Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sexta-feira, 17 de maio de 2019

CHARLES AZNAVOUR

INTRODUÇÃO

No dia 1º de outubro do ano de 2018, há pouco findo, com a idade de 94 anos, morreu Charles Aznavour, o pequeno grande armênio mais francês que o mundo já produziu. Infelizmente, não pude dar ao evento, à época, a importância merecida, por estar envolvido com as eleições próximas para presidente do Brasil. Logo em seguida, outro mito da música popular, Michel Legrand partiu para oferecer suas composições a Deus, que será, sem dúvida, o seu maior ouvinte; e para não deixar outro postergado, ocupei-me do último, em primeiro lugar.
Atrasado, portanto, presto agora a minha insignificante homenagem a esta imensa personagem da música internacional. Não vou aqui falar das honrarias, medalhas, premiações e cargos que recebeu e ocupou Charles Aznavour, mas apenas contar um pouco do que foi e das músicas que fez. Muito, mas muito mesmo, dancei sob o som de suas canções maravilhosas, num tempo em que mesmo os jovens escutavam boas músicas, brasileiras e de muitas nações, sem discriminação e sem incorrerem no perigo de parecer “politicamente incorretos”. Eram, de fato, outros tempos ...
Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinag Aznavourian, em 22 de maio de 1924, foi um cantor, letrista e diplomata francês-armênio, conhecido por sua especial voz de tenor: clara e vibrante nos seus trechos superiores, com graves e profundas notas baixas. Numa carreira de compositor, cantor, letrista, que durou mais de 70 anos, gravou mais de 1.200 canções, interpretadas em nove línguas. Além disso, escreveu ou co-escreveu mais de 1.000 canções para si e para outros.
Foi um dos mais populares e duradouros cantores da França. Vendeu mais de 180 milhões de discos durante sua vida e foi por alguns chamado o “Frank Sinatra francês”, ao passo que o crítico musical Stephen Holden descreveu Aznavour como uma “deidade popular francesa”. Em 1998 foi chamado “Apresentador do Século” pela CNN e por usuários de todo o mundo do “Time Online”. Foi reconhecido como o mais relevante cantor do século com quase 18% dos votos totais, desclassificando, entre outros, Elvis Presley e Bob Dylan. Aznavour cantou para presidentes, papas e a realeza, bem como em eventos humanitários. Em resposta ao terremoto de 1988 na Armênia, ele fundou, com seu antigo amigo e empresário Levon Sayan, a organização de caridade “Aznavour para a Armênia”. Em 2009 foi indicado embaixador da Armênia para a Suiça, bem como delegado permanente da Armênia para as Nações Unidas, em Genebra.
Iniciou seu último tour em 2014 e em 24 de agosto de 2017 recebeu a 2.618ª estrela da Calçada da Fama de Hollywood. No mesmo ano, ele e sua irmã foram agraciados com a “Medalha Raoul Wallenberg”, através de uma declaração emitida por Reuven Rivlin, presidente de Israel, por abrigar judeus, armênios e outros refugiados durante a Segunda Guerra Mundial, com risco das próprias vidas. Seu último concerto teve lugar no NHK Hall, em Osaka, em 19 de setembro de 2018.

INÍCIO DA VIDA E CARREIRA

Filho de artistas imigrantes armênios, Charles Aznavour nasceu em Paris, de Michael Aznavourian e Knar Baghdasarian. Seu pai cantava em restaurantes franceses antes de estabelecer um restaurante caucasiano chamado “Le Caucase”. Seus pais o estimularam a cantar desde muito novo e ele deixou a escola com nove anos de idade, adotando o nome de palco, Aznavour.
Aznavour já era familiarizado com apresentações no palco ao tempo em que iniciou sua carreira como músico. Com nove anos de idade ele teve alguns papéis numa peça chamada “Um Petit Diable à Paris” (Um Pequeno Diabo em Paris) e num filme intitulado “La Guerre des Gosses” (A Guerra dos Moleques). Aznavour virou-se então para a dança profissional, apresentando-se em vários clubes noturnos. Em 1944, ele e um ator, Pierre Roche, iniciaram uma parceria e, em esforços colaborativos, apresentaram-se em outros numerosos clubes. Foi com essa parceria que Aznavour começou a escrever suas canções e a cantá-las. Os primeiros sucessos da parceria foram no Canadá, entre 1948 e 1950, quando Aznavour escreveu sua primeira canção, intitulada “J’ai Bu” (Eu Bebi).
Nos primeiros tempos de sua carreira, Aznavour abriu para Edith Piaf, no Moulin Rouge, quando ela o aconselhou a insistir em sua carreira como cantor, ajudando-o a desenvolver uma distintiva voz que estimulava a melhor de suas habilidades.
Algumas vezes descrito como “Frank Sinatra da França”, Aznavour frequentemente cantava sobre o amor. Escreveu ou co-escreveu musicais, mais de mil músicas e gravou noventa e um álbuns em estúdio. A voz de Aznavour variava em direção ao alcance do tenor, mas possuía o alcance e a coloração baixa mais típica do barítono, contribuindo ao seu som único. Falava e cantava em várias línguas - francês, inglês, italiano, espanhol, alemão, russo, armênio e napolitano -, o que muito o ajudou a apresentar-se no Carnegie Hall, Estados Unidos, bem como eu outros importantes locais em todo o mundo. Também gravou pelo menos uma canção do poeta armênio do século XVIII, Sayat-Nova e uma canção popular, “Im Yare”, em armênio. A melodia “Que c’est triste Venise”, cantada em francês, italiano, espanhol, inglês e alemão, teve muito sucesso nos anos ’60.
Charles Aznavour em 1963
Em 1974 Aznavour tornou-se um grande sucesso no Reino Unido, quando sua canção “She” foi número 1 no “UK Singles Chart” por quatro semanas numa sequência de quatorze semanas. Sua outra mais conhecida canção no Reino Unido, foi “The old fashioned way”, que permaneceu nos quadros do Reino Unido por 15 semanas.
Artistas que gravaram suas canções e colaboraram com Aznavour, incluem Edith Piaf, Fred Astaire, Frank Sinatra (Aznavour foi um dos raros cantores europeus convidados para cantar em dueto com ele), Andrea Bocelli, Bing Crosby, Ray Charles, Bob Dylan (que citou Aznavour entre ao maiores cantores vivos que ele jamais tinha visto), Dusty Springfield, Liza Minnelli, Mia Martini, Elton John, Dalida, Serge Gainsbourg, Josh Groban, Petula Clark, Tom Jones, Shirley Bassey, José Carreras, Laura Pausini, Nana Mouskouri e Julio Iglesias. Sua colega francesa, a cantora popular Mireille Mathieu, cantou e gravou com Aznavour em numerosas ocasiões. O cantor inglês Marc Almond, apontado por Aznavour como o intérprete favorito de suas canções, que o cobriu em seu “What makes a man”, nos anos ’90, o declarou como uma das principais influências do seu estilo e trabalho. Em 1974, Jack Jones registrou um álbum inteiro com composições de Aznavour intitulado “Write me a love song, Charlie” (Escreva-me uma canção de amor, Charlie), regravado em CD em 2006. Dois anos mais tarde a cantora holandesa Liesbeth List lançou seu álbum “Charles Aznavour Apresenta Liesbeth List”, em que apresentou composições de Aznavour com letras em inglês. Aznavour e o tenor italiano Luciano Pavarotti cantaram juntos a “Ave Maria” de Bach-Gounod. Apresentou-se também com o amigo violoncelista russo Mstislav Rostropovich, na posse da presidência francesa da União Europeia, em 1955. Elvis Costello gravou sua composição “She” para o filme “Notting Hill”. Um dos maiores amigos e colaboradores de Aznavour na indústria da música foi o tenor Plácido Domingo, que muitas vezes apresentou seus sucessos, principalmente uma gravação solo de “Les bateaux sont partis”, em 1985 e versões em dueto da canção, em francês e espanhol, em 2008, bem como várias apresentações da “Ave Maria” de Aznavour. Em 1994, Aznavour apresentou-se com Placido Domingo e a soprano norueguesa Sissel Kyrjebo no terceiro concerto anual “Christmas in Vienna”; nesse concerto, televisionado para todo o mundo e lançado em CD, internacionalmente, os três cantores apresentaram uma variedade de canções de Natal, medleys e duetos.
Em 1998, quando a CNN e a Time pediram ao público americano para votar em seu apresentador favorito do século XX, Charles Aznavour despontou em primeiro lugar, à frente de Frank Sinatra e Elvis Presley! O cantor francês via os Estados Unidos como o seu terceiro lar. Viveu na California e Connecticut por algum tempo, teve um romance secreto com a cantora Liza Minnelli e casou com sua terceira esposa em Las Vegas. Em reconhecimento a uma carreira que se estendeu por quase 80 anos, durante a qual gravou cerca de 1.400 canções e 390 álbuns, Charles Aznavour recebeu uma estrela na Hollywood Boulevard, em agosto de 2017, com a placa de número 6.225, ao lado da atriz Bette Davis. “Os Estados Unidos e eu temos compartilhado um romance de longa duração”, declarou o "Sinatra Francês" numa entrevista à revista “France – Amérique”, em 2009, antes de admitir, “Eu não falo inglês tão bem quanto gostaria, mas adoro cantar em inglês”.
Aznavour em New York, em 1965
No início do outono de 2006, Aznavour iniciou sua turnê de despedida, apresentando-se nos Estados Unidos e Canadá, com fantásticas audiências. Iniciou o ano de 2007 com concertos pelo Japão e toda a Ásia. Em 30 de setembro de 2006 realizou um importante concerto em Yerevan, capital da Armênia, parta iniciar a estação cultural “Armênia minha amiga”. O presidente armênio Robert Kocharyan e o francês Jacques Chirac, estavam na primeira fila de espectadores. Ainda em 2006, Aznavour gravou seu álbum “Colore ma vie”, em Cuba, com Chucho Valdés, conhecido pianista, compositor e líder de orquestra cubano. Convidado regular do “Star Academy” (importante programa de calouros), Aznavour cantou junto com o candidato Cyril Cinélu, no mesmo ano. Em 2007 ele cantou parte de “Une vie d’amour”, em russo, durante um concerto em Moscou. A segunda metade de 2007 viu Aznavour retornar a Paris para mais de 20 shows no “Palais de Congrés”, seguidos de outros concertos na Bélgica, Holanda e o resto da França. “Forever Cool” um álbum deste ano, da Capitol/EMI, apresenta Aznavour cantando um novo dueto de “Everybody loves somebody sometime”, com a voz de Dean Martin. Encerrou uma turnê em Portugal em fevereiro de 2008 e por toda a primavera deste ano se apresentou pela América do Sul, realizando muitos concertos na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Admirador de Quebec e Montreal - onde se apresentou em casas noturnas antes de se tornar famoso -, ajudou a carreira da cantora lírica Lynda Lemay, de Quebec, na França e possuía uma casa em Montreal. Em julho de 2008 foi investido na “Ordem do Canadá”. Em seguida, apresentou-se nas “Plains of Abraham” (área histórica da cidade), como personagem da celebração dos 400 anos de fundação da cidade de Quebec. Ainda em 2008, lançou o álbum de duetos “Duos”, num esforço colaborativo de Aznavour com seus grandes amigos e colaboradores ao longo de sua carreira, incluindo Céline Dion, Sting, Laura Pausini, Josh Groban, Paul Anka, Plácido Domingo e outros, durante dezembro de 2008, em todo o mundo. Seu álbum seguinte, “Charles Aznavour and the Clayton Hamilton Jazz Orchestra” (anteriormente conhecido como Jazznavour 2), foi uma continuação na mesma linha do seu sucesso “Jazznavour”, lançado em 1998, com novos arranjos de suas canções clássicas; lançado em 27 de novembro de 2009. No mesmo ano, Aznavour também se apresentou pela América na turnê chamada “Aznavour en liberté”, iniciando ao final de abril com uma série de concertos pelos Estados Unidos, Canadá, América Latina e EUA novamente.
Aznavour, Festival de Cannes, 1999
Aznavour e a cantora senegalesa Yousson N’Dour, com a colaboração de mais de 40 cantores e músicos franceses, gravaram um vídeo com o grupo musical “Band Aid”, após o catastrófico tremor de terra de 2010 no Haiti, intitulado “1º Geste pour Haiti Chérie”. Em agosto de 2011 Aznavour lançou o novo álbum “Aznavour Toujours”, apresentando onze novas canções e “Elle”, uma versão francesa do seu sucesso internacional “She”. Após este, o Aznavour de 87 anos de idade iniciou uma turnê pela França e Europa, chamada “Charles Aznavour en toute intimité” que iniciou com 21 concertos no teatro Olympia, em Paris. Em 12 de dezembro de 2011 deu um concerto no “State Kremlin Palace”, Moscou, com capacidade esgotada, ao qual seguiria uma ovação de 15 minutos. Em 2012 ele embarcou para outra turnê na América do Norte, com o mesmo show, visitando Quebec e o Anfiteatro Gibson em Los Angeles, terceiro maior teatro da California para shows múltiplos. Em 16 de agosto de 2012 Aznavour se apresentou na cidade natal de seu pai, Akhaltsikhe, na Georgia, num concerto especial, parte da cerimônia de abertura do recém restaurado Castelo Rabati.
Charles Aznavour em 2014
Em novembro de 2013 Aznavour apresentou-se, pela primeira vez em 25 anos, em Londres, no “Royal Albert Hall”, quando a demanda foi tão alta que tiveram que marcar um segundo concerto no mesmo local para junho de 2014. Em novembro de 2013, Aznavour apresentou-se com Achinoam Nini (Noa) em um concerto dedicado à paz, no “Nokia Arena”, Tel Aviv, com a presença do Presidente israelense Shimon Peres. Em dezembro de 2013 Aznavour deu dois concertos na Holanda, no “Heineken Music Hall”, Amsterdan e novamente em janeiro de 2016. Em 2014, 2015 e 2016 Aznavour prosseguiu com sua turnê internacional, incluindo concertos em Bruxelas, Berlim, Frankfurt, Barcelona, Madri, Varsóvia, Praga, Moscou, Bucareste, Antuérpia, Londres, Dubai, Montreal, Nova York, Boston, Miami, Los Angeles, Osaka, Tóquio, Lisboa, Mônaco, Verona, Amsterdan e Paris. Em 2017 e 2018, sua turnê continuou em São Paulo, Rio de Janeiro, Santiago, Buenos Aires, Moscou, Viena, Sydney, Melbourne, Haiti, Tóqio, Osaka, Madri, Milão, Roma, São Petersburgo, Paris, Londres, Amsterdan e Mônaco. Em 19 de setembro de 2018, seu último concerto teve lugar no “NHK Hall”, Osaka, Japão.
Aos 94 anos, seus quase 80 anos de palco o tornaram um pouco ruim de audição. Nos seus anos finais ainda cantaria em várias línguas e sem permanente uso de “ponto”, em geral se mantendo no inglês e francês, com italiano e espanhol menos frequentemente, na maior parte dos seus concertos. Além de cantor, Charles Aznavour teve uma longa e variada carreira paralela de ator, aparecendo em mais de oitenta filmes para o cinema e a televisão.
Charles Aznavour foi casado três vezes: Megan Rugel, de 1946 a 1952; Evelyn Plessis, de 1956 a 1960; e Ulla Thorsell, de 1967 a 2018. Destes casamentos, resultaram cinco filhos: Séda, Patrick, Katia, Mischa e Nicolas. Costumava fazer piadas do seu físico, a maior parte delas sobre sua estatura de 1,60 m. Fazia dela um humor autodepreciativo, ao longo dos anos.

