Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 1

I - INTRODUÇÃO

Inicio este trabalho, que considero, talvez, o mais importante de tantos quantos publiquei até hoje, com um parágrafo do prefácio da obra “História da Reforma do Século XVI”, de autoria de J. H. Merle d’Aubigné. E faço isto, porque considero este parágrafo extremamente importante para a questão que me proponho apresentar, qual seja, a Reforma:

“A história de uma das maiores revoluções jamais consumadas nas relações humanas – de um poderoso impulso comunicado ao mundo três séculos atrás, e cuja influência é ainda hoje visível em todo o mundo – e não a história de uma mera facção, é o objeto da minha presente empresa. A história da Reforma é distinta da história do Protestantismo. Na primeira, cada coisa traz a marca do renascimento da raça humana – de uma mudança religiosa e social emanando do próprio Deus. Na segunda, muitas vezes testemunhamos uma evidente degeneração dos princípios originais, lutas entre facções, um espírito sectário e os traços de mesquinhas individualidades. A história do Protestantismo pode ter interesse apenas para os Protestantes; a história da Reforma se dirige a toda a Cristandade, ou ainda, a toda a Humanidade.”

A Reforma Protestante, muitas vezes conhecida simplesmente por “Reforma”, foi um cisma (ou uma dissidência) da Igreja Católica Romana iniciado por Martin Luther e continuado por Jean Calvin e outros reformadores protestantes da Europa do século XVI.
Embora tenham havido tentativas significativas anteriores para reformar a Igreja Católica Romana, como as de Jan Hus, Peter Waldo e John Wycliffe, Martin Luther[1] é amplamente reconhecido por ter iniciado a Reforma com suas “Noventa e Cinco Teses”[2], de 1517.
O movimento religioso que iniciou na Europa Ocidental e que, ostensivamente, visava uma renovação interna da Igreja, realmente conduziu a uma grande revolta contra si e a um abandono das principais crenças cristãs.
Luther começou por criticar a venda de indulgências, insistindo que o Papa não tinha autoridade sobre o Purgatório e que a doutrina católica dos “méritos dos Santos”[3] não possuía respaldo nos Evangelhos. A posição protestante, entretanto, incorporaria mudanças doutrinais como os cinco “Somente” (de que ainda falaremos). A motivação central atrás dessas mudanças era teológica, embora muitos outros fatores tenham agido, incluindo a ascensão do nacionalismo, o “Cisma Ocidental”, que erodiu a fé do povo no Papado, a corrupção observada na Cúria Romana, o impacto do humanismo e o novo “Renascimento” que questionou muito do pensamento tradicional.
O movimento iniciado na Alemanha proliferou em vários lugares e outros impulsos à reforma surgiram independentes de Lutero. A difusão criada pela prensa de Gutenberg forneceu os meios necessários para a rápida disseminação de materiais religiosos no vernáculo. Os maiores grupos foram os Luteranos e os Calvinistas. As igrejas luteranas foram fundadas, principalmente, na Alemanha, nos Bálticos e na Escandinávia, ao passo que as calvinistas na Suíça, Hungria, França, Holanda e Escócia. O novo movimento influenciou a Igreja da Inglaterra[4] decisivamente após 1547, embora tenha se tornado independente sob Henry VIII, mais por razões políticas do que religiosas.
Outros movimentos reformadores também aconteceram por toda a Europa, conhecidos por Reforma Radical, que deu origem aos movimentos Anabatista[5], Moraviano e outros. Os reformadores radicais, além de formar comunidades fora da sanção do Estado, muitas vezes empregaram mudanças doutrinárias extremadas, tais como a rejeição das doutrinas dos Concílios de Niceia e Calcedônia.
A Igreja Católica Romana respondeu com uma Contrarreforma iniciada pelo “Concílio de Trento”. Desenvolvido em três períodos, entre 1545 e 1563, nas cidades de Trento e Bolonha, norte da Itália, o “Concílio de Trento” foi dos mais importantes concílios ecumênicos da Igreja Católica Romana. Motivado pela Reforma, ele tem sido descrito como a personificação da Contrarreforma. Quatrocentos anos mais tarde, quando o Papa João XXIII preparava o “Concílio Vaticano Segundo”, ele confirmou os éditos então emitidos: “O que era ainda é”. Como os éditos, o Concílio emitiu condenações do que ele definiu como heresias cometidas pela Reforma e, em resposta a eles, declarações-chave e esclarecimentos sobre as doutrinas e ensinamentos da Igreja. Tais incluíram uma ampla gama de assuntos, incluindo as Escrituras, o Cânon Bíblico, a tradição sagrada, o pecado original, reabilitação, salvação, os sacramentos, a Missa e a veneração dos Santos. O Papa Paulo III, que convocou o Concílio, presidiu a abertura e as onze primeiras sessões (1545-1547); as sessões de números 12 a 16 (1551-1552) foram presididas pelo Papa Júlio III e as sessões 17 a 25 (1562-1563), pelo Papa Pio IV.
Em geral, o norte da Europa, com exceção da maior parte da Irlanda ficou sob a influência do Protestantismo (como sinônimo de Reformador), enquanto o sul da Europa permaneceu Católico Romano, embora a Grécia permanecesse, predominantemente, Ortodoxa Oriental, ao passo que a Europa Central foi um local de conflito feroz, que culminou com a Guerra dos Trinta Anos, que a deixou devastada.
Todos os assuntos apenas anunciados nesta Introdução, serão vistos com detalhes na exposição que segue.

