Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ATUAL ESTADO BRASILEIRO: PARAFERNÁLIA IMPRODUTIVA E INEFICIENTE

De uma só tacada, do começo ao fim, li, durante o fim de semana, o livro "Carregando o Elefante", dos autores Alexandre Ostrowiecki e Renato Feder. Graças aos Céus, minhas esperanças renascem ao tomar conhecimento de que ainda há no Brasil jovens como esses, com discernimento suficiente para, inicialmente, se indignar com a atual situação do Estado Brasileiro, expor tal situação ao público e, finalmente, propor drásticas modificações para reverter tal situação. O livro é tão arrojado que traz como subtítulo: "Como transformar o Brasil no país mais rico do mundo".
Os autores do livro expõem, de forma absolutamente cristalina, a situação verdadeiramente caótica em que se encontra a nação, no que se refere à organização dos seus poderes e aos sistemas institucionais vigentes, como o tributário, o educacional, o previdenciário, o jurídico, o político-partidário, sem deixar de fora nem mesmo a famosa "Constituição Redentora de 1988", perfeita, segundo a cabeça dos que a elaboraram naquele passado nem tão remoto, consideradas então as grandes inteligências do Brasil. Toda a ineficácia presente é apresentada de forma tão clara, precisa e transparente, que parece ser coisa muito fácil de descrever. Entretanto,a imensa maioria da população brasileira, aí incluídas as sumidades intelectuais da Nação, os homens com poder de expor ao mundo essas barbaridades ou de modificá-las para transformar o Brasil numa grande nação, desconhece ou finge desconhecer o atual e inoperante paradigma vigente, num comodismo ou interesse simplesmente inacreditáveis. O caos institucional vigente no Brasil é apresentado de uma forma tão simples que, comparado ao que acontece em outros países do mundo, a gente se põe a pensar como é que a catástrofe nacional, que já é feia, não é ainda muito pior. Os exemplos apresentados são tremendamente constrangedores e fazem, seguidas vezes, o leitor se sentir envergonhado do que poderíamos ser chamados uma "republiqueta de segunda classe". Muitas vezes, durante a leitura, lembrei-me de um tio que dizia, quando eu era ainda jovem: "Os políticos do Brasil fazem absolutamente de tudo para destruí-lo, mas malgrado os seus esforços, não o conseguem; deve mesmo ser um grande país!"

Capa do Livro "Carregando o Elefante"
 Além de apresentar as coisas erradas, verdadeiras aberrações, os autores vão além e apresentam propostas de modificação de maneira a sanar os problemas e reverter o processo de autodestruição. São propostas totalmente justificadas, concretas, factíveis e simples de serem implantadas, de forma que qualquer leigo pode lê-las e entendê-las com facilidade. Eu não diria que algumas não sejam radicais e mesmo chocantes, mas mesmo assim sendo, são facilmente entendíveis e podem ser assimiladas. É preciso que se diga, até para justificar alguns elementos apresentados, que o livro possui Copyright de 2007-2008 por Alexandre Ostrowiecki, Renato Feder e Leopardo Editora, o que significa que nasceu antes dessa data. Por essa razão, os autores mencionam, mais de uma vez, alguns poucos fatos que já foram alterados para melhor e outros tantos que se encontram em situação ainda pior do que se encontravam à época.
Eu me encontrava próximo do final da leitura, quando comecei a pensar que ficariam faltando sugestões dos autores, para que o homem comum do povo pudesse, enxergando a situação calamitosa do Brasil e tendo em mãos as propostas para mudar para o melhor, exercer de uma forma mais ativa o seu pleno direito de cidadão, pressionando os poderes executivos, legislativo e judiciário no sentido de praticar as reformas necessários para uma mudança benéfica de suas instituições, com melhorias substanciais ao povo brasileiro. Pois bem, nem isso faltou e as tais sugestões lá aparecem ao final, em forma de recomendações sobre como agir na reunião de grupos interessados, envio de cartas a congressistas além de outras alternativas.
Tive o prazer de manter troca de correspondência com os dois autores do livro, para tecer alguns comentários bem como solicitar sua autorização para a sua apresentação, em meu blog, com o que ambos gentilmente concordaram. Aproveito a oportunidade para aqui colocar o resumo de suas principais propostas. Como essas propostas estão aqui sendo colocadas isoladamente, sem a leitura prévia de seus comentários sobre a situação atualmente vigente no Brasil, é preciso que o leitor tenha cuidado redobrado em sua leitura para que não haja risco de má interpretação.

Resumo das principais propostas

Constituição: Documento curto que determine as quatro tarefas fundamentais do Estado:

1.Garantir as liberdades individuais;
 
2.Manter a ordem;
 
3.Proteger as pessoas contra a miséria absoluta;
 
4.Garantir que as crianças estudem;
 
Eleições: Implantar voto distrital, dividindo o Brasil em cem distritos.Cada candidato concorre somente no seu distrito. Implantar financiamento público de campanha. Eliminar a figura do suplente.
Estrutura do poder público: Continua dividida em três poderes, executivo, legislativo e judiciário.

Poder executivo
: Deve ser enxugado, permanecendo os Ministérios da Casa Civil, Justiça, Cidades, Defesa, Fazenda, Meio Ambiente, Social e Relações Exteriores. Reduzir o quadro de funcionários
de cada um desses ministérios e reajustar salários aos níveis da iniciativa privada. Eliminar a estabilidade de emprego.
 
Poder legislativo: Abolir o Senado. Câmara dos Deputados deve ter seu número reduzido em 80%. Eliminar a maior parte dos assessores parlamentares e das verbas de gabinete.
 
Poder judiciário: Privatizar as áreas administrativas e consolidar os diversos tribunais em apenas três. Simplificar a legislação. Conscientizar os juízes a decidir com base na lei e não em questões sociais.
Níveis do poder público: Manter níveis federal e municipal; abolir os governos estaduais.
Prefeituras municipais: Consolidar pequenos municípios para que tenham no mínimo 300.000 habitantes. Dividir o Brasil em 100 Municípios. Município ficará responsável pelas seguintes atividades: polícia, assistência social, planejamento urbano e manutenção das ruas municipais.
Governos estaduais: Abolir todos.
Governo federal: Cuidará dos seguintes assuntos: Exército, polícia federal e regulamentação dos setores econômicos.
Forças armadas: Reduzir fortemente o contingente. Concentrar recursos em vigilância eletrônica de
fronteiras.

Polícia: Unificar todas as polícias em três grupos: municipal, federal e corregedoria. Aumentar os salários dos profissionais, alterar a jornada de trabalho para que se assemelhe à jornada comum e realizar campanha de valorização dos bons policiais.
Legislação penal: Restringir os regimes de progressão de pena. Eliminar os indultos. Contornar a questão da maioridade penal, fazendo com que criminosos perigosos fiquem presos por um longo período, independentemente da idade.
Cadeias: Privatizar todas as cadeias atuais, sendo que o Estado paga um valor por preso à empresa proprietária. Licitar imediatamente mais 400.000 vagas. Criar uma agência para fiscalizar e regular os presídios. Implantar um sistema de trabalho remunerado na prisão, em que os presos recebem 50% do salário e a empresa proprietária da cadeia recebe outros 50%. Aplicar penas alternativas para crimes leves.
Drogas: Legalizar todas as drogas hoje proibidas, desde que sejam consumidas em locais pré-determinados e seja proibido fazer propaganda.

Empresas estatais: Privatizar todas, como Correios, Petrobrás e BancodoBrasil

Agências reguladoras: Ampliar os recursos e a atuação das agências.
Agência Nacional Anticorrupção: Criar a agência para investigar os políticos e funcionários públicos corruptos. Completamente independente, o diretor da agência é indicado pelo partido líder da oposição, enquanto o secretário é indicado pelo presidente da República no momento que este sai do poder e acompanha todo o mandato do sucessor.
Assistência social: Instituição ligada ao município. Transfere recursos diretamente às famílias que comprovar em dificuldades financeiras. O auxílio é dado em caráter temporário, vai diminuindo com o tempo e está atrelado ao fato de a família comprovar pagamento de estudo dos filhos e plano de saúde familiar. Dinheiro é fiscalizado pelo governo federal.
 
Educação: Privatizar todas as escolas e universidades públicas, implantando o sistema de vouchers. Para cada aluno matriculado em ensino fundamental, o governo paga uma bolsa diretamente à escola. Cada escola pode optar se receberá apenas a verba do governo ou se cobrará uma taxa extra.
Saúde: Privatizar todos os hospitais e postos de saúde do governo. Cada pessoa deverá escolher um plano de saúde e usá-lo para satisfazer suas necessidades de saúde. A assistência social paga os planos das famílias que comprovarem incapacidade de pagamento.

Previdência social: Somar o que cada cidadão já pagou à assistência social e emitir título de dívida pública referente àquele valor. Abolir completamente a previdência, tanto a do setor público quanto a do setor privado. Cada pessoa decide se quer ou não realizar plano privado de previdência social.
Reforma fiscal: Todos os tributos, as taxas e os impostos devem ser eliminados. Deve permanecer
apenas o imposto de renda, o imposto sobre a venda de produtos nocivos à sociedade e a tarifa de
importação nos casos de práticas desleais de concorrência internacional.
Reforma trabalhista: Eliminar todos os encargos trabalhistas atuais. Liberalizar as negociações de salário. Forçar os magistrados a defender os acordos contratados e não defender incondicionalmente os empregados.

