Beowulf

Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 6

Efígie de Kavad I sobre dinar de ouro

Kavad I foi um soberano enérgico e reformador, dando apoio à seita fundada por Mazdak, que exigia que o rico dividisse suas esposas e seus bens com os pobres, com a evidente intenção de quebrar a influência dos magnatas e da crescente aristocracia. Suas reformas conduziram à sua deposição e prisão no “Castelo do Esquecimento”, em Susa, com a elevação ao trono, de seu irmão mais jovem Jamasp (Zamaspes), em 496. Jamasp (496-498), instalado no trono por membros da nobreza, foi um bom rei que reduziu impostos para aliviar os camponeses e os pobres e aderiu à principal corrente da religião Zoroastriana, que haviam custado a Kavad I o trono e sua liberdade. Seu reino logo terminou quando Kavad I, que havia fugido em 498, recebendo abrigo do rei Huno, à frente de um enorme exército, retornou à capital do Império e tomou o trono.
A segunda era dourada começou com o segundo reinado de Kavad I. Com o apoio dos Hunos Brancos, Kavad I lançou uma campanha contra os romanos, conquistando Theodosiopolis (extremo leste da Turquia moderna), na Armênia, em 502 embora logo perdendo-a novamente. Em 503 ele tomou Amida, na margem direita do Tigre, hoje pertencendo à moderna Turquia. Em 504, uma invasão da Armênia pelos hunos ocidentais do Cáucaso, conduziu a um armistício, ao retorno de Amida ao controle romano e a um tratado de paz em 506. Em 521/522, Kavad perdeu o controle de Lazica (hoje região do oeste da moderna Georgia, margens do Mar Negro), cujos monarcas se aliaram aos romanos; uma tentativa dos ibéricos, em 524/525, para agir da mesma forma, desencadeou uma guerra entre Roma e a Pérsia. Em 527 uma ofensiva romana contra Nisibis foi repelida e os esforços romanos de fortificar posições próximo às fronteiras foi frustrada. Em 530 Kavad I enviou um exército para atacar Dara, importante cidade de fronteira romana ao leste, com os romanos derrotados na Batalha de Dara. Várias batalhas foram travadas nessas chamadas Guerras Ibéricas, com vitorias e derrotas de ambos os lados até que, em 532, uma paz “eterna” foi celebrada. Embora sem poder se livrar dos laços com os Hunos, Kavad I restaurou a ordem no interior e lutou com geral sucesso contra os romanos orientais, fundou várias cidades, algumas com seu nome e iniciou a regulação dos impostos e a administração interna. 
Khosrau I, o mais celebrado
monarca sassânida
Após Kavad I, reinou seu filho Khosrau I (também conhecido por Anushirvan) de 531 a 579, o mais celebrado dos monarcas sassânidas. Khosrau I ficou famoso por suas reformas no corpo governante dos anciãos sassânidas, pela introdução de um racional sistema de impostos iniciado por seu pai e por suas tentativas em aumentar a riqueza e as receitas de seu império. Desenvolveu uma nova força de cavalheiros pagos e equipados pelo governo e burocracia centrais, ligando o exército e a burocracia ainda mais proximamente do governo central do que aos lordes locais. Em 540, Khosrau I quebrou o tratado de paz invadindo a Síria, saqueando a Antióquia e arrebatando grandes somas de dinheiro de um grande número de cidades. Nos anos que se seguiram, obteve outros sucessos, interrompidos em 545 por uma trégua que foi novamente interrompida em 547; a guerra reiniciou, confinada à posse de Lazica que ficou com os bizantinos quando a paz foi concluída em 562.
Revoltas na Armênia provocaram, em 571, o massacre do governador persa e sua guarda, do que se aproveitou o imperador romano Justiniano II para interromper os pagamentos anuais a Khosrau I para a defesa dos passes do Cáucaso. As guerras recomeçaram fazendo com que Justiniano II concordasse a reiniciar os pagamentos anuais em troca de uma trégua de cinco anos na frente mesopotâmica, embora a continuação da guerra em outros locais. Em 576 Khosrau I liderou sua última campanha, uma ofensiva na Anatólia que acabou em desastre: os persas sofreram pesadas perdas em sua fuga através do Eufrates sob ataque bizantino. Aproveitando a desorganização persa, os bizantinos penetraram profundamente no território de Khosrau I, mesmo pelo Mar Cáspio. Khosrau implorou por paz, mas decidiu continuar a luta na Armênia e na Mesopotâmia. A revolta armênia chegou a um fim com uma anistia geral e o retorno da Armênia ao Império Sassânida.
Hormizd IV (579 a 590) assumiu o trono após Khosrau I. A guerra com os bizantinos prosseguiu furiosa, mas de forma inconclusiva, até que o general Bahram Chobin, dispensado e humilhado por Hormizd IV, revoltou-se em 589. No ano seguinte ele foi derrubado do palácio por um golpe e seu filho Khosrau II (590 a 628) colocado em seu lugar. Tal mudança não aplacou Bahram que derrotou Khosrau II, forçando-o a fugir para território bizantino e tomando o trono como Bahram VI. Khosrau II pediu apoio contra Bahram VI ao imperador bizantino Mauricio, oferecendo em troca o Cáucaso Ocidental aos bizantinos. Para reforçar a aliança, Khosrau II casou com Miriam, filha de Mauricio. Sob o comando de Khosrau II, com o auxílio de forças e generais romanos, a força combinada bizantino-persa derrotou Bahram na Batalha de Blarathon, em 591. Cumprindo o acordo, Khosrau II cedeu o controle da Armênia ocidental e da Ibéria caucasiana. O novo arranjo de paz permitiu aos dois impérios focar em questões militares em outros locais: Khosrau II expandiu as fronteiras orientais do Império Sassânida enquanto Mauricio restaurou o controle bizantino dos Balcãs.
Khosrau II o restaurador dos
Territórios aquemênidas
Quando Mauricio foi derrubado e morto por Phocas, em 602, Khosrau II usou o assassinato de seu benfeitor como pretexto para começar uma nova invasão que se beneficiou da guerra civil contínua no Império Bizantino, encontrando pouca resistência efetiva. Os generais de Khosrau II atacaram as fortificadas cidades da Mesopotâmia e Armênia bizantinas, lançando as fundações de uma expansão sem precedentes, aniquilando a Síria e capturando a Antióquia em 611. Em 613 os generais persas derrotaram um decisivo contra-ataque liderado pelo próprio imperador bizantino Heraclius. Depois disso, o avanço persa prosseguiu incontrolável: Jerusalém caiu em 614, Alexandria em 619 e o resto do Egito em 621. O sonho sassânida de restaurar as fronteiras aquemênidas estava quase completo, enquanto o Império Bizantino se achava à beira do colapso. Este notável pico de expansão foi acompanhado pelo florescer da arte, música e arquitetura persas.
Embora bem-sucedida num primeiro estágio (de 602 a 622), a campanha de Khosrau II havia exaurido a riqueza e o exército persas; E num esforço para reconstruir as finanças nacionais, Khosrau II sobretaxou a população. Enquanto seu império se achava à beira da derrocada, o Império Bizantino preparava uma imensa contraofensiva e partia para uma série de vitórias contra as forças persas. Como resposta, Khosrau II, em coordenação com nômades eurasianos e eslavos, lançou o cerco à capital bizantina de Constantinopla em 626. Os sassânidas atacaram a cidade pelo lado oriental do Bósforo enquanto seus aliados invadiam o lado ocidental. A frota bizantina conseguiu impedir o transporte dos persas através do Bósforo e o cerco acabou fracassando. Em contrapartida, os persas sofreram ataques dos romanos em 627-628, quando desceram o Tigre devastando o país e saqueando o palácio de Khosrau II em Dastagerd; somente não atacaram Ctesifonte por causa da destruição de pontes pelos persas, mas sofreram mais ataques no noroeste do Irã. O impacto das vitórias de Heraclius e a devastação das mais ricas terras do Império Sassânida acabaram por minar o prestígio de Khosrau II e seu apoio junto a aristocracia persa. No início de 628 ele foi destronado e assassinado por seu filho Kavad II que, imediatamente, trouxe um fim à guerra, concordando em retirar-se de todos os territórios ocupados, incluindo Jerusalém.
Kavad II morreu em dois meses, seguindo-se o caos e a guerra civil. Em um período de quatro anos - e cinco diferentes reis, incluindo duas filhas de Khosrau II e o comandante militar Shahrbaraz -, o Império Sassânida enfraqueceu consideravelmente, com o poder da autoridade central passando pelas mãos dos generais, sem tempo para a recuperação do Império.
No início de 632, Yazdegerd III, um neto de Khosrau I que se refugiara em Estakhr (cidade do sul do Irã, província de Fars, 5 km ao norte de Persépolis), assumiu o trono. Nos mesmo ano, os primeiros ataques das tribos árabes, então unidas pelo Islamismo, chegaram ao território Persa. Yazdegerd III era ainda um menino a mercê de seus conselheiros e incapaz de unir um vasto país repartido em pequenos reinos feudais, as guerras contra o Império Bizantino haviam exaurido o Império Sassânida que sofria uma enorme declínio econômico, pesados impostos e agitação religiosa e foi impossível conter a conquista islâmica da Pérsia, mesmo sem sofrer o assédio dos romanos que também eram invadidos pelos muçulmanos, que foram tomando conta, paulatinamente, de todo o Irã. A abrupta queda do Império Sassânida foi completada em um período de cinco anos com a maioria do seu território absorvida pelo califado Islâmico, embora muitas cidades iranianas tenham lutado muitas vezes contra os invasores. Yazdegerd III, acompanhado de nobres persas fugia para as províncias mais orientais quando foi assassinado por um moleiro em 651. Muitos de seus nobres se estabeleceram na Ásia Central onde contribuíram grandemente para a difusão da cultura e língua persa e para o estabelecimento da primeira dinastia iraniana islâmica nativa, a dinastia Samânida, que buscou reviver as tradições sassânidas. A população persa, inicialmente sob pequena pressão para converter-se ao islamismo, foi gradualmente se convertendo, principalmente porque as elites de língua persa tentavam ganhar posições de prestígio bem mais tarde sob o Califado Abássida.
A Era Sassânida, abarcando todo o período da Antiguidade Final, é considerado um dos mais importantes e influentes períodos históricos do Irã, com um importante impacto mundial. De várias maneiras, o período sassânida testemunhou as maiores conquistas da civilização persa e constituiu o último grande Império Iraniano antes da adoção do islamismo. A Pérsia influenciou consideravelmente a civilização romana durante a Era Sassânida, com sua influência cultural se estendendo muito além das fronteiras territoriais do império, alcançando a Europa Ocidental, África, China e Índia, bem como representando um importante papel na formação da arte medieval europeia e asiática, prosseguindo no mundo muçulmano. A cultura única e aristocrática da dinastia transformou a conquista e destruição muçulmana do Irã, num renascimento persa. Muito do que mais tarde tornou-se conhecido como cultura, arquitetura, escrita e outras contribuições islâmicas para a civilização, foram obtidas dos persas sassânidas no mais amplo mundo muçulmano.
Sobre a conquista islâmica da Pérsia, remeto os meus leitores ao meu blog, à postagem intitulada “Uma Pequena História dos Árabes Muçulmanos”, em sete partes, que a inclui, para evitar a repetição do mesmo assunto. Da mesma forma, para o significado de termos árabes que não serão reexplicados aqui, remetemos nossos leitores àquela postagem.

