Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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terça-feira, 14 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 5 - ÚLTIMA)

VIII - A DINASTIA HASMONEANA: AUTONOMIA E CONFLITOS INTERNOS


A Revolta dos Macabeus levou ao estabelecimento da Dinastia Hasmoneana, que governou a Judeia de 140 a 63 AC, marcando um período de autonomia judaica. Simão, irmão de Judas Macabeu, foi nomeado para os títulos de Alto Sacerdote, General e Líder por uma grande assembleia geral, tornando-se o primeiro governante da dinastia Hasmoneana de um estado autônomo. Vislumbrando o poder romano, viajou para Roma para obter dela a garantia de que a Judeia seria um território independente.
Por essa época, já era o mandante do Império Selêucida, Antiochus VII Euergetes, apelidado Sidetes, que reinou de julho de 138 a 129 AC, como último rei Selêucida de alguma estatura; após sua morte em batalha, o reino Selêucida ficou restrito apenas à Síria. Antiochus VII queria as cidades de Gadara, Joppa e Acre de volta, além de um grande tributo. Como Simão quisesse pagar uma fração do desejado pela manutenção de apenas duas das cidades, Antiochus enviou seu general Cendebaeus para atacar. O general foi morto e o exército posto em debandada. Sob o domínio dos hasmoneus, o reino expandiu suas fronteiras, cobrindo uma área quase tão grande quanto a que a nação tinha sob o rei Salomão.
Simão e dois de seus filhos foram mortos numa trama para derrubar os Hasmoneus, que pretendia também matar João Hyrcanus seu filho restante, mas que escapou para Jerusalém para defendê-la. João Hyrcanus conquistou a Transjordânia, a Galileia, a Samaria e a Idumeia (Edom). Hyrcanus tinha muitas questões para resolver como novo Alto Sacerdote. Antiochus invadiu a Judeia e sitiou Jerusalém em 134 AC. Por falta de alimentos Hyrcanus teve que fazer um acordo com Antiochus, pagando uma grande quantidade de dinheiro, abrindo as muralhas da cidade, reconhecendo o poder selêucida sobre a Judeia e ajudando os selêucidas em sua luta contra os Partas, que não aconteceu pela morte de Antiochus em 128 AC. Com isso Hyrcanus tomou de volta a Judeia e manteve o seu poder. Ele também manteve boas relações com os romanos e egípcios, pela grande quantidade de judeus que lá viviam.
Aristobulus I sucedeu a João Hyrcanus, seu pai, sendo o primeiro Hasmoneu a assumir o título de "Rei" e Sumo Sacerdote, durante um curto reinado de um ano. Desafiou os desejos de seu pai que queria sua mãe como sua sucessora, mandando-a para a prisão com todos os seus irmãos, exceto um que logo foi assassinado por suas ordens. Seu feito mais significativo foi a conquista da Galileia.
Com sua morte foi sucedido por seu irmão Alexandre Yanai, apenas preocupado com poder e conquista. Casou-se com a viúva de seu irmão, mostrando muito pouco respeito pela lei judia. Sua primeira conquista foi a cidade egípcia de Ptolomais, cujos habitantes clamaram pela ajuda de Ptolomeu IX que se encontrava em Chipre. Contudo quem veio foi sua mãe Cleópatra III, para ajudar Alexandre e não seu filho.
O reinado dos Hasmoneus foi marcado por intrigas políticas e conflitos internos. A união dos cargos de rei e Sumo Sacerdote na figura dos Hasmoneus gerou insatisfação, pois a realeza deveria ser de descendência davídica, e o Sumo Sacerdócio, da linhagem de Zadoque, o que os Hasmoneus não podiam reivindicar. Essa tensão levou ao surgimento de grupos político-religiosos distintos: os fariseus, os saduceus e os essênios. A luta entre fariseus e saduceus atingiu seu auge com o governo de Alexandre Yanai (100-75 AC), cujo comportamento como Sumo Sacerdote despertou o desprezo dos fariseus. Como Alexandre não fosse um governante popular, uma guerra civil irrompeu em Jerusalém que durou seis anos. Com sua morte, sua viúva, Salomé Alexandra, tornou-se a governante, mas não Alto Sacerdote.
Os governantes que o sucederam foram Aristobulus II, João Hyrcanus II e o último Hasmoneano, Antigonus, deposto e executado pelos romanos sob Marco Antônio. O fim da Dinastia Hasmoneana ocorreu em 63 AC quando os romanos vieram a pedido do então Rei-Sacerdote Aristobulus II e seu concorrente Hyrcanus II. Foi nesse contexto de conflito interno que o general romano Pompeu interveio em 63 AC, marcando a queda da dinastia Hasmoneana e a conquista da Judeia pela República Romana com o fim da independência Judaica
A ascensão e queda da Dinastia Hasmoneana ilustra a complexidade da autonomia judaica em um cenário geopolítico volátil. A união dos poderes real e sacerdotal pelos Hasmoneus, embora inicialmente um símbolo de vitória e independência, tornou-se uma fonte de discórdia interna, pois desafiava as expectativas tradicionais sobre a linhagem da realeza e do sacerdócio. A fragmentação em seitas como fariseus, saduceus e essênios não foi apenas uma questão de diferenças doutrinárias, mas também de disputas de poder e visões divergentes sobre o futuro da nação. Essa divisão interna enfraqueceu a Judeia, tornando-a suscetível à intervenção externa e, em última análise, à conquista romana. A história hasmoneana demonstrou que a independência política, sem coesão interna e legitimidade religiosa amplamente aceita, era insustentável.

