Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sábado, 1 de julho de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 7 - Final)

VII.2 – DECLÍNIO E DERROTA DOS MUÇULMANOS

Durante o século IX, os berberes retornaram à África, como consequência das revoltas no mundo muçulmano. Muitos governadores de grandes cidades distantes da capital, Córdoba, tinham planejado estabelecer suas independências. Então, em 929, o Emir de Córdoba, Abd-ar-Rahman III, o líder da dinastia Omíada, declarou-se Califa, independente dos Abássidas de Bagdá. Tomou os poderes militar, religioso e político, reorganizando o exército e a burocracia. Após ganhar o controle sobre os governadores dissidentes, Abd-ar-Rahman III tentou conquistar os reinos cristãos remanescentes na Ibéria, atacando-os várias vezes e empurrando-os para além das Montanhas Cantábricas (cordilheira ao norte da Espanha, com 480 km de extensão). Seu neto tornou-se um fantoche nas mãos do grande Vizir Almanzor (al-Mansur), que empreendeu várias campanhas atacando e saqueando Burgos, Leão, Pamplona, Barcelona e Santiago de Compostela, antes de sua morte, em 1002. Entre sua morte e 1031, o Al-Andalus sofreu muitas guerras civis, que terminaram com a divisão nos Reinos Taifas, já mencionados, 34 (trinta e quatro) pequenos reinos centrados em suas capitais. Seus governadores não possuíam visão de escala sobre a presença moura na península e não tinham receio de atacar os reinos vizinhos sempre que pudessem tirar vantagem disso. Essa divisão em reinos menores enfraqueceu a presença islâmica e os reinos cristãos avançaram quando Alfonso VI conquistou Toledo em 1085. Cercados por seus inimigos, os governantes taifa enviaram um apelo desesperado ao chefe berbere Yusuf ibn Tashfin, líder dos Almorávidas. 
Cronograma geral da Reconquista, já com o Reino de
Astúrias ampliado para Reino de Leão e Navarra
Os Almorávidas eram uma milícia muçulmana, primariamente composta por berberes e mouros africanos e, diferentemente dos governadores muçulmanos anteriores, não tão tolerantes com os cristãos e judeus. Seus exércitos entraram na Ibéria em várias ocasiões e derrotaram o rei Alfonso em 1086, na Batalha de Sagrajas, mas seu objetivo inicial era unir as taifas num só califado Almorávida. Suas ações retardaram a expansão dos reinos cristãos e sua única derrota ocorreu em Valência, 1094, pelas ações de El Cid.
Enquanto isso, Navarra perdia toda sua importância sob o rei Sancho IV, que perdeu Rioja para Sancho II de Castela e quase tornou-se vassalo de Aragão. Com sua morte os navarrenses escolheram para seu rei Sancho Ramirez, rei de Aragão, que se tornou Sancho V de Navarra e I de Aragão (1063). Sancho Ramirez ganhou reconhecimento internacional para Aragão, unindo-o a Navarra e expandindo as fronteiras para o sul, conquistando Huesca (nordeste da Espanha) em 1096 e construindo o forte El Castelar, a 25 km de Zaragoza.
A Catalunha esteve sob intensa pressão das taifas de Zaragoza e Lérida, bem como de disputas internas, pois Barcelona sofreu uma crise dinástica que conduziu à guerra entre os condados menores. Mas pela década de 1080, a situação havia se acalmado e o domínio de Barcelona foi restaurado.
Após um breve período de desintegração, os Almóadas, poder em ascensão no norte da África, descontentes com o insucesso dos Almorávidas, tomaram a maioria do Al-Andalus. Os papas chamaram os cavalheiros da Europa às Cruzadas na Península, fazendo com que exércitos da França, Navarra, Castela, Portugal e Aragão se unissem contra as forças muçulmanas, decisivamente derrotando os Almóadas na Batalha das Navas de Tolosa, em 1212, que assim perderam quase todas as terras remanescentes do Al-Andalus nas décadas que se seguiram. Por 1252, somente o reino de Granada permanecia como um estado muçulmano soberano na Península Ibérica. 
A capitulação de Granada em 1492: Fernando e Isabel
e Muhammad XII
O reino mouro de Granada ainda continuaria por quase três séculos, ao sul da Ibéria. Fernando e Isabel, que herdaram os reinos de Aragão e Castela, respectivamente, eram primos, casaram-se em 1469 e completaram a Reconquista com a guerra contra o Emirado de Granada, iniciada em 1482 e encerrada com a rendição de Granada em 2 de janeiro de 1492. Os habitantes mouros não receberam qualquer ajuda militar ou resgate de outras nações muçulmanas. Os mouros, em Castela, chegaram a atingir meio milhão de pessoas dentro do reino. Por 1492, 100.000 (cem mil) haviam morrido ou sido escravizados, 200.000 (duzentos mil) haviam emigrado e 200.000 (duzentos mil) permaneceram em Castela. Muito da elite muçulmana, considerando o domínio cristão intolerável, emigrou para Tlemcen, noroeste de Argélia, norte da África. Os judeus restantes também foram forçados a deixar a Espanha, converterem-se à cristandade católica romana ou serem mortos por se recusarem. 
O Palácio Real de Alhambra, Granada, Espanha
Diz-se que os muçulmanos lamentam, anualmente, a perda de Granada, com seu maravilhoso palácio e jardins de Alhambra, seu palácio real na cidade. Na Espanha, festas anuais comemoram a vitória. O ano de 1492 foi um ano significativo não apenas para a Espanha, mas globalmente. Ele marcou o fim do domínio muçulmano no Al-Andaluz, a expulsão de judeus e muçulmanos e a viagem de Cristóvão Colombo às Américas. Em seu diário, Colombo colocou sua aventura no contexto da conquista de Granada por seus benfeitores. Argumenta-se que o sucesso dos espanhóis no que eles viram como uma cruzada contra o Islamismo, forneceu o estímulo e o ímpeto para as suas conquistas do Novo Mundo, o que eles fizeram “com a espada numa mão e a Bíblia na outra, a partir do seu recente triunfo sobre os muçulmanos”.