IV – IRÃ MEDIEVAL

IV.1 – ERA DO CALIFADO E DO SULTANATO

IV.1.1 – O CALIFADO OMÍADA E SUAS INCURSÕES NA COSTA DO MAR CÁSPIO

Após a queda do Império Sassânida em 651, os árabes do Califado Omíada adotaram muitos costumes persas, especialmente os padrões administrativos e da corte. Os governadores provinciais árabes eram, evidentemente, ou arameus[1] persificados ou persas étnicos; certamente a língua persa permaneceu para os negócios oficiais do califado até a adoção do árabe pelo fim do século VII, quando em 692 a cunhagem iniciou na capital, Damasco. As novas moedas islâmicas evoluíram de imitações das moedas sassânidas (bem como bizantinas) quando a escrita Pahlavi (forma particular e exclusivamente escrita de várias línguas do Iraniano Médio) na cunhagem foi substituída pelo alfabeto arábico.
Durante o califado Omíada, os conquistadores árabes impuseram a arábica como a língua básica dos povos súditos por todo o império. Al-Hajjaj ibn Yusuf[2], descontente com a prevalência da língua persa no divan (alto corpo governamental em vários estados islâmicos ou seu principal funcionário), ordenou que a língua oficial das terras conquistadas fosse substituída pela arábica, algumas vezes à força.
Há muitos historiadores que vêm a regra dos omíadas no estabelecimento do “dhimmah” (uma espécie de obrigação) como uma tentativa de aumentar as taxas impostas aos cidadãos não muçulmanos, num estado islâmico, para beneficiar a comunidade árabe muçulmana financeiramente e pelo desencorajamento à conversão. Os governadores se queixavam ao califa quando ele promulgava leis que tornavam a conversão mais simples, assim privando as províncias de cobrança impostos. Quando no século VII, muitos não árabes, como persas, convertiam-se ao Islamismo, eram reconhecidos como “clientes” e tratados como cidadãos de segunda classe pela elite árabe mandante, até o final do Califado Omíada. Durante essa era, o Islamismo foi inicialmente associado com a identidade étnica do árabe e exigia uma associação formal com uma tribo árabe e a adoção do status de cliente (mawali, muçulmano não árabe).
Contudo, nem todo o Irã estava ainda sob o controle árabe, com várias regiões ainda sob controles iranianos locais; tais regiões haviam sido invadidas pelos árabes sem resultados decisivos pela inacessibilidade dos seus terrenos.
Com a morte do califa omíada Hisham ibn Abd al-Malik, em 743, o mundo islâmico entrou em uma guerra civil. O general persa convertido Abu Muslim foi enviado ao Khorasan pelo califado Abássida, inicialmente, como um propagandista e então para fazer a revolta em seu nome. Ele tomou Merv derrotando seu governador omíada Nasr ibn Sayyar, tornando-se o governador abássida, de fato, do Khorasan. Durante o mesmo período, o governador persa do Tabaristão e partes do Khorasan oeste, Khurshid, da dinastia Dabuyid, declarou sua independência dos omíadas, mas logo foi forçado a reconhecer a autoridade abássida. Em 750, Abu Muslim tornou-se o líder do exército abássida e derrotou os omíadas na Batalha de Zab, atormentando Damasco, a capital do Califado Omíada, ao final do mesmo ano.

IV.1.2 – O CALIFADO ABÁSSIDA E OS GOVERNOS IRANIANOS SEMI-INDEPENDENTES

O exército abássida consistia, principalmente, de khorasanianos e era conduzido pelo general Abu Muslim Khorasani, congregando elementos árabes e iranianos, com apoio também de ambos. Os abássidas depuseram os omíadas em 750, com a revolução abássida definitivamente marcando o fim do império árabe e o início de um Estado mais inclusivo e multiétnico no Oriente Médio.
Uma das primeiras alterações por eles realizadas após a tomada do poder, foi a mudança da capital do império de Damasco, no Levante, para o Iraque, região influenciada pela história e cultura persa, parte da demanda persa mawali, por influência árabe no império. A cidade de Bagdá foi construída no rio Tigre, no ano 762, para servir de nova capital do Império Abássida.
Os abássidas criaram a posição de vizir (vice califa ou segundo em comando, mas também espécie de consultor político de alto nível ou ministro), como os Bartmakids (influente família iraniana) em sua administração. Essa mudança fez com que muitos califas dos abássidas terminassem com um papel muito mais cerimonial do que antes, deixando aos vizires o poder real. Uma nova burocracia persa começou a substituir a antiga aristocracia árabe, com toda a administração refletindo tais mudanças e demonstrando que a nova dinastia era diferente dos omíadas de várias formas.
Pelo século IX, o controle abássida começou a declinar porque os líderes regionais se abalaram aos cantos mais remotos do império desafiando a autoridade central do Califado Abássida, que começou a recrutar os mamelucos, que se haviam movido da Ásia Central para a Transoxiana, como escravos guerreiros, no início do século IX. Com isso, logo em seguida o poder dos califas abássidas caiu a tal ponto que eles se tornaram apenas títeres religiosos enquanto os mamelucos realmente governavam.
Com a diminuição do poder abássida, uma série de dinastias surgiu em várias partes do Irã, algumas com considerável influência e poder. Entre as mais importantes dessas dinastias sobrepostas, estava a dos Tairidas, no Khorasan (821-873), a dos Safáridas, no Sistão[3] (861-1003, seu governo durou como maliks, do Sistão, até 1537), e os Samânidas (819-1005), originalmente em Bukhara[4]. Os Samânidas acabaram por governar uma área que ia do Irã Central ao Paquistão.
Pelo início do século X, os abássidas quase perderam o controle para a crescente facção persa conhecida como Dinastia Buyida (934-1062). Dado que muito da administração abássida tinha mesmo sido persa, os buyidas puderam, muito calmamente, tomar o poder real em Bagdá. Entretanto, os buyidas foram derrotados no meio do século XI pelos Turcos Seljúcidas[5], que continuaram a exercer influência sobre os abássidas, enquanto publicamente hipotecavam fidelidade a eles. O equilíbrio de poder em Bagdá permaneceu assim – com os abássidas no poder, apenas no nome – até que a invasão mongol de 1258 saqueou a cidade e definitivamente encerrou a dinastia abássida.
Durante o período abássida uma alforria foi experimentada pelos mawali e uma mudança foi feita na concepção política, de um império primariamente árabe (etnia), para um império muçulmano (religião); cerca de 930, uma exigência foi decretada para que todos os burocratas do império fossem muçulmanos.


[1] Os arameus (ou arameanos) eram um povo semita que viveu em Aram (região da atual Síria) e também na Mesopotâmia. A palavra vem do Aram bíblico, filho de Sem e neto de Noé, considerado pai da antiga civilização dos Arameanos, que falavam o Aramaico.
[2] Abū Muhammad al-Ḥajjāj ibn Yūsuf ibn al-Ḥakam ibn ʿAqīl al-Thaqafī‎‎ (661–714), abreviadamente conhecido por al-Hajjaj ibn Yusuf, foi talvez o mais notável governador que serviu ao Califado Omíada. Estadista extremamente capaz, embora cruel, rígido no caráter, mas também um governante duro e exigente, foi muito temido por seus contemporâneos e tornou-se uma figura profundamente controversa bem como objeto de profunda inimizade por parte de escritores posteriores pró-abássida, que lhe atribuíram perseguições e execuções em massa.
[3] O Sistão é uma região histórica e geográfica que, nos dias atuais, incluiria o Irã Oriental, o sul do Afeganistão (Nimruz e Kandahar) e o Paquistão Ocidental.
[4] Hoje uma cidade museu do Uzbequistão.
[5] Os turcos seljúcidas ou Dinastia Seljúcida, conforme já falamos em nossa postagem sobre os Árabes Muçulmanos, foi uma dinastia muçulmana sunita (o maior ramo do Islamismo) de turcos Oghuz (da Ásia Central, de língua oghuz) que, gradualmente, tornou-se uma sociedade persa na Ásia Central e Ocidental medieval. Os seljúcidas estabeleceram o Império Seljúcida e o Sultanato de Rum que, em seu ápice, estendeu-se da Anatólia por todo o Irã.