IX - A JUDEIA SOB O DOMÍNIO ROMANO (63 AC - PRIMEIROS ANOS DA ERA CRISTÃ)

Pompeu conquistou Jerusalém em 63 AC, encerrando a independência dos judeus e incorporando a Judeia à República Romana como um reino cliente. Sua entrada no Templo, embora sem causar danos ou remover objetos, foi um grave insulto para os judeus, simbolizando o fim da soberania religiosa e política. A intervenção de Pompeu na guerra civil hasmoneana não foi apenas uma conquista militar, mas um ponto de virada decisivo que marcou o fim da autonomia judaica e o início de um longo período de dominação romana. A decisão dos irmãos Hasmoneus de buscar a ajuda romana para resolver suas disputas internas revelou uma falha fatal na liderança judaica, abrindo as portas para a hegemonia de uma potência externa. A profanação simbólica do Templo por Pompeu foi um presságio das tensões e conflitos que surgiriam sob o domínio romano, onde a sensibilidade religiosa judaica frequentemente colidiria com o poder imperial. Isso estabeleceu um padrão de subordinação que culminaria em revoltas e na eventual destruição do Templo.
Os romanos colocaram Hyrcanus II como Alto Sacerdote, mas a Dinastia chegou ao fim em 40 AC quando Herodes, o Grande, um idumeu (como sinônimo de edomita, originário da região de Edom), tradicionalmente inimigo dos judeus; em 37 AC foi nomeado "rei dos judeus" pelo senado romano com o apoio de Marco Antônio e, posteriormente, de Augusto. Seu reinado, que durou até 4 AC, foi caracterizado por uma mistura de impressionantes realizações arquitetônicas e atos de brutalidade.
Herodes, o Grande, o rei cliente romano do reino da Judeia
Herodes era um rei-vassalo em total lealdade a Roma, e sua ascensão ao poder foi resultado de sua habilidade diplomática e oportunismo político. Ele buscou legitimar seu governo aos olhos do povo judeu casando-se com Mariane, uma princesa hasmoneana, e empreendeu vastos projetos de construção, incluindo a reconstrução e embelezamento extensivo do Segundo Templo em Jerusalém, a construção de seu palácio, a torre Antônia, a fortaleza de Massada e a cidade de Cesareia Marítima.
Apesar de seus esforços para apaziguar os judeus, como o alívio de impostos em épocas de fome e a obtenção de privilégios para os judeus em diversas partes do mundo, Herodes enfrentou dificuldades com o povo judeu durante a maior parte de seu domínio. Sua tirania, crueldade, paranoia (que o levou a executar membros de sua própria família, incluindo Mariane e seus filhos) e a imposição de pesados impostos para financiar suas obras e sua lealdade a Roma, geraram ressentimento generalizado. Sua legitimidade era contestada pelos judeus por ele ser um edomita, um povo rival.
O reinado de Herodes, o Grande, exemplifica a complexa dinâmica de um rei-vassalo que, embora judeu por ascendência (idumeu), era fundamentalmente leal a Roma. Sua política de construção de grandes obras, incluindo o Templo, pode ser interpretada como uma tentativa de legitimar seu governo e apaziguar a população judaica, mas também serviu para exibir o poder romano e drenar os recursos da Judeia através de impostos exorbitantes. A desconfiança e o ressentimento do povo judeu em relação a Herodes, decorrentes de sua brutalidade e sua subserviência a Roma, demonstram a persistente busca por autonomia e a recusa em aceitar um governante que não fosse visto como divinamente sancionado ou alinhado com os interesses judaicos. Essa tensão entre a elite pró-romana e a população geral seria um fator constante de instabilidade até as grandes revoltas dos judeus.
Herodes, o Grande, é descrito na Bíblia Cristã (Mateus 2:16-18) como o coordenador do Massacre dos Inocentes, por ter mandado matar todas as crianças com menos de dois anos de idade assim evitando que vivesse Cristo, o futuro Rei dos Judeus. A maior parte do Novo Testamento faz referência a seu filho, Herodes Antipas (execuções de João Batista e Jesus de Nazaré em Mateus 14) e a seu neto Herodes Agripa (em Atos 12).
Máxima extensão do reino de Herodes
e as tetrarquias herodianas
