Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 17 de novembro de 2019

O ESTOICISMO E OS ESTOICOS (Parte 2)

V – ÉTICA E VIRTUDES


Os antigos estoicos são muitas vezes mal-entendidos porque os termos que eles usavam eram relevantes a mais diferentes conceitos no passado, do que eles são hoje. A palavra “estoico” surgiu para significar “sem emoção” ou indiferente à dor, porque a ética estoica ensinava a liberdade da “paixão” pelo seguimento da “razão”. Os estoicos não buscavam extinguir as emoções; eles buscavam transformá-las através de um decidido “askesis”[1] (ascetismo) que proporciona à pessoa desenvolver um julgamento claro e uma calma interior. A lógica, a reflexão e a concentração, eram os métodos de tal autodisciplina.
Tomando emprestado dos Cínicos, a base da ética estoica é que o bem se situa no estado da própria alma, na sabedoria e no autocontrole. A ética estoica enfatizava a regra: “Siga aonde a razão o conduzir”. Deve-se, portanto, se esforçar para ser livre de paixões, tendo sempre em mente que o antigo significado de paixão era “angústia” ou “sofrimento”, isto é, reagir passivamente aos eventos externos, o que é bem diferente do uso moderno da palavra. Uma distinção era feita entre pathos, que é normalmente traduzido como paixão, propathos ou reação instintiva (por exemplo tornar-se pálido e com tremores quando confrontado com um perigo físico) e eupathos, que é a marca do sábio estoico (sophos). A eupatheia são os sentimentos que resultam do correto julgamento, da mesma forma que as paixões resultam de um julgamento incorreto.
A ideia era permanecer livre do sofrimento através da apatheia ou paz da mente (literalmente “sem paixão”), onde a paz da mente era entendida, no sentido antigo, como ser objetivo ou ter um julgamento claro e a manutenção de equanimidade em face dos altos e baixos da vida.
Para os estoicos, a razão significava não apenas usar a lógica, mas também entender os processos da natureza – o logos, ou razão universal, inerente a todas as coisas. Viver de acordo com a razão e a virtude, sustentavam eles, é viver em harmonia com a ordem divina do universo, em reconhecimento da razão comum e o valor essencial de todas as pessoas.
As quatro virtudes cardiais da filosofia estoica são um conjunto derivado dos ensinamentos de Platão:

· Sabedoria (Sophia)
· Coragem (Andreia)
· Justiça (Dikaiosyne)
· Temperança (Sophrosyne).

Segundo Sócrates, os estoicos sustentavam que a infelicidade e o mal eram os resultados da ignorância humana da razão na natureza. Se alguém é cruel, é porque ele não tem consciência da sua própria razão universal, que conduz à conclusão de bondade. A solução para o mal e a infelicidade é, então, a prática da filosofia estoica: examinar seus próprios julgamentos e procedimentos, determinando onde eles divergem da razão universal da natureza.
Os estoicos aceitavam que o suicídio fosse permitido às pessoas sábias em circunstâncias tais que pudessem impedir uma vida virtuosa. Plutarco sustentava que aceitar uma vida sob a tirania, teria comprometido a constância de Cato[2] como um estoico e prejudicado sua liberdade para fazer as escolhas morais honradas. O suicídio seria justificado se alguém se tornasse vítima de grave dor ou doença, sendo visto, de outra forma, como rejeição de seu dever social.

V.1 A DOUTRINA DAS “COISAS INDIFERENTES”

Em termos filosóficos, as coisas que são indiferentes, estão fora da aplicação da lei moral, isto é, sem tendência de produzir ou obstruir os fins morais. As ações nem exigidas, nem proibidas pela lei moral, ou que não afetam a moralidade, são chamadas de moralmente indiferentes. A doutrina das coisas indiferentes surgiu na escola estoica como um corolário (declaração que segue imediatamente uma declaração anterior) da sua oposição diametral de virtude e vício (respectivamente “ações convenientes” ou ações em acordo com a natureza e enganos). Como resultado dessa dicotomia, uma grande classe de objetos foi deixada como indeterminada e assim considerada como indiferente.
Finalmente, três subclasses de “coisas indiferentes” se desenvolveram: coisas a serem preferidas, porque assistem a vida de acordo com a natureza; coisas a evitar, porque a impedem; e coisas indiferentes no sentido mais estreito. O Princípio das coisas indiferentes foi também comum aos Cínicos e Céticos e acabou sendo revivida, durante o Renascimento, por Philipp Melanchthon.

V.2 EXERCÍCIO ESPIRITUAL

Filosofia, para um estoico, não é apenas um conjunto de crenças ou propostas éticas, mas um meio de vida envolvendo prática e treinamento constante. As práticas filosóficas e espirituais do estoico incluíam lógica, diálogo socrático e auto diálogo, contemplação da morte, treinamento da atenção para permanecer no momento presente (similar a algumas formas de meditação oriental) e reflexão diária sobre os problemas de todo o dia e possíveis soluções. Filosofia, para um estoico, é um processo ativo de constante prática e auto lembrança.
Em suas “Meditações”, Marco Aurélio apresenta várias de tais práticas. Por exemplo, no Livro II.I:
“Diga a si mesmo cada manhã: hoje encontrarei homens ingratos, violentos, traiçoeiros, invejosos e sem caridade. Toda a ignorância do mal e bem reais ... Não posso ser ferido por qualquer deles, pois nenhum homem me envolverá no erro, nem posso ficar brabo com meu parente ou odiá-lo, porque viemos ao mundo para trabalhar juntos ...
Epictetus, estoico, nascido escravo
e autor dos "Discursos"
Antes de Aurélio, Epictetus, em seus “Discursos”, distinguia entre três tipos de ações: julgamento, desejo e inclinação. De acordo com o filósofo francês Pierre Hadot, Epictetus identifica essas três ações com lógica, física e ética, respectivamente. Hadot escreve que, nas “Meditações”, “Cada máxima desenvolve ou uma dessas muitas ações características, ou duas ou três delas.
As práticas de exercícios espirituais têm sido descritas como influenciando os de prática reflexiva por Seamus Mac Suibhne. Paralelos entre exercícios espirituais estoicos e a moderna terapia cognitiva de procedimento[3] foram detalhados à exaustão no “A Filosofia da Terapia Cognitiva de Procedimento” de Robertson.

VI – FILOSOFIA SOCIAL

Uma característica diferenciada do estoicismo é o seu cosmopolitismo: todos os povos são manifestações do único espírito universal e deveriam, segundo os estoicos, viver no amor fraternal e estarem sempre prontos a se ajudar uns aos outros. Nos “Discursos”, Epictetus comenta sobre as relações do homem com o mundo: “Cada ser humano é, primariamente, um cidadão da sua própria-nação; mas ele é também um membro da grande cidade dos deuses e homens, da qual a cidade política é apenas uma cópia”. Tal sentimento faz eco às palavras de Diógenes de Sinope, que disse: “Não sou um ateniense ou um coríntio, mas um cidadão do mundo”.
Eles sustentavam que diferenças externas tais como a posição social e a riqueza não são importantes nas relações sociais, mas sim a fraternidade da humanidade e a igualdade natural de todos os seres humanos. O estoicismo tornou-se a mais influente escola do mundo greco-romano e produziu um grande número de importantes escritores e personalidades, como Cato, o Jovem e Epictetus.
Sêneca, o Jovem, filósofo estoico,
estadista e dramaturgo
Em particular, foram notados por sua clemência pelos escravos. Sêneca exortava “Gentilmente lembrar que aquele que você chama escravo é fruto do mesmo estoque, expressa sua alegria pelos mesmos céus e, em termos iguais com você, respira, vive e morre.

VII – CRISTIANISMO

A maior diferença entre as duas filosofias (social e espiritual) é o panteísmo do estoicismo, em que Deus nunca é totalmente transcendente, mas sempre imanente. Deus, como a entidade criadora do mundo, é personalizada no pensamento cristão, mas o estoicismo equipara Deus à totalidade do universo, o que é profundamente contrário ao Cristianismo. A única encarnação (literalmente significando tomar corpo na carne ou tomar carne) no estoicismo é que cada pessoa tem parte do logos dentro de si. O estoicismo, diferentemente do cristianismo, não coloca a questão do início e fim do universo.
O Estoicismo foi, mais tarde, visto, pelos Pais da Igreja, como uma filosofia pagã, embora alguns conceitos filosóficos centrais do Estoicismo fossem empregados pelos primeiros escritores cristãos. Exemplos incluem os termos “logos”, “virtude”, “Espírito” e “consciência”. Mas os paralelos vão bem além de compartilhar e tomar emprestada a terminologia. Tanto o Estoicismo como o Cristianismo declaram uma liberdade interior em face ao mundo exterior, uma crença na ligação humana com a Natureza de Deus, um senso de corrupção inata – ou “mal persistente” – da espécie humana e a futilidade e temporariedade das posses e ligações do mundo. Ambos encorajam o ascetismo com relação às paixões e emoções inferiores tais como a luxúria e a inveja, de forma que as maiores possibilidades da humanidade de alguém podem ser despertadas e desenvolvidas.
Os escritos dos estoicos, tais como “As Meditações”, de Marco Aurélio, têm sido altamente considerados por muitos cristãos através dos séculos. O ideal estoico da ausência de paixões é aceito, até hoje, como o estado moral perfeito pela Igreja Ortodoxa Oriental. Santo Ambrósio de Milão ficou conhecido por aplicar a filosofia estoica à sua teologia.
O apóstolo Paulo encontrou-se com os estoicos durante a sua estada em Atenas, conforme “Atos 17: 16-18”. Em suas cartas, Paulo refletiu fortemente sobre o seu conhecimento da filosofia estoica, usando termos e metáforas estoicos para ajudar seus novos convertidos gentis no seu entendimento na palavra revelada de Deus.
A influência estoica também pode ser vista nos trabalhos de Santo Ambrósio, Marcus Minucius Felix e Tertuliano. 

