Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 2)

III – O NOVO IMPÉRIO BABILÔNICO


O Novo Império Babilônico ou Segundo Império Babilônico, historicamente conhecido como Império Caldeu, foi o último sistema governado por monarcas nativos da Mesopotâmia (região do atual Iraque). Iniciado com a coroação de Nabopolassar como rei da Babilônia em 626 AC e estabelecendo-se firmemente com a queda do Império Neo-Assírio em 612 AC, o Novo Império Babilônico foi conquistado pelo Império Persa Aquemênida em 539 AC.
A queda do Novo Império Assírio e a subsequente transferência de poder de Nínive para a Babilônia, marcou a primeira vez em que a cidade e, em geral, o sul da Mesopotâmia, havia se levantado para dominar o antigo Oriente Próximo desde o colapso do Antigo Império Babilônico sob Hamurabi, cerca de mil anos antes. O Novo Império Babilônico mantém uma posição notável na memória cultural dos dias atuais devido a um desagradável retrato da Babilônia e seu maior rei, Nabucodonosor II, pintados nos textos da Bíblia judaica. A cobertura bíblica de Nabucodonosor II foca em sua campanha militar contra o Reino de Judá e, particularmente, no cerco babilônico sobre Jerusalém em 587 AC que resultou na destruição do Templo de Salomão e o subsequente cativeiro babilônico do povo judeu. As fontes babilônicas descrevem o reino de Nabucodonosor II como uma idade dourada que transformou a Babilônia no maior império do seu tempo. 
Cidades importantes da Mesopotâmia no Novo Império
Ainda sob autoridade do rei do Novo Império Assírio na Babilônia, Sin-shar-ashkun, o então oficial do sul, general Nabopolassar, usou a política de instabilidade na Assíria, causada por uma breve guerra civil anterior entre Sin-shar-ashkun e o general Sin-shumu-lishir, para se revoltar. Em 626 AC Nabopolassar assaltou e dominou com sucesso as cidades da Babilônia e Nippur. A resposta de Sin-shar-ashkun foi rápida e decisiva, recapturando Nippur e sitiando Nabopolassar na cidade de Uruk em outubro do mesmo ano, mas sem conseguir retomar a Babilônia. Nabopolassar resistiu ao cerco de Uruk e expulsou o exército assírio. Em novembro de 626 AC Nabopolassar foi formalmente coroado Rei da Babilônia, como reino independente após mais de um século de direto mando assírio. Em 623 AC, Sin-shar-ashkun conduziu um contra-ataque maciço que poderia tê-lo tornado vitorioso, mas teve que abandonar a campanha devido a uma revolta na Assíria que ameaçava sua posição como rei. A ausência de exército assírio permitiu aos babilônios conquistar os remanescentes postos assírios na Babilônia e manter firme controle sobre Uruk e Nippur até 620 AC, assim consolidando o controle de Nabopolassar sobre toda a Babilônia, o que fez rapidamente desmoronar o Império Assírio.
Ao final de 615 AC, os Medos (da Média, Pérsia) sob o rei Cyaxares, também antigos inimigos da Assíria, conquistaram a região assíria em torno de Arrapha. No meio do ano de 614 AC, os Medos começaram a atacar as cidades de Kalhu e Nínive, além de sitiar, com sucesso, Assur, antigo coração político da Assíria, promovendo saque brutal. Nabopolassar chegou em Assur somente após o início do saque, encontrando-se com e aliando-se a Cyaxares, com quem assinou um pacto contra os assírios. Em abril ou maio de 612 AC, início do 14º ano de Nabopolassar como rei da Babilônia, o exército combinado Medo-Babilônio marchou sobre Nínive. De junho a agosto do mesmo ano sitiaram a capital assíria e em agosto as muralhas foram rompidas, conduzindo a um novo longo e brutal saque durante o qual supõe-se que Sin-shar-ashkun tenha morrido. Seu sucessor Ashur-uballit II, último rei da Assíria, foi derrotado em Harran em 609 AC. O Egito, aliado da Assíria, continuou a guerra contra a Babilônia por alguns anos, sendo finalmente derrotado pelo príncipe da coroa de Nabopolassar, Nabucodonosor, em Carchemish, em 605 AC. 
Nabucodonosor II, responsável pelo cativeiro Judeu

Nabucodonosor II sucedeu a Nabopolassar, seu pai, em 605AC. O império que herdou estava entre os mais poderosos do mundo e ele rapidamente reforçou a aliança de seu pai com os Medos, casando-se com a filha ou neta de Cyaxares, Amytis. Algumas fontes sugerem que os famosos “Jardins Suspensos da Babilônia”, uma das “Sete Maravilhas do Mundo Antigo”, foram construídos por Nabucodonosor, para sua esposa, para lembrá-la de sua terra natal. Os 43 anos do reinado de Nabucodonosor trouxeram uma idade de ouro para a Babilônia que a tornou o mais poderoso do Oriente Médio.
Suas campanhas mais famosas foram as realizadas no Levante, relativamente no início do seu reinado, para estabilizar seu reino e consolidar o seu império – a maioria dos reinos e cidades-estados recém independentes no Levante eram vassalos do Novo Império Assírio. Sua destruição de Jerusalém em 587 AC acabou com o Reino de Judá, então sob o reinado de Sedequias, e dispersou sua população, com a maioria de seus cidadãos de elite sendo enviados para a Babilônia, iniciando um período conhecido como “Cativeiro Babilônico”.
O exílio dos Judeus, de Canaã à Babiônia, segundo James Tissot, 1896
 Subsequentemente, ele sitiou o Tiro por 13 anos e embora não tivesse capturado a cidade, ela rendeu-se a ele em 573 AC, concordando em ser governada por reis vassalos. 
A partir desse ponto, a fonte principal da pesquisa passa a ser “As Antiguidades dos Judeus”, de Flavius Josephus. (Parte 3 na próxima postagem).

terça-feira, 30 de setembro de 2025

HISTÓRIA DO POVO JUDEU APÓS O RETORNO DE SEU EXÍLIO NA BABILÔNIA (PARTE 1)


