Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

segunda-feira, 21 de julho de 2014

ALTO DA BRONZE DOS MEUS OITO ANOS

INTRODUÇÃO

A construção desta praça monumento, bem como da música homônima, são anteriores ao início da minha existência, já vou avisando. Sou velho, com muito orgulho, mas não tanto. Mas são essas lembranças que temos, muitas vezes – e agora já sei, pela experiência que tenho, não são privilégio meu, mas que muitas pessoas “sofrem” da mesma felicidade -, de coisas que não conhecemos e, muitas vezes, nem sabemos de onde vêm.
Eu deveria ter cerca de oito anos ou menos, quando pela primeira vez ouvi falar em “Alto da Bronze”, com certeza, pela boca da minha mãe, como acontece com frequência, com as boas coisas que nunca esquecemos. Conheci primeiro a composição musical e, claro, motivado pela curiosidade, fui então informado da existência de uma praça com esse nome.
Acontece que eu era o “Zangado” da família, o “pavio curto”, aquele que não gostava de levar desaforo para casa, mas que, muitas vezes, levou as dores quando mal sucedido e as glórias quando bem. E não foram raras as vezes em que voltei para casa com a “cabeça quebrada”, consequência de alguma briga ou queda por alguma proeza de triste epílogo. Creio que a primeira vez que isso ocorreu – embora não tenha sido o primeiro acidente – foi quando eu tinha esses famosos oito anos de idade. E minha mãe, muito mais para me consolar e elevar o meu moral, cantou-me pela primeira vez – e pelas demais que seguiram – essa composição que eu não conhecia, denominada “Alto da Bronze”. São, portanto duas histórias paralelas: a da praça e a da música; e embora eu tenha primeiro ouvido a segunda, como ela veio da primeira, vou iniciar pela praça.
Eu quero dedicar essa postagem à minha querida mãe, Mariazinha, minha iniciadora de infinitos conhecimentos, que além de ter brincado nessa praça, adorava a composição e a tocava nos instrumentos que aprendeu a tocar, nas suas raras horas de “ócio produtivo”. Mas quero também dedica-la ao meu tio Aor, o mais jovem e teimoso irmão da minha mãe, ainda cheio de saúde nos seus recém-feitos 87 anos, a quem, segundo testemunho dela, “puxei” em muitas coisas, com muita alegria. Atualmente ele está com o ouvidinho meio ruim, mas tenho certeza de que, para essa música, sua audição não há de falhar; e a visão está ótima para a leitura da postagem. Estou certo de que ele vai apreciar a postagem e ajudar a enriquecê-la.

A PRAÇA

Atualmente, seu nome oficial é Praça General Osório. É uma praça localizada próximo da chaminé do Gasômetro, no Centro Histórico de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, minha cidade natal. Ela está situada entre as ruas Duque de Caxias – onde, entre outros verdadeiros monumentos da cidade, situam-se a Catedral Metropolitana, o Palácio do Governo e a Praça da Matriz -, Coronel Fernando Machado e General Portinho e foi, até o início do século XX, um largo antes de se tornar praça. Teve, ao longo de sua história, quer como praça, quer como largo, diversos nomes: Alto do Manoel Caetano, Alto do Senhor dos Passos, Alto da Conceição e Ladeira de São Jorge, antes de tornar-se o Alto da Bronze, com o qual eternizou-se na memória de Porto Alegre e dos porto-alegrenses.
Figura 1 - O Alto da Bronze, no centro da foto moderna,
à direita; à esquerda mais acima, a usina do gasômetro
De acordo com os de melhor memória, o Alto da Bronze começou a surgir no mapa da cidade por volta de 1800, quando era apenas um espesso matagal que servia como depósito de lixo para os poucos moradores da redondeza, mais utilizado por tatus e tamanduás do que pelo bicho-homem. Não podemos esquecer de que, nessa época, afinal de contas, a corte portuguesa do príncipe D. João VI nem sequer havia ainda chegado nessa pobre colônia lusitana. Com o passar dos anos, os colonos açorianos começaram a construir suas casas na rua Formosa (hoje Duque de Caxias) e na parte alta da rua do Arvoredo (hoje Fernando Machado). Na última quadra dessas duas ruas, nenhuma casa foi construída e aquele espaço livre viria, muitos anos mais tarde, a ser usado pelos moradores.
Figura 2 - A praça do "Alto da Bronze", vista de cima,
com as quadras polivalentes, o quiosque e o parquinho
Tanto com relação à praça, como à música, sempre tive algumas dúvidas sobre o nome e a letra da composição. Minha mãe nunca me contou o significado de “Alto da Bronze” e tampouco sobre os seus “ratos brancos”, da letra da música. O nome da praça tem uma história bem interessante e, em alguns pontos um pouco discrepantes.
O político, historiador, educador e escritor Antônio Álvares Pereira (Coruja, adotado), nascido em Porto Alegre em 31 de agosto de 1806 e morto em 4 de agosto de 1889, escreveu um livro chamado “Antigualhas”, sobre e vultos e eventos do Rio Grande do Sul, onde relata a origem do nome do local. Segundo ele, habitava na área uma morena, estranha e poderosa, chamada Felizarda, mas conhecida apenas por Bronze, por ser morena. Dedicava-se a tirar a sorte com as cartas, fazer mandingas e despachos, bem como rezas e benzeduras para espantar o mau olhado, logo ganhando o respeito e consideração das pessoas mais humildes, entre as quais encontravam-se as prostitutas das imediações; boatos diziam que, embora seus modos discretos, a própria “Bronze” praticava a prostituição, embora mantendo um nível bem mais alto na seleção dos seus fregueses. Na época, era comum dar aos bairros nomes que lembrassem alguma característica importante ou o nome ou apelido de um morador que se sobressaísse. E tal foi a importância adquirida pela famosa morena Felizarda, por suas boas obras, de todas as espécies, que logo a área passou a ser conhecida apenas como “Alto da Bronze”. Chego a ver os malandros da época, quando perguntados sobre o seu destino, numa bela noite de sábado, apenas respondendo que iam ao Alto da Bronze, para não ter que dizer que, na verdade, estavam indo aos prostíbulos da área do gasômetro, Washington Luís, Duque de Caxias e Demétrio Ribeiro (nomes atuais).
Figura 3 - O quiosque da Praça General
Osório visto da Rua Duque de Caxias.
Há outras versões dessa história da “Bronze”, mais picantes, que dizem estar documentada, mas vou deixa-las à curiosidade dos meus leitores, respeitando a presença das eventuais leitoras. É sempre possível que o autor do livro, ao escrevê-lo, tenha mantido a discrição reinante à época em que foi escrito.
Desde 1833 a região aparece como referência, nas atas da Câmara Municipal, como "Alto da Bronze". Em 1865, o município resolveu adquirir o terreno vazio do Alto da Bronze, a fim de ali fazer uma praça para instalação de um chafariz da Companhia Hidráulica Porto-Alegrense, para abastecimento de água potável à população. O herdeiro dos terrenos, João Soares de Paiva, que residia no Rio de Janeiro, fez propostas extorsivas para a venda. No mesmo ano a Câmara pediu auxilio ao presidente da Província (Estado daquele tempo), Visconde da Boa Vista que, em 1866, desapropriou a área, declarando-a de utilidade pública.
Em 1887 iniciou-se o ajardinamento da área e, em 1920, ela passou por uma remodelação completa, visando atenuar a ladeira muito íngreme onde se inseria. Em 1926, no governo do Intendente Otávio Rocha, foi inaugurado o 1º Jardim de Praça de Porto Alegre, embasado nas teorias de educação, esporte e lazer do professor Gaelzer, num trabalho pioneiro na América Latina. Por volta de 1930, o mesmo Otávio Rocha promoveu a reforma da praça, transformando-a em praça de esportes. Uma reforma executada em 1970 deu-lhe o aspecto atual e nela existem duas placas: Alto da Bronze e General Osório.