VIII – USO MODERNO

A palavra “Estoico” comumente se refere a “alguém indiferente à dor, pesar ou alegria. O uso moderno como “pessoa que reprime sentimentos ou suporta pacientemente” foi primeiro citado em 1579, como um “nome”, e em 1596, como um adjetivo. Em contraste ao termo “Epicurista”, a Enciclopédia Stanford de Filosofia, com relação ao Estoicismo, escreve: “O sentido do adjetivo inglês ‘estoico’ não é totalmente enganoso com relação às suas origens filosóficas”.
Os estoicos de fato reprimiam emoções como medo ou inveja (ou ligações sexuais sem intensa emoção, ou amor com paixão por qualquer coisa que seja) quer fosse ou se originasse de falso julgamento e que o sábio – uma pessoa que tivesse atingido a perfeição moral ou intelectual – não seria atingido por elas. Os últimos estoicos dos tempos do Império Romano, Sêneca e Epictetus, enfatizavam as doutrinas (já centrais aos ensinamentos dos primeiros estoicos) de que o sábio seria totalmente imune à má sorte e que a virtude é suficiente para a felicidade.
Nossa frase “calma estoica” talvez contenha o significado geral de suas assertivas. Não sugere, contudo, as mais radicais visões éticas que os estoicos defendiam, como por exemplo que somente o sábio é livre enquanto todos os demais são escravos, ou que todos aqueles que são moralmente viciosos também são assim. Embora pareça claro que alguns estoicos tivessem uma espécie de alegria perversa em advogar pontos de vista que parecessem em desacordo com o senso comum, não procediam assim apenas para chocar. A ética estoica alcança uma certa plausibilidade dentro do contexto de sua teoria física e psicologia e dentro da estrutura da teoria ética grega como exposta a eles a partir de Platão e Aristóteles. Parece que eles tinham consciência da natureza mútua interdependente de seus pontos de vista filosóficos, assemelhando a própria filosofia a um animal vivo em que a lógica seria os ossos e tendões; a ética e a física seriam a carne e a alma respectivamente (outra versão reverteria esta designação, fazendo a ética a alma). Seus pontos de vista em lógica e física não são menos distintivos e interessantes que na própria ética.

IX – INFLUÊNCIAS

A influência do Estoicismo sobre as culturas Grega e Romana, foi enorme. Zeno, o primeiro líder da escola, teve uma estátua dedicada a si, em Atenas, com dinheiro público, em que, parcialmente se lia:

“Tendo em conta que Zeno de Citium, filho de Mnaseas, foi por muitos anos devotado à filosofia na cidade, continuando a ser um homem de valor em todos os outros aspectos, exortando à virtude e temperança os jovens que vieram a ele ter para serem ensinados, dirigindo-os para o que é melhor, proporcionando a todos, com sua própria conduta, um padrão de imitação em perfeita consistência com seus ensinamentos ...”

Certamente os cidadãos de Atenas não poderiam ter honrado Zeno por toda uma vida vivida em consistência com seus princípios filosóficos, a menos que o conteúdo desses princípios fosse conhecido do público em geral. Considerando que os estoicos se reuniam, discutiam e ensinavam filosofia em lugares públicos, a mensagem geral de sua filosofia era amplamente conhecida. O estoicismo tornou-se uma “filosofia popular” de uma forma que, nem Platonismo, nem Aristotelismo, jamais foram. Em parte, isso foi porque o Estoicismo, como seu rival, o Epicurianismo, abordava questões que interessavam à maioria das pessoas, de formas muito diretas e práticas. Ele lhe diz como você deve considerar a morte, o sofrimento, grandes riquezas, pobreza, poder sobre outros e escravidão. No contexto político e social do poderio helenístico (onde uma pessoa poderia passar entre esses extremos em curto espaço de tempos) o Estoicismo proporcionava uma fortaleza psicológica garantida contra a má sorte. Historiadores de filosofia anteriores, deste século, viam isto, em geral, como uma marca contra a filosofia helenística. A noção era de que a filosofia havia chegado ao seu auge com Platão e Aristóteles e então degenerado para uma popular filosofia do “sentir-se bem” do período helenístico sem se aproximar da sua glória anterior novamente, até Plotinus. Pode ser verdade que a falta de autonomia política nas cidades-estados gregas tenha feito o ideal do sábio estoico autossuficiente parecer mais relevante e desejável. Mas mesmo que a filosofia fosse agradável à época, os estoicos e epicurianos forneceram argumentos para seus pontos de vista que ainda possuem interesse para nós que vivemos num contexto social e político muito diferente. Ou talvez tudo possa depender de quão pessimista você seja sobre as possibilidades quanto à autodeterminação dos indivíduos e pequenas comunidades na idade da globalização.
No nível político, a dinastia Antigonida[4] tinha ligações com os filósofos Estoicos. Antigonus Gonatas foi, alegadamente, um pupilo de Zeno de Citium. Ele solicitou a Zeno que fosse o tutor de seu filho, Demetrius, mas ele recusou com a desculpa de ser muito velho para o serviço. O homem que ele enviou em seu lugar, Perseus, era profundamente envolvido nos negócios da corte e, de acordo com algumas fontes, morreu em batalha em Corinto, a serviço de Antigonus. Outro homem forte helenístico, Cleomenes de Esparta, tinha o filósofo Estoico Sphaerus como um de seus conselheiros. As reformas instituídas em Esparta (incluindo a extensão da cidadania a estrangeiros e a redistribuição da terra) foram vistas por alguns como uma reforma social estoica, embora seja menos claro que tenha sido apenas um instrumento de poder para Cleomenes. 
Marco Aurélio, imperador romano
e filósofo estoico autor das “Meditações”
Em 155 AC, Atenas enviou uma delegação de três filósofos, Estoico, Acadêmico cético e Peripatético, em embaixada a Roma – nenhum Epicuriano foi incluído, talvez porque os Epicurianos recusassem por princípio participar em negócios públicos. Seus ensinamentos causaram sensação entre os educados. O Cético Carneades se dirigiu a uma multidão de milhares em um dia e argumentou que a justiça era um bem genuíno no seu próprio direito. No dia seguinte ele argumentou contra a proposição de que era no interesse do agente ser justo em termos de convencimento. Essa clara disposição de perícia dialética, junto com a profunda suspeição assentada de cultura filosófica, gerou uma reação conservadora contra todos os filósofos gregos conduzido por Marcus Porcius Cato (o Censor). Cerca de 86, contudo, Roma estava pronta para receber a filosofia grega de braços abertos. Seria natural que um romano ambicioso e abonado, como Cícero, fosse estudar nas escolas filosóficas de Atenas e retornasse para popularizar a filosofia grega para seus compatriotas menos cosmopolitas. O Epicurianismo tendeu a ser favorecido nas fileiras dos militares de Roma, ao passo que o Estoicismo apelou mais aos membros do Senado e outros influenciadores e poderosos políticos. Muitos políticos romanos adotaram ao final o tom de alta moral do Estoicismo de acordo com o qual somente a virtude é um bem genuíno, enquanto dinheiro, saúde e mesmo a própria vida são simplesmente consideradas indiferentes. Figuras políticas romanas associadas com o Estoicismo incluem Cato, o Jovem e Scipio Aemilianus (embora algumas das queixas feitas no aprendizado anterior sobre a filosofia e cultura gregas e o Círculo Scipiônico sejam hoje vistas com certa suspeição). Marcus Brutus (o amigo de Cícero que tomou parte no assassinato de Julius Caesar), professou o estoicismo, o que não o impediu de recorrer a empréstimos de agiota (daí a piada de que era um homem de altos princípios, mas ainda mais altos juros). Pompeu achou suficientemente importante prestar atenção às idas e vindas do filósofo Estoico Panaetius. Otávio, (que se tornou Augusto), teve um tutor Estoico. Entre os imperadores romanos, o filósofo Estoico Sêneca foi o conselheiro de Nero. Helvidius Priscus fazia propaganda de ser um Estoico. Quando de forma pouco inteligente criticou o Imperador Vespasiano no Senado, foi executado e todos os filósofos foram expulsos de Roma como criadores de problemas. Sob Domiciano eles foram banidos de toda a Itália. Claramente, o pior dos imperadores romanos não sabia o que fazer com pessoas que não viam a morte como o maior dos males. A hostilidade do Império não durou muito. Adriano (117 a 138 DC) foi um amigo da filosofia grega e fez com que seu parente e sucessor, Marco Aurélio, tivesse uma educação que incluísse a filosofia. Suas “Meditações” são ainda uma boa leitura, mesmo que você não saiba nada sobre Estoicismo, mas especialmente se sabe. Marco Aurélio reparou os pecados de Roma contra a Filosofia, estabelecendo a formação de professores nas quatro escolas de filosofia de Atenas e em cento e setenta e seis outras. A despeito disso, o Estoicismo como movimento filosófico em si, desaparece aos primórdios do segundo século.
A influência do Estoicismo na história subsequente do pensamento filosófico e religioso é difícil de avaliar diretamente. A tradição de teorias de lei natural na ética, parece derivar diretamente do Estoicismo. Teólogos cristãos foram certamente receptivos a alguns dos elementos do Estoicismo. Existe uma inautêntica correspondência entre São Paulo e Sêneca incluída na Apócrifa. O documento é muito antigo referido em “De Viris Illustribus”, de São Jerônimo e na “Epístola 153.4” de Santo Agostinho, que resolveu seguir os Estoicos ao invés dos Platonistas (seus aliados usuais entre os filósofos) sobre a questão da associação de animais na comunidade moral. Filósofos medievais e do Renascimento eram afeitos ao Estoicismo, principalmente através dos escritos de Sêneca e Cícero. A influência do Estoicismo no pensamento medieval foi considerada por Verbeke (1983) e Colish (1985). Seu renascimento no século XVI é discutido por Zanta (1914) e Cooper (2004). Há vários estudos novos sobre a influência da filosofia Estoica, incluindo Osler (1991) e Strange e Zubek (2004).