Com a morte de Herodes, o Grande, em 4 AC, os romanos dividiram seu reino entre três de seus filhos e sua filha. A seu filho Herodes Archelaus teria cabido a etnarquia (território que sugere liderança) da Judeia, Samaria e Idumeia; seu filho, Herodes Antipas, recebeu a tetrarquia (divisão regional que sugere quatro governantes, possivelmente porque Arquelau teria recebido a metade do reino ou dois quartos) da Galileia e Pereia; seu outro filho Filipe teria ficado com a tetrarquia dos territórios ao norte e leste do Rio Jordão; e à sua filha Salomé I teria cabido a toparquia (distrito onde o toparca, mandante do território, exerce o seu poder) que incluia as cidades de Jamnia, Ashdod e Phasaelis.
Após a deposição de Herodes Arquelau (de breve reinado, por incompetência), Roma combinou as províncias sob o seu mando numa só Província da Judeia, governada por um prefeito romano e subordinada ao governador da Síria. Herodes Antipas reinou até 39 DC, quando foi deposto e exilado. Filipe reinou até sua morte em 34 DC, quando suas terras tornaram-se brevemente parte da província romana da Síria. As terras de Salomé I foram aglutinadas sob os demais territórios.
Em 37 DC as terras de Filipe foram dadas a Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande; com o banimento de Herodes Antipas, Herodes Agripa tornou-se também mandante da Galileia e Pereia; em 41 DC por favor do Imperador Claudius, Agripa sucedeu ao prefeito romano como Rei da Judeia. Com essa aquisição, o reino Herodiano dos judeus foi nominalmente reestabelecido até a sua morte em 44 DC. Após o breve reinado de Herodes Agripa I (41-44 DC), o governo foi entregue a um procurador, subordinado diretamente ao imperador romano.
Os procuradores romanos, como Copônio, Pôncio Pilatos e Félix, tinham como principais funções a coleta de impostos, a gestão das propriedades imperiais e a distribuição de pagamentos, principalmente aos militares. Eles também tinham o poder de nomear e depor os Sumos Sacerdotes e de referendar a dependência dos anciãos e da nobreza laica, garantindo o domínio romano sobre Israel.
A administração romana, com sua pesada carga tributária e a interferência na liderança religiosa, gerou crescentes tensões e ressentimento entre os judeus. Embora Roma adotasse uma política de tolerância religiosa, permitindo a prática do judaísmo como uma "religio licita" (religião permitida), qualquer movimento que ameaçasse a ordem pública romana era proibido. A imposição de impostos, a presença militar e a exploração econômica, combinadas com a perda da independência, contribuíram para um quadro de inquietação social e política que culminaria nas grandes revoltas. A situação explosiva da Palestina no século I DC, pode ser explicada em grande parte pela concorrência entre o poder romano e as elites locais pela exploração do país.
A transição para a administração direta romana e o papel dos procuradores revelam a intensificação da subjugação judaica e a crescente exploração econômica. A capacidade dos romanos de nomear e depor Sumos Sacerdotes corroeu a autoridade religiosa interna e transformou o sacerdócio em um instrumento do poder imperial, alienando ainda mais a população. A imposição de impostos onerosos e a percepção de que a riqueza de Jerusalém estava sendo drenada para Roma alimentaram um profundo descontentamento. Essa dinâmica de opressão e resistência, onde as liberdades religiosas eram concedidas apenas na medida em que não desafiassem a ordem romana, criou um ambiente de instabilidade crônica, culminando nas guerras judaico-romanas e na destruição do Segundo Templo (70 DC), com a consequente dispersão dos judeus por todas as nações do mundo. No seu conjunto, a Diáspora judaica refere-se à dispersão dos judeus por diversas regiões do mundo, deixando sua terra original, a Palestina, após eventos como o cativeiro na Babilônia e a destruição do Segundo Templo pelos romanos. Essa dispersão forçada, resultou na formação de comunidades judaicas em diferentes partes do mundo, que mantiveram sua identidade e tradições.