O SAMBA

Mas a glória do “Alto da Bronze” não parou por aí. Pelos idos de 1930, já conquistada a simpatia da vizinhança, acabou sendo imortalizado num samba, fruto da parceria entre duas figuras muito conhecidas da Porto Alegre daqueles tempos: na melodia e arranjo, o pianista e compositor Paulo Coelho, o Gordo; assinando a letra, Plauto de Azambuja Soares, o “Foquinha”, acadêmico de Direito, cronista de rádio e jornal (repórter da “Folha da Tarde”), dublê de compositor e nascido na mesma área. A composição teria sido lançada pelos cantores Alcides Gonçalves e Horacina Correa, em diferentes horários da programação de 19 de novembro de 1937, na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, alcançando tal sucesso que a incluiria no repertório do pianista cuja orquestra se preparava para uma temporada pelos cafés e emissoras de Buenos Aires. A composição agradou de tal forma aos porteños que acabou sendo gravada, em 1938, quando da inauguração da Rádio Municipal de Buenos Aires, pela RCA Victor argentina, em um disco de 78 rotações, recebido com grande festa em seu retorno ao Brasil. Tal, o único registro fonográfico da Orquestra de Paulo Coelho. Esta, a gravação de "Alto da Bronze" que apresentamos aos nossos leitores, interpretada pela vocalista da orquestra, Horacina Correa. A letra da composição pode ser alcançada por este "link".
Figura 4 - Paulo Coelho, o Gordo, com
membros da orquestra à época da gravação.
Paulo Coelho iniciou sua carreira artística aos 14 anos de idade, atuando como pianista na Confeitaria Central, ajudando no sustento da família após o falecimento do pai, onde ficaria até 1930, quando foi convidado pela Companhia de Revistas Cândida Villa para realizar uma excursão à Argentina. Em Buenos Aires fez sucesso apresentando-se em diferentes Rádios locais. Seguiu depois para a cidade de Córdoba, onde acabaria se casando com uma argentina, que faleceu logo depois do nascimento de seu primeiro filho, o que o fez retornar ao Brasil. Em 1933, já de volta à Porto Alegre, ingressou na Orquestra da Rádio Gaúcha, atuando no Café Colombo, então o mais famoso da cidade. Em 1934 foi para o Rio de Janeiro e, em companhia do saxofonista Marino dos Santos, passou a trabalhar no Cassino Atlântico, integrando a orquestra de Romeu Silva, apontada na época como a mais famosa da capital federal. Voltou desiludido à Porto Alegre, sem ter recebido nenhuma remuneração por seu trabalho. Em 1935, quando da fundação da Rádio Farroupilha, foi contratado por ela, deixando a Rádio Gaúcha. Por essa época, dirigia também a orquestra do Café Flórida. Morreu de tuberculose, em 21 de setembro de 1941, com incríveis 31 anos de idade.
Plauto de Azambuja, seu companheiro de composição, muito pouco saboreou o seu sucesso, sendo vitimado num acidente de automóvel de corridas, do circuito automobilístico do bairro da Tristeza, em 5 de abril de 1938, com apenas 23 anos de idade.
Figura 5 - Horacina Correa, vocalista
da Orquestra do "Gordo".
Mulata nascida no Rio Grande do Sul, Horacina Correa iniciou a carreira artística na década de 1930, inspirando-se em Carmen Miranda. Contratada pelo empresário Walter Pinto foi uma das atrações do Teatro Recreio. Realizou temporadas consecutivas em Buenos Aires, onde possuía prestígio comparável ao de Carmen Miranda, nos Estados Unidos. Ao final da década de 1940 mudou-se para São Paulo e Rio de Janeiro, onde gravou discos e atuou no cinema. No Brasil, Horacina Corrêa gravou, entre 1945 e 1947, três discos pela Continental. Participou, em 1951, do LP de 10 polegadas que o maestro Fon-Fon gravou em Londres com sua orquestra, nunca lançado no Brasil. Horacina gravou ainda, em nosso país, mais dois LPs de 10 polegadas pela Musidisc, em 1955/56, e outro 78 nessa mesma marca. Tempos depois, migrou para a Europa, desaparecendo do cenário artístico. O jornalista Flávio Alcaraz Gomes afirmava tê-la visto como “artista cubana” em uma boate de Roma, nos anos 1950. Outros relatos sugerem que Horacina teria se radicado no Egito, como dona de um hotel, no Cairo. A pior versão diz que ela teria sido vitimada num atentado terrorista.
A orquestra de Paulo Coelho, o Gordo, quando da gravação apresentada, era constituída pelos seguintes componentes:
Horacina Corrêa - Vocalista
Ernani Oliveira - Trompete
Marino dos Santos - Clarinete
Fritz Preuss - Sax Tenor
Waldemar Moura - Trombone
Antoninho Gonçalves – Cavaquinho
Paulo Coelho - Piano
Flávio Corrêa - Contrabaixo
Oscar Corrêa - Bateria
Juvenal e Walter Gonçalves – Percussão
Anos mais tarde, as gaúchas Elis Regina, Zilah Machado e Lourdes Rodrigues, apresentariam as suas versões da homenagem musical ao “Alto da Bronze”. Para os que quiserem comparar, seguem as gravações de Lourdes Rodrigues (acompanhada pelo pianista gaúcho Geraldo Flach) e de Elis Regina.
Como mencionei acima, sempre tive também uma enorme curiosidade sobre o trecho da letra do “Alto da Bronze”, que mencionava o “rato branco”. Infelizmente, à época, minha mãe não conseguiu satisfazer a minha curiosidade; de forma que só durante a minha pesquisa consegui a resposta que submeterei à crítica do meu tio Aor para testar a sua veracidade. Segundo uma das fontes pesquisadas, “Rato Branco” era o apelido dado aos guardas municipais da época, em virtude das fardas brancas que envergavam, impecavelmente brancas. Segundo ele, a qualquer travessura da molecada, ou mesmo brigas entre grupos rivais, eles apareciam sem aviso, como verdadeiros ratos surgindo de suas tocas, marcando a constante presença da lei.
Conforme eu previra, meu tio Aor visitou o “blog”, leu a presente postagem e teceu alguns comentários, tão interessantes, que solicitei a sua autorização para inseri-los. Tendo ele prontamente aquiescido, apresso-me a fazer este pequeno adendo à minha postagem, que só faz muito enriquecê-la. Pois além de dizer que ela lhe trouxe muitas lembranças dos seus seis aos oito anos de idade (olhem a coincidência com a letra da música), onde tanto brincou, lembrou-se até mesmo do zelador do Alto da Bronze (qual a praça que não tinha, então, o seu  zelador?), que chamava-se Ângelo, segundo ele, “homem muito bom”! Disse mais, que aos finais de tarde realizavam concursos de lutas, na areia colocada ao final escorregador. E, como não poderia deixar de ser, infalivelmente ele vencia sempre, fazendo jus ao prêmio, que era então ... um PICOLÉ! Com o tempo, ele acabou sendo proibido de participar das lutas porque vencia sempre; antes, já havia sido suspenso por 30 dias, porque numa “peleia” dera um soco no “beiço” do adversário, que ficara sangrando, assim justificando a expulsão; mas que o soco compensara, em muito, a suspensão. Claro que ele conhecia e se lembrava perfeitamente bem da melodia, que ainda cantarolava, volta e meia. E, pasmem(!), acrescentou: “Eu sou um grande admirador de Paulo Coelho e conheci muito bem a vocalista Horacina Correia, era minha vizinha de rua e, mesmo, de calçada”. Como é fácil perceber, a recompensa pela postagem excedeu em muito a pretendida, pelo carinho da resposta remetida e pela importância das novas informações.
Fui conhecer e tirar fotos do “Alto da Bronze”, já depois dos meus cinquenta anos de idade. E percebi, com tristeza que, como tudo o mais na vida, ela já estava bem diferente “do tempo feliz em que eu era criança”: nessa época, ela então já tinha bancos e não consegui ver nem ao menos um só rato branco ...