[1] Askesis, em grego, ou ascetismo, em português, é um estilo de vida caracterizado pela abstinência de prazeres sensuais, muitas vezes com o objetivo de atingir metas espirituais. Os ascetas poderiam se retirar do seu mundo para as suas práticas ou continuar a fazer parte de suas sociedades, mas tipicamente adotavam um estilo de vida frugal, caracterizado pela renúncia de possessões materiais e prazeres físicos e pelo tempo dispendido em jejuns, ao mesmo tempo que concentrando-se na prática da religião ou na reflexão sobre matérias espirituais.
[2] Marcus Porcius Cato Uticensis, (95 AC a 46 AC), comumente conhecido como Cato, o Mais Jovem, para distingui-lo de seu bisavô, Cato, o Mais Velho, foi um estadista do final da República Romana e um adepto da filosofia estoica. Um orador notável, lembrado por sua teimosia e tenacidade (especialmente por seu prolongado conflito com Júlio Cesar), bem como por sua imunidade aos subornos, por sua integridade moral e seu famoso desgosto pela corrupção disseminada do período.
[3] Terapia cognitiva de procedimento (TCP) é uma intervenção psicossocial que visa melhorar a saúde mental. Ela foca o desafio e a mudança de distorções que não ajudam em nada (por exemplo, pensamentos, crenças e atitudes) e procedimentos cognitivos, melhorando a regulação emocional e o desenvolvimento de estratégias pessoais de tratamento, cujo alvo é a solução de problemas corriqueiros. Originalmente ela foi projetada para tratar a depressão, mas seus usos foram estendidos para incluir o tratamento de várias condições de saúde mental, inclusive a ansiedade.
[4] A Dinastia Antigonida foi uma dinastia de reis helenísticos descendente do general de Alexandre, o Grande, Antigonus I Monophtalmus (o “de Um Olho Só”). Foi a casa governante da antiga Macedônia de 306 a 168 AC. Tal dinastia foi estabelecida quando Demetrius I Poliorcetes, o filho de Antigonus I, removeu o Governador de Atenas de Cassander, Demetrius de Phaleron, e conquistou a ilha de Chipre, com isso dando a seu pai o controle do Mar Egeu, Mediterrâneo oriental e todo o Oriente Médio, com exceção da Babilônia. Antigonus I foi proclamado rei em 306 AC pelos exércitos reunidos dessas áreas.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O ESTOICISMO E OS ESTOICOS (Parte 1)


I - INTRODUÇÃO

O Estoicismo é uma escola de filosofia helenística[1] fundada por Zeno de Citium, em Atenas, no início do século III AC. Ao mesmo tempo em que grandemente influenciados pelos ensinamentos do filósofo Heraclitus, os físicos estoicos foram também muito influenciados por certas técnicas de Sócrates. O Estoicismo é, predominantemente, uma filosofia de ética pessoal formada por seu sistema de lógica e suas observações do mundo natural. De acordo com seus ensinamentos, como seres sociais, o caminho para a felicidade dos humanos é encontrado pela aceitação do momento, tal como ele se apresenta e por não permitir ser controlado pelo desejo do prazer ou medo da dor, pelo uso da sua mente, para entender o mundo e fazer a sua parte no plano da natureza, bem como trabalhar junto e tratar os outros adequadamente e com justiça.
O estoicismo floresceu na Grécia com Cleanthes de Assos e Chrysippus de Soli, sendo levado a Roma no ano 155 AC por Diógenes de Babilônia. Ali, seus continuadores foram Marco Aurélio, Sêneca[2], Epictetus[3] e Lucano. Sobreviveu a todo o período da Grécia Antiga e do Império Romano, até que todas as escolas filosóficas foram encerradas em 529 por ordem do imperador Justiniano I, que considerou as suas características pagãs contrárias à fé cristã.
Os estoicos ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento e que um sábio, ou pessoa com "perfeição moral e intelectual", não sofreria dessas emoções. O estoicismo afirmava que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos [4] divino, noção que os estoicos tomaram de Heráclito e desenvolveram. A alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos (termo grego que significa "harmonia").
O estoicismo propunha viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselhava a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedeceria à lei natural, reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, devendo, assim, manter a serenidade perante tanto as tragédias quanto as coisas boas. A partir disso, deveria "viver conforme a natureza"; sendo a natureza essencialmente o logos, essa máxima seria prescrição para se viver de acordo com a razão. Como a razão é a ferramenta pela qual o homem torna-se livre e feliz, o homem sábio não apreende o seu verdadeiro bem nos objetos externos, mas usa estes objetos através de uma sabedoria pela qual não se deixa escravizar pelas paixões e pelas coisas externas.
Os estoicos preocupavam-se com a relação ativa entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, e com a crença de que é virtuoso manter uma vontade (denominada prohairesis) que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estoicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que ela dizia, mas a forma como se comportava. Os estoicos são especialmente conhecidos por ensinar que “a virtude é o único bem” para os seres humanos e que as coisas externas - tais como saúde, riqueza e prazer – não são bons ou maus em si mesmos, mas têm valor como “material sobre o qual a virtude possa atuar”. Juntamente com a ética Aristotélica, a tradição estoica forma uma das maiores abordagens fundadoras das virtudes éticas ocidentais. Para viver uma boa vida, as pessoas tinham que entender as regras da ordem natural, já que elas pensavam que tudo estava enraizado na natureza.
Muitos estoicos - como Sêneca e Epictetus – enfatizavam que, uma vez que “a virtude é suficiente para a felicidade”, um sábio seria emocionalmente resistente à desgraça. Essa crença é similar ao significado da frase “calma estoica”, embora a frase não inclua as visões do estoico “ético radical”, de que somente um sábio pode ser considerado verdadeiramente livre e que todas as corrupções morais são igualmente más.
O Estoicismo floresceu por todo o mundo romano e grego até o século III DC e entre seus seguidores estava o imperador Marco Aurélio. Sofreu um declínio após o cristianismo ter-se tornado a religião do Estado no século IV DC. Desde então, tem experimentado renascimentos, principalmente na Renascença, com o Neoestoicismo[5] e na era contemporânea (Estoicismo moderno).

II - PRINCÍPIOS BÁSICOS


Zeno de Citium, fundador do Estoicismo,
escola de filosofia helenística
Zeno de Citium, que viveu cerca de 334 a 262 AC, foi um pensador helenístico de descendência fenícia e o fundador da escola estoica de filosofia que lecionou em Atenas desde cerca de 300 AC. Citium era o nome latino de Kition, cidade reino da Ilha de Chipre (em tempos de dominação grega), atual Larnaca, localizada na costa sul da ilha e estabelecida no século XIII AC por colonizadores gregos após a guerra de Tróia. Zeno ensinava filosofia em Stoa Poikile (Pórtico Pintado), de onde a filosofia tirou o seu nome. Diferentemente de outras escolas de filosofia, como os Epicurianos, Zeno escolheu ensinar sua filosofia em um espaço aberto, uma colunata dominando o lugar central de reuniões de Atenas, a Ágora. As ideias de Zeno se desenvolveram a partir das ideias dos Cínicos, cujo fundador, Antísthenes, havia sido um discípulo de Sócrates. O mais influente seguidor de Zeno foi Chrysippus[6],  responsável pela moldagem do que é hoje chamado de Estoicismo. Posteriormente, romanos estoicos focaram em promover a vida em harmonia dentro do universo, sobre o qual ninguém possui controle direto.
O Estoicismo ensinava o desenvolvimento do autocontrole e fortaleza para sobrepujar emoções destrutivas; a filosofia sustentava que tornando-se um pensador claro e não tendencioso, poder-se-ia entender a razão universal. Um aspecto primário do Estoicismo envolvia o aprimoramento do bem-estar ético e moral do indivíduo: “A Virtude consiste em uma vontade que está em acordo com a Natureza”. Esse princípio também se aplicava ao reino das relações interpessoais: “ser livre de raiva, inveja, ciúme” e aceitar até os escravos como “iguais aos outros homens, porque todos os homens são produtos da natureza”.
Chrysippus de Soli, "Segundo
Fundador do Estoicismo"
Os estoicos forneceram uma explicação unificada do mundo, consistindo em lógica formal, física monística[7] e ética naturalística. Destas, eles enfatizaram a ética como o foco principal do conhecimento humano, embora suas teorias lógicas fossem de maior interesse para os filósofos posteriores. A ética estoica desposa uma perspectiva determinística. Com relação àqueles a quem falta virtude estoica, Cleanthes[8] uma vez sugeriu que o homem mau é “como um cão amarrado a um carro, obrigado a ir onde ele for”. Um estoico da virtude, em contraste, ajustaria sua vontade para se adequar ao mundo e permanecer, nas palavras de Epictetus, “doente e, contudo, feliz; em desgraça e feliz”, assim postulando uma vontade individual “completamente autônoma” e, ao mesmo tempo, um universo que é “um só todo rigidamente determinístico”. Esse ponto de vista foi posteriormente descrito como “Panteísmo[9] Clássico”, sendo adotado pelo filósofo holandês Baruch Spinoza.
O Estoicismo tornou-se a principal filosofia popular entre a elite educada no mundo helenístico e no Império Romano, a ponto de que, nas palavras de Gilbert Murray, “praticamente todos os sucessores de Alexandre se autodenominaram Estoicos”.
Os acadêmicos dividem, normalmente, a história do estoicismo em três fases:

· A primeira (estoicismo antigo) desenvolveu-se no século III AC, com seu fundador Zeno de Citium, passando por Cleanto, Chrysippus de Solis, até Antípatro de Tarso, preocupando-se com a lógica, a física, a metafísica e a moral.
· Na segunda (estoicismo médio), o pensamento estoico combinou-se com o espírito romano. Foi representado por Panécio de Rodes (180 AC - 110 AC) e Possidônio (135 AC - 51 AC).