II – IDEIAS GERAIS DAS CAUSAS DA REFORMA

As causas da grande revolução religiosa do século XVI retroagem até o século XIV.
A doutrina da Igreja, é verdade, havia até então permanecido pura; vidas santas eram ainda frequentes em todas as partes da Europa e as numerosas instituições medievais beneficentes da Igreja continuavam o seu curso sem interrupção. Fossem quais fossem as condições infelizes que existiam, eram devidas às influências civis e profanas ou pelo exercício de autoridade por eclesiásticos nas esferas civis; as coisas não eram obtidas em todos os lugares com a mesma intensidade, nem ocorriam simultaneamente no mesmo país. A vida eclesiástica e religiosa exibia, em muitos lugares, vigor e variedade; trabalhos de educação e caridade abundavam; a arte religiosa, em todas as suas formas, tinha uma força viva; os missionários domésticos eram muitos e influentes; uma literatura pia e edificante era comum e apreciada. Gradualmente, contudo, e muito devido ao espírito hostil, de forma variada, dos poderes civis, nutrido e aumentado por vários elementos da nova ordem, surgiram, em várias partes da Europa; condições políticas e sociais que obstruíram as livres atividades reformadoras da Igreja, favorecendo o audacioso e o inescrupuloso, que usou uma oportunidade única de liberar todas as forças de heresia e cisma por tanto tempo mantidas em cheque pela ação harmoniosa das autoridades eclesiásticas e civis.
Desde as invasões bárbaras, a Igreja havia observado uma transformação e renascimento completos das raças da Europa Oriental, além de um desenvolvimento glorioso da vida intelectual e religiosa. O Papado havia se tornado o centro de poder da família das nações cristãs e como tal teve, por séculos, em união com o episcopado e o clero, disponibilizado uma atividade muito benéfica. Com a organização eclesiástica plenamente desenvolvida, ocorreu que as atividades dos corpos governantes eclesiásticos não ficaram mais confinados ao domínio eclesiástico, mas afetavam quase toda a esfera da vida popular. Gradualmente, um mundanismo lamentável manifestou-se em muitos altos eclesiásticos. Seu objetivo principal – guiar o homem para o seu objetivo eterno – raramente chamava a sua atenção e as atividades mundanas tornaram-se, em muitos casos, seu principal interesse. O poder político, posses materiais, posição privilegiada na vida pública, a defesa de direitos históricos antigos, interesses terrenos de várias espécies, foram muitas vezes o objetivo principal de grande parte do clero superior. A solicitude pastoral, o objetivo especificamente religioso e eclesiástico, ficou totalmente para trás, não obstante as várias tentativas para acertar os males existentes.
Conectados com o que foi dito acima, estavam vários abusos nas vidas do clero e do povo. Na Cúria Papal os interesses políticos e uma vida mundana eram muitas vezes proeminentes. Muitos bispos e abades (especialmente em países onde eram príncipes territoriais) mantinham-se como governantes temporais ao invés de servos da Igreja. Muitos membros dos corpos eclesiásticos preocupavam-se apenas com suas rendas e em como aumenta-las, especialmente pela união de vários rendimentos nas mãos de uma pessoa que assim gozava de maior renda e poder. A luxúria prevalecia amplamente entre o clero superior, ao passo que o baixo clero se achava oprimido. O treinamento científico e ascético do clero deixava muito a desejar; muitos detinham um padrão moral muito baixo e a prática do celibato não era observada em todos os lugares. Não menos séria era a condição de muitos monastérios de homens e mesmo de mulheres (muitas vezes lares das filhas solteiras da nobreza). O antigo prestígio do clero havia sofrido demais e seus membros eram, em muitos lugares, vistos com escárnio. Com relação aos cristãos, em numerosos distritos a ignorância, superstição, indiferença religiosa e imoralidade grassavam. Contudo, vigorosos esforços para a revivicação eram feitos em muitas terras e, lado a lado com a decadência moral, numerosos exemplos de sincera e correta vida cristã surgiam. Tais esforços, contudo, eram muitas vezes confinados a círculos limitados. A partir do século XIV a demanda pela “reforma de cabeça e membros” era exigida com energia crescente por homens sérios e de bom discernimento, mas o mesmo grito também era dado por muitos que não possuíam um desejo real por uma renovação religiosa, querendo reformar os demais, mas não a si mesmos e buscando apenas seus próprios interesses. Esse chamado por uma reforma, discutido em vários escritos e discussões com insistência sobre abusos existentes e muitas vezes exagerados, tendiam necessariamente a rebaixar ainda mais o clero aos olhos do povo, especialmente à medida que os concílios do século XV, embora muito ocupados com as tentativas de reforma, não tinham sucesso em seu cumprimento extensivo ou permanente. 
Felipe IV da França, que transferiu
a sede do Papado para Avignon
A autoridade da Santa Sé também tinha sido seriamente debilitada, parcialmente por culpa de alguns de seus ocupantes e parcialmente através de seus príncipes leigos. A mudança do Papa para Avignon[6], no século XIV, foi um erro atroz, dado que o caráter universal do papado foi assim obscurecido nas mentes dos cristãos. Certas fases da rixa com Luís, o Bávaro, e com os Seguidores Franciscanos, claramente indicava um declínio do poder Papal. O mais severo golpe ocorreu pelo desastroso “Cisma Ocidental”[7] (1378-1418), que passou aos cristãos ocidentais a ideia de que a guerra poderia ser feita, com todas as armas espirituais e materiais, contra alguém a quem outros cristãos viam como o único Papa legal. Após a restauração da unidade, as tentativas de reforma da Cúria Papal não foram completas. O Humanismo e os ideais do Renascimento foram zelosamente cultivados em Roma e, infelizmente, as tendências pagãs deste movimento, tão opostas à lei de moral cristã, afetaram tão profundamente a vida de muitos eclesiásticos superiores, de forma que ideias mundanas, luxúria e imoralidade rapidamente se enraizaram no centro da vida eclesiástica. Quando a autoridade eclesiástica se enfraqueceu na nascente, decaiu em todos os lugares necessariamente. Havia também sérios abusos administrativos na Cúria Papal[8]. A sempre crescente centralização da administração eclesiástica havia exposto que os exagerados benefícios eclesiásticos em todas as partes da Cristandade eram conferidos em Roma onde, para a sua concessão, os interesses pessoais do peticionário eram muito mais considerados do que as necessidades espirituais do fiel. As várias espécies de restrições tinham também se tornado um grave abuso. A insatisfação era amplamente sentida entre o clero pelas excessivas taxas impostas pela Cúria sobre os beneficiados pelos benefícios eclesiásticos. A partir do século XIV essas taxas causaram graves queixas. Proporcionalmente, como a autoridade papal perdeu o respeito de muitos, o ressentimento cresceu contra a Cúria e o Papado. Os concílios de reforma do século XV, ao invés de melhorar a situação, ainda mais enfraqueceram a mais alta autoridade eclesiástica em razão de suas tendências e medidas antipapas. 
Papa Bonifácio VIII, último
Papa de Roma antes do Cisma
Nos príncipes e governos se havia desenvolvido, a este tempo, uma consciência nacional puramente temporal e, em grande extensão, hostil à Igreja; os poderes civis interferiam mais frequentemente nos assuntos eclesiásticos e a influência direta exercida pelos leigos sobre a administração doméstica da Igreja, aumentava rapidamente. No correr dos séculos XIV e XV, o conceito moderno de Estado surgiu. Durante o período precedente, muitos assuntos de natureza secular ou mista haviam sido regulados ou gerenciados pela Igreja de acordo com o desenvolvimento histórico da sociedade europeia. Com a crescente autoconsciência do Estado, os governos temporais procuraram controlar todos os assuntos dentro de sua competência, o que, embora em grande medida justificável, era novo e ofensivo assim conduzindo a frequentes colisões entre a Igreja e o Estado. Além disso, o Estado, devido à histórica ligação entre as ordens eclesiástica e secular, transgrediu o domínio eclesiástico. Durante o curso do “Cisma Ocidental”, Papas que se opunham buscaram o suporte dos poderes civis assim dando aos últimos abundantes ocasiões de interferir em questões puramente eclesiásticas. Novamente, para reforçar sua autoridade em face às tendências antipapas, os Papas do século XV fizeram, com frequência, certas concessões às autoridades civis que as fizeram crer que as questões eclesiásticas eram do seu domínio. Para o futuro, a Igreja deveria ser subordinada ao poder civil e encontrava-se crescentemente ameaçada de completa sujeição. De acordo com a autoconsciência nacional desenvolvida em vários países da Europa, o sentido da unidade e interdependência desenvolvido na família de nações cristãs enfraqueceu. O ciúme entre nações cresceu, o egoísmo proliferou, a fenda entre política, moralidade cristã e religião se ampliou, e tendências revolucionárias perigosas se espalharam rapidamente entre as pessoas. O amor à riqueza recebeu um grande incentivo com a descoberta do Novo Mundo, o rápido desenvolvimento do comércio e a nova prosperidade das cidades. 
Clemente V, o primeiro
Papa de Avignon
O Renascimento e o Humanismo[9], parcialmente, introduziram e grandemente favoreceram essas condições. O amor à luxúria logo foi associado ao renascimento da arte e da literatura do paganismo greco-romano. O ideal do religioso cristão foi muito abandonado; uma cultura intelectual mais elevada, anteriormente prerrogativa, em geral, do clero, mas agora comum aos leigos, assumiu um caráter secular e, em muitos casos, promoveu ativa e praticamente um espírito, moralidade e visão pagãs. Um materialismo grosseiro obtido entre as classes superiores da sociedade e no mundo educado, caracterizado por um vulgar amor pelo prazer, um desejo do ganho e uma voluptuosidade de vida, surgiu diametralmente oposta à moralidade cristã. Apenas um fraco interesse na vida sobrenatural sobreviveu. A nova arte da impressão tornou possível a disseminação ampla dos trabalhos de autores pagãos e dos seus imitadores humanísticos. Poemas e romances imorais, sátiras mordazes sobre pessoas e instituições eclesiásticas, trabalhos e canções revolucionários, circulavam em todas as direções e causaram enorme prejuízo. 
O Grande Cisma Ocidental: áreas rosa seguindo Avignon;
roxas seguindo Roma; passando de uma a outra, sublinhadas
com rosa e roxo.
À medida que o Humanismo se desenvolveu, promoveu intensa guerra contra o Escolasticismo[10] do tempo. O método teológico tradicional degenerou devido à maneira fastidiosa e minuciosa de tratar as questões teológicas e porque um sólido e completo tratamento da teologia havia infelizmente desaparecido de muitas escolas e escritos. Os humanistas cultivaram novos métodos baseando a teologia na Bíblia e nos estudos dos antepassados, em essência, um bom movimento que poderia ter renovado o estudo da Teologia, se adequadamente desenvolvido. Mas a violência dos humanistas, seus ataques exagerados ao Escolasticismo e a frequente obscuridade do seu ensino, criou forte oposição dos escolásticos representativos. O novo movimento, contudo, tinha ganho a simpatia do mundo leigo e de parte do clero devotado ao Humanismo. A perigo era muito grande de que a reforma não se confinasse aos métodos teológicos, mas que alcançasse o conteúdo do dogma eclesiástico, encontrando amplo suporte nos círculos humanistas.
O solo estava assim pronto para o crescimento dos movimentos revolucionários na esfera religiosa. Muitos avisos graves foram dados, indicando o perigo iminente e invocando uma reforma fundamental das reais condições. Muito havia sido feito nessa direção pelo movimento da reforma em várias ordens religiosas e pelos esforços apostólicos de indivíduos zelosos. Mas uma renovação geral da vida eclesiástica e um melhoramento uniforme das condições, iniciando por Roma, o centro da Igreja, não foi adequadamente tomada e logo foi apenas necessário um impulso externo para precipitar a revolução, que fez separar da unidade da Igreja grandes territórios do centro e quase todo o norte da Europa.


[1] Martin Luther (Martinho Lutero, como é conhecido em português) (10/11/1483-18/02/1546) foi um monge agostiniano alemão e professor de teologia na recém fundada Universidade de Wittenberg. Sua recusa em retratar-se de todos os seus escritos, sob demanda do Papa Leão X e de Charles V, Imperador do Sacro Império Romano, resultou em sua excomunhão pelo Papa e sua condenação como fora da lei pelo Imperador.
[2] As “Noventa e Cinco Teses” ou “Disputa pelo Poder das Indulgências”, são uma lista de proposições escritas por Lutero em 1517, que avançam as suas posições contra o que ele viu de errado na venda de indulgências. Lutero enviou as Teses a Albert de Brandenburg, arcebispo de Mainz, em 31 de outubro de 1517, data hoje considerada o início da Reforma.
[3] O “crédito de mérito” ou “crédito da Igreja”, de acordo com a crença católica, consiste dos méritos de Jesus Cristo e seus crentes, um crédito que, por causa da comunhão dos santos, beneficiaria outras pessoas como uma metáfora que indicaria os caminhos em que a fé de Cristo e dos Santos poderia ajudar outros.
[4] A Igreja da Inglaterra é a igreja cristã estabelecida na Inglaterra e a igreja mãe da Comunhão Anglicana internacional. Seu estabelecimento data da missão Gregoriana do século VI em Kent, conduzida por Agostinho de Canterbury. A Igreja da Inglaterra renunciou à autoridade papal quando Henry VIII pediu ao Papa, e não obteve, a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão na década de 1530, tornando-se chefe da Igreja. A Reforma Inglesa acelerou sob Edward VI, antes de uma breve restauração do Catolicismo sob a rainha Mary I e o rei Philip. O Ato da Supremacia de 1558 renovou o rompimento e o reinado de Elizabeth traçou um rumo pelo qual a Igreja da Inglaterra seria ao mesmo tempo Católica e Reformada.
[5] Anabatistas eram os membros de um corpo violento e extremamente radical de reformadores civis-eclesiásticos, que surgiram em 1521, em Zwickau, atual reino da Saxônia, e que ainda existe em formas mais brandas.
[6] O Papado de Avignon foi o período de 1309 a 1377, durante o qual sete Papas sucessivos residiram em Avignon (então no reino de Arles, parte do Sacro Império Romano), ao invés de Roma, a partir de conflito entre o Papa Bonifácio VIII e o rei francês Felipe IV. Com a morte do papa seu sucessor, Benedito XI, após somente oito meses de papado, um conclave paralisado finalmente elegeu Clemente V, um francês, como Papa em 1305, que declinou de sua mudança para Roma, permanecendo na França e movendo sua corte para o enclave papal em Avignon, onde permaneceu pelos 67 anos seguintes. Os sete Papas que reinaram em Avignon eram todos franceses que caíram cada vez mais sob a influência da coroa francesa.
[7] Tal Cisma, dos séculos XIV e XV, difere em todos os pontos do Cisma Oriental – uma revolta real contra a autoridade suprema da Igreja, fomentada pela ambição dos patriarcas de Constantinopla, favorecida pelos imperadores gregos, apoiada pelo clero e povo bizantinos e que durou nove séculos. O Cisma Ocidental foi um mal-entendido temporário, embora tenha compelido a Igreja, por quarenta anos, a buscar a sua verdadeira liderança; foi alimentada por políticos e paixões e se encerrou com a reunião dos Concílios de Pisa e Constança. Essa divisão religiosa, infinitamente menos séria que a outra, foi encerrada em 1417 pela eleição de um Papa indisputado.
[8] Estritamente falando, a Cúria Papal é o conjunto de departamentos ou ministérios que assistem o Pontífice no governo da Igreja Universal. Incluem as Congregações Romanas, os tribunais e os escritórios da Cúria.
[9] Humanismo é o nome dado ao movimento intelectual, filosófico, ético e científico dos séculos XIV a XVI, que enfatiza o valor e a atuação do ser humano, individual e coletivo e, geralmente, prefere o raciocínio crítico e a evidência sobre a aceitação de dogma ou superstição. Por ser mais material que espiritual, a Igreja acrescenta à definição dada, que se trata de um movimento que visou a degradação de qualquer ramo do aprendizado da literatura e cultura da antiguidade clássica.
[10] O Escolasticismo é um método de pensamento crítico que dominou o ensino pelos acadêmicos (“escolásticos” ou “homens de escola”) das universidades medievais na Europa, de cerca de 1100 a 1700, e um programa de emprego do método ao articular e defender dogmas num contexto cada vez mais pluralístico. Originou-se das escolas monásticas cristãs, nas primeiras universidades europeias.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 5 - CONCLUSÃO)