POLÍTICA E ATIVISMO

Desde o terremoto de 1988 na Armênia, Aznavour ajudou o seu país com o programa “Aznavour pour Arménie”. Com seu cunhado e coautor Georges Garvarentz, ele escreveu a canção “Pour toi Armenie” que foi apresentada por um grupo de artistas franceses famosos e permaneceu nos quadros por dezoito semanas. Há uma praça com o seu nome na Yerevan (capital e maior cidade da Armênia) central, rua Abovian e uma estátua sua construída em Gyumri (segunda maior cidade da Armênia), que viu a maior parte das vidas perdidas no terremoto. Em 1995 Aznavour foi indicado como Embaixador e Delegado permanente da Armênia para a UNESCO. Foi também um membro do Corpo de Consignatários do Fundo para a Armênia, organização que arrecadou mais de 150 milhões de dólares em ajuda humanitária e assistência para desenvolvimento de infraestrutura para a Armênia, desde 1992. Em 1997 ele foi indicado como Oficial da Legião de Honra, a mais alta ordem do mérito francês. Em 2002 Aznavour apareceu no aclamado filme “Ararat”, do diretor Atom Egoyan, sobre o genocídio dos armênios pelo Império Otomano, no início do século XX. Em 2004 Aznavour recebeu o título de “Herói Nacional da Armênia”, a mais alta comenda daquele país. Em 26 de dezembro de 2008, o presidente da Armênia, Serzh Sargsyan, assinou um decreto presidencial para concessão da cidadania da Armênia a Aznavour, a quem ele chamou de “proeminente cantor e figura pública” e “um herói do povo armênio”. Em 2011 foi inaugurado, em Yerevan, Armênia, o Museu Charles Aznavour. Em abril de 2016, Aznavour visitou a Armênia para participar da cerimônia de entrega do prêmio “Aurora Prize for Awakening Humanity”, prêmio humanitário internacional anual que reconhece indivíduos e organizações por trabalhos humanitários, em favor dos sobreviventes do genocídio armênio. Em 24 de abril, junto com Serzh Sargsyan, os católicos de “All Armenians”, sua Santidade Karekin II, chefe supremo da Igreja Apostólica Armênia, e o ator George Clooney, ele depositou flores no “Memorial do Genocídio Armênio”.
Estátua de Aznavour em Gyumri, Armênia
Além de sustentar o título, mormente cerimonial, de embaixador francês à distância para a Armênia, Aznavour concordou em manter a posição de Embaixador da Armênia para a Suíça, em fevereiro de 2009, quando teria declarado: “Inicialmente eu hesitei, pois não é tarefa fácil. Então pensei que o que é importante para a Armênia é também importante para nós. E então aceitei a proposta com amor, felicidade e um sentimento de profunda dignidade”. Escreveu uma canção sobre o Genocídio Armênio, intitulada “Ils sont tombés” (Eles tombaram).
À medida que sua carreira progredia, Aznavour envolvia-se fortemente na política armênia e internacional. Durante as eleições presidenciáveis francesas de 2002, quando o candidato de extrema direita nacionalista Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacional, passou nas eleições preparatórias, para enfrentar Jacques Chirac, Aznavour assinou a petição “Vive la France” e convidou todos os franceses a cantar a Marselhesa em protesto. Chirac, um amigo pessoal de Aznavour, acabou vencendo a eleição numa vitória esmagadora, com mais de 82% dos votos.
Fez campanhas frequentes para uma reforma da lei internacional de direitos autorais. Em novembro de 2005 ele encontrou-se com o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso para discutir a questão da revisão do termo de proteção para artistas e produtores na União Europeia, advogando uma extensão do termo de proteção da União Europeia, dos atuais 50 anos, para a lei dos EUA, que prega 95 anos, dizendo que “em termos de proteção, artistas e companhias gravadoras têm o mesmo pensamento. A extensão do termo de proteção seria boa à cultura europeia, positiva para a economia europeia e poria um fim à atual discriminação com os EUA.” Também enfrentou notavelmente a política francesa Christine Boutin no que concerne à sua defesa de uma autorização de taxa constante, tipo “licença global” para o uso de arquivos ainda protegidos, na internet, argumentando que a licença eliminaria a criatividade. Em maio de 2009 o Senado Francês aprovou um dos mais estritos projetos contra a pirataria na internet jamais visto antes, com uma das mais arrasadoras votações, de 189 contra 14. Aznavour foi um proponente vocal da medida e considerou-a uma vitória de porte.

MORTE E FUNERAIS

Em abril de 2018, logo após completar o seu 94º aniversário, Charles Aznavour foi conduzido ao um hospital em São Petersburgo, Rússia, após ter exageradamente forçado a coluna durante um ensaio para um concerto na cidade. Tal concerto teve que ser postergado até a próxima estação, mas foi afinal cancelado pela sua morte. Em maio de 2018 ainda foi convidado para participar de um programa de Graham Norton, conhecido apresentador, comediante, ator e autor irlandês vivendo em Londres, na Rádio BBC. Uma semana depois, Aznavour quebrou seu braço em duas partes, resultado de uma queda em sua casa na cidade de Mouriès, o que resultou no cancelamento de todos os seus shows até o final de junho. Este cancelamento foi ao final estendido para incluir os 18 shows programados para agosto, em função de um processo de cura prolongado. Num programa da televisão francesa levado ao ar em 28 de setembro, apenas três dias antes de sua morte, ele mencionou que ainda sentia dor. Em 1º de outubro de 2018 Charles Aznavour foi encontrado morto numa banheira de sua casa em Mouriès, com a idade de 94 anos. Ao tempo de sua morte, sua residência permanente ficava em Saint Sulpice, Vaud, Suiça. Um relatório de autópsia concluiu que Aznavour morreu de uma parada cardiorrespiratória complicada por um edema pulmonar agudo.
No dia 5 de outubro Aznavour foi honrado com um funeral oficial do Estado, no complexo militar de “Les Invalides”, com o Presidente Emmanuel Macron saudando-o como uma das mais importantes “figuras da França”. Macron louvou as letras de Aznavour dizendo que elas haviam apelado à “nossa secreta fragilidade” e que as letras do cantor foram, “para milhões de pessoas, um bálsamo, um remédio, um conforto .... Por tantas décadas ele fez nossas vidas mais doces, nossas lágrimas menos amargas.”
Uma missa funerária teve lugar no dia 6 de outubro, celebrada pelo Patriarca da Igreja Apostólica Armênia, Catholicos Karekin II, na Catedral Armênia de São João Batista, em Paris.
Seu caixão foi conduzido ao final, ao som de sua canção “Emmenez-moi” (Conduzi-me). Entre os dignatários presentes, incluíram-se o Primeiro Ministro francês Édouard Philippe, e os ex-presidentes Nicolas Sarkozy e François Hollande, bem como o Presidente armênio, Armen Sarkissian e o Primeiro Ministro armênio, Nikol Pashinyan, com suas esposas.
Foi enterrado na cripta da família, no cemitério de Montfort-l’Amaury.

