Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

terça-feira, 13 de junho de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 6)

VII – A RECONQUISTA



VII.1 – A RESISTÊNCIA DOS REINOS DO NORTE

O declínio do domínio muçulmano, na Península Ibérica, começou praticamente após concluída a sua conquista, em 713.
A “Reconquista” é o período da história da Península Ibérica que abrange, aproximadamente, 770 anos, entre a conquista islâmica da Hispania, em 711, e a perda do último reduto do Estado Muçulmano, em Granada, em 1492, para os reinos cristãos em expansão. O fim da Reconquista coincidiu com a descoberta das Américas pela Espanha – o “Novo Mundo” -, prenunciando os impérios coloniais português e espanhol. A historiografia tradicional, especialmente os estudiosos espanhóis, têm enfatizado a existência da “Reconquista”, o fenômeno contínuo pelo qual os reinos cristãos ibéricos se opuseram e conquistaram os reinos muçulmanos, entendido como um inimigo comum que havia militarmente tomado territórios cristãos.
O Império Muçulmano cerca de 750
A figura ao lado mostra o Império Muçulmano pelo ano 750, logo após o início da Reconquista, de acordo com as épocas em que as conquistas islâmicas foram realizadas. Esse mapa serve para dar uma ideia da grandeza do conjunto de terras que haviam sido conquistadas pelos árabes muçulmanos até essa época.
Como em todos os impérios, também entre os muçulmanos conquistadores, atritos começaram a surgir, principalmente pela tensão étnica entre árabes e berberes, recém convertidos ao islamismo, mas que haviam fornecido muitos homens para os combates e sentiam a discriminação contra eles. Este conflito interno deteriorou a unidade muçulmana.
Península Ibérica cerca de 750 com o Reino das Astúrias
quebrando a hegemonia muçulmana
Após a conquista islâmica moura de quase toda a península ibérica, entre 711 e 718, e o estabelecimento do emirado de Al-Andalus, estados cristãos baseados no norte e oeste, lentamente começaram a estender o seu poder sobre o resto da Ibéria. Os Reinos de Navarra, da Galícia, de Leão, de Portugal, de Aragão, da Marca Hispânica e da Coroa de Castela, iniciaram o processo de expansão e consolidação interna durante os vários séculos que se seguiram, sob a bandeira da Reconquista. Seu início é, tradicionalmente, definido pela batalha de Covadonga (718 ou 722), primeira vitória das forças militares cristãs desde a invasão muçulmana em 710. Nesta batalha, um pequeno exército cristão, liderado pelo nobre visigodo Pelagius, derrotou o exército do califado nas montanhas do norte da Ibéria, estabelecendo o independente Reino Cristão das Astúrias em oposição à hegemonia muçulmana. A dinastia de Pelagius, nas Astúrias, sobreviveu e, gradualmente, expandiu os limites do reino até que o noroeste da Ibéria foi incluído, cerca de 775. Contudo, o crédito todo não foi devido apenas a ele, mas também aos seus sucessores. Alfonso I (rei de 739 a 757) convocou o apoio da Galícia quando de lá expulsou o exército mouro, bem como de uma área do que posteriormente tornou-se o Reino de Leão ou Galícia Leão.
Don Pelagius, primeiro rei das Astúrias
Uma expansão adicional do reino, do noroeste em direção ao sul, ocorreu durante o reino de Alfonso II (791 a 842) e, por um curto período, quase alcançou Lisboa. O reino tornou-se firmemente estabelecido com o reconhecimento de Alfonso II como rei de Astúrias, por Carlos Magno e pelo Papa. Durante o seu reinado, foi declarada a descoberta dos ossos de Tiago, um dos apóstolos de Jesus, na Galícia, em Santiago de Compostela; peregrinos de toda a Europa abriram um canal de comunicação entre as isoladas Astúrias e as terras Carolíngias (veremos a seguir) e ainda além. Embora numerosas batalhas, nem os omíadas nem os asturianos tinham poder suficiente para assegurar o controle desses territórios do norte. Alfonso III repovoou a estrategicamente importante cidade de Leão, estabelecendo-a como capital das Astúrias. Iniciou uma série de campanhas para estabelecer o controle das terras ao norte do rio Douro; reorganizou seus territórios em ducados principais (Galícia e Portugal) e condados importantes (Saldaña e Castela), fortificando as fronteiras com muitos castelos. Com a sua morte, em 910, a mudança no poder regional foi completada quando o reino tornou-se o Reino de Leão. Dessa base de poder, seu herdeiro Ordoño II pode organizar ataques contra Toledo e mesmo Sevilha.
Espanha ao tempo de Alfonso II com Astúrias e Galícia unidas
O Califado de Córdoba ganhava força e começou a atacar Leão. O rei Ordoño aliou-se com Navarra contra Abd-al-Rahman, mas foram derrotados em Valdejunquera em 920. Pelos próximos 80 anos o Reino de Leão sofreu com guerras civis, ataques dos mouros, intrigas e assassinatos internos e a independência parcial da Galícia e Castela, assim retardando a reconquista e enfraquecendo as forças cristãs. Só no século seguinte os cristãos começaram a ver suas conquistas como parte de um esforço de longo termo para restaurar a unidade do reino visigodo.
O único ponto deste período em que a situação tornou-se esperançosa para Leão, foi o reinado de Ramiro II, famoso pela legendária batalha de Clavijo. Em aliança com Fernán González de Castela, Ramiro derrotou o califa em Simanca, em 939. Após essa batalha, em que o califa mal escapou com vida, mas com seu exército destruído, o rei Ramiro teve 12 anos de paz, mas teve de conceder a González a independência de Castela. Sob o reinado de Ramiro, a fronteira deslocou-se lentamente em direção ao sul e as possessões asturianas em Castela, Galícia e Leão foram fortificadas, com um intenso programa de repovoamento no interior daqueles territórios. Os ataques dos mouros se atenuaram até que Almanzor iniciou suas campanhas. Alfonso V finalmente recuperou o controle de seus domínios em 1002. Navarra, embora atacada por Almanzor, permaneceu intacta.
Este reino do norte e outro de que vamos ainda falar, a Navarra Basca, embora seu pequeno tamanho, demonstraram habilidade para manter suas independências. Sem poder estender seu domínio além dos Pirineus, os governantes omíadas baseados em Córdoba resolveram consolidar seu poder na Península Ibérica. Forças árabes – berberes faziam incursões periódicas nas Astúrias mas falharam sempre em obter qualquer ganho duradouro contra os reforçados reinos cristãos.
Louis I, rei da Aquitânia e Imperador
do Sacro Império Romano Germânico
Da França, em 737 Charles Martel conduzira uma expedição para o sul ao longo do vale do Rhone para afirmar sua autoridade sobre as terras mantidas pelos omíadas do Al-Andalus. Atacou os omíadas na Septimânia até Narbone, mas teve de retirar o cerco e retornar para Lion e Francia (Reino dos Francos), após subjugar vários baluartes árabes, deixando atrás de si várias cidades e fortalezas em ruínas. Em 759, Pepino o Breve expulsou os muçulmanos, definitivamente, de Narbone, após 40 anos de ocupação e, empurrando-os de volta sobre os Pirineus, conquistou a Aquitânia (sudoeste da França, fronteira com a Espanha), numa implacável guerra de oito anos. Carlos Magno prosseguiu com o trabalho de seu pai, subjugando a Aquitânia pela criação de condados, tomando a Igreja como seu aliado, indicando condes do estoque franco ou burgundiano, como seu leal William de Gellone e tornando Toulouse a base de suas expedições contra Al-Andalus. Decidiu criar um sub-reino regional a fim de manter os habitantes da Aquitânia sob controle e garantir a fronteira sul do Império Carolíngio[1] contra incursões muçulmanas. Em 781 seu filho de três anos, Louis, foi coroado rei da Aquitânia, sob a supervisão de seu confiável William de Gellone, nominalmente encarregado da incipiente Marca Hispânica[2].
Entrementes, à tomada das franjas do sul do Al-Andalus, por Abd ar-Rahman I, em 756 opôs-se o seu governante autônomo ou rei, Yusuf ibn Abd al-Rahman. Este foi expulso de Córdoba por Abd, que ainda levou décadas para expandir aos distritos andaluzes do norte e oeste. Abd ainda sofreu a oposição externa dos abássidas de Damasco, que falharam em suas tentativas de detê-lo.
Em 778, Yusuf encerrou-se no vale do Ebro e os lordes governantes de Zaragoza, Girona, Barcelona e Huesca, inimigos de Abd ar-Rahman I, decidiram atrair os francos cristãos das proximidades, buscando o apoio de Carlos Magno em troca de sua reverência e fidelidade. Vendo uma boa oportunidade, Carlos Magno atravessou os Pirineus em 778 com uma expedição. Próximo de Zaragoza, Carlos Magno recebeu as homenagens de Salayman al-Arabi, mas a cidade, sob a liderança de Husayn, recusou submeter-se fechando os portões. Incapaz de conquistar a cidade pela força, Carlos Magno decidiu retirar-se, mas a caminho de casa a retaguarda de seu exército foi emboscada e destruída por forças locais, na Batalha do Passo de Roncevaux. “A Canção de Rolando[3]”, uma narrativa romantizada dessa batalha, tornar-se-ia mais tarde, uma das mais famosas canções de gesta (do latim, para feitos, façanhas) da Idade Média.
Cerca de 788, Abd ar-Rahman I morreu e foi sucedido por Hisham I que, em 792 proclamou uma jihad[4], avançando em 793 contra o Reino de Astúrias e os francos, e sendo derrotado por William de Gellone, Conde de Toulouse. Em 797, Barcelona, uma cidade importante, tornou-se um alvo potencial para os francos, quando seu governador Zeid rebelou-se contra o emir omíada de Córdoba. Um exército do emir recapturou-a em 799, mas Louis, no comando de um exército, atravessou os Pirineus e sitiou a cidade por dois anos, até que ela finalmente capitulou em dezembro de 801.
Os principais passos nos Pirineus eram Roncesvalles (Roncevaux), Somport e La Jonquera e através deles Carlos Magno estabeleceu as regiões vassalas de Pamplona, Aragão e Catalunha (região nordeste da Espanha), respectivamente; esta última formada de alguns pequenos condados. Elas protegiam os passos dos Pirineus orientais, sob o controle direto de reis francos, formando os remanescentes da Marca Hispânica. Quatro pequenos reinos logo hipotecaram sujeição a Carlos Magno, ao início do século IX (não por muito tempo): Pamplona (a tornar-se Navarra), e os condados de Aragão, Sobrarbe e Ribagorza (os dois últimos tornaram-se partes do condado de Aragão), todos ao norte da atual Espanha, fronteira com a França, nos Pirineus.
Ao final do século IX, sob o Conde Wilfred, Barcelona tornou-se de fato a capital da região, com controle sobre as políticas de outros condados em uma união que, em 948, conduziu à independência da Barcelona sob o Conde Borre II que declarou que a nova dinastia na França, os Capetos, não eram os legítimos governantes da França e, por consequência, deste condado.
Esses estados eram pequenos e, com exceção de Navarra, não possuíam capacidade para atacar os muçulmanos como fizera as Astúrias, mas sua geografia montanhosa provia-lhes relativa segurança para não serem conquistados e suas fronteiras permaneceram estáveis por dois séculos.
Espanha cerca do ano 1000, já com os reinos de Leão e Navarra
O reino de Pamplona estendia-se, originalmente, de ambos os lados dos Pirineus, para o Atlântico e foi formado quando o líder local Iñigo Arista conduziu uma revolta contra a autoridade franca regional e foi declarado rei em Pamplona (824), estabelecendo um reino intrincado, neste estágio ligado a seus parentes da dinastia Muwallad (muçulmanos descendentes de árabes, berberes e ibérios) Banu Qasi. Embora relativamente fraca até o início do século XI, Pamplona passou a ter um papel mais ativo após a ascensão de Sancho, o Grande (1004-1035), quando o reino se expandiu grandemente à medida que absorveu Castela, parte de Leão, Aragão, além de outros condados pequenos que se uniriam para formar o principado da Catalunha; essa expansão também conduziu à independência da Galícia bem como à regência sobre a Gasconha (então território francês). Contudo, no século XII, o reino se contraiu ao seu núcleo e, em 1162, o rei Sancho VI declarou-se rei de Navarra. Por toda sua história inicial, o Reino de Navarra envolveu-se em frequentes escaramuças com o Império Carolíngio, do qual sempre manteve sua independência, uma característica chave de sua história até 1513, já após a conclusão da Reconquista.
Ferdinando I de Leão (Reino de Leão após derrotar seu cunhado, em 1037) era o rei líder em meados do século XI. Ele conquistou Coimbra e atacou os reinos taifa[5], muitas vezes exigindo tributos com os quais ele as enfraquecia militar e financeiramente. Ele também repovoou as fronteiras com numerosos fueros[6]. De acordo com a tradição navarra, com a sua morte, em 1064, dividiu seu reino entre seus filhos. Seu filho Sancho II, de Castela, pretendeu reunir o reino de seu pai, atacando seus irmãos, em companhia de um nobre notável: Rodrigo Díaz, mais tarde cantado em verso e prosa, como Cid, o Campeador. Sancho foi morto no cerco de Zamora pelo traidor Bellido Dolfos (Vellido Adolfo), em 1072.
El Cid e Alfonso VI jurando não ter participado
do assassinato de seu irmão.
 Seu irmão Alfonso VI tomou conta de Leão, Castela e Galícia, deu mais poder aos fueros e repovoou Segovia, Ávila e Salamanca. Após ter reforçado as fronteiras, o rei Alfonso conquistou o poderoso reino taifa de Toledo, em 1085, primeira capital dos visigodos e importante marco, que lhe deu renome por todo o reino cristão. A conquista foi realizada de forma pacífica, durante várias décadas. Antes de tudo um monarca diplomata, Alfonso VI buscou entender os reis das taifas, empregando sempre medidas diplomáticas antes de considerar a força. Adotou o título “Imperador de Toda a Hispania”, referindo-se a todos os reinos cristãos da Península Ibérica e não apenas ao atual país da Espanha. A sua política mais agressiva, em relação às taifas, preocupou os governantes desses reinos, que buscaram ajuda dos Almorávidas
[7]
Espanha cerca de 1150, já com os reinos de Leão e Castela,
Navarra, Aragão e Portugal
O Reino de Aragão foi um desmembramento do Reino de Navarra, formado quando Sancho III de Navarra decidiu dividi-lo entre seus filhos. Aragão foi a parte do reino que passou a Ramiro I de Aragão, filho ilegítimo de Sancho III. Os reinos de Aragão e Navarra foram muitas vezes unidos em união pessoal, até a morte de Alfonso, o Batalhador, em 1135. O Reino de Aragão reuniu um grande número de territórios no Mediterrâneo, conhecidos como a Coroa de Aragão. James I de Aragão, também conhecido como James, o Conquistador, expandiu Aragão para o norte, sul e leste, assinando o Tratado de Corbeil (1258) que o liberava da suserania ao Rei da França. Antes disso, James tentara reunir as coroas Aragonesa e Navarra por um tratado com Sancho VII de Navarra, que não possuía filhos, mas os nobres do reino rejeitaram a proposta, escolhendo Teobaldo IV de Champagne para o seu lugar. Foi o seu descendente distante, Ferdinando II de Aragão, que trouxe o Reino ao pico do seu poder, com a conquista da Navarra Superior (ao sul dos Pirineus) e Granada.
Afonso I na Batalha de Ouriques
Em 1139, após uma esmagadora vitória na Batalha de Ourique, contra os Almorávidas, Afonso Henriques foi proclamado primeiro Rei de Portugal, por suas tropas e coroado pelo arcebispo de Braga. Pelo Tratado de Zamora, de 1143, Alfonso VII de Leão e Castela reconhecia a independência portuguesa do Reino de Leão. Em 1147, Portugal capturava Santarém aos mouros e sete meses depois, a cidade de Lisboa foi trazida dos mouros ao controle dos portugueses. Em 1179, pela bula papal “Manifestis Probatum”, o Papa Alexandre III reconhecia Afonso Henriques como Afonso I, do Reino de Portugal. Com Portugal finalmente reconhecido como reino independente por seus vizinhos, Afonso Henriques e seus sucessores, ajudados pelos Cruzados e as ordens monásticas militares dos Cavalheiros Templários e da Ordem de São Tiago, empurraram os Mouros até o Algarve, na costa sul de Portugal.
Espanha após 1250, com Portugal
independente e fronteiras consolidadas
Após várias campanhas, a parte portuguesa da Reconquista chegou ao seu final com a captura definitiva do Algarve, em 1249. Com Portugal sob o total controle de Afonso III, os grupos religiosos, culturais e étnicos se tornaram gradualmente homogeneizados.


