Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 3 de fevereiro de 2019

MINHA PEQUENA HOMENAGEM A MICHEL LEGRAND



O Mundo da música encontra-se novamente de luto: morreu em Paris, no dia 26 de janeiro de 2019, aos 86 anos de idade, o fantástico compositor Michel Legrand. Mais um insubstituível músico que nos abandona, deixando mais vazio o mundo da música, sem qualquer chance de substituição. 
Michel Legrand, com 84 anos no Festival de Cannes de 2017
Michel Legrand nascido em 24 de fevereiro de 1932, em Paris, no bairro de Ménilmontant, cantado por Charles Trenet, autor de “La Mer”, foi um músico, compositor, cantor, produtor e arranjador francês, cuja carreira de compositor para o cinema, por mais de meio século, granjeou-lhe três Oscars, cinco Grammys, duas Palmas de Ouro, um Bafta (British Academy of Film and Television Arts, entidade independente que apoia, desenvolve e promove as formas artísticas de imagem no Reino Unido) e um Globo de Ouro.
Seus pais, o compositor Raymond Legrand (1908-1974) e Marcelle Der Mikaëlian (irmã do orquestrador Jacques Hélian, de origem armênia) se divorciaram quando Michel tinha três anos. Estudou piano e composição no “Conservatoire de Paris” de 1942 a 1949, principalmente nas classes de Lucette Descaves, Henri Challan e Nadia Boulanger. Apaixonou-se pelo jazz após assistir, em 1947, a um concerto de Dizzy Gillespie (trompetista, compositor-letrista-intérprete e orquestrador de jazz americano, considerado, com Miles Davis e Louis Armstrong, um dos mais importantes trompetistas da história do jazz), com o qual iria colaborar alguns anos mais tarde escrevendo, em 1952, os arranjos para a orquestra de cordas que acompanhava o trompetista em seus concertos europeus.
Em 1951, com apenas 19 anos, escreve os arranjos para a orquestra de seu pai, que o introduz no universo da canção de variedades e começa uma carreira de acompanhador e arranjador para Jacqueline François, Henry Salvador, Catherine Sauvage e Zizi Jeanmaire. Maurice Chevalier o contrata como diretor musical.
Em 1954, por demanda da empresa americana Columbia e graças a Jacques Canetti, produtor musical da Philips, que passou um acordo com esta firma, ele oferece releituras jazzísticas de músicas simples francesas. O álbum “I Love Paris” é um enorme sucesso com oito milhões de exemplares vendidos e o reconhecimento de Legrand se faz internacional. Influenciado por Stan Kenton, ele leva a bom termo uma breve carreira de jazzman como líder: “Holiday in Rome”, em 1955, “Michel Legrand Plays Cole Porter”, em 1957, “Legrand in Rio”, em 1958. Para “Legrand Jazz”, ele grava em New York, em 1958, com Miles Davis, John Coltrane e Bill Evans, tornando-se um dos primeiros europeus a trabalhar com os mestres do jazz moderno. 
O jovem Legrand e seu amor pelo jazz.
Em 1966 faz os arranjos da canção internacional “C’est ci bon”, de Henri Betti e André Hornez, para o álbum de Barbra Streisand “Color me Barbra”.
Algumas composições de Michel Legrand como “La Valse des Lilas” (em inglês “Once upon a Summer Time”), a “Chanson de Maxence” (“You must believe in Spring”), ou ainda o tema principal da trilha sonora original do filme “Un été 42” (“Verão de 42”) (“The Summer Knows”), são resultado de padrões de jazz.
A par de sua paixão pela música de jazz, a virada dos anos 1960 e o surgimento da nouvelle vague vão definitivamente ancorar Michel Legrand no mundo da música de filmes. Ele trabalha para Agnès Varda (“Cléo de 5 a 7”, em 1962), Jean-Luc Godard (“Une femme est une femme”, em 1961, “Vivre sa vie”, em 1962 e “Bande à part”, em 1964) e sobretudo Jacques Demy (“Lola”, em 1961, “Les parapluies de Cherbourg”, em 1964, “Les demoiselles de Rochefort”, em 1967, “Peau d’âne”, em 1970) com o qual ele inventa a comédia musical à francesa. Dessa forma, “Les Parapluies de Cherbourg” é um filme cantado continuamente, onde os diálogos são inspirados pela música, totalmente inovador para a época. 
Michel Legrand compondo.
Em 1966, após ter sido indicado para dois Oscars por seu trabalho em “Les Parapluies de Cherbourg”, ele decide tentar sua sorte em Hollywood, instalando-se em Los Angeles. Sua amizade com Quincy Jones e Henry Mancini o ajuda muito a fazer um lugar no meio altamente concorrido e lhe permite encontrar os letristas Alan e Marilyn Bergman. Em 1968 ele compõe a trilha sonora original de “L’Affaire Thomas Crown”, de Norman Jewison e, particularmente, a canção “The Windmills of your Mind” (“Les Moulins de Mon Coeur”), para a qual lhe será entregue, no ano seguinte, o Oscar de melhor canção original.
Em 1969, Legrand escreve a trilha sonora para o filme “The Happy Ending”. Sua principal canção, “What are you doing for the rest of your life”, com letra de Alan e Marilyn Bergman e interpretada por Michael Dees, foi indicada para o Oscar da Academia como melhor canção original, sendo derrotada por “Raindrops keep falling on my head”. Com a mesma música, Legrand venceu o Grammy Award de 1972 para melhor arranjo instrumental no acompanhamento de vocalista, para uma versão interpretada por Sarah Vaughan. Além da versão recebedora de prêmios, a canção foi interpretada por vários artistas, destacando-se a execução de Barbra Streisand, Johnny Mathis, Shirley Bassey e Frank Sinatra.
Dois anos mais tarde, ele recebe o Oscar de melhor música de filme pelo filme “Un Été 42” (“Verão de 1942”), de Robert Mulligan (1971), cuja canção “The Summer Knows”, por Barbra Streisand, alcança o sucesso. Entre 1971 e 1975, nomeado vinte e sete vezes ao “Grammy Award”, ele conquista cinco prêmios. Em 1982, Michele Legrand compôs “How do you keep the music playing?”, com letra de Alan e Marilyn Bergman, para a trilha sonora do filme “Best Friends”, quando ela foi introduzida por James Ingram e Patti Austin. O filme foi estrelado por Burt Reynolds e Goldie Hawn e a música foi uma das três com letra de Alan e Marilyn Bergman indicadas para o Oscar de melhor canção original da 55ª realização da Academy Awards. Obtém um terceiro Oscar por “Yentl”, de Barbra Streisand, em 1983. No mesmo ano ele compõe a trilha sonora de “Jamais plus Jamais”, de Irvin Kershner, último James Bond com Sean Connery, cuja canção título (“Never Say Never Again”) é escrita por Alan e Marilyn Bergman. Ao todo, Michele Legrand compôs mais de duzentas músicas para o cinema e a televisão. 
A descontração de Michel Legrand
Gravou com várias personagens da canção em gêneros variados: Catherine Sauvage, Henri Salvador, Charles Aznavour, Zizi Jeanmarie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Jack Jones, Ella Fitzgerald, Perry Como, Lena Horne, Kiri Te Kanawa, James Ingram, Johnny Mathis, Barbra Streisand, Frankie Laine, Nana Mouskouri e Mireille Mathieu, para citar alguns.
Foi casado com Christine Bouchard e depois com Isabelle Rondon. Separado de sua última companhia, a harpista Catherine Michel, em 2013, desposou, em 16 de setembro de 2014, a comediante Macha Méril, com quem já tinha tido uma ligação quarenta anos antes. Foi pai de Dominique Rageys (nascida em 1952), fundadora, com seu marido, do rallye “Marrocos Clássico”, de Hervé Legrand (1959), pianista e compositor, de Benjamin Legrand (1962), cantor, de Eugénie Angot (1970), cavalheiro de nível internacional.
Em 5 de dezembro de 2007, a faculdade de música da Universidade de Montréal, Quebec, lhe outorgou um doutorado honorífico para sublinhar o caráter excepcional de sua carreira. Em 2009, ao completar cinquenta anos de carreira, a “Cinémathèque Française”, em Paris, lhe rendeu uma homenagem, com a projeção da maior parte dos filmes com trilha sonora escrita por Michel Legrand. Na mesma ocasião, deu três concertos na sala Plevel e múltiplas entrevistas à rádio e televisão.
Em 2013 co-escreveu, com Stéphane Lerouge, especialista de música para cinema, sua primeira autobiografia “Nada é grave nos agudos”, onde ele evoca de maneira livre e sem cronologia, sua formação, encontros, escolhas de percurso, seu gosto pela música ao plural.
2014 viu Michel Legrand ainda realizando 60 concertos por todo o globo. Seu novo balé, coreografado por John Neumeier, do Hamburg Ballet, abriu para um fenomenal sucesso em Costa Mesa, California, como um prelúdio para um giro pelos Estados Unidos. Seu novo concerto para harpa iniciou na Filadélfia, em fevereiro de 2014 e sua nova ópera, “Dreyfus” iniciou na Ópera de Nice em maio de 2014. Para coincidir com o 50º aniversário de “Les Parapluies de Cherbourg”, Michel Legrand conduziu sua versão para oratório no teatro Châtelet. Foram cinco excepcionais apresentações a preceder uma excursão pelo mundo.
Em março de 2014 Legrand escreveu uma maravilhosa trilha sonora para o novo filme de Xavier Beauvois “Love is a Perfect Crime”. O filme foi apresentado no Festival de Cannes em maio de 2014 e indicado para dois outros dois festivais. Durante 2014 ele realizou mais de 50 concertos na França, Irlanda, Japão, Argentina, Brasil, Rússia, EUA, Dinamarca, Holanda e Bélgica.
2015 foi um ano bastante ocupado, com concertos ao redor do mundo, incluindo um giro pela América do Sul com o soprano Natalie Dessay e a gravação de um novo álbum “Michel com Amigos” lançado em novembro daquele ano. Em janeiro de 2016 Legrand fez uma importante apresentação com uma Orquestra e os amigos tenor Vincent Niclo, sopranos Natalie Dessay e Maurane, no Palais de Congrès, Paris, no concerto intitulado “Michel Legrand convida Vincent Niclo”. Em maio de 2016 Legrand esteve em Kalamazoo, Michigan, para receber um doutorado honorário da Western Michigan University, como parte de sua primeira visita ao Irving Saint Gilmore International Keyboard Festival. Ainda em Kalamazoo, Legrand realizou uma Première Mundial Oficial, Concerto para Piano e Orquestra com a Kalamazoo Symphony Orchestra.
O verão de 2016 foi preenchido com Festivais na Argentina e França; o ano continuaria extremamente ocupado com concertos por toda a Europa. O ano de 2017 foi rico, com a excursão do aniversário de 85 anos de Michel Legrand ao redor do mundo e o lançamento de dois preciosos álbuns. 
O maduro Legrand em toda a sua jovialidade.
Michel Legrand é o único compositor europeu com uma filmografia que inclui nomes como Orson Welles, Marcel Carné, Clint Eastwood, Norman Jewison, Louis Malle, Andrzej Wajda, Richard Lester, Claude Lelouch, para nomear alguns poucos.