Faço a propaganda do livro, de alma lavada, sem qualquer tipo de comprometimento. Recomendo o trabalho como cidadão brasileiro consciente, que tem o dever de divulgar tudo aquilo que pode ajudar a melhorar as condições de vida dos brasileiros e a saúde da própria nação. Eu chamo a isso Patriotismo e não outras coisinhas que andam por aí.
Finalmente, para satisfação geral dos que dizem não ler por falta de recursos financeiros, já que os livros brasileiros são de fato caros, informo que o livro "Carregando o Elefante" pode ser baixado gratuitamente da rede, através do site http://www.carregandooelefante.com.br/download.html, sem qualquer custo. Pronto, agora não há mais desculpas para não ler e ajudar o Brasil a melhorar.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

THE GREAT AMERICAN SONGBOOK


INTRODUÇÃO

Recentemente, realizando uma pequena pesquisa sobre uma antiga melodia americana, deparei-me com a expressão “The Great American Songbook”. Já havia visto esse nome antes, várias vezes, e, intuitivamente, vislumbrado o seu significado, mas nunca me havia dado ao trabalho de buscar o seu real conceito ou expressão. Decidi então sair atrás do seu real significado e encontrei muito mais do que isso. Uma longínqua reminiscência, mansamente, começou a apoderar-se de mim e entendi muito da razão porque eu sempre senti uma espécie de saudade de uma vida que eu nunca vivi. Comecei a entender porque eu não conseguia ouvir certas músicas antigas americanas sem me lembrar de um dos locais onde morei, quando ainda criança, pelos idos de 1947: uma pequena “Pensão Viaduto”, localizada no centro da cidade de Porto Alegre, ao pé do Viaduto Otávio Rocha, na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a rua Jerônimo Coelho. Se subíssemos a rua Jerônimo Coelho, dessa esquina, em direção à Praça da Matriz e Teatro São Pedro, passando ambos, encontraríamos o antigo Auditório Araújo Viana, palco de concertos sem fim, interpretados por bandas de todos os tipos e grandezas e franqueado a todos os que apreciavam a boa música.
Pois bem, numa época em que nem sequer se cogitava da ideia de um “mundo globalizado” e muito menos de um “You Tube”, as músicas vindas dos Estados Unidos demandavam um enorme tempo para chegar até nós e, muito possivelmente, cairiam no nosso conhecimento através da execução por orquestras ou bandas, antes de serem escutadas em discos de vinil de 78 r.p.m. Assim, no Auditório Araújo Viana, apesar de minha tenra idade, podia apreciar a execução daquelas maravilhosas canções americanas das décadas de 1930 e posteriores, tão apreciadas dos meus pais. E foi assim que, meio sem querer e sem saber, travei conhecimento com aquilo que viria a ser chamado, anos depois, “The Great American Songbook”. Mas vamos começar a história pelo seu início ...

O CONCEITO

Os anos que vão de 1920 a 1960 representaram um período único na história da música popular americana. Foi um período que viu o advento de um novo tipo de composição, totalmente original em alguns aspectos, mas enraizado nas estruturas simples da era “Tin Pan Alley”[1], que o havia precedido, e fortemente influenciado pela forma musical nascente conhecida como “Jazz” (e pelos precursores do jazz, “ragtime” e “blues”). Mormente composta para shows da Broadway e musicais de Hollywood, eleita e interpretada por cantores e músicos de todas as espécies, gravada em disco e transmitida pelo rádio, esse estilo de composição rapidamente ganhou as boas graças da maioria da audiência ouvinte. Essa era se encerraria com a chegada do “rock’n’roll” ao final da década de 1950 e com a “beatlemania”, poucos anos depois.
O “Great American Songbook” - em português, o “Grande Livro Americano de Canções”, que seguiremos chamando pelo seu título original, em inglês -, também conhecido por “Clássicos Populares”, é um conceito hipotético que busca representar as melhores canções americanas do período que vai de 1920 a 1960, principalmente dos teatros e palcos da Broadway e cenários dos musicais de Hollywood, que incluem um grande número de músicas de permanente popularidade. Tornou-se, e permanece até hoje, uma parte vital do repertório de músicos de “jazz”, que descrevem tais canções, simplesmente, como “padrões ou clássicos do jazz”.
Em um estudo do catálogo “American Popular Song: The Great Innovators, 1900-1950”, de 1972, o compositor e crítico Alec Wilder criou uma lista de artistas que ele cria pertencer ao “Great American Song Book”, bem como a sua classificação sobre o trabalho relativo deles. Ele próprio um compositor, a ênfase primária de Wilder recaiu sobre a análise dos compositores e seus esforços criativos.
Alec Wilder, iniciador do "Great American Songbook"
 Assim, Wilder devota capítulos inteiros a somente seis artistas: Jerome Kern, Irving Berlin, George Gershwin, Richard Rodgers, Cole Porter e Harold Arlen. Vincent Youmans e Arthur Schwartz repartem outro capítulo; Burton Lane, Hugh Martin e Vernon Duke compartilham outro. Wilder produz um capítulo que cobre os compositores que ele creu serem “Os Grandes Artífices”: Hoagy Camichael, Walter Donaldson, Harry Warren, Isham Jones, Jimmy McHugh, Duke Ellington, Fred Ahlert, Richard A. Whiting, Ray Noble, John Green, Rube Bloom and Jimmy Van Heusen. E conclui com um capítulo tipo caixa, de 67 páginas, intitulado “Relevantes Canções Inviduais: 1920 a 1950”, que inclui outras canções individuais por ele consideradas memoráveis.
O “Great American Songbook”, é um corpo “sui generis” de trabalhos musicais que, coletivamente, representam um dos reais tesouros culturais da América e ilustram o que há de melhor na composição popular, com letras vívidas e cultas, harmonias elusivas e melodias suntuosas, que surgiram para ocupar um lugar de destaque na cultura americana e ao redor do mundo.
A maioria das composições do “Great American Songbook” foi escrita para locais específicos em shows, filmes, atos peculiares ou revistas. Foram produto de compositores e letristas profissionais trabalhando em seus ofícios. Quando um roteiro chamava por uma exposição de certos humores ou sentimentos, os compositores atendiam. Nas mãos de um cantor competente como Billie Holiday ou Frank Sinatra, ou um músico como Louis Armstrong ou Miles Davis, os Clássicos servem como uma espécie de tesauro do espectro das emoções humanas, ainda provocando profunda e verdadeira reação até os dias de hoje.
É difícil dizer se compositores da segunda metade do século XX se ajustariam ao Great American Songbook. Para muitos, a sua era teria terminado com o advento do “rock-and-roll; Wider a encerra com o ano de 1950.

[1] Tin Pan Alley (Beco Tin Pan) é o nome dado ao agrupamento de compositores e editores de música de New York, que dominavam a música popular dos EUA, entre o final do século XIX e o início do século XX. Originalmente, o nome referia-se a um local específico: West 28th Street, entre a Quinta e a Sexta Avenidas, em Manhattan.

COMPOSITORES E CANÇÕES

Não existe uma lista definitiva de músicos e letristas cujos trabalhos constituem “The Great American Songbook”, nem é minha intenção aqui arrolar todos os que foram considerados. Apenas gostaria, como uma homenagem de reconhecimento, listar alguns dos compositores mais conhecidos, com suas canções mais ouvidas em todo mundo, para dar o devido crédito aos responsáveis por composições de cerca de um século atrás, que continuam sendo tocadas e admiradas, enquanto seus autores, na maior parte dos casos, permanecem no mais completo anonimato. Quem não ouviu ou cantarolou, incluindo gente das gerações mais jovens, algumas ou todas as melodias que seguem, com os seus respectivos autores e letristas, basta clicar para seguir o “link”, pois realmente vale à pena. E deliciem-se!

The Way You Look Tonight” (Jerome Kern & Dorothy Fields); “Long Ago and Far Away” (Jerome Kern & Ira Gershwin); “All the Things You Are” e “The Song Is You” (Jerome Kern & Oscar Hammerstein II); “Smoke Gets in Your Eyes” (Jerome Kern & Otto Harbach).
Jerome Kern, autor de "Smoke Gets in Your Eyes"


“Someone to Watch Over Me”, “’S Wonderful”, “Summertime”, “But Not ForMe”, “Embraceable You”, “The Man I Love”, “They Can't Take That Away from Me” (George Gershwin & Ira Gershwin).

“Younger than Springtime”, “If I Loved You”, “Some Enchanted Evening”, “My Favorite Things”, “Something Wonderful”, “Climb Every Mountain”, “Edelweiss”, “The Sound Of Music”, “A Wonderful Guy” (Richard Rodgers & Oscar Hammerstein).

Bewitched, Bothered and Bewildered”, “With A Song In My Heart”, “My Funny Valentine”, “Blue Moon”, “Manhattan”, “The Lady Is a Tramp”, “Lover”, “Isn't It Romantic?” (Richard Rodgers & Lorenz Hart).