[1] O Império Carolíngio (800–888) foi um imenso império da Europa Central e Oeste, da Idade Média, governado pela Dinastia Carolíngia que havia governado como reis dos francos desde 751 e como reis dos lombardos da Itália desde 774. Em 800, o rei franco Carlos Magno foi coroado imperador em Roma, pelo Papa Leão III, num esforço para reviver o Império Romano do ocidente durante a vacância do Império Romano do Oriente. Após uma guerra civil (840-843) com a morte do Imperador Louis, o Piedoso, o Império foi dividido em reinos autônomos, com um rei ainda reconhecido como imperador, mas com sua autoridade diminuída além do seu próprio reino. A unidade do império e o direito hereditário dos Carolíngios continuou a ser reconhecido.
[2] A Marca Hispânica foi uma zona de amortecimento além da Septimânia, criada por Carlos Magno em 795 como uma barreira entre os mouros omíadas de Al-Andalus e o Império Carolíngio franco. Com o passar do tempo ganhou independência do domínio imperial franco.
[3] “A Canção de Rolando” é um poema épico baseado na Batalha de Roncevaux, durante o reinado de Carlos Magno. É o mais antigo trabalho importante que sobrevive da literatura francesa, em várias versões manuscritas. A data da composição é tida como entre 1040 e 1115, com uma versão inicial de 1040 e adições e alterações feitas até 1115. Seu texto final tem ceca de 4.000 linhas de poesia. O poema épico é o primeiro e, junto com “O Poema do Cid”, um dos mais relevantes exemplos da canção de gesta, uma forma literária que floresceu entre os séculos XI e XV, celebrando feitos lendários.
[4] Jihad é uma palavra árabe que, literalmente, significa empenho, luta, especialmente com um objetivo louvável. Pode ter muitas nuanças de significado num contexto muçulmano, tais como luta contra as inclinações maldosas de alguém ou esforços para o aperfeiçoamento da sociedade. Na lei muçulmana clássica, o termo se refere à luta armada contra os infiéis (que não creem em Alá).
[5] Na história da Península Ibérica, uma taifa era um principado muçulmano independente, normalmente um emirado, embora houvesse uma oligarquia, dos quais um grande número foi formado no Al-Andalus, após o colapso final do Califado Omíada de Córdoba, em 1031.
[6] Originalmente, os fueros eram os estatutos jurídicos aplicáveis em uma determinada localidade, cuja finalidade era, em geral, regular a vida local, estabelecendo um conjunto de normas, direitos e privilégios outorgados pelo rei, o senhor da terra ou o próprio Conselho, isto é, as leis próprias de um lugar. Posteriormente passou a confundir-se com a própria localidade, vila ou cidade.
[7] Os almorávidas foram, originariamente, monges soldados saídos de grupos nômades provenientes do Saara. A dinastia almorávida abraçou uma interpretação rigorista do islamismo, unificando, sob o seu domínio, grandes extensões do mundo ocidental muçulmano, com as quais formaram um império, entre os séculos XI e XII, que chegou a estender-se pelas atuais Mauritânia, Saara Ocidental (sua origem), Marrocos e a metade sul da Península Ibérica.

