Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

“LA CUMPARSITA” - O MAIS FAMOSO TANGO DO MUNDO (PARTE 2 DE 2)

A HISTÓRIA DE "LA CUMPARSITA"

Gerardo era um estudante de arquitetura – que não completou o curso – ao tempo em que a compôs. Após escrever a partitura não teve a determinação ou talvez os meios para executá-la.
O famoso "Gran Café y Confiteria La Giralda" à época
 Como estivesse indo a um dos cafés da moda, “Confitería La Giralda”, levou-a consigo e lá encontrou uma das principais figuras do tango à época, Roberto Firpo, que dirigia sua Orquestra: David ‘Tito’ Roccatagliata e Agesilao Ferrazano nos violinos, Juan Baptist Deambroggio ‘Bachicha’, no bandônio e Alexander Michetti na flauta. O pianista Domingo Alonso relatou o incidente mais tarde, num livro que escreveu, dizendo que o olho especialista de Firpo enxergou à primeira vista o que estava examinando e que, imediatamente, garantiu a autorização para adaptá-lo e arranjá-lo. Então Gerardo Rodriguez lhe teria vendido a partitura e os direitos de um tango que escrevera – uma obra de arte que o público adoraria para sempre – pela irrisória quantia de vinte pesos! O dinheiro foi trocado rapidamente, a partitura recebida e a gravadora Breyer passou a proprietária do tango dali para frente. E assim nasceu uma lenda ... O mesmo Domingo teria escrito que a partitura estava eivada de defeitos e que Firpo teve que arrumá-la. Na primeira parte havia uma melodia para violino que poderia ser tocada de uma forma muito mais interessante.
Roberto Firpo e Orquestra, gravando
O próprio Roberto Firpo referiu-se, por escrito, à “La Cumparsita”, pelo menos por três vezes. Ao “O Cantar”, teria declarado: “Numa noite, em “La Giralda”, um famoso e clássico café de Montevidéu, um jovem bem aparentado mas um pouco tímido, aproximou-se de mim perguntando se poderia conversar por alguns minutos ... Ele mostrou-me uma partitura muito modesta. Era “La Cumparsita”. Eu a executei no piano e gostei. Após alguns ajustes na partitura eu a lancei com extraordinário sucesso, tanto pelo fato de que era um grande tango como por seu autor ser um jovem de Montevidéu. Retornando a Buenos Aires eu o lancei em cafés e o sucesso de Montevidéu se repetiu.”
“A Crônica”, teria publicado, em 17 de setembro de 1947: 'No Giralda, alguém chamado Barquita deu-me uma partitura de um estudante para ver se ela poderia resultar em um tango.A partitura tinha apenas duas estrofes e lhe acrescentei partes bem conhecidas dos conhecidos tangos ‘Gaucha Manuela’ e uma inspiração de Verdi ‘Misérias do Trovador’; e a partitura, transformada por mim em tango, tornou-se "La Cumparsita”'. “As Crônicas Argentinas” publicou, em 26 de dezembro de 1966: “Em 1916 eu estava em “La Giralda” e o Sr. Barquita chegou com 14 ou 15 estudantes e me disse: ‘Estamos trazendo uma partitura e que queremos que você a conserte. É necessário fazê-la um tango.’ Eles me deram a partitura e como eu havia composto La Gaucha Manuela em 1906 e Curda, coloquei nela as partes daqueles velhos tangos que não haviam feito sucesso. Naquela noite compartilhei a partitura com Tito Roccatagliata e Bachicha e ficou divino. Eles a devolveram a Gerardo e a recepção foi sensacional.” La Cumparista não foi imediatamente um sucesso, mas acabou tornando-se um e, ao final, deixou também de ser executada, caindo no esquecimento. O link conduzirá os leitores a um clip que mostra várias fotos da Montevidéu da época, incluindo o famoso “La Giralda”, ao som de "La Cumparsita".
Dia 6 de junho de 1924 foi um momento crucial para "La Cumparsita". Neste dia, a Companhia de Leopoldo Simari apresentava uma peça no Teatro Apolo, chamada “Um Programa de Night Club”, um original de Paschal Contursi e Enrique P. Maroni. O processo exigia que cada peça apresentasse um tango especial (de fato, como resultado deste processo, alguns tangos famosos surgiram). Para a peça, Paschal Contursi escreveu uma cena chamada “Si Supieras” e, como era costume, decidiu liga-la à melodia de um tango já composto (sem autorização do compositor) e, à época, já bem pouco executado: "La Cumparsita". O ator e cantor era Juan Ferrari. Maroni e Contursi colocaram letra ao tango e o chamaram "Si Supieras", sem pedirem a autorização de Gerardo, versão hoje executada em todos os lugares. O sucesso foi tão grande que até Carlos Gardel decidiu gravá-lo imediatamente.
Francisco Canaro relatou: “Em minha primeira viagem a Paris, logo que havia chegado, estava com Gerardo Matos Rodriguez ... Após uma saudação e um abraço, nossa conversa chegou a Buenos Aires e ao sucesso de "La Cumparsita", então considerado história por Gerardo. Eu contei-lhe que o tango havia ressurgido e de como ele era a moda de todas as orquestras, através do arranjo de Maroni e Contursi e da gravação de Carlos Gardel”.
A letra reescrita de fato tornou-se um sucesso, não apenas em Buenos Aires, onde era tocada em todos os eventos, e também regravada e transmitida por todas as emissoras de rádio, mas também em Paris onde fora introduzida por Canaro, tornando-se a música de dança preferida pelos parisienses. E, em questão de pouco tempo, espalhou-se pelo resto do mundo.
Tendo em vista a longa discussão estabelecida e todas as discrepâncias encontradas sobre o assunto, é importante que cinco pontos sejam bem salientados em toda a história.
1.    De fato, foi Contursi quem escreveu a nova letra e não Maroni; contudo, a parceria reside com ambos que permaneceram como autores conjuntos da peça.
2.    Os registros mostram que Carlos Gardel somente gravou a sua versão de "La Cumparsita" em 10 de janeiro de 1928.
3.    Maroni realmente admitiu que não era autor do tango.
4.    A letra reescrita e a melodia não se alinhavam com perfeição de forma que o diretor musical teve que, levemente, adaptar a melodia.
5.    Não se trata de desonestidade de Roberto Firpo, mas muito mais de que Gerardo Rodriguez nunca imaginara que o tango fosse ser o sucesso que foi.
Gerardo Rodriguez não foi o primeiro nem o último artista que se sentiu tão trapaceado pela ninharia que recebeu por sua obra de arte. Entretanto, já sabemos como, por duas décadas, ele tentou e conseguiu recuperar os seus direitos à composição pelos caminhos das cortes.

AS LETRAS

Há muitas variações de "La Cumparsita" (uma fonte chega a afirmar que já contou mais de duzentas!), embora apenas duas sejam consideradas representativas: a versão original de Gerardo Rodriguez e a de Maroni e Contursi, que a reescreveram. É importante observar que a versão original de Gerardo continha apenas duas estrofes; posteriormente duas estrofes adicionais foram adicionadas por Peroni.
Em minhas pesquisas encontrei referências ao título original do tango famoso, com as quais não concordo e gostaria de emitir minha opinião pessoal sobre o assunto. Eu sempre soube - e os dicionários de espanhol confirmam - o significado da palavra “cumparsa”, qual seja, comparsa e, num sentido mais íntimo e figurado, a companheira; de forma que “la cumparsita” significaria a pequena companheira ou a companheirinha querida. Possivelmente, essa palavra seria uma corruptela da palavra italiana “comparsa”, que significa, na linguagem do teatro ou cinema, o figurante ou coadjuvante, pois também existe, no espanhol, a palavra “comparsa”, com o significado de figurante, participante de bloco carnavalesco, equivocadamente mencionado, em minha opinão, em algumas das pesquisas que realizei.
Abaixo as duas letras mais difundidas do tango mais famoso do mundo, com seus títulos e autores correspondentes, para que os leitores possam acompanhar a melodia. Sempre terão que ter cuidado pois como já foi mencionado, dadas as duzentas possibilidades existentes, sempre poderão encontrar discrepâncias entre as apresentadas aqui e as executadas em suas gravações preferidas. A gravação de "La Cumparsita", pelo mais famoso cantor de tangos argentino, Carlos Gardel, permitirá que os leitores acompanhem a letra.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