AS MÚSICAS DE CHARLES AZNAVOUR

E o que dizer das mais de 1400 maravilhosas melodias compostas e gravadas durante uma carreira de quase oitenta anos, como a de Charles Aznavour? Bem, como nos mais diversos ramos da atividade humana, também a música é uma questão de gosto e muito especial. E são tantas as músicas de Aznavour e tão belas, que fica muito difícil decidir quais apresentaremos nessa finita crônica.
Quando eu nasci, em 1944, Charles Aznavour já cantava, nos seus 20 anos de idade. Quatorze anos depois, na minha maravilhosa adolescência, eu já conhecia o famoso cantor francês, seguramente introduzido por meus pais, e muito viria a dançar as suas românticas melodias, de rosto colado, com minha namorada. Portanto, considerando que o próprio cantor já era um nostálgico, vou me amparar em minha discoteca para selecionar umas pouquíssimas de suas músicas, uma pequeníssima amostra do seu imenso e variado repertório, para tentar dar aos meus leitores uma tênue ideia do que foi a música do incomparável Charles Aznavour. E, claro, serão as mais conhecidas para contentar a um maior número de pessoas.
Em geral, tudo o que fala de Veneza, exerce sobre mim um fascínio enorme e por essa razão, sem considerações de cronologia, vou iniciar a lista pela canção “Que c’est triste Venise”, escrita pela escritora Françoise Dorin e composta e interpretada por Charles Aznavour, lançada em 1964 e logo tornada um sucesso internacional. Além de versões instrumentais, vários cantores famosos gravaram essa melodia, em várias línguas, incluindo o espanhol Julio Iglesias, num dueto com o compositor. Há uma gravação lindíssima dessa melodia, interpretada por Charles Aznavour num dueto com a cantora francesa Patricia Kaas, em 2004, por ocasião do 80º aniversário do compositor. Mas por uma questão de fidelidade, apresentamos uma versão apenas pelo compositor, mais antiga e autêntica. Como não poderia deixar de ser, a letra fala da melancolia de Veneza com suas gôndolas, seus canais, a Ponte dos Suspiros e, claro, dos amores perdidos que nunca são esquecidos.
Em 1972 Charles Aznavour lançou um álbum de que fazia parte uma canção chamada “Les Plaisirs Démodés” (Os Prazeres Fora de Moda), de sua autoria. Nela, o autor fala de como teria conhecido sua amada na boate enfumaçada da moda, entre pessoas da sua idade; e então, no presente, entre jovens com suas músicas modernas e barulhentas, dançando separados, ele a convidaria para redescobrir os prazeres fora de moda, ao dançar de rosto colado, coração contra coração .... A gravação original é muito interessante porque inicia com uma melodia e ritmo modernos, alterna para a melodia principal romântica num ritmo lento, quando ele a convida para dançar e descobrir os prazeres fora de moda, volta ao ritmo moderno e finalmente à melodia principal, encerrando com ela. No ano seguinte ele gravaria e lançaria a sua versão em língua inglesa, “The Old Fashioned Way” (À moda antiga), onde conseguiu, basicamente, manter a ideia original, convidando a sua amada a dançar à moda antiga e toda a melodia se concentra na forma mais lenta e romântica. Embora a gravação original seja mais interessante e completa (são mais de 5 minutos e meio de gravação), sempre preferi a versão em língua inglesa, porque combina mais com o estilo das melodias de Charles Aznavour. Essa música foi também gravada por Bing Crosby e Fred Astaire, em dueto, Petula Clark e Shirley Bassey, entre outros. Entre as gravações instrumentais, destacamos a de Mantovani com sua maravilhosa orquestra de violinos.
Em 1964, um escritor francês, de nome René Fallet, escreveu um romance chamado “Paris au mois d’aout” (Em Paris no mês de agosto). O personagem principal do romance é nele descrito como tendo muita semelhança com Charles Aznavour. Em 1966, o cineasta francês Pierre Granier-Deferre produziu o filme epônimo numa adaptação do romance, oferecendo o papel principal a Charles Aznavour, que assinou a trilha sonora original com a canção “Paris au mois d’août” (composição de Georges Garvarentz e Charles Aznavour), gravada em 1965 para o álbum “La Bohème”. Uma das minhas grandes preferidas, esta canção tem várias gravações, incluindo uma em que Aznavour a canta com a grande orquestra de Paul Mauriat, além de uma magistral versão em italiano. Entretanto, fugindo um pouco da nossa ideia original, abriremos uma exceção para apresentar aos nossos leitores uma versão mais moderna em que Charles Azanavour canta a melodia “Paris au mois d’août” num dueto maravilhoso com a cantora italiana Laura Pausini. Inesquecível!
Para os muito saudosistas como eu, faço um convite para escutarem, não a Charles Aznavour, mas agora ao famoso cantor francês dos anos ’60, Johnny Hallyday, cantando a canção de Aznavour, “Retiens la nuit”, que tanto embalou nossos bailes de adolescente. Essa canção, composta por Georges Garvarentz, com letra de Charles Aznavour, foi lançada em 1961 e permaneceu durante nove semanas como número 1 no quadro de vendas de simples, durante os meses de março a maio de 1962. O próprio Charles Aznavour veio também a gravar, posteriormente, essa canção, além da inesquecível Sylvie Vartan.
She” (Ela, em português) é a versão mais conhecida em todo o mundo, da canção “Tous Les Visages de L'amour” (Todas as Faces do Amor, em português), lançada em 1974 por Charles Aznavour, seu compositor. A versão inglesa, lançada pouco após o surgimento da original francesa, foi composta em parceria com o britânico Herbert Kretzmere e gravada por Aznavour. Sem obter grande receptividade nos Estados Unidos nem na França, chegou ao primeiro lugar na lista das mais ouvidas na Inglaterra, feito até então inédito para um músico francês. Em 1999, “She” foi regravada pelo britânico Elvis Costello, para a trilha sonora do filme Notting Hill (Um Lugar Chamado Notting Hill, na tradução brasileira), alcançando rapidamente sucesso mundial. Houve ainda uma versão em italiano, composta no mesmo ano, em parceria entre Aznavour e o compositor italiano Giorgio Calabreses, intitulada “Lei” (Ela, em português). Mais recentemente, em 2006, a cantora italiana Laura Pausini lançou nova versão em italiano, rebatizada como “Uguale a Lei” (Igual a Ela, em português). Com vocês, Charles Aznavour cantando “She”.
La Bohème” é uma canção escrita pelo músico francês Jacques Plante em parceria com Charles Aznavour. Essa é a canção assinatura de Aznavour, além de um marco e uma das mais populares canções em língua francesa. A letra da melodia fala de um pintor relembrando seus anos de juventude em Montmartre, bairro boêmio de Paris, sua vida artística e os anos quando sentia fome, mas era feliz. De acordo com Aznavour, essa canção é um adeus aos últimos dias da boêmia Montmartre. A gravação original de Aznavour foi realizada em 1965, tornando-se um sucesso internacional no mesmo ano, permanecendo por longo tempo nos quadros das dez mais da Argentina, Brasil, França e vários outros países. O próprio Aznavour gravou “La Bohème” em versões em italiano, espanhol, inglês, alemão e numa rara gravação em português, tendo sido apresentada, virtualmente, em todos os seus concertos pelo mundo.
E com essa melodia, encerramos a nossa apresentação - que poderia estender-se por várias páginas -, das músicas desse magistral chansonier que tanto encantou a nossa vida, por tantos anos. É o nosso tributo e o nosso adeus a Charles Aznavour!

sábado, 9 de março de 2019

PAULO DE TARSO, O CRIADOR DO CRISTIANISMO


Paulo de Tarso, o apóstolo Paulo, sem dúvida é um dos personagens bíblicos mais conhecidos de todos os cristãos, sendo considerado, por muitos, o maior líder do cristianismo. Quanto mais eu leio sobre Paulo, mais me convenço que ele vai além disso, que ele seria o próprio criador do Cristianismo, que jamais teria prosperado sem Paulo. Infelizmente, tendo vivido há dois mil anos atrás, num lugar e numa época conturbada e de parcos recursos de registro, há muito pouco material disponível sobre personagem tão importante da História; praticamente todo o material existente se resume ao Novo Testamento e, posteriormente, ao que foi escrito sobre ele, sempre a partir da mesma fonte original. Assim, resolvi fazer a minha própria pesquisa e escrever algo sobre esse fantástico homem que foi Paulo de Tarso, entre outras coisas conhecido como o escritor das treze epístolas do Novo Testamento.

BIOGRAFIA DE PAULO

Paulo foi o nome romano de Saulo, nascido em Tarso, na Cilícia (segundo Atos 21:39). Vale à pena falarmos um pouco sobre a geografia e a história da cidade natal de Paulo para que tenhamos um melhor entendimento desta grande figura histórica.
Mapa da Cilícia de 1903

Cilícia era o nome de uma antiga região na costa sul da Ásia Menor[1], localizada imediatamente ao sul do seu platô central, em território da moderna Turquia. A grosso modo, ocupava o que é hoje a região Mediterrânea da Turquia a leste da província de Antália, situando-se a sua fronteira ocidental entre as modernas cidades turcas de Gazipasa e Alanya. Foi organizada como uma entidade política desde a época dos hititas[2] até o período bizantino[3]. A ilha de Chipre era separada da Cilícia por uma estreita faixa do Mediterrâneo. A antiga Cilícia era naturalmente dividida em duas regiões chamadas Cilícia Traqueia e Cilícia Pédias, separadas pelo rio Lamas. 
A Cilicia teve importante papel durante o Império Aquemênida[4] e depois sob Alexandre da Macedônia; após sua morte, com a repartição do império, foi inicialmente dominada pelo Egito de Ptolomeu e, posteriormente, esteve sob os Selêucidas. A Cilícia Pédias foi anexada pelos romanos em 103 AC, conquistada primeiro por Marcus Antonius Orator em sua campanha contra os piratas que lá habitavam e seu primeiro governador foi Sula. A Cilícia Traqueia só foi conquistada por Pompeu em 67 AC, após o que ela foi unida à Pedias para formar a nova Província da Cilícia, tendo Tarso por capital. 
Júlio César reorganizou novamente a região em 47 AC e, vinte anos depois, a Cilícia tornou-se parte da província da Síria-Cilícia Fenícia. Num primeiro momento, o distrito ocidental foi deixado a cargo de reis nativos (ou sacerdotes hereditários) e um pequeno reino, comandado por Tarcondímoto I, conseguiu se manter independente no oriente. Porém, toda a região foi finalmente anexada à província por Vespasiano em 72 DC. A região era considerada importante o suficiente para ser governada por um procônsul e incluía 47 cidades. E aqui já chegamos ao período de Paulo, quando a Cilícia pertencia, portanto, ao poder romano.
Localização da Cilícia nas regiões clássicas da Ásia Menor