segunda-feira, 14 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 2 DE 2)

III - O MAR DA GALILEIA

Passando ao longo do mar da Galileia, viu Simão e André, seu irmão, que lançavam as redes no mar, pois eram pescadores. Jesus disse-lhes: "Vinde após mim, eu vos farei pescadores de homens". Eles no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no (Marcos 1, 16-18)’.
Figura 10 - Área sul do legendário Mar da Galileia ou Lago de Genesaré 
A região da Galileia deu origem ao nome do legendário “Mar da Galileia” (ver Figura 10, acima), adotado por muitas línguas, incluindo o árabe antigo. Entretanto, os judeus mantiveram outros nomes hebreus para o lago, nomeadamente: (1) Kinneret, da palavra “harpa” em hebreu, descrevendo a sua forma; (2) Lago de Genesaré, das palavras hebreias para “vale” e “vigiar”, que pode também ter sido uma referência à cidade de Nazaré; (3) Mar de Tiberíades, numa referência à cidade de Tiberias, situada na sua extremidade sudoeste, assim nomeada em homenagem ao imperador romano Tiberius, do século I D.C.
O Mar da Galileia é um lago, a maior fonte de água doce de Israel, com cerca de 45 metros de profundidade e situado a cerca de 210 m abaixo do nível do mar. Tecnicamente é um lago, embora a palavra hebreia “yam” possa significar tanto um lago de água doce como o próprio mar. As cidades em torno incluem Cafarnaum, Bethsaida, Tiberias e Hippos.
O Mar da Galileia, localizado na região da Galileia, é parte da falha sírio-africana, uma importante linha de falha geológica que corre da Turquia, ao norte, para a África, ao sul. Ele é alimentado pelo rio Jordão, ao norte, que então prossegue ao sul através do lago. Possui aproximadamente 24 km de comprimento e cerca de 13 km de largura, em sua parte mais larga, servindo como uma fronteira natural entre a Galileia Judia, para o oeste, e as áreas não judias (Decápolis, por exemplo) a leste.
A região em torno do lago é caracterizada por água abundante e solo rico, tornando-o um bom local para a agricultura; nesse local, a pesca sempre foi uma indústria importante. As habitações humanas são de milênios atrás e ele pode ter sido um povoamento antigo para hominídeos emigrando da África. A despeito das diferenças de características entre os judeus do oeste e os não-judeus do leste, evidências arqueológicas indicam uma grande continuidade de estilo de vida para todos que habitavam as margens, sem olhar a religião. Devido às altas colinas circundantes, tempestades violentas podem rapidamente se abater, como registradas em partes dos evangelhos. Tal padrão de altas colinas e estreitas praias rompe-se ao canto noroeste onde a fértil planície de Genesaré encontra o lago.
A fértil área de Tabgha, estende-se ao longo da praia noroeste do mar da galileia, uma parte da planície de Genesaré. O nome Tabgha vem da palavra grega Heptapegon, que significa "sete fontes". No passado sete fontes se encontravam neste local e daqui fluíam para o mar da Galileia; hoje apenas cinco ainda existem. De acordo com a tradição alguns dos eventos mais significativos do ministério de Jesus desenrolaram-se nesta área. Esse é o lugar tradicional do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.
"Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os a seus discípulos, para que os servissem ao povo. E todos comeram e ficaram fartos. Do que sobrou recolheram ainda doze cestos de pedaços" (Lucas 9, 16-17).
Fig. 11-Moderna Igreja da Multiplicação
A mesa de pedra onde esse milagre aconteceu tem sido o altar de sucessivas igrejas, a mais antiga das quais foi construída no século IV. A atual Igreja da Multiplicação foi construída pelos Beneditinos alemães em 1982 no estilo bizantino (Figura 11, ao lado). O mosaico em frente do altar simboliza os pães e peixes (Figura 12, abaixo) e à sua frente o que seria a “pedra do peixe” (Figura 13, abaixo).
Foi no Mar da Galileia que, logo após realizar o milagre da multiplicação dos pães e peixes, Jesus andou sobre as águas para espanto dos seus discípulos que o atravessavam em sua barca. (Figura 14, mais abaixo)
Fig. 12-O Mosaico dos Pães e Peixes
"Logo depois, Jesus obrigou seus discípulos a entrar na barca e a passar antes d’Ele para a outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite, estava lá sozinho. Entretanto, já à boa distância da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles caminhando sobre o mar." Mt 14, 22-25, Marcos 6:47-48 e João 6:19. (Figura 15, mais abaixo)
Em uma montanha próxima, Ele proferiu o Sermão da Montanha. A Figura 16, mais abaixo, mostra a moderna igreja da Bem Aventurança, no local onde provavelmente Jesus teria feito esse sermão.
Figura 13- A "Pedra do Peixe"
"Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se d’Ele. Então abriu a boca e lhes ensinava dizendo:
Bem aventurados os que tem um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus!
Bem aventurados os que choram porque serão consolados!
Bem aventurados os mansos porque possuirão a terra!
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados!
Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!
Bem aventurados os corações puros porque verão a Deus!
Figura 14 - Local onde Jesus teria
caminhado sobre as águas do Lago
Bem aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus!
Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus!
Bem aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo mal contra vós por causa de mim." Mateus 5, 1-12.
E, após a sua ressurreição, apareceu a seus discípulos e designou Pedro para o comando da Igreja primitiva.
Figura 15 - Jesus caminhando sobre as águas socorre Pedro
"Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?’ Respondeu êle: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo.’ Disse-lhe Jesus: ‘Apascenta os meus cordeiros.’” João 21, 15-16.
Ao longo da praia pode-se ver a igreja da Primazia de São Pedro (Figura 17, mais abaixo). Essa capela marca o lugar provável onde Jesus, depois da ressurreição, teria aparecido novamente aos discípulos no mar de Tiberíades.
No mapa da Figura 18, podemos ver parte do Mar da Galileia e ao longo de sua margem três locais notáveis da vida de Jesus: a Igreja da Multiplicação dos Pães e Peixes, a Igreja da Bem Aventurança e a pequena vila de Cafarnaum, com a Igreja da Primazia de Pedro.