X - CONCLUSÕES

O período que se estende do retorno do Cativeiro Babilônico aos primeiros anos da Era Cristã foi uma era de transformações profundas e contínuas para o povo judeu. A destruição do Primeiro Templo e o exílio, embora traumáticos, atuaram como um catalisador para uma redefinição fundamental da identidade judaica. Desprovidos de sua monarquia e de seu centro cultual original, os judeus foram forçados a se reorientar, solidificando sua identidade não mais em estruturas políticas ou geográficas, mas na adesão à Lei, na prática religiosa e na coesão comunitária.
A reconstrução do Segundo Templo e das muralhas de Jerusalém, liderada por figuras como Zorobabel, Esdras e Neemias, simbolizou um renascimento físico e espiritual. Essa liderança diversificada – um príncipe, um escriba-sacerdote e um governador – marcou a emergência de um modelo de governança não monárquico, onde a autoridade religiosa do Sumo Sacerdote e a autoridade interpretativa dos escribas ganharam proeminência. A despeito dos desafios internos e da oposição externa, a comunidade demonstrou uma notável resiliência, reafirmando seu compromisso com a fé e a identidade.
A sucessão de dominações imperiais – persa, helenística e romana – impôs desafios distintos, mas também impulsionou adaptações cruciais. Sob os persas, os judeus gozaram de uma autonomia limitada, que permitiu a consolidação da liturgia e a compilação de textos sagrados. O helenismo, com sua disseminação cultural, gerou respostas variadas, desde a assimilação e a tradução da Septuaginta até a resistência ferrenha que culminou na Revolta dos Macabeus e na breve independência hasmoneana. No entanto, as divisões internas e a fragilidade política dos Hasmoneus abriram caminho para a conquista romana, que trouxe consigo uma administração direta, pesada tributação e uma nova camada de tensões.
A ascensão de seitas como fariseus, saduceus, essênios, zelotes e herodianos reflete a efervescência intelectual e as profundas divisões ideológicas que caracterizaram o judaísmo do Segundo Templo. Essas diferenças, que variavam da interpretação da Lei à relação com o poder romano, demonstram a busca contínua por um caminho para preservar a fé e a identidade em um mundo em constante mudança.
Em suma, o período do retorno do Cativeiro Babilônico aos primeiros anos da Era Cristã foi um cadinho de provações e inovações. A capacidade do povo judeu de se adaptar, reinterpretar sua fé, desenvolver novas instituições como a sinagoga e codificar sua tradição oral foi fundamental para sua sobrevivência e para a resiliência de sua identidade. Essa era não apenas moldou o judaísmo que conhecemos hoje, mas também forneceu o contexto histórico, cultural e religioso essencial para o surgimento do cristianismo, marcando-a como um dos períodos mais dinâmicos e formativos na história da civilização ocidental.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 1 DE 2)

