Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 5


VI - DIFUSÃO DA REFORMA NOS VÁRIOS PAÍSES

VI.1 - ALEMANHA E SUÍÇA ALEMÃ
As 95 Teses de Lutero, que colocaram em dúvida e
repudiaram várias das práticas católicas

A Reforma foi inaugurada na Alemanha (então Prússia, como nação do Sacro Império Romano Germânico) quando Lutero afixou suas celebradas teses às portas da igreja de Wittenberg (cidade do estado da Saxônia onde fica a Universidade de mesmo nome, em que lecionava Lutero), em 31 de outubro de 1517. A partir das consequências da excomunhão papal e do banimento imperial, Lutero foi protegido pelo Eleitor Friedrich da Saxônia, seu soberano territorial. Friedrich da Saxônia teve, no episódio, participação bastante controvertida. Externamente, adotou uma atitude neutra, mas passou a encorajar a formação de comunidades luteranas dentro de seus domínios, após o retorno de Lutero a Wittenberg, onde assumiu a liderança da Reforma em oposição aos Anabatistas. Após a Dieta[1] de Worms, convocada pelo Imperador Carlos V em 1521, pela qual Lutero foi proclamado fugitivo e herege, tendo suas obras proscritas pelo édito correspondente, temendo pelo seu destino, Friedrich o abrigou no Castelo de Wartburg (Turíngia, Alemanha), onde ele permaneceu um ano, durante o qual traduziu o Novo Testamento para o alemão. Friedrich, fundador da Universidade de Wittenberg, entretanto, pouco contato teve com Lutero, tendo permanecido católico romano. 
Friedrich III, Eleitor da Saxônia

Foi Lutero que introduziu as regulações arbitrárias para a adoração Divina e funções religiosas; de acordo com tais regulações, comunidades luteranas foram estabelecidas formando um corpo herético que se opôs à Igreja Católica. Entre outros príncipes que logo se associaram a Lutero, apoiando seus esforços, estavam:
  • Johann da Saxônia (irmão de Friedrich);
  • Grande Mestre Albert da Prússia, que converteu as terras de sua ordem num ducado secular, tornando-se seu lorde hereditário ao aceitar o luteranismo;
  • Duques Heinrich e Albert de Mecklenburg;
  • Conde Albert de Mansfield;
  • Conde Edzard da Friesland Oriental;
  • Príncipe Philip de Hesse, que se declarou definitivamente pela Reforma após 1524.
Enquanto isso, em várias cidades da Alemanha Imperial o movimento da Reforma foi iniciado por seguidores de Lutero, especialmente em Ulm, Augsburg, Nuremberg, Nördlingen, Strasburg, Constance, Mainz, Erfurt, Zwickau, Magdeburg, Frankfort-on-the-Main e Bremen. Os príncipes luteranos formaram a Aliança de Torgau em 4 de maio de 1526, para sua defesa comum. Por sua presença na Dieta de Speyer em 1526, eles garantiram a adoção da resolução que, com relação ao Édito de Worms contra Lutero e sua errônea doutrina, cada um pudesse adotar uma atitude com a qual responder a Deus e o Imperador. A liberdade para introduzir a Reforma em seus territórios foi assim garantida aos governantes territoriais. Os estados católicos foram desencorajados enquanto os príncipes luteranos e suas demandas cresceram. Mesmo os decretos totalmente moderados da Dieta de Speyer de 1529 provocaram protestos dos estados luteranos e reformados.
As negociações na Dieta de Augsburg (1530), em que os estados, rejeitando a fé católica, elaboraram o seu credo (Confissão de Augsburg), demonstraram que a restauração da unidade religiosa não seria efetuada. A Reforma ampliou-se e o Luteranismo e o Zwinglianismo foram introduzidos em outros territórios germânicos. Além dos principados e cidades mencionados acima, por 1530 eles já haviam feito o seu caminho pelos principados de Bayreuth, Ansbach, Anhalt e Brunswick-Lunenburg; nos anos seguintes, na Pomerania, Jülich-Cleve e Wurtemberg. Na Silésia e no ducado de Liegnitz, a Reforma também fez grandes avanços. In 1531 a Liga Smalkaldic concluiu uma aliança defensiva e ofensiva entre os príncipes protestantes e as cidades. Especialmente após sua renovação (1535), a esta liga se uniram outras cidades e príncipes que haviam esposado a Reforma (Conde Palatine Rupert de Zweibrücken, Conde William de Nassau, as cidades de Augsburg, Kempten, Hamburg e outras.
Negociações adicionais entre as partes religiosas foram instituídas visando o fim do cisma, sem sucesso. Entre os métodos adotados para a difusão da Reforma, a força foi cada vez mais livremente empregada. Quando a diocese de Naumburg-Zeitz se tornou vaga, o eleitor Johann Frederick da Saxônia instalou, pela força, o pregador luterano Nicholas Amsdorf (no lugar do reitor da Catedral Julius von Pflug, escolhido por seus cônegos) que assumiu o governo secular. O duque Henry de Brunswick-Wolfenbuttel foi exilado em 1542 e a Reforma foi introduzida à força, como também em Colônia. O colapso da Liga Smalkaldic (1547) reduziu o progresso da Reforma: Julius von Pflug foi instalado em sua diocese de Naumburg, o duque Henry de Brunswick-Wolfenbuttel recuperou suas terras e Hermann von Wied teve de resignar à diocese de Colônia, onde a fé católica foi assim mantida.
A fórmula de união estabelecida pela Dieta de Augsburg, em 1547 (Augsburg Interim) não teve sucesso, embora introduzida em muitos territórios Protestantes. Enquanto isso, o Príncipe Moritz da Saxônia, fazia um tratado secreto com Henrique II da França, inimigo da Alemanha, formando uma confederação com os príncipes protestantes William de Hesse, John Albert de Mecklenburg e Albert de Brandenburg, para fazer Guerra contra o Imperador e o Império, quebrando o seu poder. Por sugestão de Carlos V, então Imperador do Sacro Império Germânico, seu irmão e sucessor, rei Fernando I, convocou a Dieta de Augsburg, em 1555 onde, após longas negociações, foi concluído o tratado conhecido por “Paz Religiosa de Augsburg”. Este pacto continha as seguintes disposições em seus vinte e dois parágrafos:
  • Entre os Estados imperiais católicos e os da Declaração de Augsburg (os Zwinglianos não foram considerados no Tratado) a paz e a harmonia deverão ser observadas;
  • Nenhum Estado do Império constrangerá outro Estado ou seus súditos a mudar de religião nem fará guerra por motivo religioso;
  • O dignitário eclesiástico que esposar a Declaração de Augsburg, perderá sua dignidade eclesiástica com todos os escritórios e salários a ele conectados, sem prejuízo, contudo, de sua honra e posses privadas. Contra este dispositivo eclesiástico, os Estados Luteranos protestaram:
  • Os proprietários da Declaração de Augsburg manterão todas as suas propriedades eclesiásticas possuídas desde o início da Reforma; após 1555 nenhuma parte poderá tomar nada de outra parte;
  • Até a conclusão da paz entre os corpos religiosos disputantes (a ser efetivada na próxima Dieta de Ratisbon) a jurisdição eclesiástica da hierarquia católica fica suspensa nos territórios da Declaração da Augsburg;
  • Se qualquer conflito surgir entre as partes relacionadas a terras ou direitos, uma tentativa inicial deve ser feita para ajustar tais disputas por arbitragem;
  • Nenhum Estado Imperial pode proteger seus súditos de outro estado das autoridades;
  • Cada cidadão do Império tem o direito de escolher qualquer uma das duas religiões reconhecidas e de praticá-la em outro território sem perda de direitos, honra ou propriedade (sem prejuízo, contudo, aos direitos do lorde territorial sobre classe camponesa);
  • Essa paz incluirá os cavalheiros livres e as cidades livres do Império; as cortes imperiais devem ser guiadas exatamente por estas provisões;
  • Os juramentos devem ser administrados ou em nome de Deus ou de seu Santo Evangelho.