· A terceira fase (estoicismo imperial ou novo estoicismo), com representantes como: Caio Musônio Rufo, Sêneca (nascido no início da era cristã e falecido em 65 DC), Epictetus (50 DC - 125 DC) e Marco Aurélio (121 DC - 180 DC), que foi imperador romano em 161 DC. As obras de Sêneca, Epictetus e Marco Aurélio propagaram o estoicismo no mundo ocidental. A última época do estoicismo, ou período romano, caracterizou-se pela sua tendência prática e religiosa, fortemente acentuada como se verifica nos "Discursos" e no "Enchiridion" de Epictetus e nos "Pensamentos" ou "Meditações" de Marco Aurélio.
Não sobreviveu até a atualidade qualquer obra completa de um filósofo estoico das duas primeiras fases. Apenas textos romanos da última fase nos chegaram completos.

III – LÓGICA[10]

III.1 – LÓGICA PROPOSICIONAL

Cleanthes, sucessor de Zeno e
segundo líder do Estoicismo
Diodorus Cronus, um dos professores de Zeno, é considerado o filósofo que primeiro introduziu e desenvolveu uma abordagem à lógica, agora conhecida como “lógica proposicional”. Trata-se de uma abordagem à lógica baseada em declarações ou proposições ao invés de termos, tornando-a muito diferente do termo “lógica” de Aristóteles. Posteriormente, Chrysippus desenvolveu um sistema que tornou-se conhecido como “Lógica Estóica” e incluiu um sistema dedutivo, “Silogística Estóica”, considerada uma rival da Silogística[11] de Aristóteles. Um novo interesse em Lógica Estóica surgiu no século XX, quando importantes desenvolvimentos na lógica foram baseados na lógica proposicional. Susanne Bobzien escreveu: “As muitas semelhanças próximas entre a lógica filosófica de Chrysippus e a de Gottlob Frege são especialmente surpreendentes. Bobzien também nota que Chrysippus escreveu mais de 300 livros sobre lógica, de virtualmente qualquer tópico que se relaciona com a lógica de hoje.

III.2 – CATEGORIAS

O termo “Categorias Estoicas” refere-se às ideias dos estoicos que se relacionam às categorias de ser[12]: as mais fundamentais classes de ser para todas as coisas. Os estoicos acreditavam que havia quatro categorias (substância, qualidade, disposição e disposição relativa), que eram as divisões últimas. Uma vez que não se possui nem mesmo um só trabalho completo de Zeno de Citium, Cleanthes ou de Chrysippus, o que se sabe sobre o assunto foi juntado de várias fontes: doxografias[13] e os trabalhos de outros filósofos que discutem os estoicos para seus próprios objetivos. A informação presente vem de Plotinus e Simplicius, com evidência adicional de Plutarco de Chaeronea e Sextus Empiricus.
Os estoicos sustentavam que todos os seres são materiais. Aceitavam a distinção entre corpos concretos e abstratos, mas rejeitavam a crença aristotélica de que existem seres totalmente imateriais. Assim, eles aceitavam a ideia de Anaxágoras (como Aristóteles) de que se um objeto é quente, é porque alguma parte de um corpo universal quente entrou no objeto. Mas, diferentemente de Aristóteles, eles estendiam a ideia para cobrir todos os acidentes (em filosofia, os atributos que podem ou não pertencer a um objeto, sem afetar sua essência). Assim, se um objeto é vermelho, é porque alguma parte de um corpo vermelho entrou naquele objeto. De acordo com Plotinus e Simplicius, havia quatro categorias estoicas:

· Substância: a matéria primária, substância sem forma de que as coisas são feitas.
· Qualidade: a forma como a matéria é organizada para formar um objeto individual; em física estoica, um ingrediente físico (ar ou sopro) que forma a matéria.
· “De alguma forma disposta”: características particulares, não presentes dentro do objeto, como tamanho, forma, ação e postura. 
· “De alguma forma disposta em relação a alguma coisa”: características relacionadas a outros fenômenos, tais como a posição de um objeto no tempo e no espaço, relativamente a outros objetos.

III.3 – EPISTEMOLOGIA[14]

Os estoicos propunham que o conhecimento poderia ser atingido através do uso da razão. A verdade pode ser distinguida da falácia, mesmo se, na prática, somente uma aproximação possa ser feita. De acordo com os estoicos, os sentidos constantemente recebem sensações: pulsações que passam dos objetos, através dos sentidos, para a mente, onde deixam uma impressão na imaginação (fantasia). Uma impressão surgida da mente, seria chamada um fantasma.
A mente tem a habilidade de julgar – aprovar ou rejeitar – uma impressão, permitindo-lhe distinguir uma representação verdadeira da realidade, de uma falsa. Algumas impressões podem ser acolhidas imediatamente, mas outras podem somente alcançar graus variáveis de aprovação hesitante, que podem ser rotuladas de crença ou opinião. É somente através da razão que podemos alcançar uma clara compreensão e convicção. Um conhecimento certo e verdadeiro, alcançável pelo sábio estoico, pode ser atingido somente pela verificação da convicção com a expertise de seus pares e o julgamento coletivo da humanidade.

IV – FÍSICA, TEOLOGIA E COSMOLOGIA

De acordo com os estoicos, o Universo é uma substância material e provida de razão, conhecida como Deus ou Natureza, que eles dividiam em duas classes: a ativa e a passiva. A substância passiva é a matéria, que “permanece inativa, uma substância pronta para qualquer uso, mas que permanecerá sem emprego se ninguém a colocar em movimento”. A substância ativa, que pode ser chamada de Destino ou Razão Universal (Logos), é um éter[15] inteligente ou fogo primordial, que age sobre a matéria passiva.
Tudo está sujeito às leis do Destino, pois o Universo atua de acordo com sua própria natureza e com a natureza da matéria passiva que ele governa. As almas das pessoas e animais são emanações desse fogo primordial e são, de forma semelhante, sujeitas ao Destino.
As almas individuais são perecíveis por natureza e podem ser “transmutadas e difundidas, admitindo uma natureza intensa sendo recebida no Raciocínio Seminal do Universo”. Uma vez que a Razão correta é o fundamento da Humanidade e do Universo, segue-se que o objetivo da vida é viver de acordo com a razão, ou seja, viver a vida de acordo com a Natureza.
A teologia estoica é um panteísmo fatalista e naturalista: Deus nunca é totalmente transcendente (que excede ou vai além da natureza física, concreta das coisas), mas sempre imanente e identificado com a natureza. As religiões Abrahâmicas personalizam Deus como a entidade criadora do mundo, mas o estoicismo equaciona Deus com a totalidade do Universo; de acordo com a cosmologia estoica, muito similar à concepção Hindu da existência, não existe um início absoluto do tempo, considerado infinito e cíclico. Similarmente, o espaço e o Universo não possuem início nem fim, mas são cíclicos. O Universo atual é uma fase no ciclo presente, precedido de um número infinito de Universos, fadado a ser destruído, recriado novamente e seguido por outro número infinito de Universos. O estoicismo considera toda a existência como cíclica, o cosmos como eternamente autocriador e autodestruidor. 
O estoicismo, como religiões da Índia, tais como hinduísmo, budismo e jainismo, não determina um início ou fim para o Universo. De acordo com os estoicos, o logos era a razão ativa ou anima mundi (alma do mundo) impregnando e animando todo o Universo. Ele foi concebido como material, sendo usualmente identificado com Deus ou Natureza. Os estoicos também se referiram à razão seminal ou a lei da geração no Universo, que era o princípio da razão ativa trabalhando em matéria inanimada. Os humanos, também, possuem uma porção do logos divino, fogo e razão primordial que controla e sustenta o Universo.