I - INTRODUÇÃO

Há mais ou menos um mês atrás, terminei de ler um livro antigo, famoso e que, em minha opinião, faz muito jus à sua fama. Seu nome: “E a Bíblia Tinha Razão ...”. O livro, de autoria de Werner Keller, foi originalmente editado em 1955, na Alemanha, e continua até hoje um enorme sucesso de literatura. Através de descobertas arqueológicas e muita pesquisa, o autor mostra que tudo o que está escrito na Bíblia, abrangendo o Antigo e o Novo Testamento, realmente são fatos históricos e não histórias da carochinha como muitos pretendem que sejam, ainda até hoje. O livro descreve, de uma forma muito simples de se entender, todos os principais acontecimentos da Bíblia e os compara com as descobertas arqueológicas correspondentes, facilmente demonstrando a sua veracidade.
O autor comove o leitor quando entra no Novo Testamento e apresenta os vários livros, contando sobre a vida de Jesus Cristo e dos lugares em que Ele viveu e frequentou, até o Seu calvário, morte na cruz e a ressurreição. Foi ao ler o capítulo em que Cristo abandona Nazaré, o lugar onde Se criou, para iniciar o Seu ministério em região específica da Galileia, na pequena vila de Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia – ou Genezaré, segundo Lucas - , que senti um impulso enorme para aprender e escrever algo sobre essa região, da qual tão pouco eu conhecia. E foi então que me botei a pesquisar sobre o assunto que ora apresento aos meus leitores e que espero os cative assim como me cativou.
Para que o assunto não fique muito longo para uma só postagem, vou publicá-lo em duas partes, das quais esta é a primeira.

II - A GALILEIA

II.1 GENERALIDADES

A descrição desses locais é, em geral, bastante complicada, por se tratar de lugares conhecidos e mencionados há milhares de anos, que foram ocupados por vários povos, de origens muito diversas e que hoje, finalmente, pertencem a Israel. Por essa razão vou, inicialmente, apresentar e descrever alguns mapas para que o leitor bem possa se localizar a nível mundial e regional, temporalmente.
Como pano de fundo para o artigo, o primeiro mapa que eu gostaria de apresentar (Figura 1, abaixo), emprestado do Google Earth, mostra boa parte do Oriente Médio, com todas as regiões envolvidas na postagem. Nesse mapa podemos localizar, a nível mundial, parte do Mar Mediterrâneo (com a Ilha de Chipre), o norte do Egito (com o rio Nilo e Alexandria), o golfo de Suez, a Península do Sinai, o golfo de Aqaba e a extremidade norte do Mar Vermelho, os estados de Israel, Jordânia, Líbano, Síria (parcial), Iraque (parcial) e Arábia Saudita (parcial), além dos territórios em disputa, Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golã. No estado de Israel, é possível ver o Mar Morto, o Mar da Galileia e, em suas vizinhanças, a região da Galileia.
Figura 1 - Mapa do Oriente Médio, com todos os atores da peça

