Talvez muito por influência de sua irmã mais jovem Ione, pianista, que chegou a morar em Buenos Aires, tal o amor que tinha pelos tangos, nos bons tempos da cidade portenha. Ainda lembro muito bem quando, pela primeira vez, fomos a Buenos Aires, com minha mãe e tia Ione, e ela nos levava a assistir às maravilhosas apresentações em palcos das televisões argentinas, com as maiores orquestras típicas de tangos da época: Francisco Canaro, Juan D’Arienzo, Carlos di Sarli, Anibal Troilo e muitas outras. Corria então o ano de 1954 e eu vivia os meus maravilhosos 10 anos de idade.
Poderia citar vários nomes de tangos que minha mãe cantarolava em casa, com muito bom domínio da língua espanhola, mas o tango da vez chama-se “El Choclo”, um dos mais antigos da história do tango. E foi por ela que aprendi o significado da palavra “choclo”: milho. Nada mais que milho! E o conhecido tango chamava-se, portanto, em português, “O Milho”. Lembro que, mesmo à época, o nome do tango me pareceu muito estranho, mas criança é criança e a coisa assim ficou por muitos anos, sem que o fato me saísse da cabeça.
Estava então, um dia, há muitos anos atrás, passeando na praia de Canasvieiras, em Florianópolis, com minha esposa, onde tínhamos comprado um apartamento para manter um vínculo com os filhos, que lá moram. Como todos sabem, há muitos anos Canasvieiras é a praia de Santa Catarina eleita pelos argentinos e uruguaios, de forma que todo o comércio local fala um “portunhol” razoável, da mesma forma que os turistas de Argentina e Uruguai respondem com um “españez” igualmente razoável e todo mundo se entende bem. E passeando pela praia, reparei num carrinho que vendia milho verde aos turistas que, assim como anunciava o milho, também anunciava o “Choclo” e o trazia escrito no próprio carrinho, para deixar bem claro aos veranistas das duas línguas, o produto que oferecia. Imediatamente o tango muito conhecido de todos os tempos me veio à cabeça e com ele a minha velha dúvida sobre a origem daquele nome tão estranho.
Apenas vários anos após esses eventos, trabalhando em casa com outros assuntos, o nome do tango voltou à minha cabeça e resolvi fazer uma pesquisa sobre o tal assunto, principalmente porque, ouvindo vários intérpretes cantando “El Choclo”, nunca ouvi uma só vez, a palavra “choclo” mencionada em toda a letra. Este o assunto, bem curioso, da presente postagem.
 

II – O TANGO

“El Choclo” é um tango criollo (de país hispano-americano ou relativo a ele, típico, com relação às raízes) com orquestração de Ángel Villoldo, que estreou em 1903 e cuja partitura foi publicada somente em 1905, sendo considerado hoje um dos tangos mais populares. A melodia do tango, característica da chamada “Velha Guarda” do tango, foi composta, provavelmente, cerca de 1898, com autoria atribuída a Casimiro Alcorta, - um violinista de raça negra, que morreu na miséria e é hoje praticamente esquecido de todos -, uma de suas composições mais representativas. A composição foi criada quando a interpretação de tangos, nos locais elegantes ou do centro da cidade de Buenos Aires, ainda era proibida, por ser associado às classes marginais. Entretanto, com seu amigo José Luis Roncallo, diretor de uma orquestra de música clássica no “El Americano” acharam a fórmula de estrear este tango sem evitar conflitos para o dono do restaurante. E assim, sua estreia aconteceu em 3 de novembro de 1903, interpretado pela orquestra de José Luis Roncallo (que havia transcrito a partitura), no El Americano, um restaurante de boa categoria do centro de Buenos Aires, quando a obra foi apresentada como uma “Danza Criolla”. Assim, noite após noite a obra foi interpretada com muito boa acolhida e entusiasmo por parte do público.
Face da partitura para piano,
do tango “El Choclo” de Ángel Villoldo
A casa “Gath y Chaves”, uma das grandes casas comerciais da época, patrocinou, em 1903, a viagem de Ángel Villondo, Alfredo Gobbi y Flora Rodriguéz para lá realizar discos de tangos. Gravou em várias companhias, dançou tangos e se filiou à Sociedade de Autores e Compositores da França, para cobrar os direitos autorais do tango mais conhecido na Europa de então, “El Choclo”. Foi tal a difusão deste tango que, segundo conta o jornalista Tito Livio Foppa, em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, em um banquete à imprensa estrangeira, celebrado na frente alemã, os músicos da orquestra que executou os hinos dos países representados, não tinham a partitura correspondente ao hino argentino ... e tocaram “El Choclo”, que sabiam de memória. Com efeito, desde então, divertidíssimas formações musicais vêm interpretando este tango: orquestras sinfônicas, bandas militares, conjuntos de jazz, conjuntos andinos e de rock. Como outros belos tangos instrumentais, os tangos de Villoldo tiveram poetas que lhes adicionaram letras, sendo que a que teve maior sucesso foi a de Enrique Santos Discépolo.
Vejam, portanto, que a música original não possuía letra! E o mistério do nome “El Choclo” começa a ser desvendado. Se o compositor da melodia original tinha alguma ideia sobre o que ela deveria representar, ele nunca a expressou pela simples razão de que a sua composição não era acompanhada de uma letra, nem dele, nem de qualquer outro letrista. Mas vamos chegar lá.