Night and Day”, “I've Got You Under My Skin”, “Begin the Beguine”, “Let's Do It, Let's Fall in Love (Let's Do It)”, “Just One of Those Things”, “I Get a Kick Out of You”, “Ev'ry Time We Say Goodbye”, “In the Still of the Night”, “I Concentrate on You”, “You Do Something to Me” (Cole Porter).
George Gershwin morto em 1937 aos 38 anos

"How Deep Is the Ocean", "White Christmas", "Always", "Blue Skies", "Cheek to Cheek" (Irving Berlin).

Tea For Two” (Vincent Youmans & Irving Caesar).

Dancing in the Dark” (Arthur Schwartz and Howard Dietz).

Stardust” (Hoagy Carmichael & Mitchell Parish), “Georgia on My Mind” (Hoagy Carmichael & Stuart Gorrell), “The Nearness of You” (Hoagy Carmichael & Ned Washington).

My Blue Heaven” (Walter Donaldson & George A. Whiting), “Love Me Or Leave Me” (Walter Donaldson & Gus Kahn).

“At Last”, “The More I See You”, “You'll Never Know” (Harry Warren & Mack Gordon), “An Affair To Remember” (Harry Warren, Leo McCarey & Harold Adamson), “I Only Have Eyes For You” (Harry Warren & Al Dubin), “That's Amore” (Harry Warren & Jack Brooks).
Ira Gershwin, irmão parceiro de George

“It Had to Be You”, “I'll See You in My Dreams(Isham Jones & Gus Kahn).

“I'm in the Mood for Love”, “On the Sunny Side of the Street” (Jimmy McHugh & Dorothy Fields).

Beyond the Blue Horizon” (Richard A. Whiting, W. F. Harling & Leo Robin).

All the Way”, “Love Is The Tender Trap”, (Jimmy Van Heusen & Sammy Cahn), “Swinging on a Star”, (Jimmy Van Heusen & Johnny Burke).

Over the Rainbow” (Harold Arlen & E.Y. Harburg), “Stormy Weather”, “I've Got the World on a String”, “Let's Fall in Love” (Harold Arlen & Ted Koehler); “That Old Black Magic” (Harold Arlen & Johnny Mercer).
Richard Rodgers: "Ao Sul do Pacífico"

Paradise” (Nacio Herb Brown & Gordon Clifford), “Singin' in the Rain”, “Temptation” (Nacio Herb Brown & Arthur Freed).

I'll Be Seeing You” (Sammy Fain & Irving Kahal), “Love Is a Many-Splendored Thing”, “April Love”, “Tender is the Night” (Sammy Fain & P. F. Webster).

Bye Bye Blackbird” (Ray Henderson & Mort Dixon).




Who's Sorry Now?” (Ted Snyder, Harry Ruby & Bert Kalmar), “A Kiss to Build a Dream On” (Harry Ruby, Bert Kalmar & Oscar Hammerstein II).
Cole Porter: "Night and Day" e "Begin the Beguine"

“Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!” (Jule Styne & Sammy Cahn), “People” (Jule Styne & Bob Merrill).

“Happy Days Are Here Again” (Milton Ager & Jack Yellen).

Stella by Starlight”, “Love Letters”, “My Foolish Heart” (Victor Young & Ned Washington), “When I Fall in Love” (Victor Young & Edward Heyman), “Around theWorld” (Victor Young).

“Something's Gotta Give” (Johnny Mercer), “Moon River”, “Days of Wine and Roses” (Johnny Mercer & Henry Mancini), “Laura” (David Raksin & Johnny Mercer).

INTÉRPRETES

Desde a década de 1930, vários cantores têm gravado ou interpretado grandes partes do “Great American Songbook”. Lee Wiley esteve entre os primeiros a gravar coleções de um compositor ou equipe de composição específicos, começando por George Gershwin e Ira Gershwin (1939), seguido por Cole Porter (1940), Richard Rodgers e Lorenz Hart (1940), Harold Arlen (1943), Irving Berlin (1951) e Vincent Youmans (1951).
Irving Berlin: a imortal "White Christmas"
A popular e influente série “Songbook” de Ella Fitzgerald, editada pela Verve, nas décadas de 1950 e 1960, reuniu 252 canções do “Songbook”. Essas oito coleções prestaram tributo a Cole Porter (1956), Richard Rodgers e Lorenz Hart (1956), Duke Ellington (1957), Irving Berlin (1958), George Gershwin e Ira Gershwin (1959), Harold Arlen (1961), Jerome Kern (1963) e Johnny Mercer (1964).
Outros intérpretes influentes do “Great American Songbook”, mais antigos, incluem Fred Astaire, Tony Bennett, Rosemary Clooney, Nat King Cole, Perry Como, Bing Crosby, Vic Damone, Bobby Darin, Sammy Davis Jr., Doris Day, Billy Eckstine, Helen Forrest, Judy Garland, Eydie Gorme, Billie Holiday, Louis Armstrong, Lena Horne, Al Jolson, Frankie Laine, Julie London, Dean Martin, Johnny Mathis, Dinah Shore, Frank Sinatra, Jo Stafford, Barbra Streisand, Sarah Vaughan, Dinah Washington, Andy Williams e Nancy Wilson.
Pelas várias últimas décadas, tem havido um reflorescimento do “Songbook” por artistas contemporâneos. Em 1970, Ringo Starr lançou “Sentimental Journey”, um álbum de 12 clássicos arranjados por vários músicos. Em 1973, o cantor e compositor Harry Nilsson, vencedor do Grammy, lançou um álbum de 12 clássicos, muito bem recebido pela crítica, “A Little Touch of Schmilsson in the Night”, arranjado por Gordon Jenkins. O álbum foi reeditado em CD, em 1988, com um total de 18 clássicos cantados por Nilsson. No mesmo ano de 1973, Bryan Ferry, da famosa Roxy Music, lançou “These Foolish Things” e, subsequentemente, gravou vários álbuns do mesmo tipo. Em 1978, o cantor “country” Willie Nelson lançou uma coleção de clássicos populares compostos por notáveis como Hoagy Carmichael, George Gershwin e Irving Berlin, intitulado “Stardust”. Foi um lançamento considerado muito arriscado, à época, mas mostrou-se, talvez, seu álbum mais duradouro.
Victor Young: "Volta ao Mundo em 80 Dias"
Em 1983, a popular vocalista de rock, Linda Ronstadt lançou “What’s New”, o seu primeiro de uma trilogia de álbuns de clássicos. Sobre ele, escreveu Stephen Holden, do New York Times:
What’s New” não é o primeiro álbum de um cantor de rock a prestar tributo à idade de ouro do pop, mas é ... a melhor e mais séria tentativa para reabilitar uma ideia de pop que a Beatlemania e o marketing de massa dos LP’s de rock para teenagers desfizeram durante os anos 1960. Durante a década anterior à Beatlemania, a maioria dos grandes cantores de bandas e “crooners” das décadas de 1940 e 1950 codificaram meio século de clássicos do pop americano em um sem número de álbuns, muitos dos quais permanecem agora esgotados.”
Em 1991, Natalie Cole lançou um álbum de enorme sucesso chamado “Unforgettable ... with Love”, que desovou o “Top 40” sucesso “Unforgettable”, num dueto virtual com seu pai Nat King Cole. Os álbuns que se seguiram, como “Take a Look”, também tiveram muito sucesso.
Desde meados da década de 1980, vocalistas como Diana Krall, Michael Bublé, Michael Feinstein e outros menos conhecidos no Brasil, tornaram-se notáveis intérpretes do “Songbook” através de suas carreiras, particularmente o último, que tornou-se um dedicado patrocinador, arquivista, propagador e preservador do material, desde os últimos anos da década de 1970. Iniciando em 2002, Rod Stewart, de cujas interpretações sou particular admirador, tem devotado uma série de álbuns de estúdio a intérpretes do “Songbook”, tendo mesmo usado, explicitamente, o nome “Great American Singbook”.
Outros artistas, pop e de rock, que têm utilizado o trabalho, incluem Carly Simon, Betty Midler, Barry Manilow, Caetano Veloso, Queen Latifah e Robbie Williams. E, em 2012, Paul McCartney juntou-se a essa lista, com o álbum “Kisses of the Bottom".
Atualmente, o objetivo da Sociedade de Preservação do “Great American Songbook” é manter vivas essas canções na consciência pública, executando-as em todo o país e no mundo, com a mais alta integridade e interpretação musical de um elenco de cantores e músicos altamente capacitados, como embaixadores da música americana. Realmente, o mundo precisa muito desse tipo de música!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