A postagem prossegue com a PARTE 7

domingo, 3 de dezembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 5

Embora em paz com a Pártia, Roma ainda interferia em seus assuntos. O imperador romano Tibério Graco (14 a 37 DC) envolveu-se numa trama de Farasmanes I da Ibéria (no Cáucaso, nada a ver com a Península Ibérica), para colocar seu irmão Mitrídates (de Farasmanes I e que não tem nada a ver com os Mitrídates anteriores) no trono da Armênia, pelo assassinato de rei Arsaces, da Armênia, aliado Parta dos romanos. Artabano III tentou e não conseguiu restabelecer o controle Parta da Armênia, provocando uma revolta aristocrática que o forçou a fugir para a Cítia. Os romanos liberaram um príncipe refém, Tirídates III da Pártia, para governar a região como um aliado de Roma. Pouco antes de sua morte, Artabano III conseguiu expulsar Tirídates do trono, usando tropas da Hircânia. Após a morte de Artabano III, em 38 DC, uma longa guerra civil eclodiu entre os sucessores legais Vardanes I e seu irmão Gotarzes II da Pártia. Vardanes I foi assassinado durante uma expedição de caça e a nobreza parta apelou ao imperador romano Cláudio (41 a 54 DC), em 49 DC, para libertar o príncipe refém Meherdates para desafiar Gotarzes. O tiro saiu pela culatra quando Meherdates foi traído pelo governador de Edessa (cidade da Mesopotâmia Superior fundada por Seleucos I Nicator cerca de 302 AC) e por Izates bar Monobaz, de Adiabene (pertencente ao Império Armênio), capturado e enviado a Gotarzes, que lhe permitiu viver após cortar suas orelhas, ato que o desqualificou para sempre de herdar o trono.
Logo que Radamisto (51 a 55 DC), filho de Farasmanes I, rei da Ibéria, invadiu a Armênia para depor o rei cliente de Roma, Mitrídates, Vologeses I da Pártia (51 a 77 DC) planejou invadir e colocar seu irmão, o posterior Tirídates I da Armênia, no trono. Com a queda de Radamisto e começando com o reino de Tirídates I, a Pártia manteria firme controle da Armênia – com breves interrupções – com a dinastia Arsácida da Armênia. Mesmo após a queda do Império Parta, a linha Arsácida sobreviveu através dos reis da Armênia, através dos reis da Geórgia, com a dinastia Arsácida da Ibéria e, por muitos séculos após, na Albânia Caucasiana, com a Dinastia da Albânia Caucasiana.
Quando Vardanes II da Pártia rebelou-se contra seu pai Vologeses I, em 55 DC, este retirou suas forças da Armênia, e Roma rapidamente tentou preencher o vazio político deixado. Na guerra Roma – Pártia de 58 a 63 DC, o comandante Cneu Domício Córbulo, cunhado de Calígula, obteve alguns sucessos militares contra os Partas, enquanto instalando Tigranes VI da Armênia como cliente romano. Contudo, seu sucessor Lucius Caesennius Paetus foi francamente batido pelas forças partas e abandonou a Armênia. Seguindo um tratado de paz, Tirídates I viajou para Nápoles e Roma em 63 DC, sendo cerimoniosamente coroado, em ambos os locais, Rei da Armênia, pelo imperador Nero.
Um longo período de paz seguiu-se entre Roma e a Pártia, somente registrando-se a invasão dos Alanos (povo de origem iraniana do nordeste do Cáucaso) nas regiões orientais da Pártia cerca de 72 DC, registrada por historiadores romanos. Enquanto Augusto e Nero tinham escolhido uma prudente política militar de confronto com a Pártia, os imperadores que se seguiram invadiram e tentaram conquistar o Fértil Crescente oriental, coração do Império Parta ao longo do Tigre e Eufrates, agressão em parte explicada pelas reformas militares de Roma. Contudo, os romanos não possuíam grande estratégia em seu tratamento com a Pártia e conquistaram poucos territórios com essas invasões.
Em 97 DC, o general chinês Ban Chao, “Protetor Geral das Regiões Ocidentais”[1], enviou seu emissário Gan Ying em uma missão diplomática ao Império Romano. Antes de partir em direção a Roma, Gan visitou a corte de Pacorus II (78 a 105 DC), em Hecatompilo, e viajou para o oeste até o Golfo Pérsico, onde autoridades partas o convenceram de que a única forma de chegar a Roma seria por uma árdua viagem marítima contornando a Península Arábica. Desencorajado por isso, Gan Ying voltou à corte Han onde fez ao Imperador He de Han, um detalhado relatório sobre o Império Romano baseado em relatos de seus anfitriões, que não queriam o estabelecimento de relações diplomáticas entre Roma e a China.
Já há algum tempo os partas quebravam sua união política, dividindo-se em clãs que administravam as províncias do Império, criando um governo central cada vez mais fraco. Os romanos bem souberam se aproveitar disso, logrando vitórias cada vez mais expressivas. As hostilidades entre Roma e Pártia se renovaram quando Osroes I da Pártia (reinou de 109 a128 DC) depôs o rei armênio Tirídates substituindo-o por Axidares, filho de Pacorus II, sem consultar Roma. O imperador romano Trajano (reinando entre 98 e 117 DC) matou o novo parta indicado para o trono da Armênia, em 114 DC, transformando a Armênia numa província romana. Suas forças também capturaram Nisibis, essencial para garantia das rotas principais pela planície norte da Mesopotâmia. No ano seguinte Trajano invadiu a Mesopotâmia, encontrando pouca resistência uma vez que Osroes I enfrentava uma guerra civil contra Vologases III da Pártia. Após depor Osroes I, em 116 DC, Trajano desceu o Eufrates capturando várias cidades (entre elas a importante cidade persa de Susa) até chegar ao Golfo Pérsico. Quando Sanatruces II da Pártia (filho de Mitrídates IV e sobrinho do deposto Osroes I) reuniu forças na Pártia oriental para desafiar os romanos, seu primo Parthamaspates (filho de Osroes I) da Pártia o traiu matando-o: foi coroado por Trajano como novo rei da Pártia. Nunca mais o Império Romano avançaria tão longe para o leste.
Adriano, sucessor de Trajano (subitamente morto em 117 DC), reafirmou as fronteiras Roma – Pártia no rio Eufrates, decidindo pela não invasão da Mesopotâmia dados seus então limitados recursos militares. Com a retirada dos romanos, o deposto Osroes I expulsou Parthamaspates reivindicando o trono parta. Mitrídates IV acabou por suceder a Osroes I em 129, reinando até 140 quando morreu num ataque romano. O rival de seu pai, de longa data, Vologases III, ocupou seu lugar no trono, mas outro filho de Mitrídates IV, Vologases IV (reinando de 147 a 191), chegou ao trono com a morte de Vologases III, reinando num período de paz e estabilidade. Contudo, a guerra Roma – Pártia de 161 começou quando Vologases IV invadiu a Armênia e a Síria, retomando Edessa. O então Imperador Marco Aurélio (reinando entre 161 e 180) enviou Lucius Verus para a Síria, enquanto Marcus Statius Priscus invadia a Armênia em 163 e Avidius Cassius invadia a Mesopotâmia em 164. Os romanos capturaram e incendiaram totalmente Selêucia e Ctesifonte, mas tiveram que se retirar porque seus soldados contraíram uma doença mortal (possivelmente varíola) que logo devastou o mundo romano. Embora a retirada, a cidade de Dura-Europos permaneceu em mãos romanas daí para diante.
Quando o imperador romano Sétimo Severo invadiu a Mesopotâmia em 197 DC, durante o reinado de Vologases V da Pártia (191-208), mais uma vez os romanos desceram o Eufrates, capturando Selêucia e Ctesifonte de onde só saíram em 198 DC. Cerca de 212 DC, logo após Vologases VI da Pártia tomar o trono, seu irmão Artabano V da Pártia rebelou-se, ganhado o controle da maior parte do Império. Enquanto isso, o imperador romano Caracala depunha os reis de Osroene (reino histórico da Mesopotâmia superior cuja capital era Edessa) e Armênia, que se tornavam novamente províncias romanas. Ele marchou para a Mesopotâmia sob o pretexto de desposar uma das filhas de Artabano V, mas como o casamento não foi permitido, fez guerra contra a Pártia e conquistou Arbil, a leste do rio Tigre. No ano seguinte, Caracala foi assassinado por seus soldados, e os partas fizeram um acordo com Macrino (imperador romano de abril de 217 a junho de 218) pelo qual Roma pagou à Pártia mais de 200 milhões de denarii (singular denarius, pequena moeda de prata do sistema monetário romano) com presentes adicionais.
Mas o Império Parta, que sobrevivera por cinco séculos, mais tempo que a maioria dos impérios orientais, enfraquecido por disputas internas e as guerras com Roma, seria rapidamente seguido pelo Império Sassânida. Seu fim chegou em 224 DC quando sua organização havia relaxado e o último rei foi derrotado por um dos povos vassalos do Império, os persas sob os sassânidas. Contudo, há evidências de que Vologases VI continuou a cunhar moedas em Selêucia, até 228 DC. Na verdade, a dinastia Arsácida continuou a existir por séculos pela Armênia, Ibéria e a Albânia Caucasiana (não confundir com o moderno país Albânia), ramos epônimos da dinastia.

III.4 – IMPÉRIO SASSÂNIDA (224-651 DC)

Moeda de Ardashir I, fundador
do Império Sassânida
O Império Sassânida, foi o último período do Império Persa (Irã) antes da ascensão do Islamismo e tirou seu nome da Casa de Sasan, que governou de 224 a 651 DC. Sucedendo ao Império Parta, foi reconhecido como uma das principais potências mundiais, junto com seu arquirrival vizinho, o Império Romano Bizantino, por um período de mais de 400 anos. Fundado por Ardashir I, após a queda do Império Parta e a derrota do último rei Arsácida, Artabano V, englobou em sua máxima extensão os atuais Irã, Iraque, Arábia Oriental (Bahrain, Kuwait, Oman, Qatif, Qatar, Emirados Árabes Unidos), o Levante (Síria, Palestina, Líbano, Israel, Jordânia), Armênia, o Cáucaso (Geórgia, Azerbaijão, Daguestão, Ossétia do Sul[2], Abecásia[3]), Egito, grandes partes da Turquia, a maioria da Ásia Centra (Afeganistão, Turquemenistão, Uzbequistão, Tajiquistão), Iêmen e Paquistão. De muitas formas, o período Sassânida testemunhou o pico da antiga civilização iraniana, que influenciou a cultura romana, chegando a alcançar a Europa Ocidental, África, China e Índia. Muito do que ficou mais tarde conhecido como cultura islâmica em arte, arquitetura, música e outras matérias, foi transferida dos sassânidas através do mundo islâmico. 