I – INTRODUÇÃO

O objetivo desta pesquisa é o preenchimento de uma lacuna pessoal sobre a história do povo judeu, durante o período que vai do “Cativeiro na Babilônia” até o início da Era Cristã. O Antigo Testamento é farto de material quando se refere a assuntos anteriores ao mencionado; e o Novo Testamento, dentro das suas limitações, se encarrega de apresentar o período que segue ao período acima citado. Mas o período objeto da presente postagem, pelo menos para mim, sempre ficou um tanto nebuloso.
O Cativeiro Babilônico, ocorrido entre 586 AC e 538 AC, representou um dos episódios mais traumáticos e transformadores na história do povo judeu. Caracterizado pela destruição de Jerusalém e o Primeiro Templo, em 586 AC, e pelo exílio de uma parte significativa da população judaica na Babilônia, este período não foi meramente um deslocamento político ou demográfico. A perda da terra, da monarquia e do Templo, pilares da identidade e da fé judaica, desencadeou uma profunda crise teológica que, por sua vez, levou a questionamentos existenciais sobre a natureza, o poder e a bondade de Deus, forçando uma reavaliação fundamental do que significava ser judeu.
Apesar da desolação, o exílio também se tornou um cadinho para a redefinição da identidade judaica. A população exilada conseguiu preservar sua identidade cultural e religiosa por meio da manutenção de suas tradições, como a observância da Lei, do Sábado e da circuncisão. Este período de adversidade, em vez de levar à assimilação completa ou à dissolução, impulsionou uma profunda reavaliação interna, deslocando o foco de uma religião puramente geográfica e centrada no Templo para uma fé que podia ser praticada e mantida através da adesão à Lei e à identidade comunitária, mesmo em terras estrangeiras. Essa capacidade de adaptação, forjada na adversidade, foi crucial para a sobrevivência e evolução do judaísmo a longo prazo, estabelecendo as bases para seu futuro como uma religião global.
O presente estudo abrange o período que se inicia com o retorno do Cativeiro Babilônico, aproximadamente em 538 AC, e se estende até os primeiros anos da Era Cristã, convencionalmente definidos a partir do ano 1 DC, embora estudos indiquem que o nascimento de Jesus tenha ocorrido entre 7 AC e 4 AC. O recorte temporal escolhido não é arbitrário; ele inclui uma sequência contínua de transições imperiais – persa, helenística e romana – e as complexas respostas internas do povo judeu a essas dominações. Os registros históricos consistentemente destacam esta era como "crucial" e "formativa" para o judaísmo. É um período em que a identidade judaica, despojada de sua monarquia e de seu Primeiro Templo, foi reconstruída e redefinida por meio da Lei, de novas estruturas comunitárias como a sinagoga, e de uma evolução nas compreensões teológicas, incluindo a expectativa messiânica e o desenvolvimento da Lei Oral. As constantes pressões externas atuaram como catalisadores, forçando adaptações que, em última instância, garantiram a resiliência do judaísmo e, de forma talvez inesperada, criaram o ambiente propício para o surgimento do cristianismo como um movimento religioso distinto, embora intrinsecamente ligado.
Para tentar preencher este hiato, resolvi recorrer entre outras fontes, ao historiador Flavius Josephus, que viveu no primeiro século da Era Cristã e escreveu duas grandes obras: “As Antiguidades dos Judeus” e “As Guerras dos Judeus”, além de outras menores. Nossa pesquisa vai se basear na primeira delas. Quem foi Flavius Josephus?
Titus Flavius Josephus
Titus Flavius Josephus (36 a 100 DC) nascido Yosef ben Matityahu, tornou-se um historiador judeu do primeiro século da Era Cristã. Ele era membro de uma família sacerdotal por parte de seu pai (casa e ordem de Jehoiarib), em Jerusalém; sua mãe era descendente da realeza Hasmoneana. Foi educado em Jerusalém e muito provavelmente partilhou da ideologia e simpatia pelo partido dos Fariseus[1].
Os escritos de Flavius Josephus são crucialmente importantes para várias disciplinas: o Judaísmo do Segundo Templo no primeiro século da Era Cristã, fontes de fundo para a história da Cristandade em seus primórdios, detalhes históricos dos reis clientes do Império Romano no oriente e a linha dos Imperadores Julio-Claudianos em Roma. Nas últimas décadas do século I DC, ele escreveu “As Guerras dos Judeus” (cerca de 75 DC), “As antiguidades dos Judeus” (cerca de 95 DC), “Contra Apion” (cerca de 97 DC) e “A Vida de Flavius Josephus” (cerca de 99 DC).
Como membro da aristocracia de Jerusalém, em 64 DC, Josephus viajou para Roma para negociar com Nero, o imperador romano (que reinou de 54 a 68 DC) para a libertação de alguns sacerdotes judeus mantidos como reféns por várias razões. Quando ele retornou a Jerusalém, o partido dos Zelotes[2] tinha convencido a maioria dos judeus a se revoltarem contra Roma (primeira guerra entre judeus e romanos, 66 a 73 DC). Josephus foi indicado governador militar da Galileia[3] dado que as cidades estavam divididas, com algumas aderindo à autoridade do governo romano e outras que se juntaram às forças rebeldes. Teve algum sucesso na organização da Galileia, mas todas as suas vitórias foram perdidas quando Nero indicou o General Vespasiano para invadir a região. Josephus estava sitiado nas colinas da cidade de Jotapata e com mais 40 companheiros acabaram por ficar presos em uma caverna. De acordo com sua versão da história, ele sugeriu que cometessem suicídio coletivo para não se tornarem escravos de Roma. Ajudaram a matar-se uns aos outros e acabaram restando apenas Josephus e um companheiro, quando Josephus mudou de ideia e resolveu render-se. Enquanto aguardavam a execução, Josephus lembrou a Vespasiano que todos os judeus tinham o dom da profecia e previu que Vespasiano tornar-se-ia o próximo imperador de Roma, o que de fato aconteceu. Afirmou que tinha tido uma visão que explicava a maré da guerra, com Deus usando os romanos para punir os judeus e que o papel dele, Josephus, era agora explicar o que tinha acontecido aos judeus revoltosos
A partir daí, Josephus serviu como um consultor às forças romanas. Quando Vespasiano deixou a região para desafiar, com sucesso, outros pretendentes após a morte de Nero, seu filho Titus (que reinou entre 79 e 81 DC) retirou o cerco de Jerusalém, desenvolvendo com Josephus um bom relacionamento. Após a guerra, ele foi recompensado por seus bons serviços, mudando-se para uma casa de Vespasiano em Roma, quando adotou o nome de seu patrocinador (Titus Flavius Vespasiano). Enquanto em Roma, teve acesso a registros e arquivos de onde retirou as mais importantes fontes para suas histórias.
A partir do século XIX Josephus tornou-se figura central do movimento em busca do histórico Jesus. Como a fonte principal da história e cultura do judaísmo no primeiro século da era cristã, os arqueólogos referenciam a informação de Josephus em suas reconstruções de cidades e vilas na região. Em 2013 o arqueólogo israelense Ehus Netzer declarou ter descoberto a tumba de Herodes, o Grande, através de uma cuidadosa leitura da descrição de Josephus do território circundante. Mas como todos os historiadores antigos, Josephus não se ateve estritamente aos fatos, mas incluiu moralidade e psicologia atrás de atores e ações, por exemplo, com relação aos judeus. Entretanto, a despeito dos problemas e debates, sem os escritos de Josephus teríamos tido muito pouco acesso ao povo e eventos do seu tempo.
A obra principal de Flavius Josephus, “As Antiguidades dos Judeus” dedica-se, quase que integralmente, à história do povo judeu, desde as suas origens até o fim da sua vida. Mas dedica-se pouco aos eventos paralelos, espaciais e temporais, que tiveram importância fundamental na formação do povo judeu já que, embora fundamentalmente ligados à religião judaica, constituiu uma raça, com localização própria e sofrendo, como todos os demais povos da terra, influências dos povos que a cercavam, ao longo de toda a sua história. Por isso, antes de abordar a obra mesmo de Flavius Josephus, realizei uma pequena pesquisa para esclarecer, pelo menos, como chegou até o povo judeu, o grande responsável pelo cativeiro dos judeus na Babilônia, para bem poder situar os nossos leitores no tempo e no espaço dessa narrativa.