“CLUBE FEDERAL”: RETORNO AO PASSADO

Propositalmente, no prelúdio, quero dedicar esta postagem a dois casais que, entre várias outras pessoas, também tiveram a sua representatividade em minha vida e por quem nutro um carinho muito especial embora, num certo instante, nossos caminhos tenham se desviado nessa longa jornada que é a vida. Mas sei que eles estão lá, disponíveis, no caso em que sua presença se torne necessária. São eles o João Paulo Ercolani e a esposa Neusa, prima da minha esposa e minha querida prima emprestada, e o José Kulshinsky e sua esposa Zélia.
Eu me considero um privilegiado da humanidade, desde que me tornei um residente de Gramado, a maravilhosa Cidade – Boutique da nossa linda serra gaúcha. Entre outras mil vantagens de morar nesta região encontra-se a possibilidade de realizar curtos passeios por uma paisagem que é cantada e decantada em verso e prosa, não apenas pelos gaúchos, como também por milhares de brasileiros de fora do Rio Grande do Sul e ainda estrangeiros que a têm vindo visitar nos anos mais recentes.
Pois ontem, aproveitando o magnífico tempo que tem feito por essa nossa área, e também a presença de minha sogra em nossa casa, programamos um piquenique entre os maravilhosos “campos de cima da serra”, saindo de Gramado, passando por Canela, em direção a São Francisco de Paula.
Entre Canela e São Francisco, assim que se passa o pedágio sobre a RS-235, ao lado esquerdo de quem se dirige a “São Chico”, encontra-se a conhecida Barragem do Salto, a cerca de 12 km de Canela.
Acesso à barragem do Salto, pela RS-235, vendo-se a barragem e o lago, o local do nosso piquenique e o Clube Federal
A Barragem do Salto faz parte área de geração do “Sistema Salto”, propriedade da antiga Companhia Estadual de Energia Elétrica, com escritórios administrativos na cidade de Canela. Tal sistema é formado por três barragens de regularização de descargas no mesmo rio Santa Cruz: Divisa, Blang e Salto. A geração de energia elétrica correspondente é realizada a jusante, no mesmo rio, pelas Usinas de Toca, Passo do Inferno e Herval; além disso, a jusante da Barragem do Salto, o túnel do Salto conduz as águas daí regularizadas, para a bacia vizinha, onde as Usinas de Bugres e Canastra se encarregam de aproveitar o potencial restante. O Projeto de aproveitamento do potencial hidráulico da área foi elaborado na década de 1930 e aprovado pelo Ministério da Agricultura em 1937. A Barragem do Salto foi inaugurada em janeiro de 1951, possuindo 583m de comprimento e 12m de altura.
A Barragem do Salto vertendo, em outros tempos
Na segunda metade da década de 1960, com os nossos vinte e poucos anos, recém casados, era na Barragem do Salto que minha esposa e eu, juntos com os nosso amigos já mencionados, João Paulo, Neusa, José e Zélia, costumávamos passar muitos dos nossos fins de semana livres, já que naquela época, com o curso de engenharia a meio caminho e trabalhando, a vida era bem dura, embora muito bem vivida.
À margem esquerda do enorme lago formado pela Barragem do Salto, havia uma espécie de hotel, denominado “Clube Federal”, ao qual as pessoas se associavam e tinham os pernoites de graça, ou um substancial abatimento, e pagavam apenas as refeições, caseiras, fartas e saborosas, que eram servidas no amplo salão de refeições do hotel. Lembro até hoje, que um dos sócios do empreendimento, que tomava conta do local, era um jovem chamado Douglas, com sua esposa, cujo nome já escapa da minha memória. Lembro também, como o João Paulo, com a irreverência que lhe era peculiar, chamava o clube, de uma forma brincalhona e jocosa, de “Clube Fodoral”.
Os quartos eram bem bons e as roupas de cama impecáveis; contra, apenas o fato, mais comum naquela época, de que não possuíam banheiro privativo, mas alguns poucos que serviam os apartamentos em cada andar. Como havia pouca frequência, sempre conseguíamos obter quartos cujas janelas abriam para o reservatório formado pela barragem, o que nos proporcionava uma paisagem fantástica a cada amanhecer. Era uma glória abrir as janelas dos quartos, pela manhã, e apreciar o sol matutino brilhando sobre as ondulações formadas pela brisa nas águas do reservatório formado pela barragem. Produzia, sobre nós todos, uma sensação de paz tão grandiosa que compensava qualquer viagem para chegar lá e, ao mesmo tempo, nos fazia esquecer as agruras dos tempos em que trabalhávamos duro em Porto Alegre, cada um em suas atividades específicas.
Pelas redondezas, dávamos longos passeios a pé, juntávamos pinhões caídos que se debulhavam do alto das enormes araucárias que completamente preenchiam a paisagem local e conversávamos. Era uma época em que pessoas de vinte e poucos anos se reuniam e conversavam, animadamente, sobre os mais variados assuntos. Alguém pode imaginar algo como isso? Ou já parece algo um tanto antediluviano?
Mas também fazíamos curtos passeios de carro, nos arredores. Se chegássemos ao asfalto, na RS-235, e virássemos à esquerda, em direção a “São Chico”, logo encontraríamos o “Veraneio Hampel”, espécie de pousada, onde saboreávamos um magnífico café colonial, com as tão famosas cucas alemãs e um sem número de outras iguarias. Virando à direita, em poucos minutos chegávamos a Canela e Gramado, então pacatas cidades pelos idos de 1965. Se nos embrenhássemos pelos campos dos locais mais recônditos, poderíamos praticar tiro ao alvo, ou mesmo assustar alguns passarinhos, com uma pequena espingarda de bala calibre 22, pertencente ao meu pai.
À noite, comíamos os pinhões coletados pela manhã e assados na chapa do grande fogão a lenha do hotel, como entrada de um lauto jantar caseiro que viria em seguida, regado a muita conversa ingênua. Depois, era um pequeno passeio pelos jardins do Hotel, para “baixar a comida”, e uma partida de Canastra jogada a pontos. E estávamos prontos para cair “nos braços de Morfeu”, dormir uma excelente noite estrelada e acordar no dia seguinte para recomeçar uma nova jornada, sempre com chance de ser mais alegre que a anterior.

Os modernos passeios de barco no lago da barragem

De volta ao presente, adentramos a área da barragem do Salto, que permite a visitação permanente e gratuita, por uma estrada de terra e pedra que parecia, pelas minhas opacas lembranças, estar ainda pior do que nos anos 60’. Mas ela não nos desestimulou e prosseguimos lentamente até que avistamos o primeiro sinal dos tempos modernos: uma grande placa ao lado da estrada avisava da existência de um clube náutico que proporcionava passeios de barcos infláveis, a motor, por todo o lago da barragem; isso, definitivamente, não existia no nosso tempo!
Continuamos baixando ao fundo do vale e então avistamos, majestosa, a barragem e seu lago. 
A Barragem do Salto tal como se encontra atualmente

Como mencionado, ela não é muito alta, mas vista de baixo é imponente, até por seu passado. Tiramos fotos e algumas vão aqui.
Penso que ao baixar, de carro, para chegar à barragem, enxerguei, na visão periférica, o Clube Federal ao alto, à nossa esquerda. Estávamos então procurando um recanto para fazer o piquenique, seguindo as instruções fornecidas por um passante, acompanhado por seu fiel companheiro cão, e eu sabia que poderíamos retornar por outra estrada que nos levaria diretamente ao Clube. Essa é hoje uma atividade relativamente fácil, já que o parque oferece extensas áreas de lazer, aventura, camping, pesca amadora e a prática de esportes náuticos.
Às margens do Rio Santa Cruz, a jusante da barragem

Logo chegamos ao local indicado, ainda melhor que o quadro pintado pelo fornecedor das informações. Um lindo campo bem verde, limpo, com fácil acesso para o carro, que permitiu a nossa chegada até a margem do rio Santa Cruz, a jusante da barragem, marcado por um leito rochoso encachoeirado, num panorama bucólico que a todos encantou. Ali deitamos nossos apetrechos, comidas e bebidas, nos instalando confortavelmente e realizando o nosso piquenique-celebração de tempos que deixaram muita saudade.
Na volta, retornando da margem do lago por outro caminho, logo começamos a reconhecer os arredores e rapidamente chegamos ao Clube Federal. Lamentavelmente, triste acolhida do local que nos deu tantas alegrias, com suas portas hoje cerradas ao público. Entretanto, sua grandiosidade permanece e bastou vê-lo para sentir como se estivéssemos retornando ao passado longínquo.
O velho Clube Federal, em seu estado atual

As maravilhosas matas de araucária vistas do Federal
Pudemos ver a porteira de acesso aos jardins, hoje com um cadeado enferrujado, os mesmos pinheiros onde antes juntávamos pinhões frescos recém caídos, a paisagem exuberante repleta de araucárias, o prédio portentoso de madeira pintada de branco e, lá embaixo, o lago da barragem, na mesma paisagem que nos maravilhava a cada nova manhã das nossas primaveras. Foi muito bom te ver, Clube Federal!
Eu gostaria muito que os nossos amigos João Paulo, Neusa, José e Zélia, pudessem, um dia, ler esta postagem e lembrar de todos os bons momentos que tivemos juntos nesses locais. E quem sabe, num outro dia, ou num outro mundo, a gente ainda possa voltar a eles, todos juntos, novamente.
Beijos aos quatro, onde estiverem!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O SONHO DE OLWEN

INTRODUÇÃO
Nunca fiz qualquer segredo do meu amor pelo piano e da minha leve “frustração” – sem traumas – por não ter realmente aprendido a executá-lo. O amor pelo piano vem da minha avó Julieta e da minha tia Ione, sua filha, pianista concertista que a sucedeu. Com ela tive aulas de piano enquanto criança e algumas adicionais, depois de adulto; entretanto, por minhas atividades profissionais, na busca do “pão nosso de cada dia” nunca pude, realmente, dedicar-me a ele como gostaria de ter-me dedicado.
Há um ano atrás, buscando alguma música na net, acabei descobrindo uma melodia maravilhosa, composta para piano, e tive aquela sensação de que já a havia escutado, no passado, sem saber onde nem quando. A música é maravilhosa e incorpora, na sua composição, não por acidente, o mistério que bem traduz o clima que o filme deveria proporcionar por seu enredo. E, claro, muito piano ....