VIII – O REPOVOAMENTO CRISTÃO DA PENÍNSULA IBÉRICA

A Reconquista foi um processo não somente de guerra e conquista, mas também de repovoamento. Os reis cristãos moveram seus próprios povos para localidades abandonadas pelos muçulmanos, para ter uma população capaz de defender as fronteiras. As principais áreas de repovoamento foram a bacia do Douro (planalto norte), o alto vale do Ebro (La Rioja) e a Catalunha central. O repovoamento da bacia do Douro teve lugar em duas fases distintas: na área norte da bacia, entre os séculos IX e X, o sistema de presura foi empregado; no sul do Douro, nos séculos X e XI, a presura conduziu aos fueros ou forais, que também foram usados ao sul da Cordilheira Central. 
Os reis católicos Fernando e Isabel,
de Aragão e Castela
A presura se referia a um grupo de camponeses que atravessavam as montanhas e se estabeleciam nas terras abandonadas da bacia do Douro. As leis Asturianas promoveram esse sistema, por exemplo, outorgando a um camponês toda a terra que ele poderia cultivar e defender como sua propriedade. Claro que os nobres menores, da Galícia e Astúrias enviaram suas próprias expedições com os camponeses que eles mantinham, conduzindo a muitas áreas feudalizadas, como Leão e Portugal, enquanto Castela, uma área árida com vastas planícies e clima severo, somente atraiu camponeses sem esperanças de irem para Biscaia (província da Espanha ao norte da comunidade autônoma do País Basco). Por consequência, Castela era governada por um só conde, mas com território predominantemente não feudal, com muitos camponeses livres. A presura também surgiu na Catalunha, quando o conde de Barcelona ordenou ao bispo de Urgell e ao conde de Gerona que repovoassem as planícies de Vic (capital da comarca de Osona, província de Barcelona, Catalunha).
Do século X em diante, as cidades grandes e pequenas ganharam mais importância e poder, à medida que o comércio ressurgia e a população continuava crescendo. Os fueros, conforme já comentado anteriormente, eram documentos que relacionavam os privilégios e usos concedidos a todo o povo que repovoava uma cidade, e forneciam uma forma de escapar do sistema feudal, pois eram concedidos somente pelo rei. Como resultado, o conselho da cidade era dependente somente do monarca e, em troca, deviam fornecer ajuda ou tropas ao seu rei. A força militar das cidades transformou-se nos caballeros villanos (cavalheiros das vilas). O primeiro fuero foi dado ao conde Fernán Gonzales para os habitantes de Castrojeriz, na década de 940. As mais importantes cidades da Ibéria medieval tinham fueros ou forais. Em Navarra os fueros foram o sistema mais importante de repovoamento. Mais tarde, no século XII, Aragão também empregou o sistema, por exemplo, o fuero de Teruel, um dos últimos, no início do século XIII. Do meio deste século para diante, não foram concedidas mais cartas, pois a pressão demográfica havia desaparecido e outros meios de repovoamento foram criados.
A língua falada nas partes da Península sob o domínio muçulmano, era o árabe andaluso, extinto com a expulsão dos mouriscos (descendentes da população muçulmana espanhola convertida ao cristianismo), mas cuja influência na língua espanhola, até hoje é encontrada.
Embora o número de muçulmanos colonizadores (em sua maioria mouros) fosse pequeno, muitos habitantes ibérios nativos se converteram ao islamismo. Pelo ano 1000, cerca de 5 milhões dos 7 milhões de habitantes, a maioria deles descendentes de ibérios nativos convertidos, eram muçulmanos. Havia também africanos do sub Saara, que haviam sido absorvidos no Al-Andalus para serem usados como soldados e escravos. O Califado de Córdoba entrou em colapso em 1031 e o território muçulmano na Ibéria caiu sob o domínio do Califado Almóada em 1153. Este segundo estágio foi guiado por uma versão do islamismo que deixou para trás as práticas mais tolerantes. Em 1480, para exercer o controle social e religioso, Fernando e Isabel concordaram com a entrada da Inquisição na Espanha. A população muçulmana de Granada rebelou-se em 1499 e assim permaneceu até 1501, dando às autoridades de Castela uma desculpa para anular o Tratado de Granada, (final de 1491) que garantia vários direitos aos muçulmanos que se rendiam. Em 1501, as autoridades de Castela emitiram um ultimato aos muçulmanos de Granada: converterem-se ao cristianismo ou serem expulsos. Alguns converteram-se e permaneceram na Ibéria.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: MESOPOTÂMIA (PARTE 09)



IV.9.3 – O MÉDIO IMPÉRIO ASSÍRIO (1392-1056 AC)