[1] O período helenístico cobre o período da história do Mediterrâneo entre a morte de Alexandre, o Grande e o desenvolvimento do Império Romano indicado através da Batalha de Actium em 31 AC e a conquista do Egito Ptolemaico no ano seguinte. A antiga palavra grega “Hellas” é a palavra original para Grécia, da qual foi derivada a palavra “helenística”. Durante o período Helenístico a influência cultural e o poder gregos atingiram o pico de sua expansão geográfica, sendo dominadora no mundo Mediterrâneo e na maior parte da Ásia Central e Ocidental, mesmo em regiões do subcontinente Indiano, experimentando prosperidade e progresso nas artes, exploração, literatura, teatro, arquitetura, música, matemática, filosofia e ciência. É muitas vezes considerado um período de transição, algumas vezes até de decadência ou degeneração, comparado ao iluminismo da era clássica Grega.
[2] Sêneca, o Jovem (cerca de 4 AC e 65 DC), nascido Lucius Annaeus Seneca e conhecido simplesmente por Seneca, foi um filósofo estoico, estadista, dramaturgo e sátiro romano da Idade de Prata da literatura latina. Nascido em Córdoba, Espanha e criado em Roma, foi treinado em retórica e filosofia. Seu pai foi Sêneca, o Velho, seu irmão mais velho, Junius Gallio Annaenus e seu sobrinho o poeta Lucano. Em 41 DC, Sêneca foi exilado para a Ilha de Córsega pelo Imperador Claudius que lhe permitiu o retorno em 49 DC, para tornar-se o tutor de Nero. Quando Nero tornou-se imperador, em 54 DC, Sêneca tornou-se seu Conselheiro e junto com o prefeito pretoriano Sextus Afranius Burrus, obteve um governo competente para os primeiros cinco anos do reinado de Nero. A sua influência sobre Nero declinou com o tempo e em 65 DC Sêneca foi forçado ao suicídio por alegada cumplicidade na conspiração para assassinar Nero, em que parece ter sido inocente. Seu estoico e calmo suicídio tornou-se motivo de vários quadros.
[3] Epictetus (cerca de 55 a 135 AD) foi um filósofo estoico grego nascido escravo em Hierópolis, Frígia (hoje na Turquia), que viveu em Roma até ser banido, quando foi para Nicopolis, noroeste da Grécia, para o resto de sua vida. Seus ensinamentos foram escritos e publicados por seu aluno Arrian em seus “Discursos” e “Enchiridion”. Epictetus ensinou que filosofia é um meio de vida e não apenas uma disciplina teórica. Para Epictetus, todos os eventos externos estão além do nosso controle; deveríamos aceitar calma e desapaixonadamente tudo o que acontece. Contudo, os indivíduos são responsáveis por suas próprias ações, que eles podem examinar e controlar através de rigorosa autodisciplina.
[4] Logos, palavra de origem grega, é um termo da filosofia, psicologia, retórica e religião ocidental, com um significado variável de solo, pleito, opinião, expectativa, palavra, discurso, consideração, razão e proporção. Tornou-se um termo técnico na filosofia ocidental, começando com Heraclitus (535 – 475 AC) que usou o termo como um princípio de ordem e conhecimento.
[5] O Neoestoicismo foi um movimento filosófico sincrético que se juntou ao Estoicismo e ao Cristianismo, influenciado por Justus Lipsius (18/10/1547-23/03/1606), um filologista, filósofo e humanista flamengo que escreveu uma série de trabalhos visando reviver o Estoicismo, numa forma compatível com o Cristianismo, o mais famoso deles, “De Constantia” (Sobre a Constância). Sua forma de estoicismo influenciou um bom número de pensadores contemporâneos, criando o movimento intelectual do Neoestoicismo. Ensinou nas Universidades de Jena, Leiden e Leuven.
[6] Chrysippus de Soli (cerca de 279 a 206 AC) foi um filósofo estoico grego nativo de Soli, Cilícia, que se mudou para Atenas ainda jovem, onde tornou-se um aluno de Cleanthes na escola estoica. Quando Cleanthes morreu, cerca de 230 AC, Chrysippus tornou-se o terceiro líder da escola. Escritor prolífico, Chrysippus expandiu as doutrinas fundamentais de Zeno de Citium, o fundador da Escola, o que lhe rendeu o título de Segundo Fundador do Estoicismo.
[7].O Monismo atribui unicidade a um conceito qualquer, por exemplo, a existência. Uma filosofia é monística se ela postula unidade na origem de todas as coisas, como se todas as coisas retornassem a uma fonte distinta delas. Os estoicos ensinavam que há somente uma substância, identificada como Deus.
[8] Cleanthes (cerca de 330 AC a cerca de 230 AC), de Assos (atual Turquia), foi um filósofo estoico grego sucessor de Zeno de Citium como o segundo da escola estoica em Atenas. Originalmente um boxeador, ele foi para Atenas onde aderiu à filosofia, atendendo às palestras de Zeno. Conseguiu se manter trabalhando como carregador de água durante a noite. Após a morte de Zeno, cerca de 262 AC, tornou-se o principal da escola, mantendo o posto pelos 32 anos seguintes. Cleanthes preservou e desenvolveu as doutrinas de Zeno com muito sucesso.
[9] Panteísmo é a crença de que realidade e divindade são idênticas ou que todas as coisas compõem um deus amplo e imanente. Imanente aqui visto como aquele que faz parte, de maneira inseparável, da essência de um ser ou de um objeto, ou seja, que está contido na parte da experiência possível, fazendo com que a realidade seja percebida através da utilização dos sentidos. A crença panteísta não reconhece um deus pessoal distinto antropomórfico, mas em vez disso caracteriza um amplo campo de doutrinas que diferem em formas de relacionamentos entre realidade e divindade. O conceito panteístico retroage a milhares de anos e seus elementos têm sido identificados em várias tradições religiosas. O termo “panteísmo” foi cunhado pelo matemático Joseph Raphson, em 1697 e desde então tem sido usado para descrever as crenças de uma grande quantidade de pessoas e organizações.
[10] A lógica é um raciocínio conduzido ou avaliado de acordo com estritos princípios de validade. É a ciência que estuda os princípios de um correto raciocínio.
[11] Um silogismo (conclusão ou inferência) é uma espécie de argumento lógico que aplica um raciocínio dedutivo para chegar a uma conclusão baseada em duas ou mais proposições consideradas ou supostas verdadeiras. Alguns dos primeiros silogismos foram definidos na Escola Nyaya (uma das seis antigas escolas ortodoxas do Hinduismo) de pensamento. Em uma forma definida por Aristóteles, da combinação de uma declaração geral (a premissa principal) e de uma declaração específica (premissa secundária), uma conclusão é deduzida. Por exemplo, sabendo-se que todos os homens são mortais (premissa principal) e que Sócrates é um homem (premissa secundária), podemos validamente concluir que Sócrates é mortal.
[12] Em filosofia, “ser” significa a existência de algo. Qualquer coisa que exista tem “ser”. Ontologia é o ramo da filosofia que estuda o “ser”, um conceito que engloba características objetivas e subjetivas de realidade e existência. Qualquer coisa que participa num “ser” é também chamado de “ser”, embora muitas vezes esse uso seja limitado a entidades que tenham subjetividade (como na expressão “ser humano”). A noção de “ser” tem, inevitavelmente, sido vaga e controversa na história da filosofia, iniciando na filosofia ocidental com tentativas entre os pré-socráticos, para usá-la de forma inteligível.
[13] Doxografia é um termo usado especialmente para os trabalhos de historiadores clássicos, que descrevem os pontos de vista de filósofos e cientistas do passado. O termo foi cunhado pelo estudioso clássico alemão Hermann Alexander Diels.
[14] "Episteme" é um termo filosófico derivado de uma antiga palavra grega, que pode referir-se a conhecimento, ciência ou entendimento que, por sua vez se origina de um verbo que significa conhecer, entender ou estar acostumado com algo ou alguém. Platão contrasta “episteme” com “doxa”, que seria uma crença ou opinião comum. “Episteme” é também distinguida de “techne”, uma ocupação ou prática especializada. A palavra “epistemologia” é derivada de “episteme” e seria o estudo do conhecimento ou entendimento.
[15] De acordo com a ciência antiga e medieval, o Éter, também chamado de Quintessência, é o material que enche a região do Universo acima da esfera terrestre. Esse conceito foi usado em certas teorias para explicar vários fenômenos naturais, tais como a viagem da luz e da gravidade. Pelo final do século XIX, os físicos postularam que o éter permeava por todo o espaço, proporcionando um meio através do qual a luz poderia viajar no vácuo. Entretanto, a presença de tal meio não foi detectada no experimento Michelson-Morley, criado para este fim, tal resultado sendo interpretado como significando que tal éter não existe.