Coloquei-me na pesquisa e descobri que a música, chamada “The Dream of Olwen” - em português “O Sonho de Olwen” -, composta por Charles Williams, constituiu o tema musical de um filme britânico, chamado “While I Live”.
Folheto de Apresentação de "While I Live"
O filme, cujo título em português é “Enquanto eu viver” –, é uma produção britânica de 1947, dirigido por John Harlow, produzido por Edward Dryhurst e escrito por Doreen Montgomery. Este filme acabou sendo melhor lembrado por seu tema musical “The Dream of Olwen”, composto por Charles Williams, tocado várias vezes durante todo o filme, que tornou-se enormemente popular no seu tempo e ainda é executado regularmente. O próprio filme tornou-se amplamente conhecido como “The Dream of Olwen”. A versão que apresentamos aqui, espero que para deleite dos nossos leitores, é a execução de Russ Conway ao piano, sobre quem escreveremos algumas linhas abaixo.
Nos papéis principais atuaram os atores Audrey Fildes (Olwen), Sonia Dresdel (Julia), Carol Raye (Sally Grant) e Tom Walls (Nehemiah).
John Harlow foi um diretor inglês, não muito conhecido, principalmente do público brasileiro, ativo de 1930 até o final da década de 1950. Trabalhou para estúdios menores, principalmente em filmes de crime e suspense e seus filmes mais conhecidos incluem “Candles at Nine” (1944), “Meet Sexton Blake” (1945), “The Echo Murders” (1945) e o drama “While I Live”.
Os artistas não são conhecidos do público brasileiro por serem mais antigos e porque os filmes britânicos nunca tiveram muita penetração entre nós.

O ENREDO


A região da Cornwall, a sudoeste da Inglaterra, em rosa.
Em 1922, na Cornwall – Cornualha, em português – uma prodigiosa jovem pianista e compositora, Olwen Trevelyan (Audrey Fildes), debate-se na conclusão de um poema sinfônico para piano que está compondo. Impulsionada a completar a peça por sua dominadora irmã mais velha Julia (Sonia Dresdel), Olwen torna-se agitada e desesperada e uma certa noite, numa crise de sonambulismo, encaminha-se para a borda de um penhasco próximo de sua casa. Julia a segue, chamando por ela e Olwen, bruscamente despertada, perde o equilíbrio e cai para a morte nas rochas embaixo do precipício.
Julia não supera o episódio da morte de Olwen e a culpa de sua própria participação no evento durante os anos que passam, tornando-se uma figura obsessiva cuja principal razão de viver é manter viva a memória de Olwen. A composição final de Olwen ganha o seu reconhecimento póstumo e a cada ano, no aniversário de sua morte, ela é transmitida pelo rádio.
No vigésimo quinto aniversário da morte de Olwen, Julia está escutando a execução da sinfonia pelo rádio quando ouve uma frenética batida à porta e a abre para permitir a entrada da jovem Sally Grant (Carol Raye) que encaminha-se diretamente ao piano e inicia, com destreza, a executar a composição junto com a transmissão pelo rádio. A jovem alega ter perdido a memória e não ter ideia de quem seja ou como ter chegado à casa isolada, embora pareça ter uma certa familiaridade com os arredores e com a história da família Trevelyan. Chocada por sua semelhança com Olwen, Julia lhe oferece refúgio e, também percebendo traços comportamentais que lembram Olwen, se convence que a mulher é a reencarnação de sua irmã morta. Nehemiah (Tom Walls), um habitante local a quem se atribui poderes de cura pela fé e que também alega ser vidente, se envolve e a história gradativamente se repete, culminando com a presença precária da jovem sob a mesma borda do penhasco de onde caiu Olwen.

CHARLES WILLIAMS

Charles Williams nasceu Isaac Cozerbreit, em 8 de maio de 1893 em Londres, filho de pais judeus poloneses, e morreu em 7 de setembro de 1978 em Findon Valley, Worthing, West Sussex, Inglaterra com 85 anos de idade. Foi um compositor e maestro britânico que contribuiu com as músicas de mais de 100 filmes. Embora sua carreira tenha sido trilhada de 1934 a 1968, muito do seu trabalho chegou às telas do cinema como “música de estoque” e, por isso, ele não recebeu os créditos correspondentes.

O Compositor Charles Williams
 Charles Williams começou sua carreira como violinista independente em teatros, cinemas e orquestras sinfônicas, posteriormente estudando composição com Norman O’Neill na Academia Real de Música. Em 1933 ele foi para a Gaumont British Films como compositor, onde permaneceu até 1939. Compôs para muitos filmes britânicos e shows de rádios e após o final da Segunda Guerra Mundial, tornou-se o maestro da nova Orquestra Ligeira Queen’s Hall; posteriormente formou sua própria Orquestra para Concertos. Compôs muitas músicas orquestrais e na década de 1950 tornou-se muito conhecido por temas de cinema e televisão ingleses bastante conhecidos na Inglaterra e na Austrália.
Charles Williams foi um compositor prolífico e sem paralelo na área da cativante Música Ligeira e, entretanto, é hoje uma figura praticamente desconhecida. Sua versatilidade foi algo impressionante, pois ele se sentia igualmente em casa na “Royal Opera House”, “Covent Garden” ou no poço da orquestra do Cinema Empress, no Brixton. Tocando sob a batuta de Sir Edward Elgar (compositor de “Pomp and Circumstance”, entre várias outras obras primas da composição britânica) teve atuação tão primorosa que dele mereceu receber, por valiosos serviços prestados, uma cópia autografada de sua biografia.
A contribuição de William para as telas do cinema incluiu incumbências adicionais de Alfred Hitchcock e as comédias do famoso ator cômico inglês William Thomson Hay (Will Hay) – Oh, Mr Porter! – não do nosso tempo. Após a segunda grande guerra ele teve um grande sucesso com “The Dream of Olwen”, do filme “While I live”. Gravado por vários artistas, esta melodia tornou-se um sinônimo do seu próprio nome, durando muito mais do que o filme. Em 1960, seu “Jealous Lover” foi escolhido como o tema para o filme americano “The Apartment” – no Brasil, “Se o meu Apartamento Falasse”. Estrelado por Jack Lemmon e Shirley MacLaine, filme e música tornaram-se extraordinários sucessos. A versão que apresentamos é executada por Ferrante & Teicher, um dueto de pianistas americanos, conhecidos por seus preciosos arranjos ligeiros de peças clássicas familiares e trilhas sonoras de filmes.
Tristemente, o alcoolismo foi a doença contra a qual ele batalhou, permanentemente, durante os últimos estágios de sua vida, e sua percepção do problema levou-o a declinar um grau honorário de Doutor em Música oferecido pela Universidade de Oxford, por não se considerar mais digno de tal premiação nem confiar em si próprio para participar de tão importante cerimônia; dada a sua brilhante estirpe musical  e influência sobre os seus vários pares esta foi uma verdadeira tragédia pessoal.
Após passar grande parte da sua vida em Hampstead, West London, Williams retirou-se com sua esposa para Findon, nos South Downs, próximo de Worthing, em West Sussex. Lá ele morreu em 7 de setembro de 1978, com a idade de 85 anos, uma figura praticamente esquecida, já que a Música Ligeira tornara-se “fora de moda”. Contudo, um recente ressurgimento do interesse na grande herança musical britânica trouxe de volta uma reavaliação, muito desejada, deste verdadeiramente grande compositor.

RUSS CONWAY

Russ Conway, nascido a 2 de setembro de 1925 e morto em 16 de novembro de 2000, foi um pianista de música popular, que teve a surpreendente marca de 20 melodias instrumentais para piano no Quadro de Simples do Reino Unido, entre 1957 e 1963, incluindo dois sucessos em primeiro lugar.