Os estudiosos datam o início do Médio Império Assírio, ou da queda de Eriba-Adad I, do Antigo Reino Assírio, ou da ascensão de Ashur-uballit I ao trono da Assíria.
Conforme vimos, a influência Mitanni sobre a Assíria estava em decadência, nesta época. Eriba-Adad I envolveu-se numa batalha dinástica entre Tushratta e seu irmão Artatama II e depois seu filho, Shuttarna II, que se proclamava rei de Hurri, enquanto buscando apoio dos assírios. Uma facção pró assíria surgiu na corte real de Mitanni e com isso Eriba-Adad I quebrou a influência Mitanni sobre a Assíria que, por sua vez, passou a exercer influência sobre as relações Mitanni.
Ashur-Uballit I (1365-1330 AC) sucedeu no trono da Assíria e provou ser um governante feroz, ambicioso e poderoso. A pressão assíria pelo sudeste e a hitita, do noroeste, permitiu a Ashur-Uballit I quebrar o poder Mitanni, quando encontrou e derrotou em batalha, decisivamente, Shuttarna II, o rei Mitanni, tornando novamente a Assíria uma potência imperial, não apenas às suas custas, mas também à dos Kassitas Babilônios, Hurrianos e Hittitas. O casamento do rei Kassita da Babilônia, com a filha de Ashur-uballit I foi desastroso para a Babilônia, pois a facção kassita na corte assassinou o rei assírio babilônio, colocando um pretendente no trono. Ashur-Uballit I prontamente invadiu a Babilônia, para vingar seu genro, depondo o rei e instalando no trono Kurigalzu II, da linhagem real. A seguir, Ashur-Uballit I atacou e derrotou Mattiwaza, o rei Mitanni, a despeito do apoio de Suppiluliumas, rei hittita, já temeroso do crescente poder assírio.
A este, seguiram-se vários reis que só fizeram consolidar e ampliar o poder e o território assírio, transformando a Assíria num poderoso império que ameaçava os interesses dos dois outros grandes impérios, Egípcios e Hittitas, na região, provocando a paz entre essas duas nações.
Tukulti-Ninurta I (1244-1207 AC) teve uma grande vitória contra os hititas e seu rei Tudhaliya IV, na Batalha de Nihriya, fazendo milhares de prisioneiros; após isso conquistou a Babilônia tomando seu rei, Kashtiliash IV, como cativo, e reinando lá mesmo por sete anos, com o antigo título de “Rei da Suméria e Acádia”, antes usado por Sargão de Acádia. Com isso, tornou-se o primeiro nativo da Mesopotâmia falando Acadiano a governar o estado da Babilônia, já que seus fundadores haviam sido Amoritas, sucedidos por Kassitas também estrangeiros. No processo da conquista, ele derrotou também os Elamitas, que cobiçavam a Babilônia. Quando as relações com o clero começaram a se deteriorar em Ashur, Tukulti-Ninurta I construiu uma nova cidade capital, Kar-Tukulti-Ninurta Segundo vários estudiosos, Tukulti-Ninurta I e seus feitos seriam identificados com o personagem bíblico Nimrod, do Velho Testamento.
Esse rei foi assassinado por seus filhos rebeldes que deixaram o governo do império nas mãos dos governadores regionais e com isso a Assíria passou por mais um período de instabilidade, rachada por disputas internas, embora não fosse ameaçada por potências estrangeiras durante vários reis que se seguiram.
Tiglath-Pileser I (115-1077 AC) compete, entre os historiadores, com Shamshi-Adad I e Ashur-uballit I como o fundador do primeiro Império Assírio; de qualquer forma ele tornou-se um dos maiores conquistadores assírios durante o seu reinado de 38 anos.
Os reis que o sucederam, incluindo Ashur-bel-kala (1073-1056 AC), mantiveram o vasto império unido, sempre mantendo embates contra a Babilônia, mas em geral mantendo-a como cidade vassala. Posteriormente, em seu reinado, o Médio Império Assírio explodiu em guerra civil, permitindo que hordas de arameus[1] tirassem vantagem da situação, pressionando contra territórios controlados pela Assíria a oeste. Ao final do seu reinado, muitas das áreas da Síria e Fenícia – Canaã, até o mar Mediterrâneo, antes sob seu firme controle, estavam fora do Império Assírio.
O período de 1200 a 900 AC foi a idade das trevas para todo o Oriente Médio, Norte da África, Cáucaso, Mediterrâneo e Balcãs, por força de muitas revoltas e movimentos de massa de povos. Por cerca de 150 anos o império da Assíria resistiu a esses eventos tumultuosos, mas com a morte de Ashur-bel-kala, em 1056 AC, entrou em relativo declínio por cerca de 100 anos. O império encolheu significativamente de forma que em torno de 1020 AC parece ter controlado apenas áreas próximas da própria Assíria, essenciais para manter as rotas de comércio abertas na Síria oriental, sudeste da Ásia Menor, Mesopotâmia Central e noroeste do Irã.
Povos semitas, como Arameus, Caldeus[2] e Suteus[3], mudaram-se para áreas a oeste e sul da Assíria, invadindo muito da Babilônia ao sul; povos iranianos de língua indo-europeia, como os medos[4], persas e partas, mudaram-se para as terras a leste da Assíria, deslocando os nativos gutianos e pressionando Elam e Mannea[5] (ambas civilizações não indo-europeias do Irã); ao norte os frígios[6] perturbaram os hititas; um novo estado hurriano, Urartu, surgiu no Cáucaso; cimérios[7], georgianos e citas[8] surgiram em torno do Mar Negro; o Egito estava dividido e desordenado; e os israelitas batalhando contra povos semitas e não semitas canaanitas pelo controle do sul de Canaã.
A despeito da aparente fraqueza da Assíria em comparação ao seu poder anterior, ela permaneceu como uma nação sólida e bem defendida, com os melhores guerreiros do mundo, uma monarquia estável, exército poderoso e fronteiras seguras, mantendo uma posição mais forte, nesta época, que seus potenciais rivais Egito, Babilônia, Elam, Frígia, Urartu e Pérsia. Os reis assírios deste período adotaram a política de manter e defender uma nação compacta e segura, bem como colônias satélites em torno, intercaladas com ataques e invasões punitivos esporádicos em territórios vizinhos, conforme necessários.
Durante esse período, os reis se sucederam até que Ashur-Dan II (935 – 912 AC) deflagrou uma marcante virada econômica e organizacional nos destinos da Assíria, para novamente forjar o império. Realizou ataques punitivos vitoriosos além das fronteiras da Assíria para livrar dos arameus e outros povos tribais as regiões vizinhas, em todas as direções. Concentrou-se na reconstrução da Assíria dentro de suas fronteiras naturais, construiu escritórios governamentais em todas as províncias e criou um auxílio econômico importante fornecendo arados para toda a terra que produziram uma produção recorde de grãos.