Conclui com a Parte 2

sexta-feira, 17 de maio de 2019

CHARLES AZNAVOUR

INTRODUÇÃO

No dia 1º de outubro do ano de 2018, há pouco findo, com a idade de 94 anos, morreu Charles Aznavour, o pequeno grande armênio mais francês que o mundo já produziu. Infelizmente, não pude dar ao evento, à época, a importância merecida, por estar envolvido com as eleições próximas para presidente do Brasil. Logo em seguida, outro mito da música popular, Michel Legrand partiu para oferecer suas composições a Deus, que será, sem dúvida, o seu maior ouvinte; e para não deixar outro postergado, ocupei-me do último, em primeiro lugar.
Atrasado, portanto, presto agora a minha insignificante homenagem a esta imensa personagem da música internacional. Não vou aqui falar das honrarias, medalhas, premiações e cargos que recebeu e ocupou Charles Aznavour, mas apenas contar um pouco do que foi e das músicas que fez. Muito, mas muito mesmo, dancei sob o som de suas canções maravilhosas, num tempo em que mesmo os jovens escutavam boas músicas, brasileiras e de muitas nações, sem discriminação e sem incorrerem no perigo de parecer “politicamente incorretos”. Eram, de fato, outros tempos ...
Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinag Aznavourian, em 22 de maio de 1924, foi um cantor, letrista e diplomata francês-armênio, conhecido por sua especial voz de tenor: clara e vibrante nos seus trechos superiores, com graves e profundas notas baixas. Numa carreira de compositor, cantor, letrista, que durou mais de 70 anos, gravou mais de 1.200 canções, interpretadas em nove línguas. Além disso, escreveu ou co-escreveu mais de 1.000 canções para si e para outros.
Foi um dos mais populares e duradouros cantores da França. Vendeu mais de 180 milhões de discos durante sua vida e foi por alguns chamado o “Frank Sinatra francês”, ao passo que o crítico musical Stephen Holden descreveu Aznavour como uma “deidade popular francesa”. Em 1998 foi chamado “Apresentador do Século” pela CNN e por usuários de todo o mundo do “Time Online”. Foi reconhecido como o mais relevante cantor do século com quase 18% dos votos totais, desclassificando, entre outros, Elvis Presley e Bob Dylan. Aznavour cantou para presidentes, papas e a realeza, bem como em eventos humanitários. Em resposta ao terremoto de 1988 na Armênia, ele fundou, com seu antigo amigo e empresário Levon Sayan, a organização de caridade “Aznavour para a Armênia”. Em 2009 foi indicado embaixador da Armênia para a Suiça, bem como delegado permanente da Armênia para as Nações Unidas, em Genebra.
Iniciou seu último tour em 2014 e em 24 de agosto de 2017 recebeu a 2.618ª estrela da Calçada da Fama de Hollywood. No mesmo ano, ele e sua irmã foram agraciados com a “Medalha Raoul Wallenberg”, através de uma declaração emitida por Reuven Rivlin, presidente de Israel, por abrigar judeus, armênios e outros refugiados durante a Segunda Guerra Mundial, com risco das próprias vidas. Seu último concerto teve lugar no NHK Hall, em Osaka, em 19 de setembro de 2018.

INÍCIO DA VIDA E CARREIRA

Filho de artistas imigrantes armênios, Charles Aznavour nasceu em Paris, de Michael Aznavourian e Knar Baghdasarian. Seu pai cantava em restaurantes franceses antes de estabelecer um restaurante caucasiano chamado “Le Caucase”. Seus pais o estimularam a cantar desde muito novo e ele deixou a escola com nove anos de idade, adotando o nome de palco, Aznavour.
Aznavour já era familiarizado com apresentações no palco ao tempo em que iniciou sua carreira como músico. Com nove anos de idade ele teve alguns papéis numa peça chamada “Um Petit Diable à Paris” (Um Pequeno Diabo em Paris) e num filme intitulado “La Guerre des Gosses” (A Guerra dos Moleques). Aznavour virou-se então para a dança profissional, apresentando-se em vários clubes noturnos. Em 1944, ele e um ator, Pierre Roche, iniciaram uma parceria e, em esforços colaborativos, apresentaram-se em outros numerosos clubes. Foi com essa parceria que Aznavour começou a escrever suas canções e a cantá-las. Os primeiros sucessos da parceria foram no Canadá, entre 1948 e 1950, quando Aznavour escreveu sua primeira canção, intitulada “J’ai Bu” (Eu Bebi).
Nos primeiros tempos de sua carreira, Aznavour abriu para Edith Piaf, no Moulin Rouge, quando ela o aconselhou a insistir em sua carreira como cantor, ajudando-o a desenvolver uma distintiva voz que estimulava a melhor de suas habilidades.
Algumas vezes descrito como “Frank Sinatra da França”, Aznavour frequentemente cantava sobre o amor. Escreveu ou co-escreveu musicais, mais de mil músicas e gravou noventa e um álbuns em estúdio. A voz de Aznavour variava em direção ao alcance do tenor, mas possuía o alcance e a coloração baixa mais típica do barítono, contribuindo ao seu som único. Falava e cantava em várias línguas - francês, inglês, italiano, espanhol, alemão, russo, armênio e napolitano -, o que muito o ajudou a apresentar-se no Carnegie Hall, Estados Unidos, bem como eu outros importantes locais em todo o mundo. Também gravou pelo menos uma canção do poeta armênio do século XVIII, Sayat-Nova e uma canção popular, “Im Yare”, em armênio. A melodia “Que c’est triste Venise”, cantada em francês, italiano, espanhol, inglês e alemão, teve muito sucesso nos anos ’60.
Charles Aznavour em 1963
Em 1974 Aznavour tornou-se um grande sucesso no Reino Unido, quando sua canção “She” foi número 1 no “UK Singles Chart” por quatro semanas numa sequência de quatorze semanas. Sua outra mais conhecida canção no Reino Unido, foi “The old fashioned way”, que permaneceu nos quadros do Reino Unido por 15 semanas.
Artistas que gravaram suas canções e colaboraram com Aznavour, incluem Edith Piaf, Fred Astaire, Frank Sinatra (Aznavour foi um dos raros cantores europeus convidados para cantar em dueto com ele), Andrea Bocelli, Bing Crosby, Ray Charles, Bob Dylan (que citou Aznavour entre ao maiores cantores vivos que ele jamais tinha visto), Dusty Springfield, Liza Minnelli, Mia Martini, Elton John, Dalida, Serge Gainsbourg, Josh Groban, Petula Clark, Tom Jones, Shirley Bassey, José Carreras, Laura Pausini, Nana Mouskouri e Julio Iglesias. Sua colega francesa, a cantora popular Mireille Mathieu, cantou e gravou com Aznavour em numerosas ocasiões. O cantor inglês Marc Almond, apontado por Aznavour como o intérprete favorito de suas canções, que o cobriu em seu “What makes a man”, nos anos ’90, o declarou como uma das principais influências do seu estilo e trabalho. Em 1974, Jack Jones registrou um álbum inteiro com composições de Aznavour intitulado “Write me a love song, Charlie” (Escreva-me uma canção de amor, Charlie), regravado em CD em 2006. Dois anos mais tarde a cantora holandesa Liesbeth List lançou seu álbum “Charles Aznavour Apresenta Liesbeth List”, em que apresentou composições de Aznavour com letras em inglês. Aznavour e o tenor italiano Luciano Pavarotti cantaram juntos a “Ave Maria” de Bach-Gounod. Apresentou-se também com o amigo violoncelista russo Mstislav Rostropovich, na posse da presidência francesa da União Europeia, em 1955. Elvis Costello gravou sua composição “She” para o filme “Notting Hill”. Um dos maiores amigos e colaboradores de Aznavour na indústria da música foi o tenor Plácido Domingo, que muitas vezes apresentou seus sucessos, principalmente uma gravação solo de “Les bateaux sont partis”, em 1985 e versões em dueto da canção, em francês e espanhol, em 2008, bem como várias apresentações da “Ave Maria” de Aznavour. Em 1994, Aznavour apresentou-se com Placido Domingo e a soprano norueguesa Sissel Kyrjebo no terceiro concerto anual “Christmas in Vienna”; nesse concerto, televisionado para todo o mundo e lançado em CD, internacionalmente, os três cantores apresentaram uma variedade de canções de Natal, medleys e duetos.
Em 1998, quando a CNN e a Time pediram ao público americano para votar em seu apresentador favorito do século XX, Charles Aznavour despontou em primeiro lugar, à frente de Frank Sinatra e Elvis Presley! O cantor francês via os Estados Unidos como o seu terceiro lar. Viveu na California e Connecticut por algum tempo, teve um romance secreto com a cantora Liza Minnelli e casou com sua terceira esposa em Las Vegas. Em reconhecimento a uma carreira que se estendeu por quase 80 anos, durante a qual gravou cerca de 1.400 canções e 390 álbuns, Charles Aznavour recebeu uma estrela na Hollywood Boulevard, em agosto de 2017, com a placa de número 6.225, ao lado da atriz Bette Davis. “Os Estados Unidos e eu temos compartilhado um romance de longa duração”, declarou o "Sinatra Francês" numa entrevista à revista “France – Amérique”, em 2009, antes de admitir, “Eu não falo inglês tão bem quanto gostaria, mas adoro cantar em inglês”.
Aznavour em New York, em 1965
No início do outono de 2006, Aznavour iniciou sua turnê de despedida, apresentando-se nos Estados Unidos e Canadá, com fantásticas audiências. Iniciou o ano de 2007 com concertos pelo Japão e toda a Ásia. Em 30 de setembro de 2006 realizou um importante concerto em Yerevan, capital da Armênia, parta iniciar a estação cultural “Armênia minha amiga”. O presidente armênio Robert Kocharyan e o francês Jacques Chirac, estavam na primeira fila de espectadores. Ainda em 2006, Aznavour gravou seu álbum “Colore ma vie”, em Cuba, com Chucho Valdés, conhecido pianista, compositor e líder de orquestra cubano. Convidado regular do “Star Academy” (importante programa de calouros), Aznavour cantou junto com o candidato Cyril Cinélu, no mesmo ano. Em 2007 ele cantou parte de “Une vie d’amour”, em russo, durante um concerto em Moscou. A segunda metade de 2007 viu Aznavour retornar a Paris para mais de 20 shows no “Palais de Congrés”, seguidos de outros concertos na Bélgica, Holanda e o resto da França. “Forever Cool” um álbum deste ano, da Capitol/EMI, apresenta Aznavour cantando um novo dueto de “Everybody loves somebody sometime”, com a voz de Dean Martin. Encerrou uma turnê em Portugal em fevereiro de 2008 e por toda a primavera deste ano se apresentou pela América do Sul, realizando muitos concertos na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Admirador de Quebec e Montreal - onde se apresentou em casas noturnas antes de se tornar famoso -, ajudou a carreira da cantora lírica Lynda Lemay, de Quebec, na França e possuía uma casa em Montreal. Em julho de 2008 foi investido na “Ordem do Canadá”. Em seguida, apresentou-se nas “Plains of Abraham” (área histórica da cidade), como personagem da celebração dos 400 anos de fundação da cidade de Quebec. Ainda em 2008, lançou o álbum de duetos “Duos”, num esforço colaborativo de Aznavour com seus grandes amigos e colaboradores ao longo de sua carreira, incluindo Céline Dion, Sting, Laura Pausini, Josh Groban, Paul Anka, Plácido Domingo e outros, durante dezembro de 2008, em todo o mundo. Seu álbum seguinte, “Charles Aznavour and the Clayton Hamilton Jazz Orchestra” (anteriormente conhecido como Jazznavour 2), foi uma continuação na mesma linha do seu sucesso “Jazznavour”, lançado em 1998, com novos arranjos de suas canções clássicas; lançado em 27 de novembro de 2009. No mesmo ano, Aznavour também se apresentou pela América na turnê chamada “Aznavour en liberté”, iniciando ao final de abril com uma série de concertos pelos Estados Unidos, Canadá, América Latina e EUA novamente.
Aznavour, Festival de Cannes, 1999
Aznavour e a cantora senegalesa Yousson N’Dour, com a colaboração de mais de 40 cantores e músicos franceses, gravaram um vídeo com o grupo musical “Band Aid”, após o catastrófico tremor de terra de 2010 no Haiti, intitulado “1º Geste pour Haiti Chérie”. Em agosto de 2011 Aznavour lançou o novo álbum “Aznavour Toujours”, apresentando onze novas canções e “Elle”, uma versão francesa do seu sucesso internacional “She”. Após este, o Aznavour de 87 anos de idade iniciou uma turnê pela França e Europa, chamada “Charles Aznavour en toute intimité” que iniciou com 21 concertos no teatro Olympia, em Paris. Em 12 de dezembro de 2011 deu um concerto no “State Kremlin Palace”, Moscou, com capacidade esgotada, ao qual seguiria uma ovação de 15 minutos. Em 2012 ele embarcou para outra turnê na América do Norte, com o mesmo show, visitando Quebec e o Anfiteatro Gibson em Los Angeles, terceiro maior teatro da California para shows múltiplos. Em 16 de agosto de 2012 Aznavour se apresentou na cidade natal de seu pai, Akhaltsikhe, na Georgia, num concerto especial, parte da cerimônia de abertura do recém restaurado Castelo Rabati.
Charles Aznavour em 2014
Em novembro de 2013 Aznavour apresentou-se, pela primeira vez em 25 anos, em Londres, no “Royal Albert Hall”, quando a demanda foi tão alta que tiveram que marcar um segundo concerto no mesmo local para junho de 2014. Em novembro de 2013, Aznavour apresentou-se com Achinoam Nini (Noa) em um concerto dedicado à paz, no “Nokia Arena”, Tel Aviv, com a presença do Presidente israelense Shimon Peres. Em dezembro de 2013 Aznavour deu dois concertos na Holanda, no “Heineken Music Hall”, Amsterdan e novamente em janeiro de 2016. Em 2014, 2015 e 2016 Aznavour prosseguiu com sua turnê internacional, incluindo concertos em Bruxelas, Berlim, Frankfurt, Barcelona, Madri, Varsóvia, Praga, Moscou, Bucareste, Antuérpia, Londres, Dubai, Montreal, Nova York, Boston, Miami, Los Angeles, Osaka, Tóquio, Lisboa, Mônaco, Verona, Amsterdan e Paris. Em 2017 e 2018, sua turnê continuou em São Paulo, Rio de Janeiro, Santiago, Buenos Aires, Moscou, Viena, Sydney, Melbourne, Haiti, Tóqio, Osaka, Madri, Milão, Roma, São Petersburgo, Paris, Londres, Amsterdan e Mônaco. Em 19 de setembro de 2018, seu último concerto teve lugar no “NHK Hall”, Osaka, Japão.
Aos 94 anos, seus quase 80 anos de palco o tornaram um pouco ruim de audição. Nos seus anos finais ainda cantaria em várias línguas e sem permanente uso de “ponto”, em geral se mantendo no inglês e francês, com italiano e espanhol menos frequentemente, na maior parte dos seus concertos. Além de cantor, Charles Aznavour teve uma longa e variada carreira paralela de ator, aparecendo em mais de oitenta filmes para o cinema e a televisão.
Charles Aznavour foi casado três vezes: Megan Rugel, de 1946 a 1952; Evelyn Plessis, de 1956 a 1960; e Ulla Thorsell, de 1967 a 2018. Destes casamentos, resultaram cinco filhos: Séda, Patrick, Katia, Mischa e Nicolas. Costumava fazer piadas do seu físico, a maior parte delas sobre sua estatura de 1,60 m. Fazia dela um humor autodepreciativo, ao longo dos anos.