Figura 2-Palestina cerca de 975 AC
Para atingir o meu objetivo, penso acertado prosseguir pela descrição da Palestina, região com limites muito teóricos e pouco preciso. Assim, um dos nomes tradicionais para as “Terras da Bíblia”, que incluem “Terra Santa”, “Terra Prometida”, Israel e Canaan, sendo derivado dos Filisteus, inimigos dos israelitas, a Palestina (em árabe transliterado, Filastin; em grego transliterado, Palaistine; e em latim Paloestina) é a denominação histórica dada pelo Império Romano, a partir de um nome hebraico bíblico, a uma região do Oriente Médio, grosseiramente situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as atuais fronteiras ocidentais do Iraque e Arábia Saudita, hoje compondo os territórios da Jordânia e Israel, além do sul do Líbano e os territórios de Gaza e Cisjordânia (ou Margem Ocidental do rio Jordão, território sob ocupação de Israel, reclamado pela Autoridade Palestina e pela Jordânia, limitado a leste pela Jordânia e a norte, sul e oeste por Israel). Com o enfraquecimento do poder egípcio, em finais do século XIII AC, a região foi invadida pelos chamados “Povos do Mar”. Um destes povos, os filisteus, fixou-se junto à costa oriental do Mediterrâneo, contemporânea à chegada das tribos hebraicas, com Josué, que se instalaram no interior gerando guerras com os filisteus, que se recusaram a aceitar a presença hebraica. As tribos hebraicas, unidas sob os reis Saul, Davi e Salomão, finalmente derrotaram os filisteus, fixando a capital do reino em Jerusalém e constituindo, de certa forma, a original “terra dos judeus” (Figura 2, acima). Constituindo um trecho relativamente estreito, de favorável passagem entre a África e Ásia, a Palestina sempre foi palco de um grande número de conquistas, pelos mais variados povos, por se constituir num corredor natural para os antigos exércitos.
Figura 3 - A Judeia sob Herodes, pelo ano 37 AC
No ano 40 AC, Herodes, o Grande, foi indicado como rei da Judeia ("Rei dos Judeus") pelo Senado do então Império Romano que, entre outras regiões, dominava a Palestina. Foram necessários três anos antes que Herodes e seu exército viajassem à Palestina para conquistar Jerusalém e tornar-se, de fato, o único governante de toda a Judeia. A linha negra da Figura 3, ao lado, delimita a área que constituía a Judeia sob o reinado de Herodes, o Grande, no ano 37 AC. No ano 4 AC, Herodes, o Grande, morre e o então imperador romano, Augusto, divide o seu reino entre alguns de seus filhos. Herodes Arquelaus é feito etnarca (governador de província) da Samaria, Idumeia e uma boa parte do reino anterior da Judeia que, logo no ano 6 AC, tornar-se-ia a província da Judeia, colocada diretamente sob o governo romano. Filipe, o tetrarca (muitas vezes referido como Herodes Filipe II), filho de Herodes e sua quinta esposa Cleópatra de Jerusalém e meio-irmão de Herodes Arquelaus e Herodes Antipas, recebe de Roma a parte nordeste do antigo reino de Herodes, que inclui Bataneia, Auranitis e Traconitis. Seu terceiro filho, Herodes Antipas, é feito tetrarca da Galileia e Pereia, governando-a de 4 AC a 39 DC; esse foi o Herodes que, Segundo os registros do Novo Testamento, não somente prendeu e decapitou João Batista, como também teve papel importante na crucificação de Cristo. Note-se que a Figura 3 já apresenta essas divisões e a correspondente legenda.