A cidade de Tarso é banhada pelo rio Cidno e dista cerca de dezesseis quilômetros da costa nordeste do Mar Mediterrâneo, aproximadamente a 26 metros acima do nível do mar, na região sul da atual Turquia. O nascimento de Paulo em Tarso é atestado em quatro referências diretas (Atos 9:30; 11:25; 21:39; 22:3). Em duas situações Paulo declarou, explicitamente, o seu nascimento em Tarso.
Existe alguma especulação sobre a fundação da cidade de Tarso. Sua existência sugere entre seis mil a nove mil anos de história, o que dificulta muito uma conclusão definitiva sobre o tema, e a coloca como uma das cidades mais antigas do mundo. O que se pode afirmar é que Tarso já era uma cidade nativa da Cilícia desde tempos bem remotos. Alguns estudiosos sugerem que Tarso foi capital de Kizzuwatna, a antiga Cilícia, nos tempos heteus. Tarso é mencionada no “Obelisco Negro de Salmaneser”, como sendo uma das cidades sob o domínio assírio em meados do século 9 AC. As Montanhas de Taurus, na região da cidade, forneciam recursos de alta qualidade em prata e ferro e acredita-se que por volta do século 7 AC, com o intuito de ficarem mais próximos de tais recursos, mercadores gregos estabeleceram ali uma colônia. No período selêucida, registra-se certa autonomia da cidade de Tarso e algum relato desse período pode ser encontrado no livro apócrifo 2 Macabeus.
Não existe muita informação consistente sobre a história de Tarso no restante do século 2 AC. Entretanto, já no século 1 AC, alguns detalhes importantes são facilmente levantados. Como vimos, a atuação romana na Cilícia começou por volta de 105 AC, mas apenas em 64 AC foi que Pompeu a anexou a Roma como província. A partir daí os governadores ficaram incumbidos de pacificar essa região da costa da Ásia Menor que se encontrava infestada de piratas, e garantir também os interesses romanos. Em 41 AC, Antônio concedeu a Tarso a condição de cidade livre, isentando-a de impostos.
Estima-se que nos tempos do Império Romano, Tarso abrigou uma população de pelo menos quinhentas mil pessoas. Ao norte da cidade, existia uma estrada principal que conduzia até os Portões da Cilícia, onde se encontrava a única boa rota de comércio que ligava a Síria e a Ásia Menor. A posição privilegiada de Tarso nessa rota favoreceu o desenvolvimento financeiro da cidade. Cerca de nove quilômetros ao sul de Tarso, foi construído um porto onde muitos navios ancoravam, embora algumas embarcações menores navegassem até a metade do percurso a Tarso, subindo pelo curso do rio Cidno.
Por ter nascido em Tarso, o apóstolo Paulo era cidadão romano (ele mesmo afirma ser cidadão romano de nascimento). Provavelmente, muitos cidadãos de Tarso, receberam a cidadania romana após o acordo firmado por Pompeu. Logo, nos tempos de Pompeu, Júlio César, Antônio e Augusto, muitos judeus que ali residiam receberam a cidadania romana, o que pode ser muito bem o caso dos antepassados do Apóstolo Paulo.
No século 1 DC, Tarso foi a principal cidade da Cilícia, e possuía importante riqueza comercial e agrícola. Tarso também era um importante centro cultural e intelectual grego, possuindo uma grande universidade que, à época, a equiparava a outras cidades como Atenas e Alexandria. A cidade de Tarso também se orgulhava de ter muitos eruditos importantes entre os seus cidadãos.
Embora muitas escavações já tenham sido realizadas na região de Tarso, até agora muitos detalhes ainda impedem que a cidade dos dias de Paulo seja recriada com exatidão. As ruínas da antiga Tarso encontram-se sob a cidade atual e fazendas da região.
Embora tenha nascido um cidadão romano, Paulo era um judeu da Dispersão[5], um judeu circuncidado da tribo de Benjamin, e membro zeloso do partido dos Fariseus.
O Novo Testamento faz várias menções a grupos religiosos, políticos e profissionais que existiam naquela época, sendo bom lembrar que estamos falando dos judeus como o grande todo religioso. Os Fariseus formavam o grupo mais conhecido de todos, sendo um dos principais grupos religiosos entre os judeus. Eles eram os mais rigorosos quanto aos costumes e religiosidade judaica. Também exerciam forte influência sobre o povo, devido à insistência na observância da Lei Mosaica e no respeito às tradições dos antepassados. Na maioria das vezes eles se opunham a Jesus, mas alguns deles trataram Jesus com respeito. Jesus reprovava sua exagerada religiosidade aparente, fazendo refletir uma espiritualidade hipócrita. O apóstolo Paulo foi criado como Fariseu, aluno do respeitado mestre Fariseu Gamaliel (At 22:3; 23:6; 26:5). Entretanto, além deste, havia outros grupos religiosos, tais como: (a) Saduceus, pequeno grupo comparado aos Fariseus, porém muito poderoso devido à constituição do grupo religioso, formado por Sacerdotes e pessoas influentes e ricas de Jerusalém. Os Saduceus não se davam bem com os Fariseus, porém algumas vezes se uniram a eles para fazer oposição à Jesus. Prezavam muito o Pentateuco (cinco primeiros livros do Antigo Testamento) e não acreditavam na ressurreição, Juízo Final ou na existência de anjos. (b) Os Essênios eram um grupo separatista formado na época helenística e provavelmente originado entre os Fariseus. Observavam a Lei com rigor, mas consideravam que o Sacerdócio era corrupto, além de serem contra muitas práticas religiosas e o sistema sacrifical judaico. A maioria deles morava em comunidades, no deserto de En-Gedi, embora alguns vivessem em cidades. Esse grupo não é citado na Bíblia. (c) Os Zelotes eram considerados um partido judaico nacionalista que se opôs fortemente a Roma. O nome Zelote significa “zeloso”, “fanático”. Em algumas ocasiões eram chamados de “cananeus” ou “nacionalistas”. Os Zelotes tiveram um papel muito ativo na grande rebelião dos anos 66 a 70 DC, que resultou na destruição de Jerusalém. Simão, um dos doze discípulos de Jesus, era chamado de “Zelote”. (d) Os Herodianos era um grupo de judeus que preferiam ser governados por um descendente do rei Herodes, o Grande, ao invés de um governador romano, como Pôncio Pilatos. O nome “Herodianos” também podia se referir a pessoas que estavam a serviço de Herodes. (e) Os Samaritanos eram as pessoas nascidas em Samaria, região que ficava entre a Judeia e a Galileia. Os Samaritanos reconheciam apenas os livros da Lei (o Pentateuco) como autoridade doutrinal. Os judeus não aceitavam como legítimo o culto dos Samaritanos, considerando-o como praticamente pagão e por isso não aceitavam qualquer tipo de relacionamento com os Samaritanos. (f) Os Escribas, Rabinos ou Mestres da Lei formavam um grupo profissional. Não pertenciam, em geral, à classe sacerdotal, mas eram influentes e tiveram uma elevada consideração como intérpretes das Escrituras e dirigentes do povo. (g) Os Publicanos formavam outro grupo profissional que aparece nos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas, por conterem muitas das mesmas histórias, em contraposição ao de João que é, em muitos pontos, diferente). Eram os coletores de impostos ou da alfândega em favor dos romanos. Formavam uma classe desprezada e odiada, por conta do oficio que exerciam.
A infância e adolescência do apóstolo Paulo têm sido temas de grande debate entre os estudiosos. Alguns defendem que o apóstolo Paulo passou toda sua infância em Tarso, indo apenas durante sua adolescência para Jerusalém. Outros defendem que Paulo foi para Jerusalém ainda bem pequeno. Nesse caso, ele teria passado sua infância longe de Tarso. Na verdade, desde seu nascimento até seu aparecimento em Jerusalém, como perseguidor dos cristãos, conforme os relatos do livro de Atos dos Apóstolos, há muito pouca informação sobre a vida do apóstolo Paulo. Entretanto, sabe-se com certeza que ele foi educado em Jerusalém, sob o ensino do renomado doutor da lei, Gamaliel, neto de Hillel. Paulo conhecia profundamente a cultura grega. Ele também falava o aramaico, era herdeiro da tradição do farisaísmo, estrito observador da Lei e mais avançado no judaísmo do que seus contemporâneos. A partir disso, pode-se afirmar que sua família possuía alguns recursos e desfrutava de posição proeminente na sociedade. Não se sabe ao certo como o pai do apóstolo teria conseguido a cidadania romana. Algumas pessoas importantes e abastadas conseguiam compra-la. Outras, conseguiam-na ao prestar algum serviço relevante ao governo romano. A cidadania romana concedia alguns privilégios, como por exemplo, a garantia do julgamento perante César, se exigido, nos casos de acusação, imunidade legal dos açoites antes da condenação e não poderia ser submetido à crucificação, a pior forma de pena de morte à época.
O livro de Atos dos Apóstolos informa que quando Estêvão foi apedrejado, suas vestes foram depositadas aos pés de Paulo de Tarso (Atos 7:58). Após esse episódio da morte de Estêvão, Paulo de Tarso assumiu uma posição importante na perseguição aos cristãos. Ele recebeu autoridade oficial para liderar as perseguições. Além disso, na qualidade de membro do concílio do Sinédrio[6], ele dava o seu voto a favor da morte dos cristãos.
O próprio Paulo afirma que “respirava ameaça e morte contra os discípulos do Senhor” (Atos 9:1). Além de deflagrar a perseguição em Jerusalém, ele ainda solicitou cartas ao sumo sacerdote para as sinagogas em Damasco. Seu objetivo era levar preso para Jerusalém qualquer um que fosse seguidor de Cristo, tanto homem como mulher. Paulo perseguia e assolava a Igreja de Deus (Gálatas 1:13) e fazia isso acreditando que estava servindo a Deus e preservando a pureza da Lei Judaica.

A CONVERSÃO DE PAULO DE TARSO

As narrativas no livro de Atos dos Apóstolos e as notas do próprio apóstolo Paulo em suas epístolas, sugerem uma súbita conversão. Entretanto, alguns intérpretes defendem que algumas experiências ao longo de sua vida devem tê-lo preparado previamente para aquele momento. A experiência do martírio de Estêvão e sua campanha, de casa em casa, para perseguir os cristãos, podem ser exemplos disto. O que se sabe, realmente, é que Paulo de Tarso partiu em missão para Damasco, com o intuito de destruir a comunidade cristã daquela cidade. De repente, algo inesperado aconteceu, algo que causou uma mudança radical, não só na vida de Paulo de Tarso, mas no curso da História.