“LA CUMPARSITA” - O MAIS FAMOSO TANGO DO MUNDO (PARTE 1 DE 2)

INTRODUÇÃO

Esta postagem é uma singela homenagem que faço à minha tia Ione, irmã de minha mãe, Mariazinha. A tia Ione foi a penúltima dos oito filhos da minha avó materna, Julieta, de quem herdou, certamente, os seus maravilhosos dotes musicais. Minha avó tocava oito instrumentos musicais; minha tia Ione dedicou-se, de corpo e alma, ao piano, mas como o absorveu! Apresentou o seu primeiro concerto aos seis anos de idade e para que pudesse corretamente alcançar as teclas do piano, colocaram-lhe uma pequena caixa de laranjas sobre a banqueta. E executou Chopin! E dele adquiriu a arte de enriquecer as peças executadas às custas da sua maravilhosa mão esquerda.
Tia Ione amava, além de sua mãe a quem tanto se dedicou, seus sobrinhos, a quem tanto deu, seus irmãos com quem muitas alegrias repartiu, e muitas outras coisas, o piano, a Argentina, os argentinos e seus tangos maravilhosos. Viveu algum tempo no país platino, casou-se com argentino e conheceu e executou, como participante das mais famosas orquestras de tangos da Buenos Aires dos maravilhosos tempos, mais de 4.000 (quatro mil) tangos argentinos e não.
Mas esta postagem não é sobre a minha querida tia Ione, a quem eu dedicaria mais de um livro e não apenas essas poucas linhas, mas sobre um tango que, como milhões, amava, e executava como muito poucos. E é uma homenagem que lhe presto para que saiba, onde estiver, que entre as muitas coisas que ela me ensinou, também isso aprendi com ela.

A CONTROVÉRSIA DA AUTORIA DE "LA CUMPARSITA"

E sem mais delongas, para não causar muito suspense, vamos direto ao ponto: “La Cumparsita”, o mais famoso tango do mundo, não é argentino!
 
Gerardo M. Rodriguez, ciador de "La Cumparsita"
O famoso tango "La Cumparsita" foi criado pelo músico uruguaio Gerardo Matos Rodriguez (1897–1948), apelidado “Becho”, no ano de 1917, no café "La Giralda", em Montevidéu, Uruguai. Seu pai era Emilio Matos, proprietário do clube noturno “Moulin Rouge”, de Montevidéu. Segundo o que se conta, Gerardo tomava conta do Clube e lá adquiriu a sua inclinação pela música. Gerardo tinha apenas 17 anos de idade à época e, naquele momento, não podia imaginar que estava criando uma das mais famosas composições da História do Tango. "La Cumparsita" é considerado o tango mais difundido pelo mundo – incluída a Argentina - e é uma das dez músicas mais executadas mundialmente, junto com “Garota de Ipanema” e outras. Por decreto presidencial de 2 de fevereiro de 1998, "La Cumparsita" é o Hino popular e cultural do Uruguai.
A partitura de "La Cumparsita"
Sete anos após compor o tango, Gerardo morava em Paris e lá conheceu o famoso maestro e compositor argentino Francisco Canaro, recém chegado com sua orquestra descobrindo, por ele, que o seu tango era um sucesso tão grande em Paris quanto em Buenos Aires. Mas soube também que os letristas argentinos Enrique Maroni e Pascual Contursi haviam escrito letras para o tango e o renomeado para "Si Supieras" (Se soubesses). A Buenos Aires inteira escutava, dançava e exigia a letra do tango que, aparentemente, aparecia em todos os shows, gravações e transmissões pelas rádios. De Paris, "La Cumparsita" espalhou-se pelos quatro cantos do mundo tornando-se, daí para a frente, um sinônimo de Tango
Entretanto, Gerardo passaria os próximos vinte anos de sua vida entre salas de tribunal, tentando a restituição dos seus direitos como o autor de "La Cumparsita", o tango mais famoso do mundo. O primeiro julgamento ocorreu entre o compositor e as editoras Breyer e Ricordi, uma vez que a primeira havia vendido à segunda os direitos autorais. Após uma longa batalha jurídica, a Ricordi concordou em pagar os direitos de exploração a Gerardo. A segunda ação judicial foi contra Maroni e Contursi, que haviam adicionado, sem autorização do compositor, letra à melodia original. Gerardo também saiu vencedor nesta ação, baseado no fato de que ele teria cedido seus direitos da música quando ainda era menor, numa clara manobra legal, mas dura lex, sed lex. Em 1942 uma terceira ação judicial foi estabelecida para interromper a venda da gravação feita por Carlos Gardel. Esta, evidentemente, engendrou uma quarta ação, desta vez movida pelas viúvas de Maroni e Contursi, por perdas e danos e buscando o seu direito como autores da letra usada. As ações finalmente chegaram a um termo, graças à intervenção do Maestro Canaro que, como presidente da Sociedade Argentina de Autores e Compositores (SADAYC), foi solicitado pelos litigantes a resolver a questão. A 10 de setembro de 1948, Canaro emitiu um documento de compromisso legal contendo 8 pontos, os mais significativo dos quais eram os três primeiros que estabeleciam, o primeiro deles, que daquela data para a frente, os herdeiros de Contursi e Maroni receberiam 20% dos royalties devidos pelos direitos de execução. O segundo ponto estabelecia que os royalties de gravações e filmes seriam divididos de acordo com as regras da SADAYC, excetuados os casos em que somente a música fosse executado, quando seria aplicada a regra dos 20%. O terceiro ponto estabelecia que qualquer nova impressão da partitura da música incluiria as duas letras e nenhuma outra. Os demais pontos tinham a ver com as custas do julgamento, royalties recebidos até o início da ação, que a SADAYC se encarregaria de recolher os royalties, além de outras providências. E com isso, "La Cumparsita" livrou-se dos tribunais.
Não existe um consenso sobre quem foi o primeiro a gravar "La Cumparsita", mas é certo que o mais celebrado tango da história foi gravado pela primeira vez como o lado “B” de um disco. Uma das mais celebradas orquestras de tango da Argentina, em 1917, era a Orquestra de Alonso Minotto, que gravava para a Victor uma série de novos discos. O acordo previa pares de tangos, um em cada lado do disco; faltava um tango para um lado “B” e alguém sugeriu "La Cumparsita" como complemento. Assim, Alberto Alonso ao piano, Minotto Di Cicco ao bandônio, Juan Trocolli e Juan Jose Castellano nos violinos, registraram-se na história com tal orquestra. Claro que, como tudo o mais que ocorre na história do tango, há desacordo sobre essa versão. Outras fontes dizem que o próprio Roberto Firpo, pianista e compositor argentino, foi o primeiro a gravar "La Cumparsita" com a sua orquestra de tangos. De fato, no CD “La Cumparsita – Veinte Veces Inmortal”, o crédito é dado a Firpo como o primeiro a gravá-la. Segundo essa versão, a primeira gravação teria ocorrido nos estúdios de Max Glücksmann, em Buenos Aires, em novembro de 1916, com os seguintes components:
•    Violinos: Agesilao Ferrazzano, Cayetano Puglisi
•    Bandoneón: Juan Bautista Deambrogio (Bachicha)
•    Piano e diração: Roberto Firpo
•    Flauta: Alexander Michetti
Para os saudosistas que quiserem ouvir a gravação considerada como original de "La Cumparsita", de 1916, com a orquestra de tangos de Roberto Firpo, embora a reconhecida, mas justificada, má qualidade da gravação, basta seguir  o link.
De qualquer forma, Minotto e Firpo parecem ter colaborado num novo arranjo que teriam posteriormente gravado juntos.
Considerando-se que o autor de "La Cumparsita" era apenas um pianista amador, os méritos técnicos da melodia têm sempre sido questionados. Gerardo havia composto apenas as duas primeiras partes e a primeira delas omitia um compasso claro. O próprio Firpo teve que adicionar uma terceira parte e a harmonia à primeira. Contudo, a composição teve uma trajetória tão formidável que aqueles que a criticam o fazem ao seu próprio risco. Julio de Caro, famoso maestro, compositor e líder de orquestra de tangos argentino, disse dela: “É uma bandeira que transcendeu fronteiras em todo o mundo, avançando de sua porta dourada para erigir-se como um dos símbolos da nossa música-dança”.
Astor Piazzola, na época componente da orquestra do argentino Aníbal Troilo, foi mais incisivo: “É a coisinha mais assustadora deste mundo (referindo-se aos banais acordes Ré-Dó-Lá-Fá)! Contudo, se você adicionar uma nota baixa para enriquecê-la e derramar sobre ela a melodia, pode-se criar um contraponto que elevará a melodia convencional. É como uma pessoa feia que se veste bem, melhora sua aparência. É assim que "La Cumparsita" é melhorada, com boas roupas”.
Francisco Canaro possuía opinião diversa e dizia: '“La Cumparsita" tem a virtude peculiar de que sua estrutura musical se presta maravilhosamente bem para ser embelezada por orquestrações de alto nível, tudo se lhe ajustando muito bem: contra-melodias para violinos, variações para bandoneóns e outros instrumentos importantes, além de outros efeitos musicais atrativos que arranjadores e diretores de orquestras usam com vantagem para exibir seus próprios equipamentos. Cada líder de uma orquestra de tangos tem seu próprio arranjo, sua própria interpretação do celebrado tango.' Para escutar a famosa gravação de "La Cumparsita", por Francisco Canaro e sua grande Orquestra, e apreciar o famoso tango dançado, basta seguir o link para o clip.
Na segunda e última parte dessa postagem, "A História de 'La Cumparsita'".