II.2 LOCALIZAÇÃO DA GALILEIA

A Galileia, por sua vez, é hoje uma grande área da região norte de Israel, entre o rio Litani, no Líbano atual, e o vale de Jezreel na Israel moderna, que envolve a maior parte dos distritos administrativos do Norte e Haifa. Tradicionalmente dividida em Galileia Superior, com chuvas pesadas e altos picos, Galileia Inferior, com clima mais ameno, e Galileia Ocidental, estende-se da cidade de Dan, na base do Monte Hermon, ao longo do Monte Líbano, ao norte, até as cristas do Monte Carmelo, Monte Gilboa, norte de Jenin e Tulkarm, ao sul, e do vale do Jordão, ao leste, através das planícies do vale Jezreel e Acre até as praias do mar Mediterrâneo e a planície costeira, no oeste. A região da Galileia mudou de mãos em várias oportunidades: egípcios, assírios, canaanitas e israelitas.
Figura 4
A Galileia – significando “círculo” ou “distrito” – era uma das maiores regiões da antiga Palestina, ainda maior que a Judeia ou Samaria. O nome Galileia, que à época dos romanos era aplicado a uma grande província, parece ter sido, originalmente, confinado a um pequeno circuito de terra em torno de Kedesh-Naphtali (uma das mais remotas cidades de Judá, junto ao limite sul de Edom), onde estavam situadas as vinte cidades doadas por Salomão a Hiram, rei do Tiro, em pagamento ao transporte de cedro do Líbano para Jerusalém. Ao tempo de Cristo, o território de Israel era dividido em três províncias: Judeia, Samaria e Galileia, esta última incluindo toda a secção norte do país, com os antigos territórios de Issachar, Zebulun, Asher e Naphtali. A oeste era limitada pelo território de Ptolemais; a fronteira sul corria ao longo da base do monte Carmelo e das colinas de Samaria até o monte Gilboa e então descendo ao vale de Jezreel por Scythopolis, ao Jordão; o rio Jordão, o Mar da Galileia e o alto Jordão até a fonte de Dan formavam o limite oeste; e o norte desenvolvia-se de Dan para o oeste ao longo da crista montanhosa até tocar no território dos fenícios. Era dividida em “Galileia Inferior” e “Galileia Superior” (com altitudes superiores a 900 metros). A mais alta região do país, com as menores temperaturas, bem irrigada pelas chuvas de inverno e com numerosas fontes, a Galileia era uma região de fertilidade natural, adequando-se a todas as variedades de flora, merecendo destaque especial a nogueira. As Figuras 4 a 8 se completam e mostram todos os pontos descritos acima.
Figura 5
A maior parte da Galileia é constituída por terreno rochoso, com alturas variando entre 500 e 700 metros. Entretanto, há várias montanhas altas na região, que incluem os Montes Tabor e Meron (1.208 m), com temperaturas relativamente baixas e altas precipitações. Como resultado deste clima, a flora e a fauna abundam na região, enquanto muitos pássaros anualmente migram de climas mais frios para a África e retornam através do corredor Hula-Jordão. Os cursos e quedas d’água – estas principalmente na Galileia Superior – junto com vastos campos de folhagens e folhas silvestres coloridas, bem como numerosas cidades de importância bíblica, tornam a região um popular destino turístico.