“E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer. (Atos 9:3-6)” 

Ao escrever “Atos dos Apóstolos”, Lucas interpreta a conversão de Paulo de Tarso como um ato miraculoso, um momento em que um inimigo declarado de Cristo se transformou em seu apóstolo. Os homens que estavam com Paulo ouviram a voz, mas não compreenderam as palavras. Eles ficaram espantados, mas não puderam ver a pessoa de Cristo. Por outro lado, Paulo viu o Cristo ressurreto e ouviu suas palavras. Esse encontro foi tão importante para Paulo que a base de sua afirmação sobre a legalidade de seu apostolado está fundamentada nessa experiência (1 Coríntios 9:1; 15:8-15; Gálatas 1:15-17). Considerando que Paulo de Tarso não havia sido um dos doze discípulos de Jesus, além de ter perseguido seus seguidores, a necessidade e importância da revelação pessoal de Cristo para Paulo fica evidente. Essa experiência transformou Paulo de Tarso profundamente.
O primeiro aspecto da mudança na vida do apóstolo Paulo pode ser percebido quando, imediatamente, ele responde à voz de Cristo: “Senhor, que queres que eu faça?”. Essa pergunta marcou o começo de seu novo relacionamento com Cristo, quando ele responde ao seu chamado. A mudança radical que atingiu a vida do apóstolo Paulo fica também evidente na mensagem que ele começou a pregar na própria cidade de Damasco. Isso é realmente impressionante. Ele começou a pregar o Evangelho no mesmo lugar em que pretendia prender os seguidores de Cristo (Atos 9:1,2), passando de perseguidor a pregador de Jesus.
Antes de sua conversão, Paulo de Tarso não aceitava a divindade de Jesus. Ele até acreditava que ao perseguir seus seguidores como um animal selvagem, tentando força-los a blasfemar contra Jesus, estaria fazendo a vontade de Deus (Atos 26:9-11; 1 Coríntios 12:3). É certo dizer que ele via Jesus como um impostor. Após sua conversão, sua pregação não era outra, senão anunciar que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9:20). O Paulo duro, rigoroso, ameaçador e violento de outrora, depois de convertido mudo totalmente a doutrina de sua vida, passando a demonstrar ternura, sensibilidade e amor. Essas características ficam evidentes em suas obras posteriores.

O INÍCIO DO MINISTÉRIO DO APÓSTOLO PAULO 

Após o encontro que teve com Cristo, quando ficou instantaneamente cego, o apóstolo Paulo chegou em Damasco e ficou três dias em oração. A mando do Senhor, o discípulo Ananias[7] vai ao seu encontro, põe a mão em sua cabeça e no mesmo instante ele recobra a visão e é convertido ao cristianismo instantaneamente. Foi Ananias quem o batizou (Atos 9:17,18) e também foi ali, naquela mesma cidade, que Paulo começou sua obra de difusão do cristianismo.
Não há informações detalhadas sobre os primeiros anos de seu ministério. O que se sabe é que o apóstolo Paulo pregou rapidamente em Damasco e depois foi passar um tempo na Arábia (Atos 9:20-22; Gl 1:17). A Bíblia não esclarece o que ele fez ali, nem mesmo qual o lugar específico da Arábia em que ele ficou. Depois, o apóstolo Paulo retornou a Damasco, onde sua pregação provocou uma oposição tão grande que ele precisou fugir para salvar sua própria vida (2 Coríntios 11:32,33).
Naquela ocasião ele fugiu para Jerusalém (Gálatas 1:18). Nesse tempo havia completado cerca de três anos de sua conversão. Paulo tentou juntar-se aos discípulos, mas estavam todos receosos dele. Foi então que Barnabé[8] se dispôs a apresentá-lo aos líderes dos cristãos. Entretanto, seu período em Jerusalém foi muito rápido, pois novamente os judeus procuravam assassiná-lo. Por conta disso, os cristãos decidiram despedir Paulo, uma decisão confirmada pelo Senhor numa visão. Segundo o que ele próprio afirma em Gálatas 1:18, ele ficou somente quinze dias com Pedro. Essa informação se harmoniza com o relato de Atos 22:17-21[9]. Paulo acabou deixando Jerusalém antes que pudesse se encontrar com os demais apóstolos e também antes de se tornar conhecido pessoalmente pelas igrejas da Judeia. Porém, os crentes de toda aquela região já ouviam as boas-novas sobre Paulo. 

O SILÊNCIO EM TARSO E O TRABALHO EM ANTIÓQUIA[10]

Tendo chegado a Tarso, sua terra natal, ali permaneceu em silêncio durante um período de dez anos, conhecido como “o período silencioso do ministério do apóstolo Paulo”, embora seja provável que ele tenha fundado algumas igrejas naquela região. Estudiosos sugerem que as igrejas mencionadas em Atos, tenham sido fundadas por Paulo durante esse período.
É certo que Barnabé, ao ouvir falar da obra que Paulo estava desenvolvendo, solicitou a presença do apóstolo em Antióquia, na posição de um obreiro auxiliar. O Objetivo era que Paulo o ajudasse numa promissora missão evangelística entre os gentios[11]. Após cerca de um ano, ocorreu um período de grande fome e os crentes da Antióquia providenciaram contribuições para auxiliar os cristãos da Judeia. Tais contribuições foram levadas por Paulo e Silas[12], que regressaram à Antióquia assim que completada sua missão. Esse período em Antióquia foi essencial ao ministério do apóstolo Paulo, pois foi ali que sua missão de levar o evangelho aos gentios começou a ganhar força. Foi também em Antióquia que o Espírito Santo orientou a Igreja a separar Barnabé e Paulo para a obra à qual Deus os chamara. Só então as viagens missionárias de Paulo tiveram início.

“E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: ‘Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.’ Então, jejuando e orando e pondo sobre eles as mãos, os despediram.” (Atos13:2,3) 

AS VIAGENS MISSIONÁRIAS DO APÓSTOLO PAULO
As viagens missionárias de Paulo de Tarso

O trabalho evangelístico do apóstolo Paulo abrangeu um período de cerca de dez anos, acontecendo principalmente em quatro províncias do Império Romano: Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Paulo concentrava-se nas cidades-chave, isto é, nos maiores centros populacionais de sua época. Isso fazia parte de seu planejamento missionário. Quando alguns judeus e gentios aceitavam a mensagem do Evangelho, logo esses convertidos tornavam-se o núcleo de uma nova comunidade local. Dessa forma, o apóstolo Paulo alcançou até mesmo as áreas rurais. A estratégia missionária usada pelo apóstolo Paulo pode ser resumida da seguinte forma: 

1. Ele trabalhava nos grandes centros urbanos, para que dali a mensagem se propagasse às regiões circunvizinhas;
2. Ele pregava nas sinagogas, a fim de alcançar judeus e gentios convertidos.
3. Ele focava sua pregação na comprovação de que a nova dispensação (período bíblico) era o cumprimento das profecias da antiga dispensação.
4. Ele percebia as características culturais e as necessidades dos ouvintes. Assim ele aplicava tais particularidades em sua mensagem evangélica.
5. Ele mantinha o contato com as comunidades cristãs estabelecidas. Esse contato se dava por meio da repetição de visitas e envio de cartas e mensageiros de sua confiança.
6. Ele estava atento às desigualdades presentes na sociedade de sua época e promovia a unidade entre ricos e pobres, gentios e judeus. Além disso, ele solicitava que as igrejas mais prósperas auxiliassem os mais pobres.

Em Atos 14:21-23, é possível perceber que o método de Paulo para estabelecer uma igreja local obedecia a um padrão regular. Primeiramente era feito um trabalho dedicado ao evangelismo, com a pregação do Evangelho. Depois havia um trabalho de edificação, onde os crentes convertidos eram fortalecidos e encorajados. Por último, presbíteros eram escolhidos em cada igreja, para que a organização eclesiástica fosse estabelecida.
A primeira viagem missionária de Paulo (ver figura acima) está registrada em Atos 13:1 a 14:28). Não se sabe exatamente quanto tempo durou essa primeira viagem. Sabe-se apenas que ela deve ter ocorrido por volta de 44 e 50 DC. O ponto de partida foi Antióquia, um lugar que havia se tornado um tipo de centro do Cristianismo entre os gentios.
Basicamente a viagem foi concentrada na Ilha de Chipre e na parte sudeste da província romana da Galácia. Barnabé foi o líder, até um determinado momento da viagem, e Paulo era o pregador principal. João Marcos servia como auxiliador dos missionários principais. Entretanto, João Marcos os deixou (literalmente os abandonou) em Perge, na Panfília, e retornou para Jerusalém. A partir desse ponto, o apóstolo Paulo assumiu a liderança da missão.
A segunda viagem missionária de Paulo (ver figura acima) está registrada em Atos 15:36 a 18:22. O propósito dessa viagem, conforme o próprio Paulo diz, era visitar os irmãos por todas as cidades em que a palavra do Senhor já havia sido anunciada (Atos 15:36). No entanto, ao discordarem sobre a ida de João Marcos na viagem missionária, Paulo e Barnabé decidiram se separar. Então Paulo levou consigo Silas, também chamado de Silvano.
A data provável dessa viagem fica entre os anos de 50 e 54 d.C. Essa segunda viagem cobriu um território bem maior do que a primeira, estendendo-se até a Europa. A obra evangelística foi concluída na Macedônia e Acaia, e as cidades visitadas foram: Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas e Corinto.
O apóstolo Paulo permaneceu em Corinto um longo tempo (Atos 18:11,18). Ali ele pregou o Evangelho e exerceu sua atividade profissional de fazer tendas. Foi dessa cidade que ele enviou a Epístola aos Gálatas e, provavelmente, um pouco depois, também enviou as Epístolas aos Tessalonicenses. Paulo também parou brevemente em Éfeso e ao partir prometeu retornar em outra ocasião (Atos 18:20,21).
A terceira viagem missionária de Paulo (ver figura acima) está registrada em Atos 18:23 a 21:16. Essa viagem ocorreu entre 54 e 58 DC. O apóstolo Paulo atravessou a região da Galácia e Frígia e depois prosseguiu em direção a Ásia e à sua principal cidade, Éfeso. Ali o apóstolo ficou por um longo período, cumprindo a promessa feita anteriormente. É provável que todas, se não pelo menos a maioria das Sete Igrejas da Ásia[13], tenha sido fundada durante esse período. Parece que antes de Paulo escrever a Primeira Epístola aos Coríntios, ele fez uma segunda visita à cidade de Corinto, regressando logo depois para Éfeso. Mais tarde, escreveria 1 Coríntios.
Quando deixou Éfeso, Paulo partiu para a Macedônia. Foi ali, talvez em Filipos, que ele escreveu a Segunda Epístola aos Coríntios. Depois, finalmente o apóstolo Paulo passou pela terceira vez em Corinto. Antes de partir dessa cidade, provavelmente ele escreveu a Epístola aos Romanos.
O resultado das viagens missionárias do apóstolo Paulo foi extraordinário. O Evangelho se espalhou consideravelmente. Estima-se que perto do final do período apostólico, o número total de cristãos no mundo era em torno de quinhentos mil. Apesar de esse resultado ter sido fruto de um árduo trabalho que envolveu um enorme número de pessoas, conhecidas e anônimas, o obreiro que mais se destacou nessa missão certamente foi o apóstolo Paulo. 