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

OS BORGIA (Parte 4 - Última)

Concluímos a terceira parte de nossa postagem sobre os Borgia, em meio às peripécias de Cesare Borgia, um dos filhos do Papa Alexandre VI. Esta última parte da postagem vai concluir o relato sobre Cesare e apresentar um resumo da vida de sua irmã Lucrezia Borgia.
Niccolò Machiavelli  por Santi di Tito
Nicollò Machiavelli, célebre filósofo, escritor e historiador renascentista, de Florença, conheceu Cesare em uma missão diplomática quando Secretário da Chancelaria Florentina e esteve em sua corte de 7 de outubro de 1502 a 18 de janeiro de 1503 e durante este tempo despachou regularmente aos seus superiores em Florença. Muitos de tais despachos sobreviveram e estão publicados em Trabalhos Coletados de Machiavelli. Em “O Príncipe”, Machiavelli usa Cesare Borgia como exemplo para elucidar os perigos na aquisição de um principado pelas mãos de outrem. Embora tendo recebido o poder de seu pai, Cesare governou a Romagna com habilidade e tato na maior parte do tempo. Machiavelli atribui a Cesare dois episódios que foram, pelo menos parcialmente, executados por seu pai: o método pelo qual a Romagna foi pacificada, descrito por Machiavelli no capítulo VII de “O Príncipe”, e o assassinato de seus capitães à véspera do Ano Novo de 1503, em Senigallia.
O uso que Machiavelli fez de Cesare é sujeito a muita controvérsia. Alguns estudiosos do século vêm, neste Cesare, o precursor dos crimes do estado; outros, incluindo os historiadores ingleses Macaulay e Acton, historiaram o Cesare de Machiavelli, explicando a admiração por tal violência como efeito da corrupção e criminalidade geral daquele tempo, tornando aparentemente óbvio que Machiavelli admirava o seu pai, mas não o próprio Cesare.
Entre 1502 e 1503, Cesare empregou, brevemente, Leonardo da Vinci, como arquiteto e engenheiro militar, tornando-se instantaneamente seu íntimo a ponto de conceder ao último um passe sem limites para inspecionar e dirigir todas as construções em andamento e planejadas em seus domínios. Antes de conhecer Cesare, Da Vinci havia trabalhado na corte milanesa de Ludovico Sforza, por muitos anos, até que o rei Charles VIII da França o expulsou da Itália. Após Cesare, Da Vinci não teve sucesso em busca de nova patronagem na Itália. François I da França o convenceu a entrar aos seus serviços, vivendo seus três últimos anos de vida na França.
Embora tenha sido um general e estadista muito capaz, Cesare teria encontrado problemas na manutenção de seus domínios sem a continuação do patrocínio Papal. O próprio Niccolò Machiavelli cita a dependência de Cesare da boa vontade Papal, sob o controle de seu pai, como a principal fraqueza do seu governo, destacando que, tivesse Cesare podido contar com os favores do novo Papa, ele teria sido um governante de muito sucesso. A notícia da morte de seu pai chegou quando Cesare preparava a conquista da Toscana. Enquanto convalescia no Castelo de Santo Ângelo, suas tropas controlavam o Conclave. O novo Papa, Pio III prendeu-o e ele conseguiu fugir. A ascensão do novo Papa, Julius II, inimigo mortal dos Borgia, causou sua ruína final. Quando se deslocava para Romagna, para debelar uma revolta, ele foi preso e encarcerado por Gian Paolo Baglioni, próximo a Perugia. Todas as suas terras foram adquiridas pelos Estados Papais. Exilado na Espanha em 1504, foi encarcerado no Castelo da La Mota, Medina del Campo, de onde escapou e juntou-se ao rei João III de Navarra. Cesare foi morto em 1507 enquanto lutava para o rei de Navarra, na cidade de Viana, Espanha. 
Cesare Borgia foi, originalmente, enterrado em um túmulo de mármore sob o altar da Igreja de Santa Maria em Viana, com a inscrição: “Aqui jaz, em pouca terra, alguém que foi temido por todos, com poder de paz e guerra em suas mãos”. Em 1537, o Bispo de Calahorra ordenou a destruição da tumba e a remoção dos restos para um local não consagrado fora da Igreja. Em 2007, Fernando Sebastian Aguilar, Arcebispo de Pamplona, permitiu que os despojos voltassem para a Igreja, às vésperas da comemoração dos 500 anos da morte de Cesare Borgia.
 