“Desde que era um menino, minha ambição sempre foi viver completamente cercado pela música. Meu sonho é não perder nada. É por isso que nunca me assentei numa única disciplina musical. Adoro executar, conduzir, cantar e escrever, em todos os estilos. Assim, ponho minha mão em tudo – não apenas um pouco de tudo. Muito pelo contrário. Faço todas essas atividades de uma vez, seriamente, sinceramente e com profunda dedicação.”

Era assim que Michel Legrand descrevia seu status, como um músico atípico e compulsivo que não podia ser confinado; ou antes, seus vários status como compositor, maestro, pianista, cantor, escritor e produtor. Derrubando as barreiras entre o jazz, música clássica e música mais leve, ele sentia-se em casa em qualquer situação musical.

“Eu queria ter mais percepção daquilo que eu posso fazer, mesmo que isso signifique ir longe demais. Se eu quero que meu navio continue singrando as ondas, devo tentar novas velas e ver onde elas me levarão”

É difícil selecionar músicas de um compositor que criou trilhas sonoras para mais de duzentos filmes! Muito mais se considerarmos o espaço físico de uma postagem. Por isso, fio-me em meu gosto pessoal (e os leitores, que se sujeitem a ele), para colocar uma pequeníssima amostra, em ordem cronológica, do que produziu o grande Michel Legrand.
Iniciamos, portanto, com “Les Parapluies de Cherbourg” (“I will wait for you”), uma das canções da trilha sonora do filme musical romântico dramático de mesmo nome (no Brasil, com o nome de “Os Guarda-Chuvas do Amor”), de 1964, com a minha musa do cinema francesa, Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo. Esta música, transformou-se num padrão popular mundial, principalmente devido à adaptação para o inglês por Norman Gimbel (“I will wait for you”), que foi inicialmente gravada por Nana Mouskouri e, posteriormente, por cantores famosos, entre eles Frank Sinatra, Tony Bennett, Louis Armstrong, Liza Minelli e Connie Francis, além de várias gravações instrumentais. Vamos apresentar a gravação em que, no filme, os dois atores principais cantam dublados por Danielle Licari e José Bartel.
A seguir, apresentamos “Les Moulins de Mon Coeur”, uma das canções da trilha sonora do filme “L’Affaire Thomas Crown”, posteriormente vertido para o inglês, com o nome “The Windmills of you Mind”, com o qual conquistou um Oscar da Academia. E para interpretá-la, nada mais, nada menos do que o seu autor, Michel Legrand.
A seguir uma das minhas preferidas de Michel Legrand, “What are you doing the rest of your life”, cantada pelo meu intérprete masculino favorito, Johnny Mathis, numa interpretação notável. A letra do casal Bergman é extraordinária e por essa razão me permito aqui introduzi-la para que meus leitores possam apreciá-la, com a sua tradução em português.
E chegamos à minha grande favorita das composições de Michel Legrand, “The Summer Knows” que, conforme comentado acima, é a melodia principal da trilha sonora para o filme “Un Été 42” (“Verão de 1942”), em inglês “Summer of ‘42”, de 1971, pela qual foi agraciado com mais um Oscar da Academia. As escolhas para o intérprete são, novamente, inúmeras, mas como ainda não apresentei a minha preferida feminina, eu faço questão de trazer aos meus leitores a fantástica Barbra Streisand, interpretando “The Summer Knows”. A letra de Alan e Marilyn Bergman é novamente primorosa e me permito também apresentá-la aos meus leitores para que com eles possam acompanhar a interpretação da melodia. E posto que no filme, a melodia é executada instrumentalmente, abuso da paciência dos meus leitores, trazendo para essa maravilha uma interpretação instrumental com a orquestra do compositor e com o piano maravilhoso do próprio Michel Legrand
“A melodia é uma senhora à qual eu sempre serei fiel!”
E para encerrar, de 1982, “How do you keep the music playing?” que, além de ter sido indicada para o Oscar da Academia, teve vida própria como um sucesso popular mundial, interpretada por luminares como Johnny Mathis, Tony Bennett, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Celine Dion e Shirley Bassey, entre muitos outros. Mas, em respeito ao próprio compositor, vou apresentá-la na interpretação dos que a introduziram no filme para o qual ela foi composta: James Ingram e Patti Austin.
Espero que com a curtíssima amostra, os meus leitores possam ter uma tênue ideia de quem foi Michel Legrand, mais um gênio da música, que nos abandona agora, para prosseguir com seus concertos, a partir de então, à plateia celeste. E com isso eu me despeço dele ...

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A ORIGEM DAS GALINHAS (E GALOS) - PARTE 2 DE 2