O DEBATE DO APÓSTOLO PAULO COM PEDRO 

Em um determinado momento, devido ao crescente número de gentios na Igreja, questões a respeito da Lei e dos costumes judaicos sugiram entre os cristãos. Muitos cristãos judeus insistiam que os gentios deveriam observar a Lei Mosaica. Eles queriam que os crentes gentios se enquadrassem nos costumes judaicos, principalmente em relação à circuncisão. Para eles, só assim poderia haver igualdade na comunidade cristã.
O apóstolo Paulo identificou esse movimento judaizante como uma ameaça à verdadeira natureza do Evangelho da graça. Por isso ele se posicionou claramente contra essa situação. Diante dessas circunstâncias, o apóstolo Paulo repreendeu Pedro, publicamente (Gálatas 2:14), pois Pedro havia se separado de alguns crentes gentios, a fim de evitar problemas com certos cristãos judaizantes. Esse também foi o pano de fundo que levou o apóstolo Paulo a escrever uma epístola de advertência aos Gálatas. Nessa epístola ele apresenta com grande ênfase o tema da salvação pela graça mediante a fé.
Podemos dizer que esse acontecimento foi a primeira crise teológica da Igreja. Para que o problema fosse solucionado, Paulo e Barnabé foram enviados a uma conferência com os apóstolos e anciãos em Jerusalém. O concílio decidiu que, de forma geral, os gentios que se convertessem não estavam sob a obrigação de observar os costumes judaicos.

PRISÕES E MORTE DO APÓSTOLO PAULO 

Existe muita discussão em relação ao número de prisões que o apóstolo Paulo sofreu. Essa discussão ocorre, principalmente, pelo fato de o livro de Atos não descrever toda a história de Paulo. Além disso, provavelmente, o apóstolo Paulo foi preso algumas vezes por um período muito curto de tempo, como por exemplo, em Filipos (Atos 16:23).
Ao falar sobre suas próprias prisões, o apóstolo Paulo escreve o seguinte:

São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais; em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes (2 Coríntios 11:23) 

Considerando apenas as principais prisões do apóstolo Paulo, sabe-se que ele foi preso em Jerusalém (Atos 21), e para impedir que fosse linchado, ele foi transferido para Cesareia. Nessa cidade, Felix, o governador romano, deixou o apóstolo Paulo na prisão por dois anos (Atos 23-26). Festo, sucessor de Felix, sinalizou que poderia entregar Paulo aos judeus, para que por eles ele fosse julgado.
Como Paulo sabia que o resultado do julgamento seria totalmente desfavorável a sua pessoa, então na qualidade de cidadão romano, ele apelou para César. Depois de um discurso perante o rei Agripa e Berenice, o apóstolo Paulo foi enviado sob escolta para Roma. Após uma terrível tempestade, o navio em que ele estava naufragou, e Paulo passou o inverno em Malta.
Finalmente o apóstolo Paulo chegou a Roma na primavera. Na capital do Império ele passou dois anos em prisão domiciliar. Apesar disso ele tinha total liberdade para ensinar sobre o Evangelho (Atos 28:31). É exatamente nesse ponto que termina a história descrita no livro de Atos dos Apóstolos. O restante da vida de Paulo precisa ser contado utilizando-se os registros de outras fontes.
As únicas informações adicionais que encontramos no Novo Testamento sobre a biografia do apóstolo Paulo, parte das Epístolas Pastorais.
As Cartas Pastorais ou Epístolas Pastorais, são epístolas escritas por Paulo (1Timóteo, 2 Timóteo, Tito) e endereçadas a dois dos seus companheiros mais próximos, Timóteo e Tito, líderes das igrejas das cidades de Éfeso e Creta respectivamente. Embora na Bíblia a Epístola de Tito apareça após as Epístolas de 1 e 2 Timóteo, a sua ordem cronológica é diferente, a mais aceita sendo 1 Timóteo, Tito, 2 Timóteo. Suas datas mais prováveis são as seguintes:

1 Timóteo: entre 62 e 64 DC;
Tito: entre 62 e 64 DC;
2 Timóteo: entre 64 e 68 DC.

A autoria de Paulo é amplamente aceita pela tradição cristã, embora alguns estudiosos, desde o século IV DC tentem contestar a sua autoria; eles afirmam que as Cartas Pastorais foram escritas em algum momento do século II DC, apresentando para isso alguns argumentos a embasar a sua teoria:

1) A complexidade eclesiástica que a Igreja possuía: alguns estudiosos acreditam que a estrutura da igreja descrita nas Cartas Pastorais é evoluída demais para o primeiro século. Porém, o livro de Atos e as demais Cartas de Paulo já descrevem uma igreja bem organizada e com presbitério constituído.
2) Teologia inferior em relação às outras Cartas de Paulo: alguns defendem que as doutrinas encontradas nas Cartas Pastorais não compreendem toda Teologia que Paulo possuía. Mas sobre isso vale lembrar que as Cartas Pastorais foram destinadas a líderes, e não a membros da Igreja. Sendo assim, seria desnecessário que Paulo precisasse repassar exaustivamente todo o conteúdo teológico encontrado em outras epístolas dirigidas às Igrejas.
3) Diferenças linguísticas: alguns defendem que o estilo literário encontrado nas Cartas Pastorais é diferente das outras Epístolas de Paulo. Eles dizem que nelas existem palavras novas ao mesmo tempo em que faltam alguns termos frequentemente utilizados por Paulo em suas epístolas. Mas as Cartas Pastorais são textos curtos e insuficientes para tal análise. Além disso, essas diferenças também são encontradas em outras epístolas incontestavelmente escritas por Paulo.
4) Tipo de heresia tratada: alguns estudiosos defendem que as heresias tratadas nas Cartas Pastorais são o resultado do Gnosticismo do século II DC. Mas se realizarmos uma análise dos termos originais em grego utilizado por tais estudiosos para fundamentar esse argumento, comprovaremos que essa alegação não faz qualquer sentido. Além disso, devemos considerar que o movimento gnóstico começou na Palestina e na Síria aproximadamente vinte anos após o Pentecoste. Portanto, já era de se esperar que as epístolas escritas após esse período reagissem contra esses movimentos.

Provavelmente Paulo escreveu as Epístolas 1 Timóteo e Tito, enquanto ainda na Macedônia; se isso estiver certo, as duas primeiras Cartas Pastorais teriam sido escritas durante o período de liberdade de Paulo entre as duas prisões romanas. Quanto a Carta 2 Timóteo, não há dúvida de que ela foi escrita em Roma, enquanto Paulo estava preso e prestes a sofrer o martírio.
O grande objetivo das Cartas Pastorais era tratar de assuntos urgentes que precisavam ser solucionados o quando antes. Dentre esses assuntos, destacam-se dois principais:

1) Nomear homens de extrema integridade e caráter para os cargos de bispos e diáconos.
2) Combater as heresias e os falsos ensinamentos que estavam se espalhando nas igrejas.

Na Epístola de 2 Timóteo podemos encontrar um teor de aconselhamento um pouco diferente. Na última das Cartas Pastorais, o apóstolo Paulo praticamente admite seu martírio iminente. Prestes a ser morto, o apóstolo dos gentios fala a Timóteo acerca de sua tamanha confiança em Cristo. Ele ressalta que nem mesmo a morte poderia abalar a sua fé. É nessa Carta Pastoral que Paulo faz uma reflexão de toda sua vida a serviço do Evangelho de Cristo, com a inesquecível declaração: “Combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé” (2 Timóteo 4:7).
Essas epístolas parecem sugerir que o apóstolo Paulo foi solto depois da primeira prisão em Roma relatada em Atos por volta de 63 DC. Após ser solto, ele teria visitado a área do Mar Egeu e viajado até a Espanha.
Depois, Paulo foi novamente aprisionado em Roma, onde acabou sendo executado pelas mãos de Nero, por volta de 67 a 68 DC (2 Timóteo 4:6 a 18). A Epístola de Clemente[14] e o cânone Muratoriano[15] atestam sobre uma viagem que Paulo teria feito a Espanha.
A tradição cristã conta que a morte do apóstolo Paulo teria ocorrido junto à estrada de Óstia, fora da cidade de Roma, por decapitação. Talvez o texto que melhor defina a biografia do apóstolo Paulo, seja exatamente este:

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda. (2 Timóteo 4:7,8) 