Por esta paz, o Cisma religioso do Império Germânico foi definitivamente estabelecido; daí em diante os estados católicos e protestantes ficaram em campos opostos. Quase toda a Alemanha, da fronteira com a Holanda a oeste, à fronteira polonesa, a leste, o território da Ordem Teutônica na Prússia, a Alemanha Central com exceção da maior parte porção ocidental, e (no Sul da Alemanha) Wurtemburg, Ansbach, Pfalz-Zwibrucken e outros domínios menores, com numerosas cidades livres, haviam esposado o Luteranismo. Além disso, no sul e sudeste, que permaneceram predominantemente católicos, surgiram numerosos apoiadores. O Calvinismo também se espalhou amplamente.
Mas a Paz de Augsburg falhou em garantir a harmonia que se esperava. Desafiando suas expressas provisões, uma série de principados eclesiásticos (dois arcebispados, doze bispados e numerosas abadias) foram reformadas e secularizadas antes do início do século XVII. A “Liga Católica” foi formada para proteção dos interesses católicos e para compensar a “União Protestante”. Logo se seguiu a “Guerra dos Trinta Anos”[2], uma funesta luta para a Alemanha, que entregou o país aos seus inimigos do oeste e norte, destruindo o poder, riqueza e influência do Império Germânico. A Paz de Westphalia, concluída em 1648, com a França, em Munster, e com a Suécia, em Osnabrück, confirmando definitivamente o status do cisma religioso na Alemanha, colocou os Calvinistas e os Reformados no mesmo pé dos Luteranos e garantiu aos Estados imediatamente sujeitos ao imperador, o direito de introduzir a Reforma. Daí para a frente, os soberanos territoriais podiam obrigar seus súditos a adotar uma dada religião, sujeito ao reconhecimento da independência daqueles que, em 1624 tinham o direito de manter seus próprios serviços religiosos. O Absolutismo Estatal nas questões religiosas havia atingido seu mais alto desenvolvimento na Alemanha.
Na Suíça Germânica ocorreu algo similar. Após Zurich ter aceito e introduzido à força a Reforma, Basle seguiu o seu exemplo com John OEcolampadius e Wolfgang Capito associando-se a Zwingli, espalhando seu ensinamento e conquistando a vitória para a nova fé. Os membros católicos do Grande Conselho foram expulsos. Resultados similares foram obtidos em Appenzel Outer Rhodes, Schaffhausen e Glarus. Após longa hesitação a Reforma foi aceita também em Berna, onde um apóstata cartusiano (ordem religiosa), Franz Kolb, com Johann e Berthold Haller pregaram o Zwinglianismo. Todos os monastérios foram subjugados e uma grande violência foi usada para impor o Zwinglianismo ao povo do território. St. Gall, onde Joachim Vadianus pregava, e uma grande parte de Graubunden também adotaram as inovações. Por todo o Império o Zwinglianismo era um forte rival do Luteranismo e um violento conflito entre as duas profissões começou, a despeito das permanentes negociações pela união. As tentativas para terminar com a infeliz divisão da religião não eram desejadas na Suíça. Em maio de 1526 uma grande disputa religiosa ocorreu em Baden, com o catolicismo sendo representado por Johann Eckius (Eck), Johann Faber e Murner, e a Reforma por OEcolampadius e Berthold Haller. O resultado foi favorável aos católicos, com a maioria dos representantes dos Estados presentes declarando-se contra a Reforma e os escritos de Lutero e Zwingli sendo proibidos, o que veio a estimular a oposição dos Estados reformados. Em 1527 Zurich formou uma aliança com Constance; Basle, Berna e outros Estados reformados juntaram-se à Confederação em 1528. Como autodefesa, os Estados católicos formaram uma aliança em 1529 para a proteção da verdadeira fé dentro de seus territórios. Na guerra que se seguiu, os católicos obtiveram uma vitória em Kappel, com Zwingli morrendo no campo de batalha. Zurich e Berna tiveram a paz garantida sob a condição de não se perturbarem mutuamente por questões religiosas, com os serviços católicos podendo ser livremente mantidos nos territórios comuns. A fé católica foi restaurada em certos distritos de Glarus e Appenzell; a abadia de St. Gall foi retornada ao abade, embora a cidade tenha permanecido reformada. Em Zurich, Basle, Berna e Schaffhausen, contudo, os católicos não puderam garantir seus direitos. Os reformadores suíços logo compuseram declarações formais de suas crenças, sendo digna de nota a Primeira Profissão Helvética produzida por Bullinger, Myconius, Grynaeus e outros (1536), e a Segunda Profissão, composta por Bullinger em 1564, adotada pela maioria dos territórios reformados do tipo Zwingli.

VI.2 – OS REINOS DO NORTE: DINAMARCA, NORUEGA E SUÉCIA
Frederick I, rei da Dinamarca e Noruega

A Reforma Luterana fez uma penetração precoce na Dinamarca, Noruega (então unida à Dinamarca) e Suécia, principalmente devido a influências reais. O rei Christian II da Dinamarca (1513-1523) acolheu a Reforma como forma de enfraquecer a nobreza e, especialmente, o clero (que possuía extensas propriedades), por esse meio estendendo o poder do trono. Sua primeira tentativa de difusão dos ensinamentos de Lutero, em 1520, teve pouco sucesso: os barões e prelados logo o depuseram por tirania elegendo, em seu lugar, o Duque Frederick of Schleswig e Holstein (Rei Frederick I da Dinamarca e Noruega), secreto seguidor do luteranismo, que havia jurado, em sua coroação de 1523, manter a religião católica. Entretanto, assim que sentou no trono, favoreceu os reformadores, em particular o pregador Hans Tausen. Na Dieta de Odensee, em 1527, ele garantiu a liberdade de religião aos reformadores, permitiu o casamento ao clero e reservou ao rei a confirmação de 11 ordenações episcopais. O luteranismo difundiu-se por meios violentos e os fiéis da religião católica foram oprimidos. Seu filho Christian III, que já havia reformado Holstein, lançou às prisões os bispos dinamarqueses que haviam protestado contra sua sucessão, cortejando o apoio dos barões. Com exceção do bispo Ronow de Roskilde, que morreu na prisão (1544), todos os bispos concordaram em resignar e não mais opor-se à nova doutrina; com isso foram libertados tendo suas propriedades restituídas. Todos os padres que se opuseram à Reforma foram deportados, os monastérios fechados e a Reforma introduzida em todos os lugares à força. Em 1537, Johann Bugenhagen (Pomeranus), companheiro de Lutero, foi convocado de Wittenberg para a Dinamarca para estabelecer a Reforma de acordo com as ideias de Lutero. Na Dieta de Copenhagen, em 1546, os últimos direitos dos católicos foram retirados (direito de herança, elegibilidade para qualquer posto) e os padres católicos foram proibidos de morar no país sob pena de morte. 
Christian III, Rei da Dinamarca/Noruega
Na Noruega, o arcebispo Olaus de Trondhjem apostatou ao luteranismo, mas foi obrigado a deixar o país, como partidário do rei deposto, Christian II. Com a ajuda da nobreza dinamarquesa, Christian III introduziu a Reforma na Noruega à força. A Islândia resistiu mais tempo ao absolutismo real e às inovações religiosas. O inflexível bispo de Holum, Jon Arason, foi decapitado e a Reforma espalhou-se rapidamente após 1551. Algumas aparências do período católico foram mantidas – o título de bispo e, em alguma extensão, as vestimentas litúrgicas e formas de adoração.
Também na Suécia a Reforma foi introduzida por razões políticas pelo soberano secular. Gustavus Vasa, que havia sido dado a Christian II da Dinamarca, em 1520, como um refém e conseguira escapar para Lubeck, lá se familiarizou com o ensinamento luterano e reconheceu os serviços que ele poderia render-lhe. Retornando à Suécia, tornou-se o primeiro chanceler imperial e depois de ter sido eleito rei, com a deposição de Christian II na Dinamarca, tentou converter a Suécia numa monarquia hereditária, mas teve que curvar-se à oposição do clero e nobreza. A Reforma ajudou-o a atingir seus objetivos, embora sua introdução fosse difícil por conta da grande fidelidade do povo à fé católica. Indicou para altas posições dois suecos, os irmãos Olaf e Lorenz Peterson, que haviam estudado em Wittenberg e aceito os ensinamentos de Lutero; um capelão da corte em Estocolmo e o outro como professor em Upsla. Ambos trabalharam em segredo para a difusão do luteranismo, conseguindo muitos adeptos que incluíram o arquidiocesano Lorenz Anderson que o rei, a partir daí, nomeou seu chanceler. Em suas tratativas com o Papa Adriano VI e seus representantes, o rei simulava a máxima fidelidade à Igreja, enquanto fornecia às inovações religiosas o seu maior apoio. Os dominicanos, que ofereceram uma forte oposição aos seus projetos, foram banidos do reino e os bispos que resistiram foram sujeitos a todos os tipos de opressão. Após uma disputa religiosa na Universidade de Upsala, o rei concedeu a vitória a Olaf Peterson e procedeu à reforma da universidade, ao confisco da propriedade eclesiástica e ao emprego de todos os meios para compelir o clero a aceitar a nova doutrina. Uma revolução popular deu-lhe a oportunidade de acusar os bispos católicos de alta traição e, em 1527, o arcebispo de Upsala e o bispo de Westraes foram executados. Muitos eclesiásticos aderiram às vontades do rei; outros resistiram e tiveram de suportar violenta perseguição; um exemplo disso foi a heroica resistência das freiras de Wadstena. Após a dieta de Westraes, em 1527, grandes concessões foram feitas ao rei pelo medo da recente sujeição dos dinamarqueses, especialmente o direito de confisco da propriedade da Igreja, de indicações e remoções eclesiásticas etc. Alguns dos nobres logo se voltaram ao Rei quando da opção do retorno dos bens doados à Igreja pelo ancestral de alguém desde 1453. O celibato clerical foi abolido e o vernáculo foi introduzido no serviço Divino. O rei constituiu-se suprema autoridade em questões religiosas e rompeu a unidade religiosa do país. O Sínodo de Orebro (1529) completou a Reforma, embora muitos dos ritos externos, as imagens nas igrejas, as vestimentas litúrgicas e os títulos de arcebispo e bispo fossem mantidos. Em 1544 Gustavus Vasa tornou hereditário o seu trono. Os numerosos levantes contra ele e suas inovações foram debeladas com violência sangrenta. Mais tarde outras grandes revoltas religiosas surgiram, também de caráter político.
O Calvinismo também se espalhou e Eric XIV (1560-1568) dedicou-se a promove-lo. Foi, entretanto, destronado pela nobreza por sua tirania e seu irmão John III (1568-1592) nomeado rei. Este restaurou a Fé Católica e tentou devolver a terra à unidade da Igreja, mas com a morte de sua primeira esposa, Princesa Katherina, seu ardor declinou em face das numerosas dificuldades e sua segunda esposa favoreceu o luteranismo. Com a morte de John, seu filho Sigismund, já rei da Polônia e católico de sentimento, tornou-se rei da Suécia. Contudo, seu tio Duque Charles, chanceler do Reino, deu forte apoio à Reforma e a Confissão de Augsburg foi introduzida no Sínodo Nacional de Upsala, em 1593. Sigismund não teve poder contra o chanceler e a nobreza sueca; finalmente, em 1600, foi deposto como um apóstata da “verdadeira doutrina” e Charles foi coroado rei. Gustavus Adolphus (1611-1632), filho de Charles, usou a Reforma para aumentar o poder da Suécia pelas suas campanhas. A Reforma foi então oficializada em toda a Suécia.