A seguir, conclusão do artigo com a publicação da PARTE 7.

terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 5)

Honório III, sucessor de Inocêncio III
e corresponsável pela 5a. Cruzada

A Quinta Cruzada (1213-1221) foi mais uma tentativa dos europeus ocidentais para retomar Jerusalém e o resto da Terra Santa, a começar pela conquista do poderoso estado Aiúbida que ainda dominava o Egito. O Papa Inocêncio III e seu sucessor, Papa Honório III, organizaram exércitos cruzados conduzidos pelo rei Andrew II da Hungria e Leopoldo VI, duque da Áustria, que resultaram em fracasso pois Jerusalém permaneceu nas mãos dos muçulmanos. Em 1218, um exército germânico, conduzido por Oliver de Cologne, e um exército composto por holandeses, belgas e frísios, comandados por William I, conde da Holanda, juntaram-se à Cruzada. A fim de atacar Damietta, no delta do Nilo, Egito, eles aliaram-se, na Anatólia, ao Sultanato Seljúcida de Rum[1], que atacou os aiúbidas na Síria, numa tentativa de livrar os cruzados de lutar em duas frentes. Após ocupar o porto de Damietta, os cruzados marcharam em direção ao Cairo, no sul, em julho de 1221, mas foram forçados a uma retirada por falta de abastecimentos. Um ataque noturno pelo sultão al-Kamil resultou em grandes perdas entre os cruzados e, finalmente, na rendição de seu exército. Al-Kamil concordou com um acordo de paz de oito anos com a Europa. O fracasso da Quinta Cruzada provocou novos ressentimentos contra o Papa e foi a última organizada pela Igreja onde diferentes nações lutaram juntas para recuperar a Terra Santa. 
A corte do Rei Friedrich II em Palermo
Sob Friedrich II de Hohenstaufen, imperador do Sacro Império Romano, uma Sexta Cruzada (1227) foi lançada como mais uma tentativa de reconquistar Jerusalém, capitalizando a discórdia interna existente entre al-Kamil, do Egito e al-Mu’azzam, da Síria. A Sexta Cruzada foi de enorme importância para a Europa, por ter conseguido o que todas as cruzadas anteriores não haviam conseguido: recuperar a Terra Santa. Ela teve o mérito de envolver pouco luta e muita diplomacia. Para evitar uma invasão Síria do Egito, al-Kamil ofereceu Jerusalém a Friedrich, que recusou. A posição de al-Kamil foi reforçada quando al-Mu’azzam morreu, em 1227, sendo sucedido por seu filho an-Nasir Dawud. As negociações com Friedrich (embora excomungado pelo Papa) prosseguiram no Acre e, em 1228, levaram a um acordo assinado em 1229, pelo qual os cruzados recuperaram uma Jerusalém sem fortificação, além de outras áreas da Terra Santa, para o Reino de Jerusalém, por mais dez anos, garantindo aos árabes o controle sobre locais sagrados muçulmanos na cidade. Friedrich entrou em Jerusalém em 17 de março de 1229, participando de uma cerimônia de coroamento no dia seguinte. Não se sabe ao certo se ele pretendeu com isso sua coroação oficial como rei de Jerusalém, principalmente pela ausência do Patriarca Gerald. Na verdade, Friedrich era somente o regente de seu filho, Conrado II de Jerusalém, único filho de sua esposa Isabella II (Yolanda), rainha regente de Jerusalém (morta com o nascimento do filho), e neto de Maria de Montferrat e John de Brienne (governante nominal do Reino de Jerusalém), nascido imediatamente antes de Friedrich ter partido em Cruzada, em 1228. Apenas poucos meses depois, Friedrich teve que voltar para a Alemanha e deixou Jerusalém sem proteção, não correndo riscos, inicialmente, porque os aiúbidas se tornavam cada vez mais fracos.
Friedrich estabelecera um importante precedente ao alcançar sucesso com uma cruzada sem o envolvimento papal. Cruzadas adicionais seriam lançadas por reis individuais, tais como Theobald I de Navarra (a Cruzada dos Barões), Luís IX da França (Sétima e Oitava Cruzadas) e Edward I da Inglaterra (Nona Cruzada), efetivamente demonstrando uma erosão da autoridade papal. 
Gregório IX, o Papa da
Cruzada dos Barões
O término do prazo do tratado obtido pela Sexta Cruzada (1229), que ocorreria em 1239, fez com que o Papa Gregório IX convocasse uma nova cruzada para garantir as Terras Santas para a cristandade, além daquele ano. O resultado dessa ideia foi a Cruzada dos Barões, um movimento desorganizado que obteve apoio limitado, tanto de Friedrich quanto do Papa, mas que recuperou mais terras do que a Sexta Cruzada. Também chamada de Cruzada de 1239, em termos territoriais, ela obteve mais sucesso desde a Primeira e teve do Papa Gregório IX o maior empenho para fazer das cruzadas uma empresa cristã universal. Consistiu, na verdade, de duas cruzadas separadas: uma que teve lugar em Constantinopla e outra na Terra Santa.
No início de julho de 1239, o herdeiro do Império Latino e marquês de Namur, Baldwin de Courtney, com um pequeno exército, incluindo vários magnatas seculares, viajou para Constantinopla. No inverno do mesmo ano ele chegou lá, onde foi coroado dois anos após a morte do Imperador Regente John de Brienne. Após isso, na Páscoa de 1240, ele lançou a sua cruzada. A cento e vinte quilômetros de Constantinopla, ele sitiou e conquistou a fortaleza de Tzurulum, local de enorme importância estratégica que forneceria maior segurança para Constantinopla. Embora essa conquista, o Império continuaria a depender de ajuda do Oeste.
A Cruzada da Terra Santa é muitas vezes estudada como duas cruzadas separadas: a do Rei Theobaldo I de Navarra, que começou em 1239, e a de Richard da Cornualha, que chegou após Theobald partir, em 1240. 
Estados Cruzados em 1135 e Cidade do Acre
Theobald de Champagne, o rei de Navarra, reuniu uma lista impressionante de nobres europeus e condes de nível secundário, com uma força de 1.500 cavalheiros e partiu da França em agosto de 1239. Theobaldo alcançou o Acre em 01 de setembro e rapidamente recebeu o apoio dos cruzados que haviam sido espalhados por uma tempestade no Mediterrâneo. A ele se juntou logo um conselho de potentados cristãos locais e alguns cruzados de Chipre. Em novembro o grupo de 4.000 cavalheiros marchou para Ascalon onde construiriam um castelo que havia sido demolido por Saladino anos antes. Exércitos da Cruzada participaram de várias escaramuças, com algumas vitórias e outras derrotas até que An Nasir Dawud, da Transjordânia, cuja caravana havia sido capturada por um exército cruzado, marchou para Jerusalém, então praticamente sem defesas. Após um mês entrincheirada na Torre de David, a guarnição da cidadela rendeu-se em 7 de dezembro, aceitando a oferta de passagem segura para o Acre. E Jerusalém caía novamente em mãos muçulmanas pela primeira vez desde 1229 (Sexta Cruzada). Em seguida, uma guerra civil foi iniciada dentro da dinastia muçulmana Aiúbida, criando um ambiente favorável aos cristãos. Theobaldo negociou com os emires guerreiros de Damasco e do Egito e conseguiu um tratado com As-Salih Ismail, emir de Damasco, ao norte, contra Ayyub, do Egito e Dawud, da Transjordânia, ao sul, pelo qual o Reino de Jerusalém recuperava Jerusalém, além de Belém, Nazaré e a maior parte da região da Galileia, com muitos castelos templários, como Beaufort e Saphet. Essa nova ofensiva dos cruzados forçou Dawud a fazer a sua própria negociação com Theobald ao final do verão de 1240, completando, de fato, muitas das concessões que haviam sido garantidas somente em teoria por Ismail. Theobald não permaneceu para ver concretizados seus acordos com os muçulmanos, partindo da Palestina para a Europa em setembro de 1240, antes da chegada de Richard da Cornualha, para não estar presente a qualquer querela interna, sobre a liderança e rumo da empresa.
Em 10 de junho de 1240, Richard, Primeiro Conde da Cornualha deixou a Inglaterra com um pequeno grupo de cruzados, composta por uma dúzia de barões ingleses e várias centenas de cavalheiros, inclusiva William II Longespee. Chegaram em Acre em 8 de outubro, mas a resposta dos barões ingleses ao Papa Gregório revelou total falta de uma identidade cristã comum. Richard e seus cruzados não viram combate, mas completaram as negociações por uma trégua com os líderes muçulmanos, feita por Theobald poucos meses antes. Prosseguiram na reconstrução do castelo de Ascalon, que foi entregue a Walter Pennenpié, agente imperial de Friedrich II em Jerusalém, ao invés de aos homens do Reino de Jerusalém que se opunham fortemente ao governo de Friedrich. Em abril de 1241 eles trocaram prisioneiros muçulmanos com cativos cristãos, bem como transportaram os restos mortais de mortos em batalha, para o cemitério em Ascalon. Com esse trabalho completo, Richard partiu do Acre para a Inglaterra em 3 de maio de 1241. Embora a Cruzada dos Barões tenha devolvido ao Reino de Jerusalém a sua maior extensão desde 1187, os ganhos seriam dramaticamente revertidos poucos anos depois. Em julho de 1244 Jerusalém foi, não somente capturada, mas reduzida a ruinas e sua população cristão massacrada pelos Khwarazmians (dinastia muçulmana Suni pérsica de origem mameluca turca), do norte da Síria, os novos aliados do Sultão do Egito, As-Salih Ayyub. Poucos meses depois, Ayyub e os Khwarazmians alcançaram uma grande vitória militar na Batalha de La Forbie, que permanentemente aleijou o poder militar cristão na Terra Santa. Contudo, os cristãos haviam então assimilado muito da cultura do Oriente Médio, influenciando enormemente a vida medieval. 
Louis IX da França, morto
na Oitava Cruzada 
A Sétima Cruzada (1248-1254) foi conduzida por Louis IX, da França. Em 1248, ele e, aproximadamente, 15.000 homens fortemente armados, que incluíam 3.000 cavalheiros e 5.000 besteiros embarcaram em 36 navios, nos portos franceses de Aigues-Mortes e Marseille. Navegaram primeiro para Chipre, onde ficaram durante o inverno, negociando com várias outras potências do Oriente: o Império Latino pedira sua ajuda contra o Império Bizantino de Niceia; o Principado de Antioquia e os Cavalheiros Templários precisavam de sua ajuda na Síria, onde os muçulmanos haviam recentemente capturado Sidon. Entretanto, o objetivo da Cruzada era o Egito e Louis IX chegou em Damietta, Nilo, em 1249. Ele cria que o Egito serviria de base para atacar Jerusalém, fornecendo recursos financeiros e grãos que manteriam os cruzados alimentados e equipados. Tomaram Damietta com facilidade, mas a cheia do Nilo não fora levada em consideração; logo seu exército ficou preso por seis meses. Ignorando o acordo da Quinta Cruzada pelo qual Damietta seria incorporada ao Reino de Jerusalém, agora um estado anexo no Acre, Louis IX estabeleceu lá um Arcebispado sob a autoridade do Patriarcado Latino de Jerusalém, usando a cidade como base para operações militares diretas contra os muçulmanos da Síria. Louis falhou em sua conquista do Cairo e tentou o sítio de Al Mansurah, para manter Damietta. Tal tentativa findou com fome e morte para os cruzados que resolveram, em março de 1250 retornar a Damietta, quando Louis foi feito cativo na batalha de Fariskur - pelo exército egípcio conduzido pelo sultão Aiúbida, Turanshah, apoiado por mamelucos Bahariyya - e seu exército aniquilado. Em maio, 800.000 bezants (moedas de ouro produzidas pelo governo do Império Bizantino) foram pagos em resgate pelo rei Louis, metade dos quais antes que ele deixasse o Egito. Como parte do acordo, Damietta também foi entregue aos árabes e Louis abandonou o Egito para o Acre, uma das poucas possessões remanescentes dos cruzados na Síria. 
Representação alegórica da Sétima Cruzada