LUCREZIA BORGIA

Lucrezia Borgia por Bartolomeo Veneto
Nascida em 18 de abril de 1480 e morta em 24 de junho de 1519, Lucrezia foi filha ilegítima de Rodrigo Borgia, o poderoso valenciano da Renascença que mais tarde se tornaria o Papa Alexandre VI, e de Vanozza de Cattanei. A família de Lucrezia veio mais tarde resumir a cruel política e corrupção maquiavélica alegada como característica do incrível Papado Renascentista. Ela própria foi a personificação da femme fatale, um papel em que ela foi apresentada em muitos filmes, novelas e obras de arte.
Muito pouco se sabe de Lucrezia e a extensão de sua cumplicidade, nas maquinações políticas de seu pai e irmãos, não é clara. Certamente eles planejaram vários casamentos para ela, com homens importantes ou poderosos, a fim de concretizar suas ambições políticas.
Lucrezia nasceu em Subiaco, próximo de Roma. Falava e escrevia cinco línguas: italiano, valenciano (variação da língua catalã), francês, latim e grego.
Lucrezia Borgia por Dosso Dossi, 1518
É descrita, em geral, como tendo um pesado cabelo loiro que ia abaixo  de seus joelhos, uma bela compleição, olhos castanhos que variavam de cor, um colo farto e alto e uma graça natural que a fazia parecer “caminhar no ar”, atributos físicos altamente apreciados na Itália daquele período. Outra descrição dizia que “sua boca era grande, seus dentes brancos e brilhantes, seu pescoço esbelto e formoso e o busto admiravelmente bem proporcionado. Uma pintura de Dosso Dossi, “Retrato de uma Jovem”, na Galeria Nacional de Victoria, em Melbourne, Austrália, pode ser o único retrato ainda existente de Lucrezia Borgia, embora haja dúvidas a respeito.
Em fevereiro de 1491, quando Lucrezia tinha apenas 11 anos de idade, um arranjo matrimonial foi feito entre ela e Don Cherubino Juan de Centelles, o lorde de Val D’Ayora, no Reino de Valência, anulado menos de dois meses após, em favor de um novo contrato, ligando-a, desta feita, a Don Gaspare Aversa, conde de Procida. Com a ascensão ao papado, Alexandre VI buscou aliar-se com poderosas famílias principescas, fundando dinastias na Itália. Dessa forma, cancelou todos os compromissos anteriores de Lucrezia, arranjando seu casamento com Giovanni Sforza, membro da família Sforza, primo de Ascanio Sforza, lorde de Pesaro e intitulado Conde de Catignola, em 12 de junho de 1493, em Roma, um evento escandaloso, mas não muito mais extravagante do que várias outras celebrações renascentistas.
Pouco tempo depois, a família Borgia não necessitou mais dos Sforzas e a presença de Giovanni Sforza, na corte papal, tornou-se supérflua, com o Papa necessitando novas e mais vantajosas alianças políticas. A versão geralmente aceita é a de que o Papa teria secretamente ordenado a execução de Giovanni e que Lucrezia, alertada por Cesare das suas intenções, teria avisado seu esposo que fugiu de Roma. É muito possível que tudo tivesse sido combinado entre Cesare e Lucrezia para terminar com o casamento, mas como a solução fosse boa para todos da família Borgia, a anulação foi preparada através da acusação de que Giovanni era impotente e que o casamento não se havia concretizado. Alexandre VI pediu ao Cardeal Ascanio Sforza, tio de Giovanni, que intercedesse a favor da anulação. Giovanni não aceitou a imposição e declarou o incesto paternal e fraternal com Lucrezia, em 1947. Um julgamento faccioso foi montado e Giovanni acabou assinando a confissão de impotente e o documento de anulação, diante de testemunhas. Especula-se que, durante o prolongado processo de anulação, Lucrezia tivesse consumado relações com Perotto, o mensageiro de Alexandre VI, e que teria ficado dele grávida. Sabe-se que em junho de 1947 ela se retirou para o Convento de San Sisto, aguardando o desfecho do divórcio que encerrou em dezembro do mesmo ano; e que em março de 1498 o Embaixador de Ferrarese relatou que Lucrezia teria dado à luz um menino que foi chamado Giovanni, mais conhecido dos historiadores como o "Infante Romano". Alguns acreditam mesmo que a criança era de seu irmão Cesare, mas que Perotto teria concordado com a farsa em virtude de sua afeição por Lucrezia.
Impossibilitado de conseguir um casamento entre Cesare e a filha do Rei Frederick IV de Nápoles, por ameaças induziu Frederick a concordar no casamento entre o Duque de Bisceglie, filho natural de Alfonso II, e Lucrezia.
Fato pitoresco e inusitado, no que se refere às coisas da Igreja, quando Luis XII teve sucesso no norte, decidiu também conquistar o sul da Itália. Concluiu um tratado com a Espanha pela divisão do Reino de Nápoles, ratificado pelo Papa, em 25 de junho de 1501, após a deposição de Frederick. Enquanto o exército francês preparava a invasão de Nápoles, o Papa Alexandre VI aproveitou a oportunidade para, com a ajuda de Orsini, submeter Colonna. Em sua ausência pela campanha, ele deixou Lucrezia como regente, proporcionando o inusitado espetáculo de apresentar uma filha natural de um Papa, como encarregada dos negócios da Santa Sé!
Após a morte do seu segundo marido, Duque de Bisceglie, conforme relatado acima, Lucrezia, agora com 23 anos, não permaneceu viúva por muito tempo. Seu pai, o papa Alexandre VI, induziu Alfonso I d’Este, filho do duque de Ferrara, a desposar Lucrezia, em janeiro de 1502, assim estabelecendo-a como esposa do herdeiro de um dos mais importantes ducados da Itália. A ele, Lucrezia deu oito filhos e provou ser uma respeitável e comprometida duquesa da Renascença, efetivamente elevando-se bem acima da sua prévia reputação e sobrevivendo à queda dos Borgias, em seguida à morte de seu pai, embora nenhum dos parceiros tenha sido fiel.
A partir de 1503 Lucrezia manteve um longo relacionamento com seu cunhado Francesco II Gonzaga, Marques de Mântua, bem como um longo caso com o poeta Pietro Bembo. A esposa de Francesco era a culta intelectual Isabella d’Este, irmã de Alfonso, a quem Lucrezia havia feito inúteis ofertas de amizade. Seu caso com Francesco fora apaixonado e mais sexual do que sentimental, o que pode ser atestado pelas cartas febris que escreveram um ao outro, e foi encerrado quando ele contraiu sífilis e foi obrigado a encerrar suas relações sexuais com Lucrezia.
Túmulo de Lucrezia e Alfonso I d'Este, Ferrara
 Lucrezia também conheceu o famoso soldado francês Chevalier Bayard quando comandante da guarnição francesa aliada de Ferrara, em 1510. De acordo com seu biógrafo, Chevalier tornou-se um grande admirador de Lucrezia, considerando-a uma “pérola entre as mulheres”; não se sabe quanto ela retornou da sua admiração.
Lucrezia Borgia morreu em Ferrara em 24 de junho de 1519, de complicações no parto de seu oitavo filho. Foi enterrada no Convento de Corpus Domini.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

OS BORGIA (Parte 3)

A segunda parte desta plotagem encerrou com a apreciação do legado do Papa Alexandre VI, entre os quais incluiremos o "Tratado de Tordesilhas, que iniciará essa terceira parte.

O TRATADO DE TORDESILHAS
 
O original Tratado de Tordesilhas
Um dos primeiros atos públicos do Papa Alexandre VI foi evitar a colisão entre Espanha e Portugal por suas terras recém descobertas, através do estabelecimento de uma linha de demarcação: o Meridiano de Tordesilhas. Dizem os bens intencionados, que constituindo um ato de real importância pacífica, e não de ambição ou usurpação. O Tratado de Tordesilhas, assinado em Tordesilhas, atualmente na Província de Valladolid, Espanha, em 7 de junho de 1494, dividiu as terras recém descobertas, fora da Europa, entre Espanha e Portugal, ao longo do Meridiano que passava a 370 léguas (aproximadamente 2.193 km) a oeste das ilhas Cabo Verde (fora da costa oeste da África). Esta ilha de demarcação ficava, aproximadamente, a meio caminho entre as Ilhas Cabo Verde (já portuguesas) e as ilhas recém descobertas por Cristóvão Colombo, em sua primeira viagem (reclamadas pela Espanha). As terras a leste da linha pertenceriam a Portugal e as terras a oeste, à Espanha. O Tratado foi ratificado pela Espanha (à época Coroas de Castilha e Aragão) em 2 de julho de 1494 e por Portugal em 5 de setembro do mesmo ano. O outro lado do mundo seria dividido poucas décadas após, pelo Tratado de Zaragoza, assinado em 22 de abril de 1529, que especificou o antemeridiano à linha de demarcação especificada no Tratado de Tordesilhas.
Os vários meridianos relacionados
Na verdade, a ação do Papa Alexandre VI teria sido a edição da Bula “Inter Coetera”, que fixava a linha a apenas 100 léguas das Ilhas Cabo Verde, sem mencionar Portugal ou suas terras. O Tratado de Tordesilhas resultou do esforço do rei português João II que, não satisfeito com a determinação do Papa, abriu negociações com os reis Ferdinando e Isabel de Espanha, visando mover a linha para oeste, permitindo-lhe reclamar novas terras a serem descobertas a leste da linha, sem consulta e contrariando a bula de Alexandre VI. O Tratado acabou não sendo estritamente cumprido, pois os espanhóis não resistiram à expansão dos portugueses no Brasil, através do meridiano. Ele foi ultrapassado pelo Tratado de Madri, de 1750, que garantiu a Portugal o controle das terras que ocupava na América do Sul, imediatamente repudiado pela Espanha. Outros tratados se seguiram para resolver, definitivamente, o impasse.
O papel do Papa nas negociações do Tratado, combinado com outras ações, provocou hostilidades contra o papado em toda a Europa e acabou ajudando a disparar o gatilho da Reforma Protestante do século XVI, em que a maioria dos estados do norte da Europa rompeu seus laços com a Igreja de Roma.