II – O NOVO IMPÉRIO ASSÍRIO

O Novo Império Assírio (912-612 AC) foi o quarto e penúltimo estágio do antigo Império Assírio, que se estendeu através da Mesopotâmia, Levante[4], Egito, Anatólia[5] e partes da Pérsia e Arábia. Iniciou com o reino de Adad Nirari II (912-891 AC) e, com seus reis assírios, forjou o maior império no mundo até aquele tempo. A real ascensão do Novo Império Assírio foi iniciada por Tiglath Pileser III (reinando entre 745 e 727 AC), que reorganizou o poder militar e a burocracia do governo, derrotando o reino de Urartu, que se havia revoltado contra os governantes assírios, e subjugando a região da Síria.
Tiglath Pileser III foi seguido por Shamaneser V (reinando entre 727 e 722 AC) que seguiu as políticas do rei, mas não foi tão efetivo nas campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinando entre 722 e 705 AC) foi um brilhante líder militar e administrador, que expandiu o Império além de qualquer rei anterior. Foi Sargão II que fundou a dinastia Sargônida (722-612 AC), que governaria o Império Assírio até a sua queda.
Senaqueribe foi rei do Império Neo-Assírio a partir da morte de seu pai Sargão II, em 705 AC, até sua morte em 681 AC. Portanto, segundo rei da dinastia Sargônida, Senaqueribe foi um dos mais famosos reis assírios, pelo papel que representou na Bíblia Hebreia, que descreve sua campanha no Levante. Conquistou Israel, Judá[6] e as províncias gregas da Anatólia. Seu relato é contestado pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de “Reis II”, capítulos 18-19, “Crônicas II” e “Isaías 37”, que dizem ter sido Jerusalém salva por intervenção divina, com o exército de Senaqueribe expulso do campo, embora o relato bíblico confirme a conquista assíria da região. Foi assassinado por seus filhos e sucedido por seu filho mais novo Esarhaddon (Assaradão), que reinou entre 681 e 669 AC.
Maior extensão do Novo Império Assírio
Esarhaddon foi o terceiro rei da dinastia Sargônida do Império Neo-Assírio. Sua mãe não era a rainha, mas uma esposa secundária, Zakutu. Ficou conhecido por reconstruir a Babilônia, destruída por seu pai, Senaqueribe. Além de restaurar a babilônia, ele também ficou conhecido por suas campanhas militares no Egito e por garantir uma tranquila sucessão para seu filho Assurbanipal (que reinou entre 668 e 627 AC).
Assurbanipal foi o último dos grandes reis da Assíria. Os gregos o conheceram como Sardanapolos e os romanos como Sardanapulus e ele obteve a maior extensão territorial do Império Assírio, que incluía a Babilônia, Pérsia, Síria e o Egito (embora o Egito tenha sido perdido por uma revolta sob o faraó Psamtik I). Ao mesmo tempo em que reunia sua biblioteca, renovava Nínive, sua capital e maior cidade, ao norte do atual Iraque, a cidade de Mosul, margem oriental do rio Tigre, e governava o império, Assurbanipal continuou a conduzir suas campanhas militares, além de supervisionar as renovações na Babilônia. Deixou o império nas mãos de seu filho Ashur-etel-ilani, mas sua decisão foi desafiada pelo irmão gêmeo do novo rei, Sin-shar-ashkun, e uma guerra civil irrompeu. Os territórios do império Assírio tiraram vantagem desta divisão e começaram a exercer maior autonomia do que lhes tinha sido permitido anteriormente. Quando Assurbanipal morreu em 627 AC, de causas naturais, o Império desmoronou, com os Medos, Persas, Babilônios, Cimérios, Scyntians e Caldeus incendiando e saqueando as cidades assírias. Em 612 AC, com o saque e incêndio da capital Nínive e as grandes conflagrações que destruíram a região, a Biblioteca de Assurbanipal foi enterrada sobre as muralhas incendiadas do seu palácio e perdida para a história por mais de 2.000 anos. Sua descoberta, contudo, alterou a forma como as eras modernas entendiam a cultura e o passado. Antes da sua descoberta, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as histórias nela contidas, consideradas sem precedentes. Escavações do século XIX por Sir Austen Henry Layard, Hormuzd Rassam e traduções feitas por George Smith trouxeram à luz um mundo até então desconhecido. (Parte 2 na próxima postagem)


[1] Os Fariseus eram uma seita que emergiu cerca do ano 150 AC e promoveu a ideia da pureza sacerdotal para todos os judeus, a crença na providência ou destino e o conceito de ressureição dos mortos, além de ensinar que, além dos Mandamentos, a Lei Oral também tinha sido passada por Moisés. O Judaísmo Rabínico (judaísmo tradicional que aceita os textos escritos como revelação divina e a Torá Oral também como fonte de autoridade) do início do século II DC reivindicava descendência espiritual dos Fariseus.
[2] Os Zelotes formavam um movimento político no Judaísmo do Segundo Templo do primeiro século, que buscava incitar o povo da Província da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsá-lo da Terra Santa pela força das armas, principalmente durante a Primeira Guerra Romana-Judia (66 a 73 DC). Segundo Josephus, havia 3 principais seitas judias à época, os Fariseus (acima), os Saduceus e os Essênios. Os Zelotes seriam uma quarta seita.
[3] Galileia é a região localizada ao norte de Israel e sul do Líbano. Normalmente refere-se à área montanhosa, dividida em Galileia Superior e Galileia Inferior. A Galileia se refere a toda área localizada ao norte da cumeeira do Monte Carmel-Monte Gilboa e ao sul da seção Leste-Oeste do rio Litani. Na direção Leste-Oeste, a região se estende da planície costeira de Israel e as praias do Mediterrâneo com o Acre, no oeste, até o vale do Jordão a leste.
[4] O Levante é um termo geográfico histórico, aproximado, que se refere a uma grande área na região do Mediterrâneo Oriental da Ásia Ocidental. Em seu sentido mais estreito, hoje em uso na arqueologia e outros contextos culturais, é equivalente a Chipre e uma faixa de terra que margeia o Mar Mediterrâneo na Ásia Ocidental, isto é, a região histórica da Síria (Síria Maior), que inclui os atuais Israel, Jordânia, Líbano, Síria, os territórios palestinos e a maior parte da Turquia a sudoeste do médio Eufrates. Sua característica mais importante é que ele representa a ponte terrestre entre a África e a Eurásia.
[5] A Anatólia, também chamada de Ásia Menor, é a península que hoje constitui a porção asiática da Turquia. Por sua localização, no ponto em que os continentes da Ásia e Europa se encontram, a Anatólia foi, desde o início da civilização, a encruzilhada para numerosos povos que migravam ou conquistavam de qualquer dos continentes
[6] O Reino de Judá foi o reino israelita do Levante Sul formado cerca de 930 AC com a cisão das Doze Tribos de Israel. Centrado na Judeia, a capital do reino era Jerusalém. O outro sistema israelita formado, o Reino de Israel, ficava ao norte. Os judeus tiraram seu nome de “Judá” e descendem, primariamente, dele.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