Império Sassânida em sua maior extensão,
cerca de 620 DC, sob o rei Khosrau II
Ardashir I, o governador iraniano local de Persis (a moderna província de Fars, Irã) começou a subjugar os territórios vizinhos, desafiando o domínio Arsácida. Ele confrontou Artabano V na Batalha de Ormozdgan em 28 de abril de 224 DC, talvez num local próximo de Isfahan (na província de Isfahan do Irã moderno, 340 km ao sul de Teerã), derrotando-o e estabelecendo o Império Sassânida. Os Sassânidas não somente assumiriam o legado da Pártia como castigo persa de Roma, mas também tentariam restaurar as fronteiras do Império Aquemênida, brevemente conquistando o Levante, Anatólia e o Egito, do Império Romano do Oriente, durante o reino de Khosrau II (590 a 628 DC); contudo, eles perderiam esses territórios para Heráclio, o último imperador romano antes das conquistas árabes. 
Castelo de Firuzabad, construído por Ardashir I
Assim que designado Xá (shah é o título dado aos governantes máximos do Irã, em sua língua, e que equivale a Rei ou Imperador; entretanto, muitos desses governantes incorporaram ao seu nome o título; em português o título é mais conhecido como Xá) do Império Sassânida, Ardashir I mudou sua capital para o sul de Pars (Fars), fundando a cidade de Ardashir-Khwarrah (atual Firuzabad), protegida por altas montanhas e facilmente defendida por passos estreitos, onde construiu o castelo que seria o centro de seus esforços para ganhar mais poder. Após estabelecer domínio sobre Pars, Ardashir rapidamente estendeu seu território exigindo fidelidade dos príncipes locais e ganhando controle sobre todas as províncias vizinhas, até diretamente combater Artabano V, morto na Batalha de Hormozgan. Nos anos seguintes, rebeliões locais se formariam em torno do Império; contudo, Ardashir I expandiu seu novo império para o leste e para o noroeste, conquistando várias províncias e pequenos reinos para as possessões dos Sassânidas. A partir daí Ardashir I prosseguiu invadindo as províncias de oeste do anterior Império Parta, realizando assaltos contra Hatra, Armênia e Adiabene, embora com menor sucesso. Em 230 ele fez ataques profundos em território romano, o que provocou um contra-ataque romano dois anos mais tarde, encerrado sem conclusão, embora o imperador Alexander Severus tenha celebrado um triunfo em Roma.
Shapur I, filho de Ardashir I, continuou a expansão do Império, conquistando a Báctria e a parte oeste do Império Kushan, enquanto liderava várias campanhas contra Roma. Invadindo a Mesopotâmia romana, Shapur capturou Carrhae e Nisibis, mas em 243 os persas foram derrotados em Resena (na moderna Síria) e os territórios foram recuperados pelos romanos. Logo Shapur I reiniciou a guerra, derrotando os romanos em 253 quando tomou e saqueou a Antióquia. O contra-ataque romano, com o imperador Valeriano, terminou em desastre quando o exército romano foi derrotado e sitiado em Edessa e Valeriano capturado por Shapur I que o manteve como prisioneiro até a sua morte. Shapur I explorou tal vitória avançando até a Anatólia (260 DC), quando se retirou em desordem após derrotas ante os romanos e a perda de todos os territórios que antes havia capturado deles.
Foi durante o reinado de Shapur I – e protegido por ele - que surgiu na Pérsia o Maniqueísmo, movimento religioso fundado pelo filósofo iraniano cristão Manes ou Maniqueu. O termo foi de tal forma popularizado, que maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda a doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal. Os reis que se seguiram reverteram a política de Shapur I, de tolerância religiosa. Sob pressão dos zoroastrianos e influenciado pelo alto sacerdote Kartir, seu filho mais velho (e sucessor de seu filho mais novo, Hormizd I), Baram I, matou Manes e perseguiu seus seguidores. Como seu pai, Baram II também acedeu aos desejos dos sacerdotes de Zoroastro. Durante seu reinado a capital sassânida, Ctesifonte, foi saqueada pelos romanos, sob o imperador Carus; a maioria da Armênia, após um século de domínio persa, foi cedida a Diocleciano.
Sucedendo a Baram III (que reinou brevemente em 293), Narseh envolveu-se em outra guerra contra os romanos e após um sucesso inicial contra o imperador Galerius em 296, foi decisivamente derrotado em 298. Galerius avançou na Média e Adiabene com vitórias sucessivas, garantindo Nisibis. Deslocou-se ao longo do Tigre tomando Ctesifonte. As negociações de paz começaram na primavera de 299, com Diocleciano e Galerius presidindo. Pelas pesadas condições de paz, a Pérsia desistiria de territórios em favor de Roma, trazendo novamente o Tigre como fronteira entre os dois impérios; a Armênia voltaria ao domínio romano; a Ibéria Caucasiana pagaria submissão a Roma através de um nomeado por ela; Nisibis, agora sob domínio romano, seria a única via para comércio entre a Pérsia e Roma, com esta exercendo controle sobre as cinco satrapias entre o Tigre e Armênia, e os sassânidas concordando em não interferir nos assuntos da Armênia e Geórgia. Ao final desta derrota, Narseh entregou o trono e morreu um ano depois, passando o reino sassânida ao seu filho Hormizd II. A agitação se espalhou por toda a terra e enquanto Hormizd II suprimia revoltas em Sistan e Kushan, não podia controlar os nobres e acabou assassinado por beduínos numa viagem de caçada, em 309.
Logo após a morte de Hormizd II, os árabes do norte começaram a saquear as cidades do oeste do império, atacando até mesmo a província de Fars, lar dos reis sassânidas. Os nobres persas mataram um, cegaram outro e aprisionaram o terceiro (que acabou fugindo para território romano) dos filhos de Hormizd II, reservando o trono para Shapur II, filho ainda não nascido de uma das esposas de Hormizd II, que foi coroado em seu útero. Assim que teve idade, Shapur II assumiu o poder, rapidamente mostrando ser um ativo e efetivo governante. Conduziu seu pequeno, mas disciplinado exército e venceu os árabes do sul. Iniciou então sua primeira campanha contra os romanos no oeste, onde conseguiu uma série de vitórias sem ganhos territoriais por não conseguir a cidade chave de Nisibis. Tais campanhas cessaram por ataques nômades ao longo da fronteira leste do Império, que ameaçavam a Transoxiana[4], uma área estratégica para a Estrada da Seda. Em sua marcha para o leste destruiu as tribos da Ásia Central, anexando-as como nova província, hoje conhecida como Afeganistão. 
Cabeça de Shapur II, décimo rei
do Império Sassânida 
Essa vitória foi seguida de uma expansão cultural e a arte sassânida penetrou o Turquestão, chegando até a China. Junto com o rei nômade Grumbates, Shapur II iniciou sua segunda campanha contra os romanos em 359, retomando cidades que haviam sido recuperadas pelos romanos. Em resposta, o imperador romano Juliano penetrou profundamente no território persa e derrotou as forças de Shapur II em Ctesifonte sem, contudo, tomar a capital, sendo morto quando tentava retornar a território romano. Seu sucessor, Joviano, emboscado na margem oriental do Tigre, teve que devolver todas as províncias que os persas haviam cedido aos romanos em 298, bem como Nisibis e Singara (posto fortemente guarnecido na extremidade norte da Mesopotâmia), para ter garantida passagem segura ao seu exército, para fora da Pérsia. Shapur II perseguiu uma severa política religiosa: sob seu reinado, a coleção da Avesta, textos sagrados do Zoroastrismo, foi completada, a heresia e a apostasia foram punidas e os cristãos foram perseguidos, como reação à cristianização do Império Romano fomentada por Constantino, o Grande. Ao tempo de sua morte, o Império Persa estava mais forte do que nunca, com seus inimigos do leste pacificados e a Armênia sob controle persa.
Da morte de Shapur II até a primeira coroação de Kavad I, houve um período de muita paz com os romanos – por essa época já Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, sediado em Constantinopla -, apenas interrompida por duas breves guerras: a primeira em 421-422 e a segunda em 440. Por todo esse período a política religiosa sassânida diferiu dramaticamente de rei para rei. A despeito de uma série de fracos líderes, o sistema administrativo estabelecido por Shapur II permaneceu forte e o império continuou a funcionar efetivamente. Durante o tempo de Baram IV (388-399), a Armênia foi dividida por tratado entre os Impérios Romano (uma pequena parte do oeste da Armênia) e Sassânida (com domínio sobre a maior parte da Armênia). Yazdegerd I (399 a 421), seu filho, proibiu a perseguição contra os cristãos, punindo nobres e sacerdotes que os perseguiam. Teve uma era de paz com os romanos, com o jovem Teodosio II (408 a 450) sob sua tutela, casou com uma princesa judia e com ela teve um filho.
Seu sucessor foi seu filho Baram V (421 a 438), um dos mais conhecidos reis sassânidas e herói de muitos mitos. Em 427 ele esmagou uma invasão no leste por parte dos nômades Heftalitas, estendendo sua influência na Ásia Central onde sua figura sobreviveu por séculos na cunhagem de Bukhara (no moderno Uzbequistão). Depôs o rei vassalo da porção persa da Armênia, tornando-a uma província. Teve muitas vitórias sobre os romanos e simbolizou um rei a altura de uma idade de ouro, personificando a prosperidade real. Durante o seu tempo, as melhores peças da literatura sassânida foram escritas, peças notáveis de música sassânida foram produzidas e esportes como o polo tornaram-se passatempo real, uma tradição que permanece até hoje em muitos reinos.
Seu filho Yazdegerd II (438 a 457) foi, de muitas formas, um governante moderado, mas em contraste com Yazdegerd I, praticou uma política severa para com as religiões minoritárias, particularmente a cristã. Contudo, na Batalha de Avarayr (451), os súditos armênios, conduzidos por Vardan Mamikonian, garantiram à Armênia a livre profissão da fé cristã, mais tarde confirmado pelo tratado de Nvarsak (484). Em 443 lançou uma prolongada campanha contra os Kidaritas, que durou até a sua morte em 457.
Hormizd III (457-459), seu filho mais novo, ascendeu ao trono e entrou em luta com seu irmão mais velho, Peroz I, sendo morto por ele em 459. Os Hunos Brancos, que já haviam atacado a Pérsia no início do século V, derrotaram Peroz I (457-484) em 484, quando ele foi morto e seu exército liquidado. Após essa vitória os hunos avançaram até a cidade de Herat, lançando o império no caos. Finalmente um nobre iraniano, Sukhra, da antiga família de Karen, restaurou um pouco da ordem, elevando ao trono Balash, um dos irmãos de Peroz I. Balash (484-488) foi um monarca brando e generoso que fez concessões aos cristãos, mas não tomou qualquer providência contra os inimigos do Império, particularmente os hunos brancos. Após um reinado de quatro anos, foi cego e deposto pelos magnatas, sendo substituído por seu sobrinho Kavad I.


[1] O “Protetor Geral das Regiões Ocidentais” foi uma administração imperial imposta pela China Han sobre muitos estados menores e anteriormente independentes, que ficaram conhecidos na China como chineses das “Regiões Ocidentais”. Tais regiões referiam-se, principalmente, a áreas a oeste do Passo Yumen, especialmente as da bacia do rio Tarim.
[2] A Ossétia é uma região etno-linguística localizada nas duas vertentes do Grande Cáucaso e que é habitada principalmente pelos ossetas, um povo iraniano que fala a língua osseta (um idioma indo-iraniano). A área de língua osseta ao sul da principal cordilheira do Cáucaso encontra-se dentro das fronteiras legais da Geórgia, mas está, em grande parte, sob controle da República da Ossétia do Sul, um governo, na prática, não reconhecido internacionalmente.
[3] A Abecásia é uma região do Cáucaso, margem oriental do Mar Negro, e uma república autônoma ao norte da Geórgia, que se declara independente, desde o fim da guerra civil de 1992-1993, que arruinou a economia local e matou milhares de civis.
[4] Transoxiana ou Transoxania é o nome antigo usado para a porção da Ásia Central que corresponde, aproximadamente, aos modernos Uzbequistão, Tajiquistão, sul do Kirjistão e sudoeste do Cazaquistão. A região era uma das satrapias da dinastia Aquemênida da Pérsia, sob o nome Sogdiana.

Prossegue na próxima postagem com a PARTE 6

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 4

III.3 – IMPÉRIO PARTA (OU IMPÉRIO ARSÁCIDA) (247 AC-224 DC)
 