III – A ORIGEM DO NOME

A palavra Choclo é a forma do castelhano, do cone sul, usada para referir-se ao nosso conhecido milho.
A origem do vocábulo é quechua[1] (ou quíchua ou quéchua): chuglu, que significa milho tenro. O próprio Villoldo disse que se referia ao milho como o ingrediente mais saboroso do puchero[2]. Mas também circulam outras explicações, relacionadas com o apelido de um suposto amigo querido cujo cabelo era da cor do milho ou com um duplo sentido próprio dos ambientes de prostíbulos aonde, diz-se, teria nascido o tango, relacionando-se a palavra choclo ao pênis.
A letra original, de Villoldo, fazia referência, efetivamente, ao alimento. Mais tarde se escreveu outra versão com o título Cariño Puro. Uma versão, de Marambio Catán, foi escrita referindo-se a um delinquente (Me chamavam o choclo companheiro). A versão mais popular é mesmo a de Enrique Santos Discépolo (1947), que rememora a origem do tango como forma de vida.


IV - INTÉRPRETES DO TANGO “EL CHOCLO”

É importante que se diga, que os compositores argentinos de tango, sempre deram maior importância à orquestra do que ao vocalista. Mesmo em tangos mais modernos, a orquestra inicia a música, tocando praticamente toda ela e só então o vocalista entra para a sua parte, em geral o estribilho, deixando novamente para a orquestra, o encerramento do tango. Por essa razão, também, não foram muitos os cantores argentinos conhecidos que gravaram “El Choclo”.
Ángel Vargas (1904-1959) argentino de Buenos Aires, cantou a letra de Marambio Catán, provavelmente na década de 1940. Por ser o cantor argentino típico mais antigo a tê-lo gravado, mas também por ser um dos principais expoentes do tango argentino, vamos apresentar aos nossos potenciais leitores esta gravação de Ángel Vargas.
A letra escrita por Discépolo em 1947 foi estreada nesse mesmo ano por Libertad Lamarque (1908-2000), argentina da província de Santa Fé, na película mexicana “Gran Casino”, de Luis Buñuel. Por ter, de vez, disseminado mundialmente essa letra, vamos colocar o vídeo desta gravação à disposição dos nossos leitores, para que bem possam sentir a interpretação de Libertad Lamarque. Outra de suas intérpretes que se destacou, foi Tita Merello que o incorporou como parte do seu repertório básico.
Entre outras orquestras, foi acompanhado pela de Francisco Canaro (1888-1964), compositor, violinista e diretor de orquestra uruguaio nacionalizado argentino em 1940, e a de Juan D’Arienzo (1900-1976) músico e diretor de orquestra argentino, de Buenos Aires, conhecido como “O Rei do Compasso”, que gravou El Choclo em duas oportunidades. Para evitar polêmicas sobre intérpretes de tangos, não argentinos de nascimento, vamos colocar como exemplo a gravação de Juan D’Arienzo.
Em 1952 a melodia foi adaptada, por Lester Allan e Robert Hill, com o título Kiss of Fire (Beijo de Fogo) ainda que reconhecendo a autoria de Villoldo na partitura publicada. Mudaram os compassos da primeira parte, adicionaram um fraseado de inspiração flamenca à segunda e eliminaram por completo a terceira parte. Em 19 de março de 1955, Louis Armstrong gravou “Kiss of Fire” no disco no 28.177 da “Decca”, publicado na Argentina como “Decca 333.317”, quando foi explicitamente citado, como autores, Villoldo, Marambio Catán e Santos Discépolo. Essa versão inspirou uma película homônima, em 1955, interpretada por Jack Palance, com um contexto completamente anacrônico: a colonização dos atuais Estados Unidos. No filme de Ken Russel, “Valentino”, Rudolf Nureyev dança o tango com uma coreografia bastante heterodoxa.
Entre vários intérpretes não argentinos, famosos, de El Choclo, podemos citar Julio Iglesias, que incluiu El Choclo em seu álbum de 1996, “Tango”. Por ele, Julio Iglesias teve ações ajuizadas, tendo que pagar direitos autorais aos descendentes de Enrique Discépolo e Roberto Goyeneche. Além dele, Nat King Cole também o gravou, em espanhol. Connie Francis, Caterina Valente e até mesmo Ray Conniff foram mais alguns famosos que gravaram o famoso tango El Choclo, desta feita na versão “Kiss of Fire”, todos eles, além do já mencionado Louis Armstrong, cuja gravação vamos disponibilizar aos leitores.
Para os leitores que se sentirem tentados a acompanhar as gravações, estamos também postando a letra de Enrique Santos Discépolo.