IV - CAFARNAUM: A CIDADE DE JESUS NA GALILEIA

Cafarnaum é o lugar onde Jesus iniciou a sua pregação. Aqui, segundo Lucas 6, 12-1, ele escolheu seus apóstolos:
Fig. 16-A Igreja da Bem Aventurança
"Naqueles dias, Jesus retirou-se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, André, seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado Zelador, Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor."
No evangelho de Lucas, essa passagem vem logo antes do Sermão da Montanha (Lc 6, 20-49) e depois da pesca milagrosa no lago de Genesaré (Lc 5,1-11), o que caracteriza a escolha dos apóstolos na região.
Fig. 17 - Igreja da Primazia de Pedro
Em 1838, o explorador Americano Edward Robinson descobriu as ruínas da antiga Cafarnaum (Figura 19, abaixo). Em 1866, o capitão britânico Charles William Wilson identificou o que sobrou da “sinagoga branca” (Figura 20, abaixo) e, em 1894, o frei franciscano Giuseppe Baldi, Custódio da Terra Santa (indicado pela Ordem Franciscana com a aprovação do Papa e da Santa Sé), recuperou uma boa parte das ruínas, dos beduínos, construindo uma cerca e plantando palmeiras e eucaliptos, assim protegendo-as do vandalismo e criando um oásis para os peregrinos. Escavações posteriores, que prosseguem até agora, descobriram outras ruínas igualmente importantes.
Fig. 18-Locais da vida de Jesus às margens do Mar da Galileia
Cafarnaum (Vila de Nahum, em hebreu) era uma vila de pescadores localizada na praia norte do Mar da Galileia, com uma população aproximada de 1.500 habitantes. A cidade é citada nos Evangelhos de Lucas e João, como próxima do lugar de nascimento dos apóstolos Pedro, André, Tiago, João e Mateus. Num Sábado Jesus ensinava numa sinagoga de Cafarnaum e curou um homem possuído pelo espírito de demônio. Essa narrativa tornou-se notável por ser a única comum entre os Evangelhos sinóticos de Marcos e Lucas, sem estar contido no de Mateus. No mesmo lugar ele curou uma febre na sogra de Pedro e, de acordo com Lucas, foi em Cafarnaum que um centurião romano pediu a Jesus que curasse um servo seu. Cafarnaum é também mencionado no Evangelho de Marcos, como o local da famosa cura do paralítico baixado através do telhado para alcançar Jesus. De acordo com os Evangelhos Sinóticos (Marcos, Lucas e Mateus, por possuírem muito em comum, assim divergindo bastante do de João), Jesus escolheu essa cidade como centro do seu ministério público na Galileia, após deixar o pequeno vilarejo montanhoso de Nazaré.
Figura 19 - Ruínas da antiga Cafarnaum
Evidências arqueológicas demonstram que a cidade foi estabelecida no século II AC, ao tempo dos Hasmoneanos (dinastia dominante na Judeia entre 140 e 116 AC), tendo sido abandonada no século XI DC. A área do cemitério é encontrada 200 m ao norte da sinagoga, dentro da área habitada da cidade. Ela se estendia 3 km para Tabgha, uma área que parece ter sido usada para agricultura, a julgar pelos vários moinhos de óleo e grão descobertos nas escavações. A pescaria também era fonte de insumo, como mostram as ruínas de outro porto descoberto a oeste do que foi construído pelos Franciscanos.
Fig. 20-Ruínas da "Sinagoga Branca"
Cafarnaum não se envolveu em nenhuma das revoltas dos Judeus contra os Romanos, nem tampouco foi ocupada por eles, embora haja razões para crer que Josephus, um dos generais judeus e depois historiador da época, tenha sido conduzido para esta cidade após uma queda do seu cavalo na localidade próxima de Bethsaida, da qual resultou ferido.
A disposição da cidade era bem regular. Em ambos os lados de uma rua principal ampla, na direção norte-sul, pequenos distritos cresciam limitados por ruas de pequena secção transversal e ruas laterais sem saída. As muralhas eram construídas com blocos grosseiros de basalto reforçados com pedra e barro, mas as pedras, com exceção das soleiras, não eram adornadas e a argamassa não era utilizada. A parte mais ampla de uma casa típica era o pátio, onde havia um forno feito de terra refratária, moinhos de grãos e um conjunto de escadas de pedra que conduziam ao telhado. Os pisos das casas eram pavimentados com pedras. Em torno do pátio aberto, modestos aposentos eram arranjados, recebendo luz de uma série de aberturas ou pequenas janelas. Em função da grosseira construção das paredes, não havia piso superior numa casa típica e o telhado seria construído com leves traves de madeira e sapé misturado com barro. Tal construção, explicaria a forma como o paralítico foi levado através do telhado, à presença de Cristo, para ser curado.