VI.3 – FRANÇA E SUÍÇA FRANCESA

Em alguns círculos humanísticos[3] da França, muito anteriormente, originou-se um movimento favorável à Reforma. O centro desse movimento foi Meaux, onde o bispo Guillaume Briconnet favoreceu as ideias humanistas e místicas e onde ensinavam o professor Lefèvre d’Etaples, W. Farel e J. de Clerc, humanistas com tendências luteranas. Contudo, a Corte, a Universidade e o Parlamento se opuseram às inovações religiosas e a comunidade luterana de Meaux foi dissolvida. Centros mais importantes da Reforma foram encontrados ao sul, onde os Waldensianos[4] haviam preparado o terreno. Aqui muitos tumultos ocorreram, durante os quais imagens de Cristo e de Santos foram destruídas. Os parlamentos, na maioria dos casos, tomaram enérgicas medidas contra os inovadores embora em alguns lugares tenham encontrado protetores – especialmente em Margaret de Valois, irmã do rei Francisco I e esposa de Henrique d’Albret, rei de Navarra. Os líderes da Reforma na Alemanha buscaram derrotar Francisco I, aliado dos príncipes protestantes alemães por razões políticas; ele, entretanto, permaneceu fiel à Igreja e suprimiu os movimentos pró-reforma em todo o território. Nos distritos do sudeste, especialmente em Provence e Dauphine, os apoiadores das novas doutrinas cresceram em função dos esforços dos reformadores da Suíça e Strasburg, até que a profanação e o saque das igrejas obrigaram o rei a tomar medidas enérgicas contra eles. Após o calvinismo ter-se estabelecido em Genebra, sua influência cresceu rapidamente nos círculos da Reforma francesa. Calvino apareceu em Paris em 1533 como defensor do novo movimento religioso, dedicou ao rei francês Francisco I suas “Instituições das Religiões Cristãs” e foi para Genebra no mesmo ano. Expulso de Genebra ele retornou em 1541 e lá iniciou o estabelecimento final de sua organização religiosa. Com sua academia inaugurada por Calvino, Genebra era o principal centro da Reforma e afetou principalmente a França. Pierre le Clerc estabeleceu a primeira comunidade calvinista em Paris; outras foram estabelecidas em Lyons, Orléans, Angers e Rouen, onde medidas repressivas mostraram pouca valia. O bispo Jacques Spifamius, de Nevers, desviou-se para o calvinismo e, em 1559, ainda sob Henrique II, Paris testemunhou a reunião de um sínodo geral de reformadores franceses que adotou o credo calvinista, introduzindo a constituição presbiteriana suíça para as comunidades reformadas. Devido ao apoio dos waldensianos à disseminação da literatura reformista de Genebra, Basle e Strasburg, e ao permanente influxo de pregadores dessas cidades, os adeptos da Reforma cresceram na França. Com a morte do rei Henrique II (1559) os huguenotes[5] calvinistas pretenderam tirar vantagem da fraqueza do governo para aumentar o seu poder. A rainha viúva Catarina de Médici, ambiciosa e intrigante, perseguiu uma política oportunista. Logo aspirações políticas se emaranharam com o movimento religioso que assumiu proporções maiores e maior importância. De oposição à linha regulatória e aos poderosos e zelosamente católicos duques de Guise, os príncipes da linha Bourbon tornaram-se os protetores dos calvinistas, como Antoine de Vendôme, rei de Navarra e seus irmãos, especialmente Louis de Condé. A eles outros se juntaram, incluindo bispos e cardeais. 
O massacre do dia de São Bartolomeu, por François Dubois
A despeito de leis anti-heréticas, o calvinismo fazia constante progresso no sul da França, quando, em 17 de janeiro de 1562 a rainha viúva, regente de Charles IX, emitiu um édito de tolerância que permitia aos huguenotes a livre prática de sua religião fora das cidades e sem armas, mas proibindo toda a interferência e atos de violência contra instituições católicas, além de ordenar a restituição de todas as igrejas e propriedades eclesiásticas tomadas aos católicos. Os calvinistas ainda mais audaciosos, cometeram, especialmente no sul, revoltantes atos de violência contra os católicos, executando padres católicos até nos bairros de Paris. Em 1º de março de 1562, em Vassy, Champagne, a comitiva do Duque de Guise entra em conflito com os huguenotes inaugurando a primeira guerra civil e religiosa na França. Embora esta tenha encerrado com a derrota dos huguenotes, ocasionou grandes perdas aos católicos da França. Relíquias de Santos foram queimadas e espalhadas, igrejas magníficas reduzidas a cinzas e numerosos padres assassinados. O édito de Amboise garantiu novos favores a nobres calvinistas embora o édito de tolerância anterior tivesse sido retirado. Cinco outras guerras civis se seguiram, durante as quais ocorreu o massacre do dia de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), quando dezenas de líderes huguenotes foram assassinados numa série coordenada de ataques planejados pela família real católica. Esse foi o início de um massacre mais vasto que durou até outubro e envolveu doze cidades francesas.
Richelieu, cardeal da Igreja Católica
e primeiro-ministro da França
 
Somente com a extinção da linha de Valois com Henry III (1589) e a ascensão de Henry de Navarra (que abraçou o catolicismo em 1593) ao trono, as guerras religiosas chegaram ao fim pelo Édito de Nantes (13 de abril de 1598), que garantiu aos calvinistas plena liberdade religiosa, admissão a todos os serviços públicos e uma privilegiada posição no Estado. Dificuldades de natureza política surgiram e o Cardeal de Richelieu buscou acabar com a posição influente dos huguenotes. A captura de sua principal fortaleza, La Rochelle (28 de outubro de 1628), finalmente quebrou o poder dos calvinistas franceses como entidade política. Mais tarde, muitos deles retornaram ao catolicismo, embora ainda muitos adeptos do calvinismo na França tenham subsistido.




[1] A palavra dieta vem do latim dieta (de dies, dia, do primeiro significado, regime alimentício diário) e, no caso, significa uma assembleia política ou administrativa.
[2] A Guerra dos Trinta Anos (1618-48) iniciou quando Ferdinando II, Imperador do Sacro Império Romano, da Bohemia, tentou restringir as atividades religiosos de seus súditos, provocando a rebelião entre os protestantes. Incialmente envolvendo apenas alemães, a guerra incluiu as maiores potências da Europa: Suécia, França, Espanha e Áustria lutando em solo germânico. Com atrocidades cometidas por todos os lados, 20% da população alemã pereceu na guerra que terminou com uma série de tratados convertidos na Paz de Vestefália e redesenhou o mapa político e religioso da Europa Central.
[3] Humanismo é o nome dado ao movimento intelectual, literário e científico dos séculos XIV a XVI, um movimento que visava basear todo ramo do aprendizado na literatura e cultura da antiguidade clássica. Acreditando que apenas o treino clássico poderia formar um homem perfeito, os humanistas assim se auto denominaram em oposição aos escolásticos, adotando o termo humaniora (as humanidades) com o significado de sabedoria dos anciãos. Embora o intervalo entre o período clássico e os seus próprios dias fosse visto pelos humanistas como bárbaros e destrutivos com relação à arte e ciência, o Humanismo (como qualquer outro fenômeno histórico) estava ligado ao passado.
[4] Uma seita herética surgida na segunda metade do século XII e que, modificada de uma forma considerável, sobreviveu até os dias atuais. O nome é derivado de Waldes, seu fundador.
[5] Huguenote foi, originalmente, um termo político, não religioso, usado para descrever, entre 1520 e 1524, os patriotas de Genebra hostis ao Duque de Savoy que uniram a cidade à Confederação Suíça.