MOONLIGHT SERENADE

Esta é outra daquelas melodias que me toca lá no fundo do coração. Composta 5 anos antes de eu nascer, sempre tive a impressão de que ela me acompanhou por toda a vida. Penso que, de novo, devo a sua lembrança e o enorme prazer que sinto ao escutá-la, àqueles tempos da “Pensão Viaduto”, quando eu tinha apenas 3 anos de idade, mas era levado para escutar as apresentações musicais no antigo auditório Araújo Viana, ao lado da Praça da Matriz, já objeto de minhas postagens. Vários anos depois disso, muitas vezes, na minha adolescência, tive o prazer de dançar esta melodia com a minha namorada ou alguma outra garota romântica que se apresentasse nos entreatos do meu namoro. Hoje, 76 anos após a sua criação, ainda sinto as mesmas emoções e o mesmo prazer que sentia ao escutá-la pela primeira vez. Penso que será assim até a última vez em que eu vier a escutá-la ...“Moonlight Serenade” (Serenata ao Luar) é uma composição popular americana composta por GlennMiller, com letra criada posteriormente por Mitchell Parish. Foi um fenômeno imediato quando lançada em maio de 1939, com um arranjo instrumental que logo transformou-se na melodia de assinatura de Glenn Miller. Em 1991, a gravação de Glenn Miller de “Moonlight Serenade” foi introduzida no “Grammy Hall of Fame”.
A canção, gravada em 4 de abril de 1939, pela RCA Bluebird, tornou-se um sucesso dos dez mais, nos quadros populares dos EUA em 1939, alcançando o número 3 nos quadros do Billboard, lá permanecendo por 15 semanas. Foi o sucesso número 5 de 1939 no registro de fim de ano do Billboard. Glenn Miller teve cinco discos entre as 20 melodias de mais sucesso de 1939, na mesma lista do Billboard.
No Reino Unido, “Moonlight Serenade” foi lançada como o Lado A de um 78 RPM da “His Master’s Voice” (marca registrada da RCA, aquela com o cachorrinho Nipper ouvindo o gramofone de uma vitrola), com a melodia “American Patrol” no Lado B. O disco atingiu o número 12 no ReinoUnido em 1954, permanecendo no quadro durante uma semana. Num pout-pourri com “Little Brown Jug” e “In the Mood”, “Moonlight Serenade” alcançou o número 13 no Reino Unido, em janeiro de 1976, numa sequência de oito semanas.
"Moonlight Serenade" em V-disk
A gravação foi também incluída num “V-Disc” No 39ª, em novembro 1943. V-Disc (V de “victory” – vitória) era uma iniciativa para elevar o moral dos soldados, envolvendo a produção de várias séries de gravações durante a era da Segunda Guerra Moral, através de arranjo especial entre o governo dos EUA e várias gravadoras privadas americanas. Os discos eram produzidos para uso do pessoal militar americano no exterior. Muito cantores populares, grandes bandas e orquestras da época, gravaram discos V-disc entre outubro de 1943 e maio de 1949.
A gravação original usou um conjunto de saxofones liderados por um clarinete, sendo considerada o clássico estilo Glenn Miller. Miller estudou a técnica “Schillinger” com Joseph Schillinger, que o ajudou a criar o “Som Miller” e sob cuja tutelagem Glenn Miller criou “Moonlight Serenade”.
Na verdade, essa melodia evoluiu de uma versão de 1935 intitulada “Now I lay me down to weep” (Agora eu me recosto para chorar), com música de Glenn Miller e letra de Eddie Heyman, para uma nova versão chamada “Gone with the dawn” (Levado pela madrugada), com letra de George Simon e, ainda, para “The Wind in the trees” (O vento nas árvores), com letra de Mitchell Parish. Em sua biografia de Glenn Miller, George T. Simon relatou como o vocalista Al Bowlly, da orquestra de Ray Noble, cantou-lhe a letra de Eddie Heyman para a música de Glenn Miller “Now I lay me down to weep”, em 1935. A orquestra de Ray Noble nunca gravou essa música. Finalmente, ela acabou como “Moonlight Serenade” quando a Robbins Music a comprou e soube que Miller estava gravando uma versão de “Sunrise Serenade”, uma música associada de Frankie Carle, para a RCA Victor. Pensaram que “Moonlight Serenade” seria uma associação natural para “Sunrise Serenade”.
Uma versão notável da música pode ser encontrada no vinil “Moonlight Sinatra”, com Frank Sinatra, lançado em 1965, que contém, além de “Moonlight Serenade”, “Moon Love”, Moonlight Becomes You” e “Oh, You Crazy Moon”, gravadas por Glenn Miller e sua orquestra. Várias outras gravações de “Moonlight Serenade” foram realizadas por Frank Sinatra, incluindo uma que aparece em seu último lançamento, de 2015, “Ultimate Sinatra”, com 100 músicas para celebrar os seus 100 anos de nascimento.
“Moonlight Serenade” teve incontáveis interpretações, e podemos citar, entre os mais conhecidos vocalistas: Barry Manilow, Carly Simon, Santo e Johnny, Thelma Houston, Mina, Laura Fygi, Ray Anthony, Ella Fitzgerald, Bobby Vinton e Carol Burnett. Entre as orquestras mais conhecidas, com vocalistas ou não, que gravaram “Moonlight Serenade”, podemos citar: Chet Baker, Count Basie and his Orchestra, Benny Goodman and his Orchestra, Bert Kaempfert, Ray Conniff, David Rose, Paul Mauriat, Tommy Leonetti, the Boston Pops com a regência de Arthur Fiedler, John Williams, 101 Strings, Lawrence Welk, Henry Mancini, James Last, George Melachrino, The Ventures (que aqui apresento, pela sua originalidade) e Mantovani (uma das minhas favoritas, que também apresento na postagem).
Mais de 30 filmes incluíram, num momento ou outro, a melodia “Moonlight Serenade”, entre eles, o que conta a história de Glenn Miller, “The Glenn Miller Story” (A História de Glenn Miller), de 1954, com James Stuart, June Allyson e Harry Morgan.
Glenn Miller com seu trombone
O autor de “Moonlight Serenade”, Glenn Miller, músico, arranjador, compositor e líder de orquestra, nasceu Alton Glenn Miller, em 1º de março de 1904, em Clarinda, estado de Iowa. Logo seus pais - Elmer e Mattie Lou Miller – se mudaram de Iowa, primeiro para Nebraska, depois para o Missouri e então para Fort Morgan, Colorado. Em cada uma dessas cidades, o desenvolvimento musical de Miller dava um novo passo. Durante a sua estadia em Nebraska, seu pai lhe trouxe um bandolim, que em seguida ele trocou por uma corneta velha. Enquanto no Missouri, ele começou a tocar trombone como membro de uma banda da cidade. E quando sua família mudou-se para Fort Morgan, em 1918, Miller alimentou seus talentos musicais ingressando na banda do segundo grau.
Logo após graduar-se no segundo grau, em 1921, Glenn Miller entrou na orquestra Boyd Senter, a primeira de uma série de grupos musicais aos quais ele se uniria. Deixou essa banda para ingressar na Universidade do Colorado, em 1923, mas logo abandonou-a para perseguir seu amor pela música. Pelos próximos anos ele mudou-se para Los Angeles onde tornou-se membro da orquestra de Bem Pollack e então seguiu para Nova York, em 1928, atuando como trombonista e arranjador. Nessa época ele casou-se com Helen Burger, sua namorada da faculdade. Glenn Miller começou então a trabalhar com a orquestra de Dorsey Brothers, organizou uma orquestra para Ray Noble e estudou teoria e composição musical com Joseph Schillinger.
A primeira gravação de Glenn Miller com seu nome surgiu em 1934 enquanto ele ainda trabalhava com a orquestra de Ray Noble. Em 1937 ele tentou formar sua própria banda, obtendo pouca popularidade. Dissolvendo esta e reorganizando outra, Glenn Miller finalmente teve sucesso em 1938, quando a Glenn Miller Orchestra assinou um contrato no Glen Island Casino.
A partitura de
"Moonlight Serenade"
Entre 1939 e 1942, Glenn Miller e sua Orquestra alcançaram enorme popularidade e sucesso comercial. Sua orquestra gravou 17 sucessos em 1939, 31 em 1940, 11 em 1941 e mais 11 em 1942. Tais sucessos incluíram clássicos como “In the Mood”, “A String of Pearls”, “At Last”, “American Patrol”, “Tuxedo Junction”, “Little Brown Jug” e “Moonlight Serenade”. Seus sucessos conduziram a outras empreitadas lucrativas, como suas séries no rádio, intituladas “Moonlight Serenade”, no ar pela CBS três vezes por semana. Sua orquestra também trabalhou no cinema, introduzindo sucessos como “Pennsylvania 6-5000”, “Chattanooga Choo Choo” no filme “Sun Valley Serenade (1941) e “Kalamazoo”, no filme “Orchestra Wives” (1942). Pelos anos 1940’s, Glenn Miller já faturava US$20.000,00 por semana.
O sucesso de sua orquestra deve-se ao seu estilo e som únicos. O próprio Glenn Miller dizia que “Uma banda deve ter um som próprio, uma personalidade”. A dele diferenciava-se de outras de muitas formas. A música de jazz é caracterizada por sua expontaneidade e uso de improvisação; a orquestra de Glenn Miller tocava “swing”, uma ramificação do jazz que favcorecia mais a orquestração do que a improvisação. Por isso, muitos aficionados do jazz desaprovaram seu estilo musical, sem apreciar a meticulosa preparação e estrutura, evidentes na música da dua orquestra. Combinando os sons do clarinete e do saxofone, Miller criou em sua orquestra uma ressonância que a distinguia de outras orquestras. Em sua música o clarinete e o sax tenor contribuíam para a melodia, enquanto os saxofones tocavam uma linha harmônica complementar, o que tornava a sua orquestra facilmente reconhecida e a distinguia de outros grupos.
"Moonlight Serenade em lado B
Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, Glenn Miller espontaneamente abandonou seu sucesso musical para servir ao seu país. Alistou-se na Força Aérea Americana deixando a sua vida civil, mas não a sua música. Contratado como Capitão no Corpo de Especialistas, devotou-se à elevação do moral dos soldados, modernizando a orquestra do exército. Após completar o treinamento básico, Miller organizou a Orquestra Glenn Miller da Força Aérea, aclamada por vários como o seu melhor grupo musical.
Como os esforços anteriores de Glenn Miller, a Orquestra foi um grande triunfo, realizando uma perfeita programação de tours e apresentações. Durante esse período, a orquestra realizou mais de 800 apresentações. Outras 500 apresentações foram transmitidas para milhões de ouvintes.
Sua orquestra preparava-se para embarcar em um tour pela Europa e Miller pegou um vôo para Paris em 15 de dezembro de 1944, num UC-64 Norseman, USAAF serial 44-70285, para fazer os arranjos preparatórios do grupo. Partiu da RAF Twinwood Farm, pequeno aeroporto para vôos noturnos em Clapham, a 7 km ao norte de Bedford, Inglaterra, e desapareceu em vôo sobre o Canal da Mancha, junto com o Coronel Norman Baesselll e o piloto John Morgan. O desparecimento do avião de Glenn Miller pode ter sido causado por mau tempo, mas registros também sugerem que bombas, lançadas por bombardeiros aliados retornando de uma missão abortada, podem, inadvertidamente, ter atingido o aeroplano. Até hoje, livros e artigos continuam a ser publicados na tentativa de explicar o trágico desaparecimento do grande músico.
Glenn Miller em tempo de guerra
Mesmo após o desaparecimento de Glenn Miller, sua orquestra militar continuou tocando para as tropas até agosto de 1945, quando retornou para Nova York e seus membros se dispersaram.
A música de Glenn Miller teve enorme popularidade e sucesso coma as audiências da década de 1940 e continua a nos encantar até hoje. “Alguns dos críticos”, disse Miller em 1940, “apontam seus dedos nos acusando de abandonar o jazz real”. E concluiu: “Tudo depende do que você define como jazz real”. Não obstante a crítica que enfrentou, Glenn Miller devotou a sua vida, não a saciar seus críticos, mas a entreter seus ouvintes. Embora morto com 40 ano de idade, Glenn Miller é lembrado hoje, não apenas pela apreciada música que produziu, mas também por sua influência na evoluição e sucesso comercial do “swing” e por sua patriótica devoção no tempo da guerra. Embora a era das grandes orquestras tenha passado e o centenário do nascimento de Glenn Miller tenha ocorrido em março de 2004, sua música ainda mantém o mesmo encanto que possuía quando ele era vivo, e as músicas e sons da Orquestra de Glenn Miller ainda encantam audiências de todas as idades.
O UC-64 Norseman em que Glenn
Miller desapareceu em ação
Glenn Miller teve três gravações que foram, postumamente introduzidas no “Grammy Hall of Fame”, um prêmio Grammy especial estabelecido em 1973, para honrar gravações com pelo menos 25 anos de idade e com “alto significado qualitativo ou histórico”:

1. “In the Mood”, gravada em 1939, jazz, com selo da RCA (Bluebird), recebeu o prêmio em 1983;
2. “Moonlight Serenade”, gravada em 1939, no gênero jazz e selo RCA (Bluebird), recebeu o prêmio em 1991;
3. “Chattanooga Choo Choo”, gravada em 1941, jazz, com selo RCA (Bluebird), recebeu o prêmio em 1996.
O monumento a Glenn Miller no
Cemitério Grove Street, New
Haven, Connecticut
Finalmente, para quem quiser cantar "Moonlight Serenade", no banheiro ou fora dele, acompanhando Frank Sinatra, ou fazendo um "karaokê" com as orquestras de Glenn Miller, Mantovani ou The Ventures, apresento a seguir a letra da maravilhosa melodia. Bom proveito!

MOONLIGHT SERENADE
(Glenn Miller & Mitchell Parish)

I stand at your gate and the song that I sing is of moonlight.
I stand and I wait for the touch of your hand in the June night.
The roses are sighing a moonlight serenade.

The stars are aglow and tonight how their light sets me dreaming.
My love, do you know that your eyes are like stars brightly beaming?
I bring you and sing you a moonlight serenade.

Let us stray till break of day
In love's valley of dreams.
Just you and I, a Summer sky,
A heavenly breeze kissing the trees.

So don't let me wait, come to me, tenderly, in the June night.
I stand at your gate and I sing you a song in the moonlight,
A love song, my darling, a moonlight serenade.

quinta-feira, 6 de março de 2025

ADIÓS

 Tendo em vista a modorra causada por este verão de 2025, algo anormal, da nossa querida cidade de Gramado, vamos à republicação, em forma de postagem, de uma música já publicada anteriormente na "tag" "MÚSICAS" de nosso "blog".
Cabe, imediatamente, uma ressalva: não sou um fã ardoroso da música latina. Essa, entretanto, entre muitas outras, me é extremamente evocativa dos meus tempos de criança. Já tive oportunidade de escrever em outros lugares, que muitas das minhas músicas preferidas não são do meu tempo, mas a elas fui conduzido por influência de meus pais, ou por lembrança de tenra idade quando por eles era levado para assistir apresentações de orquestras no antigo Auditório Araújo Viana, então situado ao lado da Praça da Matriz, em Porto Alegre, onde hoje se situa a Assembleia Legislativa do Estado. Morei ali perto, por pouco tempo e tinha então, em 1947, os meus três anos de idade e músicas como essas eram muito executadas, naquele período de pós Segunda Guerra Mundial, por grandes orquestras americanas, estilo Glenn Miller, entre outras. Essas músicas que são, evidentemente, músicas de boa qualidade, ficaram muito bem guardadas em minha memória e, embora não sejam executadas com frequência – principalmente nesses tempos atuais, muito conturbados -, sempre me conduzem de volta àqueles tempos de criança, já tão longínquos e sempre as escuto com muito prazer.
Adiós é, originalmente, uma “rumba fox trot, de autoria de Enric Madriguera (música e letra original em espanhol), composta em 1931; posteriormente, Eddie Woods faria uma versão em inglês da letra em espanhol. A letra original é triste e simples, contando a história de um homem que se despede do seu amor, pedindo que não o esqueça. Mas é realmente a melodia, que mais traduz a tristeza que ele sente e que a torna tão linda. Posteriormente essa melodia foi transformada, em ritmo e orquestração, transformando-se, nas execuções de Glenn Miller, Mantovani e outras grandes orquestras em canção suave e de alta qualificação. Vários cantores também gravaram a sua composição, entre eles Pedro Vargas e o nosso Roberto Carlos.
Enric Madriguera foi um violinista, compositor e diretor de orquestra espanhol, de origem catalã, nascido em Barcelona, em 17 de fevereiro de 1904 e morto em 7 de setembro de 1973, em Danbury, Connecticut, USA. Já costumava dar concertos, ainda quando criança, antes de entrar para o conservatório de Barcelona. A forma castelhana do seu nome é “Enrique”, como algumas vezes ele usava em discos.
Antes de emigrar aos Estados Unidos, fez muitas apresentações na Espanha e França, ainda como adolescente. Já nos EUA, com vinte e poucos anos de idade, fez parte, como solista, das célebres orquestras filarmônicas de Chicago e Boston. Ao final dos anos 1920’s, Madriguera tocou na orquestra de estúdio Ben Selvin, na Columbia Records, New York, onde serviu brevemente como diretor daquela companhia para gravações de música latina.
Ao encerrar os anos 1920’s, durante uma temporada em Cuba, chegou a dirigir a Orquestra Filarmônica Cubana, de cuja proveitosa etapa nasceu o seu gosto pelos ritmos cubanos e seu vínculo com “La Única”. Como era conhecida a cantora cubana Rita Montaner, inspiradora de uma das suas mais famosas composições: Adiós. Rita havia feito uma versão muito original da canção de Moisés Simons, “El Manisero”; “Adiós”, notavelmente influenciado pelo primeiro, também se converteu em estrondoso sucesso. 
Enric Madriguera entre membros de sua orquestra
Em 1932 ele iniciou sua própria orquestra no Biltmore Hotel, que gravou para a Columbia até 1934. Nesse período sua música era, na maior parte, dança ou fox trot anglo-americana, embora tivesse um modesto hit com sua interpretação em rumba de Carioca. Pelos anos 1940’s ele gravava quase que exclusivamente música latino-americana. Diz-se que todos os embaixadores de países sul-americanos declararam Madriguera o “Embaixador de Música para todas as Américas”. Apareceu em alguns musicais em curta metragem, incluindo “Enric Madriguera e sua Orquestra, de 1946, em que ele interpretava várias canções cantadas por sua esposa vocalista Patricia Gilmore.
Enric Madriguera foi, junto com seu patrício Xavier Cugat, um dos músicos que mais difundiram os ritmos cubanos a partir do início dos anos 1930’s.
Para ser o mais fiel possível à memória da própria canção, vou começar apresentando a versão original da gravação de Adiós pelo selo Columbia, com a orquestra de Enric Madriguera e o vocalista Guty Cárdenas. A seguir, a versão que talvez tenha feito mais sucesso e também por mostrar um estilo muito característico, pela Orquestra de RayConniff e Seus Cantores. Mas, a gravação que realmente me emocionou, fica por conta de Mantovani e sua Orquestra. É aquela que que eu costumo dizer que, em certas partes da sua execução, chega a dar uma dorzinha lá no fundo do coração ...
Para quem quiser acompanhar cantando, segue a letra original em espanhol. Ao lado da letra, apresentamos a primeira página da partitura da composição "Adiós", com letra de Eddie Woods.