CORTESÃS E FAMÍLIA

Dentre as várias cortesãs do Papa Alexandre VI, aquela por quem sua paixão mais durou foi, sem dúvida, uma certa Vannozza (Giovanna) dei Cattanei, nascida em 1442 e esposa de três sucessivos maridos. A relação iniciou em 1470 e Vannozza lhe deu quatro filhos que ele abertamente reconheceu como seus: Giovanni, posteriormente duque de Gandia (nascido em 1474), Cesare (nascido em 1476), Lucrezia (nascida em 1480) e Goffredo ou Giuffre (nascido em 1481 ou 1482). Seus outros filhos, Girolama, Isabella e Pedro Luiz eram de origem incerta. Antes de sua elevação ao Papado, a paixão do Cardeal Borgia por Vannozza arrefeceu um tanto, o que a fez, subsequentemente, levar uma vida muito retirada. Seu lugar nas afeições do Papa foi preenchido pela bela Giulia Farnese, esposa de um dos Orsini, mas o seu amor por seus filhos de Vannozza permaneceu tão forte como nunca e provou ser, de fato, o fator determinante de toda a sua carreira. Ele distribuiu vastas somas de dinheiro a eles, bem como títulos de toda a honra. A atmosfera do ambiente do Papa Alexandre VI foi tipificada pelo fato de que sua filha Lucrezia viveu com sua cortesã Giulia, que ainda lhe deu mais uma filha, Laura, em 1492. Fontes bem intencionadas com relação ao Papa Alexandre VI, dizem que há evidências de que ele assumiu o Papado determinado a manter  seus filhos longe da Corte. Uma delas é que a sua filha Lucrezia teria sido prometida em casamento a um nobre espanhol; entretanto, tal casamento nunca se realizou. Possivelmente, o abandono dessas boas intenções podem ser creditadas aos maus conselhos de Ascanio Sforza, a quem Borgia havia premiado com a vice-chancelaria e que era, virtualmente, seu primeiro ministro.
De todos os seus filhos, sem qualquer dúvida, os que mais se distinguiram nos acontecimentos da nobreza da época, foram Cesare e Lucrezia e sobre eles escreveremos algumas linhas.

CESARE BORGIA
Cesare Borgia, filho do Papa Alexandre VI

Cesare Borgia nasceu em 13 de setembro de 1475 e morreu em 12 de março de 1507, antes de completar seus trinta e dois anos. Foi um condottiero(4)  italiano, nobre, político e cardeal.
Cesare foi, inicialmente, preparado para uma carreira na Igreja, tornando-se Bispo de Pamplona à idade de 15 anos. Após as escolas em Perugia e Pisa onde Cesare estudou leis, com a elevação de seu pai a Papa, foi feito Cardeal com a idade de 18 anos. Alexandre VI havia apostado as esperanças da família Borgia em seu irmão mais velho, Giovanni, feito capitão geral das forças militares do papado. Com o seu assassinato, em 1497, em misteriosas circunstâncias, vários contemporâneos sugeriram que Cesare poderia ter sido o seu assassino, por duas razões: o desaparecimento de Giovanni lhe abriria a tão esperada carreira militar e o livraria do concorrente aos amores de Sancha de Aragon, esposa do seu outro irmão Gioffre e sua amante e de Giovanni. Em agosto de 1498, Cesare tornou-se a primeira pessoa na história a renunciar ao Cardinalato, no mesmo dia em que o rei francês Luís XII o nomeava Duque de Valentinois título que, junto com a sua posição anterior de Cardeal de Valência, explicava o seu apelido de “Valentino”.
A primeiro de outubro de 1498, Cesare viaja a Roma para trazer ao Rei Luís XII um chapéu de Cardeal ao seu ministro, d’Amboise, e buscar uma esposa de alta estirpe para si próprio. Ele ainda aspirava à mão de Carlotta de Aragão e Nápoles, que residia na França, mas como aquela princesa persistia em sua recusa, ele conformou-se com a mão de uma sobrinha de Luis XII, a irmã do rei João III, de Navarra, Charlotte d’Albret. Em 10 de maio de 1499, Cesare casa-se com ela e tem uma filha, Louise Borgia, Duquesa de Valentinois, que casa-se, incialmente, com Louis II de la Tremouille, Governador de Burgundy e, posteriormente, com Philippe de Bourbon, Senhor de Busset. Cesare foi também pai de, pelo menos, onze filhos ilegítimos, entre eles, Girolamo Borgia, casado com Isabella Condessa de Capri e Lucrezia Borgia que, após a sua morte, mudou-se para Ferrara, à corte de sua famosa tia Lucrezia Borgia. 
A carreira de Cesar foi fundada na habilidade de seu pai em distribuir benesses e por força de sua aliança com a França (reforçada por seu casamento com Charlotte d’Albret), durante as "Guerras Italianas"(5). Durante a invasão da Itália pela França, em 1499, por Luis XII, Alexandre VI decidiu lucrar com a situação favorável, cavando para Cesare, um estado próprio ao norte da Itália, para isso depondo todos os seus vigários. Como os cidadãos os viam sempre como cruéis e mesquinhos, a tomada de poder por Cesare foi vista como progresso.
Cesare foi nomeado comandante dos exércitos papais com um grande número de mercenários italianos, apoiados por 300 cavaleiros e 4.000 infantes suíços enviados pelo rei da França e, violento e vingativo, tornou-se o mais poderoso homem de Roma, fazendo tremer, inclusive, seu próprio pai. Sua primeira vítima foi Caterina Sforza, monarca de Imola e Forli; após conquistar as duas cidades Cesare retornou a Roma para celebrar o triunfo e receber, de seu pai, o título de Gonfalonier Papal – posto militar e político dos Estados Papais. Giovanni Sforza, primeiro marido de Lucrezia, logo foi despejado de Pesaro; Pandolfo Malatesta perdeu Rimini; Faenza rendeu-se, seu jovem senhor Astorre III Manfredi tendo sido encontrado afogado no rio Tibre por ordem de Cesare.
Em julho de 1500, o Duque de Bisceglie, marido de Lucrezia, cuja existência não trazia mais qualquer vantagem aos Borgia, é assassinado por ordem de Cesare, praticamente na Presença de Alexandre VI, assim deixando sua irmã livre para outro casamento. O Papa, sempre em necessidades financeiras, criou 12 novos cardinais dos quais recebeu 120.000 ducados  e considerou novas conquistas para Cesare. Falou-se mesmo em uma nova Cruzada, mas o objetivo real seria a Itália Central; e, no outono, apoiado pela França e Veneza, movimentou-se com 10.000 homens para completar seu trabalho interrompido na Romagna. Os déspotas locais foram grosseiramente destituídos e uma administração foi estabelecida que, se tirânica e cruel, pelo menos foi forte e ordenada.
Em seu retorno a Roma, em junho de 1501, foi nomeado Duque da Romagna e, contratado por Florença, em seguida juntou o domínio de Piombino às suas novas terras. Enquanto seus condottieri iniciavam o cerco de Piombino, que encerrou em 1502, Cesare comandava as tropas francesas nos cercos de Nápoles e Capua, defendidas por Prospero e Fabrizio Colonna. Em junho de 1501suas tropas atacaram o último, causando o colapso do poder aragonês no sul da Itália. Em junho de 1502 ele lançou-se a Marche, onde conseguiu capturar Urbino e Camerino, usando de acordos e traições. O passo seguinte seria Bologna, mas seus condottiere, mormente Vitellozzo Vitelli e os irmãos Orsini, temendo a crueldade de Cesare, preparam uma trama contra ele. Seus oponentes foram derrotados, ele clamou por reconciliação, mas prendeu-os em Seningallia e, posteriormente, executou-os. O Cardeal Orsini, alma da conspiração, foi preso no Castelo Santo Ângelo e doze dias depois era um cadáver, sem que se possa provar se ele morreu de causas naturais ou se foi executado.

(4) O condottiero era um mercenário que controlava uma milícia, sobre a qual tinha comando ilimitado e estabelecia contratos com qualquer Estado interessado em seus serviços. O nome condottiero vem de condotta (termo derivado do latim conducere, "conduzir"), que era o contrato estabelecido com um determinado governo, de modo que essas milícias servissem como suas tropas mercenárias. Os condottieri surgiram em razão das rivalidades e constantes conflitos entre as cidades italianas. A partir da Idade Média até os séculos XIV e XV, eram frequentes os contratos com governos das cidades-estados, especialmente na Toscana, na Romagna, no Veneto e na Úmbria. Como muitas dessas cidades proibiam seus cidadãos de pegar em armas, a solução era recorrer a mercenários que, a despeito dos contratos firmados, não hesitavam em trocar de lado, se o inimigo oferecesse maior soldo. A maioria dos condottieri era italiana, mas não faltaram exemplos alemães, ingleses e de outros países europeus.
(5) As “Guerras Italianas” foram uma série de conflitos entre 1494 e 1559, envolvendo, em várias épocas, a maioria das cidades-estados da Itália, os Estados Papais, a maioria dos estados da Europa Ocidental (França, Espanha, o Santo Império Romano, Inglaterra e Escócia), bem como o Império Otomano. Originárias de uma disputa dinástica sobre o Ducado de Milão e o Reino de Nápoles, as Guerras rapidamente transformaram-se num conflito geral entre os vários participantes, marcado por um crescente grau de alianças regulares, contra-alianças e traições.
(6) O Ducado foi uma moeda de ouro utilizada no comércio até antes da Primeira Grande Guerra. É possível que a primeira emissão dessa moeda tenha ocorrido sob Rogério II da Sicília que, em 1140, cunhou ducados portando a figura de Cristo e a inscrição, em latim: “Deixai, oh Cristo, esse ducado que governas, ser-te dedicado”.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