Prossegue com a PARTE 6

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 4

IV.2 – EVOLUÇÃO DAS IDEIAS ORIGINAIS E OBJETIVOS DOS REFORMADORES

Tornou-se costume comutar penitências com obras menos complexas, tais como orações, esmolas, jejuns e mesmo a doação de dinheiro, dependendo das várias espécies de ofensas (penitências tarifárias). Pelo século X, algumas penitências não foram substituídas, mas simplesmente reduzidas em função de doações pias, peregrinações e obras meritórias similares. Então, nos séculos XI e XII, o reconhecimento do valor desses trabalhos começou a ser associado não tanto com a penitência canônica, mas com a remissão da punição temporal devido ao pecado.
O primeiro registro de uma indulgência plenária foi a declaração do Papa Urbano II, no Concílio de Clermont (1095), pela qual ele perdoava toda a penitência em que haviam incorrido os Cruzados que haviam confessado seus pecados, considerando a participação na Cruzada equivalente a uma penitência completa.
À medida que o Purgatório se tornava mais proeminente no pensamento cristão e os termos das indulgências inflavam, passou a predominar a ideia de que o termo das indulgências se relacionava mais à remissão de tempo no Purgatório do que com as penitências que os primeiros cristãos teriam realizado. De fato, muitas indulgências do final da Idade Média foram concedidas por períodos que iam além de uma vida, reforçando essa crença. Por vários séculos os teólogos debateram se as indulgências concedidas seriam para a penitência ou o Purgatório, e a Igreja não definiu a matéria, evitando tomar essa decisão, por exemplo, no Concílio de Trento. Hoje a visão moderna da Igreja é taxativa: é penitência.
As indulgências se tornaram crescentemente populares na Idade Média como uma recompensa por atos de piedade e realização de boas obras, embora, doutrinariamente falando, a Igreja tenha estabelecido que a indulgência só era válida para a punição temporal por pecados já perdoados através do Sacramento da Confissão. Os fiéis pediam indulgências por dizer as suas orações, fazer atos de devoção, atender locais de adoração e realizar peregrinações; as confrarias queriam indulgências por apresentações e procissões; as associações queriam que seus encontros fossem recompensados com indulgências. As boas obras incluíam caridosas doações de dinheiro, quando o dinheiro levantado fosse usado para justas causas, religiosas ou civis; a construção de projetos financiados por indulgências incluía igrejas, hospitais, colônias de leprosos, escolas, estradas etc.
Contudo, o final da Idade Média viu o crescimento de abusos consideráveis. Representantes vorazes procuraram extrair a máxima quantidade de dinheiro para cada indulgência. “Perdoadores” profissionais, enviados para coletar esmolas para um projeto específico, praticavam irrestrita venda de indulgências. Muitos desses “perdoadores” excediam a doutrina oficial da Igreja, ou por cobiça ou por zelo ignorante, prometendo recompensas como salvação da condenação eterna em troca de dinheiro. Com a permissão da Igreja, as indulgências também se tornaram uma forma de governantes católicos financiarem caros projetos, como Cruzadas e Catedrais, mantendo uma porção significativa do dinheiro levantado das indulgências em suas terras. Forjando documentos que declaravam que indulgências haviam sido concedidas, sua magnitude cresceu extraordinariamente, em termos de longevidade e largueza de perdão.
O Quarto Concílio de Latrão (1215) estabeleceu alguns limites que logo foram novamente excedidos. Documentos falsos passaram a circular com indulgências ultrapassando todos os limites: indulgências com centenas ou milhares de anos. Em 1392, mais de um século antes de Martin Luther publicar suas 95 Teses, o Papa Bonifácio IX escreveu ao Bispo de Ferrara, condenando a prática de certos membros de ordens religiosas que falsamente declaravam-se autorizados pelo Papa para perdoar toda a sorte de pecados, obtendo dinheiro de fiéis mais inocentes mediante a promessa de eterna felicidade nesse mundo e glória no próximo. A Catedral de Rouen obteve o apelido de “Catedral de Manteiga” porque o dinheiro para a sua construção foi levantado pela venda de indulgências que permitiam o consumo de manteiga durante a Quaresma.
A guerra contra os turcos e outras crises, a construção de igrejas e monastérios e numerosas outras causas conduziram à concessão de indulgências no século XV. Os abusos consequentes foram ainda maiores pelo fato de governantes seculares frequentemente proibirem a promulgação de indulgências em seus territórios, consentindo somente sob a condição de que parte do que fosse recebido fosse entregue a eles. Na prática, entretanto, e na mente pública, a promulgação de indulgências assumiu um aspecto econômico e, como eram frequentes, muitos vieram a vê-la como imposto opressivo. Em vão homens zelosos ergueram suas vozes contra este abuso que provocou grande amargura contra a ordem eclesiástica e, particularmente, a Cúria Papal.
Como dissemos acima, a promulgação de indulgências para a nova Catedral de São Pedro, pelo Papa Leão X, em 1517, forneceu a Martinho Lutero a oportunidade de atacar as indulgências e este ataque foi a ocasião imediata da Reforma na Alemanha. Um pouco mais tarde, o mesmo motivo conduziu Zwingli a lançar seus ensinamentos errôneos, com isso inaugurando a Reforma na Suíça Alemã. Ambos declararam estar atacando somente os abusos das indulgências; contudo, logo passaram a ensinar a doutrina de forma muito diversa dos ensinamentos da Igreja. Embora Lutero não negasse o direito ao Papa de conceder perdão por penitências impostas pela Igreja, ele deixou claro que pregadores que diziam que as indulgências absolviam, aqueles que as obtinham, de toda a punição e lhes garantiam salvação, estavam errados, de acordo com a teologia católica.
Muitos acreditaram que a Igreja Católica estivesse no negócio de venda de indulgências, embora a Igreja dissesse que todas essas transações eram oficialmente classificadas como doações. De qualquer forma, o Concílio de Trento tomou providências para acabar com aquilo. Em julho de 1562 o Concílio de Trento suprimiu o escritório dos encarregados das finanças e reservou a coleta das esmolas a dois membros canônicos do corpo eclesiástico que não receberiam remuneração por seu trabalho; também reservou a publicação das indulgências ao bispo da diocese. Então, em 4 de dezembro de 1563, em sua sessão final, o Concílio discutiu diretamente a questão das indulgências, declarando-as “muito salutares ao povo cristão”, decretando que “todo o mau ganho em sua obtenção deveria ser abolido” e instruindo os bispos a vigiarem quaisquer abusos relativos a elas.
Alguns anos mais tarde, em 1567, o Papa Pio V cancelou todas as garantias de indulgências envolvendo quaisquer taxas ou outras transações financeiras.
Após o Concílio de Trento, Clemente VII estabeleceu uma comissão de Cardeais para tratar das indulgências de acordo com as ideias do Concílio. Ela prosseguiu seu trabalho durante o pontificado de Paulo V, publicando várias bulas e decretos sobre o assunto. Mas somente Clemente IX estabeleceu uma verdadeira Congregação de Indulgências (e Relíquias), com uma síntese em 6 de julho de 1669. Em um documento pessoal de 28 de janeiro de 1904, Pio X uniu a Congregação das Indulgências com a dos Ritos, mas com a reestruturação da Cúria Romana, em 1908, todas as questões relativas às indulgências foram designadas à Santa Inquisição. Em um documento pessoal de 25 de março de 1915, Benedito XV transferiu a Seção de Indulgências da Santa Inquisição à Penitenciária Apostólica, mantendo a responsabilidade da Santa Inquisição para questões relativas à doutrina de indulgências. 
O monge agostiniano Martinho Lutero
O grande impulso que Lutero recebeu em sua primeira apresentação, nos círculos humanísticos e entre alguns teólogos e alguns leigos de mentes sérias, foi a insatisfação com os abusos existentes. Seus próprios pontos de vista errados e a influência de parte de seus seguidores logo guiaram Lutero contra a autoridade eclesiástica e, ao final, o conduziram à aberta apostasia e cisma. Seus principais partidários originais estavam entre os Humanistas, o clero imoral e os baixos graus da nobreza dos proprietários de terras imbuídos de tendências revolucionárias. Logo tornou-se evidente sua intenção de subverter todas as instituições básicas da Igreja. Começando por proclamar a falsa doutrina da “absolvição apenas pela fé”[1], ele posteriormente rejeitou todos os remédios supernaturais (especialmente os sacramentos e a missa), negou os méritos das boas obras (assim condenando os votos monásticos e o ascetismo cristão em geral) e, finalmente, rejeitou a instituição de um genuíno sacerdócio hierárquico (especialmente a linha papal) na igreja. Sua doutrina da Bíblia, como única regra de fé, com a rejeição da autoridade eclesiástica, estabeleceu subjetivismo em questões de fé. Por este assalto revolucionário, Lutero perdeu o apoio de muitas pessoas sérias indispostas a romper com a Igreja,
Martinho Lutero, a principal figura da Reforma
mas por outro lado, conquistou os elementos antieclesiásticos, incluindo numerosos monges e freiras que deixaram os monastérios para quebrar seus votos e muitos padres que se uniram à sua causa com a intenção de casar. O apoio de seu soberano, Frederico da Saxônia, foi muito importante. Logo príncipes temporais e magistrados municipais fizeram da Reforma um pretexto para interferência arbitrária em questões puramente eclesiásticas e religiosas, adonando-se de propriedades eclesiásticas e dispondo delas ao seu prazer e decidindo sobre a fé que seus súditos deveriam aceitar. Alguns seguidores de Lutero ainda foram mais longe. Os anabaptistas e os iconoclastas revelaram as possibilidades mais extremas dos princípios advogados por Lutero, enquanto que na “Guerra dos Camponeses”[2] os mais oprimidos elementos da sociedade alemã colocaram em prática a doutrina do reformador. As questões eclesiásticas foram agora organizadas à base dos novos ensinamentos; doravante o poder secular é cada vez mais claramente o supremo juiz nas questões puramente religiosas e despreza completamente qualquer autoridade eclesiástica independente. 
Zwingli, o reformador na Suíça Alemã
Um segundo centro da Reforma foi estabelecido por Zwingli, em Zurich. Embora ele diferisse em muitos detalhes, de Lutero, e fosse muito mais radical do que este na transformação do cerimonial da Missa, os objetivos de seus seguidores eram idênticos aos dos luteranos. As considerações políticas representaram um grande papel no desenvolvimento do Zwinglianismo e a magistratura de Zurich, após sua maioria ter-se declarado por Zwingli, tornou-se uma zelosa promotora da Reforma. Decretos arbitrários foram emitidos pelos magistrados relativos à organização eclesiástica; os conselheiros que permaneceram fieis à fé Católica, foram expulsos do Conselho e os serviços católicos proibidos na cidade. A cidade e o cantão de Zurich foram reformados pelas autoridades civis de acordo com as ideias de Zwingli. Outras partes da Suíça Alemã tiveram destino similar. A Suíça Francesa desenvolveu mais tarde sua Reforma peculiar, organizada, em Genebra, por Calvino (Jehan Cauvin). O calvinismo é distinto do luteranismo e do zwinglianismo por uma forma mais rígida e consistente de doutrina e pela exatidão de seus preceitos morais, que regulam toda a vida doméstica e pública do cidadão. A organização eclesiástica de Calvino foi declarada lei fundamental da República de Genebra e as autoridades prestaram inteiro suporte ao reformador no estabelecimento de sua nova corte de moral. A palavra de Calvino era a mais alta autoridade, ele não tolerava contradição aos seus pontos de vista ou regulamentos e sua doutrina foi introduzida em Genebra e nas vizinhanças com violência. Os padres católicos foram banidos e as pessoas oprimidas e compelidas a atender aos sermões de Calvino. 
João Calvino, o reformador na Suíça Francesa
Na Inglaterra a origem da Reforma foi totalmente diferente. Lá, o tirânico Henrique VIII (rei de 1509 a 1547, sua morte) (Figura de Henry VIII), com o apoio de Thomas Cranmer, a quem o rei transformou no Arcebispo de Canterbury, separou seu país da unidade eclesiástica porque o Papa Clemente VII, como real guardião da lei Divina, recusou o pedido de divórcio do rei, de Catarina de Aragão, para casar com Ana Bolena, durante a vida de sua esposa legítima[3]. Recusando obediência ao Papa, o despótico monarca constituiu-se supremo juiz das questões eclesiásticas; a oposição de homens íntegros como Thomas More e John Fisher foi conquistada com sangue. O rei desejava, contudo, manter intactas as doutrinas da Igreja e a hierarquia eclesiástica, e produziu uma série de doutrinas e instituições rejeitadas por Lutero e seus seguidores. Na Inglaterra, também o poder civil se constituiu juiz supremo em questões de fé, usando a Reforma para inovações religiosas arbitrárias adicionais. Sob o rei seguinte, Edward VI (1547-1553), o partido Protestante ganhou a supremacia e começou a promover a Reforma na Inglaterra segundo os princípios de Lutero, Zwingli e Calvino. A força foi empregada novamente para espalhar as novas doutrinas. Este último esforço do movimento reformista ficou confinado praticamente à Inglaterra e transformou-se no Anglicanismo. 
Henry VIII, chefe
da Igreja Anglicana