A ALEMANHA DO PÓS-GUERRA

Como consequência da derrota da Alemanha Nazista em 1945 e o estabelecimento da “Guerra Fria”[1] em 1947 e que duraria meio século, o que restou do Terceiro Reich foi dividido em dois blocos globais, no leste e no oeste, num período conhecido como “a divisão da Alemanha”. Milhões de refugiados do Centro e Leste Europeu deslocaram-se para o oeste, a maior parte deles para a Alemanha Ocidental. Dois estados emergiram: (1) a Alemanha Ocidental foi uma democracia parlamentar, membro da OTAN[2], membro fundador do que mais tarde seria a União Europeia e uma das maiores economias do mundo; (2) a Alemanha Oriental foi uma ditadura comunista totalitária, país satélite de Moscou. 
Ocupação da Alemanha após a Segunda Grande Guerra,
com a Berlim dividida em território russo.
A ajuda americana à Alemanha global iniciou em 1948 com o Plano Marshall. O sucesso da reforma monetária realizada em 1948 no lado ocidental, enfureceu os soviéticos, que cortaram todas as ligações por rodovias, estradas de ferro e canais navegáveis entre a zona ocidental e Berlim Ocidental (a cidade de Berlim, também dividida nas porções Ocidental e Oriental, ficara totalmente dentro da Alemanha Oriental), concretizando o “Bloqueio de Berlim”, que durou de 24 de junho de 1948 a 12 de maio de 1949. Como resposta, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha iniciaram um transporte aéreo de alimentos e carvão, com distribuição de nova moeda em Berlim Ocidental que, desta forma, tornou-se economicamente integrada à Alemanha Ocidental.
Os alemães tiveram muito pouca voz no governo até 1949, quando a ocupação aliada encerrou e os dois estados emergiram. As zonas de ocupação ocidentais (americana, britânica e francesa) foram reunidas na formação da “República Federal da Alemanha” (RFA ou Alemanha Ocidental), uma democracia parlamentar com um sistema econômico capitalista e igrejas e sindicatos livres. A zona de ocupação soviética transformou-se na República Democrática Alemã (RDA ou Alemanha Oriental), uma ditadura marxista-leninista com sua liderança dominada pelo Partido de Unidade Socialista da Alemanha (SED), alinhada aos socialistas e mantida sob a esfera de influência da União Soviética.
Nas zonas ocidentais de ocupação, República Federal da Alemanha, os antigos territórios prussianos foram divididos entre Renânia do Norte-Vestfália, Baixa Saxônia, Hesse, Renânia-Palatinado e Schleswig-Holstein. Württemberg-Baden e Württemberg-Hohenzollern fundiram-se mais tarde com Baden para criar o estado de Baden-Württemberg. A região de Sarre, que tinha sido administrada pelos franceses como um protetorado separado do resto da Alemanha Ocidental, foi admitido na República Federal da Alemanha como um estado separado, em 1956, após um plebiscito.
Na zona de ocupação soviética, República Democrática Alemã, os antigos territórios prussianos foram reorganizados nos estados de Brandenburgo e Saxônia-Anhalt, com as partes restantes da Pomerânia indo para Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Esses estados foram abolidos em 1952, sendo recriados após a queda da União Soviética, em 1990.
Talvez fosse uma boa ideia separar, neste ponto, a evolução da Alemanha pós-guerra, de acordo com a evolução das “duas Alemanhas”, até a sua reunificação final e definitiva, em 1990.

A REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ

Em 1949 a zona soviética tornou-se a República Democrática Alemã (RDA ou Alemanha Oriental), sob o controle do Partido da Unidade Socialista (SED), sem um exército significativo até os anos 1960’, mas com um serviço de Segurança do Estado (STASI) que tem sido descrito como uma das mais efetivas e repressivas agências de inteligência e polícia secreta jamais criadas, que se infiltrou em todos os aspectos da sociedade alemã.
A Alemanha Oriental era um Estado do bloco oriental sob controle político e militar da União Soviética através de suas forças de ocupação e do Tratado de Varsóvia[3]. O poder político era somente exercido pelos membros líderes (Politburo) do SED, de controle comunista. Um comando de economia ao estilo soviético foi estabelecido; em seguida, a RDA tornou-se o mais avançado estado do COMECON. Embora a propaganda da Alemanha Oriental fosse baseada nos benefícios dos seus programas sociais e a alegada ameaça permanente da invasão da Alemanha Ocidental, muitos de seus cidadãos olhavam para o ocidente em busca de liberdade política e prosperidade econômica.
Walter Ulbricht foi o presidente do SED de 1950 a 1971. Em 1933, ele havia fugido para Moscou onde serviu como agente do Comintern[4], leal a Stalin. À medida que a Segunda Grande Guerra terminava, Stalin atribuiu-lhe a tarefa de projetar o sistema alemão de pós-guerra que centralizaria todo o poder no Partido Comunista. Em 1949 Ulbricht tornou-se o presidente, primeiro ministro e secretário (chefe executivo) do SED (comunista) em 1950. 
O Muro de Berlim, construído em 1961 e símbolo da
Guerra Fria, foto batida do lado ocidental
A Alemanha Oriental estagnou na medida em que sua economia era fortemente organizada para atender às necessidades da União Soviética e a Polícia Secreta Russa-Alemã Oriental controlava totalmente a vida diária dos alemães. Cerca de 2,6 milhões de pessoas havia fugido da Alemanha Oriental até 1961, quando o Muro de Berlim foi construído e encerrou o fluxo permanente de refugiados para o Ocidente. O que a RDA chamava de “Muro de Proteção Antifascista”, foi um obstáculo imenso ao programa durante a “Guerra Fria”, mas estabilizou a Alemanha Oriental, postergando o seu colapso. Ulbricht perdeu poder em 1971, mas foi mantido como nominal chefe de estado, sendo substituído por ter falhado na solução das crises nacionais crescentes, tais como a economia decadente de 1969-70, o temor de outro levante popular, como o que ocorrera em 1953, e o sentimento de desprazer causado pela política de afrouxamento em relação ao ocidente.
A transição para Erich Honecker (Secretário Geral de 1971 a 1989) conduziu a uma mudança na direção da política nacional e esforços do Politburo dando mais atenção às reclamações do proletariado. Seus planos não tiveram sucesso, com a discórdia crescendo na população da Alemanha Oriental.
Em 1989 o regime socialista ruiu, após 40 anos, embora a sua onipresente polícia secreta, principalmente pelos graves problemas econômicos e a crescente emigração para o oeste. A cultura da Alemanha Oriental havia sido modelada pelo comunismo e, particularmente, pelo Stalinismo, e sua população original havia sofrido muito por tal exotismo. Críticos da Alemanha Oriental sempre alegaram que a dedicação do estado ao comunismo foi uma ferramenta cínica e vazia da elite governante; o argumento é desafiado por outros estudiosos que alegam que o Partido se dedicava ao avanço do conhecimento científico, desenvolvimento econômico e progresso social. Contudo, a vasta maioria viu os ideais comunistas do estado nada mais serem do que um enganoso método para controle do governo. Mais uma desastrosa experiência do comunismo.

REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA

Na Alemanha Ocidental o governo foi inicialmente formado pelo Chanceler Konrad Adenauer e sua aliança conservadora UDC/USC[5], no poder durante a maior parte do período, desde 1949. Sua capital foi Bonn até que se mudou para Berlim, em 1990, quando a RFA absorveu a Alemanha Oriental, promovendo a reunião da Alemanha e ganhando a plena soberania sobre Berlim. 
Adenauer em 1952, aliado dos EUA e
França, opondo-se à URSS.
Em todos os pontos a Alemanha Ocidental foi maior e mais rica que a Alemanha Oriental, tornada uma ditadura sob o controle do Partido Comunista e monitorado muito de perto por Moscou e pivô da “Guerra Fria”.
Konrad Adenauer foi o primeiro chanceler da Alemanha Ocidental e seu líder dominante durante o período de 1949-1963. Foi o fundador e, até a sua morte, líder da União Democrática Cristã (UDC), uma coalizão de conservadores, ordoliberais[6] e aderentes do ensino social Católico e Protestante que dominou a política da Alemanha Ocidental pela maior parte de sua história. Durante a sua chancelaria, a economia da RFA cresceu rapidamente e o país estabeleceu relações amigáveis com a França, participou da emergente União Europeia, restabeleceu as forças armadas do país e tornou-se um pilar da OTAN, além de firme aliado dos Estados Unidos. Além disso, seu governo iniciou um longo processo de reconciliação com os Judeus e Israel, após o Holocausto.
Após experimentar o seu “milagre econômico” em 1955, a Alemanha Ocidental tornou-se a mais próspera economia da Europa, com Konrad Adenauer. 
Willy Brandt, chanceler alemão e Prêmio Nobel da Paz, 1971
A “Grande Coalizão” formada entre UDC/USC e o Partido Social Democrata (PSD), os dois principais partidos da RFA, levou ao poder o líder socialista Willy Brandt, do PSD, como Chanceler Presidente e Ministro das Relações Exteriores. A Grande Coalizão vigorou entre 1966 e 1969 e tornou-se melhor conhecida por reduzir as tensões entre as nações do bloco soviético e estabelecer relações diplomáticas com a Czechoslovakia, Romênia e Iugoslávia. Willy Brandt foi o líder do PSD entre 1964 e 1987 e chanceler entre 1969 e 1974. Sob sua liderança o governo alemão procurou reduzir as tensões com a União Soviética e melhorar as relações com a RDA (Ostpolitik ou Política do Leste). As relações entre as duas “Alemanhas” encontravam-se congeladas com propaganda maciça contra cada direção. O pesado escoamento de talento da RDA havia construído o “Muro de Berlim” em 1961, que veio a piorar as tensões da “Guerra Fria”, impedindo os alemães orientais de viajarem. Embora ansioso por aliviar os sofrimentos das famílias divididas e reduzir a fricção, a política de Willy Brandt estava concentrada no seu conceito de “dois estados alemães numa só nação alemã”. A “Ostpolitik” sofreu a oposição dos elementos conservadores da RFA, mas valeu a Brandt uma reputação internacional e o Prêmio Nobel da Paz de 1971. Em setembro de 1973 a RDA e a RFA foram admitidas às Nações Unidas, passaram a manter representantes permanentes em 1974 e, em 1987, Erich Honecker, líder da RDA realizou uma visita de oficial de estado à RFA. 
Helmut Kohl, primeiro chanceler da Alemanha reunificada
Helmut Kohl trouxe os conservadores de volta ao poder em 1982, com a coalizão UDC/USC – PDL (Partido Democrático Livre da Alemanha) e serviu como chanceler até 1998. Após repetidas vitórias em 1983, 1987, 1990 e 1994; foi finalmente derrotado em 1998 por uma grande maioria de votos à esquerda, sendo sucedido como Chanceler por Gerhard Schröeder, do PSD. Kohl foi muito conhecido por orquestrar a reunificação com a aprovação das quatro grandes potências da Segunda Guerra Mundial, que ainda tinham voz ativa nos assuntos da Alemanha.

A REUNIFICAÇÃO DA ALEMANHA

Durante o verão de 1989, rápidas alterações, conhecidas como “revolução pacífica”, tiveram lugar na Alemanha Oriental que, rapidamente, conduziram à reunificação da Alemanha. Números crescentes de alemães orientais emigraram para a Alemanha Ocidental, muitos via Hungria, após a abertura de suas fronteiras. Milhares de alemães orientais também tentaram alcançar o oeste através de atalhos por protestos em instalações diplomáticas da RFA em outras capitais do Leste Europeu, principalmente em Praga. Tal êxodo gerou demandas, dentro da RDA, por mudanças políticas e demonstrações de massa em várias cidades continuaram a crescer. (Figura Queda Muro Berlim)
Incapaz de deter a crescente intranquilidade civil, Erich Honecker, da RDA, foi forçado a renunciar em outubro e, em 9 de novembro, as autoridades da Alemanha Oriental, inesperadamente, permitiram que cidadãos entrassem em Berlim Ocidental e Alemanha Ocidental. Centenas de milhares de pessoas usaram tal oportunidade, com novos pontos de passagem sendo abertos no Muro de Berlim e ao longo da fronteira com a Alemanha Ocidental. No mesmo ano o Muro de Berlim foi finalmente destruído. 
Alemanha em suas fronteiras atuais
Tais fatos conduziram a uma aceleração no processo de reformas na Alemanha Oriental, que terminou com a reunificação da Alemanha, concretizada em 3 de outubro de 1990, quando os aliados renunciaram a todas as dívidas relacionadas a territórios alemães, com o “Tratado do Ajuste Final com Respeito à Alemanha”, pelo qual a Alemanha também renunciava a todas as suas demandas de territórios perdidos durante a Segunda Grande Guerra. Esse tratado se ocupava também da reorganização da Alemanha como um todo e resolvia outras questões consequentes da Segunda Guerra Mundial. 
Bandeira da Alemanha Ocidental
e Unificada, de 1949 até hoje
Em 1998 a Alemanha foi um dos países fundadores da Zona do Euro e permanece, até hoje, uma das economias mais poderosas da Europa, contribuindo com um quarto do Produto Interno Bruto anual da Eurozona, como a “Bundesrepublik Deutschland”, ou República Federal da Alemanha, com os territórios e a bandeira que possui até hoje.

[1] A “Guerra Fria” foi um estado de tensão política e militar, após a Segunda Guerra Mundial, entre potências do bloco ocidental (Estados Unidos, seus aliados da OTAN e outros) e potências do bloco oriental (União Soviética e seus aliados do Pacto de Varsóvia). Os historiadores não concordam perfeitamente sobre as datas, mas o período entre 1947 e 1991 é comum. O termo “fria” é usado porque não havia, entre os dois lados, uma luta direta em larga escala, embora guerras regionais importantes tivessem ocorrido, apoiadas pelos dois lados.
[2] A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é uma aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte, assinado em 4 de abril de 1949. A Organização constitui um sistema de defesa coletiva pelo qual seus estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa. O quartel general da OTAN está localizado em Haren, Bruxelas, Bélgica, onde reside também o Comandante Aliado Supremo. A Bélgica é um dos 28 membros entre América do Norte e Europa, os mais novos dos quais, Albânia e Croácia, se uniram em abril de 2009. Vinte e dois outros países participam do programa da OTAN “Parceria para a Paz”, com quinze outros países envolvidos em programa de diálogo institucionalizado.
[3] Também chamado de “Pacto de Varsóvia”, criado em maio de 1955, de forma semelhante à OTAN, foi um tratado de defesa coletivo entre a União Soviética e sete Estados satélites soviéticos na Europa Central e Oriental, existente durante a “Guerra Fria”. Foi o complemento militar ao “Conselho para Mútua Assistência Econômica (COMECON)", a organização econômica regional para os estados comunistas da mesma região. O Pacto foi criado como reação à integração da Alemanha Ocidental na OTAN, em 1955, mas também motivado pelos desejos soviéticos de manter controle sobre as forças militares na região. Nunca houve um confronto direto entre a OTAN e o Pacto, mas o conflito foi lutado apenas em base ideológica. O Maior evento militar do Pacto, foi a invasão da Czechoslovakia (com a participação de todas as nações do pacto, com exceção da Romênia e da Albânia). O Pacto deixou de funcionar quando as Revoluções de 1989 se espalharam pela Europa Oriental, começando pelo movimento Solidariedade, da Polônia e seu sucesso em junho de 1989. Em fevereiro de 1991 o Pacto foi declarado findo em um encontro de ministros da defesa e relações exteriores dos membros que restavam, na Hungria. Em julho de 1991, o presidente da Czechoslovakia, Vaclav Havel, formalmente declarou o fim do Pacto.
[4] Ou Komintern, é o termo com que se designa a Terceira Internacional ou Internacional Comunista (1919-1943), isto é, a organização internacional fundada por Vladimir Lenin e pelo PCUS (bolchevique), em março de 1919, para reunir os partidos comunistas de diferentes países. Tinha como propósito, conforme seus primeiros estatutos, “lutar pela superação do capitalismo, pelo estabelecimento da ditadura do proletariado e da República Internacional dos Sovietes, pela completa abolição das classes e a realização do socialismo, como uma transição para a sociedade comunista, com a completa abolição do Estado, para isso se utilizando de todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar a burguesia internacional”.
[5] Informalmente também chamado de “Partidos da União” ou simplesmente “União”, o UDC/USC foi a união política da “União Democrática Cristã da Alemanha” (UDC)) com a “União Social Cristã” da Bavária (USC), ambas estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial.
[6] O ordoliberalismo é a variante germânica do liberalismo social que enfatiza a necessidade do Estado assegurar que o livre mercado produza resultados próximos ao seu potencial teórico.

sábado, 4 de junho de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 4)