O Pianista Russ Conway
Nasceu em Trevor Herbert Stanford, em Bristol, England e não teve aulas de piano formais, mas recebeu um bolsa de estudos para o Coro da Catedral de Bristol. Foi praticamente um autodidata no piano, enquanto gastava o seu tempo, ainda quando jovem, numa estadia de três anos em Borstal, um instituto correcional na Inglaterra. Seu pai, então, permitiu-lhe que ingressasse na marinha mercante, onde iniciou em 1942 na Marinha Real, permanecendo até 1948, quando foi agraciado com a Medalha de Distinção em Serviço, como sinaleiro numa flotilha, “por reconhecidos serviços, eficiência e zelo”, na busca de minas no Mar Egeu e operações durante a libertação da Grécia, entre 1944 e 1945.
Sua fama nasceu enquanto tocava num clube londrino, quando foi indicado para o selo Columbia da EMI, e passou a metade da década de 1950 como piano de fundo para os artistas de plantão.
Sua carreira foi minada pela má saúde que incluiu um colapso nervoso e, subsequentemente, um derrame que o impediu de tocar entre 1968 e 1971. Às vezes bebia muito e fumava até 80 cigarros por dia. Foi medicado com antidepressivos e teve períodos de severa perda de memória. Mas prosseguiu tocando o seu piano. Teve diagnosticado um câncer de estômago ao final da década de 1980 e fundou, em 1990, com seu amigo escritor e radialista Richard Hope-Hawkins, o “Russ Conway Cancer Fund, apresentando espetáculos de gala nos principais teatros, que levantaram milhares de libras para instituições de caridade de combate ao câncer.
Conway morreu solteiro em 16 de novembro de 2000 e Richard Hope-Hawkins fez o principal elogio fúnebre em seu funeral, na histórica igreja de St. Mary Redcliffe, em Bristol, para o qual Elton John enviou uma coroa de flores.
E nós, sem nada mais podermos fazer além de apreciar a arte dos grandes mestres, prestamos a nossa singela homenagem a esses dois grandes músicos, repassando a vocês o lindo “clip” da música “The Dream of Olwen”, a maravilhosa composição de Charles Williams, na brilhante execução de Russ Conway.
Deliciem-se com ela e vibrem como eu vibrei!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

HISTÓRIA DO BRASIL NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX (Quinta e última parte)