ADIÓS 
(Enric Madriguera)

Adiós
Me voy linda morena lejos de ti
El alma hecha una pena porque al partir
No quiero que olvides nuestro amor
Hermosa flor
Mi alma cautivaste
Con la fragancia de tú candor
Tú eres toda mi ilusión
Tú eres mi dulce canción
Adiós
Me voy linda morena lejos de aqui
A llorar mi tristeza lejos de ti
Hermosa flor
Mi alma cautivaste
Con la fragancia de tú candor
Tú eres toda mi ilusión
Tú eres mi dulce canción
Adiós, adiós
Me voy linda morena lejos de aqui
A llorar mi tristeza lejos de ti
Adiós
Adiós, adiós
Me voy linda morena lejos de aqui

terça-feira, 2 de julho de 2024

A CONTURBADA FRANÇA PÓS-REVOLUÇÃO (Parte 5 - Final)

VI – A TERCEIRA REPÚBLICA (1870-1940)

O nascimento da Terceira República veria a França ocupada por tropas estrangeiras, a capital numa insurreição popular socialista – a Comuna de Paris – e duas províncias, Alsace e Lorraine, anexadas à Alemanha. Os sentimento de culpa nacional e um desejo por vingança (revanchismo) seriam as maiores preocupações pelas próximas duas décadas. Contudo, em 1900 a França tinha refeito muitos laços econômicos e culturais com a Alemanha e poucos franceses ainda sonhavam com uma revanche e nenhum partido político sequer mencionava Alsace-Lorraine em seus programas. A Terceira República, estabelecida pela legislatura francesa, duraria até a derrota militar da Segunda Guerra Mundial, em 1940, num período mais longo que qualquer governo da França desde a Revolução de 1789.

VI.1 – ORIGENS E FORMAÇÃO

Os deputados parisienses, liderados pelo Ministro da Guerra, Léon Gambetta, estabeleceram o Governo de Defesa Nacional como um governo provisório em 4 de setembro de 1870 e os deputados então escolheram o General Louis-Jules Trochu para atuar como presidente. Esse primeiro governo da Terceira República governou durante o cerco de Paris (19 de setembro de 1870 a 28 de janeiro de 1871). Com Paris isolada do resto da França não ocupada, Léon Gambetta teve sucesso em deixar Paris num balão de ar, estabelecendo o governo republicano provisório na cidade de Tours, no rio Loire.
Após a rendição da França, em janeiro de 1871, o provisório Governo de Defesa Nacional foi concluído e eleições gerais foram convocadas para eleger um novo governo francês, sem a participação dos territórios então ocupados pela Prússia. A Assembleia Nacional, conservadora, elegeu Adolpho Thiers chefe de um governo provisório – “chefe do ramo executivo da República dependendo de uma decisão sobre as instituições da França”. O novo governo negociou um tratado de paz com o recém proclamado Império Germânico: o Tratado de Frankfurt, assinado em 10 de março de 1871. Para apressar a saída dos prussianos da França, o governo aprovou uma série de leis financeiras, entre elas a controversa “Lei das Maturidades”, para pagar as reparações.
Em Paris, ressentimentos construídos contra o governo do final de março até maio de 1871, levaram os trabalhadores e soldados da Guarda Nacional a se revoltar e tomar o poder: a “Comuna de Paris”, que manteve um regime de esquerda radical até que suprimido com sangue, por Thiers, em maio de 1871. A repressão que se seguiu aos apoiadores do movimento trouxe desastrosas consequências ao movimento dos trabalhadores.

VI.2 – A COMUNA DE PARIS

A Comuna de Paris – “Commune de Paris” – foi um governo revolucionário francês paralelo que tomou o poder em Paris de 18 de março a 28 de maio de 1871.
Durante a guerra franco-prussiana de 1870-71, a Guarda Nacional francesa havia defendido Paris e o radicalismo da classe trabalhadora cresceu entre seus soldados. Após o estabelecimento da Terceira República, em setembro de 1870 e a completa derrota do exército francês para os alemães em março de 1871, soldados da Guarda Nacional tomaram o controle da cidade em 18 de março. Mataram dois generais do exército francês e recusaram-se a aceitar a autoridade da Terceira República, tentando estabelecer um governo independente. A Comuna governou Paris por dois meses, estabelecendo políticas que tendiam a um sistema progressivo e antirreligioso próprio, autointitulado socialismo, uma mistura eclética de muitas escolas do século XIX. Essas políticas incluíam a separação da Igreja do Estado, a autorregulação, a remissão do aluguel, a abolição do trabalho para as crianças e o direito do empregados de assumirem uma empresa abandonada por seu proprietário. Todas as igrejas e escolas católicas romanas foram fechadas. As correntes feminista, socialista, comunista, social-democrata ao velho estilo e anarquista, representaram importantes papeis na Comuna.
Contudo, os vários participantes (“communards”) tiveram pouco mais de dois meses para alcançar seus respectivos objetivos antes que o Exército Nacional Francês suprimisse a Comuna ao final de maio, durante a “semana sangrenta” iniciada em 21 de maio. O exército nacional matou em batalha ou rapidamente executou estimados 10 a 15 mil communards, embora estimativas não confirmadas elevem esse número a 20.000. Em seus últimos dias, a Comuna executou o Arcebispo de Paris, Georges Darboy, e uma centena de reféns, em sua maior parte gendarmes e padres. Cerca de 43.500 communards foram presos, incluindo 1050 mulheres. Mais da metade foi rapidamente libertada, 15.000 foram julgados, dos quais 13.500 considerados culpados. Noventa e cinco foram condenados à morte, duzentos e cinquenta e um a trabalhos forçados e 1.169 foram deportados, a maioria para a Nova Caledônia (ilhas francesas a leste da Austrália). Milhares de outros membros da Comuna, incluindo vários dos líderes, fugiram para o exterior, principalmente Inglaterra, Bélgica e Suíça. Todos os prisioneiros e exilados receberam perdão em 1880 e puderam retornar ao lar, onde alguns reassumiram a carreira política.
Debates sobre as políticas e resultados da Comuna tiveram influência significativa sobre as ideias de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), que a descreveram como o primeiro exemplo de ditadura do proletariado.