IV – A DOMESTICAÇÃO DAS GALINHAS

Considerando que o progenitor selvagem das galinhas ainda se encontra entre nós, comparações de comportamento e outras alterações ainda nos estão disponíveis. No que se refere a comportamento, as galinhas domesticadas são menos ativas, possuem menos interação social, são menos agressivas aos possíveis predadores e buscam menos as fontes de alimentação que seus ancestrais selvagens. Outras mudanças incluem o aumento de peso, plumagem simplificada, início prematuro e mais frequente da produção de ovos maiores.
Uma espécie domesticada do Gallus gallus espalhou-se, incialmente, do sudeste da Ásia, viajando ao norte, para a China ou ao sudoeste para a Índia? Ou existiram duas áreas centrais separadas de domesticação: Índia e sudeste da Ásia antigas? Qualquer cenário é possível, mas uma investigação mais profunda nas origens da galinha é obstruída por um inconclusivo vestígio de DNA. “É realmente difícil dizer com precisão, pelo fato das aves domesticadas e selvagens terem cruzado ao longo do tempo”, diz Michael Zody, um biólogo computacional que estuda genética no Broad Institute de Harvard e Massachusetts Institute of Technology (MIT).
A real virada da galinha aconteceu em 2004 quando uma equipe internacional de geneticistas produziu um mapa completo do genoma[1] da galinha. A galinha foi o primeiro animal domesticado, o primeiro pássaro – e consequentemente, o primeiro descendente dos dinossauros – assim honrado. O mapa do genoma forneceu uma excelente oportunidade para estudar a forma como milênios de domesticação podem alterar uma espécie. Num projeto conduzido pela Universidade de Uppsala, Suécia, Zody e seus colegas têm pesquisado as diferenças entre a ave selvagem vermelha e seus descendentes do galinheiro, incluindo as “camadas” (espécies criadas para produzir prodigiosas quantidades de ovos) e “frangos” (espécies gordas e carnudas). Os pesquisadores encontraram importantes mutações num gene designado por TBC1D1, que regula o metabolismo da glicose. No genoma humano, mutações neste gene têm sido associadas com a obesidade, mas é um traço positivo numa criatura destinada à mesa de jantar. Outra mutação que resultou de geração seletiva está no gene do HRET (Hormônio Receptor da Estimulação da Tireoide). Em animais selvagens este gene coordena a reprodução com a duração do dia, confinando gerações a estações específicas. A mutação que desabilita este gene, habilita galinhas a chocar - e pôr ovos – ao longo de todo o ano.
Quando as galinhas foram domesticadas, contatos culturais, comércio, migração e conquista territorial resultaram em sua introdução e reintrodução em diversas regiões ao redor do mundo, por vários milhares de anos.
Estudos genéticos sugerem múltiplas origens de domesticação. A primeira evidência arqueológica vem da China, cerca de 5.400 AC, em locais geograficamente bem espalhados, tais como Cishan (província de Heibei), cerca de 5.300 AC, Beixin (província de Shandong), cerca de 4.300 AC. Crê-se que as galinhas foram levadas às Ilhas da Polinésia do sudeste da Ásia com a expansão Lapita[2], cerca de 3.300 anos atrás.
No Vale do Indo, as galinhas domésticas apareceram em Mohenjo Daro, cerca de 2.000 AC, possivelmente carregadas através da Península Arábica como carga ou mantimentos e, de lá, espalharam-se para a Europa e África.
Pelo ano 2.000 AC, placas cuneiformes da Mesopotâmia referem-se ao “pássaro de Meluhha”, nome provável para o Vale do Indo. Aquele pode ou não ter sido uma galinha; o Professor Piotr Steinkeller, um especialista de Harvard em textos antigos do Oriente Próximo, diz que era certamente “algum pássaro exótico desconhecido da Mesopotâmia”. Ele acredita que referências ao “pássaro real de Meluhha” – uma frase que aparece em textos três séculos após – muito provavelmente se referem à galinha.
A evidência concreta mais antiga de galinhas na África oriental, são ilustrações de vários locais no Egito. Elas teriam chegado ao Egito cerca de 250 anos depois, como animais de luta e adições a outros animais selvagens exóticos. Ilustrações artísticas do passado adornaram tumbas reais. Contudo, mais mil anos passariam antes que a ave se tornasse uma mercadoria popular entre os egípcios comuns. Foi naquela época que os egípcios dominaram a técnica da incubação artificial, que libertou as galinhas para darem melhor uso ao seu tempo através da postura de ovos. Não foi assunto fácil: a maioria dos ovos de galinha chocam em três semanas, mas somente se a temperatura for mantida constante em torno de 37 a 41º centígrados e a umidade relativa permanecer próximo dos 55%, crescendo nos últimos dias da incubação; além disso, os ovos devem ser virados cerca de 3 a 6 vezes por dia, para evitar que surjam deformidades físicas. Os egípcios construíam vastos complexos de incubação com centenas de “fornos”, amplas câmaras conectando a uma série de corredores e aberturas que permitiam aos atendentes regular o calor dos fogos mantidos por palha e esterco de camelos. Os atendentes dos ovos mantiveram, por séculos, o segredo de seus métodos. Na África ocidental as galinhas chegaram na Idade do Ferro em locais como Jenne-Jeno, em Mali, Kirikongo, em Burkina Faso e Daboya, em Gana, pelo meio do primeiro milênio DC.
Em torno do Mediterrâneo, escavações arqueológicas descobriram ossos de galinha de cerca de 800 AC. As galinhas eram uma iguaria entre os romanos, cujas inovações culinárias incluíam a omelete e a prática de rechear os pássaros para cozinhar, embora suas receitas tendessem mais para cérebros de galinha esmagados do que para pão amassado. Os fazendeiros começaram a desenvolver métodos para engordar os frangos, que foram logo postos fora da lei pelas autoridades. Os cozinheiros romanos descobriram então que a castração dos galos os fazia engordarem e com isso nascia a criatura hoje conhecida como capão. Com o colapso de Roma, o status da galinha diminuiu na Europa, com o tamanho da galinha, no período pós-romano, retornando ao que era durante a Idade do Ferro, mais de mil anos antes. Com a passagem dos séculos, aves mais vigorosas como os gansos e perdizes começaram a adornar as mesas medievais. 
Moderna criação intensiva de galinhas
Embora admitido que as galinhas tenham sido trazidas às Américas pelos espanhóis conquistadores, presume-se que galinhas pré-colombianas foram identificadas em vários locais das Américas, mais notavelmente na localidade de El Arenal, Chile, cerca de 1.350 DC. Os europeus que chegavam à América do Norte, encontraram um continente repleto de perus e patos nativos para a caça e comida. Alguns arqueólogos acreditam que as galinhas foram introduzidas no Novo Mundo pelos polinésios que alcançaram a costa do Pacífico da América do Sul um século antes das viagens de Colombo. Já no século XX, a criação de galinhas não representava um forte componente na economia americana e apenas com o enriquecimento da alimentação com antibióticos e vitaminas, que permitiu a sua criação em recintos fechados, aconteceu o progresso que resultou nas 250.000 fazendas de galinhas de hoje nos EUA.
Como um dos mais comuns e difundidos animais domésticos, com uma população de mais de 19 bilhões em 2011, há mais galinhas no mundo do que qualquer outra espécie de pássaro ou animal doméstico. Os humanos mantêm as galinhas, primariamente, como fonte de alimentação, consumindo suas carnes e ovos.
As galinhas são onívoras (que se alimentam de tudo, carne ou vegetal). Na mata, elas muitas vezes escavam o solo em busca de sementes, insetos e mesmo animais maiores como lagartos, pequenas cobras ou camundongos jovens. Vivem de cinco a dez anos dependendo da raça. De acordo com o Livro de Recordes Guiness, uma galinha teria morrido de ataque do coração com a idade de 16 anos.
Os galos são geralmente diferenciados das galinhas por sua admirável plumagem de longas caudas ondeantes e brilhantes, penas eriçadas em seu pescoço e costas, tipicamente de cores mais brilhantes e fortes que as das galinhas da mesma raça. Contudo, em poucas raças, o galo tem as penas do pescoço apenas levemente eriçadas, da mesma cor que as galinhas. A identificação pode ser feita através da crista ou, eventualmente, pelo desenvolvimento dos esporões das pernas do galo. Galinhas adultas têm uma crista mais carnuda e abas pendentes de pele de ambos os lados do bico (barbelas). Coletivamente, essas e outras protuberâncias carnudas na cabeça e garganta, são chamadas de carúnculas. Nesta parte, há outras características menos importantes e mais particulares. Galinhas domésticas não são capazes de voos longos, embora as mais leves possam voar por curtas distâncias, como sobre cercas ou em árvores onde, naturalmente, se alojariam. Em geral só dão pequenos voos para fugir de algum perigo. 
Ninho de galinha com ovos
As galinhas são pássaros gregários, com uma abordagem comunal para a incubação de ovos e criação filhotes. Galinhas individuais num conjunto, dominarão as demais, estabelecendo uma “lei do galinheiro”, com os indivíduos dominantes tendo prioridade para acesso à alimentação e localização dos ninhos. A remoção de galinhas ou galos de um galinheiro causará uma ruptura temporária da ordem social até que uma nova lei seja estabelecida. A adição de galinhas, especialmente mais novas, a um galinheiro, pode conduzir à luta ou injúria. Quando um galo encontra alimento, pode chamar outras galinhas para comer primeiro, o que ele faz cacarejando alto e apanhando e deixando cair o alimento. Este procedimento também pode ser observado em galinhas mães para chamar seus pintos e encorajá-los a comer. O cacarejar de um galo (uma chamada alta e algumas vezes aguda) é um sinal territorial para outros galos. Contudo, o cacarejar também pode resultar de perturbações súbitas em seus arredores. As galinhas cantam alto após porem ovos, mas também para chamar seus pintos. Também dão uma “chamada de aviso” baixa quando pensam ver um predador se aproximando.
Para iniciar uma corte, alguns galos podem dançar em círculo ao redor ou próximo de uma galinha (a dança do círculo), muitas vezes baixando sua asa mais próxima da galinha. A dança desencadeia uma resposta da galinha e quando responde ao seu chamado, o galo inicia o acasalamento.
A cor dos ovos das galinhas varia, dependendo da galinha, variando do branco brilhante ao pardo e mesmo azul, verde e, recentemente reportado, púrpura, encontrado no sul da Ásia (da variedade Araucana). As galinhas tentarão se acomodar em ninhos que já contenham ovos e já se sabe de galinhas que moveram ovos de ninhos vizinhos para seus próprios ninhos. O resultado desse procedimento é que o bando usará somente poucos locais preferidos ao invés de um ninho diferente para cada pássaro. Alguns criadores usam falsos ovos, feitos de plástico ou pedra ou bolas de golfe, para encorajar as galinhas a usarem locais particulares.
Sob condições naturais, a maioria das aves põe até que uma ninhada esteja completa e então elas incubarão os ovos. Muitas galinhas domésticas também farão isso – e então se diz que elas “estão chocas”. A galinha choca para então de por e foca na incubação dos ovos (uma ninhada completa tem cerca de 12 ovos). Ela então “senta” ou se posiciona no ninho, protestando ou bicando em defesa, sempre que perturbada ou removida e, raramente, deixará o ninho para comer, beber ou se banhar na poeira. Enquanto estiver chocando, a galinha mantém o ninho a uma temperatura e umidade constante, virando os ovos regularmente durante a primeira parte da incubação. Para estimular a incubação, o proprietário pode colocar muitos ovos artificiais no ninho, o pará-la se colocarem a galinha numa gaiola elevada com assoalho de fios abertos. 
Pintos antes de sua primeira saída
Modernas raças de poedeiras não necessitam chocar e as que o fazem, muitas vezes param no meio do caminho da incubação. Contudo, algumas raças de “utilidade” (finalidades gerais), chocam regularmente, tornando-se excelentes mães, não somente para ovos de galinhas, mas também para outras espécies – mesmo para aquelas com ovos muito menores ou maiores e com diferentes períodos de incubação, tais como codornas, faisões, perus ou gansos. Ovos de galinha também podem ser chocados por uma pata choca, com sucesso variado.
Ao final do período de incubação (cerca de 21 dias), os ovos, se férteis, darão pintos. O desenvolvimento do ovo começa somente quando começa a incubação, de forma que os ovos estarão todos prontos, apenas com um dia ou dois de diferença, embora tenham sido postos por um período de duas semanas ou algo assim. Antes de encerrado o período, a galinha pode ouvir os pintos piando dentro dos ovos e vai então, gentilmente, cacarejar para estimulá-los a quebrar os ovos e saírem das cascas. O pinto começa piando e bicando um furo para respiro com seu “dente de ovo” em direção à ponta mais rombuda do ovo, em geral para cima. O pinto vai então descansar por algumas horas, absorvendo a gema restante e retirando o abastecimento de sangue da membrana sob a casca (usada antes para respirar pela casca). Ele então alarga o furo, gradualmente arredondando-o e finalmente separando completamente a ponta rombuda da casca para fazer uma tampa. Ele então rasteja para fora da casca e sua umidade seca no calor do ninho. 
Galinha tomando conta de seus pintos
Em geral ele ficará no ninho por dois dias após a primeira rachadura e durante esse tempo vive apenas da gema absorvida. Ovos não fertilizados pelo galo, não chocarão e a galinha acabará por perder o interesse neles, deixando o ninho. Após chocar, a galinha cuidará ferozmente dos pintos, mantendo-os sob si para mantê-los aquecidos, inicialmente retornando ao ninho à noite. Ela os conduz para o alimento e água, chamando-os para a comida, mas raramente alimentando-os diretamente. Ela continua a cuidar deles até que tenham várias semanas quando ela, gradualmente, perderá o interesse e finalmente começará a pôr de novo. Como se vê, a galinha, além de um excelente prato na culinária, acaba de ter sido um ótimo prato na área da pesquisa. Nada, neste mundo de Deus, pode ser subestimado!