CONCLUSÃO

Até então, apenas citei os dados históricos retirados de várias fontes sem, sobre eles, tecer quaisquer comentários. Rigorosamente, para muitos dos meus leitores, desnecessário seria comentar os fatos expostos para que chegassem às conclusões a que, inevitavelmente chegariam ou chegarão. Entretanto, sem querer desprezar aos mais jovens, que não vivenciaram os fatos relatados e que apenas conhecem a história transmitida, nem sempre fiel a si própria, o que vou fazer é apenas enfatizar alguns dos fatos ocorridos para que eles possam chegar às suas próprias conclusões.
Um dos princípios que sempre norteou a minha vida de estudante, chefe de família, profissional e cidadão, foi a coerência, herança de meu pai e que aceitei voluntariamente, tentando sempre transmiti-la a meus filhos. Li uma vez a seguinte frase, como sendo de autoria do escritor irlandês Oscar Wilde: “A coerência é a virtude dos imbecis”. Difícil interpretar uma frase dessas sem conhecer o contexto em que ela teria sido proferida, se de fato foi dita por ele. Todos sabemos, também, que o escritor era pessoa de grande inteligência e de fina ironia; portanto, muito cuidado ao ler a sua frase. Em primeiríssimo lugar, é preciso atentar para o fato de que ele reconhece a “coerência” como virtude; ele a chama de virtude. Nesse caso, porque “dos imbecis”? Da simples leitura da frase do eminente escritor, deduz-se que, ou ele não era coerente, caso contrário jamais se auto rotularia "imbecil"; ou era coerente e seria também um imbecil, coisa que todos sabemos que não era. Certamente tratou-se de mais uma fina ironia de Oscar Wilde, "os imbecis" aqui significando os "trouxas" ou "burros" que, por exemplo, aqui no Brasil de hoje, não se aproveitam das situações apenas por ou para serem coerentes. O que não foi o caso de muitos, que se locupletaram, mostrando-se totalmente incoerentes com suas atuações anteriores; mas que, segundo Oscar Wilde, não foram nada "imbecis". Certamente o grande escritor reconhecia na “coerência” uma grande virtude! 
Por conseguinte, em consequência desta pequena introdução à minha conclusão, eu aqui declaro a minha total oposição à forma de participação política de Getúlio Vargas na História do Brasil! Se houve característica que Getúlio nunca demonstrou possuir ao longo de toda a sua vida, foi a coerência! Getúlio Vargas possuía duas qualidades inegáveis: a arte da retórica e o poder da conciliação; mas faltou-lhe total coerência ao longo de sua vida! Há vários episódios registrados em suas vidas pública e privada que muito bem demonstram esse fato e isso não é dito apenas por mim, mas por vários pesquisadores da vida do político, conforme será mostrado a seguir. Mas para embasar a nossa opinião, faremos, antes, referência a algumas passagens já relatadas da vida de Getúlio.
As incoerências de Getúlio começaram a se manifestar antes mesmo que ele fosse introduzido à vida pública. Por exemplo, ninguém sabe até hoje porque ele teria adulterado, em sua juventude, alguns documentos, para fazer crer que teria nascido em 1883 e não em 1882, como demonstra a sua certidão original de batismo.
Agora, em 25 de fevereiro de 2012, Lauro Jardim, Redator Chefe da Veja, faz referência ao primeiro volume, Getúlio, da trilogia que o jornalista Lira Neto lançará pela Companhia das Letras, em maio. Uma das revelações do livro é o discurso de formatura do jovem Vargas, na Faculdade de Direito de Porto Alegre, em 1907. Ali, aos 25 anos, surge um Vargas seduzido pela filosofia de Nietzsche (“esse alucinado genial”) e crítico à condição da mulher de então (“amesquinhada, ser inferior, serpente tentadora do mal”). Noutro trecho, investe contra o cristianismo (“A moral cristã é contrária à natureza humana, inimiga da civilização”) e ataca sua moral sexual (“O cristianismo desnaturou a grandeza da sexualidade” ou seja, “a união dos seres numa transfusão do magnetismo amoroso, considerado pelos cristãos como um comércio impuro”). Se hoje tal discurso já causaria polêmica para um político, há cem anos impediria qualquer carreira de decolar. Por isso, os anos se passaram e Vargas trancafiou o libelo, do qual nunca mais se teve notícia, escondendo-o da própria família. Em 1977, Alzira, sua filha, doou uma série de documentos à Fundação Getúlio Vargas, expressamente recomendando, por escrito: “não pode e não deve ser publicado, sob hipótese alguma”. A recomendação, para o bem da verdade, não foi respeitada por Lira Neto.
Um de seus melhores e mais fieis amigos, além de colega da Faculdade de Direito e seu vice no governo estadual em 1928, foi João Neves da Fontoura, com quem iniciou sua carreira política, peregrinando em campanha para Borges de Medeiros, pelo interior do Rio Grande do Sul, em 1907, e por quem renunciou a seu mandato de representante na Assembleia Estadual, por ver injustiçado seu pai por fraude eleitoral em seu município – quando na verdade fora culpado. Entretanto, durante o Golpe de 1930, quando deixou o governo do Rio Grande do Sul, nada disso impediu Getúlio de preterir Neves da Fontoura em favor de Osvaldo Aranha, que o assumiu, causando a renúncia imediata do seu amigo. Posteriormente, em 1932, Neves da Fontoura romperia definitivamente com Getúlio quando este se recusou a punir os “Tenentes” responsáveis pelo incêndio do jornal “O Diário Carioca”.
Decididamente, Getúlio Vargas emergiu no plano político durante a campanha de1922 para eleição do governador do estado do Rio Grande do Sul e a Revolução de 1923. Nos dois episódios, a participação de Getúlio foi controvertida. Como vimos anteriormente, por razões incoerentes, esteve sempre ao lado do governo borgista (chimangos) contra o qual pesava a maior queixa dos maragatos, de tentar perpetuar-se no poder através de eleições manipuladas. Aqui o papel de Vargas foi deveras comprometedor, conforme demonstrado pela sua participação como Presidente da Comissão de Constituição e Poderes da Assembleia dos Representantes, responsável pela apuração dos votos e reconhecimento dos eleitos no pleito. Tal Comissão, totalmente formada por homens de absoluta confiança de Borges de Medeiros, indicou a sua vitória, em meio a rumores de um levante armado contra Borges de Medeiros e denúncias de fraudes de ambos os lados. Como não tivesse sido alcançada a exigência constitucional de ¾ dos votos, na disputa contra Assis Brasil, a Comissão foi instada por Borges de Medeiros a proceder à alquimia eleitoral, forjando os resultados. Pelos serviços prestados, Getúlio foi então promovido, por decreto governamental, de Sargento a Tenente Coronel da Brigada sem, contudo, pegar uma só vez em armas, a favor de um ou de outro lado, apesar de uma cruenta revolução regional com ocorrência de um grande número de baixas.
Decididamente, Getúlio Vargas não era uma pessoa de personalidade forte! Era fazendeiro, filho e neto de fazendeiros na pequena cidade de São Borja, com recursos disponíveis para propiciar-lhe uma boa educação, que a teve. Conciliador, bem humorado, de sorriso fácil, muito bem podemos imaginá-lo a participar de uma roda de chimarrão e um churrasco, entre os conterrâneos, a contar histórias de seu tempo, de seus pais e avós. Mas jamais poderemos imaginar o político fardado, armado de sabre e pistola, cavalgando à frente de uma tropa, como era tradição em sua época. Nunca foi militar de carreira e o maior posto que conseguiu galgar em sua vida foi o de sargento do exército quando cumpriu o serviço militar obrigatório, parte em sua cidade natal e parte em Porto Alegre. Entretanto, a sua primeira foto oficial como chefe do governo nacional, pelo Golpe de 1930 – incoerentemente sempre referido como Revolução de 1930 -, o apresenta fardado como oficial do exército, aconselhado por companheiros, já que o movimento havia sido realizado por oficiais do Exército Brasileiro; e foi a última vez que vestiu uma farda em sua vida.
A sua personalidade fraca foi até mesmo analisada no épico romance histórico do também gaúcho Érico Veríssimo, a trilogia “O Tempo e o Vento”, quando, às vésperas da Revolução de 1930, ele telefona os maiores articuladores do movimento, no Rio Grande do Sul, Osvaldo Aranha e Flores da Cunha, para comunicar que, em caso de fracasso do movimento, seu nome não seria ligado a ele de forma alguma. Não foi preciso acrescentar que, se o golpe fosse vitorioso, tudo estaria muito bem! Em outro trecho do mesmo épico, um personagem relata o costume que possuiria Getúlio de manter um revólver carregado na gaveta de sua mesa de trabalho, com a ideia de suicídio sempre em mente; o que viria a se concretizar em 1954, durante o seu mandato de presidente da República. De uma certa forma, ele próprio teria escrito isso, claramente, em seu diário particular, como apresentado anteriormente.
Getúlio Vargas chegou ao poder, a nível nacional, durante o golpe de 1930, que a memória fraca da grande maioria do povo brasileiro – com ênfase para nossos conterrâneos gaúchos - insiste em chamar de revolução de 1930. Vamos direto ao ponto: o movimento de 1930 foi um golpe nas instituições constitucionais brasileiras, da mesma forma que o de 1964, se quisermos manter coerência sobre o assunto. Em tudo foram idênticos, a começar pelos seus autores, que eram os mesmo, apenas 30 anos mais novos. Os motivos foram muito menos plausíveis e aceitáveis em 1930 do que em 1964. Posicionar-se contra ou a favor, de um ou de outro, é outro assunto, meramente pessoal não estando aqui em jogo. O que está em jogo é a ilegalidade constitucional do movimento, que ocorreu, sem qualquer sombra de dúvida! O que me deixa assombrado, nessa e em outras situações similares da política nacional, é ver defensores, partidários, apoiadores do movimento de 1930 e seguidores de Getúlio Vargas, até hoje, se manifestarem radicalmente contra o movimento de 1964. Senão vejamos.
As grandes “justificativas” para o golpe de 1930 teriam sido (1) o não cumprimento do revezamento na presidência de república ditada pela famosa política “café com leite”, (2) pretensas fraudes eleitorais nas eleições daquele ano e (3) a famosa “gota d’água” que teria sido o assassinato do Governador da Paraíba, João Pessoa.
Quanto ao primeiro “grande motivo”, é importante relembrar que, não havendo à época, partidos políticos a nível nacional, como acontece hoje – a bagatela de 30 partidos em que a maioria se vende por trocados para apoiar os maiores nas suas intenções, belo progresso que tivemos em 80 anos -, cabia ao Presidente organizar a sua sucessão, o que vinha sendo feito de acordo com a política vigente à época; o então presidente, Washington Luís cumpriu o acordo, tendo indicado à sua sucessão, um outro paulista, Júlio Prestes. E eu, diretamente, pergunto: e isso configuraria justo motivo para golpear as instituições brasileiras? De qualquer forma, não seriam realizadas eleições nacionais para indicar, pelo voto dos cidadãos, quem sucederia o atual presidente? Qual o significado da adoção de uma política informal como aquela, em função dos grandes e verdadeiros conchavos políticos realizados hoje para indicar os candidatos a qualquer eleição brasileira em qualquer nível? Qual a participação do povo brasileiro na indicação desses candidatos de hoje? Que pruridos tão fortes eram aqueles de antigamente? Por que não houve uma tentativa pura e simples de indicar um candidato mineiro ou de qualquer outro estado do Brasil para concorrer com Júlio Prestes? De fato, houve essa indicação, na pessoa de Getúlio Vargas, por três estados da Federação de 20, à época, contra os 17 restantes que, em convenção nacional, homologaram o nome de Júlio Prestes. E ele foi derrotado nas urnas, por Júlio Prestes, por grande margem de votos, o que nos leva ao segundo dos “grandes motivos” para o golpe.
As fraudes em eleições brasileiras ocorreram em toda a história do Brasil, desde os tempos do Império e tornaram-se muito conhecidas as realizadas no estado do Rio Grande do Sul, exatamente durante o período Castilhista e Borgista de sua história, dos quais sempre foi um adepto fervoroso o próprio Getúlio. Além disso, as acusações nas eleições de 1930, aconteceram de ambas as partes; o próprio Governador do Rio Grande do Sul, anterior a Getúlio Vargas, Borges de Medeiros, declarou enfaticamente que ocorreram fraudes nas eleições nacionais de 1930 em ambos os lados. É digno de nota o fato de que o Rio Grande do Sul foi o único estado dos 20 da Federação, e dos três que o apoiavam, que o consagrou com 100% dos votos depositados!
Finalmente, quanto à terceira “grande justificativa” do golpe de 1930, o assassinato de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, governador da Paraíba e, não por acaso, candidato à vice-presidência da república, na chapa de Getúlio, hoje cabalmente comprovado, nada teve a ver com crime político, mas apenas um crime passional conforme declarado pelo próprio assassino, que toda a Paraíba conhecia, bem como à sua amante Anayde Beiriz, pivô do crime. Se o crime fosse político, pergunto eu, por que matar o candidato a Vice-presidente e não o candidato a Presidente? Estranhamente, tanto o assassino como a sua amante teriam, em seguida, se “suicidado”, ele na cadeia e ela em seu apartamento, em Recife.