Louis IX fez uma aliança com os Mamelucos que, à época, eram rivais do sultão de Damasco e, de sua nova base no Acre, então capital do Reino de Jerusalém, começou a reconstrução de outras cidades cruzadas, particularmente Jaffa e Saida. Em 1254 seus recursos financeiros escassearam e sua presença estava sendo exigida na França, com a morte de sua mãe; antes de voltar ele estabeleceu uma forte guarnição francesa no Acre, às expensas da coroa francesa, que lá permaneceu até a queda da capital, em 1291. Sua cruzada foi um fracasso, mas sua fama deu-lhe ainda maior autoridade na Europa do que o Imperador do Sacro Império Romano. Em 1270 ele tentaria uma nova cruzada que também terminaria em fracasso.
A Oitava Cruzada foi lançada por Louis IX contra a cidade de Tunis, em 1270. O avanço de Baibars, quarto sultão do Egito da dinastia mameluca Bahri, na Síria, durante o início dos anos 1260, alarmava a cristandade. A guerra de São Sabas, entre as repúblicas marítimas de Gênova e Veneza, que lutavam pelo controle do Acre, no Reino de Jerusalém, havia arrastado os Estados Cruzados e exaurido suas finanças e contingentes. Os povoamentos exauridos eram sistematicamente batidos pelas campanhas metódicas de Baibars que, em 1265, havia atacado a Galileia e destruído a catedral de Nazaré, capturado Cesareia e Arsuf e, temporariamente, tomado Haifa. Em 1266, Louis IX informou ao Papa Clemente IV sua intenção de formar nova cruzada.
A Cruzada foi oficialmente formada em 24 de março de 1267, numa assembleia de seus nobres, embora com menos entusiasmo do que na Sétima, e partiu do porto de Aigues-Mortes no início do verão de 1270, em navios genoveses e marselheses. Um contingente aragonês, sob James I de Aragão, partiu de Barcelona em setembro de 1269, mas apanhado por uma tempestade foi seriamente danificado e muitos dos sobreviventes retornaram à pátria. Uma esquadra, sob o comando dos filhos do rei, Pedro Fernandez e Fernan Sanchez, alcançou o Acre, mas muito enfraquecida para enfrentar Baibars, também logo retornou para Aragão.
O plano inicial de Louis era descer por Chipre, mas foi trocado pelo desembarque em Túnis, capital da Tunísia, às margens do Mediterrâneo, por ser importante base de suprimentos para o Egito. Os cruzados construíram um campo fortificado nas ruínas de Cartago e esperaram pela chegada do contingente siciliano sob o comando de Charles de Anjou, irmão do rei. Uma epidemia de disenteria do verão norte-africano espalhou-se pelas fileiras cruzadas, matando, entre outros, o filho de Louis IX, John Tristan (03/08), e o próprio, em 25 de agosto de 1270. Seu irmão, Charles, chegou logo após a sua morte. Pelo prosseguimento das doenças, o sítio a Túnis foi abandonado em 30 de outubro por um acordo com o sultão, que garantia aos cristãos o livre comércio com Túnis e, aos monges e padres, residência na cidade. Ao saber da morte de Louis e da retirada dos cruzados de Túnis, Baibars do Egito cancelou seus planos de enviar tropas para a luta. O Príncipe Edward da Inglaterra chegou com a sua armada um dia antes dos cruzados deixarem Túnis. Ele retornou para a Sicília com o resto dos cruzados e o exército combinado ainda foi seriamente danificado por uma tempestade. Ao final de abril de 1271, os ingleses prosseguiram para o Acre, concretizando a Nona Cruzada. 
Edward da Inglaterra, o comandante
da última Cruzada
A Nona Cruzada, algumas vezes grupada à Oitava Cruzada, é considerada a última cruzada medieval importante à Terra Santa e aconteceu em 1271-1272, comandada por Edward da Inglaterra, que velejou diretamente ao Acre. Esta cruzada viu várias vitórias importantes sobre Baibars; infelizmente Edward foi ao final muito pressionado por problemas na Inglaterra e sentiu-se impossibilitado para resolver os seus conflitos internos em territórios ultramar, tendo que retirar-se.
Em 9 de maio de 1271, Edward chegou ao Acre com um contingente pequeno, mas não insignificante, de mil homens que incluíam 250 cavalheiros, exatamente quando Baibars sitiava Trípoli que, como local remanescente do Condado de Trípoli, abrigava dezenas de milhares de cristãos refugiados. Sua chegada fez Baibars alterar seus planos, afastando-se do Acre. Com forças insuficientes para enfrentar uma batalha direta contra os mamelucos, Edward optou por lançar uma série de ataques rápidos. Após capturar Nazaré, Edward atacou Saint Georges-de-Lebeyne. Com a chegada de reforços da Inglaterra e de Hugh III de Chipre, sob o comando de seu irmão mais novo, Edmund, Edward lançou um ataque maior, com o apoio dos cavalheiros Templários, Hospitalários e Teutônicos, sobre a cidade de Qaqun. Os cruzados surpreenderam uma grande força de turcomanos (adicionados ao exército de Baibars em troca de terras, cavalos e títulos), matando 1.500 deles e tomando 5.000 cavalos como saque de guerra. O comandante muçulmano do castelo foi obrigado a abandoná-lo, mas Edward retirou-se sem ocupar, antes que Baibar pudesse responder, pois sua força principal estava em Aleppo, aguardando um ataque mongol. Em dezembro de 1271 Edward e suas tropas repeliram um ataque à cidade do Acre por Baibars que, finalmente, também abandonou seu sítio à cidade de Trípoli. Em setembro de 1271 Edward obteve uma aliança com o mongol governante da Pérsia, Abagha, inimigo dos muçulmanos. A chegada dos mongóis na Síria provocou um formidável êxodo da população muçulmana para o Cairo. Além disso, os mongóis derrotaram as tropas turcomanas que protegiam Aleppo, atacando outras regiões ao sul. Mas não permaneceram na região e, quando Baibars montou uma contraofensiva do Egito, em novembro, os mongóis já haviam feito sua retirada para além do Eufrates, com farto saque de guerra. Baibars tentou uma manobra ousada para tentar a conquista de Chipre das mãos de Hugh III de Chipre (o nominal rei de Jerusalém), tirando sua frota do Acre e assim deixando o exército cruzado isolado na Terra Santa. Mas ao final os exércitos de Baibars foram forçados a retirar-se.
Após essa vitória, Edward sentiu que para criar uma força capaz de retomar Jerusalém seria necessário terminar com os atritos internos do Estado Cristão, agindo como mediador entre Hugh e seus cavalheiros sem entusiasmo da família Ibelin, de Chipre. Em paralelo com a mediação, Edward e Hugh começaram a negociar uma trégua com Baibars, o que foi conseguido (dez anos, dez meses e dez dias) em maio de 1272, em Cesareia. Em seguida, o príncipe Edmund partiu para a Inglaterra, enquanto Edward permanecia para assistir à concretização da trégua. No mês seguinte, uma tentativa frustrada de assassinato foi feita contra Edward, que acabou matando o assassino, mas teve um ferimento de uma adaga envenenada que acabou atrasando sua partida. Em setembro de 1272 ele partiu do Acre para a Sicília e durante sua recuperação teve notícias da morte de seu irmão John e de seu pai, alguns meses mais tarde. Em 1273 iniciou sua volta para casa via Itália, alcançando a Inglaterra em meados de 1274 e sendo coroado rei da Inglaterra em 19 de agosto de 1274.
Novas fissuras surgiram nos Estados Cristãos quando Charles de Anjou tirou vantagem de uma disputa entre Hugh III, os Cavalheiros Templários e os venezianos, para trazer ao seu controle o que deles restara. Endossando as reivindicações de Mary da Antioquia, de pretendente ao trono do Reino de Jerusalém, ele atacou Hugh III causando uma guerra civil. Em 1277, Roger de San Severino capturou o Acre para Charles. Embora a guerra fosse debilitante, ela forneceu a oportunidade de um só comandante ter o controle cruzado na pessoa de Charles. Contudo, tal esperança foi descartada quando Veneza sugeriu uma nova cruzada, não contra os mamelucos, mas contra Constantinopla, onde Michael VIII tinha recentemente restabelecido o Império Bizantino, expulsando os venezianos. O Papa Gregório não teria apoiado tal ataque, mas em 1281 o Papa Martinho IV consentiu e o fiasco que se seguiu ajudou a desencadear as “Vésperas Sicilianas”[2], em 31 de março de 1282, instigadas por Michael VIII, e obrigando Charles a voltar para casa. Esta foi a última expedição lançada contra os bizantinos na Europa ou os muçulmanos na Terra Santa. 
Nostálgica pintura do
"Último Cruzado"
Os restantes nove anos viram um aumento nas demandas dos mamelucos, incluindo tributos e perseguições aos peregrinos, em desconformidade com a trégua. Em 1289 o sultão Qalawun reuniu um enorme exército e investiu contra os habitantes remanescentes do Condado de Trípoli, tomando-o após um assalto sangrento. O assalto, entretanto, foi particularmente devastador para os mamelucos, pois a resistência cristã foi enorme e Qalawun perdeu seu filho mais velho e mais capaz no combate.
Em 1291, um grupo de peregrinos do Acre foi posto sob ataque e, em retaliação, matou 19 mercadores muçulmanos numa caravana síria, pelo que Qalawun pediu um pagamento extra, em compensação. Sem resposta o sultão sitiou o Acre para acabar com o último estado cruzado na Terra Santa. Qalawun morreu durante o cerco, deixando seu membro sobrevivente como Sultão Mameluco. Com o Acre sitiado, os Estados Cruzados, fora Chipre, deixaram de existir. O centro do poder foi movido para Tortosa e, finalmente, para as praias de Chipre. O último baluarte cruzado na Terra Santa, Ilha Ruad (ao lado de Tortosa), Síria, foi perdido em 1302/1303. O período das Cruzadas para a Terra Santa havia terminado, 208 anos após o início da Primeira Cruzada.
Com relação à Síria, em 1230, seus Emires[3] tentaram sua independência do Egito, permanecendo divididos até que o sultão as-Salih Ayyub restaurou a unidade Aiúbida tomando a maior parte da Síria, com exceção de Alepo, em 1247. À época, as dinastias muçulmanas locais haviam expulso os aiúbidas do Iêmen, Hejaz e partes da Mesopotâmia. Ao morrer em 1249, as-Salih Ayyub foi sucedido, no Egito, por al-Mu’azzam Turanshah, que logo foi derrubado pelos generais mamelucos que havia repelido com sucesso o ataque dos Cruzados no delta do Nilo. Embora algumas tentativas de emires da Síria, comandados por an-Nasir Yusuf, para retomar o poder, este episódio encerrou o controle Aiúbida no Egito. Em 1260, os mongóis saquearam Alepo logo conquistando os territórios restantes dos aiúbidas (Bagdá em 1261). Em 1299, um exército mongol conduzido por Ghazan Khan, realizou uma série de ataques contra os mamelucos, numa área a nordeste de Homs (Síria), para o sul, até Gaza (oeste da Palestina, Península do Sinai); finalmente, em 1300, retirou-se para a Síria.
O último governante aiúbida de Hama morreu em 1299, quando o principado passou breve e diretamente para a soberania mameluca; contudo, em 1310, sob o patrocínio do sultão mameluco al-Nasir Muhammad, Hama foi restituída ao aiúbida Abu al-Fida, que morreu em 1331 e foi sucedido por seu filho al-Afdal Muhammad, que acabou perdendo o favor dos lordes mamelucos, sendo afastado do seu posto em 1341; a partir daí, Hama passou formalmente para o domínio mameluco.
Finalmente, pelo ano 1570, como já havíamos dito, o Império Turco Otomano controlava a maioria do mundo Árabe.
Durante seu domínio, relativamente curto, os aiúbidas anteciparam uma era de prosperidade econômica nas terras que governaram e as facilidades e apoio que patrocinaram, conduziram ao renascimento da atividade intelectual no mundo islâmico. E com isso chegamos ao ponto em que havíamos interrompido, para um parênteses à dinastia Aiúbida.