V - MÉTODOS DE DIFUSÃO DA REFORMA

Na escolha dos meios para estender a Reforma, seus fundadores e apoiadores não foram econômicos, valendo-se de qualquer fator que pudesse ampliar o seu movimento.
A denúncia de abusos, reais ou supostos, na vida religiosa e eclesiástica foi, especialmente no início, um dos métodos principais empregados pelos reformadores para promover seus projetos. Pela denúncia eles conquistaram muitos insatisfeitos com as condições existentes, que se dispuseram a apoiar qualquer movimento que prometesse uma mudança. Mas foi o difundido ódio de Roma e dos membros da hierarquia, encorajado pelas queixas de abusos incessantemente repetidas e apenas poucas vezes justificadas, que muito eficientemente favoreceram os reformadores que logo violentamente atacaram a autoridade papal, nela reconhecendo a suprema guardiã da fé católica. Daí a imensa quantidade de sátiras, frequentemente muito vulgares, contra o Papa, os Bispos e, em geral, contra todos os representantes da autoridade eclesiástica. Tais panfletos circulavam em todos os lugares, promovendo ainda mais o desrespeito pela autoridade. Pintores preparavam caricaturas desrespeitosas e degradantes do Papa, clero e os monges, para ilustrar o texto dos panfletos hostis. Travado com todas as armas possíveis, este combate contra os representantes da Igreja, supostos geradores de todos os abusos eclesiásticos, preparou o caminho para a aceitação da Reforma. Não havia mais uma marcada distinção entre abusos temporais e corrigíveis e as fundamentais verdades cristãs supernaturais; junto com os abusos, importantes instituições eclesiásticas, baseadas em fundações divinas, foram simultaneamente abolidas.
Os reformadores tiraram também vantagem das divisões existentes em muitos locais entre as autoridades eclesiásticas e civis. O desenvolvimento do Estado, em sua forma moderna, entre os povos cristãos do Ocidente, deu origem a muitas disputas entre o clero e o poder civil, entre os bispos e as cidades, entre os monastérios e os lordes territoriais. Quando os reformadores retiraram do clero toda a autoridade, especialmente toda a influência nas questões civis, eles permitiram que os príncipes e as autoridades municipais terminassem todas as disputas de longa duração em seu próprio favor, arbitrariamente usurpando todos os direitos disputados, banindo a hierarquia cujos direitos eles usurparam, assim estabelecendo por sua própria autoridade uma organização eclesiástica totalmente nova. O clero reformado assim possuía, de início, somente direitos que as autoridades civis concordavam em ceder-lhe. Consequentemente, as Igrejas Nacionais Reformadas eram totalmente subordinadas às autoridades civis e os reformadores, que haviam confiado ao poder civil a execução real de seus princípios, não possuíam agora meios de se libertarem de tal servidão.
Ao longo dos séculos um imenso patrimônio se formara a partir de objetos religiosos, de caridade e educacionais. Igrejas, monastérios, hospitais e escolas tinham, com frequência, grandes rendas e amplas posses; isto originou a inveja secular de governantes. A Reforma capacitou tais governantes secularizarem este vasto patrimônio eclesiástico, pois seus líderes constantemente censuravam a centralização de tais riquezas nas mãos do clero. Com isso, os príncipes e autoridades municipais foram convidadas a confiscar a propriedade eclesiástica e emprega-la em seu proveito próprio. Principados eclesiásticos que eram encarregados pelos proprietários, somente como pessoas eclesiásticas, para administração e usufruto foram, em oposição à lei real, com a exclusão dos beneficiados, transformados em principados seculares. Desta forma, os reformadores tiveram sucesso em despojar a Igreja de sua riqueza temporal para várias necessidades, desviando-a para sua própria vantagem.
As emoções humanas às quais os reformadores apelaram de várias formas, foram outra ferramenta de difusão da Reforma. As principais ideias que esses inovadores defenderam – liberdade Cristã, licença de pensamento, o direito e a capacidade de cada indivíduo para encontrar sua própria fé na Bíblia e outros princípios similares – eram muito sedutoras para muitos. A abolição de instituições religiosas que atuavam como freio sobre a pecadora natureza humana (confissão, penitência, jejum, abstinência, votos) atraíram os lascivos e frívolos. As hostilidades contra as ordens religiosas, a virgindade e o celibato, e as práticas de uma vida cristã superior, conquistaram para a reforma grande número daqueles que, sem uma séria vocação, haviam abraçado a vida religiosa por motivos puramente humanos e mundanos e que desejavam livrar-se das obrigações para com Deus, - tornadas demasiadamente pesadas -, assim pudessem ficar livres para atender seus desejos sensuais. Isso poderiam fazer mais facilmente, na medida em que o confisco da propriedade das igrejas e monastérios facilitava o avanço material de ex-monges e ex-freiras e de padres que apostatavam. Nos inúmeros escritos e panfletos dirigidos ao povo, os reformadores empenhavam-se em excitar os instintos humanos mais básicos. Contra o Papa, a Cúria Romana, bispos, padres, monges e freiras que haviam permanecido fieis às suas convicções católicas, foram disseminados as mais incríveis difamações e libelos. Em linguagem da maior rudeza, as doutrinas e instituições católicas foram distorcidas e ridicularizadas. Entre os elementos inferiores, menos educados e abandonados da população, as paixões e instintos mais vis foram estimulados e recrutados a serviço da Reforma.
De início, muitos bispos mostraram grande apatia frente aos reformadores, não dando ao movimento maior importância, mas permitindo aos seus chefes tempo maior para a difusão de suas doutrinas. Mesmo mais tarde, muitos bispos mais inclinados ao mundano, embora permanecendo fieis à Igreja, foram muito frouxos no combate à heresia e no emprego de maneiras adequadas que evitassem o seu avanço. O mesmo pode ser dito do clérigo paroquial que era, em grande extensão, ignorante e indiferente, vendo à toa a deserção das pessoas. Os reformadores, por outro lado, demonstraram o maior zelo por sua causa, utilizando todos os meios por palavra e pena, por permanente contato com pessoas que pensavam da mesma forma, por eloquência popular em que os líderes da Reforma eram especialmente habilidosos em empregar, por sermões e escritos populares que apelavam à fraqueza do caráter popular, incitando ao fanatismo das massas, em resumo, pela utilização inteligente e zelosa de cada oportunidade que se apresentasse para a difusão de suas doutrinas. Ao mesmo tempo, com grande astúcia, mostravam aderir estritamente às verdades essenciais da fé Católica, mantendo muitas das cerimônias externas da adoração Católica e declarando sua intenção de abolir somente as coisas baseadas na invenção humana, assim enganando as pessoas com relação aos reais objetivos de suas atividades. Muitos oponentes pios e zelosos nas fileiras do clero regular e secular se opuseram, mas a necessidade real, especialmente no início, seria uma resistência organizada e sistematicamente conduzida contra esta falsa reforma; e esta não aconteceu.
Muitas instituições introduzidas pelos reformadores estimularam a multidão, por exemplo, o recebimento do cálice por todo o povo, o uso do vernáculo no serviço divino, os hinos religiosos populares usados durante os serviços, a leitura da Bíblia, a negação da diferença essencial entre clero e laicidade. Nessa categoria podem ser incluídas doutrinas atrativas para muitos, como a justificação apenas pela fé, sem referência às boas obras, a negação do livre arbítrio, que fornecia uma desculpa para lapsos morais, a certeza pessoal da salvação na fé (confiança subjetiva nos méritos de Cristo), o sacerdócio universal, que parecia dar a todos uma participação direta nas funções sacerdotais e administração eclesiástica.
Finalmente, um dos principais métodos empregados para a difusão da Reforma foi o uso da violência pelos príncipes e autoridades municipais. Os padres que permaneciam católicos eram expulsos e substituídos pelos que aderiam à nova doutrina e as pessoas eram obrigadas a atender aos novos serviços. Os fiéis à Igreja eram perseguidos de formas variadas e as autoridades civis de tudo faziam para que a fé dos descendentes daqueles que se haviam fortemente oposto à Reforma fosse gradualmente solapado. Em muitos lugares as pessoas foram afastadas da Igreja por brutal violência; em outros, para enganar as pessoas, mantinham, externamente, o rito católico por um longo tempo e prescreviam para o clero reformado as vestimentas eclesiásticas da adoração católica. A história da Reforma mostra, incontestavelmente, que o poder civil foi o principal fator de sua dispersão por todas as terras e que, em última análise, os motivos não foram religiosos, mas interesses dinásticos, político e sociais é que foram decisivos. Some-se a isto o fato de que os príncipes e magistrados municipais que se juntaram aos reformadores, totalmente tiranizaram a consciência de seus súditos e burgueses. Todos deviam aceitar a religião prescrita pelo governante civil. O princípio de que “a religião vai com a terra” é um fruto da Reforma e foi colocado em prática por ela e seus aderentes onde eles possuíam o poder necessário.




[1] A doutrina da “Absolvição apenas pela Fé” ou sola fide, afirma que o perdão de Deus ao pecador é garantido pela e recebido unicamente através da fé. Ela declara que a humanidade é caída e pecadora, incapaz de salvar-se a si própria; mas Deus, pela vida, morte e ressurreição de seu Filho, Jesus Cristo, garante aos pecadores justo perdão, recebido unicamente pela fé.
[2] A Guerra Alemã dos Camponeses foi uma revolta popular em áreas de língua alemã da Europa Central, de 1524 a 1525. Iniciada com objetivos econômicos, embora não apoiada por Lutero – que foi por isso criticado -, incorporou sua doutrina. Dos 300.000 mal armados camponeses, 100.000 foram mortos e os sobreviventes multados, alcançando poucos, se algum, dos seus objetivos. Foi o maior e mais amplo levante da Europa antes da Revolução Francesa de 1789.
[3] De acordo com a doutrina da Igreja, evidentemente o Papa estava com a razão. Entretanto, a bem da verdade, é importante mencionar que Catarina de Aragão era sobrinha do Imperador Carlos V, da Espanha, que, após o Saque de Roma, em maio de 1527, sitiava Roma e mantinha o Papa como prisioneiro. Tal situação ainda tornava muito mais remota a possibilidade de Henrique VIII obter de Clemente VII o divórcio pretendido.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A REFORMA E OS REFORMADORES - PARTE 3

IV - IDEIAS ORIGINAIS E OBJETIVOS DOS REFORMADORES

O primeiro impulso da secessão foi fornecido pela oposição de Martin Lutero, na Alemanha, e de Ulrich Zwingli (Ulrico Zuínglio, como é conhecido em Português), na Suíça Alemã, à promulgação, pelo Papa Leão X, de indulgências para contribuições à reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma. As “Indulgências” constituem um tema tão complexo e importante na questão da Reforma, que vamos dedicar ao assunto um subcapítulo especial, dedicado aos leitores que queiram se aprofundar um pouco mais no assunto.