[1] A Ásia Menor (Pequena Ásia, em grego), também conhecida como Anatólia ou península anatoliana, denota a penetração ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da República da Turquia. A região é banhada pelo mar Negro, ao norte, o mar Mediterrâneo, ao sul e pelo mar Egeu, a oeste. O mar de Mármara liga os mares Negro e Egeu através dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, separando-a da Trácia, no continente europeu. Hoje, a Ásia Menor é muitas vezes considerada como sinônimo de Turquia Asiática, cujas fronteiras leste e sudeste são amplamente consideradas como as fronteiras turcas com os países vizinhos: Geórgia, Arménia, Azerbaijão, Irã, Iraque e Síria, no sentido horário.
[2] Povo indo-europeu que, no 2º milénio AC, fundou um poderoso império na Anatólia central, cuja queda data dos séculos XIII-XII AC. Na sua extensão máxima, o Império Hitita compreendeu a Anatólia e regiões do Líbano e Síria.
[3] O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano na Antiguidade Tardia e Idade Média, até a sua queda. Sua capital, Constantinopla (atual Istambul), era anteriormente conhecida como Bizâncio. Inicialmente parte oriental do Império Romano (comumente chamada de Império Romano do Oriente), sobreviveu à fragmentação e ao colapso do Império Romano do Ocidente, no século V e continuou a prosperar, existindo por mais de mil anos até sua queda para os turcos otomanos, em 1453.
[4] O “Império Aquemênida”, também chamado “Primeiro Império Persa” (550 a 330 AC), foi um império situado na Ásia Ocidental e fundado por Ciro, o Grande. Em sua maior extensão, alcançava dos Balcãs e Europa Oriental, no oeste, até o Vale do Indus, ao leste, constituindo o maior império, até então, da história. Incorporando vários povos de diferentes origens e fés, foi notável por seu modelo de sucesso de uma administração centralizada e burocrática (através dos sátrapas subordinados ao Rei dos Reis), pela construção de uma forte infraestrutura, como os sistemas rodoviário e postal, pelo uso de uma língua oficial por todos os seus territórios e pelo desenvolvimento de serviços civis e um enorme exército profissional. Pelo século VII AC, os persas haviam se estabelecido na porção sudoeste do Platô Iraniano, região de Persis, que tornou-se a região central do Império. Desta região, Ciro, o Grande avançou para derrotar os Medos, os Lídios e o Novo Império Babilônico , estabelecendo o Império Aquemênida.
[5] O termo “Dispersão” (no grego, Diáspora) foi o termo usado para se referir aos judeus que viviam fora da Palestina. Depois da desastrosa Guerra Judaica de 66-73 DC e da destruição do Templo pelos romanos em 70 DC, grandes levas de judeus deixaram a sua pátria seguindo, principalmente, na direção Leste, rumo à Mesopotâmia. Mas o processo de "dispersão" começou muito antes disso. Pelo menos desde seu exílio na Babilônia, no século 6 AC os judeus começaram a se fixar em vários lugares do Oriente Médio e da região leste do Mediterrâneo. Na época do NT, provavelmente havia mais judeus vivendo fora da Palestina do que nela. Calcula-se que só no Egito havia um milhão de judeus. Em Alexandria, os judeus eram uma parcela tão significativa da população que formavam uma unidade política distinta, vivendo em áreas próprias da cidade e preservando a própria cultura e estilo de vida distintos.
[6] O Sinédrio era uma assembleia religiosa judaica ao tempo de Jesus. Os membros do Sinédrio governavam e julgavam o povo judeu de acordo com a Lei de Moisés e as tradições judaicas. Jesus foi julgado pelo Sinédrio antes de ser crucificado.
[7] Há muito pouca informação sobre o personagem Ananias, provavelmente um discípulo de Jesus, mas o próprio Paulo em um dos seus discursos, (Atos 22), descreve Ananias como um temente a Deus segundo a Lei e que tinha bom testemunho de todos os judeus que habitavam em Damasco.
[8] Barnabé foi um membro da Igreja Primitiva de Jerusalém, descendente da tribo de Levi, originário de uma família sacerdotal judaico-cipriota. O ministério de Barnabé ficou mais notório quando chegou a Jerusalém a informação de que na Síria os cristãos helenistas, que haviam lá se refugiado devido à perseguição que se iniciou na Judéia após a morte de Estêvão, estavam promovendo uma grande evangelização. Barnabé, então, foi enviado para lá, com o intuito de verificar a situação e agir conforme achasse mais apropriado. Ao chegar, Barnabé ficou maravilhado por ver muitos gentios pagãos se convertendo ao Evangelho pela graça de Deus. Logo, ele foi de grande valia para que aquela evangelização ganhasse ainda mais força.
[9] Nesse capítulo de Atos, Pedro é chamado de Cefas. Quando Pedro se encontrou com Jesus, o Senhor o chamou de Cefas, do aramaico Kefa, que significa “rocha” ou “pedra” e que em sua forma grega é Petros, ou seja, Pedro. O significado desse título se refere ao fato de que Pedro se tornaria firme como uma rocha, ao invés de uma pessoa com temperamento inconstante. Paulo sempre o chamou Cefas.
[10] Na atual Turquia, às margens do Mar Mediterrâneo, quase na fronteira com a Síria.
[11] A palavra “gentio”, em hebraico “goyim”, foi utilizada na Bíblia para designar os povos que não pertenciam ao povo de Israel, que não eram hebreus, sem representar alguma antipatia ou aversão. Às vezes foi também utilizado para significar os povos pagãos. Um judeu não podia casar com um gentio, porque os gentios não adoravam à Deus nem obedeciam à lei de Moisés; mas um gentio podia se converter ao judaísmo.
[12] Silas ou Silvanus foi um membro líder da primeira comunidade cristã, que acompanhou o apóstolo Paulo em partes de suas primeira e segunda jornadas missionárias. Silas parece ser, tradicionalmente, o Silvanus mencionado em quatro epístolas. Algumas traduções chamam-no Silas nas epístolas. Paulo, Silas e Timóteo são listados como coautores de duas cartas aos Tessalonianos. II Corintios menciona Silas como tendo orado com Paulo e Timóteo à Igreja em Corinto; a primeira epístola de Pedro menciona Silas como um “fiel irmão”.
[13] As Sete Igrejas da Ásia Menor, são, originalmente, as destinatárias do livro do Apocalipse. Essas igrejas ficaram popularmente conhecidas como “as Sete Igrejas do Apocalipse”. O número “sete” é muito representativo na construção do livro do Apocalipse, onde aparece, explicitamente, 54 vezes. A relação das sete igrejas pode ser encontrada facilmente logo no Capítulo 1 do Apocalipse (Ap 1:11): Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Achavam-se próximas umas das outras (no máximo 55 km), interligadas por boas estradas romanas, o que facilitava a troca de correspondência. Outro fato interessante é que em todas essas cidades de cada uma das igrejas, existia uma corte romana, o que naquela época representava grandes problemas para os cristãos. Inclusive, em Éfeso, Esmirna e Pérgamo, havia templos onde era celebrado o culto ao imperador.
[14] A Primeira Epístola de Clemente é uma carta endereçada aos cristãos da cidade de Corinto. A carta foi composta em algum momento entre 70 e 140 DC, mais provavelmente cerca de 96 DC. Compete com o Didaquê (ou “Doutrina dos Doze Apóstolos”, é um escrito do século I DC que trata do catecismo cristão, constituído de dezesseis capítulos; apesar de obra pequena, de grande valor histórico e teológico) como um dos documentos cristãos existentes mais antigos (senão o mais antigo) fora do Novo Testamento. Como o nome sugere, uma Segunda Epístola de Clemente é conhecida, um trabalho posterior e de outro autor. A carta é uma resposta aos eventos de Corinto, onde a congregação havia deposto alguns presbíteros, conclamando-a se arrepender restaurando-os à sua posição e obedecendo aos seus superiores. Ele dizia que os Apóstolos haviam constituído a liderança da Igreja e instruído a como perpetuar o ministério. Embora atribuído ao Papa Clemente, o trabalho é anônimo e não há evidência de que Roma tivesse um bispo no sentido monárquico ao tempo. Pode ter sido escrito por um simples líder da Igreja em Roma.
[15] O Cânone Muratori, também conhecido por fragmento muratoriano ou fragmento de Muratori, é uma cópia da lista mais antiga que se conhece dos livros do Novo Testamento. Foi descoberta na Biblioteca Ambrosiana de Milão por Ludovico Antonio Muraori (1672–1750) e publicada em 1740. Na lista figuram os nomes dos livros que o autor desconhecido da lista considerava admissíveis, com alguns comentários. A lista está escrita em Latim e encontra-se incompleta, daí ser chamada de fragmento. Apesar de ser consensual datar o manuscrito como sendo do século VII DC, ele é cópia de um texto mais antigo, tentativamente datado como sendo de por volta do ano 170, já que nele é referido o Pastor de Herma e como recente o bispado de Pio I, morto em 157.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