Um bloco de casas, chamado pelos arqueólogos franciscanos de “ilha sagrada”, tem uma história complexa. Localizada entre a sinagoga e a praia, possui um labirinto de casas de vários períodos diferentes. Três camadas principais foram identificadas:
Fig. 21-A "Ilha Sagrada" de Cafarnaum
1. Um grupo casas datando do século I AC, usado até o início do século IV DC.
2. A grande alteração de uma das casas no século IV.
3. A igreja octogonal do meio do século V.
Os arqueólogos concluíram que uma casa na vila era venerada como a casa de Pedro, do meio do século I, com duas igrejas construídas (uma sobre a outra) sobre ela. As figuras 21 e 22 (ao lado e abaixo) mostram tais ruínas com a moderna igreja construída sobre elas.
Fig. 22-Outra vista da "Ilha Sagrada"
Uma delas, do século V, consiste de um octógono central com oito pilares, um octógono exterior, com as soleiras ainda no local, e uma galeria ou pórtico que conduz ao interior da igreja e ao complexo de construções associadas, ao leste. Essa passagem foi mais tarde bloqueada e um abside, com a pia batismal, foi construído no meio da parede leste. Desta parede subiam duas escadas, de ambos os lados do batistério, e o excesso de água do ritual sairia por esse caminho. Os bizantinos, na construção da nova igreja, colocaram o octógono central diretamente sobre o topo das paredes da casa de São Pedro (Figura 23, abaixo), com o objetivo de preservar sua exata localização, embora nada da casa original fosse mais visível, uma vez que as paredes haviam sido postas abaixo e o chão coberto com mosaicos. No pórtico, o padrão dos mosaicos era apenas geométrico, com quatro linhas de círculos contíguos e pequenas cruzes. Na zona do octógono externo, os mosaicos representavam plantas e animais em um estilo similar ao encontrado na basílica da Alimentação dos Cinco Mil, em Taghba. No octógono central o mosaico era composto por uma faixa de flores calcinadas, um campo de escolas de pesca com pequenas flores e um grande círculo com um pavão no centro.
Fig. 23 - Igrejas sobre a Casa de Pedro
O prédio consiste de quatro partes: a sala das orações, o pátio do oeste, um balaústre sul e um pequeno quarto a noroeste da casa. A sala de orações mede 24,40m por 18,65m, com a face sul virada para Jerusalém. As paredes internas foram cobertas com reboco pintado e fino estuque, encontrados durante as escavações. Os arqueólogos creem que havia um piso superior reservado para as mulheres, com acesso através de uma escadaria externa, não comprovado pelas escavações locais posteriores.
Trabalhos de escavação posteriores foram tentados sob o piso dessa sinagoga, mas as opiniões divergiram quanto às descobertas. A antiga sinagoga tem duas inscrições, uma em grego e outra em aramaico, que lembram os benfeitores que ajudaram em sua construção. Há também entalhes de estrelas de cinco e seis pontas, bem como de palmeiras. Em 1926 o franciscano Orfali iniciou a restauração da sinagoga e, após sua morte, o trabalho prosseguiu sob o comando de Virgilio Corbo, a partir de 1976. Um mosaico descoberto em 1991 mostra uma imagem da Mulher e do Dragão, motivo mencionado no livro bíblico cristão da “Revelação” (de São João). Ele mostra uma mulher pronta a dar à luz uma criança enquanto um dragão aguarda para devorá-la. Até hoje o mosaico não foi mencionado em nenhum artigo. Duas possibilidades parecem prováveis: (a) o mosaico seria um acréscimo cristão em algum momento quando a sinagoga tornou-se uma igreja cristã; (b) o mosaico seria um motivo judeu indicando os perigos rondando algum Messias que pudesse ocorrer naqueles dias perigosos de predominância cristã numa Palestina governada por romanos.
Como ilustração final ao artigo, gostaria de apresentar a Figura 24, que mostra a Terra Santa à época do Novo Testamento, onde podem ser vistos vários pontos abordados nesta apresentação, além de vários locais fundamentais na vida de Jesus Cristo. Nela podem ser vistos:
Fig. 24-Terra Santa-Novo Testamento