Andrágoras, o sátrapa selêucida que
deu origem ao Império Parta
 
Para bem entendermos a ascensão do Império Parta, temos que voltar um pouco no tempo já que os partas surgiram na história do Irã, bem antes da queda do Império Selêucida.
Em 247 AC, conforme já mencionado acima, Andrágoras, o governador Selêucida (sátrapa) da Pártia, proclamou a independência dos selêucidas, no momento em que, seguindo a morte do rei da Pérsia, Antíoco II, Ptolomeu III (terceiro rei da dinastia ptolemaica, no Egito, de 246 a 222 AC) tomou o controle da capital Selêucida na Antióquia, deixando incerto, por um período, o futuro da dinastia Selêucida. 
Arsaces I, fundador da dinastia
Arsácida da Pártia
Antes que Arsaces I da Pártia se tornasse o fundador da dinastia Arsácida, ele fora eleito líder das tribos Parni (dos Parnos), uma antiga tribo do centro da Ásia, de povos de etnia iraniana oriental e uma das várias tribos nômades da confederação do Dahae. Falavam uma língua iraniana oriental, em contraste com a língua iraniana do noroeste, falada naquela época na Pártia, província do noroeste, primeiro sob os aquemênidas e então sob o Império Selêucida. Com a independência da Pártia do Império Selêucida e a resultante perda do apoio militar daquele império, Andrágoras teve dificuldade na manutenção da suas fronteiras e cerca de 238 AC, sob o comando de Arsaces I e seu irmão Tiridates, os Parnos invadiram a Pártia tomando controle da sua região norte. Logo em seguida os Parnos tomaram o resto da Pártia de Andrágoras, matando-o no processo. O Império Parta foi, portanto, o reino da dinastia Arsácida (de Arsaces I), que reuniu e governou o Platô Iraniano após a conquista Parni de Pártia, derrotando o Império Selêucida ao final século III AC, com o controle intermitente da Mesopotâmia entre 150 AC e 224 DC. O Império Parta rapidamente incluiu também a Arábia Oriental. 
Fraates I, primeiro imperador Arsácida
sem interferência Seêucida
Por um tempo, Arsaces consolidou a posição na Pártia e Hircânia (província a sudeste do mar cáspio no moderno Irã), aproveitando a invasão do território selêucida no oeste por Ptolomeu III (246-222 AC) do Egito. Este conflito com Ptolomeu, a Terceira Guerra Síria[1], também permitiu que Diodotus I (sátrapa selêucida da Báctria) se rebelasse formando o Reino Greco-Bactriano, na Ásia Central, conforme visto anteriormente. Seu sucessor, Diodotus II, formou uma aliança com Arsaces contra os Selêucidas, mas Arsaces foi temporariamente despejado da Pártia pelas forças de Selêucos II (como vimos anteriormente), em 246-225 AC. Após algum tempo no exílio entre a tribo nômade Apasiacae, Arsaces conduziu um contra-ataque e recapturou a Pártia. Antíoco III, o Grande (222-187 AC), não pode retaliar à época pois suas tropas se encontravam envolvidas no sufoco da rebelião de Molon na Média. Em 210 ou 209, entretanto, ele lançou uma campanha maciça para retomar a Pártia e Báctria, sem sucesso, mas com um armistício de paz com Arsaces II: este ficava com o título de rei em troca de sua submissão a Antíoco III como seu superior. Os Selêucidas não puderam mais intervir nos assuntos da Pártia devido à crescente intromissão da República Romana e a derrota selêucida em Magnésia (região da Grécia), em 190 AC. Phriapatius da Pártia (191-176 AC) sucedeu a Arsaces II e Fraates I da Pártia (176-171 AC) posteriormente ascendeu ao trono, governando a Pártia sem mais interferência selêucida. 
Mitrídates I, que expandiu o Império
Parta para o leste, sul e oeste
Fraates I expandiu o controle da Pártia, mas a maior expansão do seu poder e território aconteceria no reinado de seu irmão e sucessor, Mitrídates I da Pártia (já mencionado anteriormente), que escritores comparam a Ciro, o Grande.
As relações entre Pártia e Greco-Báctria se deterioraram com a morte de Diodotus II, quando Mitrídates I capturou duas eparquias[2] deste reino. Desviando seus objetivos do reino Selêucida, Mitrídates I invadiu a Média e ocupou a Ecbatana (cidade importante da Média, oeste do Irã) em 147 ou 148 AC, região desestabilizada pela supressão selêucida recente de uma rebelião conduzida por Timarchus (usurpador no reino Selêucida entre 163 e 160 AC). Essa vitória foi seguida da conquista da Babilônia, na Mesopotâmia, onde Mitrídates I teve moedas cunhadas em Selêucia e uma cerimônia de investidura oficial. Enquanto Mitrídates retirava-se para Hircânia, suas forças subjugavam reinos menores, com sua autoridade estendendo-se para leste até o rio Indus. Embora Hecatompylos tivesse servido como primeira capital Parta, Mitrídates I estabeleceu residências reais em Selêucia, Ecbatana, Ctesifonte (mais tarde a capital oficial do reino 33 quilômetros a sudeste da moderna Bagdá, Iraque) e a recém fundada cidade de Mithradatkert (fortaleza de Mitrídates, antiga Nisa, no Turquemenistão), onde tumbas dos reis Arsácidas foram construídas e mantidas.
Conforme introduzido acima, Demétrio II Nicator esboçou uma contraofensiva contra os Partas na Mesopotâmia, mas embora alguns sucessos iniciais, foi derrotado, capturado e conduzido para Hircânia onde foi tratado com toda a hospitalidade, recebendo de Mitrídates I a sua filha como esposa. Da mesma forma, Antíoco VII Sidetes, irmão de Demétrio II, assumindo o trono logo tentou a retomada da Mesopotâmia, então sob Fraates II da Pártia (138-128 AC). Houve um instante em que os Partas pediram a paz que Antíoco VII se recusou a aceitar, a menos que eles desistissem de todas as terras conquistadas, com exceção da própria Pártia, pagassem pesado tributo e libertassem Demétrio II. Os Arsácidas libertaram Demétrio II enviando-o para a Síria, mas negaram o atendimento das demais condições. Tendo que subjugar as revoltas que eclodiam, a principal força parta penetrou na região matando Antíoco VII em batalha. Seu filho Selêucos tornou-se refém dos Partas e sua filha foi adicionada ao harém de Fraates II.
Enquanto os partas voltavam a conquistar os territórios perdidos no oeste, outra ameaça surgia no leste. Em 177-176 AC, após receber invasões da China que forçaram outras invasões culminando com a ocupação das fronteiras nordeste do Império Parta, Mitrídates I foi forçado a deslocar-se para Hircânia, após sua conquista da Mesopotâmia. Uma das tribos invasoras (Saka) mantinha mercenários que lutavam com Fraates II, contra Antíoco VII, mas que chegaram tarde para participar do conflito; quando Fraates II recusou-se a pagar seus salários, os Saka se revoltaram e ele tentou submetê-los com a ajuda de antigos soldados selêucidas que também o abandonaram, se aliando aos Saka. Fraates II marchou então contra essa força combinada e foi morto em batalha. Seu sucessor Artabano I da Pártia (128-124 AC) teve destino semelhante lutando contra nômades no leste. Mitrídates II da Pártia (124-90 AC) recuperou, mais tarde, todas as terras perdidas aos Saka no Sistan[3]
Mitrídates II, iniciador do comércio da seda com a China
Em seguida à retirada Selêucida da Mesopotâmia, o governador Parta da Babilônia foi enviado pela corte Arsácida a conquistar Charakene[4] (Characene, Mesene ou Meshan), então dominada por Hyspaosines, de Charax Spasinou. Quando a tentativa falhou, Hyspaosines invadiu a Babilônia em 127 AC, ocupando a Selêucia. Contudo, em 122 AC Mitrídates II expulsou Hyspaosines da Babilônia fazendo os reis de Charakene vassalos dos Partas. Depois que Mitrídates II estendeu o controle parta mais a oeste, ocupando Dura-Europos (margem direita do Eufrates, atual Síria) em 113 AC, meteu-se em conflito com o Reino da Armênia. Suas forças derrotaram e depuseram Artavasdes I da Armênia em 97 AC, tomando seu filho Tigranes – que se tornaria Tigranes II, o Grande, da Armênia (95-55 AC) - como refém.
Durante o reino do Imperador Wu de Han (141 – 87 AC), o Império Han, da China, enviou uma delegação à corte de Mitrídates II, em 121 AC, abrindo relações comerciais oficias com a Pártia, via “Estrada da Seda”, embora sem conseguir uma desejada aliança militar para combater seus inimigos. Os mercadores da Sogdia, falando uma língua iraniana oriental, serviram como os revendedores primários desse vital comércio da seda entre a Pártia e a China Han[5].
O Império Parta transformou-se no arqui-inimigo oriental do Império Romano, limitando a sua expansão além da Capadócia (Anatólia Central). Os dois impérios colidiram por mais de dois séculos na Mesopotâmia, com sérias derrotas iniciais infligidas aos romanos, como a de Crassus, na Batalha de Carrhae (moderna Harran, a sudeste da Turquia), em 54 AC, ou a de Marco Antônio (36 AC). O Império Yuezhi Kushan, na região norte da Índia, garantia a segurança da fronteira leste da Pártia e, por isso, a partir de meados do século I AC, a corte Arsácida focou na defesa da fronteira oeste, principalmente contra Roma.
Um ano após Mitrídates II ter subjugado a Armênia, Lucius Cornelius Sulla, o pro-cônsul (funcionário romano que atuava em nome de um cônsul) romano da Cilícia[6], fez um acordo com o diplomata Parta Orobazus, pelo qual ambos acordavam que o rio Eufrates serviria como fronteira entre Pártia e Roma. A despeito desse acordo, em 93 ou 92 AC, a Pártia lutou na Síria (margem romana do Eufrates) contra o líder tribal Laodice e seu aliado selêucida Antíoco X Eusebes. Quando um dos últimos monarcas selêucidas, Demétrio III Eucaerus, tentou sitiar Beroia (moderna Alepo), a Pártia enviou ajuda militar aos habitantes e Demétrio foi derrotado.
Após o governo de Mitrídates II, Gotarzes I governou a Babilônia e Orodes I (90 a 80 AC) governou a Pártia separadamente; esse sistema de monarquia dividida enfraqueceu a Pártia, permitindo que Tigranes II da Armênia anexasse território parta a oeste da Mesopotâmia. Essas terras só retornariam à Pártia durante o reinado de Sanatruces da Pártia (78 a 71 AC). Logo após a eclosão da Terceira Guerra Mitridática (última das três guerras entre Roma e Pártia), Mitrídates VI do Ponto, um aliado de Tigranes II da Armênia, pediu ajuda da Pártia contra Roma, que Sanatruces recusou dar. Quando o comandante romano Lucullus marchou contra Tigranocerta, a capital da Armênia, em 69 AC, Mitrídates VI e Tigranes II pediram ajuda de Fraates III da Pártia (71 – 58 AC), que também não os atendeu. Após a queda de Tigranocerta, ele reafirmou, com Lucullus, o Eufrates como limite entre a Pártia e Roma.
O filho de Tigranes II da Armênia, Tigranes, o Jovem, tentou um golpe contra seu pai e falhou. Fugiu então para Fraates III, convencendo-o a marchar contra a nova capital armênia em Artaxarta. Quando este cerco falhou, Tigranes o Jovem fugiu novamente, desta vez para o comandante romano Pompeu, oferecendo-se como guia através da Armênia, mas quando Tigranes II submeteu-se a Roma como rei cliente, Tigranes o Jovem foi levado para Roma como refém. Fraates III exigiu a liberdade de Tigranes o Jovem, que Pompeu recusou. Em retaliação, Fraates III lançou uma invasão na Corduene (sudeste da Turquia) onde, de acordo com relatos romanos conflitantes, o cônsul romano Lucius Afranius expulsou os Partas, por meios militares ou diplomáticos.
Fraates III foi assassinado por seus filhos, Orodes II da Pártia e Mitrídates III da Pártia, após o que Orodes virou-se contra o irmão que fugiu da Média para a Síria Romana. O pro-cônsul romano na Síria, Aulus Gabibius, marchou em apoio a Mitrídates III mas teve que retornar em ajuda a Ptolomeu XII que enfrentava revolta no Egito. Mesmo sem o apoio romano, Mitrídates III conquistou a Babilônia, cunhando moedas na Selêucia até 54 AC, quando um general de Orodes II, conhecido apenas como Surena, recapturou a Selêucia executando Mitrídates III.
Marcus Licinius Crassus, um dos membros do primeiro triunvirato romano (Cesar, Crassus e Pompeu), agora pro-cônsul da Síria, invadiu a Pártia em 53 AC como atrasado apoio a Mitrídates III. Enquanto seu exército marchava para Carrhae, Orodes II invadiu a Armênia impedindo o apoio de Artavasdes II da Armênia, aliado de Roma, persuadindo Artavasdes a uma aliança de casamento entre Pacorus I da Pártia, príncipe herdeiro, com a sua irmã. Surena, com um exército com inferioridade de quatro para um, lutou e venceu o exército de Crassus, que fugiu para o interior da Armênia. À frente de seu exército, Surena aproximou-se de Crassus para propor uma negociação que Crassus aceitou. Quando montava para o encontro, um oficial seu suspeitou de uma emboscada e segurou as rédeas do seu cavalo, provocando uma súbita luta entre partas e romanos que acabou com a morte de Crassus. Com seu exército, cativos de guerra e um precioso saque, Surena viajou 700 km de volta para Selêucia onde sua vitória foi celebrada. Temendo suas ambições para com o trono Arsácida, Orodes II mandou executar Surena logo em seguida.
Estimulados por sua vitória sobre Crassus, os Partas tentaram capturar territórios romanos na Ásia Ocidental. O príncipe herdeiro Pacorus I, com seu comandante Osaces, atacou a Síria até a Antióquia, em 51 AC, mas foi repelido por Gaius Cassius Longinus que emboscou e matou Osaces. Os Arsácidas se juntaram a Pompeu contra Júlio Cesar (no Primeiro Triunvirato), enviando também tropas para apoiar as forças contra Cesar Augusto na batalha de Philippi, Macedônia, em 42 AC, que selou a vitória do Segundo Triunvirato (Gaio Julio Cesar Octaviano ou Cesar Augusto, Marco Antônio e Marco Emilio Lepido) contra os assassinos de Júlio Cesar, Cassius e Brutus. Após a ocupação da Síria, Pacorus I e seu comandante Barzapharnes invadiram o Levante romano. Subjugaram todos os povoamentos ao longo da costa do Mediterrâneo até Ptolomais (moderna Acre, em Israel), com a exceção do Tiro. Na Judea, as forças judias pró Roma, do alto sacerdote Hircano II, Fasael e Herodes foram derrotadas pelos Partas e seu aliado judeu Antígono II Matatias, mais tarde rei da Judea, enquanto Herodes fugia para sua fortaleza de Massada. A despeito desses sucessos, os Partas logo foram expulsos do Levante por uma contraofensiva romana. Uma força parta na Síria, comandada pelo general Pharnapates, foi derrotada pelo romano Ventidius na batalha de Amanus Pass, causando a retirada de Pacorus I da Síria; quando ele retornou, na primavera de 38 AC, enfrentou Ventidius em nova batalha no nordeste de Antióquia. Pacorus foi morto durante a batalha e suas forças se retiraram para além do Eufrates. Sua morte causou uma crise na sucessão, quando Orodes II escolheu Fraates IV da Pártia como seu novo herdeiro.
Assim que assumiu o trono, Fraates IV eliminou a concorrência ao trono matando e exilando seus próprios irmãos. Um deles, Monaeses, fugiu para Marco Antônio e convenceu-o a invadir a Pártia. Marco Antônio derrotou o aliado da Pártia, Antígono II Matatias, da Judea, em 37 AC, instalando Herodes o Grande, como rei cliente, em seu lugar. No ano seguinte, quando Marco Antônio marchou para Erzurum (extremo leste da Anatólia), Artavasdes II da Armênia, mudou de lado mais uma vez, enviando tropas adicionais para ele. Marco Antônio invadiu a Média Atropatene (o moderno Azerbaijão Iraniano), então governado pelo aliado da Pártia, Artavasdes I da Média Atropatene, com a intenção de capturar sua capital Praaspa. Contudo, Fraates IV emboscou a retaguarda das forças de Marco Antônio causando a retirada do apoio de Artavasdes II às forças de Marco Antônio. Os Partas perseguiram e fustigaram o exército de Marco Antônio em sua retirada para a Armênia, que finalmente conseguiu alcançar a Síria, muito enfraquecido. Através de um ardil que prometia um casamento de aliança, Marco Antônio aprisionou Artavasdes II em 34 AC, enviando-o para Roma e lá executando-o. Posteriormente tentou uma aliança com Artavasdes I da Média Atropatene, cujas relações com Fraates IV haviam recentemente azedado. Tal ideia foi abandonada quando as forças de Artavasdes I se retiraram da Armênia em 33 AC, escapando de uma invasão parta, enquanto seu rival Cesar Augusto atacava suas forças a oeste. Após o suicídio de Marco Antônio no Egito, o aliado da Pártia, Artaxis II reassumiu o trono na Armênia.
Cerca de 26 AC, Tiridates II da Pártia depôs Fraates IV - por curto espaço de tempo -, que rapidamente restabeleceu seu domínio com a ajuda dos nômades da Cítia. Tiridates II fugiu para os romanos levando consigo um dos filhos de Fraates IV. Em 20 AC Fraates IV conseguiu negociar a liberdade de seu filho com os romanos, que receberam em troca os estandartes legionários tomados em Carrhae, em 53 AC, bem como os sobreviventes prisioneiros de guerra, com isso selando uma paz com Roma, já sob Otaviano, agora Cesar Augusto, como primeiro Imperador Romano. Com o príncipe, Augusto também deu a Fraates IV uma escrava italiana que tornou-se mais tarde a rainha Musa da Pártia. Para garantir que seu filho Fraataces herdasse o trono sem incidentes, Musa convenceu Fraates IV a dar seus outros filhos a Augusto como reféns, fato que ele usou como propaganda de submissão da Pártia a Roma, como um de seus grandes feitos. Quando Fraataces assumiu o trono como Fraates V (2 AC a 4 DC), Musa casou com seu próprio filho governando junto com ele. A nobreza parta, desaprovando as relações incestuosas de mãe e filho e a noção de um rei de sangue não Arsácida, obrigou o casal ao exílio em território romano. Seu sucessor, Orodes III, reinou por apenas dois anos e foi sucedido por Vonones I, que tinha adotado maneirismos romanos por sua estada em Roma. A nobreza parta, enfurecida pelas simpatias de Vonones pelos romanos, apoiou um vindicante rival, Artabano III da Pártia (10 a 38 DC), que derrotou Vonones enviando-o para o exílio na Síria Romana.
Durante o reinado de Artabano III, dois irmãos plebeus judeus, Anilai e Asinai, de Nehardea (próxima da moderna Fallujah, Iraque), lideraram uma revolta contra o governador Parta, da Babilônia, derrotando-o e conseguindo de Artabano III o direito de governar a região, com medo de mais revoltas. A esposa Parta de Anilai envenenou Asinai com medo de que ele atacasse seu esposo por ser casado com não judia. A seguir, Anilai envolveu-se em um conflito armado contra um genro de Artabano III, que acabou derrotando-o. Com o regime judeu removido, os babilônios nativos passaram a ameaçar a comunidade judia obrigando-a a emigrar para a Selêucia. Quando esta cidade rebelou-se contra o domínio Parta, em 35-36 DC, os judeus foram novamente expulsos pelos gregos e arameus locais, desta feita para Ctesifonte, Nehardea (cidade da Babilônia próxima do encontro do Eufrates com o Nahr Malka e da moderna Faluja) e Nisibis (antiga Mesopotâmia, hoje moderna Turquia).