MINHA PEQUENA HOMENAGEM A MICHEL LEGRAND



O Mundo da música encontra-se novamente de luto: morreu em Paris, no dia 26 de janeiro de 2019, aos 86 anos de idade, o fantástico compositor Michel Legrand. Mais um insubstituível músico que nos abandona, deixando mais vazio o mundo da música, sem qualquer chance de substituição. 
Michel Legrand, com 84 anos no Festival de Cannes de 2017
Michel Legrand nascido em 24 de fevereiro de 1932, em Paris, no bairro de Ménilmontant, cantado por Charles Trenet, autor de “La Mer”, foi um músico, compositor, cantor, produtor e arranjador francês, cuja carreira de compositor para o cinema, por mais de meio século, granjeou-lhe três Oscars, cinco Grammys, duas Palmas de Ouro, um Bafta (British Academy of Film and Television Arts, entidade independente que apoia, desenvolve e promove as formas artísticas de imagem no Reino Unido) e um Globo de Ouro.
Seus pais, o compositor Raymond Legrand (1908-1974) e Marcelle Der Mikaëlian (irmã do orquestrador Jacques Hélian, de origem armênia) se divorciaram quando Michel tinha três anos. Estudou piano e composição no “Conservatoire de Paris” de 1942 a 1949, principalmente nas classes de Lucette Descaves, Henri Challan e Nadia Boulanger. Apaixonou-se pelo jazz após assistir, em 1947, a um concerto de Dizzy Gillespie (trompetista, compositor-letrista-intérprete e orquestrador de jazz americano, considerado, com Miles Davis e Louis Armstrong, um dos mais importantes trompetistas da história do jazz), com o qual iria colaborar alguns anos mais tarde escrevendo, em 1952, os arranjos para a orquestra de cordas que acompanhava o trompetista em seus concertos europeus.
Em 1951, com apenas 19 anos, escreve os arranjos para a orquestra de seu pai, que o introduz no universo da canção de variedades e começa uma carreira de acompanhador e arranjador para Jacqueline François, Henry Salvador, Catherine Sauvage e Zizi Jeanmaire. Maurice Chevalier o contrata como diretor musical.
Em 1954, por demanda da empresa americana Columbia e graças a Jacques Canetti, produtor musical da Philips, que passou um acordo com esta firma, ele oferece releituras jazzísticas de músicas simples francesas. O álbum “I Love Paris” é um enorme sucesso com oito milhões de exemplares vendidos e o reconhecimento de Legrand se faz internacional. Influenciado por Stan Kenton, ele leva a bom termo uma breve carreira de jazzman como líder: “Holiday in Rome”, em 1955, “Michel Legrand Plays Cole Porter”, em 1957, “Legrand in Rio”, em 1958. Para “Legrand Jazz”, ele grava em New York, em 1958, com Miles Davis, John Coltrane e Bill Evans, tornando-se um dos primeiros europeus a trabalhar com os mestres do jazz moderno. 
O jovem Legrand e seu amor pelo jazz.
Em 1966 faz os arranjos da canção internacional “C’est ci bon”, de Henri Betti e André Hornez, para o álbum de Barbra Streisand “Color me Barbra”.
Algumas composições de Michel Legrand como “La Valse des Lilas” (em inglês “Once upon a Summer Time”), a “Chanson de Maxence” (“You must believe in Spring”), ou ainda o tema principal da trilha sonora original do filme “Un été 42” (“Verão de 42”) (“The Summer Knows”), são resultado de padrões de jazz.
A par de sua paixão pela música de jazz, a virada dos anos 1960 e o surgimento da nouvelle vague vão definitivamente ancorar Michel Legrand no mundo da música de filmes. Ele trabalha para Agnès Varda (“Cléo de 5 a 7”, em 1962), Jean-Luc Godard (“Une femme est une femme”, em 1961, “Vivre sa vie”, em 1962 e “Bande à part”, em 1964) e sobretudo Jacques Demy (“Lola”, em 1961, “Les parapluies de Cherbourg”, em 1964, “Les demoiselles de Rochefort”, em 1967, “Peau d’âne”, em 1970) com o qual ele inventa a comédia musical à francesa. Dessa forma, “Les Parapluies de Cherbourg” é um filme cantado continuamente, onde os diálogos são inspirados pela música, totalmente inovador para a época. 
Michel Legrand compondo.
Em 1966, após ter sido indicado para dois Oscars por seu trabalho em “Les Parapluies de Cherbourg”, ele decide tentar sua sorte em Hollywood, instalando-se em Los Angeles. Sua amizade com Quincy Jones e Henry Mancini o ajuda muito a fazer um lugar no meio altamente concorrido e lhe permite encontrar os letristas Alan e Marilyn Bergman. Em 1968 ele compõe a trilha sonora original de “L’Affaire Thomas Crown”, de Norman Jewison e, particularmente, a canção “The Windmills of your Mind” (“Les Moulins de Mon Coeur”), para a qual lhe será entregue, no ano seguinte, o Oscar de melhor canção original.
Em 1969, Legrand escreve a trilha sonora para o filme “The Happy Ending”. Sua principal canção, “What are you doing for the rest of your life”, com letra de Alan e Marilyn Bergman e interpretada por Michael Dees, foi indicada para o Oscar da Academia como melhor canção original, sendo derrotada por “Raindrops keep falling on my head”. Com a mesma música, Legrand venceu o Grammy Award de 1972 para melhor arranjo instrumental no acompanhamento de vocalista, para uma versão interpretada por Sarah Vaughan. Além da versão recebedora de prêmios, a canção foi interpretada por vários artistas, destacando-se a execução de Barbra Streisand, Johnny Mathis, Shirley Bassey e Frank Sinatra.
Dois anos mais tarde, ele recebe o Oscar de melhor música de filme pelo filme “Un Été 42” (“Verão de 1942”), de Robert Mulligan (1971), cuja canção “The Summer Knows”, por Barbra Streisand, alcança o sucesso. Entre 1971 e 1975, nomeado vinte e sete vezes ao “Grammy Award”, ele conquista cinco prêmios. Em 1982, Michele Legrand compôs “How do you keep the music playing?”, com letra de Alan e Marilyn Bergman, para a trilha sonora do filme “Best Friends”, quando ela foi introduzida por James Ingram e Patti Austin. O filme foi estrelado por Burt Reynolds e Goldie Hawn e a música foi uma das três com letra de Alan e Marilyn Bergman indicadas para o Oscar de melhor canção original da 55ª realização da Academy Awards. Obtém um terceiro Oscar por “Yentl”, de Barbra Streisand, em 1983. No mesmo ano ele compõe a trilha sonora de “Jamais plus Jamais”, de Irvin Kershner, último James Bond com Sean Connery, cuja canção título (“Never Say Never Again”) é escrita por Alan e Marilyn Bergman. Ao todo, Michele Legrand compôs mais de duzentas músicas para o cinema e a televisão. 
A descontração de Michel Legrand
Gravou com várias personagens da canção em gêneros variados: Catherine Sauvage, Henri Salvador, Charles Aznavour, Zizi Jeanmarie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Jack Jones, Ella Fitzgerald, Perry Como, Lena Horne, Kiri Te Kanawa, James Ingram, Johnny Mathis, Barbra Streisand, Frankie Laine, Nana Mouskouri e Mireille Mathieu, para citar alguns.
Foi casado com Christine Bouchard e depois com Isabelle Rondon. Separado de sua última companhia, a harpista Catherine Michel, em 2013, desposou, em 16 de setembro de 2014, a comediante Macha Méril, com quem já tinha tido uma ligação quarenta anos antes. Foi pai de Dominique Rageys (nascida em 1952), fundadora, com seu marido, do rallye “Marrocos Clássico”, de Hervé Legrand (1959), pianista e compositor, de Benjamin Legrand (1962), cantor, de Eugénie Angot (1970), cavalheiro de nível internacional.
Em 5 de dezembro de 2007, a faculdade de música da Universidade de Montréal, Quebec, lhe outorgou um doutorado honorífico para sublinhar o caráter excepcional de sua carreira. Em 2009, ao completar cinquenta anos de carreira, a “Cinémathèque Française”, em Paris, lhe rendeu uma homenagem, com a projeção da maior parte dos filmes com trilha sonora escrita por Michel Legrand. Na mesma ocasião, deu três concertos na sala Plevel e múltiplas entrevistas à rádio e televisão.
Em 2013 co-escreveu, com Stéphane Lerouge, especialista de música para cinema, sua primeira autobiografia “Nada é grave nos agudos”, onde ele evoca de maneira livre e sem cronologia, sua formação, encontros, escolhas de percurso, seu gosto pela música ao plural.
2014 viu Michel Legrand ainda realizando 60 concertos por todo o globo. Seu novo balé, coreografado por John Neumeier, do Hamburg Ballet, abriu para um fenomenal sucesso em Costa Mesa, California, como um prelúdio para um giro pelos Estados Unidos. Seu novo concerto para harpa iniciou na Filadélfia, em fevereiro de 2014 e sua nova ópera, “Dreyfus” iniciou na Ópera de Nice em maio de 2014. Para coincidir com o 50º aniversário de “Les Parapluies de Cherbourg”, Michel Legrand conduziu sua versão para oratório no teatro Châtelet. Foram cinco excepcionais apresentações a preceder uma excursão pelo mundo.
Em março de 2014 Legrand escreveu uma maravilhosa trilha sonora para o novo filme de Xavier Beauvois “Love is a Perfect Crime”. O filme foi apresentado no Festival de Cannes em maio de 2014 e indicado para dois outros dois festivais. Durante 2014 ele realizou mais de 50 concertos na França, Irlanda, Japão, Argentina, Brasil, Rússia, EUA, Dinamarca, Holanda e Bélgica.
2015 foi um ano bastante ocupado, com concertos ao redor do mundo, incluindo um giro pela América do Sul com o soprano Natalie Dessay e a gravação de um novo álbum “Michel com Amigos” lançado em novembro daquele ano. Em janeiro de 2016 Legrand fez uma importante apresentação com uma Orquestra e os amigos tenor Vincent Niclo, sopranos Natalie Dessay e Maurane, no Palais de Congrès, Paris, no concerto intitulado “Michel Legrand convida Vincent Niclo”. Em maio de 2016 Legrand esteve em Kalamazoo, Michigan, para receber um doutorado honorário da Western Michigan University, como parte de sua primeira visita ao Irving Saint Gilmore International Keyboard Festival. Ainda em Kalamazoo, Legrand realizou uma Première Mundial Oficial, Concerto para Piano e Orquestra com a Kalamazoo Symphony Orchestra.
O verão de 2016 foi preenchido com Festivais na Argentina e França; o ano continuaria extremamente ocupado com concertos por toda a Europa. O ano de 2017 foi rico, com a excursão do aniversário de 85 anos de Michel Legrand ao redor do mundo e o lançamento de dois preciosos álbuns. 
O maduro Legrand em toda a sua jovialidade.
Michel Legrand é o único compositor europeu com uma filmografia que inclui nomes como Orson Welles, Marcel Carné, Clint Eastwood, Norman Jewison, Louis Malle, Andrzej Wajda, Richard Lester, Claude Lelouch, para nomear alguns poucos.

“Desde que era um menino, minha ambição sempre foi viver completamente cercado pela música. Meu sonho é não perder nada. É por isso que nunca me assentei numa única disciplina musical. Adoro executar, conduzir, cantar e escrever, em todos os estilos. Assim, ponho minha mão em tudo – não apenas um pouco de tudo. Muito pelo contrário. Faço todas essas atividades de uma vez, seriamente, sinceramente e com profunda dedicação.”

Era assim que Michel Legrand descrevia seu status, como um músico atípico e compulsivo que não podia ser confinado; ou antes, seus vários status como compositor, maestro, pianista, cantor, escritor e produtor. Derrubando as barreiras entre o jazz, música clássica e música mais leve, ele sentia-se em casa em qualquer situação musical.

“Eu queria ter mais percepção daquilo que eu posso fazer, mesmo que isso signifique ir longe demais. Se eu quero que meu navio continue singrando as ondas, devo tentar novas velas e ver onde elas me levarão”

É difícil selecionar músicas de um compositor que criou trilhas sonoras para mais de duzentos filmes! Muito mais se considerarmos o espaço físico de uma postagem. Por isso, fio-me em meu gosto pessoal (e os leitores, que se sujeitem a ele), para colocar uma pequeníssima amostra, em ordem cronológica, do que produziu o grande Michel Legrand.
Iniciamos, portanto, com “Les Parapluies de Cherbourg” (“I will wait for you”), uma das canções da trilha sonora do filme musical romântico dramático de mesmo nome (no Brasil, com o nome de “Os Guarda-Chuvas do Amor”), de 1964, com a minha musa do cinema francesa, Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo. Esta música, transformou-se num padrão popular mundial, principalmente devido à adaptação para o inglês por Norman Gimbel (“I will wait for you”), que foi inicialmente gravada por Nana Mouskouri e, posteriormente, por cantores famosos, entre eles Frank Sinatra, Tony Bennett, Louis Armstrong, Liza Minelli e Connie Francis, além de várias gravações instrumentais. Vamos apresentar a gravação em que, no filme, os dois atores principais cantam dublados por Danielle Licari e José Bartel.
A seguir, apresentamos “Les Moulins de Mon Coeur”, uma das canções da trilha sonora do filme “L’Affaire Thomas Crown”, posteriormente vertido para o inglês, com o nome “The Windmills of you Mind”, com o qual conquistou um Oscar da Academia. E para interpretá-la, nada mais, nada menos do que o seu autor, Michel Legrand.
A seguir uma das minhas preferidas de Michel Legrand, “What are you doing the rest of your life”, cantada pelo meu intérprete masculino favorito, Johnny Mathis, numa interpretação notável. A letra do casal Bergman é extraordinária e por essa razão me permito aqui introduzi-la para que meus leitores possam apreciá-la, com a sua tradução em português.
E chegamos à minha grande favorita das composições de Michel Legrand, “The Summer Knows” que, conforme comentado acima, é a melodia principal da trilha sonora para o filme “Un Été 42” (“Verão de 1942”), em inglês “Summer of ‘42”, de 1971, pela qual foi agraciado com mais um Oscar da Academia. As escolhas para o intérprete são, novamente, inúmeras, mas como ainda não apresentei a minha preferida feminina, eu faço questão de trazer aos meus leitores a fantástica Barbra Streisand, interpretando “The Summer Knows”. A letra de Alan e Marilyn Bergman é novamente primorosa e me permito também apresentá-la aos meus leitores para que com eles possam acompanhar a interpretação da melodia. E posto que no filme, a melodia é executada instrumentalmente, abuso da paciência dos meus leitores, trazendo para essa maravilha uma interpretação instrumental com a orquestra do compositor e com o piano maravilhoso do próprio Michel Legrand
“A melodia é uma senhora à qual eu sempre serei fiel!”
E para encerrar, de 1982, “How do you keep the music playing?” que, além de ter sido indicada para o Oscar da Academia, teve vida própria como um sucesso popular mundial, interpretada por luminares como Johnny Mathis, Tony Bennett, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Celine Dion e Shirley Bassey, entre muitos outros. Mas, em respeito ao próprio compositor, vou apresentá-la na interpretação dos que a introduziram no filme para o qual ela foi composta: James Ingram e Patti Austin.
Espero que com a curtíssima amostra, os meus leitores possam ter uma tênue ideia de quem foi Michel Legrand, mais um gênio da música, que nos abandona agora, para prosseguir com seus concertos, a partir de então, à plateia celeste. E com isso eu me despeço dele ...