POLÍTICA E ATIVISMO

Desde o terremoto de 1988 na Armênia, Aznavour ajudou o seu país com o programa “Aznavour pour Arménie”. Com seu cunhado e coautor Georges Garvarentz, ele escreveu a canção “Pour toi Armenie” que foi apresentada por um grupo de artistas franceses famosos e permaneceu nos quadros por dezoito semanas. Há uma praça com o seu nome na Yerevan (capital e maior cidade da Armênia) central, rua Abovian e uma estátua sua construída em Gyumri (segunda maior cidade da Armênia), que viu a maior parte das vidas perdidas no terremoto. Em 1995 Aznavour foi indicado como Embaixador e Delegado permanente da Armênia para a UNESCO. Foi também um membro do Corpo de Consignatários do Fundo para a Armênia, organização que arrecadou mais de 150 milhões de dólares em ajuda humanitária e assistência para desenvolvimento de infraestrutura para a Armênia, desde 1992. Em 1997 ele foi indicado como Oficial da Legião de Honra, a mais alta ordem do mérito francês. Em 2002 Aznavour apareceu no aclamado filme “Ararat”, do diretor Atom Egoyan, sobre o genocídio dos armênios pelo Império Otomano, no início do século XX. Em 2004 Aznavour recebeu o título de “Herói Nacional da Armênia”, a mais alta comenda daquele país. Em 26 de dezembro de 2008, o presidente da Armênia, Serzh Sargsyan, assinou um decreto presidencial para concessão da cidadania da Armênia a Aznavour, a quem ele chamou de “proeminente cantor e figura pública” e “um herói do povo armênio”. Em 2011 foi inaugurado, em Yerevan, Armênia, o Museu Charles Aznavour. Em abril de 2016, Aznavour visitou a Armênia para participar da cerimônia de entrega do prêmio “Aurora Prize for Awakening Humanity”, prêmio humanitário internacional anual que reconhece indivíduos e organizações por trabalhos humanitários, em favor dos sobreviventes do genocídio armênio. Em 24 de abril, junto com Serzh Sargsyan, os católicos de “All Armenians”, sua Santidade Karekin II, chefe supremo da Igreja Apostólica Armênia, e o ator George Clooney, ele depositou flores no “Memorial do Genocídio Armênio”.
Estátua de Aznavour em Gyumri, Armênia
Além de sustentar o título, mormente cerimonial, de embaixador francês à distância para a Armênia, Aznavour concordou em manter a posição de Embaixador da Armênia para a Suíça, em fevereiro de 2009, quando teria declarado: “Inicialmente eu hesitei, pois não é tarefa fácil. Então pensei que o que é importante para a Armênia é também importante para nós. E então aceitei a proposta com amor, felicidade e um sentimento de profunda dignidade”. Escreveu uma canção sobre o Genocídio Armênio, intitulada “Ils sont tombés” (Eles tombaram).
À medida que sua carreira progredia, Aznavour envolvia-se fortemente na política armênia e internacional. Durante as eleições presidenciáveis francesas de 2002, quando o candidato de extrema direita nacionalista Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacional, passou nas eleições preparatórias, para enfrentar Jacques Chirac, Aznavour assinou a petição “Vive la France” e convidou todos os franceses a cantar a Marselhesa em protesto. Chirac, um amigo pessoal de Aznavour, acabou vencendo a eleição numa vitória esmagadora, com mais de 82% dos votos.
Fez campanhas frequentes para uma reforma da lei internacional de direitos autorais. Em novembro de 2005 ele encontrou-se com o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso para discutir a questão da revisão do termo de proteção para artistas e produtores na União Europeia, advogando uma extensão do termo de proteção da União Europeia, dos atuais 50 anos, para a lei dos EUA, que prega 95 anos, dizendo que “em termos de proteção, artistas e companhias gravadoras têm o mesmo pensamento. A extensão do termo de proteção seria boa à cultura europeia, positiva para a economia europeia e poria um fim à atual discriminação com os EUA.” Também enfrentou notavelmente a política francesa Christine Boutin no que concerne à sua defesa de uma autorização de taxa constante, tipo “licença global” para o uso de arquivos ainda protegidos, na internet, argumentando que a licença eliminaria a criatividade. Em maio de 2009 o Senado Francês aprovou um dos mais estritos projetos contra a pirataria na internet jamais visto antes, com uma das mais arrasadoras votações, de 189 contra 14. Aznavour foi um proponente vocal da medida e considerou-a uma vitória de porte.