IV.9.4 - A NOVA ASSÍRIA (911–627 AC)

Quando a antiga Idade das Trevas finalmente encerrou, o mundo havia mudado dramaticamente. Reinos antigos como Assíria, Babilônia, Elam e Egito, ainda resistiam, assim como os hititas sob a forma de estados menores Novo-Hititas. Vários novos estados tinham surgido durante os tempos tumultuados entre 1200 e 936 AC, tais como: Pérsia, Media, Partia, Mannea, Israel, Urartu, Frígia Lídia, os estados arameu e fenício, do Levante, e outros. Além disso, outras nações e povos, como a Caldeia, Judá, Ciméria, Etiópia, Armênia e os árabes, deveriam emergir nos séculos seguintes. Contudo, foi antigo estado da Assíria que enfrentou e derrotou estes novos povos, junto com velhos inimigos, durante os três séculos seguintes.
O início do reerguimento e da reconquista do império assírio iniciou com as campanhas de Adad-nirari (911-892 AC) e prosseguiu com vários reis que não conheceram insucessos: Tukulti-Ninurta II (891–884 AC); Ashurnasirpal II (883–859 AC), governante cruel e feroz que avançou, sem oposição, por Aram e Canaã e Ásia Menor, até o Mediterrâneo; Shalmaneser III (858–823 AC), atacou e reduziu à vassalagem a Babilônia, derrotando Aramea[9], Israel, Urartu, Fenícia, estados Novo-Hititas e os árabes da Península Arábica; Shamshi-Adad V (822-811 AC); Adad-nirari III (810-782 AC), que sendo ainda menino viu o império ser governado por sua mãe, a famosa rainha Semíramis (Shammuramat), até o ano 806 AC, quando ocupou o trono, invadindo o Levante e subjugando todos os seus povos; Shalmaneser IV (782-773 AC); Ashur-dan III (772-755 AC); Ashur-nirari V (754-745 AC); Tiglath-Pileser (745-727 AC) renovou a expansão assíria, subjugando Urartu, Pérsia, Media, Babilônia, Arábia, Fenícia, Israel, Judá, Samaria, Caldeia, Chipre, Moab, Edom e os Novo-Hititas, declarando-se rei na Babilônia, numa época em que o Império Assírio se espalhava das montanhas do Cáucaso à Arábia e do Mar Cáspio a Chipre, com a primeira força profissional de luta da história; Shalmaneser V (726-723 AC), mencionado na Bíblia como tendo conquistado os Samaritanos e sido responsável pela deportação das Dez Tribos Perdidas de Israel para a Assíria; Sargão II (722-705 AC) além de manter o império, conquistou várias regiões e submeteu vários reinos ao pagamento de tribute, incluindo Babilônia, Aram, Fenícia, Israel, Arábia, Chipre e a Frígia, do famoso rei Midas; Sennacherib (701-681 AC) derrotou os gregos, e egípcios governados pelos núbios então no Oriente Médio, onde o faraó núbio Taharga fomentava revolta contra os assírios; seu palácio e jardim em Nínive foram propostos como modelo dos “Jardins Suspensos da Babilônia”, uma das “Sete Maravilhas do Mundo Antigo”; Esarhaddon (680-669 AC) expandiu ainda mais a Assíria até as montanhas do Cáucaso, ao norte e, cansado da interferência egípcia no Império Assírio, decidiu conquistar o Egito, atravessando o deserto do Sinai, tomando de surpresa o país e destruindo o estrangeiro Império Kushita no processo; reconstruiu completamente a Babilônia e trouxe paz à Mesopotâmia como um todo, mantendo babilônios, egípcios, elamitas, cimérios, persas, medas, caldeus, israelitas e fenícios, mantendo seguro o império da Assíria; Assurbanipal (669-627 AC) ampliou a dominação assíria, das montanhas do Cáucaso, no norte, à Núbia, Egito e Arábia no sul; e do Chipre e Antióquia no oeste, à Pérsia, no leste, era inusitadamente culto para o seu tempo, falando Acadiano, aramaico e sumério, com grande conhecimento de astronomia e matemática, bem como da arte militar, civil e política; construiu a famosa Biblioteca de Assurbanipal, primeira a classificar as obras por ordem de gênero.
Império da Assíria no seu auge, sob Assurbanipal

Após esmagar a revolta babilônia, Assurbanipal surgiu como chefe supremo: para o leste, o Elam devastado se prostrava à Assíria, a Mannea, persas iranianos e medos eram vassalos; ao sul, a Babilônia era ocupada, os caldeus, árabes, Sutu e os nabateanos[10], subjugados, o império núbio destruído e o Egito pagava tributo; ao norte, os citas e cimérios haviam sido vencidos e expulsos do território assírio, Urartu, Frígia, e os novo-hititas pagavam vassalagem e a Lídia rogava por proteção assíria; ao oeste, Aramea, os fenícios, Israel, Judá, Samaria e Chipre estavam subjugados e os habitantes helenizados de Caria[11], Cilícia[12], Capadócia[13] e Comagene[14] pagavam tributo à Assíria. No pico do seu império, a Assíria de Assurbanipal abarcava as modernas nações do Iraque, Síria, Egito, Líbano, Israel, Jordânia, Kuwait, Bahrain, Palestina e Chipre, junto com grandes parcelas do Irã, Arábia Saudita, Turquia, Sudão, Líbia, Armênia, Geórgia e Azerbaijão, mais forte do que jamais fora.
Contudo, as longas batalhas contra Babilônia, Elam e seus aliados, além da permanente campanha de mais de três séculos para controlar e expandir seu vasto império em todas as direções, exauriu a Assíria. Ela havia sido drenada de riquezas e capacidade de trabalho humano, as províncias devastadas nada podiam produzir para suprir as necessidades do erário público imperial, era difícil encontrar tropas suficientes para guarnecer o imenso império e, após a morte de Assurbanipal, uma severa agitação civil eclodiu na Assíria e o império começou a desintegrar-se.

IV.9.5 - A QUEDA DA ASSÍRIA (626–605 AC)



A decadência da Assíria iniciou-se após a morte de Assurbanipal, com várias guerras civis envolvendo três reis rivais e o afastamento do Egito da 26ª Dinastia, instalada pelos assírios como vassalos.