A REVOLUÇÃO ALEMÃ DE 1918

Rosa Luxemburgo a socialista judia
polonesa naturalizada alemã.
Por volta de 1900 a socialdemocracia alemã era considerada líder do movimento internacional dos trabalhadores. Nos congressos europeus da Segunda Internacional Socialista, o SPD sempre aprovava as resoluções, que previam uma ação conjunta dos socialistas em casos de declarações de guerras. Mesmo durante a crise de julho que se seguiu ao assassinato em Sarajevo, ele organizou - como também outros partidos socialistas na Europa - grandes manifestações antiguerra. Rosa Luxemburgo, porta-voz da esquerda do partido, conclamou, em nome de todo o SPD, a rejeição à guerra e à obediência. Por isso, o governo imperial planejou a prisão dos líderes do partido imediatamente após o início das hostilidades. Friedrich Ebert, um dos dois líderes do partido desde 1913, viajou, juntamente com Otto Braun, para Zurique, a fim de manter os fundos do partido a salvo do alcance do Estado.
Mas quando no dia primeiro de agosto de 1914, ocorreu a declaração de guerra alemã contra a Rússia czarista, a maioria dos jornais favoráveis ao SPD foi contagiada pelo entusiasmo geral pela guerra, por um lado, e porque o seu inimigo prioritário era a Rússia Imperial. Suas reportagens foram severamente criticadas pela liderança do partido, mas os editores acreditavam, nos primeiros dias de agosto, estar seguindo a linha política do presidente do SPD, August Bebel, falecido em 1913. Ele havia dito ao Reichstag em 1904 que o SPD tomaria parte na defesa armada da Alemanha no caso de uma guerra de agressão estrangeira. Em 1907 confirmou, na convenção Essen, que ele mesmo "carregaria a arma em suas costas" caso a guerra fosse contra a Rússia czarista, o "inimigo de toda a cultura e todos os oprimidos".
Tendo em vista a disposição da população, que acreditava em um ataque pelas potências da Entente, muitos deputados do SPD temiam se afastar de seus eleitores devido a seu pacifismo coerente. Além disso, havia a ameaça de uma proibição dos partidos, planejada pelo chanceler do Reich Theobald von Bethmann Hollweg em caso de uma guerra. Por outro lado, o chanceler tirou proveito do posicionamento anticzarista do SPD para obter o seu consentimento para a guerra.
Karl Liebknecht, camarada revolucionário
assassinado com Rosa Luxemburgo.
A liderança do partido e o grupo parlamentar estavam divididos em seu posicionamento quanto à guerra. Com Friedrich Ebert, noventa e seis representantes responderam afirmativamente à exigência dos créditos de guerra pelo governo imperial; catorze parlamentares, liderados pelo segundo presidente Hugo Haase, se manifestaram contra, mas votaram a favor da disciplina partidária. Assim, todo o grupo parlamentar do SPD aprovou no dia 4 de agosto os créditos de guerra. Dois dias antes, os Sindicatos Livres já tinham decidido uma abdicação do direito de greve e dos salários para o tempo da guerra. Com a decisão do sindicato e do partido, tornou-se possível a mobilização total do exército alemão. Mesmo Karl Liebknecht, que mais tarde tornou-se um símbolo do pacifismo, curvou-se, inicialmente, às decisões do partido. No entanto, alguns dias mais tarde, ele juntou-se ao Grupo Internacional, fundado por Rosa Luxemburgo em 5 de agosto de 1914, que posicionou-se contrariamente à guerra anteriormente defendida pelo SPD. Tal grupo deu origem à “Liga Espartaquista”, fundada no dia 1 de janeiro de 1916.
Quanto mais tempo a guerra durava e quanto mais sacrifícios exigia, menor era o número de membros do SPD dispostos a manter a "trégua" de 1914; principalmente por que, a partir de 1916, o imperador e o governo do Reich não mais decidiam as diretivas da política alemã, agora dominada pelo alto comando de guerra sob os generais Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, que governavam como ditadores militares.
Depois da eclosão da Revolução Russa, em fevereiro de 1917, ocorreram na Alemanha as primeiras greves organizadas. Em março e abril de 1917 participaram cerca 300.000 trabalhadores da indústria de armamento. O imperador Wilhelm II tentou acalmar os participantes da greve com sua mensagem de Páscoa do dia sete de abril, prometendo eleições gerais e igualitárias também para a Prússia, onde ainda vigorava o sufrágio de três classes.
Depois da expulsão dos opositores do SPD à guerra, revisionistas como Eduard Bernstein e centristas como Karl Kautsky, juntamente com os espartaquistas, reagiram ao descontentamento entre os trabalhadores. Em uma conferência entre seis e oito de abril de 1917 fundaram, na cidade de Gotha, o “Partido Independente Social-Democrático da Alemanha” (USPD) com Hugo Haase, que exigia o término imediato da guerra e a democratização da Alemanha, mas não possuía um programa sócio-político unificado. A Liga Espartaquista, que até então recusava uma divisão do partido, formou a ala esquerda da USPD. E, para bem identificar a separação, o SPD passou a denominar-se, a partir daí até 1919, como “Partido Majoritário Social Democrata da Alemanha” (MSPD).
Manifestação de revolucionários em Berlim, 09/11/1918
A Revolução Alemã de 1918-1919 foi uma série de eventos que ocorreram naqueles anos e que marcou o final da Primeira Guerra Mundial. Tal Revolução culminou com a derrubada do Kaiser, a abolição da monarquia no Reich Germânica e o estabelecimento de uma república democrática parlamentarista. Liderada por Rosa Luxemburgo, a Liga Espartaquista, teve importante papel na revolução, apesar de o evento não se resumir à sua atuação. À semelhança da Comunista Russa, a Revolução Alemã aproveitou a aguda crise econômica causada pela Primeira Guerra Mundial e a derrota do Império Germânico no conflito. Com a Revolução, os comunistas conseguiram controlar a região da Baviera, no sul da Alemanha, onde fundaram uma República Socialista e tentaram expandir o movimento. Assim como na Rússia, aboliram a propriedade privada dos latifúndios e das fábricas na República Socialista da Baviera. No entanto, este foi um governo revolucionário de vida efêmera que acabou sendo sufocado pelo governo socialdemocrata, através do grupo paramilitar Freikorps, que retomou o controle, suprimindo a extrema esquerda, liderada pela Liga Espartaquista. A revolução foi formalmente encerrada no dia 11 de agosto de 1919 com a aprovação da nova “Constituição de Weimar”, com as funções do Kaiser sendo transmitidas ao Reichspräsident (Presidente do Império, em tradução literal) da “República de Weimar” que teve, ao todo, três monarcas.
Com a abdicação e fuga de Wilhelm II como Imperador do Império Germânico e Rei da Prússia, ao fim da Segunda Grande Guerra, a Prússia foi proclamada “Estado Livre”, ou seja, uma República (Freistaat, em alemão) dentro da nova República de Weimar e, em 1920, recebeu uma constituição democrática.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Quase todas as perdas territoriais do Império Germânico, para outros estados, durante a Primeira Grande Guerra e especificadas no Tratado de Versalhes, pertenciam anteriormente ao território da Prússia e, com isso, a Prússia Oriental tornou-se um exclave (território externo ao território nacional), apenas acessível por barco ou por uma estrada de ferro através do “corredor polonês”.
O governo alemão considerou, inicialmente, quebrar a Prússia em estados menores, mas o sentimento tradicionalista prevaleceu e a Prússia se tornou, de longe, o maior estado da República de Weimar, compreendendo 60% do seu território. De 1919 a 1932, a Prússia foi governada por uma coalizão dos partidos socialdemocrata, Centro Católico e democrata alemão. De 1921 a 1925, os governos de coalizão incluíram o Partido Popular Alemão. Ao contrário de outros estados do Reich Alemão[1], a regra da maioria dos partidos democráticos na Prússia nunca foi posta em perigo. No entanto, na Prússia Oriental e algumas áreas industriais, o Partido Nazista de Adolf Hitler ganhou mais e mais influência e apoio popular, especialmente a partir das classes mais baixas e médias, em 1930. Com exceção da região católica da Alta Silésia, o Partido Nazista, em 1932, tornou-se o maior partido na maior parte do Estado Livre da Prússia. No entanto, os partidos democráticos em coalizão permaneceram a maioria, enquanto os comunistas e os nazistas estavam na oposição. 
Chanceler Franz von Papen, em 1936
Em contraste com seu autoritarismo do pré-guerra, a Prússia era um pilar da democracia na República de Weimar. Tal sistema, entretanto, foi destruído pelo "golpe prussiano" do chanceler do Reich, Franz von Papen. Neste golpe de Estado, o governo do Reich depôs o governo da Prússia em 20 de julho de 1932, sob o pretexto de que este último havia perdido o controle da ordem pública na Prússia, forjando provas de que os socialdemocratas e os comunistas planejavam um golpe em conjunto. Papen nomeou a si mesmo comissário do Reich para a Prússia e assumiu o controle do governo facilitando, apenas meio ano depois, a tomada do poder, de forma decisiva, por Hitler, no Império Germânico, já que ele tinha todo o aparato do governo prussiano, incluindo a polícia, à sua disposição.
A Prússia foi efetivamente abolida em 1932 e o Estado que a assimilou, a República de Weimar, perdeu quase toda a importância jurídica e política que a Prússia havia conquistado. Posteriormente, as velhas elites prussianas acabaram por desempenhar um papel passivo com a criação da Alemanha nazista.
Adolf HItler, 1938, que suicidou-se em
1945 para escapar dos crimes cometidos
Após a nomeação de Adolf Hitler como o novo chanceler do Império Germânico pelo Presidente Paul Von Hindenburg, em 1933, os nazistas usaram a ausência de Franz von Papen como a oportunidade para nomear o comissário federal e Hermann Göring para o Ministério Prussiano do Interior. A eleição do Reichstag de 5 de março de 1933 reforçou a posição do Partido Nazista[2], apesar de não alcançar uma maioria absoluta.
Em uma reunião cheia de propaganda entre Hitler e o Partido Nazista, o "casamento da velha Prússia com os jovens alemães" foi celebrado, para conquistar os monárquicos, conservadores prussianos e nacionalistas e induzi-los a votar a favor da Lei de Concessão de 1933[3]. Com isso, Hitler rapidamente estabeleceu o regime totalitário conhecido como o Terceiro Reich.
No Estado centralizado criado pelos nazistas pela "Lei sobre a Reconstrução do Reich" (30 de janeiro de 1934) e a "Lei de Governadores do Reich" (30 de janeiro de 1935) os estados foram dissolvidos de fato, se não de direito. Os governos estaduais e federais passaram a ser controlados pelos governadores para o Reich, nomeados pelo chanceler. Paralelamente a isso, a organização do partido nos distritos ganhou cada vez mais importância, com um oficial no comando, também nomeado pelo chanceler, ao mesmo tempo chefe do Partido Nazista.
Na Prússia, esta política centralista foi ainda mais longe. Desde 1934 quase todos os ministérios foram fundidos e apenas alguns departamentos foram capazes de manter a sua independência. Hitler tornou-se, formalmente, o governador da Prússia, coadjuvado por Hermann Göring, primeiro-ministro da Prússia. Conforme previsto na "Grande Lei de Hamburgo", algumas trocas de territórios ocorreram. A Prússia foi estendida em 1º de abril de 1937, por exemplo, pela incorporação da Cidade Livre e Hanseática de Lübeck.
Oficialmente, o início da Segunda Guerra Mundial é tido como 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha e Rússia, com a subsequente declaração de guerra da Grã-Bretanha e França contra a Alemanha dois dias após. Também não existe concordância quanto à data exata do final da Segunda Guerra Mundial. O seu final é geralmente aceito como o dia do armistício, 14 de agosto de 1945, ao invés do dia da rendição formal do Japão em 2 de setembro de 1945. Novamente, tendo em vista os objetivos desta nossa postagem, não trataremos da Segunda Grande Guerra, como um assunto em si, mas apenas como mais um fator importante na formação do estado da Alemanha.
Inicialmente cabe dizer que, evidentemente, as terras prussianas transferidas para a Polônia pelo Tratado de Versalhes, foram reanexadas durante a Segunda Guerra Mundial, quando Terceiro Reich levava vantagem no conflito. À mesma época, em 1940, a Prússia foi legalmente abolida pelo Terceiro Reich.
Na Conferência de Potsdam[4], ocorrida entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, após a rendição incondicional do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial, em 8 de maio de 1945, os Aliados dividiram a “Zona de Ocupação Alemã” em quatro zonas de ocupação militar: a França no sudoeste, a Grã-Bretanha no noroeste, os Estados Unidos no sul e a União Soviética no leste, surgindo os dois grandes blocos, o Oriental, sob ocupação dos soviéticos e o Ocidental, sob administração dos Aliados. A Alemanha não voltou a recuperar sua independência senão em 1949.
De acordo com a “Aliança de Época de Guerra” e a “Divisão Zonal da Alemanha”, os soviéticos ocupariam a área definida pela Zona Soviética final aprovada por Potsdam, de acordo com todo o território germânico no ano de 1937, a leste da Linha Oder-Neisse. Da mesma forma, o derrotado Terceiro Reich deveria ser tratado como a área dentro de suas fronteiras em 31 de dezembro de 1937, significando que todo a expansão nazista de 1938 a 1945 (período da Segunda Guerra Mundial) fosse declarada inválida. Tal expansão incluiria a Cidade-Estado de Danzig, administrada pela Liga das Nações, Áustria, o território ocupado da Czechoslovakia, Alsácia-Lorena, Luxemburgo, Prússia Oriental, o norte da Eslovênia e outros territórios menores. As províncias germânicas a leste da linha do Oder – Neisse que estavam formalmente dentro dos limites territoriais do Terceiro Reich em 1937, (Prússia Oriental, Leste da Pomerânia e Silésia) foram removidas pelo Acordo de Potsdam. Essas áreas, com exceção do Norte da Prússia Oriental (que foi administrativamente entregue à União Soviética), foram requisitadas pelos poloneses como “Territórios Recuperados” e assim colocados sob a administração da Polônia, aguardando um tratado de paz definitivo, que apenas foi formalizado em 1990, 45 anos mais tarde, com a queda da União Soviética.
A parte norte da Prússia Oriental foi colocada sob administração soviética pelo Acordo de Potsdam que sancionou definições administrativas de vários territórios da Alemanha Oriental à Polônia e União Soviética alterando as fronteiras do que tinha sido a Alemanha antes da guerra, para o oeste. 
Perdas sofridas pela Alemanha com a Segunda Grande Guerra
Com essas divisões, a Prússia Ocidental e a Prússia Oriental ficaram divididas pela Polônia e a União Soviética. O velho Distrito de Rosenberg tornou-se então parte do Distrito de Itawa da Polônia. Todas as cidades, daí para a frente, tiveram sua nomenclatura alterada para nomes poloneses. A Prússia Oriental perdeu toda a sua população alemã depois de 1945, quando a Polônia e a União Soviética anexaram seu território. Desde então, a área está dividida entre o norte polonês (a maioria da Varmia-Masuria), o território externo russo de Kaliningrado e o sudoeste da Lituânia (na região da Klaipeda).
O pretendido corpo governamental da Alemanha foi chamado “Conselho de Controle Aliado”. Os comandantes em chefe exerceram suprema autoridade em suas respectivas zonas e atuaram em concerto nas questões que afetavam o país como um todo. Berlim, que se situava no setor soviético (oriental), foi também dividido em quatro setores, com os setores ocidentais constituindo, posteriormente, Berlim Ocidental e o setor soviético tornando-se Berlim Oriental, capital da Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha).
Como parte de seus objetivos de guerra, os aliados ocidentais procuraram a extinção da Prússia, com Stalin inicialmente favorável à manutenção daquele nome. Finalmente, a Lei nº 46 de 25 de fevereiro de 1947, do Conselho de Controle Aliado, um grupo formado após a Segunda Guerra Mundial para resolver questões relacionadas à Alemanha, proclamou, formalmente, a dissolução do Estado da Prússia.