[1] O Sultanato Seljúcida de Rum foi um estado Turco-Persa muçulmano Sunni, que se estabeleceu em partes da Anatólia conquistadas do Império Bizantino pelo Império Seljúcida, estabelecido pelos turcos seljúcidas. O nome Rum vem do nome árabe de Anatólia, ar-Rum, tomado emprestado do grego para “romanos”. O Sultanato de Rum foi o sucessor do Grande Império Seljúcida sob Suleiman ibn Qutulmish, em 1077.
[2] As “Vésperas Sicilianas” é o nome dado a uma revolução de sucesso na Ilha da Sicília, deflagrada na Páscoa de 1282, contra o governo do Rei Charles I (de Anjou), nascido francês, que exercia o poder do Reino da Sicília desde 1266. Em seis semanas, três mil homens e mulheres franceses foram assassinados pelos rebeldes e o governo de Charles perdeu o controle da Ilha. Era o início da Guerra das Vésperas Sicilianas.
[3] Emir, algumas vezes transliterado como Amir, é um título de alto posto usado em muitos lugares nos países árabes e Afeganistão. Significa comandante, general ou príncipe. Quando usado como “príncipe”, a palavra “emirado” é análoga a uma principalidade soberana. Originalmente significava simplesmente um comandante-em-chefe ou líder, em geral com referência a um grupo de pessoas.