Ashur-etil-ilani subiu ao trono em 626 AC e foi imediatamente envolvido por guerras civis internas, sendo deposto em 623 AC após quatro anos de luta com Sin-shumur-lishir, um general assírio, que também ocupou e reivindicou o trono da Babilônia naquele ano. Este, por sua vez, foi deposto como governante da Assíria e Babilônia após um ano de guerra contra Sin-shar-ishkun (622-612 AC) que também enfrentou violenta rebelião na Assíria, revolução total na Babilônia e a cessação do pagamento de tributos de muitas colônias assírias a oeste, leste e norte, principalmente medos, persas, citas, cimérios, caldeus e arameus que, além disso, passaram a atacar colônias assírias, o Levante, Israel, Judá e mesmo as costas do Egito.
Os povos do Irã (medos, persas e partas) também tiraram vantagem dos levantes na Assíria para unir-se numa força poderosa, dominada por medos, que destruiu vários reinos vassalos da Assíria. Aramea, Fenícia e sul de Canaã readquiriram sua independência, assim como as colônias assírias da Ásia Menor e do leste do Mediterrâneo. Da mesma forma armênios, sármatas e georgianos começaram também a se estabelecer em algumas partes do Cáucaso.
Cerca de 620 AC, Nabopolassar, um desconhecido das tribos caldeias que se haviam estabelecido no extremo sudeste da Mesopotâmia cerca de 900 AC, reivindicou a cidade de Babilônia e faixas do império. Sin-shar-ishkun reuniu um grande exército para expulsar Nabopolassar da Babilônia; contudo, outra grande revolta explodiu na própria Assíria, forçando o retorno da maior parte do seu exército que prontamente se uniu aos rebeldes em Níneve e foram quatro anos de luta em duas frentes. Nabopolassar conseguiu então uma boa aliança com o rei medo Cyaxares, o Grande, que aproveitando os levantes na Assíria havia libertado os povos iranianos, unindo os medos iranianos, persas e partas, com os citas e cimérios; juntos atacaram a Assíria em 616 AC e após quatro anos de lutas Níneve foi finalmente saqueada em 616 AC e Sin-shar-ishkun foi morto defendendo a sua capital.
Ashur-uballit II tomou o trono e persistiu na resistência de Níneve, recusando uma oferta de vassalagem a Nabopolassar, Cyaxares e seus aliados e conseguindo uma fuga para a cidade Assíria de Harran, ao norte que tomou como a nova capital do reino. Conseguiu mantê-la por cinco anos após o que também Harran caiu em 608 AC. O Egito que funcionava como colônia assíria veio em seu auxílio com medo de cair também, sem a proteção da Assíria. Ashur-uballit II e Necho, do Egito, fizeram uma tentativa frustrada de recapturar Harran em 608 AC e durante os três anos seguintes tentaram em vão expulsar os invasores. Em 605, na batalha de Carchemish, os babilônios e medos derrotaram os assírios e egípcios, trazendo um fim à Assíria como entidade política independente – embora ainda tentassem algumas rebeliões importantes contra o Império Aquemênida em 546 e 520 AC -, permanecendo como uma região geopolítica e província colonizada até o século VII DC. O destino de Ashur-uballit II é desconhecido, podendo ter sucumbido na batalha de Carshemish ou simplesmente desaparecido na obscuridade.

IV.9.6 – RELIGIÃO ASSÍRIA

Os assírios, como os demais povos mesopotâmicos, seguiram a religião sumério-Acádiaiana da Mesopotâmia, com o deus Ashur como líder do panteão. Essa religião sobreviveu na Assíria, de 3500 AC até o seu gradual declínio em face do Cristianismo entre os séculos I e X DC. Havia vários outros deuses no panteão, os principais sendo: Anu, Baal, Ea, Enlil, Ishtar, Shamash, Tammuz, Adad/Hadad, Sin, Dagan, Ninurta, Nisroch, Ninlil e El.
A religião nativa ainda foi fortemente seguida até o século IV DC e sobreviveu oculta pelo menos até o século X DC, embora os assírios tenham iniciado a adotar a cristandade do rito oriental (bem como, por um tempo, o maniqueísmo e o gnosticismo que, como a literatura siríaca, teve o seu berço na Assíria entre os séculos I e III DC. Hoje os assírios são exclusivamente cristãos com a maioria seguindo a Igreja Assíria do Oriente, Igreja Católica Caldeia, Antiga Igreja do Oriente e a Igreja Ortodoxa Siríaca.

IV.9.7 – LÍNGUA NA ASSÍRIA

Conforme já tivemos oportunidade de comentar, na Mesopotâmia como um todo, durante o terceiro milênio AC, difundiu-se entre sumérios e Acadianos um bilinguismo, com permanente influência de um sobre o outro. Vimos também que o Acadiano substituiu, gradualmente, o sumério, embora este permanecesse como língua sagrada, cerimonial, literária e científica até o primeiro século DC.
Em tempos muito antigos, os assírios falavam um dialeto da língua Acadiana, um ramo oriental das línguas semitas, chamada de “Velho Assírio”, em que surgiram as primeiras inscrições. No período Novo Assírio, o aramaico tornou-se crescentemente comum, até mais do que o Acadiano, devido às deportações em massa, para a Assíria, de povos de língua aramaica conquistados pelos assírios, que com eles frequentemente cruzavam. Os antigos assírios também usavam a língua suméria em sua literatura e liturgia, embora de forma mais limitada nos períodos Médio e Novo Assírios, quando o Acadiano tornou-se a língua principal.
A destruição das capitais assírias de Níneve e Assur pelos babilônios, medos e seus aliados, garantiu que quase toda a elite bilíngue desaparecesse. Pelo século VII AC muito da população assíria que usava o Acadiano influenciou o aramaico oriental e não o próprio Acadiano. As últimas inscrições Acadianas na Mesopotâmia datam do século I DC. Contudo, dialetos orientais aramaicos, bem como nomes próprios e sobrenomes Acadianos e aramaicos mesopotâmios sobrevivem até hoje entre os assírios nas regiões do norte do Iraque, sudeste da Turquia, noroeste do Irã e nordeste da Síria, que constituíam a antiga Assíria.