[1] Em termos de biologia e genética molecular moderna, um genoma é o material genético de um organismo. O genoma inclui os genes (as regiões de códigos) e o DNA não codificante, bem como o material genético dos mitocôndrios e cloroplastos. Um genoma é toda a informação genética de um organismo. Por exemplo, o genoma humano é análogo às instruções armazenadas num livro de receitas. Da mesma forma que um livro de receitas dá as instruções para preparar as refeições, incluindo festas e piqueniques, o genoma humano contém todas as instruções necessárias para fazer todo o conjunto de tipos de células humanas, incluindo células musculares ou neurônios.
[2] A cultura Lapita é o nome dado a vestígios artesanais associados ao povo que colonizou a área a leste das Ilhas Solomon, chamada Oceania Remota, entre 3.400 e 2.900 anos atrás. Os sítios Lapita mais antigos foram encontrados nas Ilhas Bismarck e em 400 anos a cultura se espalhou por uma extensão de 3.400 km, alcançando as Ilhas Solomon, Vanuatu e Nova Caledônia, e para leste até Fiji, Tonga e Samoa. Localizados em pequenas ilhas e nas costas das ilhas maiores, separadas umas das outras por até 350 km, os Lapitas viveram em vilas de casas de estacas e fornos de terra, faziam uma cerâmica única, pescavam e exploravam os recursos marinhos, criavam galinhas, porcos e cães domésticos, cultivando árvores frutíferas e castanheiras.

domingo, 10 de junho de 2018

A ORIGEM DAS GALINHAS (E GALOS) - (PARTE 1 DE 2)

A ORIGEM DAS GALINHAS (E GALOS)


I - INTRODUÇÃO

Esta pesquisa foi iniciada e está sendo postada, por três razões principais: (1) como sempre, motivada pela minha própria ignorância sobre o assunto; (2) para funcionar como uma espécie de descontração para os meus artigos que, ultimamente, têm sido bem mais pesados do que o normal; (3) o fato de eu ter presenciado uma mãe perguntar a uma criança, possivelmente seu filho, se ela sabia de onde vinham as galinhas e a criança ter respondido, sem titubear: “Do supermercado!”.
Possivelmente, a resposta não deve ter deixado muito surpresa a mãe de tal criança, acostumada, desde os três anos de idade – senão menos –, a manusear ferramentas eletrônicas – e só essas ferramentas – doadas pelos próprios pais. A mim, entretanto, que quando criança cheguei a ter em casa uma pequena criação de galinhas dos meus pais, que nos fornecia, principalmente, ovos em abundância, a resposta da criança impressionou vivamente! Claro que a mãe não pretendia ter, da sua criança, uma resposta que explicasse a origem de bichinhos tão apreciados na culinária brasileira; mas pelo menos algo do tipo: bem elas são criadas no campo ou em quintais ou em grandes fazendas industriais etc...., talvez ela gostasse de ter tido como resposta. Então, vejamos como é a história toda ...