Continua na próxima postagem com a PARTE 6

sábado, 13 de maio de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS ÁRABES MUÇULMANOS (Parte 4)

V – DINASTIA ABÁSSIDA

O califado abássida foi o terceiro dos califados islâmicos (após Maomé). Como dissemos antes, tal dinastia era descendente do tio mais jovem de Maomé, Abbas ibn Abd al-Muttalib (566-653), de quem a dinastia tomou o nome. A dinastia governou, pela maior parte do seu período, de sua capital em Bagdá (no atual Iraque), após assumir controle sobre o Império Muçulmano dos Omíadas em 750. Inicialmente o governo foi centrado em Kufa (170 km ao sul da atual Bagdá), mas em 762 o califa Al-Mansur fundou a cidade de Bagdá, ao norte da capital sassânida de Ctesiphon. A escolha da nova capital, tão próxima da Pérsia, refletia a crescente confiança nos burocratas persas, notavelmente a família Barmakid, para governar os territórios conquistados pelos muçulmanos, além da crescente inclusão de muçulmanos não árabes na comunidade. A despeito dessa colaboração inicial, os abássidas do final do século VIII alienaram os cooperantes muçulmanos não árabes e os burocratas iranianos, sendo forçados a ceder autoridade sobre Al-Andalus e Magrebe aos Omíadas, Marrocos à dinastia Idríssida, a Ifriqiya (praticamente a atual Tunísia) à dinastia Aghlabid e o Egito ao califado shiita[1] dos Fatímidas (falaremos logo desta dinastia). O poder político dos califas, praticamente, acabou, com a ascensão dos buídas[2] e dos turcos seljúcidas[3]. Embora a liderança abássida sobre o Império Islâmico fosse gradualmente reduzida a uma função cerimonial religiosa, a dinastia manteve o controle sobre suas terras mesopotâmicas. A capital Bagdá tornou-se um centro de ciência, cultura, filosofia e invenções durante a Idade Áurea do Islã. 
Papa Urbano II, iniciador das Cruzadas
Foi bem depois dessa época a ocorrência da Primeira Cruzada, primeira de uma série de Cruzadas envolvidas com a retomada de Jerusalém que, como sabemos, havia caído em 638, durante a conquista do Levante, incluída no rol das primeiras conquistas muçulmanas, então em poder dos romanos. Tal Cruzada, convocada pelo Papa Urbano II em 1095, começou como uma peregrinação difundida pela Cristandade ocidental e terminou como uma expedição militar da Europa Católica Romana para reconquistar a Terra Santa (como sinônimo de Israel). Ela respondeu a um apelo do Imperador Bizantino (Romano) Alexios I Komnenos, que pediu que voluntários do ocidente viessem em sua ajuda para repelir a invasão dos turcos seljúcidas da Anatólia. Um objetivo adicional logo transformou-se na principal meta: a reconquista cristã da sagrada cidade de Jerusalém e da Terra Santa e a libertação de cristãos orientais do domínio islâmico. Cavalheiros, camponeses e servos de várias regiões da Europa Ocidental viajaram por terra e mar, primeiro a Constantinopla e, posteriormente, para Jerusalém. Os Cruzados chegaram em Jerusalém, lançaram um assalto à cidade e a capturaram em julho de 1099, massacrando muitos dos habitantes muçulmanos e judeus da cidade. E estabeleceram os estados cruzados do Reino Latino de Jerusalém (ao sul do Levante), o Condado de Trípoli, o Principado da Antioquia e o Condado de Edessa. Lembrar que o Levante havia sido conquistado pelos muçulmanos, entre 634 e 641, ainda durante a dinastia Rashidun, com Jerusalém caindo em 638, quando foi construída a mesquita de Al Aqsa. O Reino Cruzado durou praticamente 200 anos, até 1291, quando a última possessão, Acre (litoral norte de Israel), foi destruída pelos mamelucos, mas sua história foi dividida em dois períodos: o chamado Primeiro Reino de Jerusalém durou de 1099 a 1187, quando foi quase inteiramente devastado por Saladino; após a Terceira Cruzada, o Reino foi restabelecido no Acre, em 1192, e durou até a destruição da cidade, em 1291, como veremos adiante. Este segundo reino é muitas vezes chamado de Segundo Reino de Jerusalém ou Reino do Acre, sua nova capital. A Primeira Cruzada foi o primeiro passo importante para a reabertura do comércio internacional no ocidente, desde a queda do Império Romano do Ocidente. 
Papa Eugênio III, anunciador da Segunda Cruzada
A Segunda Cruzada (1147-1149) foi deflagrada em resposta à queda do Condado de Edessa (fundado durante a Primeira Cruzada, pelo Rei Baldwin de Bolonha, em 1098), em 1146, para Imad ad-Din Zengi. A Segunda Cruzada foi anunciada pelo Papa Eugênio III e foi a primeira conduzida por reis europeus – Luís VII da França e Conrado III da Alemanha – com a ajuda de outros nobres europeus. Os dois exércitos marcharam separadamente pela Europa e após atravessarem o território Bizantino para a Anatólia, ambos foram, separadamente, derrotados pelos turcos Seljúcidas. Fontes fidedignas dizem que o Imperador Bizantino Manuel I Komnenos, por temer os procedimentos cruzados, secretamente retardou o seu progresso, particularmente na Anatólia, onde ele, deliberadamente, ordenou aos turcos que os atacassem. Luís VII e Conrado III, com os restantes de seus exércitos, alcançaram Jerusalém e, em 1148, participaram de um ataque mal coordenado a Damasco. No Oriente, a Segunda Cruzada foi um grande fracasso e uma grande vitória para os muçulmanos. O seu grande sucesso veio com uma força combinada de belgas, frísios (das costas holandesa e germânica), normandos (norte da França), ingleses, escoceses e alemães, em 1147. Viajando da Inglaterra, de navio, para a Terra Santa, a Cruzada fez uma parada e ajudou o pequeno exército português na captura de Lisboa, expulsando os ocupantes mouros, como parte da Reconquista da Europa. 
Hulagu Khan, o mongol que decretou o
fim da idade áurea do Império Islâmico
Retornando à dinastia Abássida, a Idade Áurea do Islã, já dividido por uma série de dinastias, terminou em 1258, com a invasão e o saque de Bagdá pelos mongóis, sob Hulagu Khan (neto de Genghis Khan e irmão de Kublai Khan), quando lá reinava o último califa abássida Al-Musta’sim, um descendente direto do tio de Maomé, Abbas ibn Abd al-Muttalib. Em 1206, Genghis Khan estabelecera uma poderosa dinastia entre os mongóis da Ásia Central. Durante o século XIII, esse Império Mongol conquistou a maior parte da Eurásia, incluindo a China, no leste, e grande parte do antigo califado islâmico, no oeste. A destruição de Bagdá por Hulagu Khan em 1258, é tradicionalmente vista como o final da Idade Áurea do Império Islâmico. O último califa abássida Al-Musta’sim foi enrolado em um tapete e pisoteado por cavalos até a morte, em 20 de fevereiro de 1258. A família imediata do califa também foi executada, com exceção do seu filho mais jovem, enviado para a Mongólia, e uma filha que se tornou escrava no harém de Hulagu. 
Al-Musta'sim, o último califa Abássida
de Bagdá
No século IX, os abássidas haviam criado, em Bagdá, um exército leal apenas ao seu califado, composto por povos de origem não árabe, que ficaram conhecidos por Mamelucos. Essa força, criada no reino de al-Ma’mun (813-833) e de seu irmão e sucessor, al—Mu’tasim (833-842), evitou uma maior desagregação do Império. O exército mameluco, muitas vezes visto negativamente, ajudou e prejudicou o califado. Inicialmente ele garantiu ao governo uma força estável para cuidar de problemas domésticos e externos. Contudo, a criação desse exército de estrangeiros e a transferência da capital do Império de Bagdá para Samarra[4], no Iraque Central, criou uma divisão entre o califado e os povos que governava; além disso, o poder dos mamelucos cresceu persistentemente até que al-Radi (934-941) teve que passar a maior parte das funções reais para Muhammad ibn Ra’iq, oficial sênior desse exército e os mamelucos acabaram chegando ao poder no Egito, Levante e Hejaz. Esta dinastia dos mamelucos durou da queda da dinastia Aiúbida (que reinou entre 1171 e 1260), dinastia muçulmana de origem curda, fundada por Saladino e centrada no Egito, até a conquista otomana do Egito (1517).
Em 1261, após a devastação de Bagdá pelos mongóis, os governantes mamelucos do Egito restabeleceram o califado abássida no Cairo, com Al-Mustansir, seu primeiro califa no Cairo. Os califas abássidas – e a cultura islâmica, em geral - continuaram a manter a presença de autoridade, mas confinada a questões religiosas, até a conquista otomana do Egito, quando reinava Al-Mutawakkil III, levado como prisioneiro, por Selim I, para Constantinopla. A partir deste momento o mundo árabe praticamente passou a ser dominado pelo Império Turco Otomano.