IV.9.8 – ARTES E CIÊNCIAS

Lamassu: colossal estátua de leão alado
A arte assíria preservada até hoje data, predominantemente do período Novo Assírio. Arte descrevendo cenas de guerras e, ocasionalmente, a empalação de uma vila inteira com detalhes sangrentos, pretendiam mostrar o poder do imperador, servindo como propaganda. Tais relevos em pedra decoravam as paredes dos palácios reais onde estrangeiros eram recebidos pelo rei. Outros relevos mostravam o rei com diferentes deidades conduzindo cerimônias religiosas. Muitos desses relevos foram descobertos em palácios reais em Nimrud e Khorsabad. Uma rara descoberta de chapas de metal pertencendo a portas de madeira foi feita em Balawat. A escultura assíria atingiu um alto nível de refinamento no período Novo Assírio cujo proeminente exemplo é o touro ou leão com asas de águia e cabeça humana, conhecido como lamassu (feminino) ou shedu (masculino), deidade protetiva que guardava as entradas do paço real com o objetivo de afastar o mal. Eram propositalmente feitos com cinco patas de forma a mostrar sempre quatro, quer fosse visto de frente ou de perfil.
Embora trabalhos de pedras e metais preciosos não tenham sobrevivido ao tempo, algumas finas peças de joalheria foram encontradas em tumbas reais em Nimrud. Discussões acadêmicas prosseguem sobre a natureza das “Lentes de Nimrud” (mantidas no Museu Britânico), uma peça de quartzo desenterrada por Austen Henry Layard em 1850, no complexo palaciano de Nimrud, norte do Iraque. Uma pequena minoria crê ser ela uma evidência de antigos telescópios assírios, que poderia explicar a grande precisão da astronomia assíria. Outros sugerem o seu uso como lente de aumento para joalheiros ou mobília decorativa.
Os assírios foram também inovadores na tecnologia militar, pelo uso de cavalaria pesada, sapadores, máquinas para cerco etc... 


[1] Os arameus (de Aramea) foram um povo semita do noroeste, de língua aramaica, que se originou na moderna Síria (bíblica Aram) durante o final da Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Grandes grupos migraram para a Mesopotâmia onde se misturaram aos nativos assírios e babilônios. Os arameus nunca tiveram uma nação unificada, mas estiveram sempre divididos em pequenos reinos independentes por regiões do Oriente Médio, particularmente a moderna Síria e Jordânia, sendo posteriormente totalmente absorvidos pelo Novo Império Assírio, pelo século IX AC.
[2] A Caldeia foi uma pequena nação semita que emergiu ao final do século X AC, sobrevivendo até meados do século VI AC, localizada ao sul da Mesopotâmia e brevemente governou a Babilônia. Caldeus provém do latim Chaldeus. No Antigo Testamento há várias citações sobre esse povo que, sob o comando de Nabucodonosor II teria destruído Jerusalém e levado o povo judeu para o cativeiro babilônico que durou 70 anos.
[3] Os suteus foram um povo semita que viveu entre o Levante e Canaã, cerca de 1350 AC, sendo mais tarde encontrados também na Babilônia. Tradicionalmente operavam como mercenários e aparecem em documentos do Médio Império Assírio. Com outros povos semitas (caldeus e arameus) infestaram áreas da Babilônia cerca de 1100 AC e foram finalmente conquistados pela Assíria com o resto da Babilônia
[4] O Império Medo foi uma entidade política que existiu na região geográfica da Média, no noroeste do atual Irã, conhecida por ter sido a base política e cultural dos medos, bem como de outros povos iranianos antigos.
[5] Os manneanos (cujo país chama-se Mannea) foram um povo antigo que viveu em território do atual noroeste do Irã, ao sul do lago Urmia, do século X ao século VII AC. Naquele tempo eram vizinhos dos impérios da Assíria e Urartu, bem como de outros pequenos estados-tampões entre os dois, como Musasir e Zikirta.
[6] Frígia era o nome da região centro-oeste na antiga Ásia Menor (Anatólia), moderna Turquia, centrada no rio Sakarya (antigo rio Sangário ou Sangarios), onde floresceu o Reino da Frígia, famoso por seus reis lendários que povoaram a era heroica da mitologia grega. O poder frígio teve o seu apogeu no século VIII, reinado do histórico rei Midas.
[7] Os cimérios foram um antigo povo indo-europeu que viveu ao norte do Cáucaso e do Mar de Azov por volta de 1300 AC até que foram expulsos para o sul, pelos citas, chegando à Anatólia por volta do século VIII AC.
[8] Os citas foram tribos equestres iranianas que por toda a Antiguidade Clássica dominaram as estepes centrais da Eurásia, conhecidas como Cítia, a partir do século VII AC. Os citas clássicos conhecidos dos antigos historiadores gregos localizavam-se ao norte do Mar Negro e do Cáucaso.
[9] A Aramea é uma região mencionada na Bíblia, localizada na Síria Central, e se estendia das montanhas do Líbano para o leste, através do Eufrates, incluindo o vale do rio Khabur no noroeste da Mesopotâmia, na fronteira com a Assíria, e que incluía a área onde hoje se encontra a cidade de Aleppo.
[10] Os Nabateanos (de Nabatea) eram um antigo povo árabe que habitava o norte da Arábia e o sul do Levante.
[11] A Caria era uma região do oeste da Anatólia, ao longo da costa. Seus habitantes, os carianos, haviam chegado à Caria antes dos gregos.
[12] Na antiguidade, a Cilicia era a região costeira sul da Anatólia, ao sul do seu planalto central. Existiu como entidade política desde o tempo dos hititas até o Império Bizantino.
[13] A Capadócia é uma região histórica da Anatólia central.
[14] O reino de Comagene era um antigo reino armênio do período helenístico (entre a morte de Alexandre, o Grande, em 323 AC e a emergência do Império Romano com a batalha de Actium em 31 AC e a subsequente conquista do Egito de Ptolomeu em 30 AC), do qual pouco se sabe antes do início do segundo século AC.

Continua na PARTE 10

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

OS BORGIA (Parte 3)

A segunda parte desta plotagem encerrou com a apreciação do legado do Papa Alexandre VI, entre os quais incluiremos o "Tratado de Tordesilhas, que iniciará essa terceira parte.