[1] As Guerras Sírias foram uma série de seis guerras entre o Império Selêucida e o Reino Ptolomaico do Egito, estados sucessores do Império de Alexandre, o Grande, durante os séculos II e III AC, pela conquista da região da Coele-Síria, uma das poucas rotas para o Egito. Esses conflitos drenaram material e homens de ambas as partes conduzindo às suas eventuais destruições e conquistas por Roma e Pártia.
[2] Eparquia é uma palavra grega que pode ser traduzida como domínio ou jurisdição sobre algo como uma província, prefeitura ou território. No uso secular, a eparquia denotava um distrito administrativo na região do reino Greco-Báctria.
[3] Conhecido em épocas anteriores como Sakastan (terra dos Saka), o Sistan é uma região histórica e geográfica que seria formada pelos atuais Irã oriental, sul do Afeganistão e oeste do Paquistão.
[4] Charakene foi um reino do Império Parta localizado no início do Golfo Pérsico, parte sul do atual Iraque. Sua capital, Charax Spasinou, foi um importante porto para o comércio entre a Mesopotâmia e a Índia, também provendo instalações para a cidade de Susa, mais a montante no rio Karun.
[5] A dinastia Han foi a segunda dinastia imperial da China (201 AC a 220 DC), e seu período é considerado a era de ouro da história chinesa. Até hoje o grupo étnico majoritário da China refere-se a si próprio como o “povo Han” e a china daquela dinastia ficou sendo conhecida como China Han.
[6] Na antiguidade, a Cilícia era a região costeira da Ásia Menor, existindo como entidade política do Reino Armênio da Cilícia, durante o antigo Império Bizantino. Estendendo-se da costa sul da moderna Turquia, a Cilícia avança ao norte e nordeste da ilha de Chipre, correspondendo à moderna região de Çukurova, na Turquia.
Continua com a Parte 5

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 3

III.2 – CONQUISTA HELÊNICA E IMPÉRIO SELÊUCIDA (312-248 AC)