IV.1 - INDULGÊNCIAS

A palavra “Indulgência” talvez encoraje mais falsos juízos do que qualquer outro ensinamento na teologia católica. As pessoas que atacam a Igreja pelo uso das indulgências, confiam na – e tiram vantagem disso – ignorância de católicos e não católicos.
O que é uma indulgência? Originalmente significava uma gentileza ou favor; posteriormente veio a significar a remissão de uma taxa ou débito. Na lei romana e no Velho Testamento ela foi usada para expressar liberação do cativeiro ou punição. Em linguagem teológica a palavra é algumas vezes empregada em seu sentido original para significar benevolência e perdão de Deus. A Igreja explica: “Uma indulgência é uma remissão (perdão), diante de Deus, da punição temporal devido aos pecados cuja culpa já foi perdoada, que o fiel cristão, devidamente disposto recebe, sob certas condições definidas, com a ajuda da Igreja quando, como ministro de redenção, ela dispensa e aplica com a autoridade do tesouro das satisfações conquistadas por Cristo e os Santos”.
No ensinamento da Igreja Católica Romana, uma indulgência é “uma forma de reduzir o tamanho da punição que alguém deve sofrer por ter pecado”, que pode reduzir a penitência necessária após cometer um pecado que foi confessado e perdoado e/ou, após a morte, o tempo a permanecer no Purgatório[1].
O recebedor de uma indulgência deve realizar alguma ação para recebe-la. Na maioria das vezes, trata-se de dizer, uma ou mais vezes, uma oração ou conjunto de orações específicas, mas pode também incluir a visitação a um local determinado ou a realização de boas obras específicas.
As indulgências foram introduzidas visando a remissão das severas penas da Igreja primitiva e concedidas pela intercessão de cristãos que aguardavam o martírio ou, pelo menos, que tivessem sido presos pela fé. Eram sacadas do “Tesouro do Mérito[2]” acumulado pelo sacrifício meritório superabundante de Cristo na cruz e pelas virtudes e penitências dos Santos. São concedidas por boas obras e orações específicas proporcionalmente à devoção com que elas são praticadas ou recitadas.
De acordo com os ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica, dois tipos de consequências ocorrem quando alguém peca: eternas e temporais (ou seculares). Um pecado mortal (muito grave e cometido consciente e livremente) é equivalente a recusar amizade com Deus e comunhão com a única fonte de vida eterna. A perda da vida eterna com Deus e a eterna morte no inferno, efeito desta rejeição, é chamada de “punição eterna” do pecado. Além desta punição devido ao pecado mortal, cada pecado (incluindo os venais) afasta o cristão de Deus através do que o Catecismo chama de ligação insalubre às criaturas, uma ligação que deve ser purificada aqui na Terra ou, após a morte, no Purgatório. A necessidade resultante de quebrar essa conexão às criaturas é uma outra punição do pecado, chamada de “punição temporal” porque, não sendo uma rejeição total de Deus, não é eterna e pode ser superada com o tempo. Mesmo quando o pecado é perdoado, a conexão associada pode permanecer; a punição temporal que segue o pecado é assim experimentada durante a vida terrena ou no purgatório. Nesta vida, a purificação necessária da ligação às criaturas pode, pelo menos em parte, ser alcançada pela opção a Deus, pela oração, penitência e obras de perdão e caridade.
As indulgências seriam uma ajuda para que se alcançar esta purificação. A doutrina católica da comunhão dos Santos ensina que o trabalho de purificação ou santificação não necessita ser feita inteiramente pela pessoa diretamente interessada, dado que por esta comunhão, “a vida de cada filho de Deus, em Cristo e por Cristo, é ligada por um maravilhoso vínculo, à vida de todos os seus outros irmãos cristãos, na unidade sobrenatural do Corpo Místico de Cristo até que uma só pessoa mística seja formada”. A comunicação dos bens espirituais, que incluem os méritos infinitos do próprio Cristo, o “Tesouro da Igreja”, e considerando a interpretação da Igreja do “poder de atar ou desatar” garantido por Cristo, a Igreja considera que pode administrar, aos que estão sob sua jurisdição, os benefícios desses méritos em vista de orações ou outras obras pias empreendidas pelos fiéis. Ao abrir aos cristãos individuais seu tesouro, “a Igreja não quer simplesmente vir ao auxílio desses cristãos, mas também estimulá-los aos trabalhos de devoção, penitência e caridade”.
Assim, uma indulgência não perdoa a culpa do pecado, nem libera o castigo eterno que a doutrina da Igreja associa com pecados mortais não perdoados. A Igreja Católica ensina, ao contrário, que as indulgências apenas abrandam o castigo temporal resultante do efeito do pecado e que a pessoa ainda necessita ter seus graves pecados absolvidos, normalmente pelo sacramento da Confissão, para receber a salvação. Similarmente, a indulgência não é uma licença para pecar, um perdão para um pecado futuro, nem uma garantia de salvação para ninguém. Ordinariamente, o perdão de pecados mortais é obtido através da confissão.
Uma vez que aqueles que morreram em estado de graça (com seus pecados mortais perdoados) são membros da comunhão dos santos, crê a Igreja Católica que os vivos podem ajudar àqueles a quem a purificação de seus pecados ainda não foi completada, não apenas por orações, mas também pela obtenção de indulgências para eles. E como a Igreja da Terra não tem jurisdição sobre os mortos, as indulgências podem ser ganhas somente por um ato de intercessão.
Uma indulgência pode ser plenária, quando redime toda a punição temporal exigida para purificar a alma da conexão a tudo com exceção de Deus; ou parcial, quando redime somente parte da punição temporal (purificação) devido ao pecado. Para receber uma indulgência plenária, uma pessoa deve excluir toda a ligação ao pecado de qualquer espécie, mesmo pecados veniais, realizar as obras ou dizer as orações pelas quais a indulgência é concedida, bem como preencher as três condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Papa. A condição mínima para receber uma indulgência parcial é ter o coração contrito; nessas condições, um católico que realiza a obra ou recita a oração prescrita, recebe, através da Igreja, a remissão da punição temporal de mesmo valor que a obtida pela própria ação da pessoa.
Ponto importantíssimo a considerar, no que foi dito até aqui sobre as indulgências, é a crença que o fiel deve possuir na doutrina da Igreja Católica. Se a pessoa não acredita na doutrina da Igreja, ela não vai aceitar a indulgência como ferramenta importante e válida para a sua salvação.
Na Igreja antiga, especialmente do século III para a frente, autoridades eclesiásticas autorizavam um confessor ou cristão aguardando o martírio a interceder por outro cristão para encurtar sua penitência canônica. O Concílio de Epaone, em 517, testemunha o surgimento da prática de substituir severas penitências canônicas por uma nova mais suave: o seu 29º Canon reduzia para dois anos a penitência a que os apóstatas[3] se deviam sujeitar no seu retorno à Igreja, mas os obrigava a jejuar um dia em três, durante aqueles dois anos, para virem à igreja e tomar o seu lugar na porta dos penitentes e sair com os catecúmenos[4]. Qualquer um que objetasse ao novo arranjo, deveria observar a antiga penitência muito mais longa.
Após saber o que são as indulgências, é muito importante que se esclareça o que elas não são e, para isso, aqui colocamos os sete mitos mais comuns sobre as indulgências, segundo a Igreja.
Mito 1: Uma pessoa pode evitar a sua ida para o inferno com a compra de indulgências.
Tal ideia é totalmente sem fundamento. Uma vez que as indulgências perdoam só as penas temporais, elas não podem perdoar a pena eterna do inferno. Uma vez que a pessoa esteja no inferno, nenhuma quantidade de indulgências jamais mudará tal fato. A única forma de evitar o inferno é através do apelo à eterna misericórdia de Deus enquanto ainda vivo. Após a morte, o destino eterno de alguém está selado.
Mito 2: Uma pessoa pode comprar indulgências por pecados ainda não cometidos.