OS BORGIA (Parte 2)

Havíamos encerrado a primeira parte, quando na Europa renascentista do Papa Alexandre VI se formara a "Santa Liga" contra o Rei Charles VIII da França, provocando sua partida da Itália e a recondução de Ferdinando II ao trono de Nápoles.
A partir daí, Alexandre VI iniciou a tendência geral de todos os príncipes de subjugar os grandes feudatários e estabelecer um despotismo centralizado, tornando assim possível tirar vantagem da derrota dos franceses para quebrar o poder dos Orsini. Com isso, ele pode construir uma efetiva base de poder nos Estados Papais.
Em 15 de junho do mesmo ano, seu filho, Giovanni Borgia, Duque de Gandia foi encontrado morto no rio Tibre. Alexandre VI, dominado pela dor, trancou-se no Castelo Sant’Angelo, declarando que, doravante, a reforma da Igreja seria o único objetivo da sua vida, uma decisão que não manteve. Dedicou-se, isso sim, a descobrir o assassino, tendo as suspeitas caído sobre altas personalidades. As buscas cessaram quando rumores apontaram na direção de Cesare, outro de seus filhos, embora nenhuma evidência conclusiva tivesse surgido. De Cesare falaremos, posteriormente, com bastante detalhe.

Para levar a cabo seus vários intentos, Alexandre VI necessitava de fundos que obtinha através de confiscos, dos quais não escapou nem seu próprio secretário. O processo era muito simples: qualquer Cardeal, nobre ou funcionário público sabidamente rico, era acusado de alguma ofensa, prisão e talvez assassinato imediato, e sua propriedade confiscada incontinenti. A menor oposição ao Papa era punida com a morte. O estado corrompido da Cúria era um enorme escândalo.
Monge Dominicano Girolamo Savonarola

Oponentes poderosos, como o demagógico monge dominicano florentino, Girolamo Savonarola, lançavam invectivas contra a corrupção papal, apelando por um concílio geral que confrontasse os seus abusos. Em 1497, Savonarola e seus seguidores realizaram a “Fogueira das Vaidades”, onde queimaram itens relacionados à falta de moral, coletados de porta em porta, como livros pagãos, esculturas consideradas imorais, além de outros itens. Esses esforços de Savonarola vieram a gerar conflito com Alexandre VI. O Papa, como todos os príncipes de cidades italianas, à exceção de Florença, era um oponente da política francesa e Carlos VIII o ameaçava frequentemente com a convocação de um concílio em oposição. Além disso, o pregador dominicano falava com violência crescente contra o papa e a Cúria, fatos que terminaram por precipitar a exigência papal de que Savonarola pregasse obediência, além de ir a Roma para defender-se. Savonarola desculpou-se, alegando estar com a saúde danificada. As consequências seguintes foram a proibição de o dominicano fazer pregações e a devolução do mosteiro de São Marcos à congregação da Lombardia. Procurando justificar-se e declarando que ele sempre se havia submetido ao julgamento da Igreja, o mosteiro foi retirado da congregação da Lombardia e a conduta de Savanarola foi julgada suavemente, mas a proibição de suas pregações foi mantida.
Morte e incineração de Savonarola
Em seus novos sermões atacou violentamente os crimes do Vaticano, o que fez crescer as paixões em Florença. Um cisma começou a se prefigurar e o papa foi forçado outra vez a agir. Mesmo assim, Savonarola prosseguiu com suas pregações cada vez mais violentas contra a Igreja de Roma, recusando-se a obedecer as ordens recebidas. Em 12 de maio de 1497, Savonarola foi excomungado, terminou preso e condenado à morte em 1498, por ordem papal. Foi torturado e, em 25 de maio, foi enforcado e o seu corpo queimado em praça pública (Piazza della Signoria) em Florença junto com Fra Silvestro e Fra Domenico da Pescia, seus principais assessores. 
Alexandre VI sentia cada vez mais que podia confiar apenas em seus parentes e tentou de todas as formas o engrandecimento de sua família.
Certo de que Luís XII lhe daria mais lucro do que Charles VIII, seu antecessor, a despeito das queixas da Espanha e de Sforza, em janeiro de 1499 Alexandre VI aliou-se com a França e foi seguido por Veneza.
Surge então um novo perigo, em forma de uma conspiração entre os déspotas depostos, os Orsini e alguns dos próprios aliados de Cesare. No início as forças do Papa foram batidas e tudo parecia desanimador para a casa dos Borgia. Mas uma promessa de ajuda dos franceses rapidamente forçou os confederados a um acordo. Por ato de traição, Cesare prendeu os líderes do movimento em Senigallia e condenou à morte Oliverotto da Fermo e Vitellozzo Vitelli, em 31 de dezembro de 1502. Assim que soube das notícias, Alexandre VI iludiu o Cardeal Orsini e prendeu-o em um calabouço onde ficou até a sua morte. Seus bens foram então confiscados, sua velha mãe posta na rua e muitos outros membros da clã em Roma foram presos, enquanto Goffredo Borgia conduzia uma expedição na Campanha e confiscava seus castelos, aumentando o poder dos Borgia. Pelo mês de abril, nada restava aos Orsini além da Fortaleza de Bracciano; e eles imploraram por um armistício. A humilhação da aristocracia romana era completa; pela primeira vez na história do papado, o Papa era, no máximo sentido, soberano dos seus Estados.
As vítimas dos Borgia cresciam, fazendo crescer também sua fortuna. A guerra entre França e Espanha, pela posse de Nápoles, eclodiu e Alexandre VI ofereceu ajuda a Luís XII com a condição de que a Sicília fosse dada a Cesare; ao mesmo tempo, ofereceu ajuda à Espanha em troca de Siena, Pisa e Bologna. 
Burchard registrou de forma crua os eventos que culminaram com a morte de Alexandre VI. Cesare preparava outra expedição em agosto de 1503 quando após jantar com seu pai, o Papa, e o Cardeal Adriano Corneto, tiveram febre. Cesare acabou por recuperar-se mas o Papa já estava muito velho para ter qualquer chance. De acordo com o relato, sua morte foi terrível e após uma semana de sangramento intestinal e febre convulsiva, tendo aceito os últimos ritos e confessar-se, o desesperado Alexandre VI morreu em 18 de agosto de 1503 aos 72 anos de idade. Sua morte foi coberta de mistérios. Boatos surgiram de que ele teria sido acidentalmente envenenado por seu filho Cesare, com uma variante de arsênico denominada Cantarella, quando a vítima pretendida era o Cardeal Adriano. Outra versão diria que o Papa morrera com malária, então prevalente em Roma. Mas nada ficou provado.
A impopularidade de Alexandre VI era tão grande que os padres da Basílica de São Pedro recusaram-se a aceitar o corpo para enterro até que forçados pelo estafe papal, tendo apenas quatro prelados atendido à Missa de Réquiem. Após uma breve permanência, o corpo foi removido da cripta de São Pedro e instalado numa igreja menos conhecida, a igreja nacional espanhola de Santa Maria em Monserrato degli Spagnoli.