VI.3 – EVENTOS DA TERCEIRA REPÚBLICA

Planejando restaurar a monarquia, os “Legitimistas” da Assembleia Nacional apoiaram a candidatura de Henry, Conde de Chambord ou “Henry V”, neto do rei Charles X, o último rei da linha principal da Dinastia Bourbon. Os “Orleanistas” apoiaram Louis-Philipe, Conde de Paris, um neto do rei Louis Philipe I, que substituiu seu primo Charles X em 1830. Os “Bonapartistas” perderam legitimidade devido à derrota de Napoléon III e não puderam avançar com a candidatura de qualquer membro da família Bonaparte.
Legitimistas e Orleanistas afinal concordaram sobre o Conde de Chambord, sem filhos, como rei, com o Conde de Paris como seu herdeiro. Essa era a linha de sucessão esperada para o Conde de Chambord baseada na tradicional regra de primogenitura agnática[1] ou agnatícia francesa, se a renúncia dos Bourbon espanhóis na Paz de Utrecht fosse reconhecida. Em consequência, em 1871 o trono foi oferecido ao Conde de Chambord.
Chambord acreditava que a monarquia restaurada tinha que eliminar todos os traços da Revolução de 1789, para restaurar a unidade entre a monarquia e a nação. A população geral, entretanto, não desejava abandonar a bandeira tricolor e os monarquistas se resignaram em retardar a monarquia até a morte do idoso Chambord, sem filhos, para então oferecer o trono ao herdeiro mais liberal, o Conde de Paris. Um governo republicano “temporário” foi então estabelecido.
Chambord viveu até 1883, mas por aquela época o entusiasmo por uma monarquia havia se atenuado e o trono francês nunca foi oferecido ao Conde de Paris.
Em consequência da rendição francesa à Prússia em Janeiro de 1871, o provisório “Governo de Defesa Nacional” estabeleceu um novo assento em Versailles devido ao cerco de Paris pelas forças prussianas. Novos representantes foram eleitos em fevereiro daquele ano, constituindo o governo que evoluiria para a Terceira República. Esses representantes, predominantemente republicanos conservadores, proclamaram uma série de leis que ajudariam na resistência a elementos radicais e esquerdistas do movimento republicano, levando à eclosão da “Comuna de Paris” em março, sufocada pelas Forças Armadas Francesas sob o comando de Patrice de MacMahon. 
Patrice de MacMahon, primeiro Presidente
da Terceira República Francesa
 
Em maio de 1873, apoiado por sua vitória sobre a Comuna, MacMahon foi eleito Presidente da República, posto que manteria até janeiro de 1879. Um firme católico conservador com simpatias legitimistas e uma notável desconfiança nos secularistas, MacMahon cresceu em desacordo com o parlamento francês à medida que os republicanos liberais e seculares ganhavam a maioria legislativa durante a sua presidência.
Em fevereiro de 1875 uma série de atos parlamentares estabeleceu as leis constitucionais da nova república. Em sua chefia estava o Presidente da República. Foi criado um parlamento com duas câmaras, uma diretamente eleita Câmara dos Deputados e um Senado indiretamente eleito, além de um Presidente do Conselho (Primeiro-Ministro), nominalmente responsável perante o Presidente da República e à Legislatura. Ao longo dos anos 1870’s, a questão sobre se a monarquia deveria substituir ou se impor à república dominou o debate público.
As eleições de 1876 demonstraram forte apoio público para o crescente movimento antimonarquista republicano quando uma decisiva maioria republicana foi eleita para a Câmara de Deputados enquanto no Senado foi mantida uma maioria monarquista por apenas um assento. O Presidente MacMahon respondeu em 1877 tentando abrandar a crescente popularidade republicana e limitar sua influência política através de uma série de ações conhecidas como “o 16 de maio”. Nessa data MacMahon forçou a resignação de Jules Simon, o primeiro-ministro republicano moderado, indicando o orleanista Alberto de Broglie em seu lugar. A Câmara dos Deputados declarou a indicação ilegítima, ultrapassando os poderes do Presidente e reusando cooperar com MacMahon ou Broglie. MacMahon então dissolveu a Câmara e convocou uma nova eleição geral para o próximo outubro. Posteriormente ele foi acusado pelos republicanos e seus simpatizantes de tentar um golpe de estado constitucional, negado por ele. 
Jules Grévy, segundo presidente, criador
do Sistema Parlamentar da Terceira
República
As eleições de outubro novamente trouxeram uma maioria republicana à Câmara de Deputados, reiterando a opinião pública. Os Republicanos ganhariam a maioria no Senado em janeiro de 1879, estabelecendo o domínio nas duas casas e efetivamente encerrando o potencial de uma restauração monarquista. MacMahon resignou em 30 de janeiro de 1879 sendo sucedido pelo republicano moderado Jules Grévy. Ele prometeu que não usaria o poder presidencial de dissolução, perdendo com isso o controle sobre a legislatura e efetivamente criando um sistema parlamentar que permaneceria até o final da Terceira República.

VI.3.1 – A CRISE BOULANGER

Em 1889 a República foi abalada por uma súbita crise política precipitada pelo General Georges Boulanger, de enorme popularidade, que venceu uma série de eleições a que renunciaria de seu assento na Câmara de Deputados para concorrer novamente em outro distrito. No apogeu de sua popularidade, em janeiro de 1889, ele criou a ameaça de um golpe de estado e o estabelecimento de uma ditadura. Com sua base de apoio nos distritos operários de Paris e outras cidades, mais católicas tradicionalistas rurais e monarquistas, ele promoveu um agressivo nacionalismo dirigido contra a Alemanha. As eleições de setembro de 1889 marcaram uma decisiva derrota para os “boulangistas”, derrotados pelas alterações nas leis eleitorais que proibiram Boulanger de candidatar-se em diversos distritos eleitorais, pela oposição agressiva do governo e pela ausência do próprio general em autoimposto exílio com sua amante. A queda de Boulanger solapou severamente os elementos conservadores e monarquistas dentro da França, que não se recuperariam até 1940. Estudiosos revisionistas têm ponderado que o movimento “boulangista” mais frequentemente representou elementos da esquerda radical do que da extrema direita. Seu trabalho é parte de um consenso emergente de que a direita radical da França foi formada em parte durante a era Dreyfus (a seguir), por homens que haviam sido partidários “boulangistas” da esquerda radical uma década antes.

VI.3.2 – O ESCÂNDALO DO PANAMÁ

Os escândalos do Panamá de 1892, vistos como a maior fraude financeira do século XIX, envolveram uma tentativa fracassada de construir o Canal do Panamá, ligando o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. Flagelada por doenças, mortes e difundida corrupção, com seus problemas encobertos por membros do governo francês subornados, a Companhia do Canal do Panamá foi à bancarrota, com seu patrimônio totalmente desvalorizado e com seus investidores comuns com um prejuízo próximo de um bilhão de francos a preços históricos. Cerca de 800.000 franceses, incluindo 15.000 mulheres solteiras, perderam seus investimentos. 
Ferdinand de Lesseps, diplomata francês,
herói no Canal de Suez, vilão no Panamá
Em 1892/1893, grande número de ministros (incluindo o futuro primeiro-ministro e candidato a presidente Georges Benjamin Clemenceau) foram acusados por nacionalistas franceses de receberem suborno de Ferdinand de Lesseps (construtor do Canal de Suez em 1869), que levou a uma ação de corrupção contra ele e seu filho Charles que os levou a sentenças de prisão, posteriormente anuladas. O Barão Reinach, conselho financeiro da Companhia do Canal e agente de vários subornos cometeu suicídio, uma centena de legisladores foi considerada envolvida na corrupção e outros acusados fugiram para a Inglaterra. Lesseps morreu em 1894.
Georges Clemenceau foi derrotado em 1893 por sua associação com o assunto. Embora três governos tenham malogrado, essa crise diferiu do caso Boulanger já que a República nunca esteve realmente em risco. Contudo, ela levantou dúvidas na visão pública que passou a não confiar mais em seus políticos. Para os monarquistas ficou provado que a república era corrupta.
O Projeto foi assumido pelos Estados Unidos em 1904 e o Canal foi aberto em 3 de agosto de 1914.