O TRATADO DE TORDESILHAS
 
O original Tratado de Tordesilhas
Um dos primeiros atos públicos do Papa Alexandre VI foi evitar a colisão entre Espanha e Portugal por suas terras recém descobertas, através do estabelecimento de uma linha de demarcação: o Meridiano de Tordesilhas. Dizem os bens intencionados, que constituindo um ato de real importância pacífica, e não de ambição ou usurpação. O Tratado de Tordesilhas, assinado em Tordesilhas, atualmente na Província de Valladolid, Espanha, em 7 de junho de 1494, dividiu as terras recém descobertas, fora da Europa, entre Espanha e Portugal, ao longo do Meridiano que passava a 370 léguas (aproximadamente 2.193 km) a oeste das ilhas Cabo Verde (fora da costa oeste da África). Esta ilha de demarcação ficava, aproximadamente, a meio caminho entre as Ilhas Cabo Verde (já portuguesas) e as ilhas recém descobertas por Cristóvão Colombo, em sua primeira viagem (reclamadas pela Espanha). As terras a leste da linha pertenceriam a Portugal e as terras a oeste, à Espanha. O Tratado foi ratificado pela Espanha (à época Coroas de Castilha e Aragão) em 2 de julho de 1494 e por Portugal em 5 de setembro do mesmo ano. O outro lado do mundo seria dividido poucas décadas após, pelo Tratado de Zaragoza, assinado em 22 de abril de 1529, que especificou o antemeridiano à linha de demarcação especificada no Tratado de Tordesilhas.
Os vários meridianos relacionados
Na verdade, a ação do Papa Alexandre VI teria sido a edição da Bula “Inter Coetera”, que fixava a linha a apenas 100 léguas das Ilhas Cabo Verde, sem mencionar Portugal ou suas terras. O Tratado de Tordesilhas resultou do esforço do rei português João II que, não satisfeito com a determinação do Papa, abriu negociações com os reis Ferdinando e Isabel de Espanha, visando mover a linha para oeste, permitindo-lhe reclamar novas terras a serem descobertas a leste da linha, sem consulta e contrariando a bula de Alexandre VI. O Tratado acabou não sendo estritamente cumprido, pois os espanhóis não resistiram à expansão dos portugueses no Brasil, através do meridiano. Ele foi ultrapassado pelo Tratado de Madri, de 1750, que garantiu a Portugal o controle das terras que ocupava na América do Sul, imediatamente repudiado pela Espanha. Outros tratados se seguiram para resolver, definitivamente, o impasse.
O papel do Papa nas negociações do Tratado, combinado com outras ações, provocou hostilidades contra o papado em toda a Europa e acabou ajudando a disparar o gatilho da Reforma Protestante do século XVI, em que a maioria dos estados do norte da Europa rompeu seus laços com a Igreja de Roma.

CORTESÃS E FAMÍLIA

Dentre as várias cortesãs do Papa Alexandre VI, aquela por quem sua paixão mais durou foi, sem dúvida, uma certa Vannozza (Giovanna) dei Cattanei, nascida em 1442 e esposa de três sucessivos maridos. A relação iniciou em 1470 e Vannozza lhe deu quatro filhos que ele abertamente reconheceu como seus: Giovanni, posteriormente duque de Gandia (nascido em 1474), Cesare (nascido em 1476), Lucrezia (nascida em 1480) e Goffredo ou Giuffre (nascido em 1481 ou 1482). Seus outros filhos, Girolama, Isabella e Pedro Luiz eram de origem incerta. Antes de sua elevação ao Papado, a paixão do Cardeal Borgia por Vannozza arrefeceu um tanto, o que a fez, subsequentemente, levar uma vida muito retirada. Seu lugar nas afeições do Papa foi preenchido pela bela Giulia Farnese, esposa de um dos Orsini, mas o seu amor por seus filhos de Vannozza permaneceu tão forte como nunca e provou ser, de fato, o fator determinante de toda a sua carreira. Ele distribuiu vastas somas de dinheiro a eles, bem como títulos de toda a honra. A atmosfera do ambiente do Papa Alexandre VI foi tipificada pelo fato de que sua filha Lucrezia viveu com sua cortesã Giulia, que ainda lhe deu mais uma filha, Laura, em 1492. Fontes bem intencionadas com relação ao Papa Alexandre VI, dizem que há evidências de que ele assumiu o Papado determinado a manter  seus filhos longe da Corte. Uma delas é que a sua filha Lucrezia teria sido prometida em casamento a um nobre espanhol; entretanto, tal casamento nunca se realizou. Possivelmente, o abandono dessas boas intenções podem ser creditadas aos maus conselhos de Ascanio Sforza, a quem Borgia havia premiado com a vice-chancelaria e que era, virtualmente, seu primeiro ministro.
De todos os seus filhos, sem qualquer dúvida, os que mais se distinguiram nos acontecimentos da nobreza da época, foram Cesare e Lucrezia e sobre eles escreveremos algumas linhas.