LEGADO DO PAPA ALEXANDRE VI
A elevação ao papado, de alguém que durante 35 anos havia conduzido os trabalhos da chancelaria Romana com rara habilidade e indústria, teve a aprovação geral. Os romanos, especialmente, que já viam os Borgia como um deles próprios e que previam um pontificado esplêndido e enérgico, a escolha era muito aceitável. Para justificar a boa opinião dos romanos a seu respeito, imediatamente ele iniciou o fim da ilegalidade que dominava a cidade, cuja extensão, pode-se inferir da declaração de Stefano Infessura, advogado e historiador da época, de que apenas em alguns poucos meses mais de duzentos e vinte assassinatos teriam ocorrido. Alexandre VI ordenou as investigações de forma que cada culpado era enforcado no local e sua casa arrasada ao nível do solo. A cidade foi dividida em quatro distritos, cada um deles subordinado a um magistrado com plenos poderes para a manutenção da ordem, reservando a terça-feira de cada semana para que cada homem ou mulher pudesse, pessoalmente, expor-lhe suas queixas e, diz o relator, “dispensava justiça de uma maneira admirável”. 
Embora não clamasse pelo aprendizado, ele fomentou a literatura e a ciência. Reconstruiu a Universidade Romana e fez generosas doações para o sustento dos professores. Cercou-se de homens cultos e tinha uma especial predileção por juristas. Seu apego por apresentações teatrais encorajaram o desenvolvimento do drama. Amava as cerimônias pontificais, às quais sua figura majestosa figura emprestava graça e dignidade. Ouvia a bons sermões com ouvido crítico e admirava a boa música.
Alexandre VI em oração (Pinturicchio)
 Alexandre VI ficou conhecido pelo patrocínio das artes e nos seus dias uma nova era arquitetural foi iniciada em Roma, com a chegada de Donato Bramante, considerado o autor do projeto de reconstrução da Basílica de São Pedro. Rafael Sanzio, Michelangelo Buonarroti e Pinturicchio (Bernardino di Betto) trabalharam para ele. Pinturicchio foi incumbido pelo Papa de prodigamente pintar um conjunto de quartos no Palácio Apostólico no Vaticano, que até hoje é conhecido como Apartamento Borgia. 
Alexandre VI também encorajou o desenvolvimento da educação emitindo, em 1495 uma bula papal, por solicitação de William Elphinstone, Bispo de Aberdeen e o Rei James IV da Escócia, fundando a Faculdade Real, Aberdeen, hoje parte integrante da Universidade de Aberdeen.
Segundo seu rival Giuliano dela Rovere, o Papa Julius II, que o sucedeu, Alexandre VI teria dado um afável tratamento aos judeus, acolhendo em Roma, em torno de 9.000 empobrecidos judeus expulsos da Península Ibérica e chegados aos limites dos Estados Papais. Declarou na ocasião que “poderiam conduzir suas vidas livres da interferência dos Cristãos, continuando com seus ritos particulares, seus negócios e usufruindo de outros privilégios. Da mesma forma, ele agiu com relação aos judeus expulsos de Portugal em 1497 e da Provence em 1498.
Sem que isso possa servir de justificativa, deve-se observar que os crimes de Alexandre VI foram similares, em natureza, aos praticados por outros príncipes do Renascimento, com a diferença de sua importante posição na Igreja. Como disse o filósofo francês Joeph-Marie de Maistre, em seu trabalho “Du Pape”: “Aos demais príncipes nada havia a perdoar, pois tudo era deles esperado, razão pela qual os vícios que rapidamente passaram por um Luís XIV, tornaram-se muito mais ofensivos e escandalosos num Alexandre VI”. E não poderia ser de outra forma, digo eu.
Entretanto, uma apreciação imparcial dessa pessoa extraordinária deve, imediatamente, distinguir entre o homem e o ofício. Como diz o Dr. Pastor (op. cit., III, 475): “Um engaste imperfeito não afeta o valor intrínseco da joia, como tampouco a moeda de ouro perde o seu valor ao passar por impuras mãos. Na medida em que o padre é um servidor público da Santa Igreja, espera-se dele um vida sem mácula porque ele é, por seu ofício, o modelo de virtude a quem o leigo busca e porque sua vida, quando virtuosa, inspira nos espectadores respeito pela sociedade da qual ele é um ornamento. Mas os tesouros da Igreja, seu caráter divino, sua Santidade, revelação Divina, a graça de Deus, autoridade espiritual, tão conhecidas, são independentes do caráter moral dos agentes e servidores da Igreja. O mais notável de seus padres não pode minimamente diminuir o valor intrínseco dos tesouros espirituais a ele confiados”. Em todos os tempos, sempre existiram homens perversos nas fileiras eclesiásticas.

sábado, 7 de janeiro de 2012

OS BORGIA (Parte 1)

INTRODUÇÃO

Os Borgia, também conhecidos por Borja, constituíram uma família Papal de origem italiana e espanhola, que tornou-se muito conhecida durante o Renascimento (1) . A família produziu três Papas:

•    Papa Calixto III, nascido Alfons de Borja, cujo pontificado ocorreu de 8 de abril de 1455 até a sua
morte em 1458;

•    Papa Alexandre VI, nascido Rodrigo Lanzol de Borja, com pontificado entre 1492 e sua morte, ocorrida em 18 de agosto de 1503;

•    Papa Inocêncio X, nascido Giovanni Battista Pamphilj (ou Pamphili), com Papado entre 1644 e 1655, tetraneto do Papa Alexandre VI, cujo sobrenome não era Borgia.

O termo “família Papal” não contém a menor justificativa para uso, já que todos conhecem, sobejamente, a forma pela qual um Papa da Igreja Católica Apostólica Romana é eleito, de forma vitalícia, através do Conclave dos Cardeais, na Capela Sistina. Entretanto, por razões várias, entre as quais se destacam as políticas, ao longo da história, de fato tais famílias existiram em outras épocas, citando-se como outro exemplo a casa Conti, de onde provieram nove Papas.

Os Borgia emergiram do Reino de Valência, um dos reinos componentes da Coroa de Aragão, nascido na Península Ibérica à época da Reconquista. Dos três Papas citados, desta família, definitivamente, o mais polêmico e controverso foi, sem qualquer dúvida, o Papa Alexandre VI, foco principal de nossa crônica. Aos demais apenas faremos uma breve referência, para bem estabelecer o seu relacionamento mútuo. 
O Papa Calixto III nasceu em La Torreta, Canals, em 1378 e morreu em Roma, em 1458. Inicialmente trabalhou como professor de leis na Universidade de Lleida e mais tarde como diplomata dos Reis de Aragão, antes de tornar-se Cardeal. Foi eleito Papa em 1455, em idade avançada, com pontificado de apenas três anos.

O Papa Inocêncio X nasceu em Roma, de uma família de Gubbio, na Umbria, que tinha vindo para Roma durante o pontificado do Papa Inocêncio IX. Graduou-se no Collegio Romano e seguiu um Cursus Honorum (2) convencional, seguindo seu tio Girolamo Pamphilj, como auditor e, como ele, atingindo a dignidade de Padre Cardeal da basílica de Sant’Eusebio, Roma, em 1629. Preparado como advogado, ele sucedeu ao Papa Urbano VIII, como um dos mais politicamente astutos Pontífices da era, tendo incrementado, em muito, o poder temporal da Santa Sé.
(1) Renascimento, Renascença ou Renascentismo são termos sinônimos usados para identificar o período da História da Europa, aproximadamente entre fins do século XIII e meados do século XVII, mas os estudiosos não chegaram a um consenso sobre essa cronologia, havendo variações consideráveis nas datas conforme o autor. O período foi marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, assinalando o final da Idade Média e o início da Idade Moderna. Apesar destas transformações serem bem evidentes na cultura, sociedade, economia, política e religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e significando uma ruptura com as estruturas medievais, o termo é mais comumente empregado para descrever seus efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências.
(2) Ordem sequencial dos cargos públicos abraçados pelos aspirantes a políticos, tanto na República Romana quanto no Império original.

PAPA ALEXANDRE VI
Papa Alexandre VI
O Papa Alexandre VI nasceu Rodrigo Llançol, em 01 de janeiro de 1431, na cidade de Xàtiva, Reino de Valência então e Espanha nos dias de hoje. Seus pais eram o valenciano Jofré Llançol i Escrivá e sua esposa, a aragonesa Isabel de Borja, irmã do Cardeal Alfonso Borja, mais tarde Papa Calixto III. Seu nome de família é escrito Llançol em valenciano e Lanzol em espanhol. Rodrigo adotou o nome da família de sua mãe, Borja, em 1455, assim que seu tio maternal Alfonso de Borja foi elevado a Papa. Foi um dos Papas mais controvertidos da Renascença e seu nome italianizado, Borgia, tornou-se um apelido pejorativo para os degradados padrões do Papado da época, sendo o “Banquete das Nozes” um dos seus exemplos mais notórios (3).
Rodrigo Borgia estudou leis em Bolonha e, após a eleição de seu tio como Papa Calixto III, foi ordenado diácono e nomeado Diácono-Cardeal de San Nicola in Carcere, com a idade de vinte e cinco anos, em 1456. No ano seguinte foi nomeado Vice-Chanceler da Santa Igreja Romana, através de nepotismo característico da época. Em 1468 foi ordenado sacerdote e em 1471 consagrado Bispo e nomeado Bispo-Cardeal de Albano.