VI – DINASTIA AIÚBIDA

Saladino, Sultão da Síria e do Egito, oposição
maior às Cruzadas no Levante

Embora algo fora do contexto e da cronologia, estamos abrindo um capítulo especial dedicado à Dinastia Aiúbida, porque foi mencionada há pouco e pelo importante papel que ela representou nas guerras pela conquista de Jerusalém e pelo seu envolvimento com as Cruzadas.
A Dinastia Aiúbida, cujo nome vem de seu pai, Najm ad-Din Ayyub, era uma dinastia islâmica de origem Curda[5], fundada por Saladino e centrada no Egito. A dinastia governou muito do Oriente Médio durante os séculos XII e XIII. Saladino havia sido o Vizir[6] do Egito Fatímida antes de extingui-la no ano 1171. Tal dinastia foi outra das dinastias muçulmanas que governou no norte da África, com centro no Egito, cujo nome deriva de Fatima bint Muhammad, a filha do profeta Maomé.
Em 1164, Nur al-Din (Nur ad-Din), membro da dinastia turca Zengid, que governou a província síria do Império Seljúcida de 1146 a 1174, enviou Shirkuh (tio de Saladino, irmão de seu pai) com uma força expedicionária para evitar o estabelecimento de uma forte presença dos Cruzados num Egito então crescentemente anárquico. Shirkuh recrutou Saladino como um oficial sob seu comando e juntos destituíram Dirgham, vizir do Egito, reinstalando seu predecessor Shawar. Após reinstalado, Shawar ordenou a retirada de Shirkuh do Egito com suas forças. Este negou-se a retirar-se pois lá estava sob as ordens de Nur al-Din. Em alguns anos, Shirkuh e Saladino derrotaram as forças combinadas dos Cruzados e de Shawar, com a batalha final em Alexandria, onde Saladino permaneceu para proteger enquanto Shirkuh perseguia as forças cruzadas pelo baixo Egito.
Shawar morreu em 1169 e Shirkuh tornou-se vizir, morrendo mais tarde no mesmo ano. Com sua morte, Saladino foi feito vizir pelo califa fatímida al-Adid, do Egito, tornando-se mais independente, para temor de Nur al-Din. Em 1171 Al-Adid morreu de causas naturais e Saladino, aproveitando o vácuo do poder, efetivamente tomou o controle do país, mudando a sujeição do Egito para o califado abássida de Bagdá, que aderira ao islamismo Sunni. Saladino consolidou seu controle no Egito ao enviar, ao final de 1172, seu irmão mais velho, Turan-Shah, para abafar uma revolta no Cairo, encenada por 50.000 núbios do exército fatímida. Após este sucesso, Saladino começou a entregar, a seus parentes, altos postos do país e a aumentar a influência do Islamismo Sunni (mais puro islamismo) sobre o Islamismo Shia, que dominava no Cairo, pela construção de numerosas escolas de direito islâmico nas principais cidades.
Embora ainda nominalmente um vassalo de Nur al-Din, Saladino adotou uma política externa cada vez mais independente, que tornou-se mais pronunciada, publicamente, após a morte de Nur al-Din em 1174. Daí para a frente, Saladino dedicou-se à conquista da Síria dos Zengids e, em 23 de novembro deste ano, foi aclamado em Damasco pelo governador da cidade. Em 1175 ele tinha o controle de Hama (cidade nas margens do rio Orontes, na Síria centro-oeste, a 213 km de Damasco) e Homs (cidade no rio Orontes, Síria Ocidental, a 162 km ao norte de Damasco), mas falhou na tomada de Alepo (norte da atual Síria). O sucesso de Saladino alarmou o emir Saif al-Din, de Mosul (cidade do Iraque, na margem ocidental do rio Tigre, a 400 km ao norte de Bagdá), líder dos Zengids à época, que via a Síria como estado de sua família e usurpada por um antigo servo de Nur al-Din. Ele reuniu um exército para enfrentar Saladino próximo de Hama e foi por ele derrotado. Após essa vitória Saladino proclamou-se rei. O califa abássida em Bagdá, al-Mustadi, graciosamente aclamou a sua subida ao poder e deu-lhe o título de Sultão[7] do Egito e da Síria, recebendo em troca a lealdade de Saladino (não esquecer que o Egito se encontrava então, sob o domínio abássida).
Em 1177 Saladino conduziu uma força de 26.000 soldados ao sul da Palestina, após ter ciência de que soldados do Reino de Jerusalém estavam sitiando Alepo. Subitamente atacados pelos Templários sob Baldwin IV de Jerusalém, próximo de Ramla (cidade no centro de Israel), o exército aiúbida foi derrotado na batalha de Montgisard, com a maioria dos soldados mortos. Saladino acampou em Homs, no próximo ano, quando ocorreram várias escaramuças entre suas tropas, comandadas por Farrukh Shah, e as tropas cruzadas. Saladino invadiu os estados cruzados pelo oeste, derrotando Baldwin na Batalha de Marj Ayyun, em 1179. No ano seguinte ele destruiu o recém construído castelo cruzado de Chastellet, na Batalha de Passo de Jacó. Na campanha de 1182, ele lutou novamente com Baldwin na indecisa batalha de Castelo Belboir, em Kawkab al-Hawa (norte do atual Israel).
Em maio de 1182, Saladino capturou Alepo após um breve sítio. Em seguida marchou para Harim, próxima da Antioquia, governada pelos cruzados, conquistando sua guarnição. A esse tempo, apenas Mosul possuía como governante um importante muçulmano rival dos aiúbidas, na figura de Izz al-Din al-Mas’ud. A possibilidade de uma união deste governante com o governador do Azerbaijão arrefeceu o ânimo de Saladino quanto a um novo ataque a Mosul. Um acordo foi negociado pelo qual al-Adil, irmão de Saladino, administraria Alepo em nome do seu filho al-Afdal, enquanto o Egito seria governado por al-Muzaffar Umar (sobrinho de Saladino) em nome de outro filho de Saladino, Uthman. Quando seus dois filhos chegassem à idade assumiriam o poder nos dois territórios, mas se um morresse, um dos irmãos de Saladino tomaria seu lugar. No verão de 1183, após devastar a Galileia Oriental, Saladino chegou à Batalha de al-Fule contra os cruzados de Guy de Lusignan, que acabou indecisa. Muitos confrontos aconteceram nesse período e, durante 1184 e 1185, uma paz relativa seguiu-se entre os Estados Cruzados e o Império Aiúbida que, por essa época mantinha sob seu controle o Egito, a Síria, o norte da Mesopotâmia, Hejaz, Iêmen e a Costa Norte Africana até a fronteira da atual Tunísia.
Saladino sitiou Tibérias, na Galileia Ocidental, em 3 de julho de 1187 e o exército cruzado tentou atacar os aiúbidas por Kafr Kanna (ao norte de Nazaré e associada à vila de Canaã do novo testamento). Em 4 de julho de 1187 foi travada a Batalha de Hattin, quando os cruzados foram batidos decisivamente pelos muçulmanos. Em 8 de julho o baluarte cruzado do Acre foi capturado por Saladino, enquanto suas forças capturavam Nazaré e Saffuriya (também ao norte de Nazaré). Outras cidades e vilas foram rapidamente tomadas e, finalmente, em 2 de outubro de 1187, o Reino de Jerusalém foi conquistado após negociações com Balian of Ibelin, o nobre cruzado local. Ao final de 1187 os aiúbidas controlavam virtualmente todo o reino cruzado no Levante, com exceção do Tiro, governado por Conrado de Montferrat. Em janeiro de 1188, Saladino reuniu um Conselho de Guerra onde decidiram pela retirada do Condado de Trípoli, às margens do Mediterrâneo, bem ao norte do atual Líbano. 
Papa Gregório VIII, autor da bula que
convocou a Terceira Cruzada
O Papa Gregório VIII convocou uma “Terceira Cruzada”, contra os muçulmanos, no ano de 1187, em resposta à derrota do Reino Cruzado de Jerusalém, na Batalha de Hattin, por meio da Bula Papal “Audita Tremendi”. Atendendo ao apelo do Papa, Friedrich Barbarossa, do Sacro Império Romano, Philippe Auguste, da França e Richard the Lionheart (Ricardo Coração de Leão), da Inglaterra, formaram uma aliança para reconquistar Jerusalém. Enquanto isso, os cruzados e aiúbidas lutavam perto do Acre, ganhando reforços da Europa. De 1189 a 1191, o Acre foi sitiado pelos cruzados e embora um sucesso inicial dos muçulmanos, ele caiu às forças de Ricardo. À tomada seguiu-se o massacre de 2.700 habitantes muçulmanos e os cruzados planejaram tomar Ascalon, no litoral sul de Israel. Sob o comando unificado de Ricardo, os cruzados derrotaram Saladino na batalha de Arsuf, o que lhes permitiu a conquista de Jaffa e grande parte da costa Palestina, sem, entretanto, conseguir recuperas as regiões interiores. Em vez disso, Ricardo assinou com Saladino um tratado, em 1192, pelo qual restaurava o Reino de Jerusalém numa uma faixa costeira entre Jaffa e Beirute, ficando este como o último maior esforço da carreira de Saladino, que morreu no ano seguinte, 1193. Após a sua morte, seus filhos contestaram o controle sobre o sultanato, mas o irmão de Saladino, al-Adi, acabou por estabelecer-se como sultão em 1200 e todos os sultões posteriores do Egito foram seus descendentes, até 1249, quando assumiram os mamelucos (já que Egito e Síria se separaram em 1230 para se reunirem em 1247, novamente). 
Ricardo I da Inglaterra, Coração de Leão
A Quarta Cruzada (1202-1204) foi uma expedição armada da Europa Ocidental convocada pelo Papa Inocêncio III, com o objetivo original de conquistar a Jerusalém controlada pelos muçulmanos, através de uma invasão pelo Egito. Entretanto, uma sequência de eventos culminou com os Cruzados saqueando a cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino (Romano) controlado pelos cristãos. Em janeiro de 1203, a caminho de Jerusalém, a maioria da liderança cruzada entrou em acordo com o príncipe bizantino Alexios IV Angelos, para desviar a Constantinopla e restaurar seu pai, Isaac II Angelus, como imperador, deposto que fora por um golpe, em 1195, de seu tio, imperador Alexius III Angelus. A intenção dos cruzados era então prosseguir para a Terra Santa, com a promessa da assistência financeira e militar bizantina. Em 23 de junho de 1203, a principal frota cruzada atingiu Constantinopla enquanto os contingentes menores seguiram para o Acre. Em agosto de 1203, após conflitos fora de Constantinopla, Alexios Angelos foi coroado coimperador (como Alexios IV Angelos), com apoio cruzado,
Inocêncio III, o Papa mais poderoso da história,
segundo os historiadores
na Igreja de Santa Sofia. Alexios foi coroado coimperador, porque o povo libertara seu pai e o queria como rei, com o que não concordaram os cruzados, pois ele havia sido cego e tornado inapto para governar. Contudo, em janeiro de 1204 Alexios foi deposto por um levante popular em Constantinopla. Com isso os cruzados perderam o seu prometido pagamento e quando Alexios foi assassinado em 8 de fevereiro de mesmo ano, os cruzados e venezianos decidiram pela completa conquista de Constantinopla. Em abril de 1204 eles capturaram e brutalmente saquearam a cidade, estabelecendo um novo Império Latino (Império Latino de Constantinopla) e repartindo outros territórios entre si. A resistência bizantina, baseada em seções não conquistadas do Império, como Niceia, Trebizonda e Épiro, acabaram por recuperar Constantinopla em 1261. Como vemos, a Quarta Cruzada, convocada como nova tentativa para a retomada de Jerusalém, não produziu qualquer impacto sobre os povos árabes, sendo citada apenas por fazer parte do grande grupo das Cruzadas. Entretanto, ela é considerada como um dos atos finais do Grande Cisma entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Oriental, além de ponto chave no declínio do Império Bizantino e da Cristandade no Oriente Médio.