Ao final de tudo, em 22 de maio de 1930, o Congresso Nacional proclamou eleitos para a presidência e vice-presidência da república, Júlio Prestes e Vital Soares. Relembremos que em dezembro de 1929, um acordo fora formalizado entre os oponentes, pelo qual Getúlio Vargas comprometia-se a aceitar os resultados das eleições e, em caso de derrota da Aliança Liberal, comprometia-se a apoiar Júlio Prestes. Em troca, Washington Luís comprometia-se a não ajudar a oposição gaúcha a Getúlio. Tal compromisso foi honrado por Getúlio? O golpe de 1930 não só não honrou os compromissos assumidos, como nem sequer permitiu que o mandato de Washington Luís - de quem Getúlio Vargas havia sido o Ministro da Fazendo, contrariamente aos anseios do seu Governador e líder político Borges de Medeiros -, fosse legalmente concluído.
O que todos os simpatizantes de Getúlio Vargas e do golpe de 1930 “esquecem” de mencionar é que o seu fundamental apoio foi fornecido pela corrente político-militar denominada “Tenentismo” que, ao contrário do que o nome induz a pensar, contava com o apoio de oficiais superiores, no exército, na marinha e na incipiente aeronáutica. Entre esses, só para citar alguns poucos, podemos destacar: Cordeiro de Farias, Eduardo Gomes, Antônio de Siqueira Campos, Juarez Távora, Luís Carlos Prestes, Filinto Müller, Juracy Magalhães, Agildo Barata, Ernâni do Amaral Peixoto, Augusto do Amaral Peixoto, o general reformado Isidoro Dias Lopes e o general honorário do exército brasileiro José Antônio Flores da Cunha. Algumas observações me parecem muito importantes neste ponto: Cordeiro de Farias, que chegaria a Marechal do exército brasileiro, afirmou, em suas memórias, que os “tenentes” fizeram a revolução de 1930. O comandante militar do movimento seria Luís Carlos Prestes, gaúcho de Porto Alegre, conhecido comunista brasileiro, líder da Coluna Prestes, que pretendeu ampliar a Revolução de 1923 a nível nacional e que, coerentemente, abdicou de sua função, na última hora, para apoiar o comunismo; Filinto Müller tornar-se ia o odioso chefe da polícia do Rio de Janeiro, durante a ditadura de Getúlio Vargas; Ernâni do Amaral Peixoto transformar-se ia no poderoso genro de Getúlio, casado com sua filha Alzira Vargas e que o acompanharia até o seu suicídio, em 1953; Flores da Cunha, interventor do Rio Grande do Sul, nomeado por Vargas, e posteriormente Governador eleito, reagiria em 1937 quando Getúlio, novamente usada pelos militares, proclamou o Estado Novo, tornando-se ditador e, para escapar, sem força de reação, foi obrigado a refugiar-se na Argentina.
Por tudo isso e mais o que li sobre o assunto, nada me tira da cabeça que Getúlio teria sido o que, vulgarmente se chama, “a bola da vez”, durante o golpe de 1930, quando pela primeira vez chegou a chefe do governo nacional. Naquela ocasião, ele era governador do estado do Rio Grande do Sul, havia sido candidato derrotado à presidência da república e, não era mineiro, que se opusesse aos paulistas e, isso sim, não era homem de deixar passar as oportunidades, quando elas favoravelmente apareciam. A esse respeito, não podemos esquecer a conhecida frase de seu amigo João Neves da Fontoura: “Se o cavalo passar encilhado ele monta!”. É preciso colocar atenção no sentido dessa frase: o cavalo preciso passar e arreado; torna-se então muito fácil montar.
E assim foi que, a 3 de novembro de 1930, a Junta Militar Provisória, que já depusera Washington Luís e expatriara Júlio Prestes, entregou o poder a Getúlio Vargas. Seria repetitivo relacionar todas as barbaridades então ocorridas durante os 15 anos do governo de Getúlio Vargas que se seguiram. Entretanto, é muito importante que se diga que, em função dessa aventura que teve, como uma das suas mais funestas consequências, a criação da primeira ditadura brasileira de fato, muitos brasileiros irmãos morreram numa verdadeira guerra civil que se iniciou no Rio Grande do Sul, em 3 de outubro e que se alastrou por todo o país. Apenas em Pernambuco, num só combate, morreram 150 brasileiros. O que fizeram paulistas, gaúchos, mineiros ou qualquer outro brasileiro, para merecer morrer vítimas de balas de outros brasileiros, sem sequer saberem por que estavam morrendo? Ela poderia ter tido consequências ainda muito mais amplas e graves se, a 24 de outubro, os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e o almirante Isaías de Noronha não tivessem deposto Washington Luís, felizmente antevendo o que aconteceria se a grande batalha de Itararé tivesse ocorrido. Getúlio nada fez para evitar essa catástrofe, a não ser escrever, entre outras coisas, em seu Diário, inaugurado na véspera do golpe: “Como se torna revolucionário um governo (o seu próprio governo estadual) cuja função é manter a lei e a ordem? E se perdermos (medo de assumir a responsabilidade?)? Eu serei depois apontado como o responsável, por despeito, por ambição, quem sabe? Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso!! (mas no caso de vitória, tudo estaria bem?)”. E, enquanto isso, inclui-se e permite que o golpe prossiga, tudo acontecendo conforme a vontade dos outros ...
As arbitrariedades foram tão grandes durante o Governo Provisório, tendo Getúlio como Chefe, que os oficiais das forças armadas fiéis ao governo legal deposto, tiveram suas carreiras abortadas, sendo colocados, por decreto, na reserva militar. No Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 1931, seis ministros apoiadores do governo deposto, foram aposentados compulsoriamente. A Marinha do Brasil, não combateu os revolucionários de 1930, mas Getúlio aposentou, compulsoriamente, vários oficiais, o que levou o seu ministro da Marinha, José Isaías de Noronha, a pedir exoneração do seu cargo. A chamada "Justiça Revolucionária" e o "Tribunal Especial", criados em 1930, pelo decreto que instituiu o Governo Provisório, com o objetivo de analisar o "processo e julgamento de crimes políticos, funcionais e outros que serão discriminados na lei de sua organização", como o próprio Getúlio confirmou em seu Diário, no dia 4 de dezembro de 1932, não conseguiram apurar qualquer irregularidade ou sinal de corrupção no regime deposto em 1930.
Sem querer, absolutamente, justifica-lo, o movimento de 1932 de São Paulo foi a reação à ação totalmente ilegal de 1930, principalmente considerando que surgiu contra uma ditadura, por uma constituição que havia sido revogada e por um interventor civil e paulista. Note-se que o movimento constitucionalista paulista de 1932, contou com o apoio de políticos importantes de outros estados, como Borges de Medeiros, Raul Pilla, Batista Luzardo, Artur Bernardes e João Neves da Fontoura. Todos eles gaúchos, com exceção de Artur Bernardes, haviam apoiado a Revolução de 1930, foram presos e exilados e romperam posteriormente com Getúlio, num exemplo de coerência de ideias.
Os anelos ditatoriais de Vargas não arrefeceram com a rendição dos paulistas, pois em 4 de abril de 1935 foi sancionada a lei nº 38, que criava a Lei de Segurança Nacional, como arma de combate à subversão da ordem pública e em 22 de julho do mesmo ano criava o programa oficial de rádio “A Hora do Brasil”, depois denominada “A Voz do Brasil”, até hoje existente.
Seria de esperar que durante um regime de exceção surgissem correntes extremistas na oposição, como a Ação Integralista Brasileira (AIB), de inspiração fascista, de um lado, e a Aliança Nacional Libertadora (ANL), dominada pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), do outro. E esses movimentos foram, por ironia, a desculpa que o poder vigente desejava, para perpetuar-se no mando, justamente na hora de realização das eleições constitucionais, no início de 1938. E assim, usando o suposto Plano Cohen, segundo o qual os comunistas tomariam conta do Brasil, em novo golpe, Getúlio Vargas, apoiado por militares e boa parte da classe média brasileira, rasga a recente constituição de 1934 e instala a ditadura do “Estado Novo”. Quem, de sã consciência, pode defender a ilegalidade deste processo? No mais otimista dos enfoques, fico com a opinião do seu amigo Neves da Fontoura: Getúlio teria, mais uma vez, montado no cavalo encilhado que passava.
E corroborando a minha tese de que Getúlio não era o forte que os seus simpatizantes e seguidores sempre quiseram pintar, é importante lembrar, neste momento, as palavras do Almirante Ernâni do Amaral Peixoto, seu próprio genro, segundo as quais, o Estado Novo não foi obra pessoal de Getúlio, mas sim uma decisão dos militares, visando o combate à subversão. Segundo ele, “o golpe do Estado Novo viria com Getúlio, sem Getúlio ou contra Getúlio”.
Sobre as peripécias do Estado Novo, tudo já foi dito e narrado aqui e em mil outros lugares e somente a famosa memória curta dos brasileiros já as esqueceu; infelizmente, para tal doença, tão conhecida, não há vacina nem antídoto.
Se consolo resta é que, da mesma forma como entrou, saiu: Getúlio Vargas foi deposto em 29 de outubro de 1945, por um movimento militar liderado por generais que compunham o seu próprio ministério, na maioria ex-tenentes da Revolução de 1930 que lhe haviam dado o poder, como Góis Monteiro, Cordeiro de Farias, Newton de Andrade Cavalcanti e Ernesto Geisel, entre outros.
Além do que já foi dito, digno de nota foi o controvertido retorno de Getúlio Vargas à presidência, pela eleição de 1950, já que em seu período de senador, de 1946 a 1947, teve atuação pífia.
Seu retorno pela eleição, em 1951, ratifica claramente a cultura e forma de pensar do povo brasileiro, para sua própria infelicidade. Seu governo, que deveria ir de 1951 a 1956, acabou mais cedo e foi eivado de acusações de corrupção de todos os lados, a membros do seu governo e a pessoas que lhe eram próximas, e culminou com o atentado da Rua Tonelero. Como consequência, Getúlio foi pressionado, pela imprensa e por militares, a renunciar, em 22 de agosto de 1954 e suicidou-se na madrugada de 24 de agosto. Mostrando a sua histórica incoerência, nenhuma explicação foi dada ao povo brasileiro que tanto gostaria de conhecer as razões do suicídio de um homem público. Por que Getúlio se suicidaria? Se ele fosse inocente das acusações que eram imputadas, que melhor forma teria de se defender do que permanecendo vivo? Teria sido uma fuga para não ser julgado por todos os seus atos passados?
Um dos maiores reparos que pode ser feito a Getúlio, reside exatamente na questão do seu suicídio, tratado como um mistério. Mais uma vez, a personalidade complexa, introvertida e enigmática do ex-ditador é invocada. Nas três semanas que antecederam o suicídio, Vargas se viu às voltas com uma oposição implacável nas denúncias de corrupção. A inflação já despontava como um sério mal econômico e seu círculo íntimo viu-se, inequivocamente, envolvido na tentativa de assassinar Carlos Lacerda. Caso não tivesse se suicidado, o ex-ditador teria sido derrubado e, provavelmente, levado a julgamento, nos moldes do ex-presidente Collor e sua comitiva. O gesto suicida foi a única alternativa para Vargas garantir um lugar ao sol na História brasileira do século XX. Não há nisso nenhum mistério.
A decisão dramática pelo suicídio revelou-se extraordinária para salvar a biografia do “Tirano do Catete” (Vargas foi o único ditador a habitar aquele palácio presidencial). Como num passe de mágica, poucas horas após o anúncio da sua morte, milhares de pessoas foram para as ruas da Capital, inconformadas com os acontecimentos. Exceto para Gregório Fortunato e seus capangas, os demais acusados da corte getulista saíram ilesos das acusações. Em 30 dias o inquérito foi encerrado e nada apurado em relação aos parentes do tirano. Os ladrões que o circundavam, segundo acusava Carlos Lacerda, tampouco tiveram os seus atos investigados.
O grande jurista e advogado Evandro Lins e Silva – que esteve à frente da defesa de alguns acusados do atentado da Rua Toneleros – declarou haver encontrado a melhor explicação para o suicídio de Vargas, numa revista francesa, sob o título “O suicídio como arma política”. Nessa reportagem, o autor mostrou que, com seu gesto, Getúlio Vargas tinha conseguido dominar, paralisar, desmoralizar a conspiração que pretendia alijá-lo do poder. De fato, isso aconteceu! Quem viveu aquele período e assistiu aos acontecimentos durante o dia, no Rio de Janeiro, sabe bem que poucas vezes multidão igual saiu às ruas em apoio ao presidente.
Este é um exemplo perfeito de manipulação da opinião pública “post mortem”. Até a manhã do dia 24 de agosto Getúlio Vargas era um ex-ditador, convertido em demagogo, à frente de um governo acusado de corrupção e rodeado por bandidos que urdiram um atentado contra o principal político de oposição. Com o seu derradeiro gesto, tudo foi apagado e seu nome emprestado a ruas, avenidas, praças, cidades e instituições. Ergueram-se monumentos e bustos. E os que desejavam ver cumprida a lei e punidos os culpados, terminaram com a pecha de conspiradores aos olhos da maioria das pessoas. Nunca um suicídio mudou tanto os rumos da política brasileira, nem a biografia de um personagem.
Encerrando essa postagem, passo a palavra aos meus leitores para que tirem as suas próprias conclusões.