Por 1470 iniciou suas relações com a dama romana Vannozza dei Cattanei, futura mãe de seus quatro filhos Giovanni, Cesare, Lucrezia e Gioffre, nascidos, respectivamente em 1474, 1476, 1480, and 1482.
Vanozza di Cattannei
Serviu na Cúria Romana sob quatro Papas – Pius II, Paul II, Sixtus IV e Inocêncio VIII, Rodrigo Borgia adquiriu considerável experiência administrativa, influência e poder.

Com a morte do Papa Inocêncio VIII em 25 de julho de 1492, os mais fortes candidatos ao Papado eram os cardeais Borgia, Ascanio Sforza e Giuliano dela Rovere. Rumores não confirmados dizem que Borgia teve sucesso com a compra do maior número de votos e Sforza, em particular, teria sido subornado com quatro cargas de mula em prata, além de outros benefícios e postos concedidos. O mesmo Protonotário John Burchard, já mencionado, figura proeminente da habitação papal sob diversos Papas, registrou em seu diário que o Conclave de 1492 foi particularmente dispendioso. Della Rovere foi subornado por 200.000 ducados de ouro pelo Rei Charles VIII da França e com outros 100.000 ducados de ouro fornecidos pela República de Gênova. Borgia foi eleito em 11 de agosto de 1492 com o nome de Alexandre VI. Giovanni di Lorenzo de Medici, posteriormente Papa Leão X, fortemente criticou a eleição, emitindo um aviso:

“Agora estamos em poder de um lobo, talvez o mais voraz que esse mundo já viu. E se não fugirmos, ele nos devorará, inevitavelmente.”
Contrastando com o Pontífice precedente, o Papa Alexandre VI aderiu, inicialmente, à estrita administração da justiça e um governo metódico. Em seguida, contudo, ele iniciou o favorecimento de seus parentes às expensas da Igreja e de seus vizinhos. Seu filho, Cesare Borgia, embora um jovem de dezessete anos, estudante em Pisa, foi feito Arcebispo de Valência; seu outro filho Giovanni Borgia herdou o ducado espanhol de Gandia, lar ancestral dos Borgias naquele país; com relação a Gioffre (também conhecido por Goffredo), seu outro filho homem, o Papa propôs criar feudos de estados papais e do reino de Nápoles, política que colocou Ferdinando I, rei de Nápoles, bem como o Cardeal Della Rovere, a quem apoiara em sua candidatura ao papado, em conflito com o Papa.

A despeito dos esplendores da corte pontifical, a condição de Roma tornou-se cada dia mais deplorável. A cidade fervilhava de aventureiros, assassinos, prostitutas e informantes, assassinatos e roubos eram cometidos com impunidade e o próprio Papa abandonou qualquer demonstração de decoro, indulgenciando com a caça, a dança e as peças teatrais. Um de seus companheiros mais próximos foi Cem, irmão do Sultão Bayazid II, mantido como refém. A visão geral na Itália era das mais ameaçadoras e o país encontrava-se à beira de uma invasão estrangeira.
Giulia Farnese, por Rafael Santi
Para garantir sua posição, o Papa Alexandre VI foi obrigado a fazer várias alianças, buscando ajuda com Charles VIII da França, aliado a Ludovico Sforza (chamado “o Mouro”, por sua pele escura), o Duque de Milão, “de fato”, que necessitava do apoio francês para legitimar o seu reinado. Como Ferdinando I ameaçou ir em auxílio do Duque “de direito” Gian Galeazzo, marido de sua neta Isabella, Alexandre VI encorajou o Rei Francês nos seus planos da conquista de Nápoles, disputado entre França e Espanha. Mas Alexandre VI, sempre pronto a engrandecer sua família, adotou uma dupla política. Com a intervenção do Embaixador da Espanha ele fez paz com Nápoles em julho de 1493 e consolidou a paz pelo casamento entre o seu filho Gioffre e Dona Sancha, outra neta de Ferdinando I. Ao mesmo tempo, para dominar o Sagrado Colégio de Cardeais, Alexandre VI, num movimento que causou enorme escândalo, criou 12 novos Cardeais, entre eles seu filho Cesare e Alessandro Farnese (posteriormente Papa Paulo III), irmão de uma de suas amantes, a bela Giulia Farnese.
Em 25 de janeiro de 1494 morre Ferdinando I e é sucedido por seu filho Alfonso II. Charles VIII então formulou pretensões oficiais sobre o Reino de Nápoles e o Papa Alexandre VI autorizou-o a passar através de Roma, ostensivamente, em uma Cruzada contra os turcos, sem mencionar Nápoles. Contudo, quando a invasão francesa tornou-se real, o Papa Alexandre VI alarmou-se e reconheceu Alfonso II como rei de Nápoles, concluindo com ele uma aliança em troca de vários feudos para seus filhos. Uma resposta militar aos franceses foi posta em ação mas sem sucesso e em 8 de setembro Charles VIII cruza os alpes e junta-se a Ludovico Sforza em Milão, avançando para Roma em novembro do mesmo ano. Alexandre VI apelou ao Cardeal Ascânio Sforza (irmão de Ludovico) e ao Sultão turco, tentando reunir tropas e colocando Roma em estado de defesa, mas sua posição era precária. Quando Orsini ofereceu admitir os franceses aos seus castelos, Alexandre não teve outra alternativa que não o estabelecimento de termos com os franceses. Em 31 de dezembro Charles VIII entrou em Roma com suas tropas, os Cardeais da facção francesa e Giuliano dela Rovere. Temeroso de que Charles pudesse depô-lo por simonia e reunir um Conselho para nomear um novo Papa, Alexandre VI conquistou o Bispo de Saint-Malo, com forte influência sobre o Rei, com um chapéu cardinalício. Concordou em enviar Cesare como emissário a Nápoles, junto com o exército francês, entregar Cem e a cidade de Civitavecchia a Charles VIII. A 28 de janeiro Charles partiu para Nápoles com Cem e Cesare, que logrou fugir para Spoleto. A resistência napolitano entrou em colapso e Alfonso II fugiu abdicando em nome de seu filho Ferdinando II que, abandonado por todos, fugiu também sendo o Reino de Nápoles conquistados com extrema facilidade.

Logo se estabeleceu uma forte reação contra Charles VIII pois as potências europeias estavam alarmadas com o seu sucesso. Em 31 de março de 1495 uma “Santa Liga” foi criada entre o Papa, o Imperador, Veneza, Ludovico Sforza e Ferdinando da Espanha, teoricamente para lutar contra os Mouros, mas na prática para expulsar os franceses da Itália. Charles VIII se havia auto coroado rei de Nápoles a 12 de maio mas poucos dias após iniciou sua retirada em direção ao norte, encontrando os aliados em Fornovo; após batalha sem vencedor, rompeu seu caminho através deles, chegando à França em novembro do mesmo ano. Logo em seguida, Ferdinando II foi reempossado em Nápoles com ajuda dos espanhóis.

(3) Mais adequadamente conhecido como o Balé das Nozes, refere-se a uma festa em Roma e, particularmente, a uma ceia oferecida no Palácio Papal por Don Cesare Borgia, filho do Papa Alexandre VI e Cardeal, em 30 de outubro de 1501. Cinquenta prostitutas ou cortesãs foram colocadas à disposição  dos convidados e, após o jantar, suportes com castiçais acesos foram dispostos no piso e nozes espalhadas pelo chão. As roupas das cortesãs foram leiloadas e as prostitutas e convidados rastejavam nús entre as lâmpadas buscando as nozes. Imediatamente após o espetáculo, membros do clérigo e outros convidados da festa iniciaram uma orgia sexual com as prostitutas. Um relato do banquete encontra-se preservado em diário, em latim, pelo Protonotário Apostólico e Mestre de Cerimônias Johann Burchard (Liber Notarum) e, segundo ele, “prêmios eram oferecidos – gibões de seda, pares de sapatos, chapéus e outras vestimentas – aos homens de maior sucesso com as prostitutas.