Alexandre, o Grande, da Macedônia

Entre 334 e 331 AC, Alexandre III, o Grande, da Macedônia, derrotou Dario III nas batalhas de Granicus, Issus e Gaugamela, rapidamente conquistando todo o Império Persa. Como rei do Império Persa, Alexandre ainda invadiu a Índia, em 326, conquistando importantes batalhas e retornando, finalmente, à Babilônia, por solicitação de suas tropas, ansiosas por retornar ao lar. Morreu na Babilônia, no palácio de Nabucodonosor, em 323 AC, cidade em que planejava estabelecer a capital do seu império, sem executar uma série de campanhas planejadas que seriam iniciadas com uma invasão da Arábia.
Jovem e sem deixar herdeiro (seu único filho legítimo conhecido, Alexandre IV, gerado por Roxane, nasceria após a morte de Alexandre), o império macedônico de Alexandre entrou em colapso e passaria por 40 anos de guerras civis, ao final das quais o mundo helenístico se estabeleceria em quatro blocos estáveis de poder: o Egito Ptolomaico[1], a Mesopotâmia e Ásia Central Selêucida, a Anatólia Atálida[2] e a Macedônia Antigônida (de Antígono II ou Gônatas). Durante o processo, Alexandre IV e Felipe III (um meio irmão de Alexandre) foram assassinados. 
Seleucos I Nicator, primeiro
imperador grego da Pérsia
após Alexandre
Seleucos I Nicator, um dos generais de Alexandre, estabeleceu-se na Babilônia em 312 AC - ano geralmente usado para definir a data da fundação do Império Selêucida -, assumindo o controle da Pérsia e Mesopotâmia e formando o Império Selêucida, sua descendência ficando conhecida como a dinastia Selêucida. Após vencer Antígono Monoftalmo (da Macedônia) na Batalha de Isso em 301 AC, ao lado de Lisímaco, Seleucos obteve controle sobre a Anatólia oriental e sobre a parte norte da Síria. Nessa última área, fundou uma nova capital em Antióquia (antiga Antakia, na Síria, hoje na Turquia), às margens do rio Orontes, próximo ao Mediterrâneo, cidade a qual deu o nome do pai. Uma outra capital alternativa foi estabelecida em Selêucia, margem ocidental do Tigre, ao norte da Babilônia, Mesopotâmia. O império de Seleucos alcançou sua extensão máxima após a morte de seu aliado de longa data, Lisímaco, na Batalha de Corupédio em 281 AC. Seleucos ampliou seu controle, abarcando a Anatólia ocidental. Ainda tinha esperanças de controlar as terras de Lisímaco na Europa - Trácia, e mesmo a própria Macedônia -, mas terminou por ser assassinado em 281 AC por Ptolomeu Cerauno, da Macedônia, logo ao chegar ao continente europeu.
Seu filho e sucessor, Antíoco I Sóter, mostrou-se incapaz de recomeçar de onde seu pai havia parado, nunca conquistando as partes europeias do império de Alexandre. Ainda assim, possuía um reino incrivelmente vasto - consistia de basicamente todas as porções asiáticas do império e a tarefa de apenas manter o império já foi formidável, tendo como inimigos mais importantes Antígono II Gônatas, na Macedônia, e Ptolomeu II Filadelfo, no Egito.
Uma revolta na Síria eclodiu quase imediatamente. Logo foi obrigado a fazer paz com o assassino de seu pai, Ptolomeu Cerauno, aparentemente abandonando a Macedônia e a Trácia. Na Anatólia não pôde subjugar a Bitínia (região a noroeste da Ásia Menor, na costa do Mar Negro) ou as dinastias persas que governavam na Capadócia (região central da Ásia Menor). Em 278 AC os gauleses (povos de origem celta oriundos do oeste europeu, principalmente França atual) irromperam na Anatólia e Antíoco I conseguiu vencê-los utilizando elefantes de guerra da Índia.
Ao final de 275 AC, a questão da Coele-Síria[3], aberta entre as casas de Seleucos e Ptolomeu, desde a repartição de 301 AC, levou a hostilidades (Primeira Guerra Síria). Embora sempre estivesse no domínio ptolomaico, a casa de Seleucos manteve sua reivindicação. A guerra não alterou materialmente as fronteiras dos dois reinos, embora cidades fronteiriças como Damasco e os distritos costeiros da Ásia Menor pudessem trocar de mãos.
Seu filho mais velho, Seleucos, havia governado no oriente, como vice-rei, de 275 AC até 268/267 AC e foi condenado à morte por Antíoco sob acusação de revolta. Cerca de 262 AC, Antíoco tentou quebrar o crescente poder de Pérgamo pela força das armas, mas foi derrotado e morreu pouco depois, sendo sucedido por seu segundo filho Antíoco II Theos (261 AC)
Antíoco II Theos herdou de seu pai em 261 AC, um estado de guerra com o Egito Ptolomaico, a “Segunda Guerra Síria”, lutada ao longo das costas da Ásia Menor, e as constantes intrigas de déspotas triviais e agitadas cidades estados da Ásia Menor. Antíoco II também fez alguma tentativa para colocar um pé na Trácia. Durante a guerra, recebeu o título Theos (Deus em grego) dos cidadãos de Mileto por ter libertado a cidade de seu tirano Timarchus. Durante o tempo em que se ocupava com a guerra contra o Egito, seu sátrapa na Pártia[4], Andrágoras, proclamou sua independência. Da mesma forma, seu sátrapa, Diodotus, na Báctria[5], também revoltou-se, em 255 AC, fundando o reino Greco-Bactriano que, posteriormente, expandiu-se na Índia, em 180 AC, para formar o Reino Indo-Grego (180-1 AC). Então, cerca de 238 AC, Arsaces conduziu uma revolta dos partas contra Andrágoras, conduzindo à fundação do Império Parta.
Por essa época, Antíoco II fez paz com Ptolomeu II Filadelfo, encerrando a Segunda Guerra Síria. Para selar o pacto, Antíoco repudiou sua esposa Laodice I e exilou-a em Éfeso (costa oeste da Anatólia, próximo de Mileto), casando-se com a filha de Ptolomeu, Berenice, recebendo importante dote. Durante sua estada em Éfeso, Laodice I urdiu várias tramas para tornar-se rainha novamente. Em 246 AC, Antíoco II havia deixado Berenice e seu filho pequeno, Antíoco, na Antióquia, para viver novamente com Laodice I, na Ásia Menor. Laodice usou a oportunidade para envenenar Antíoco, enquanto seus sectários assassinavam Berenice e seu filho na Antióquia. Laodice então proclamou rei Seleucos II, seu filho mais velho com Antíoco.
Quando Seleucos II Calínico, subiu ao trono por volta de 246 AC os selêucidas já estavam em declínio. Além das secessões da Pártia e da Bactriana, seu reinado começou a Terceira Guerra Síria. Ptolomeu III, irmão de Berenice e governante do Egito, invadiu o Império Selêucida marchando vitorioso para o Tigre e além. Teve a submissão das províncias orientais do Império Selêucida enquanto as frotas egípcias varriam a costa da Ásia Menor. Seleucos II permaneceu seguro no interior da Ásia Menor e quando Ptolomeu voltou ao Egito, conseguiu recuperar o norte da Síria e as províncias mais próximas do Irã. Contudo, Antíoco Hierax, um irmão mais jovem de Seleucos II, se estabelecera como seu rival na Ásia Menor, com um grupo ao qual a própria Laodice aderira. Na Batalha de Ancyra (cerca de 235 AC), Seleucos II sofreu uma enorme derrota e deixou o país, além das montanhas Taurus (cadeia de montanhas que separa a região costeira mediterrânea do sul da Turquia do Planalto Central Anatoliano), para o seu irmão e outras potências da península. Seleucos II então empreendeu uma marcha forçada para recuperar a Pártia, o que resultou em nada. Alguns autores mencionam que ele teria feito uma paz com Arsaces da Pártia, que reconhecera sua realeza. Também na Ásia Menor a dinastia selêucida perdia controle, pois os gauleses já se haviam estabelecido completamente na Galácia[6]; reinos semi-independentes e semi-helenizados haviam surgido na Bitínia, em Ponto[7] e na Capadócia (região da Anatólia Central); e a cidade de Pérgamo, no ocidente, sob Áttalus I, asseverava sua independência sob a Dinastia Atálida, formando o Reino de Pérgamo. Antíoco Hierax, após uma tentativa fracassada para tomar os domínios de seu irmão, quando os seus próprios se perdiam, pereceu como fugitivo na Trácia em 227 AC. Cerca de um ano mais tarde, Seleucos II foi morto numa queda do seu cavalo, sendo sucedido por seu filho mais velho Seleucos III Cerauno e, posteriormente, por seu filho mais novo Antíoco III, o Grande. 
Antíoco III, recriador do império Selêucida
Seleucos III Soter, chamado Seleucos Cerauno, teve um breve reinado de três ano (225-223 AC) e foi assassinado na Anatólia por membros do seu exército enquanto em campanha contra Attalus I de Pérgamo.
O irmão de Seleucos III Cerauno estava na Babilônia quando do seu assassinato e sucedeu-o como Antíoco III, em 223 AC, herdando um estado desorganizado. Entretanto, sob o seu governo, a Pérsia teve um reflorescimento e Antíoco III se tornaria o maior dos governantes selêucidas após o próprio Seleucos I.
A Ásia Menor havia se separado e as províncias mais orientais se haviam dissolvido: a Báctria, sob o grego Diodotus de Báctria e a Pártia sob o chefete Arsaces. Logo que subiu ao poder, a Média (região noroeste do Irã, base cultural e política dos medas) e Fars se revoltaram com seus governadores, os irmãos Molon e Alexander.
O jovem rei, sob a influência do ministro Hermeias, chefiou um ataque à Síria Ptolomaica ao invés de enfrentar pessoalmente os rebeldes. O ataque contra o Império Ptolomaico foi um fiasco e os generais enviados contra Molon e Alexander foram um desastre. Somente na Ásia Menor, onde Aqueus, primo do rei, representou a causa Selêucida, seu prestígio foi recuperado, com o envio do poder Pérgamo de volta aos seus limites anteriores. Finalmente, em 221 AC, Antíoco III foi para o leste abafando a rebelião de Molon e Alexander. Seguiu-se a submissão da Média Menor, que havia feito sua independência com Artabazanes, após o que retornou para a Síria. Enquanto isso, o próprio Aqueus agora se revoltava, tomando o título de rei na Ásia Menor; admitindo que seu poder não estivesse sedimentado para um ataque à Síria, Antíoco desistiu de Aqueu, na ocasião, preferindo renovar suas tentativas contra a Síria Ptolomaica.
As campanhas de 219 e 218 AC levaram os exércitos selêucidas aos confins do reino ptolomaico, mas em 217 AC, Ptolomeu IV derrotou Antíoco III na Batalha de Ráfia, anulando todos os seus sucessos e causando a sua retirada para o norte do Líbano, embora ainda mantendo o controle de Selêucia Pieria (o porto de Antióquia). Em 216 AC os exércitos de Antíoco III marcharam para a Anatólia ocidental para abafar uma rebelião liderada por seu próprio primo, Aqueu. Em 214 AC Aqueu foi derrotado, preso e executado, mas a cidadela foi mantida até 213 AC por sua viúva Laodice, que então se rendeu. Tendo assim recuperado a parte central da Ásia Menor (já que o governo Selêucida teve que tolerar as dinastias de Pérgamo, Bitínia e Capadócia), Antíoco III iniciou a recuperação das províncias externas do norte e leste. Obrigou Xerxes da Armênia a reconhecer sua supremacia em 212 AC. Em 209, invadiu a Pártia, ocupando a capital do Império Parta, avançando até a Hircânia (sudeste do mar Cáspio, moderno Irã) e com o rei parta, Arsaces II, aparentemente implorando por paz.
O ano de 209 viu Antíoco III na Báctria, onde derrotou o rei greco-bactriano Eutidemo I (que se havia revoltado contra Diodotus) na batalha de Arius. Após sustentar um cerco em sua capital Bactra, Eutidemo I obteve uma paz honrosa pela qual Antíoco III prometeu a seu filho Demétrius a mão de uma de suas filhas. Seguindo os passos de Alexandre, atravessou para o Vale de Kabul (no atual Afeganistão), alcançando o reino do rei indiano Sofagaseno, em 206 AC.
Impérios Romano, Selêucida e Parta no ano 200 AC
De Selêucia, Antíoco III conduziu uma curta expedição ao Golfo Pérsico contra a Gerrha (margem ocidental do Golfo) na costa da Península Arábica, em 204/205 AC. Parece ter restaurado o Império Selêucida no leste, o que lhe fez merecer o título de “o Grande”. Nessa mesma época, Ptolomeu V Epifânio assumia o trono do Egito, quando Antíoco III teria feito um pacto com Felipe V da Macedônia para repartir as suas possessões. Por tal pacto, Felipe receberia as terras em torno do mar Egeu e Cirena (na atual Líbia), ao passo que Antíoco III anexaria o Egito e Chipre. Uma vez mais, Antíoco III atacaria a província de Coele-Síria e Fenícia e por 199 AC parece ter tido sua posse antes de que Scopas a recuperasse brevemente para Ptolomeu. Em 198 AC, Antíoco III derrotaria Scopas na batalha de Panium, próximo das fontes do rio Jordão, marcando o fim do domínio ptolomaico na Judéia e restaurando a glória do Reino Selêucida.
Antíoco III ainda realizou outras incursões à Ásia Menor quando enfrentou o antagonismo da República Romana, principalmente ao se aproximar do cartaginês Aníbal. Em 192 AC invadiu a Grécia, mas em 191 os romanos forçaram sua retirada para a Ásia Menor, logo invadida por eles que, já em 190 AC, a tinham em suas mãos. Pelo tratado de Apamea (188 AC), Antíoco III abandonou todo o país ao norte e oeste das montanhas Taurus. Como consequência deste golpe no poder Selêucida, as províncias externas do império, recuperadas por Antíoco III, readquiriram suas independências. Numa nova expedição ao Luristão, enquanto pilhando um templo persa, Antíoco III morreu em 187 AC.
O reino de seu filho e sucessor, Seleucos IV Filopator (187-175 AC), foi consumido na busca de recursos para pagamento de grandes indenizações aos romanos; ele acabou assassinado por seu ministro Heliodoro.
O irmão mais novo de Seleucos IV, Antíoco IV Epifânio, assumiu o trono em seu lugar e tentou restaurar o poderio e o prestígio Selêucida, iniciando por uma guerra contra o Egito Ptolomaico, antigo inimigo, derrotando e perseguindo o exército egípcio até Alexandria. Antíoco IV foi então informado de que delegados romanos, liderados pelo procônsul Gaius Popillius Laenas, solicitavam um encontro com o rei selêucida, que concordou. Sem quaisquer preâmbulos, Antíoco IV foi instado a retirar-se do Egito por ordem do senado, com o que concordou para não entrar em guerra com o império romano novamente. A última parte do seu reino assistiu a uma crescente desintegração do Império, embora seus maiores esforços. Enfraquecido econômica, militar e por perda de prestígio, o Império tornou-se vulnerável a rebeldes nas áreas orientais, que começaram a mais solapar o reino, enquanto os Partas ocupavam o seu vácuo de poder para ocupar os antigos territórios persas. A agressiva helenização (ou desjudaização) provocou uma rebelião armada total na Judea – a Revolta dos Macabeus. Os esforços consumidos com os Partas e Judeus, bem como para manter o controle das províncias, provaram estar além do poder do Império enfraquecido. Antíoco morreu durante uma expedição militar contra os partas em 164 AC.
Após a morte de Antíoco IV, o império Selêucida tornou-se crescentemente instável, tendo que enfrentar guerras civis que enfraqueciam a autoridade central. Seu filho mais jovem, Antíoco V Eupator, foi destronado pelo filho de Seleucos IV, Demétrio I Soter, em 161 AC, que tentou restaurar o poder selêucida na Judea, particularmente. Foi derrubado em 150 AC por Alexander Balas, um impostor que (com apoio do Egito), reivindicava ser filho de Antíoco IV. Alexander Balas reinou até 145 AC quando foi destronado pelo filho de Demétrio I, Demétrio II Nicator que se mostrou incapaz de controlar o reino. Enquanto dominava a Babilônia e a Síria oriental, de Damasco, os restantes apoiadores de Balas, dominavam na Antióquia. Por 143 AC os judeus, sob os Macabeus, haviam consolidado sua independência. A expansão Parta prosseguia. Em 139 AC, Demétrio II era derrotado e capturado em batalha, pelos Partas. Por essa época, todo o Platô Iraniano havia sido perdido para o controle Parta.
O irmão de Demétrio II Nicator, Antíoco VII Sidetes, assumiu o trono com a captura de seu irmão. Enfrentou a enorme tarefa de restaurar um império em rápida desagregação e enfrentando ameaças em várias frentes. O controle da Coele-Síria era ameaçada pelos rebeldes macabeus judeus. Antigas dinastias vassalas na Armênia, Capadócia e Ponto, ameaçavam a Síria e o norte da Mesopotâmia; os nômades partas, brilhantemente liderados por Mitrídates I da Pártia, haviam dominado as áreas altas da Média; a intervenção romana era uma ameaça permanente. Antíoco VII conseguiu submeter os Macabeus e manter as dinastias da Anatólia sob submissão temporária. Em 133 AC ele se dirigiu para o leste com o pleno poder do exército real apoiado pelo príncipe Hasmoneano, João Hircanus, para fazer retroceder os Partas. Teve um sucesso inicial espetacular, recapturando a Mesopotâmia, Babilônia e Média, e derrotando e matando em combate pessoal, o sátrapa parta da Selêucia. No inverno de 130/129 AC, seu exército estava disperso pela Média e Fars quando o rei Parta, Fraates II, contra-atacou. Contando apenas com as tropas imediatamente à disposição, Antíoco VII Sidetes, algumas vezes chamado “o último grande rei selêucida”, foi emboscado e morto pelos Partas. Após a sua morte, todos os territórios orientais recuperados foram recapturados pelos Partas, os Macabeus se rebelaram novamente, a guerra civil dividiu o império em pedaços e os Armênios começaram a invadir a Síria, pelo norte.
Mitrídates VI, último rei do império Selêucida
Cerca de 100 AC, aquele que havia sido uma vez o formidável Império Selêucida, limitava-se apenas à Antióquia e algumas cidades sírias. A despeito do claro colapso do seu poderio e do declínio do seu reino em torno deles, os nobres continuaram a brincar de “fazedores de reis” numa base regular, com ocasionais intervenções do Egito e outras potências estrangeiras. Os selêucidas existiram somente porque nenhuma nação os quis absorver, usando-os como um útil amortecedor entre outros vizinhos. Nas guerras da Anatólia, entre Mitrídates VI do Ponto (que não tem nada a ver com os Mitrídates da dinastia Parta) e Sulla (general, estadista e cônsul romano por duas vezes) de Roma, os selêucidas foram totalmente abandonados por ambos. O ambicioso genro de Mitrídates VI, Tigranes o Grande, rei da Armênia, contudo, viu a oportunidade para expansão na constante disputa para o sul e, em 83 AC, com o convite de uma das facções nas intermináveis guerras civis, ele invadiu a Síria estabelecendo-se como seu governante e dando um fim ao Império Selêucida, virtualmente.
Cneu Pompeu Magno, o
derradeiro golpe romano
no império Selêucida
O domínio selêucida, contudo, não acabara totalmente. Em seguida à derrota de Mitridates e Tigranes em 69 AC pelo general romano Lucullus, muito próximo de Sulla, um resto do reino selêucida foi restaurado sob Antíoco XIII. Mesmo assim, as guerras civis não terminaram, pois um outro selêucida, Felipe II, contestou o poder. Após a conquista romana do Ponto, os romanos ficaram crescentemente alarmados com a constante fonte de instabilidade na Síria sob os Selêucidas. Assim que Mitrídates VI foi derrotado por Pompeu, em 63 AC, este se encarregou de refazer o Oriente helenístico, com a criação de novos reinos clientes e o estabelecimento de províncias. Enquanto nações clientes como Armênia e Judea puderam continuar com algum grau de autonomia som o domínio de reis locais, Pompeu via os selêucidas como muito complicados para continuar. Acabando com os dois príncipes selêucidas rivais, ele tornou a Síria uma província romana.
Império Selêucida em sua máxima extensão,
às vésperas da morte de Seleucos I, 281 AC
A língua, filosofia e arte gregas vieram com os colonizadores. Durante a Era Selêucida, a língua grega tornou-se a linguagem comum da diplomacia e literatura por todo o Império Persa e o zoroastrismo foi levado para o oeste, vindo a influenciar o judaísmo. A extensão do Império Selêucida, que cobria desde o mar Egeu até o atual Afeganistão, trouxe uma multidão de povos: gregos, persas, medos, sírios, judeus, indianos, entre outros. Sua população total foi estimada em 35 milhões de habitantes, ou 15% da população mundial na época em que era o maior e mais poderoso império do mundo. Seus governantes mantinham uma posição política cujo interesse era salvaguardar a ideia de unidade racial introduzida por Alexandre. Em 313 AC, os ideais helênicos (disseminados por filósofos, historiadores, oficiais em reserva e casais de ligação inter-racial provindos do vitorioso exército macedônio) haviam começado sua expansão de quase 250 anos nas culturas do Oriente Médio e da Ásia central. O esqueleto estrutural da forma de governo do império consistia em estabelecer centenas de cidades para troca e ocupação. Muitas cidades começaram - ou foram induzidas - a adotar não só pensamentos filosóficos, como também sentimentos religiosos e políticas de natureza helênica. A tentativa de sintetizar o helenismo com culturas nativas e diferentes correntes intelectuais resultou em sucessos de tamanho ou naturezas diferentes - tendo como consequência paz e rebelião simultâneas em diferentes partes do império.