A Igreja sempre ensinou que indulgências não se aplicam a pecados ainda não cometidos. A Enciclopédia Católica observa: “Uma indulgência não é uma permissão para cometer pecados, nem um perdão para futuros pecados; nenhum deles pode ser garantido por qualquer poder”.
Mito 3: Uma pessoa pode “comprar perdão” com indulgências.
A definição de indulgência pressupõe que o perdão já foi concedido. Indulgências não perdoam pecados em nenhuma hipótese. Elas tratam com as punições aplicadas após os pecados terem sido perdoados.
Mito 4: As indulgências foram inventadas como forma da Igreja levantar fundos.
As indulgências se desenvolveram a partir de reflexões sobre o sacramento de reconciliação. Elas são apenas um meio de encurtar a penitência de doutrina sacramental e estavam em uso séculos antes de surgirem problemas relacionados a dinheiro.
Mito 5: Uma indulgência encurtará o seu tempo no purgatório por um número fixado de dias.
O número de dias que costumava ser ligado às indulgências, eram referências ao período de penitência que alguém poderia ter durante a vida na terra. A Igreja Católica não afirma conhecer algo sobre quão longo ou curto o purgatório é, em geral, muito menos no caso de uma pessoa.
Mito 6: Uma pessoa pode comprar indulgências.
O Concílio de Trento instituiu severas reformas na prática de concessão de indulgências e, por causa de abusos anteriores, “em 1567 o Papa Pio V cancelou toda a concessão de indulgências envolvendo quaisquer taxas ou outras transações financeiras”. Esse ato provou a seriedade da Igreja quanto a cessar os abusos relativos a indulgências.
Mito 7: Uma pessoa costumava poder comprar indulgências.
Nunca alguém pode comprar indulgências. O escândalo financeiro envolvendo indulgências, o escândalo que deu a Martin Luther uma desculpa para sua heterodoxia, envolveu esmolas – indulgências em que a doação de esmolas para algum fundo ou fundação de caridade foi usado como a ocasião para conceder a indulgência. Nunca houve uma franca venda de indulgência. A Enciclopédia Católica estabelece: “É fácil de ver como os abusos se infiltraram. Entre as boas obras que poderiam ser encorajadas para se tornarem condição de uma indulgência, a doação de esmolas naturalmente iria ocupar um local proeminente. É bom observar que nestes objetivos não há nada de essencialmente mau. Dar dinheiro a Deus ou ao pobre é um ato louvável e, quando isso é feito por motivos corretos, não ocorrerá sem uma recompensa”.
Esses sete mitos ajudam a entender as indulgências, mas ainda há algumas questões a serem postas, sempre segundo a Igreja:
Quantas punições temporais de alguém podem ser perdoadas?
Potencialmente, todas elas. A Igreja reconhece que Cristo e os Santos são interessados em ajudar os penitentes a tratar das consequências de seus pecados, como indicado pelo fato de que eles sempre oram por nós. Cumprindo o seu papel na administração das punições temporais, a Igreja saca o farto estoque de recompensas que Deus escolheu conceder aos Santos – que O agradaram – e ao Seu Filho – que Lhe agradou mais que todos. As recompensas que a Igreja extrai são infinitas porque Cristo é Deus, de forma que as recompensas que ele provê são infinitas e nunca serão exauridas. As recompensas dos Santos são adicionadas às de Cristo não porque algo esteja faltando, mas porque unindo as suas recompensas às d’Ele, os Santos estarão unidos com Ele. Embora imensas, suas recompensas são finitas, mas as dele são infinitas.
Se a Igreja possui os recursos para apagar as punições temporais de todos, por que ela não faz isso?
Porque Deus não deseja que isso seja feito. O próprio Deus instituiu o padrão de punições temporais serem deixadas pendentes. Elas preenchem várias funções, uma delas disciplinar. Se uma criança não fosse disciplinada, nunca aprenderia a obediência. Deus nos disciplina como suas crianças, de forma que algumas punições temporais devem permanecer. Da mesma forma que o arrependimento e a fé são necessários para a remissão das punições eternas, elas são também necessárias para a remissão das punições temporais. O Papa Paulo VI estabeleceu: “As indulgências não podem ser ganhas sem uma sincera conversão de perspectiva e unidade com Deus”. Poderíamos dizer que o grau de remissão depende de quão bem o penitente aprendeu a sua lição.
Como alguém sabe a quantidade de que sua punição foi reduzida?
Antes do Concílio Vaticano II, cada indulgência removia um certo número de “dias” do castigo de alguém – por exemplo, um ato poderia receber uma “indulgência de 300 dias” -, mas o uso do termo “dias” confundia as pessoas, dando-lhes a impressão enganosa de que no Purgatório o tempo, como o conhecemos, ainda existe, e que podemos calcular nosso “bom tempo” de uma forma mecânica. O número de dias associado às indulgências, nunca significou, de fato, que aquele tempo seria retirado da estada de alguém no Purgatório; apenas significava que uma quantidade indefinida de remissão, mas parcial, nunca total, seria concedida, adequada ao que os Cristãos antigos teriam recebido pela realização daquela penitência de tantos dias. Assim, alguém que ganhasse 300 dias de indulgência, ganhava, grosseiramente, o que um Cristão antigo teria ganho por, digamos, recitar uma oração particular que valesse 300 dias. Para superar a confusão, Paulo VI editou uma revisão do manual de indulgências. Hoje, o número de dias não está associado às indulgências, mas elas apenas podem ser plenárias ou parciais.
Qual a diferença entre uma indulgência parcial e uma plenária?
Uma indulgência é parcial ou plenária se ela remover parte ou toda a punição temporal devida ao pecado. Somente Deus sabe exatamente quão eficaz é uma particular indulgência parcial ou se uma indulgência plenária foi totalmente recebida.
As indulgências não duplicam ou mesmo negam as obras de Cristo?
A despeito do suporte bíblico às indulgências, alguns são críticos agudos delas e insistem em que a doutrina suplanta o trabalho de Cristo e nos transforma em nossos próprios salvadores. Esta objeção resulta da confusão sobre a natureza das indulgências e sobre a forma como o trabalho de Cristo é aplicado a nós. As indulgências aplicam-se somente às punições temporais, não às eternas. A Bíblia indica que essas punições podem permanecer após um pecado ter sido perdoado e que Deus atenua essas punições como recompensa aos que o agradaram. Se a Bíblia indica isso, o trabalho de Cristo não pode ter sido suplantado pelas indulgências. Os méritos de Cristo, dado que são infinitos, compreendem a maioria dos que compõem o Tesouro de Méritos. Aplicando esses méritos aos crentes, a Igreja atua como serva de Cristo na aplicação do que ele tem feito por nós e sabemos, das Escrituras, que o trabalho de Cristo é consagrado a nós ao longo do tempo e não de uma só feita.
Não seria melhor colocar toda a ênfase somente em Cristo?Se ignoramos o fato das indulgências, esquecemos como Cristo age através de nós e falhamos em reconhecer o valor do que ele tem feito em nós. São Paulo usa a mesma espécie de linguagem: “Agora eu me alegro em meus sofrimentos por Vós e em minha carne eu completo o que está faltando nas aflições de Cristo, por este corpo, isto é, a Igreja” (Col. 1:24). Embora os sofrimentos de Cristo fossem superabundantes (muito mais do que o necessário para pagar qualquer coisa), São Paulo falou em completar o que “faltava” nos sofrimentos de Cristo. Se essa forma de discurso era permitida a Paulo, é permitida a nós, embora a linguagem Católica sobre indulgências seja muito menos chocante que a linguagem de Paulo sobre seu papel na salvação. Os Católicos não deveriam ser defensivos sobre as indulgências. Elas são baseadas em princípios diretos da Bíblia e podemos ter confiança, não apenas de que as indulgências existem, mas que são úteis e valiosas de obter. O Papa Paulo VI declarou: “A Igreja convida todos os seus filhos a pensar e ponderar em suas mentes, tão bem quanto possam, sobre como usar as indulgências em benefício de suas vidas e da sociedade cristã... Apoiados por essas verdades, a Santa Mãe Igreja novamente recomenda a prática de indulgências aos fiéis, que tem sido tão cara ao povo cristão por tantos séculos bem como em nossos próprios dias. A experiência prova isso. ”