[1] Shia é o substantivo; shiita é o adjetivo. Os shias (partido de Ali) são os membros do segundo maior ramo de crentes do Islamismo, constituindo 16% do total dos muçulmanos (o maior ramo é o dos muçulmanos sunitas, que são 84% da totalidade dos muçulmanos). Os shias consideram Ali, genro e primo do profeta Maomé, como o seu sucessor legítimo e consideram ilegítimos os três califas sunitas que assumiram a liderança da comunidade muçulmana após a morte de Maomé.
[2] O Império Buída ou Emirado Buída foi um Estado iraniano medieval shiita que existiu entre 934 e 1055. Foi governado pela dinastia buída, também referida como dinastia Buyida. Eles fundaram uma confederação que controlou a maior parte do Irã e do Iraque nos séculos X e XI.
[3] Os turcos seljúcidas ou Dinastia Seljúcida foi uma dinastia muçulmana Suni (o maior ramo do Islamismo) de turcos Oghuz (da Ásia Central, de língua oghuz) que, gradualmente, tornou-se uma sociedade pérsica, que muito contribuiu para a tradição turco-persa, na Ásia Central e Ocidental medieval. Os seljúcidas estabeleceram o Império Seljúcida e o Sultanato de Rum que, em seu ápice, estendia-se da Anatólia por todo o Irã.
[4] Samarra é uma cidade do Iraque Central que serviu como capital do Califado Abássida, de 836 a 892. Fundada pelo califa al-Mu’tasim, foi brevemente uma metrópole importante que se estendia por vários quilômetros ao longo da margem oriental do Tigre. Foi abandonada durante a segunda metade do século IX, em seguida ao retorno dos califas para Bagdá.
[5] Os Curdos são um grupo étnico do Oriente Médio, habitando principalmente áreas do leste e sudeste da Turquia, (Curdistão Norte), oeste do Irã (Curdistão Iraniano ou Norte), norte do Iraque (Curdistão Iraquiano Sul) e Síria (Curdistão Oeste ou Rojava). Os Curdos são cultural e linguisticamente parentes imediatos dos povos iranianos e, como resultado, frequentemente classificados como um povo iraniano. Muitos curdos se consideram descendentes dos Medos, um antigo povo iraniano.
[6] Um vizir era um conselheiro político de alto nível ou ministro. Os califas abássidas davam o título de vizir a um ministro anteriormente chamado secretário, que era, inicialmente, um mero ajudante, mas tornou-se, posteriormente o representante e sucessor do escriba oficial dos reis sassânidas. No Egito antigo era o mais alto funcionário a servir o rei ou faraó, durante os reinos antigo, médio e novo.
[7] Sultão é um título nobre com vários significados históricos. Originalmente era um nome árabe abstrato significando força, autoridade e poder. Mais tarde veio a ser usado como título para certos governantes que reivindicavam quase plena soberania em termos práticos (independência de qualquer governante superior) sem, contudo, reivindicar o “califado” ou referir-se a um poderoso governador de uma província dentro do califado. À dinastia e terras governadas por um sultão, dava-se o título de “sultanato”.

Continua com a PARTE 5