[1] Ptolomeu I Sóter foi um general macedônio de Alexandre, o Grande, que se tornou governador do Egito de 323 AC a 283 AC, fundando a Dinastia Ptolemaica. Tomou o título de rei a partir de 305 AC, instituindo então o culto dinástico do rei-salvador (Sóter), de acordo com a tradição dos Faraós egípcios. Recusou-se a pagar tributo ao rei da Macedônia, sucessor de Alexandre Magno. Fundou um império poderoso que, sem conquistas territoriais, manteve um reconhecido esplendor econômico e cultural, firmado em novas e eficazes formas administrativas. Instituiu sua capital em Alexandria, cidade fundada por Alexandre.
[2] A dinastia Atálida foi uma dinastia helênica que reinou na Anatólia, da cidade de Pérgamo (leste da Anatólia), após a morte de Lisímaco, um general de Alexandre. Um dos oficiais de Lisímaco, Philetaerus, tomou o controle da cidade em 282 AC. Os Atálidas seguintes foram descendentes de seu pai e expandiram a cidade a um reino. Attalus I proclamou-se rei em 230 AC.
[3] Coele-Síria, Coelesíria ou Celesíria, foi uma região da Síria, na antiguidade clássica, limitada pela Síria, Mesopotâmia e Península Arábica. A área hoje é parte das modernas nações do Líbano, Síria e Israel.
[4] A Pártia é uma região histórica no nordeste do Irã, base política e cultural da dinastia Arsácida (ou Parta), governadores do Império Parta (247 AC-224 DC).
[5] Báctria ou Bactriana era o nome de uma região histórica da Ásia Central, localizada entre a cordilheira do Indu Kush e o rio Amu-Darya, cobrindo uma região plana que abrange os atuais Afeganistão, Uzbequistão e Tajiquistão.
[6] Galácia era o nome de uma região da Anatólia central que abrangia a região de Ancara e Çorum, na província de Yozgat da moderna Turquia. Ela recebeu este nome por causa dos imigrantes gauleses vindos da Trácia que se assentaram ali e formaram a classe dominante do século III AC em diante, logo depois da invasão gaulesa dos Balcãs em 279 AC.
[7] O Reino do Ponto foi um antigo estado helenístico, localizado a norte da península da Anatólia, atual Turquia.