V - SOBRE OS AUTORES

Face da partitura para piano, do tango
“Cara Sucia”, arranjado por
Francisco Canaro

Casimiro Alcorta, nascido em Santiago del Estero em 1940 e falecido em Buenos Aires em 1913, foi um destacado músico descendente de africanos, considerado um dos “pais do tango”. Além de “El Choclo”, é o compositor do famoso tango “Concha Sucia” (não posso traduzir, mas é isso mesmo que podem estar pensando), de 1884, várias décadas depois renomeado por Francisco Canaro para “Cara Sucia”, que mudou sua letra para torná-lo mais decente Este é o mais antigo dos tangos de autor conhecido. Foi também o autor dos tangos “La Yapa” (A Yapa) e “Entrada Prohibida” (Entrada Proibida), esse último posteriormente creditado aos irmãos Teisseire. José Gobello o considerou o “Pai do Tango”. 
Filho de escravos e ele próprio libertado quando menino, recebeu o sobrenome de seu dono, Amancio Alcorta, como de praxe. Sua mãe, Casimira, era escrava do estancieiro e músico Amancio Alcorta (1805-1862, um dos primeiros compositores clássicos da Argentina. De origem santiaguense, Amancio Alcorta radicou-se em Buenos Aires em 1853, sendo proprietário da maior parte das terras da atual comarca de Moreno, na Grande Buenos Aires. 
Casa de Amancio Alcorta na comarca de
Moreno, pertencente à Província
de Buenos Aires
Casimiro é mencionado, pela primeira vez, em 1913, na primeira história publicada do tango, realizada por José Antonio Saldías, sob o pseudônimo de Viejo Tanguero, em um artigo intitulado “O tango: sua evolução e sua história”, publicado em “Crítica”.
Destacou-se como violinista, bailarino e compositor. Sua atuação se estendeu entre 1855 e 1913, isto é, desde os primeiros momentos em que o tango começou a formar-se, até tomar a sua forma definitiva e identidade própria, durante a chamada “Guarda Velha”. Costumava atuar no “Scudo d’Italia”, na “casinha” de Laura, no “Prado Espanhol” e numa casa de milonga que se encontrava na rua “Del Temple” (posteriormente “Viamonte”).
Como violinista, formou o primeiro conjunto de tango de que se tem registro, junto ao Mulato Sinforoso, no clarinete e, seguramente um guitarrista. O conjunto atuou desde a década de 1870 até fins da década de 1890.
Como bailarino formou uma célebre parelha com sua companheira La Paulina, de origem italiana, com quem permaneceu até a sua morte em 1913.
Sua atuação como compositor já foi mencionada acima. É muito provável que muitos dos tangos compostos entre 1870 e 1900 pertencessem a ele, inclusive os creditados a outros compositores.
Morreu em Buenos Aires nos braços de sua querida Paulina.

Ángel Villoldo, compositor e letrista,
no início dos anos 1900
Ángel Villoldo, nascido em Barracas, sul da cidade de Buenos Aires, em 16 de fevereiro de 1861 e falecido em 14 de outubro de 1919, cujo nome completo era Ángel Gregorio Villoldo Arroyo, foi um músico argentino, dos compositores mais característicos da primeira época do tango, também considerado um dos pais do tango. Foi letrista, guitarrista, compositor e um dos principais cantores da época. Também foi conhecido por seus pseudônimos A. Gregorio, Fray Pimiento, Gregorio Giménez, Ángel Arroyo e Mario Reguero. 
Villoldo aportou obras eminentemente musicais, consideradas clássicas em todas as épocas posteriores, tendo também escrito letras que lhe prodigalizaram fama de versificador. Os tangos compostos por Villoldo são tangos-milonga (entretanto em compasso dois por quatro). Também compôs valsas, polcas e um variado repertório folclórico. Sua inspiração original e faiscante, sustentada por uma figura afável com profuso bigode e sombreiro, é reconhecível na iconografia dos fundadores.
Havia inventado um artefato em que sustentava a harmônica (bandonión) ajustada a uma vareta por sobre a guitarra, que lhe permitia tocar os dois instrumentos de forma simultânea. Quando desmontava, a harmônica cantava com voz de soprano, o que lhe proporcionou fama nas tabernas de princípio do século XX.

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[1] Quechua é uma importante família de línguas indígenas da América do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ao longo dos Andes. Possui vários dialetos inteligíveis entre si. É uma das línguas oficiais de Bolívia, Peru e Equador.

[2] Puchero é um tipo de cozido, originalmente da Espanha, preparado em Yucatán, Mexico, Argentina, Paraguai, Uruguai, Perú, sul do Brasil, Filipinas e Espanha, especificamente nas comunidades autônomas de Andaluzia e as Ilhas Canárias. A palavra espanhola "puchero" originalmente significava um pote de cerâmica, antes de ser estendido para significar qualquer vaso e então ao prato nele cozinhado. O prato é, essencialmente, equivalente ao cozido da Espanha, sem corantes (como páprica), usando-se ingredientes locais que variam de uma região para outra.

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