17. Belém: cidade natal de Jesus;
10. Nazaré: cidade onde foram feitas as anunciações a Maria e José. Ao retornar do Egito, aí Jesus passou sua infância e juventude;
12. Betabara: aqui João Batista declarou ser “a voz do que clama no deserto” (João 1:19–28). João batizou Jesus no Rio Jordão;
13. Deserto da Judeia: João Batista pregou nesse deserto, onde Jesus jejuou durante 40 dias e foi tentado;
4. Região da Galileia: onde Jesus passou a maior parte de seu ministério. Também na Galileia, o Cristo ressuscitado apareceu aos Apóstolos;
5. Mar da Galileia, posteriormente chamado de Mar de Tiberíades: Jesus entrou no barco de Pedro para ensinar, convocando Pedro, André, Tiago e João a se tornarem pescadores de homens. Aqui Ele acalmou a tempestade, ensinou parábolas de um barco, andou sobre o mar e apareceu aos discípulos após Sua ressurreição;
7. Cafarnaum: cidade onde ficava a casa de Pedro. Mateus a chamava a “cidade de Jesus” e aqui Ele realizou vários milagres;
6. Betsaida: Pedro, André e Filipe nasceram em Betsaida. Aqui Jesus curou um cego e próximo daqui Ele alimentou os 5.000.
8. Magadã: local onde morava Maria Madalena;
9. Caná: Jesus transformou a água em vinho e curou o filho de um nobre de Cafarnaum.
1. Tiro e Sidom: Jesus comparou Corazim e Betsaida a Tiro e Sidom;
3. Cesareia de Filipe: Pedro testificou que Jesus é o Cristo e foi-lhe prometido que receberia as chaves do reino. Jesus predisse sua própria morte e ressurreição;
16. Betânia: Era o lar de Lázaro, Marta e Maria. Jesus ressuscitou Lázaro e Maria ungiu os pés de Jesus;
11. Jericó: aqui Jesus restituiu a visão a um cego e jantou com Zaqueu “um chefe dos publicanos”;
15. Betfagé: Dois discípulos trouxeram a jumenta com a qual Jesus começou sua entrada triunfal em Jerusalém;
2. Monte da Transfiguração: Jesus foi transfigurado diante de Pedro, Tiago e João e deu-lhes as chaves do reino.
14. Emaús: O Cristo ressurreto caminhou pela estrada para Emaús com dois de seus discípulos.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 1 DE 2)

I - INTRODUÇÃO

Há mais ou menos um mês atrás, terminei de ler um livro antigo, famoso e que, em minha opinião, faz muito jus à sua fama. Seu nome: “E a Bíblia Tinha Razão ...”. O livro, de autoria de Werner Keller, foi originalmente editado em 1955, na Alemanha, e continua até hoje um enorme sucesso de literatura. Através de descobertas arqueológicas e muita pesquisa, o autor mostra que tudo o que está escrito na Bíblia, abrangendo o Antigo e o Novo Testamento, realmente são fatos históricos e não histórias da carochinha como muitos pretendem que sejam, ainda até hoje. O livro descreve, de uma forma muito simples de se entender, todos os principais acontecimentos da Bíblia e os compara com as descobertas arqueológicas correspondentes, facilmente demonstrando a sua veracidade.
O autor comove o leitor quando entra no Novo Testamento e apresenta os vários livros, contando sobre a vida de Jesus Cristo e dos lugares em que Ele viveu e frequentou, até o Seu calvário, morte na cruz e a ressurreição. Foi ao ler o capítulo em que Cristo abandona Nazaré, o lugar onde Se criou, para iniciar o Seu ministério em região específica da Galileia, na pequena vila de Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia – ou Genezaré, segundo Lucas - , que senti um impulso enorme para aprender e escrever algo sobre essa região, da qual tão pouco eu conhecia. E foi então que me botei a pesquisar sobre o assunto que ora apresento aos meus leitores e que espero os cative assim como me cativou.
Para que o assunto não fique muito longo para uma só postagem, vou publicá-lo em duas partes, das quais esta é a primeira.

II - A GALILEIA

II.1 GENERALIDADES

A descrição desses locais é, em geral, bastante complicada, por se tratar de lugares conhecidos e mencionados há milhares de anos, que foram ocupados por vários povos, de origens muito diversas e que hoje, finalmente, pertencem a Israel. Por essa razão vou, inicialmente, apresentar e descrever alguns mapas para que o leitor bem possa se localizar a nível mundial e regional, temporalmente.
Como pano de fundo para o artigo, o primeiro mapa que eu gostaria de apresentar (Figura 1, abaixo), emprestado do Google Earth, mostra boa parte do Oriente Médio, com todas as regiões envolvidas na postagem. Nesse mapa podemos localizar, a nível mundial, parte do Mar Mediterrâneo (com a Ilha de Chipre), o norte do Egito (com o rio Nilo e Alexandria), o golfo de Suez, a Península do Sinai, o golfo de Aqaba e a extremidade norte do Mar Vermelho, os estados de Israel, Jordânia, Líbano, Síria (parcial), Iraque (parcial) e Arábia Saudita (parcial), além dos territórios em disputa, Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golã. No estado de Israel, é possível ver o Mar Morto, o Mar da Galileia e, em suas vizinhanças, a região da Galileia.
Figura 1 - Mapa do Oriente Médio, com todos os atores da peça