Para ganhar uma indulgência, você deve ser um católico, para estar sob a jurisdição da Igreja, e estar em estado de graça porque, afastado da graça de Deus, nenhuma de suas ações é fundamentalmente agradável a Deus (meritória).
Aqueles que alegam que indulgências não fazem mais parte dos ensinamentos da Igreja, têm o desejo admirável de se distanciar dos abusos ocorridos à época da Reforma Protestante. Também desejam remover obstáculos que impedem não católicos de terem uma visão positiva da Igreja. Embora esses motivos sejam admiráveis, a alegação é falsa. A prova disso é o Catecismo da Igreja Católica que estabelece: “Uma indulgência é obtida através da Igreja que, pelo poder de atar e desatar a ela concedido por Jesus, intervém em favor dos cristãos individuais, abrindo a eles o tesouro dos méritos de Cristo e dos Santos, para obter do Pai a remissão da punição temporal devida por seus pecados”. A Igreja faz isso não apenas para ajudar os Cristãos, mas também para estimulá-los aos trabalhos de devoção, penitência e caridade. As indulgências são parte do ensinamento infalível da Igreja, significando que nenhum Católico tem liberdade para descrer delas. O Concílio de Trento estabeleceu que condena com o anátema (excomunhão) àqueles que dizem que as indulgências são inúteis ou que a Igreja não tem o poder de concedê-las, colocando-as no domínio do ensinamento definido como infalível.

[1] Purgatório, de acordo com a doutrina da Igreja Católica, é um estado intermediário, após a morte física, em que aqueles que são destinados ao Céu, “são submetidos à purificação para alcançar a santidade necessária para obter a alegria do Céu”. Somente aqueles que morrem em estado de graça, mas durante a vida não alcançaram um nível suficiente de santidade, podem ir ao Purgatório; no Purgatório ninguém permanecerá para sempre naquele estado ou irá para o Inferno.
[2] O “Tesouro do Mérito” ou “Tesouro da Igreja”, de acordo com a crença católica, são os méritos de Jesus Cristo e seus fiéis, um tesouro que, por causa da comunhão dos Santos, beneficia também outras pessoas. De acordo com o Dicionário Westminster de Termos Teológicos, a crença católica é uma forma de expressar a visão de que as boas obras de Jesus e outros podem beneficiar outras pessoas. Os teólogos católicos contemporâneos o vêm como uma metáfora dos caminhos pelos quais a fé de Cristo e dos Santos pode ajudar a outros.
[3] Apostasia significa o afastamento definitivo e deliberado de alguma coisa, uma renúncia de sua anterior fé ou doutrinação, que pode manifestar-se abertamente ou de modo oculto. Dependendo de cada religião, um apóstata, afastado do grupo religioso do qual era membro, pode ser vítima de preconceito, intolerância, difamação e calúnia por parte dos demais membros ativos. Um caso extremo é a aplicação da pena de morte para apóstatas da religião islâmica em países muçulmanos, como por exemplo, na Arábia Saudita.
[4] O catecumenato ou formação dos catecúmenos, tem por finalidade permitir às pessoas, em resposta à iniciativa divina e em união com uma comunidade eclesial, a sua conversão e a obtenção da fé. Trata-se de uma "formação à vida cristã integral (...) pela qual os discípulos são unidos a Cristo, seu mestre. Por isso, os catecúmenos devem ser iniciados (...) nos mistérios da salvação e na prática de uma vida evangélica, e introduzidos, mediante ritos sagrados celebrados em épocas sucessivas, na vida da fé, da liturgia e da caridade do povo de Deus "