II -HISTÓRIAS E LENDAS ANTIGAS SOBRE A GALINHA

A questão real não é “Qual veio primeiro: a galinha ou o ovo?”, mas sim, “De onde veem as galinhas?” Igualmente, “Por que a galinha atravessou a rua?” pode ser uma questão que nunca será respondida, mas as circunstâncias envolvidas na ancestralidade da galinha doméstica, podem ser apreciadas.
Galo e galinha domésticos
Inicialmente, é importante que eu diga, que a maioria das pesquisas que realizo é baseada em artigos de língua inglesa. Depois de muito trabalhar nessa área, constatei que artigos traduzidos para o português de originais ingleses, ou originalmente escritos em português, em qualquer órgão e setor de pesquisa, são muito inferiores em substância e volume do material original. Nesse contexto, é também preciso que se diga, como introdução, que a palavra inglesa “fowl” (que se pronuncia “faul”) tem uma tradução bastante complicada para o português. Nos livros que li em língua inglesa, em geral na literatura mais antiga, a palavra era muito empregada quando os participantes participavam das tradicionais caçadas da corte ou dos nobres, principalmente ingleses. Nesse caso, a caçada muitas vezes era à “fowl”, genericamente interpretada como “ave”, em geral selvagem, de todos os tipos, preferencialmente as de maior porte. Os dicionários a traduzem como qualquer ave ou pássaro, aves coletivamente, ave comestível, galinha, aves domésticas, carne de galinha etc ... É também um verbo e, nesse caso, traduzido como caçar, matar ou apanhar aves selvagens. Essa palavra aparece muito em nossa postagem e vamos traduzi-la de maneira variada, segundo a oportunidade, por ave, galináceo ou mesmo galinha.
A epopeia galinácea começou há 10.000 anos atrás numa selva asiática e termina hoje nas cozinhas de todo o mundo. De acordo com a lenda, as galinhas foram descobertas ao lado de uma estrada na Grécia, na primeira década do século V AC. O general ateniense Temístocles, no seu caminho para confrontar as forças invasoras persas, parou para olhar dois galos brigando e reuniu suas tropas, dizendo: “Vejam, eles não estão lutando por seus deuses domésticos, pelos monumentos de seus ancestrais, por glória, por liberdade ou pela segurança de seus filhos, mas somente porque um não quer ceder a passagem ao outro”. A história não conta o que aconteceu com o galo perdedor, nem explica por que os soldados acharam a cena de instintiva agressão inspiradora ao invés de sem sentido e deprimente. Mas a história registra que os gregos, assim encorajados, avançaram para repelir os invasores, preservando a civilização que hoje homenageia aquelas mesmas criaturas (os galos), alimentando-as, fritando-as e mergulhando-as em algum molho de sua escolha. Os descendentes daqueles galos bem que poderiam imaginar – desde que fossem capazes de tão profundo pensamento -que os seus ancestrais deveriam ter muita coisa a explicar.
A galinha é onipresente alimento da nossa era, cruzando múltiplas fronteiras com facilidade. Com seu sabor suave e textura uniforme, a galinha apresenta uma intrigante tela vazia para a paleta de sabores de qualquer cozinha. Uma geração de britânicos cresce na crença de que “frango tikka masala”[1] é o prato nacional, e a mesma coisa acontece na China com o famoso “Kentucky Fried Chicken”[2]. Muito tempo após as famílias terem algumas galinhas correndo pelo pátio (como eu tive quando pequeno), que podiam ser agarradas e transformadas em jantar, os frangos permanecem um nostálgico e evocativo prato para muitos americanos. Como as galinhas alcançaram tal domínio cultural e culinário?
Tudo fica ainda mais surpreendente sob a crença de muitos arqueólogos de que a galinha foi inicialmente domesticada, não para servir de alimento, mas para brigas de galo. Até o advento da produção industrial em larga escala, no século XX, a contribuição econômica e nutricional da galinha foi modesta e nada, como o cavalo e o boi, que pudesse mudar o curso da história. Contudo, a galinha tem inspirado contribuições à cultura, arte, cozinha, ciência e religião, por milênios. As galinhas foram, e ainda são, em algumas culturas, um animal sagrado. A prodigiosa e sempre atenta galinha foi, em todo o mundo, símbolo de nutrição e fertilidade. Ovos eram suspensos em templos egípcios para garantir uma enchente generosa. O vigoroso galo sempre teve o significado universal de virilidade – mas também, na antiga fé persa do Zoroastrianismo, um espírito benigno que cantava ao amanhecer para anunciar um ponto de inflexão na luta cósmica entre a escuridão e a luz. As galinhas acompanhavam os exércitos romanos e seu procedimento era cuidadosamente observado antes de uma batalha: um bom apetite significava que uma vitória poderia ser esperada. Em 249 AC, o general romano Publius Claudius Pulcher jogou ao mar suas galinhas sagradas porque se recusaram a comer antes da Batalha de Drepana. A história registra que ele foi derrotado contra os cartagineses e 93 navios romanos foram afundados. Ao voltar para Roma, foi julgado por impiedade e multado pesadamente.
Entretanto, uma importante tradição religiosa – ironicamente a que deu origem à “sopa de bolas de pão ázimo” e à “ceia de galinha dominical” – falharam em inflar as galinhas de muito significado religioso. As passagens do Velho Testamento relativos a sacrifícios rituais, revelam uma distinta preferência da parte de Javé, por carne vermelha sobre a carne de galinha. No Levítico 5:7, uma oferenda de culpa de duas tartarugas marinhas ou pombas é aceitável se o pecador em questão não pode adquirir um cordeiro, mas de forma alguma o Senhor vai solicitar uma galinha. O galo representa um pequeno, mas crucial papel nos Evangelhos, ao ajudar na concretização da profecia de que Pedro negaria a Jesus “antes que o galo cantasse”. No século IX, o Papa Nicolau I decretou que a figura de um galo fosse colocada no topo de cada igreja, como uma lembrança do incidente, razão pela qual muitas igrejas ainda possuem as pás para indicação da direção do vento em forma de galo. Não há implicação de que o galo tenha feito algo além de marcar a passagem das horas, mas até mesmo essa secundária associação com traição não favoreceu a causa da galinha na cultura ocidental. No uso americano contemporâneo, as associações com a galinha são covardia, ansiedade neurótica e pânico sem efeito.
O fato é que o macho da espécie pode ser um animal bastante agressivo, especialmente quando criado e treinado para a luta. A natureza armou o galo com um esporão ósseo na perna; os humanos suplementaram aquela característica com um arsenal de esporas metálicas e pequenas lâminas amarradas às pernas da ave. Em muitos lugares do mundo a briga de galos é proibida e vista como desumana, mas em lugares onde ela ainda é praticada, legal ou ilegalmente, é tida como o esporte contínuo mais antigo do mundo. Representações artísticas de galos combatentes estão espalhadas por todo o mundo antigo, como no mosaico que adorna uma casa de Pompeia, datada do primeiro século de nossa era. A cidade grega de Pérgamo estabeleceu um anfiteatro de briga de galos para ensinar o valor às futuras gerações de soldados.

III – CIENTIFICAMENTE FALANDO

Casal de galináceos selvagens vermelhos
 A galinha domesticada tem uma genealogia complicada que retroage de 7.000 a 10.000 anos e envolve, de acordo com pesquisa recente, pelo menos dois progenitores selvagens e, possivelmente, mais de um evento de domesticação inicial. Os mais antigos fósseis ósseos identificados como possivelmente pertencentes a galinhas, aparecem em regiões do nordeste da China, datando de cerca de 5.400 AC, mas os ancestrais selvagens dos pássaros nunca viveram naquelas frias e secas planícies. Assim, se eles são realmente ossos de galinha, devem ter vindo de outros lugares, muito provavelmente do sudeste da Ásia. De acordo com uma teoria desenvolvida por Charles Darwin e recentemente confirmada por análises de DNA, o progenitor selvagem da galinha é o galináceo selvagem vermelho, Gallus gallus. A semelhança do pássaro às galinhas modernas manifesta-se pela papada e crista vermelha dos machos, o esporão que ele usa para lutar e seu canto de acasalamento. As fêmeas, de cor parda, chocam seus ovos e cacarejam exatamente como as galinhas no galinheiro. Em seu habitat, que se estende do nordeste da Índia às Filipinas, o Gallus gallus garimpa os solos das florestas em busca de insetos, sementes e frutos, voando para o ninho nas árvores à noite. Esse é todo o voo que ele consegue, um traço que tinha um apelo óbvio à busca humana para a captura e criação. Posteriormente, isso valorizaria a galinha aos africanos, cujas nativas galinhas de angola tinham o mau hábito de voar para a floresta quando o espírito as movia.
Belo exemplar de Gallus gallus macho
Sempre que uma nova pesquisa acontece que esclareça ou apenas coloque uma ponta mais fina sobre algo que Darwin escreveu, alguém deve aparecer e colocar a questão: “Darwin estava errado?”; como se ele tendo feito algo errado desqualificasse o resto de suas contribuições para a biologia e nos fizesse retornar à crença de que moscas fossem espontaneamente geradas na lama. Vejamos o que disse Darwin e o quanto ele estava errado.
Darwin se interessou pelas duas maiores teorias de seu tempo sobre as galinhas. Uma era uma teoria multirregional, muito semelhante à hoje desacreditada versão da evolução humana, onde cada espécie de galinha foi domesticada de uma diferente forma selvagem. A outra era a de que todas descendiam de um ancestral, o Gallus gallus bankiva, também conhecido como Gallus bankiva. Darwin usou galinhas de uma ampla forma no desenvolvimento de suas ideias sobre a evolução e, finalmente, favoreceu a hipótese de uma origem única, descreveu a espécie primordial da sua escolha, a ave selvagem vermelha, como muito mais diversa em caráter do que é geralmente caracterizada hoje.
Estudo recente afirma que, na base de experimentos observados de diferenças de características e procriação cruzada, Darwin havia concluído que galinhas domésticas eram descendentes apenas da ave selvagem vermelha, embora isso fosse posteriormente refutado por Hutt, que estabeleceu que pelo menos quatro diferentes espécies de aves selvagens teriam contribuído para a domesticação da galinha. Estudos moleculares de DNA e inserção retroviral apoiaram o ponto de vista de Darwin, encontrando evidências de que as aves selvagens cinza e do Ceilão podem se cruzar com galinhas domésticas, mas não fornecem evidência de que essas duas espécies tenham contribuído para a domesticação da galinha. Buscando pela mutação causal, a análise incluiu três outras espécies de aves selvagens na comparação sequencial: aves selvagens cinza (Gallus sonneratii), Ceilão (Gallus lafayetii) e verde (Gallus varius). Tal passo foi motivado pelo fato de que as aves selvagem e do Ceilão têm pernas vermelhas ou amareladas, o que implica na deposição de carotenoides. As aves selvagens cinza e vermelha têm, atualmente, alcances separados, que pode ser produto de alterações ecológicas recentes, incluindo alterações humanas de habitat. Além disso, nos primeiros dias de domesticação da galinha, não havia razão para suspeitar que uma simples origem seria seguida por um isolamento imediato de formas selvagens e, de fato, toda a evidência disponível, incluindo aquela que é aqui relatada, sugere o contrário.
Um novo estudo, da Universidade de Uppsala, em Uppsala, Suécia, sua mais antiga universidade (1477), mostra que as origens da galinha são mais complicadas. Segundo o estudo, os pesquisadores mapearam os genes que dão à maioria das galinhas domésticas, pernas amarelas, e descobriram que a hereditariedade genética deriva de uma espécie que lhe é muito proximamente ligada, a ave selvagem parda, do sudeste asiático. O estudo foi recentemente publicado na edição da Web do “PLOS Genetics” (Genética do PLOS), um jornal acadêmico confiável de acesso público, publicado mensalmente pelo PLOS – Public Library of Science (Biblioteca Pública de Ciência), editora sem fins lucrativos e acesso aberto, na área da ciência, tecnologia e medicina: “Nossos estudos mostram que, embora a maioria dos genes encontrados em aves domésticas, venham da ave selvagem vermelha, pelo menos uma outra espécie deve ter contribuído, especificamente, a ave selvagem parda”, disse Jonas Eriksson, um estudante de doutorado na Universidade de Uppsala. A ave selvagem parda foi provavelmente cruzada com uma forma anterior da galinha doméstica, crê a equipe de Eriksson. Entretanto, a quantidade exata de material genético com que essas outras aves contribuíram para o DNA de galinhas domesticadas, permanece como conjectura apenas.
A verdade parece ser que Darwin não errou, mas estava substancialmente certo. Antes, Darwin tinha uma ideia melhor da variação nas formas selvagens do que podemos apreciar hoje. Não é mau considerar que toda a moderna teoria sobre as origens de formas domesticadas vem após e deriva de Darwin. Os estudos de Darwin de animais domésticos tiveram importância chave à sua teoria da evolução, que também explicou as origens selvagens de animais domésticos. “O que é irônico é que Darwin pensava que mais de uma espécie selvagem havia contribuído para o desenvolvimento do cão, mas que a galinha tinha vindo de uma só espécie selvagem, a ave selvagem vermelha. Agora acontece que a coisa funciona exatamente ao contrário”, diz Greger Larson, um pesquisador da Universidade de Uppsala e da Universidade de Durham, na Inglaterra.