MORTE E FUNERAIS

Em abril de 2018, logo após completar o seu 94º aniversário, Charles Aznavour foi conduzido ao um hospital em São Petersburgo, Rússia, após ter exageradamente forçado a coluna durante um ensaio para um concerto na cidade. Tal concerto teve que ser postergado até a próxima estação, mas foi afinal cancelado pela sua morte. Em maio de 2018 ainda foi convidado para participar de um programa de Graham Norton, conhecido apresentador, comediante, ator e autor irlandês vivendo em Londres, na Rádio BBC. Uma semana depois, Aznavour quebrou seu braço em duas partes, resultado de uma queda em sua casa na cidade de Mouriès, o que resultou no cancelamento de todos os seus shows até o final de junho. Este cancelamento foi ao final estendido para incluir os 18 shows programados para agosto, em função de um processo de cura prolongado. Num programa da televisão francesa levado ao ar em 28 de setembro, apenas três dias antes de sua morte, ele mencionou que ainda sentia dor. Em 1º de outubro de 2018 Charles Aznavour foi encontrado morto numa banheira de sua casa em Mouriès, com a idade de 94 anos. Ao tempo de sua morte, sua residência permanente ficava em Saint Sulpice, Vaud, Suiça. Um relatório de autópsia concluiu que Aznavour morreu de uma parada cardiorrespiratória complicada por um edema pulmonar agudo.
No dia 5 de outubro Aznavour foi honrado com um funeral oficial do Estado, no complexo militar de “Les Invalides”, com o Presidente Emmanuel Macron saudando-o como uma das mais importantes “figuras da França”. Macron louvou as letras de Aznavour dizendo que elas haviam apelado à “nossa secreta fragilidade” e que as letras do cantor foram, “para milhões de pessoas, um bálsamo, um remédio, um conforto .... Por tantas décadas ele fez nossas vidas mais doces, nossas lágrimas menos amargas.”
Uma missa funerária teve lugar no dia 6 de outubro, celebrada pelo Patriarca da Igreja Apostólica Armênia, Catholicos Karekin II, na Catedral Armênia de São João Batista, em Paris.
Seu caixão foi conduzido ao final, ao som de sua canção “Emmenez-moi” (Conduzi-me). Entre os dignatários presentes, incluíram-se o Primeiro Ministro francês Édouard Philippe, e os ex-presidentes Nicolas Sarkozy e François Hollande, bem como o Presidente armênio, Armen Sarkissian e o Primeiro Ministro armênio, Nikol Pashinyan, com suas esposas.
Foi enterrado na cripta da família, no cemitério de Montfort-l’Amaury.

AS MÚSICAS DE CHARLES AZNAVOUR

E o que dizer das mais de 1400 maravilhosas melodias compostas e gravadas durante uma carreira de quase oitenta anos, como a de Charles Aznavour? Bem, como nos mais diversos ramos da atividade humana, também a música é uma questão de gosto e muito especial. E são tantas as músicas de Aznavour e tão belas, que fica muito difícil decidir quais apresentaremos nessa finita crônica.
Quando eu nasci, em 1944, Charles Aznavour já cantava, nos seus 20 anos de idade. Quatorze anos depois, na minha maravilhosa adolescência, eu já conhecia o famoso cantor francês, seguramente introduzido por meus pais, e muito viria a dançar as suas românticas melodias, de rosto colado, com minha namorada. Portanto, considerando que o próprio cantor já era um nostálgico, vou me amparar em minha discoteca para selecionar umas pouquíssimas de suas músicas, uma pequeníssima amostra do seu imenso e variado repertório, para tentar dar aos meus leitores uma tênue ideia do que foi a música do incomparável Charles Aznavour. E, claro, serão as mais conhecidas para contentar a um maior número de pessoas.
Em geral, tudo o que fala de Veneza, exerce sobre mim um fascínio enorme e por essa razão, sem considerações de cronologia, vou iniciar a lista pela canção “Que c’est triste Venise”, escrita pela escritora Françoise Dorin e composta e interpretada por Charles Aznavour, lançada em 1964 e logo tornada um sucesso internacional. Além de versões instrumentais, vários cantores famosos gravaram essa melodia, em várias línguas, incluindo o espanhol Julio Iglesias, num dueto com o compositor. Há uma gravação lindíssima dessa melodia, interpretada por Charles Aznavour num dueto com a cantora francesa Patricia Kaas, em 2004, por ocasião do 80º aniversário do compositor. Mas por uma questão de fidelidade, apresentamos uma versão apenas pelo compositor, mais antiga e autêntica. Como não poderia deixar de ser, a letra fala da melancolia de Veneza com suas gôndolas, seus canais, a Ponte dos Suspiros e, claro, dos amores perdidos que nunca são esquecidos.
Em 1972 Charles Aznavour lançou um álbum de que fazia parte uma canção chamada “Les Plaisirs Démodés” (Os Prazeres Fora de Moda), de sua autoria. Nela, o autor fala de como teria conhecido sua amada na boate enfumaçada da moda, entre pessoas da sua idade; e então, no presente, entre jovens com suas músicas modernas e barulhentas, dançando separados, ele a convidaria para redescobrir os prazeres fora de moda, ao dançar de rosto colado, coração contra coração .... A gravação original é muito interessante porque inicia com uma melodia e ritmo modernos, alterna para a melodia principal romântica num ritmo lento, quando ele a convida para dançar e descobrir os prazeres fora de moda, volta ao ritmo moderno e finalmente à melodia principal, encerrando com ela. No ano seguinte ele gravaria e lançaria a sua versão em língua inglesa, “The Old Fashioned Way” (À moda antiga), onde conseguiu, basicamente, manter a ideia original, convidando a sua amada a dançar à moda antiga e toda a melodia se concentra na forma mais lenta e romântica. Embora a gravação original seja mais interessante e completa (são mais de 5 minutos e meio de gravação), sempre preferi a versão em língua inglesa, porque combina mais com o estilo das melodias de Charles Aznavour. Essa música foi também gravada por Bing Crosby e Fred Astaire, em dueto, Petula Clark e Shirley Bassey, entre outros. Entre as gravações instrumentais, destacamos a de Mantovani com sua maravilhosa orquestra de violinos.
Em 1964, um escritor francês, de nome René Fallet, escreveu um romance chamado “Paris au mois d’aout” (Em Paris no mês de agosto). O personagem principal do romance é nele descrito como tendo muita semelhança com Charles Aznavour. Em 1966, o cineasta francês Pierre Granier-Deferre produziu o filme epônimo numa adaptação do romance, oferecendo o papel principal a Charles Aznavour, que assinou a trilha sonora original com a canção “Paris au mois d’août” (composição de Georges Garvarentz e Charles Aznavour), gravada em 1965 para o álbum “La Bohème”. Uma das minhas grandes preferidas, esta canção tem várias gravações, incluindo uma em que Aznavour a canta com a grande orquestra de Paul Mauriat, além de uma magistral versão em italiano. Entretanto, fugindo um pouco da nossa ideia original, abriremos uma exceção para apresentar aos nossos leitores uma versão mais moderna em que Charles Azanavour canta a melodia “Paris au mois d’août” num dueto maravilhoso com a cantora italiana Laura Pausini. Inesquecível!
Para os muito saudosistas como eu, faço um convite para escutarem, não a Charles Aznavour, mas agora ao famoso cantor francês dos anos ’60, Johnny Hallyday, cantando a canção de Aznavour, “Retiens la nuit”, que tanto embalou nossos bailes de adolescente. Essa canção, composta por Georges Garvarentz, com letra de Charles Aznavour, foi lançada em 1961 e permaneceu durante nove semanas como número 1 no quadro de vendas de simples, durante os meses de março a maio de 1962. O próprio Charles Aznavour veio também a gravar, posteriormente, essa canção, além da inesquecível Sylvie Vartan.
She” (Ela, em português) é a versão mais conhecida em todo o mundo, da canção “Tous Les Visages de L'amour” (Todas as Faces do Amor, em português), lançada em 1974 por Charles Aznavour, seu compositor. A versão inglesa, lançada pouco após o surgimento da original francesa, foi composta em parceria com o britânico Herbert Kretzmere e gravada por Aznavour. Sem obter grande receptividade nos Estados Unidos nem na França, chegou ao primeiro lugar na lista das mais ouvidas na Inglaterra, feito até então inédito para um músico francês. Em 1999, “She” foi regravada pelo britânico Elvis Costello, para a trilha sonora do filme Notting Hill (Um Lugar Chamado Notting Hill, na tradução brasileira), alcançando rapidamente sucesso mundial. Houve ainda uma versão em italiano, composta no mesmo ano, em parceria entre Aznavour e o compositor italiano Giorgio Calabreses, intitulada “Lei” (Ela, em português). Mais recentemente, em 2006, a cantora italiana Laura Pausini lançou nova versão em italiano, rebatizada como “Uguale a Lei” (Igual a Ela, em português). Com vocês, Charles Aznavour cantando “She”.
La Bohème” é uma canção escrita pelo músico francês Jacques Plante em parceria com Charles Aznavour. Essa é a canção assinatura de Aznavour, além de um marco e uma das mais populares canções em língua francesa. A letra da melodia fala de um pintor relembrando seus anos de juventude em Montmartre, bairro boêmio de Paris, sua vida artística e os anos quando sentia fome, mas era feliz. De acordo com Aznavour, essa canção é um adeus aos últimos dias da boêmia Montmartre. A gravação original de Aznavour foi realizada em 1965, tornando-se um sucesso internacional no mesmo ano, permanecendo por longo tempo nos quadros das dez mais da Argentina, Brasil, França e vários outros países. O próprio Aznavour gravou “La Bohème” em versões em italiano, espanhol, inglês, alemão e numa rara gravação em português, tendo sido apresentada, virtualmente, em todos os seus concertos pelo mundo.
E com essa melodia, encerramos a nossa apresentação - que poderia estender-se por várias páginas -, das músicas desse magistral chansonier que tanto encantou a nossa vida, por tantos anos. É o nosso tributo e o nosso adeus a Charles Aznavour!