CESARE BORGIA
Cesare Borgia, filho do Papa Alexandre VI

Cesare Borgia nasceu em 13 de setembro de 1475 e morreu em 12 de março de 1507, antes de completar seus trinta e dois anos. Foi um condottiero(4)  italiano, nobre, político e cardeal.
Cesare foi, inicialmente, preparado para uma carreira na Igreja, tornando-se Bispo de Pamplona à idade de 15 anos. Após as escolas em Perugia e Pisa onde Cesare estudou leis, com a elevação de seu pai a Papa, foi feito Cardeal com a idade de 18 anos. Alexandre VI havia apostado as esperanças da família Borgia em seu irmão mais velho, Giovanni, feito capitão geral das forças militares do papado. Com o seu assassinato, em 1497, em misteriosas circunstâncias, vários contemporâneos sugeriram que Cesare poderia ter sido o seu assassino, por duas razões: o desaparecimento de Giovanni lhe abriria a tão esperada carreira militar e o livraria do concorrente aos amores de Sancha de Aragon, esposa do seu outro irmão Gioffre e sua amante e de Giovanni. Em agosto de 1498, Cesare tornou-se a primeira pessoa na história a renunciar ao Cardinalato, no mesmo dia em que o rei francês Luís XII o nomeava Duque de Valentinois título que, junto com a sua posição anterior de Cardeal de Valência, explicava o seu apelido de “Valentino”.
A primeiro de outubro de 1498, Cesare viaja a Roma para trazer ao Rei Luís XII um chapéu de Cardeal ao seu ministro, d’Amboise, e buscar uma esposa de alta estirpe para si próprio. Ele ainda aspirava à mão de Carlotta de Aragão e Nápoles, que residia na França, mas como aquela princesa persistia em sua recusa, ele conformou-se com a mão de uma sobrinha de Luis XII, a irmã do rei João III, de Navarra, Charlotte d’Albret. Em 10 de maio de 1499, Cesare casa-se com ela e tem uma filha, Louise Borgia, Duquesa de Valentinois, que casa-se, incialmente, com Louis II de la Tremouille, Governador de Burgundy e, posteriormente, com Philippe de Bourbon, Senhor de Busset. Cesare foi também pai de, pelo menos, onze filhos ilegítimos, entre eles, Girolamo Borgia, casado com Isabella Condessa de Capri e Lucrezia Borgia que, após a sua morte, mudou-se para Ferrara, à corte de sua famosa tia Lucrezia Borgia. 
A carreira de Cesar foi fundada na habilidade de seu pai em distribuir benesses e por força de sua aliança com a França (reforçada por seu casamento com Charlotte d’Albret), durante as "Guerras Italianas"(5). Durante a invasão da Itália pela França, em 1499, por Luis XII, Alexandre VI decidiu lucrar com a situação favorável, cavando para Cesare, um estado próprio ao norte da Itália, para isso depondo todos os seus vigários. Como os cidadãos os viam sempre como cruéis e mesquinhos, a tomada de poder por Cesare foi vista como progresso.
Cesare foi nomeado comandante dos exércitos papais com um grande número de mercenários italianos, apoiados por 300 cavaleiros e 4.000 infantes suíços enviados pelo rei da França e, violento e vingativo, tornou-se o mais poderoso homem de Roma, fazendo tremer, inclusive, seu próprio pai. Sua primeira vítima foi Caterina Sforza, monarca de Imola e Forli; após conquistar as duas cidades Cesare retornou a Roma para celebrar o triunfo e receber, de seu pai, o título de Gonfalonier Papal – posto militar e político dos Estados Papais. Giovanni Sforza, primeiro marido de Lucrezia, logo foi despejado de Pesaro; Pandolfo Malatesta perdeu Rimini; Faenza rendeu-se, seu jovem senhor Astorre III Manfredi tendo sido encontrado afogado no rio Tibre por ordem de Cesare.
Em julho de 1500, o Duque de Bisceglie, marido de Lucrezia, cuja existência não trazia mais qualquer vantagem aos Borgia, é assassinado por ordem de Cesare, praticamente na Presença de Alexandre VI, assim deixando sua irmã livre para outro casamento. O Papa, sempre em necessidades financeiras, criou 12 novos cardinais dos quais recebeu 120.000 ducados  e considerou novas conquistas para Cesare. Falou-se mesmo em uma nova Cruzada, mas o objetivo real seria a Itália Central; e, no outono, apoiado pela França e Veneza, movimentou-se com 10.000 homens para completar seu trabalho interrompido na Romagna. Os déspotas locais foram grosseiramente destituídos e uma administração foi estabelecida que, se tirânica e cruel, pelo menos foi forte e ordenada.
Em seu retorno a Roma, em junho de 1501, foi nomeado Duque da Romagna e, contratado por Florença, em seguida juntou o domínio de Piombino às suas novas terras. Enquanto seus condottieri iniciavam o cerco de Piombino, que encerrou em 1502, Cesare comandava as tropas francesas nos cercos de Nápoles e Capua, defendidas por Prospero e Fabrizio Colonna. Em junho de 1501suas tropas atacaram o último, causando o colapso do poder aragonês no sul da Itália. Em junho de 1502 ele lançou-se a Marche, onde conseguiu capturar Urbino e Camerino, usando de acordos e traições. O passo seguinte seria Bologna, mas seus condottiere, mormente Vitellozzo Vitelli e os irmãos Orsini, temendo a crueldade de Cesare, preparam uma trama contra ele. Seus oponentes foram derrotados, ele clamou por reconciliação, mas prendeu-os em Seningallia e, posteriormente, executou-os. O Cardeal Orsini, alma da conspiração, foi preso no Castelo Santo Ângelo e doze dias depois era um cadáver, sem que se possa provar se ele morreu de causas naturais ou se foi executado.

(4) O condottiero era um mercenário que controlava uma milícia, sobre a qual tinha comando ilimitado e estabelecia contratos com qualquer Estado interessado em seus serviços. O nome condottiero vem de condotta (termo derivado do latim conducere, "conduzir"), que era o contrato estabelecido com um determinado governo, de modo que essas milícias servissem como suas tropas mercenárias. Os condottieri surgiram em razão das rivalidades e constantes conflitos entre as cidades italianas. A partir da Idade Média até os séculos XIV e XV, eram frequentes os contratos com governos das cidades-estados, especialmente na Toscana, na Romagna, no Veneto e na Úmbria. Como muitas dessas cidades proibiam seus cidadãos de pegar em armas, a solução era recorrer a mercenários que, a despeito dos contratos firmados, não hesitavam em trocar de lado, se o inimigo oferecesse maior soldo. A maioria dos condottieri era italiana, mas não faltaram exemplos alemães, ingleses e de outros países europeus.
(5) As “Guerras Italianas” foram uma série de conflitos entre 1494 e 1559, envolvendo, em várias épocas, a maioria das cidades-estados da Itália, os Estados Papais, a maioria dos estados da Europa Ocidental (França, Espanha, o Santo Império Romano, Inglaterra e Escócia), bem como o Império Otomano. Originárias de uma disputa dinástica sobre o Ducado de Milão e o Reino de Nápoles, as Guerras rapidamente transformaram-se num conflito geral entre os vários participantes, marcado por um crescente grau de alianças regulares, contra-alianças e traições.
(6) O Ducado foi uma moeda de ouro utilizada no comércio até antes da Primeira Grande Guerra. É possível que a primeira emissão dessa moeda tenha ocorrido sob Rogério II da Sicília que, em 1140, cunhou ducados portando a figura de Cristo e a inscrição, em latim: “Deixai, oh Cristo, esse ducado que governas, ser-te dedicado”.