[1] O “Chicken Tikka Masala”, o prato mais frequentemente servido em restaurantes britânicos, é um prato indiano, cujo molho masala foi adicionado para satisfazer o desejo inglês de ter sua comida servida em molho de carne. Trata-se de uma autêntica receita Mughlai preparada pelos ancestrais indianos que eram cozinheiros reais no período Mughal, que se estendeu, grosseiramente, do século XVI ao século XVIII.
[2] KFC, até 1991 conhecido como Kentucky Fried Chicken,é uma cadeia de restaurantes “fast food” que se especializou em galinha frita. Tem quartel general em Louisville, Kentucky, USA, e é a segunda maior cadeia de restaurantes, após o McDonald, com quase 20.000 locais espalhados por 123 países, dados de dezembro de 2015. Foi fundada pelo Coronel Harland Sanders, um empreendedor que começou vendendo galinha frita em seu restaurante de beira de estrada em Corbin, Kentucky, durante a “Grande Depressão”.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 8 (Final)

V – IMPÉRIO TIMÚRIDA (1370-1507)


Reconstrução facial de Timur
a partir do crâneo
O Irã permaneceu dividido até a chegada de Amir Timur (ou Tamerlão, do turcomano Timur-i-Lenk, Timur, o coxo), de origem mongol ou turca, pertencendo à dinastia Timurid. O Império Timúrida, como seus predecessores, era também parte do mundo Persianato e no seu auge envolveu o Irã moderno, o Cáucaso, Mesopotâmia, Afeganistão, muito da Ásia Central, bem como partes do atual Paquistão, Síria e Turquia. Timur conquistou grandes partes da Ásia Central de 1363 em diante, com várias alianças, sendo reconhecido como líder entre eles em 1370.
Após estabelecer uma base de poder na Transoxiana, Timur iniciou sua campanha para o oeste em 1380, invadindo o Irã em 1381. Cerca de 1389 Timur havia adentrado o território principal da Pérsia onde teve muitos sucessos, acabando por conquistar sua maior parte. Em 1400-1401 ele conquistou Alepo e Damasco, na Síria e a área oriental da Anatólia; em 1401 ele destruiu Bagdá e em 1402 derrotou os Otomanos na Batalha de Ankara, tornando-se o mais proeminente governante muçulmano da época, com o Império Otomano mergulhando na guerra civil. Seu regime caracterizou-se pela inclusão de iranianos em posições administrativas e pela promoção da arquitetura e poesia e durou até a sua morte em 1405.
Timur indicara seus filhos e netos como líderes das diferentes partes do seu império. Após a sua morte a família caiu rapidamente em disputas e guerras civis e muitas das suas governanças tornaram-se efetivamente independentes. Entretanto os governantes timúridas continuaram a dominar muito daquela área, perdendo os territórios do Cáucaso e Anatólia cerca de 1430.
Com a destruição das cidades persas pelas guerras, o assento da cultura persa quedou-se em Samarkand e Herat, que se tornaram centros da renascença timúrida. As campanhas de Timur ficaram conhecidas por sua brutalidade: muitas cidades foram destruídas e estima-se que suas conquistas custaram a morte de 17 milhões de pessoas.
Seus sucessores Timúridas, mantiveram o poder sobre a maioria do Irã até 1452, quando perderam a maior parte para os Kara Koyunlu, que foram conquistados pelos Ak Koyunlu, liderados por Uzun Hasan, em 1468; Uzun Hasan e seus sucessores foram os governantes do Irã até a ascensão dos Safávidas.

V.1 – OS KARA KOYUNLU

Os Kara Koyunlu, também chamados “Turcomanos das Ovelhas Negras” foram uma federação tribal Oghuz Turca xiita que governou o território que compreendia os atuais Azerbaijão, Armênia, noroeste do Irã, Turquia Oriental e a região nordeste do Iraque, de 1375 a 1468. Em algum momento eles haviam estabelecido sua capital em Herat (Irã Oriental). Foram vassalos do Sultanato Jalairida, em Bagdá e Tabriz (extremo noroeste do Irã), cerca de 1375, quando o líder de sua tribo principal governava de Mosul (cidade do norte do Iraque, no rio Tigre). Eles então se rebelaram contra os Jalairidas, assegurando sua independência da dinastia com a conquista de Tabriz por Qara Yusuf. Em 1400, Timur derrotou Kara Koyunlu e Qara Yusuf fugiu para o Egito buscando refúgio com o Sultanato Mameluco. Cerca de 1406 ele reuniu um exército e tomou novamente Tabriz. Em 1410 os Kara Koyunlu capturaram Bagdá, onde instalaram uma linha secundária dos “Ovelhas Negras” que apressou a queda dos Jalairidas que eles haviam servido anteriormente. Embora a luta interna entre os descendentes de Qara Yusuf após a sua morte, em 1420, e a crescente ameaça da dinastia Timúrida, os Kara Koyunlu mantiveram um forte controle sobre as áreas que eles dominavam. Jahan Shah fez paz com o timúrida Shahrukh Mirza que durou pouco, pois quando este morreu, em 1447, os “Ovelhas Negras” anexaram porções do Iraque e a costa oriental da Península Arábica, além da região ocidental do Irã controlada pelos timúridas. Embora muito território tenha sido ganho durante o seu reinado, ele foi complicado por seus filhos rebeldes e os quase autônomos governantes de Bagdá, que ele expulsou em 1464. Em 1466, Jahan Shah tentou tomar Diyarbakir (na atual Turquia) dos Ak Koyunlu, sofrendo um catastrófico fracasso que terminou com a morte de Jahan Shah e o colapso do controle dos “Ovelhas Negras” turcomanos no Oriente Médio. Cerca de 1468, no seu auge, sob Uzun Hasan (1452-1478), os Ak Koyunlu derrotaram os Kara Koyunlu e conquistaram o Iraque, o Azerbaijão e o Irã Ocidental.

V.2 – OS AK KOYUNLU

Os Ak Koyunlu (ou Aq Qoyunlu), também chamados de Turcomanos das “Ovelhas Brancas”, foram uma federação tribal turca do Persianato Sunita Oghuz que governou os modernos Azerbaijão, Armênia, Turquia Oriental, parte do Irã e o norte do Iraque, de 1378 a 1501. De acordo com as crônicas sobre o Império Bizantino, os Ak Koyunlu foram os primeiros do distrito de Bayburt (região da Anatólia Nordeste da Turquia), ao sul das montanhas Pontic, pelo menos desde os 1340, e a maioria de seus líderes, incluindo o fundador da dinastia, Qara Osman, casaram com princesas bizantinas. Os turcomanos Ak Koyunlu compraram suas primeiras terras em 1402, quando Timur lhes garantiu todo Diyar Bakr, a sudeste da atual Turquia. Por muito tempo os “Ovelhas Brancas” não puderam expandir seu território pois seus rivais, “Ovelhas Negras”, os mantinham cercados. Isso mudou com o governo de Uzun Hassan que derrotou seu líder Jahan Shah em 1467. Após a derrota de Abu As’id, o líder timúrida, Uzun Hasan conseguiu tomar Bagdá com vários territórios em torno do Golfo Pérsico. Expandiu seu reino para leste do Irã até o Khorasan. Contudo, por esta época, o Império Otomano iniciava sua expansão para o leste, tornando-se uma séria ameaça que forçou os Ak Koyunlu a uma aliança com os Karamanidas da Anatólia Central. Desde 1464 Uzun Hasan havia solicitado ajuda de um dos mais fortes inimigos do Império Otomano, Veneza. Embora suas promessas, a ajuda veneziana nunca chegou e, como resultado, Uzun Hasan foi derrotado pelos Otomanos na batalha de Otlukbeli, em 1473, embora os Ak Koyunli não fossem destruídos. Uzun Hasan morreu no início de 1478 e foi sucedido por seu filho Khalil Mirza, derrotado por uma confederação sob o comando de seu irmão mais jovem Ya’qub, na batalha de Khoy, em julho do mesmo ano. Ya’qub reinou de 1478 a 1490 sustentando a dinastia ainda por algum tempo. Contudo, durante seus primeiros quatro anos de reinado, sete pretendentes ao trono tiveram que ser eliminados. Após a sua morte a guerra civil irrompeu e os Ak Koyunlus se destruíram em combates internos, a ponto de deixarem de ser uma ameaça a seus vizinhos.