[1] O Reich (literalmente Reino), foi sempre o nome dado ao território ou governo do estado germânico, como o Sacro Império Romano Germânico ou Primeiro Reich, de 962 a 1806; o Império Germânico ou Segundo Reich, de 1871 a 1919; a República de Weimar, de 1919 a 1933; ou o Terceiro Reich, de 1933 a 1945.
[2] O Partido Nacionalista Socialista Germânico dos Trabalhadores (PNSGT), comumente referido como Partido Nazista, foi um partido político do Império ativo entre 1920 e 1945, que teve como predecessor o Partido Germânico dos Trabalhadores, que existiu entre 1919 e 1920. O partido emergiu do grupo paramilitar Freikorps, que lutou contra os levantes comunistas do após Primeira Guerra Mundial no Império. O partido foi criado como forma de afastar os trabalhadores do comunismo e atraí-los para o nacionalismo popular. Inicialmente, a estratégia política nazista focou na oposição aos grandes negócios, à burguesia e à retórica capitalista, embora tais aspectos fossem posteriormente camuflados para ganhar o apoio das entidades industriais e, na década de 1930, passou a focar nos temas antissemita e antimarxista.
[3] A Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933 (ou Lei Habilitante) foi aprovada pelo Reichstag e assinada pelo Presidente Paul von Hindenburg em 23 de março de 1933, como o maior passo para conceder ao chanceler Adolf Hitler, legalmente, plenos poderes, estabelecendo assim a sua ditadura. A Lei foi aprovada graças aos votos decisivos do Partido do Centro Católico. O Partido Nazi e o Partido Popular Nacional Alemão (coligado aos nazistas) formavam 52% do Reichstag, mas tal percentagem não era suficiente para aprovar a Lei Habilitante, que só poderia ser aprovada por 67% do Reichstag. Hitler negociou com o Partido do Centro Católico (Zentrum), para que seus membros votassem em favor da Lei. O Zentrum e a Igreja Católica (que chefiava o Zentrum) concordaram, desde que governo alemão assinasse uma Concordata (tratado internacional celebrado entre a Santa Sé e um Estado, usualmente com a finalidade de assegurar direitos dos Católicos ou da Igreja Católica naquele Estado ou vincular o Papado ao Estado governado pelo soberano) com o Papa.
[4] A Conferência de Potsdam teve lugar no Castelo de Cecilienhof, lar do Príncipe herdeiro Wilhelm Hohenzzolern, em Potsdam, Brandenburg, Alemanha ocupada, e é algumas vezes referida como Conferência de Berlim dos Três Chefes de Estado da URSS (União Soviética), USA (Estados Unidos) e UK (Reino Unido), respectivamente representados pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Joseph Stalin, Presidente Harry S. Truman e Primeiro Ministro Winston Churchill (mais tarde substituído por Clement Attlee). Stalin, Truman e Churchill reuniram-se para decidir a administração da Alemanha Nazista, que se rendera incondicionalmente nove semanas antes. Os objetivos da Conferência incluíram o estabelecimento da ordem pós-guerra, questões do tratado de paz e a avaliação dos efeitos da guerra.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 3)