II.3 HISTÓRIA DA GALILEIA

Mencionada pela primeira vez pelo Faraó Tutmés III, que lá conquistou várias cidades canaanitas em 1.468 A.C., a Galileia foi também mencionada várias vezes no Velho Testamento (Josué, Crônicas, Reis).
Figura 6
Segundo a tradição judaica, as unidades patriarcais (Tribos de Israel) do antigo povo de Israel teriam se originado dos doze filhos de Jacó (mais tarde chamado Israel), neto de Abraão: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. A tribo de José foi, posteriormente, dividida em duas (meias tribos), Manassés e Efraim, os dois filhos de José com sua esposa egípcia, Azenate, deixando de existir a tribo de José. Moisés liderou as doze tribos pelo deserto da Península do Sinai e coube a seu sucessor, Josué, coordenar a tomada de Canaã. Para que essa tomada ocorresse de forma ordenada, a região foi dividida entre cada uma das tribos e meias tribos, que se encarregaram de conquista-las, na verdade, de forma mais ou menos independente. Após a narrativa da conquista de Canaã, os relatos da Bíblia tornam-se confusos, com referências geográficas praticamente inexistentes ou inconsistentes e, com o tempo, as tribos deixaram de existir geograficamente, seu povo sendo absorvido, ou por povos estrangeiros ou por outras tribos israelitas, ou por ambos, embora ainda considerado como parte das doze tribos. Na verdade, embora a suposta irmandade, as tribos nem sempre foram aliadas, o que ficou manifesto quando da cisão do reino, após a morte do Rei Salomão.
Figura 7
De acordo com o Antigo Testamento da Bíblia, a Galileia foi nomeada pelos israelitas e, originalmente, foi a região tribal de Naftali e Dã, às vezes se envolvendo com a terra de Aser, sendo muitas vezes referida apenas como Naftali. O nome israelita da região vem da raiz hebraica galil, uma palavra para designar “distrito” e, usualmente, “círculo”.
Figura 8
A região da Galileia (Figuras 5 e 6) foi, presumivelmente, o lar de Jesus durante, pelo menos, 30 anos de sua vida, para onde havia sido levado por seus pais José e Maria assim que souberam da morte de Herodes, enquanto residindo no Egito. A Galileia é melhor conhecida como a região onde, de acordo com os Evangelhos, Jesus conduziu a maior parte do Seu ministério público, particularmente nas cidades de Nazaré e Cafarnaum, e onde realizou a maior parte dos seus conhecidos milagres. Por exemplo, a vila árabe de Kafr Cana (Figura 6), cerca de 7 km a nordeste de Nazaré, na Galileia Inferior, é identificada como a Canaã da Galileia onde, segundo a tradição, Jesus teria realizado o milagre da transformação da água em vinho, quando participando das bodas de um casal de poucos recursos. A Figura 9 abaixo mostra a "Igreja das Bodas", por se crer que fica no mesmo local onde Jesus teria praticado o seu primeiro milagre.
Figura 9 - A Igreja das Bodas
Os autores dos Evangelhos declaram que a maior parte de Sua juventude foi vivida na Galileia Inferior, ao passo que Sua vida adulta, tempo da Sua pregação, foi passada nas margens a noroeste do Mar da Galileia, onde ficavam as cidades onde Jesus passou a maior parte da sua vida, aí incluídas Cafarnaum e Betsaida (ver Figuras 5 e 6).
Descobertas arqueológicas de sinagogas dos períodos helenístico e romano na Galileia, mostram forte influência fenícia e uma alto grau de tolerância por outras culturas, relativamente a outros locais sagrados dos judeus, no mesmo período, porque considerado “limpo de impurezas”. A Galileia oriental manteve uma maioria judia até o século VII.
O historiador judeu, Josephus, registra que havia mais de 200 vilas na Galileia no ano 66 DC, sendo bastante povoada nesta época. Sendo mais exposta a influências estrangeiras do que outras regiões judias, tinha também uma grande população pagã e era por isso conhecida por outro nome que, traduzido para o português, significava “Região dos Gentis”. Sob a dominação romana, desenvolveu-se uma característica identidade galileana, fazendo com que a Galileia fosse tratada como área administrativa separada da Judeia e da Samaria; tal fato foi majorado porque a Galileia foi, por muito tempo, governada por “fantoches” romanos ao invés de pela própria Roma. A consequência foi uma estabilidade social maior, significando não ter sido um centro de atividade política anti-romana, nem uma região marginalizada, como podem dar a entender os Evangelhos. A Galileia é também a região onde o judaísmo adquiriu a maior parte de sua forma moderna. Após a segunda revolta Judia (132 – 135 DC) quando os judeus foram totalmente expulsos de Jerusalém, muitos foram obrigados a emigrar para o norte, aumentando de forma considerável a população da Galileia, com o tempo atraindo mais judeus que já viviam em outras áreas.