VI - IMPÉRIO SAFÁVIDA (1501-1736)

O Império Safávida inaugura o que na história da Pérsia é denominada de “Idade Moderna Inicial” e que vai de 1502 a 1925. Por essa razão, este será o último item da nossa publicação sobre o assunto e só o estudaremos parcialmente. 
O Império Safávida à época de sua maior extensão
A Pérsia passou por uma espécie de renascimento com a Dinastia Safávida, que reinou de 1501 a 1736 e cuja figura mais proeminente foi Shah Abbas I. Alguns historiadores creditam à dinastia Safávida a fundação do moderno Estado-Nação do Irã.
A dinastia Safávida foi uma das mais significativas dinastias governantes da Pérsia. Eles governaram um dos maiores impérios persas após a conquista muçulmana da Pérsia e estabeleceram a Escola dos Doze do islamismo xiita, como a religião oficial do seu império, marcando um dos mais pontos críticos da história muçulmana. Os Safávidas governaram de 1501 a 1722 (experimentando uma breve restauração de 1729 a 1736) e no seu auge controlaram todo o atual Irã, Azerbaijão, Armênia, a maior parte da Geórgia, o norte do Cáucaso, Iraque, Kuwait e Afeganistão, bem como partes da Turquia, Síria, Paquistão, Turquemenistão e Uzbequistão. O Irã Safávida foi um dos “impérios da pólvora” muçulmanos, junto com seus vizinhos, o arquirrival e principal inimigo, o Império Otomano, e o Império Mughal (ou Mogul). 
Shah Ismail I, fundador da dinastia Safávida
O governo Safávida foi fundado por Ismail, que intitulou-se Shah Ismail I. Praticamente adorado por seus seguidores militantes xiitas do Azerbaijão, Anatólia e Curdistão (militantes Qizilbash), Ismail I invadiu o Xirvam (cidade do leste do Azerbaijão) para vingar a morte de seu pai Shaykh Haydar, morto durante o cerco de Derbente (cidade mais meridional da Rússia), na república do Daguestão, mar Cáspio. Posteriormente seguiu em campanha de conquista e logo após a captura de Tabriz (uma das capitais históricas do Irã), em julho de 1501, entronou-se como Shah do Azerbaijão e cunhou moedas com seu nome, proclamando o Xiismo como religião oficial de seus domínios.
Embora inicialmente apenas os mestres do Azerbaijão e sul do Dagestão, os Safávidas haviam, de fato, vencido a luta pelo poder na Pérsia, que persistia por quase um século entre as várias dinastias e forças políticas que se seguiram à fragmentação dos Kara Koyunlu e dos Ak Koyunlu. Após um ano de sua vitória em Tabriz, Ismail I proclamou a maior parte da Pérsia como seu domínio e rapidamente conquistou e unificou o Irã sob seu governo. Em seguida, o novo Império Safávida rapidamente conquistou regiões, nações e povos em todas as direções, incluindo a Armênia, Azerbaijão, partes da Geórgia, Mesopotâmia (Iraque), Kuwait, Síria, Dagestão, grande parte do atual Afeganistão, partes do Turquemenistão e grandes áreas da Anatólia, lançando a fundação do caráter multiétnico que influenciaria pesadamente o próprio Império (muito notadamente o Cáucaso e seus povos).
Durante o reinado de Tahmasp, ele realizou múltiplas invasões no Cáucaso, que havia sido incorporado ao Império Safávida desde Shah Ismail I e por muitos séculos adiante, e iniciou o movimento de deportação e movimentação de centenas de milhares de circassianos, georgianos e armênios para o território central do Irã. Inicialmente somente colocados nos haréns reais, guardas reais e seções menores do Império, Tahmasp acreditava que poderia eventualmente reduzir o poder dos militantes xiitas criando e completamente integrando uma nova camada na sociedade iraniana. Com essa nova camada caucasiana na sociedade iraniana, o poder indisputado dos Quizilbash seria questionado e muito diminuído à medida que a sociedade tornava-se totalmente meritocrática. 
Shah Abbas I, o maior dos
monarcas Safávidas
Shah Abbas I e seus sucessores expandiriam significativamente esta política e planejamento iniciado por Tahmasp, deportando, somente durante seu reino, cerca de duzentos mil georgianos, trezentos mil armênios e de cem a cento e cinquenta mil circassianos para o Irã, completando as fundações de uma nova camada na sociedade iraniana. Com isso e com a completa desorganização dos Qizilbash por suas ordens pessoais, ele acabou por ter um completo sucesso na substituição do poder dos Qizilbash pelo dos ghulams (soldados escravos nos impérios Abássida, Otomano, Safávida e, em menor extensão, Mughal, com plural ghilman) caucasianos. Estes novos elementos caucasianos seriam, após sua conversão ao xiismo e dependendo da função, quase sempre totalmente leais ao Shah, diferentemente dos Qizilbash. As demais massas de caucasianos foram organizados em todas as outras posições disponíveis no império, incluindo o harém, exército regular, artesãos, fazendeiros etc... Este sistema de uso em massa dos súditos caucasianos existiu até a queda da dinastia Qajar.
O maior dos monarcas Safávidas, Shah Abbas I, o Grande (1587-1629), chegou ao poder com 16 anos, lutando primeiro contra os Uzbeques (habitantes do Uzbequistão), recapturando Herat e Mashhad em 1598, perdidas por seu antecessor Mohammad Khodabanda com a Guerra Otomana-Safávida (1578-1590). Depois ele virou-se contra os Otomanos, arquirrivais dos Safávidas, recapturando Bagdá, o leste do Iraque e as províncias do Cáucaso e além, cerca de 1618. Entre 1616 e 1618, após a desobediência de seus mais leais súditos georgianos Teimuraz I e Luarsab II, Abbas realizou uma campanha punitiva nos seus territórios da Geórgia, devastando Kakheti (antiga província no extremo leste da Georgia) e Tbilisi (capital e maior cidade da atual Georgia), carregando consigo entre 130.000 e 200.000 cativos georgianos para o Irã. Seu novo exército, que havia sido grandemente melhorado de acordo com o modelo britânico, com o advento de Robert Shirley e seus irmãos, que se seguiram à primeira missão diplomática na Europa, infligiram sua primeira vitória sobre os otomanos, sobrepujando-os em poderio militar. Ele também usou sua nova força para expulsar os portugueses do Bahrain (1602) e de Ormuz (1622) com a ajuda da marinha inglesa, no Golfo Pérsico. Expandiu os laços comerciais com a Companhia das Índias Orientais, estabelecendo firmes laços com as casas reais europeias, iniciados por Ismail I, anteriormente, pela aliança Habsburg-Pérsia. Assim, Abbas I pôde quebrar a dependência dos Qizilbash de poderio militar, centralizando o controle. A dinastia Safávida já havia se estabelecido com Shah Ismail I, mas com Abbas I tornou-se uma das maiores potências mundiais, junto com seu arquirrival Império Otomano, com o qual ele pode competir em pé de igualdade. Foi iniciada a promoção do turismo no Irã e sob o seu governo a arquitetura persa floresceu novamente e viu muitos novos monumentos em várias cidades iranianas, das quais Isfahan tornou-se o mais notável exemplo.
Exceção feita a Shah Abbas, o Grande, Shah Ismail I, Shah Tahmasp I e Shah Abbas II, muitos dos governantes Safávidas foram ineficazes, muitas vezes com mais interesse em suas mulheres, álcool e outras atividades de lazer. O fim do reinado de Abbas II, em 1666, marcou o início do fim da dinastia Safávida. A despeito das receitas decrescentes e das ameaças militares, muitos dos últimos shahs tinham pródigos estilos de vida. O Shah Soltan Hosain (1694-1722), em particular, era conhecido por seu amor ao vinho e seu desinteresse pelas ações de governo.
O país em declínio era repetidamente atacado em suas fronteiras. Finalmente, o chefete Ghilzai Pashtun, nomeado Mir Wais Khanm, iniciou uma rebelião em Kandahar e derrotou o exército Safávida sob o governador georgiano iraniano sobre toda a região, Gurgin Khan. Em 1722, Pedro o Grande, da vizinha Rússia Imperial, lançou a Guerra Russo-Persa (1722-1723) capturando muito dos territórios caucasianos, incluindo Derbent, Shaki, Baku, mas também Gilan, Mazandaran e Astrabad. No meio de todo o caos, no mesmo ano de 1722, um exército afegão conduzido pelo filho de Mir Wais, Mahmud, marchou através do Irã oriental, sitiou e tomou Isfahan, com Mahmud proclamando-se Xá da Pérsia. Enquanto isso, os rivais imperiais da Pérsia, otomanos e russos, tiravam vantagem do caos no país para tomar mais territórios para si. Com esses eventos, a dinastia Safávida efetivamente terminava. Em 1742, de acordo com o tratado de Constantinopla, os otomanos e russos concordaram em dividir entre si os territórios recém conquistados do Irã.
A integridade territorial do Irã foi restaurada por um líder militar iraniano nativo de origem turca, da dinastia Afshar, do Khorasan, chamado Nader Shah. Ele derrotou e baniu os afegãos, derrotou os otomanos, reinstalou os Safávidas no trono e negociou a retirada russa dos territórios iranianos no Cáucaso, pelos tratados de Resht e Ganja. Por 1736, Nader tinha se tornado tão poderoso que pode destronar os Safávidas coroando-se Shah. Nader foi um dos últimos grandes conquistadores da Ásia e brevemente possuiu o que foi provavelmente o mais poderoso império do mundo. Para ajuda financeira em suas guerras contra seus arquirrivais otomanos, ele se dedicou ao fraco, mas rico Império Mughall a leste, na Índia. Em 1739, acompanhado por seus leais súditos caucasianos, ele invadiu a Índia Mughall, derrotou um exército numericamente superior em menos de três horas, saqueando e pilhando totalmente a sua capital, Delhi, levando uma imensa fortuna de volta à Pérsia. Em seu retorno também conquistou todos os canatos do Uzbequistão, exceto Kokand, tornando-os seus vassalos. Restabeleceu firmemente o domínio persa sobre todo o Cáucaso, Bahrain, bem como grandes áreas da Anatólia e Mesopotâmia. Sem sofrer derrotas por muitos anos, sua derrota no Daguestão, as rebeliões de guerrilha dos Lezgins que se seguiram e a sua tentativa de assassinato próximo de Mazandaran, é muitas vezes vista como o ponto crítico da impressionante carreira de Nader. Frustrante para ele, os dagestanis recorreram à guerrilha e Nader, com seu exército regular pode fazer pouco progresso contra eles. Na Batalha de Andalal e na Batalha de Avaria, o exército de Nader foi totalmente derrotado e ele foi obrigado a fugir para as montanhas. Em 1747 ele foi finalmente assassinado. Sua morte foi seguida por um período de anarquia no Irã com os comandantes rivais do exército lutando por poder. A própria família de Nader, os afsharidas, logo foram reduzidos a manter apenas um pequeno domínio no Khorasan. Muitos dos territórios caucasianos se dividiram em vários canatos caucasianos. Os otomanos recuperaram territórios perdidos na Anatólia e Mesopotâmia. Oman e os canatos do Uzbequistão de Bukhara e Khiva recuperaram sua independência. Ahmad Shah Durrani, um dos oficiais de Nader, fundou um estado independente que veio a tornar-se o atual Afeganistão. Erekle II, que havia sido indicado rei do Kakheti pelo próprio Nader em 1744, declarou-se independente e tomou para si o vizinho Reino de Kartli. Mais tarde ele uniria o Reino de Kartli-Kakheti e tornar-se ia o novo rei georgiano de uma Geórgia Oriental politicamente unida pela primeira vez em três séculos. De sua capital Shiraz, Kharim Khan, da dinastia Zand, fez uma ilha de relativa calma e paz no que anteriormente havia sido um período destrutivo e sangrento; contudo, a extensão do poder Zand foi confinado ao Irã contemporâneo e partes do Cáucaso. Entre 1747 e 1795, durante o período Zand, Erekle foi, portanto, pelos acontecimentos no Irã, capaz de manter a autonomia da Geórgia. A morte de Karim Khan em 1779 conduziu a uma outra guerra civil em que a dinastia Qajar acabou por triunfar transformando-se em reis do Irã. Durante a guerra civil, o Irã perdeu, permanentemente, Basra, capturada pelos persas durante a guerra persa-otomana em 1779 e Bahrain para a família Al Khalifa após a invasão Bani Utbah, em 1783.
A partir daí, já entramos na idade moderna do Irã, que foge do escopo de nossa apresentação do Império Persa, conforme explicitado na Introdução, razão pela qual aqui encerramos a nossa postagem.