O IMPÉRIO GERMÂNICO


Wilhelm II,
Imperador Germânico
Neste período, a Prússia era tão grande e tão dominante no novo Império Germânico, que os Junkers[1] e outras elites prussianas eram cada vez mais identificadas como alemães e cada vez menos como prussianos. Wilhelm II, o último da dinastia Hohenzollern, tornou-se imperador da Alemanha (Kaiser) em 1888 e governou até a derrota da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Após a derrota nessa Guerra, a Alemanha foi obrigada a entregar o Corredor Danzig à Polônia e Danzig tornou-se mais uma vez uma cidade livre, fazendo com que a província da Prússia Oriental fosse separada do resto da Alemanha. O Império Germânico foi dissolvido em 1918, durante a Revolução Alemã de 1918-1919, que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial.
O Império Alemão recém-fundado era uma monarquia constitucional. Para a composição do Reichstag (Parlamento) foi instituído o sufrágio geral, igual e secreto dos homens, mas a influência do Reichstag sobre a política imperial era limitada. Leis propostas através do Reichstag só podiam entrar em vigor com a aprovação do Conselho Federal e do Imperador; eles podiam dissolver o parlamento a qualquer momento e organizar novas eleições. O único poder importante do Reichstag era a aprovação do orçamento do Estado. Quanto ao maior item, o orçamento militar, o Reichstag era autorizado a votar somente de forma generalizada e por um período total de sete anos (Septennat). O governo imperial obedecia ao Imperador, não ao Reichstag.
Prédio do Parlamento do Império Alemão, Berlim, 1894
A partir de 1871, os socialdemocratas também foram representados no Reichstag e seus partidos se uniram posteriormente ao SPD[2]. Era o único partido político no Império alemão que se declarava a favor de uma forma republicana de governo. Por causa disso, até renunciar ao cargo em 1890, Otto von Bismarck, a partir de 1878, mandou persegui-lo com base em leis antissocialistas. No entanto, os socialdemocratas aumentaram sua percentagem de votos em quase todas as eleições. Após a eleição geral de 1912, com 110 deputados e 28 por cento dos votos os socialdemocratas representaram o maior partido.
Nos 43 anos do Império até a Primeira Guerra Mundial, o SPD não só cresceu, mas também mudou seu caráter. Na discussão do Revisionismo de 1898, os revisionistas queriam excluir o objetivo revolucionário do programa do partido. Ao invés disso, lutaram por reformas sociais com base na ordem econômica existente. A maioria da base marxista do partido foi contra o revisionismo e se impôs novamente. Mas a retórica ainda revolucionária escondia somente com dificuldade o fato de que SPD havia se tornado praticamente reformista desde a abolição das leis antissocialistas em 1890. Os socialdemocratas, que foram consideradas "inimigos do Reich" e "apátridas" por muito tempo, se viam como patriotas alemães. No início da Primeira Guerra Mundial, tornou-se óbvio que o SPD era parte integral do Império, embora na oposição.
As duas décadas que se seguiram à Unificação Alemã viram o plantio e o auge do primeiro conflito mundial pelo sistema político prussiano-alemão.
A constituição do Império Germânico foi uma versão levemente modificada da constituição da Confederação da Alemanha do Norte. Oficialmente, o Império Alemão era um estado federal. Na prática, a relação do Reino da Prússia com o resto do império foi sempre um pouco confusa. O reino de Hohenzollern incluía três quintos do território alemão e dois terços da sua população. O Exército Imperial Alemão foi, na prática, um exército prussiano ampliado, embora os outros reinos (Baviera, Saxônia e Württemberg) tivessem mantido seus próprios exércitos.
A coroa imperial era um cargo hereditário da Casa de Hohenzollern, a casa real da Prússia. O primeiro-ministro da Prússia, com exceção de dois períodos curtos (janeiro a novembro de 1873 e 1892-1894), também foi chanceler imperial. Mas o próprio império não tinha o direito de cobrar impostos diretamente de seus súditos; os únicos rendimentos totalmente sob o controle federal foram os direitos aduaneiros, impostos especiais de consumo comuns, e as receitas de prestação de serviços postais e telegráficos. Embora todos os homens acima de 25 anos de idade pudessem votar nas eleições imperiais, a Prússia manteve o seu sistema de votação restritivo de três classes. Isso exigia, de forma eficaz, que o rei/imperador e o primeiro-ministro/chanceler procurassem maiorias das legislaturas eleitas por duas populações diferentes. Tanto no Reino quanto no Império, os círculos eleitorais originais nunca foram redesenhados para refletir as mudanças na população, o que fez com que as zonas rurais foram grosseiramente sobre representadas na virada do século XX.
Como resultado, o Reino da Prússia e o Império Alemão formavam um estranho paradoxo. Bismarck sabia que seu novo Reich Alemão (Império Alemão) agora era um colosso fora de qualquer proporção com relação ao resto do continente. Com isso em mente, ele declarou a Alemanha uma potência satisfeita, usando seus talentos para preservar a paz, por exemplo, no Congresso de Berlim[3].
Friedrich III, segundo imperador do Império
Germânico, por 99 dias.
Como primeiro imperador do Império Alemão, Wilhelm I foi sucedido por seu filho Friedrich III, que exerceu o cargo por apenas noventa e nove dias, em 1888, após a morte de seu pai, morrendo de câncer da laringe. Friedrich III casou-se com a Princesa Victoria, filha mais velha da Rainha Victoria, do Reino Unido. A ideologia liberal do casal conduziu-os a buscar uma maior representação dos Comuns no governo. A despeito de sua experiência familiar militar conservadora, ele havia desenvolvido tendências liberais como resultado de seus laços com a Grã-Bretanha e seus estudos na Universidade de Bonn. Enquanto ainda Príncipe, opôs-se ao Chanceler Bismarck, especialmente com relação às suas ideias de unir os estados germânicos pela força e muito fez para ofuscar a Chancelaria. Liberais do Império Germânico e Inglês esperavam que, como Imperador ele fosse liberalizar o seu Império. Infelizmente pouco pode fazer por tal, pois já sofria de câncer de laringe quando morreu em 15 de junho de 1888, com 56 anos de idade.
Em 1888, aos 29 anos, Wilhelm tornou-se o Imperador Wilhelm II, após uma juventude difícil e conflitos com sua mãe britânica Vitória, Princesa Real. Ele acabou demonstrando ser homem de pouca experiência e visão estreita e reacionária; de julgamento pobre e mau humor frequente, alienou antigos amigos e aliados. Foi o imperador da Primeira Grande Guerra e por ela foi deposto e obrigado a fugir em exílio para a Holanda.
Embora, em sua juventude, ele tivesse sido grande admirador de Bismarck, a característica impaciência de Wilhelm II logo o fez entrar em choque com o “Chanceler de Ferro”, figura dominante na fundação do seu Império. Ao contrário do seu antecedente, Wilhelm II pretendia uma expansão rápida e vigorosa para assegurar o seu “lugar ao Sol”, em oposição à cuidadosa política externa de Bismarck; além disso, o jovem Imperador veio também para reinar além de governar, diferentemente do seu avô que muito delegava a Bismarck. Assim, conflitos desde o início logo envenenaram o relacionamento entre os dois e o rompimento final iniciou logo após a tentativa de Bismarck de implementar uma lei antissocialista de longo alcance, no início da década de 1890. À medida que as discussões prosseguiam, Wilhelm tornava-se mais interessado nos problemas sociais, especialmente na greve dos mineiros de 1889, interrompendo Bismarck frequentemente, para que todos soubessem onde ele se situava na política social. Bismarck discordava francamente de sua política e com o tempo, sentindo-se pressionado por Wilhelm e solapado por seus ambiciosos conselheiros, recusou-se a assinar uma proclamação relativa à segurança de trabalhadores, junto com Wilhelm, como previa a Constituição. O rompimento final veio quando Bismarck teve que buscar nova maioria no Parlamento devido ao fiasco do projeto antissocialista. Os poderes remanescentes no Parlamento eram o Partido Católico do Centro e o Partido Conservador. Bismarck quis formar um novo bloco com o Partido do Centro e convidou o seu líder no Parlamento, Ludwig Windthorst, para discutir uma coalizão, o que provocou a explosão de Wilhelm. Pela primeira vez forçado a uma situação da qual ele não poderia tirar vantagem própria, Bismarck resignou, por insistência de Wilhelm, em 18 de março de 1890, com a idade de 75 anos, sendo sucedido por Leo von Caprivi, depois por Chlodwig, príncipe de Hohenlohe-Schillingsfürst, em 1894 e, finalmente, por Bernard von Bülow, em 1900, “seu próprio Bismarck”. Na abertura do Parlamento, em 6 de maio de 1890, o Kaiser declarou que a questão mais importante era a ampliação do projeto de lei relativo à proteção do trabalhador. Em 1891 o Parlamento aprovou o Ato de Proteção ao Trabalhador, que melhorava as condições de trabalho, protegia as mulheres e crianças e regulava as relações de trabalho, tudo a que se opunha Bismarck.
Na política externa, Bismarck havia alcançado um frágil equilíbrio de interesses entre o Império Germânico, a França e a Rússia; a paz estava bem próxima e Bismarck tentou manter este estado de coisas embora o crescente sentimento popular contra a Grã-Bretanha (com relação à suas colônias) e, especialmente, contra a Rússia. Com a saída de Bismarck os russos esperavam uma inversão na política em Berlim e rapidamente buscou a França, iniciando um processo que, no início de 1914, praticamente isolou o Império Germânico.
Por outro lado, trazendo para si pessoas como Caprivi e Hohenlohe, Wilhelm II embarcava no que é conhecido pela história como o “Novo Rumo”, em que ele esperava exercer decisiva influência no governo do Império. Os historiadores discutem sobre o seu sucesso na implementação do “governo pessoal”, mas ficou clara a diversa dinâmica existente entre a Coroa e o Chanceler (seu chefe político) na “Era Guilhermina”. Bismarck havia criado o “Mito Bismarck”, algo que os eventos futuros mostrariam, e sua saída destruiu quaisquer chances que o Império possuía de estabelecer um governo efetivo. Assim, o “Novo Rumo” foi mais caracterizado como o navio germânico fora de controle, eventualmente conduzindo, por uma série de crises, ao morticínio da Primeira e Segunda Guerra Mundiais.
No início do século XX, Wilhelm iniciou sua real agenda: a criação de uma marinha germânica que rivalizasse com a britânica e permitisse ao Império declarar-se uma potência mundial. E enquanto seus fiéis chanceleres se ocupavam dos negócios domésticos, Wilhelm II espalhava alarmes nas chancelarias da Europa com suas crescentes visões excêntricas das relações externas. Hoje é amplamente reconhecido que os vários atos espetaculares por ele perpetrados na esfera internacional foram muito influenciados pela elite da política externa germânica. A própria opinião pública britânica, que havia sido favorável ao Kaiser nos seus primeiros doze anos, tornou-se amarga ao final dos anos 1880 e durante a Primeira Guerra Mundial ele tornou-se o principal alvo da propaganda britânica antigermânica e na personificação de um inimigo odiado. Wilhelm II inventou e espalhou temores de um “perigo amarelo”, tentando interessar outros governantes europeus nos perigos que eles enfrentavam numa invasão da China. Também usou a vitória dos japoneses na guerra Russo – Japonesa, para provocar medo, no Ocidente, do perigo amarelo que eles enfrentavam num Japão ressurgente, que dizia, se uniria à China para derrotar o Ocidente. Com Wilhelm, o Império investiu no fortalecimento de suas colônias da África e do Pacífico, mas poucas tornaram-se lucrativas e foram perdidas durante a Primeira Guerra Mundial. Uma das poucas vezes em que Wilhelm foi bem-sucedido na diplomacia pessoal, foi quando em 1900 ele apoiou o casamento do Arquiduque Franz Ferdinando da Áustria[4], com Sophie Chotek, contra os desejos do Imperador Franz Joseph.
Aqui, um pequeno parêntese se faz necessário. Nesta postagem, não vou tratar da Primeira Guerra Mundial com detalhe, já que um assunto imenso e sobre o qual tanto já se escreveu. Relembro que o nosso assunto é a formação da Alemanha moderna, desde as suas origens. Assim, a Primeira Grande Guerra será aqui tratada apenas como um dos episódios importantes da formação desse país.