Figura 2-Palestina cerca de 975 AC
Para atingir o meu objetivo, penso acertado prosseguir pela descrição da Palestina, região com limites muito teóricos e pouco preciso. Assim, um dos nomes tradicionais para as “Terras da Bíblia”, que incluem “Terra Santa”, “Terra Prometida”, Israel e Canaan, sendo derivado dos Filisteus, inimigos dos israelitas, a Palestina (em árabe transliterado, Filastin; em grego transliterado, Palaistine; e em latim Paloestina) é a denominação histórica dada pelo Império Romano, a partir de um nome hebraico bíblico, a uma região do Oriente Médio, grosseiramente situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as atuais fronteiras ocidentais do Iraque e Arábia Saudita, hoje compondo os territórios da Jordânia e Israel, além do sul do Líbano e os territórios de Gaza e Cisjordânia (ou Margem Ocidental do rio Jordão, território sob ocupação de Israel, reclamado pela Autoridade Palestina e pela Jordânia, limitado a leste pela Jordânia e a norte, sul e oeste por Israel). Com o enfraquecimento do poder egípcio, em finais do século XIII AC, a região foi invadida pelos chamados “Povos do Mar”. Um destes povos, os filisteus, fixou-se junto à costa oriental do Mediterrâneo, contemporânea à chegada das tribos hebraicas, com Josué, que se instalaram no interior gerando guerras com os filisteus, que se recusaram a aceitar a presença hebraica. As tribos hebraicas, unidas sob os reis Saul, Davi e Salomão, finalmente derrotaram os filisteus, fixando a capital do reino em Jerusalém e constituindo, de certa forma, a original “terra dos judeus” (Figura 2, acima). Constituindo um trecho relativamente estreito, de favorável passagem entre a África e Ásia, a Palestina sempre foi palco de um grande número de conquistas, pelos mais variados povos, por se constituir num corredor natural para os antigos exércitos.
Figura 3 - A Judeia sob Herodes, pelo ano 37 AC
No ano 40 AC, Herodes, o Grande, foi indicado como rei da Judeia ("Rei dos Judeus") pelo Senado do então Império Romano que, entre outras regiões, dominava a Palestina. Foram necessários três anos antes que Herodes e seu exército viajassem à Palestina para conquistar Jerusalém e tornar-se, de fato, o único governante de toda a Judeia. A linha negra da Figura 3, ao lado, delimita a área que constituía a Judeia sob o reinado de Herodes, o Grande, no ano 37 AC. No ano 4 AC, Herodes, o Grande, morre e o então imperador romano, Augusto, divide o seu reino entre alguns de seus filhos. Herodes Arquelaus é feito etnarca (governador de província) da Samaria, Idumeia e uma boa parte do reino anterior da Judeia que, logo no ano 6 AC, tornar-se-ia a província da Judeia, colocada diretamente sob o governo romano. Filipe, o tetrarca (muitas vezes referido como Herodes Filipe II), filho de Herodes e sua quinta esposa Cleópatra de Jerusalém e meio-irmão de Herodes Arquelaus e Herodes Antipas, recebe de Roma a parte nordeste do antigo reino de Herodes, que inclui Bataneia, Auranitis e Traconitis. Seu terceiro filho, Herodes Antipas, é feito tetrarca da Galileia e Pereia, governando-a de 4 AC a 39 DC; esse foi o Herodes que, Segundo os registros do Novo Testamento, não somente prendeu e decapitou João Batista, como também teve papel importante na crucificação de Cristo. Note-se que a Figura 3 já apresenta essas divisões e a correspondente legenda.

II.2 LOCALIZAÇÃO DA GALILEIA

A Galileia, por sua vez, é hoje uma grande área da região norte de Israel, entre o rio Litani, no Líbano atual, e o vale de Jezreel na Israel moderna, que envolve a maior parte dos distritos administrativos do Norte e Haifa. Tradicionalmente dividida em Galileia Superior, com chuvas pesadas e altos picos, Galileia Inferior, com clima mais ameno, e Galileia Ocidental, estende-se da cidade de Dan, na base do Monte Hermon, ao longo do Monte Líbano, ao norte, até as cristas do Monte Carmelo, Monte Gilboa, norte de Jenin e Tulkarm, ao sul, e do vale do Jordão, ao leste, através das planícies do vale Jezreel e Acre até as praias do mar Mediterrâneo e a planície costeira, no oeste. A região da Galileia mudou de mãos em várias oportunidades: egípcios, assírios, canaanitas e israelitas.
Figura 4
A Galileia – significando “círculo” ou “distrito” – era uma das maiores regiões da antiga Palestina, ainda maior que a Judeia ou Samaria. O nome Galileia, que à época dos romanos era aplicado a uma grande província, parece ter sido, originalmente, confinado a um pequeno circuito de terra em torno de Kedesh-Naphtali (uma das mais remotas cidades de Judá, junto ao limite sul de Edom), onde estavam situadas as vinte cidades doadas por Salomão a Hiram, rei do Tiro, em pagamento ao transporte de cedro do Líbano para Jerusalém. Ao tempo de Cristo, o território de Israel era dividido em três províncias: Judeia, Samaria e Galileia, esta última incluindo toda a secção norte do país, com os antigos territórios de Issachar, Zebulun, Asher e Naphtali. A oeste era limitada pelo território de Ptolemais; a fronteira sul corria ao longo da base do monte Carmelo e das colinas de Samaria até o monte Gilboa e então descendo ao vale de Jezreel por Scythopolis, ao Jordão; o rio Jordão, o Mar da Galileia e o alto Jordão até a fonte de Dan formavam o limite oeste; e o norte desenvolvia-se de Dan para o oeste ao longo da crista montanhosa até tocar no território dos fenícios. Era dividida em “Galileia Inferior” e “Galileia Superior” (com altitudes superiores a 900 metros). A mais alta região do país, com as menores temperaturas, bem irrigada pelas chuvas de inverno e com numerosas fontes, a Galileia era uma região de fertilidade natural, adequando-se a todas as variedades de flora, merecendo destaque especial a nogueira. As Figuras 4 a 8 se completam e mostram todos os pontos descritos acima.
Figura 5
A maior parte da Galileia é constituída por terreno rochoso, com alturas variando entre 500 e 700 metros. Entretanto, há várias montanhas altas na região, que incluem os Montes Tabor e Meron (1.208 m), com temperaturas relativamente baixas e altas precipitações. Como resultado deste clima, a flora e a fauna abundam na região, enquanto muitos pássaros anualmente migram de climas mais frios para a África e retornam através do corredor Hula-Jordão. Os cursos e quedas d’água – estas principalmente na Galileia Superior – junto com vastos campos de folhagens e folhas silvestres coloridas, bem como numerosas cidades de importância bíblica, tornam a região um popular destino turístico.