VII - CONCLUSÃO

A história do Império Persa é bem mais complexa que a de outros impérios similares e sua pesquisa foi bem mais trabalhosa que outras publicações, por vários motivos.
Sua região física, banhada pelo Mar Báltico, ao norte, e pelo Golfo Pérsico, ao sul, rota estratégica entre os países asiáticos, o Oriente Médio e a Europa, através do Mar Mediterrâneo e a Turquia, sempre foi muito cobiçada por muitos outros povos conquistadores – quando ele mesmo não exerceu este papel. Com isso, foi inevitável que sofresse, enormemente, a influência dos gregos, romanos e muitas outras nações, mas principalmente dos árabes muçulmanos, durante todo o extenso período em que foi por eles ocupado.
Em função disso, o Irã moderno, embora tenha preservado, em muito, suas próprias origens culturais, não pode esconder a imensa influência sofrida durante os muitos anos em que foi ocupado por outras civilizações.
Prova disso, a religião do Irã é, oficialmente, o islamismo do ramo Xiita, estabelecida pela constituição do país, já que o islamismo não adota a separação entre Igreja e Estado, integrando o seu governo desde a islamização do Irã, cerca do ano 640. O islamismo é professado por 99,9% da população, sendo que 93,6 5 são adeptos do xiismo; outros 6,3% seguem a seita Sunita. Os remanescentes (0,1% da população) são seguidores de credos não islâmicos, que incluem os Zoroastrianos (religião original do Império Persa, com poucas dezenas de milhares de praticantes), Judeus, Cristãos e outros. Como vimos, antes da chegada do Islamismo ao Irã, a maioria da população era Zoroastriana, culto oficial do Império Sassânida; em 1986 estimava-se a existência de 32 mil zoroastrianos no Irã, residindo principalmente nas cidades de Teerã, Yazd e Kerman. A comunidade judaica no Irão remonta aos tempos do cativeiro da Babilônia; quando Ciro II autorizou o regresso dos Judeus a Jerusalém, muitos optaram por permanecer, adotando a língua e cultura persas. A outra minoria religiosa relevante no Irão é formada pelos cristãos, estimados em 300.000, em sua maioria ortodoxos armênios, seguidos por cristãos assírios, com autonomia nas instituições de ensino. O Cristianismo é também oficialmente protegido pela constituição iraniana.
Com relação à língua, os iranianos foram bem mais felizes e o Persa é, atualmente, o idioma oficial do país. Lembrando o que vimos anteriormente, o movimento Shu’ubiyyah, criado nos séculos IX e X em resposta ao status privilegiado dos árabes, primariamente com a intenção de preservar a cultura e a identidade persas, teve como seu mais notável efeito a manutenção da língua persa até os dias atuais. Persa, o nome mais utilizado para se referir ao idioma em português, é uma forma derivada do latim e uma forma helenizada do persa antigo Parsa. Os falantes nativos do persa iraniano chamam o idioma de Farsi, forma arabizada de Parsi já que o árabe não possui o fonema “p”.
Quanto à sua etnia, por tudo quanto dissemos anteriormente, é muito fácil entender que o Irã é hoje um país multirracial. A maioria da população do Irã (entre 67 e 80%) consiste de “povos iranianos”. O maior grupo dessa categoria inclui os persas (maioria da população iraniana) e os curdos, com comunidades menores que incluem os Gilakis, Mazandaranis, Lurs, Tats, Talysh e Baloch.
Os grupos turcos (caucasianos) constituem uma minoria substancial (cerca de 15 a 24%), cujo maior grupo é o dos Azerbaijani, segunda maior etnia do Irã bem como o maior grupo minoritário. Outros grupos turcos incluem os povos Turcomanos e Qashqai.
Os árabes respondem com cerca de 2 a 3% da população iraniana. Os restantes, compondo 1% da população iraniana, consistem de uma variedade de grupos menores, compreendendo principalmente Assírios, Armênios, Georgianos, Circassianos e Mandaeanos.
Esta a história resumida do Império Persa, iniciado há 7.000 anos AC e sobrevivendo com todos os seus percalços até hoje.