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A Primeira Guerra Mundial, que matou 17 milhões de pessoas, traumatizou uma geração, fez desmoronar antigos impérios e alterou a ordem política mundial, ainda mantém suas origens obscuras. A mais simples resposta sobre o início da Primeira Grande Guerra é que a sua causa imediata foi o assassinato de Franz Ferdinand, Arquiduque do Império Austro-Húngaro. Sua morte pelas mãos de Gavrilo Princip, um nacionalista sérvio da Bosnia, pertencente à organização “Jovem Bosnia”, com ligações com o grupo secreto militar conhecido como “Mão Negra” (composta por militares do exército da Servia), impulsionou as maiores potências militares europeias em direção à guerra. Sob as ordens do chefe da Inteligência Militar da Servia, oficiais sérvios organizaram e facilitaram o assassinato do Arquiduque, por ocasião de sua visita à Sarajevo, na Bosnia.
Gavrilo Princip, assassino do Arquiduque Franz Ferdinand
Entretanto, os eventos que conduziram ao assassinato, são muito mais complexos, mas muitos estudiosos concordam que a emergência gradual de um grupo de alianças entre potências importantes foi causa parcial do início da guerra. Mas mesmo a teoria das alianças é hoje considerada muito simplificada pelos historiadores. A guerra não veio à Europa por acidente, mas por projeto, pondera o historiador militar Gary Sheffield, segundo o qual, a Primeira Guerra Mundial começou por duas razões fundamentais:
1) Os tomadores de decisão, em Berlim e Viena, escolheram o rumo que esperavam trar-lhes-ia significativas vantagens políticas, mesmo se conduzisse a uma guerra geral.
2) Os governos dos estados da Entente (França e aliados) aceitaram o desafio.
Sheffield acrescenta: “Na melhor das possibilidades, o Império Germânico e a Áustria-Hungria se jogaram numa aposta inconsequente que resultou totalmente errada; na pior, o ano de 1914 viu uma guerra premeditada de agressão e conquista, um conflito que provou se afastar demais da rápida e decisiva aventura que alguns esperavam.
Entretanto, conhecendo-se os antecedentes que envolviam a Áustria-Hungria, Bosnia e Servia, os patrocinadores do assassinato, comprovado o governo sérvio, jamais poderiam esperar outra reação do Império Austro-Húngaro – e seus aliados – além da declaração de guerra subsequente. O que pode sugerir duas coisas: ou uma imensa irresponsabilidade do governo sérvio ou uma ação proposital encomendada pela Entente para obter uma guerra de grandes proporções que interrompesse a caminhada imperialista dos países das Potências Centrais, outra imensa irresponsabilidade, mas agora da Entente.
Outro ponto importante a considerar, é que, longe de serem governantes remotos que desconheciam seus inimigos, os líderes dos estados da Grã-Bretanha, Império Germânico e Rússia – Rei George V, Kaiser Wilhelm II e Czar Nicolau II, respectivamente -, eram primos em primeiro grau que se conheciam muito bem. A Rainha Victoria, da Inglaterra, avó dos três líderes, tentou gerenciar a paz entre os primos, mas após a sua morte, em 1901, a boa vontade entre os ramos russo, inglês e germânico da família se dissipou conduzindo seus governantes à beira da guerra.
A investigação austro-húngara descobriu todos – com exceção de um – os assassinos e também muito da linha férrea subterrânea usada para transportar os assassinos e suas armas, da Servia para Sarajevo. Nos dois dias que se seguiram ao assassinato o Império Austro-Húngaro e o Império Germânico aconselharam a Servia a abrir uma investigação, ao que respondeu o Ministro das Relações Exteriores da Servia, Gruic: “Nada foi feito até agora e o assunto não diz respeito ao governo sérvio!”. Após isso, ásperas palavras foram trocadas de ambos os lados.
Wilhelm II, que era muito amigo de Franz Ferdinand e ficou profundamente chocado com seu assassinato em 28 de junho de 1914, ofereceu apoio à Áustria-Hungria para esmagar a “Mão Negra”, sancionando o uso da força contra a fonte presumida do movimento: a Servia (o famoso “cheque em branco”).
O Império Austro-Húngaro enviou, em 23 de julho, um “Ultimatum” ao governo Sérvio, pelo qual ele deveria, publicamente, condenar a propagando perigosa contra o Império, cujo objetivo final seria “separar da Monarquia territórios a ela pertencentes”. Além disso, o governo da Servia deveria atender a uma série de duras demandas impostas pelo Império. Um apêndice ao texto principal listava vários detalhes da investigação criminosa contra Gavrilo Princip e seus camaradas, que demonstrariam a culpabilidade e assistência fornecida aos conspiradores por vários oficiais sérvios. Instruções foram fornecidas ao ministro austríaco em Belgrado, pelo qual, se nenhuma resposta positiva incondicional fosse recebida da Servia dentro de 48 horas, o Ministro deveria abandonar a embaixada Austro-Húngara de Belgrado com todo o seu pessoal.
Enquanto os possíveis apoiadores da Servia, a aconselhavam a aceitar o ultimatum “com a menor humilhação possível”, os aliados do Império Austro-Húngaro fomentavam o início da guerra no mais curto prazo possível. A Servia aceitou todos os termos do ultimatum com exceção de um e sua resposta não foi aceita como favorável, pelo que, em 25 de julho de 1914, o Imperador Franz Joseph do Império Austro-Húngaro, assinou a mobilização para iniciar as operações contra a Servia em 28 de julho; o embaixador do Império, Giesl, deixou Belgrado. Em 28 de julho, os austro-húngaros declararam guerra à Servia e invadiram subsequentemente. A Rússia mobilizou em defesa da Servia, o Império Germânico invadiu os neutros Bélgica e Luxemburgo, antes de mover-se em direção à França, conduzindo o Reino Unido a declarar guerra contra a Alemanha.
De acordo com a teoria das alianças, em 1914 haviam resultado seis forças mais importantes que se juntaram em dois amplos grupos: Grã-Bretanha, França e Rússia formaram as Potências Aliadas (Triple Entente); o Império Germânico, Áustria-Hungria e Itália compreenderam as Potências Centrais. Embora a Itália fosse um membro das Potências Centrais, ela não se juntou a eles pelo fato da Áustria-Hungria ter tomada a ofensiva na Guerra, contra os termos da aliança. Esses acordos foram reorganizados e expandidos à medida que outras nações entraram na guerra: Itália (1915), Romênia (1916), Japão e Estados Unidos (1917) juntaram-se às Potências Aliadas, enquanto o Império Otomano (novembro de 1914) e a Bulgária (1915) juntaram-se às Potências Centrais. Os eventos chaves foram os seguintes:
· Em 28 de julho de 1914 a Áustria-Hungria declara guerra à Servia.
· Em 2 de agosto de 1914 o Império Otomano (Turquia) e o Império Germânico assinam um tratado secreto de aliança.
· Em 3 de agosto de 1914 o Império Germânico declara guerra à França.
· Em 4 de agosto de 1914 o Império Germânico invade a Bélgica, conduzindo a Grã-Bretanha a declarar guerra ao Império Germânico.
· Em 10 de agosto de 1914 a Áustria-Hungria invade a Rússia.
Finalmente, muitos outros países, incluindo Austrália, Índia e muitas colônias africanas lutaram por determinação dos seus governos imperiais.
O governo russo entrou em colapso em março de 1917, francamente solapado pela revolução comunista que tirou a Rússia da guerra através do vergonhoso tratado de Brest Litovsk, assinado por Lenin e demais líderes comunistas, constituindo uma maciça vitória germânica. Após uma formidável ofensiva germânica na Frente Ocidental, na primavera de 1918, os Aliados recuperaram-se obrigando os germânicos a retrocederem numa série de ofensivas sucessivas.
Em novembro de 1918 o Império Austro-Húngaro concordou com um armistício e o Império Germânico, com sua revolução interna, concordou com um armistício em 11 de novembro de 1918, assim encerrando a Primeira Guerra Mundial com a vitória dos Aliados.
O envolvimento na guerra havia sido desastroso para os três monarcas. Ao fim de 1918, Wilhelm II, o Kaiser Germânico, fora deposto e fugira em exílio na Holanda; Nicolau II, o Czar Russo e sua família haviam sido executados pelos comunistas; e George V, o Rei Britânico, reinava sobre um império quebrado e afogado em dívidas. Além disso, ao final da Guerra, o Império Germânico, o Império Russo, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano haviam cessado de existir. As fronteiras nacionais foram redesenhadas, com várias nações independentes restauradas ou criadas e as colônias do Império Germânico distribuídas entre os vencedores. Durante a Conferência de Paz de Paris, 1919, pelo Tratado de Versailles, os “Quatro Grandes” (Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e Itália) impuseram seus termos numa série de tratados. A “Liga das Nações” foi formada com o objetivo de prevenir a repetição de um conflito semelhante. Tal Liga logo fracassou pela depressão econômica, mas renovou o nacionalismo europeu, enfraqueceu os Estados membros e, através do sentimento germânico de humilhação, contribuiu para a ascensão do Nazismo. Tais condições, em seu conjunto e ao final, muito contribuíram para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

[1] Junkers eram denominados os membros da nobreza constituída por grandes proprietários de terras nos estados alemães anteriores e durante o 2º Reich (1871-1918). Essa aristocracia latifundiária teve importante papel na construção do Reino da Prússia, a partir do século XVIII. Diferentemente das nobrezas da França e da Inglaterra de então, os Junkers dedicavam-se diretamente à administração da atividade agrícola. Os trabalhadores nas propriedades dos Junkers eram povos conquistados militarmente e despojados de quaisquer direitos ou propriedades. Na colonização prussiana de terras conquistadas de povos eslavos, os Junkers administraram essas terras em moldes capitalistas, visando ao lucro e à eficiência da produção. Assim, constituíram-se como uma classe aplicada às técnicas modernas da produção econômica e paralelamente foram alçados por Friedrich II da Prússia a um monopólio absoluto sobre os quadros civis e militares do reino. Na Prússia do século XVIII, as classes mercantis urbanas não ganharam destaque político e predominou na construção do Estado a postura autoritária e fechada da aristocracia Junker.
[2] O Partido Social-Democrata da Alemanha (em alemão Sozialdemokratische Partei Deutschlands, cuja sigla é SPD) é, até hoje, um partido político alemão. O SPD permanece um dos partidos dominadores da cena política alemã. É o partido alemão mais antigo ainda em funcionamento, tendo completado, em 2015 cento e quarenta anos de existência. Foi impiedosamente perseguido durante o Terceiro Reich (1933-1945) e, na antiga Alemanha Oriental, foi obrigado pelas forças de ocupação soviéticas a se fundir com os comunistas.
[3] O Congresso de Berlim, realizado de 13 de junho a 13 de julho de1878, em Berlim, foi uma reunião entre líderes das grandes potências europeias e o Império Otomano. Na sequência da Guerra russo-turca, de 1877–1878, o objetivo da reunião era tentar reorganizar os países dos Balcãs - região sudeste da Europa que engloba a Albânia, Bosnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônia, Montenegro, Servia, o autoproclamado independente Kosovo e a porção da Turquia no continente europeu; algumas vezes, pode incluir Croácia, Romênia, Eslovênia e a Áustria. Bismarck conduziu o Congresso, e comprometeu-se a equilibrar os diferentes interesses da Grã-Bretanha, Rússia e Áustria-Hungria. Como consequência, no entanto, as diferenças entre a Rússia e a Áustria-Hungria e as questões de nacionalidade dos Balcãs foram intensificada.
[4] Franz Ferdinando era um Arquiduque da Áustria-Leste, Austro-Húngaro e Príncipe Real da Hungria e da Bohêmia e, de 1896 até a sua morte, herdeiro do trono Austro-Húngaro. Seu assassinato em Sarajevo precipitou a declaração de guerra da Austro-Húngaro contra a Servia, causa imediata da Primeira Guerra Mundial.