II.3 HISTÓRIA DA GALILEIA

Mencionada pela primeira vez pelo Faraó Tutmés III, que lá conquistou várias cidades canaanitas em 1.468 A.C., a Galileia foi também mencionada várias vezes no Velho Testamento (Josué, Crônicas, Reis).
Figura 6
Segundo a tradição judaica, as unidades patriarcais (Tribos de Israel) do antigo povo de Israel teriam se originado dos doze filhos de Jacó (mais tarde chamado Israel), neto de Abraão: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. A tribo de José foi, posteriormente, dividida em duas (meias tribos), Manassés e Efraim, os dois filhos de José com sua esposa egípcia, Azenate, deixando de existir a tribo de José. Moisés liderou as doze tribos pelo deserto da Península do Sinai e coube a seu sucessor, Josué, coordenar a tomada de Canaã. Para que essa tomada ocorresse de forma ordenada, a região foi dividida entre cada uma das tribos e meias tribos, que se encarregaram de conquista-las, na verdade, de forma mais ou menos independente. Após a narrativa da conquista de Canaã, os relatos da Bíblia tornam-se confusos, com referências geográficas praticamente inexistentes ou inconsistentes e, com o tempo, as tribos deixaram de existir geograficamente, seu povo sendo absorvido, ou por povos estrangeiros ou por outras tribos israelitas, ou por ambos, embora ainda considerado como parte das doze tribos. Na verdade, embora a suposta irmandade, as tribos nem sempre foram aliadas, o que ficou manifesto quando da cisão do reino, após a morte do Rei Salomão.
Figura 7
De acordo com o Antigo Testamento da Bíblia, a Galileia foi nomeada pelos israelitas e, originalmente, foi a região tribal de Naftali e Dã, às vezes se envolvendo com a terra de Aser, sendo muitas vezes referida apenas como Naftali. O nome israelita da região vem da raiz hebraica galil, uma palavra para designar “distrito” e, usualmente, “círculo”.
Figura 8
A região da Galileia (Figuras 5 e 6) foi, presumivelmente, o lar de Jesus durante, pelo menos, 30 anos de sua vida, para onde havia sido levado por seus pais José e Maria assim que souberam da morte de Herodes, enquanto residindo no Egito. A Galileia é melhor conhecida como a região onde, de acordo com os Evangelhos, Jesus conduziu a maior parte do Seu ministério público, particularmente nas cidades de Nazaré e Cafarnaum, e onde realizou a maior parte dos seus conhecidos milagres. Por exemplo, a vila árabe de Kafr Cana (Figura 6), cerca de 7 km a nordeste de Nazaré, na Galileia Inferior, é identificada como a Canaã da Galileia onde, segundo a tradição, Jesus teria realizado o milagre da transformação da água em vinho, quando participando das bodas de um casal de poucos recursos. A Figura 9 abaixo mostra a "Igreja das Bodas", por se crer que fica no mesmo local onde Jesus teria praticado o seu primeiro milagre.
Figura 9 - A Igreja das Bodas
Os autores dos Evangelhos declaram que a maior parte de Sua juventude foi vivida na Galileia Inferior, ao passo que Sua vida adulta, tempo da Sua pregação, foi passada nas margens a noroeste do Mar da Galileia, onde ficavam as cidades onde Jesus passou a maior parte da sua vida, aí incluídas Cafarnaum e Betsaida (ver Figuras 5 e 6).
Descobertas arqueológicas de sinagogas dos períodos helenístico e romano na Galileia, mostram forte influência fenícia e uma alto grau de tolerância por outras culturas, relativamente a outros locais sagrados dos judeus, no mesmo período, porque considerado “limpo de impurezas”. A Galileia oriental manteve uma maioria judia até o século VII.
O historiador judeu, Josephus, registra que havia mais de 200 vilas na Galileia no ano 66 DC, sendo bastante povoada nesta época. Sendo mais exposta a influências estrangeiras do que outras regiões judias, tinha também uma grande população pagã e era por isso conhecida por outro nome que, traduzido para o português, significava “Região dos Gentis”. Sob a dominação romana, desenvolveu-se uma característica identidade galileana, fazendo com que a Galileia fosse tratada como área administrativa separada da Judeia e da Samaria; tal fato foi majorado porque a Galileia foi, por muito tempo, governada por “fantoches” romanos ao invés de pela própria Roma. A consequência foi uma estabilidade social maior, significando não ter sido um centro de atividade política anti-romana, nem uma região marginalizada, como podem dar a entender os Evangelhos. A Galileia é também a região onde o judaísmo adquiriu a maior parte de sua forma moderna. Após a segunda revolta Judia (132 – 135 DC) quando os judeus foram totalmente expulsos de Jerusalém, muitos foram obrigados a emigrar para o norte, aumentando de forma considerável a população da Galileia, com o tempo atraindo mais judeus que já viviam em outras áreas.