VI.3.3 – PROSPERIDADE DO ESTADO E SAÚDE PÚBLICA

A França atrasou-se com relação à Alemanha de Bismarck, à Grã-Bretanha e Irlanda no desenvolvimento do bem-estar e saúde pública do Estado, seguro-desemprego e planos nacionais de pensão para os idosos. A profissão médica francesa guardava suas prerrogativas e os ativistas da saúde pública não eram tão bem organizados ou influentes como na Alemanha, Grã-Bretanha ou Estados Unidos. Houve uma longa batalha por uma lei da saúde pública iniciada nos anos 1880’; contudo, os reformadores encontraram oposição dos burocratas, políticos e médicos e pelo fato de representar ameaça a muitos interesses, a proposta foi debatida e postergada por 20 anos antes de se tornar lei em 1902. A implementação finalmente chegou quando o governo constatou que as doenças contagiosas tinham um forte impacto sobre a segurança nacional pelo enfraquecimentos dos recrutas militares e pela manutenção da taxa de crescimento bem abaixo da Alemanha.

VI.3.4 – A REPÚBLICA DOS RADICAIS

O mais importante partido do início do século XX foi o “Partido Republicano Radical e Radical-Socialista”, em 1901. Sua orientação política era classicamente liberal e oposta aos elementos monarquistas e clericais, por um lado, e aos socialistas pelo outro. Com muitos de seus membros recrutados da Maçonaria, os Radicais foram divididos entre ativistas, que clamavam pela intervenção estatal para alcançar a igualdade econômica e social, e os conservadores, cuja prioridade mais importante era a estabilidade. As demandas dos trabalhadores por greves ameaçavam a estabilidade e empurraram muitos radicais em direção aos conservadores. Os radicais se opunham ao voto das mulheres por receio de que votassem em seus oponentes ou em candidatos da Igreja Católica.
Coalizões no governo se destruíam com regularidade e raramente duravam mais do que uns poucos meses, já que radicais, socialistas, liberais, conservadores, republicanos e monarquistas lutavam permanentemente pelo controle.

VI.3.5 – A QUESTÃO DREYFUS

A Questão Dreyfus foi um escândalo político importante que convulsionou a França de 1894 até a sua solução em 1906 e teve ecos ainda por décadas. A condução do caso tornou-se um moderno e universal símbolo de injustiça, permanecendo como um dos mais impactantes exemplos de erro judicial em que o papel central foi representado pela imprensa e a opinião pública. No início, foi um ostensivo antissemitismo, como o praticado pelo exército francês e defendido pelos conservadores e católicos tradicionalistas contra as forças de centro-esquerda, esquerda e republicanas. Ao final os judeus triunfaram. 
Alfred Dreyfus, um dos maiores dramas
políticos da história francesa do século XIX
A questão começou em novembro de 1894 com a convicção da traição do Capitão Alfred Dreyfus, um jovem oficial da artilharia francesa de descendência alsaciana judia. Ele foi condenado à prisão perpétua por passar segredos militares franceses à Embaixada Alemã em Paris e enviado à colônia penal da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa (apelidada de “guilhotina seca”), onde ele passou quase cinco anos. Dois anos mais tarde foi evidenciado que um major do Exército Francês chamado Ferdinand Walsin Esterhazy era o real espião. Depois que oficiais de alta patente suprimiram a nova evidência, uma corte militar, por unanimidade, absolveu Esterhazy. Baseado em falsos documentos, o exército construiu acusações adicionais contra Dreyfus. Notícias começaram a circular sobre as tentativas da corte militar de falsamente incriminar Dreyfus, principalmente devido a uma carta aberta publicada pelo jornal liberal “L’Aurore” em janeiro de 1898, pelo notável escritor Émile Zola, mundialmente conhecida pelo nome “J’accuse” (Eu Acuso), com os ativistas colocando pressão sobre o governo para reabrir o caso.
Em 1899 Dreyfus retornou à França para outro julgamento. O intenso escândalo político e jurídico que se seguiu, dividiu a sociedade francesa entre os apoiadores de Dreyfus, tal como Anatole France, Henry Poincaré e Georges Clemenceau, e os que o condenavam, como Édouard Drumont, diretor e editor do jornal antissemita “La Libre Parole”. O novo julgamento resultou em outra condenação e uma sentença de 10 anos, mas Dreyfus recebeu perdão e foi posto em liberdade. Ao final todas as acusações contra ele foram consideradas infundadas e, em 1906, Dreyfus foi isento de culpas e reintegrado como major no exército francês.
De 1894 e 1906 o escândalo dividiu profundamente a França em dois campos opostos, exasperando os políticos e facilitando a influência crescente dos políticos radicais dos dois lados do espectro político francês.

VI.4 – A POLÍTICA EXTERIOR FRANCESA NA 3ª REPÚBLICA

Não gostaria de encerrar essa (já extensa) publicação sem dizer algo sobre a política externa da França durante esse conturbado período de sua história, dada a sua enorme importância sobre os eventos mundiais da época e futuros. Tal é o caso da “Primeira Guerra Mundial” (que não fará parte do nosso trabalho) e da consequente “Segunda Guerra Mundial” (que com mais razão também não fará parte da nossa pesquisa). E com essa pretendida breve exposição, daremos fecho ao presente trabalho.
A política externa da França, de 1871 a 1914, foi baseada numa lenta reconstrução de alianças com a Rússia e a Grã-Bretanha tendo em vista a ameaça da Alemanha. Bismarck cometera um engano ao anexar a Alsace e Lorraine em 1871, em resposta à demanda popular e do exército por uma fronteira mais forte, o que gerou décadas de ódio contra a Alemanha e desejos de revanche. Essa mágoa da França perdurou por alguns anos, mas cerca de 1890 havia quase desaparecido com a constatação francesa de que a nostalgia era menos útil que a modernização. A França reconstruiu seu exército e, após 1905 investiu pesadamente na aviação militar. Além disso, colocou enorme ênfase ao crescimento do império francês, o que lhe trouxe prestígio embora os enormes custos financeiros. Poucas famílias francesas se estabeleceram nas novas colônias, que eram pobres em recursos naturais e comércio para delas beneficiar sua economia global. Contudo, a França já era a segunda economia, abaixo apenas do Império Britânico, obtivera prestígio nas questões internacionais e dera oportunidade aos católicos (sob pesado ataque dos republicanos no Parlamento) para devotar suas energias à difusão da cultura e civilização francesa em todo o mundo. Bismarck foi deposto em 1890 e com isso a política externa germânica tornou-se confusa e imprópria. Como exemplo, Berlim quebrou seus fortes laços com São Petersburgo, permitindo aos franceses entrar com pesados investimentos e concretizar uma aliança militar Paris – São Petersburgo que mostrou-se essencial e durável (lembrar que estamos falando da Rússia Czarista). A Alemanha brigava com a Grã-Bretanha, o que encorajou Londres e Paris a abandonarem suas rixas sobre a África, permitindo a aproximação recíproca até alcançar uma relação militar informal em 1904.
A diplomacia francesa tornou-se totalmente independente das questões domésticas e os grupos de interesses religiosos, econômicos e culturais davam pouca atenção às questões externas. Diplomatas e burocratas profissionais permanentes desenvolveram suas próprias tradições de como operar no Ministério das Relações Exteriores, com seu estilo pouco mudando de geração para geração. A maioria dos diplomatas vinha de famílias aristocráticas de alto status. Embora a França fosse uma das poucas repúblicas da Europa, seus diplomatas conseguiam ótimas relações com os representantes aristocráticos das cortes reais. Nas décadas que antecederam à Primeira Guerra Mundial, a França dominava as embaixadas nos dez maiores países onde mantinha um embaixador (em outros países mantinha ministros de grau inferior). Em termos de política externa havia uma concordância geral sobre a necessidade de tarifas protecionistas, o que manteve os preços agrícolas elevados. O Império criava grande orgulho e administradores, soldados e missionários constituíam ocupações de alto status. A política externa francesa mostrou uma drástica transformação, de potência humilhada e sem amigos em 1871, à peça central no sistema de alianças europeu em 1914, com um império colonial florescente apenas abaixo da Grã Bretanha.

VI.4.1 – 1871 a 1900

No meio da “Escalada pela África”[2], os interesses franceses e britânicos na África chegaram a um conflito. O episódio mais perigoso foi o “Incidente Fashoda”, de 1998, quando tropas francesas reivindicando uma área no Sudão Sul foram surpreendidas por uma força britânica pretendendo agir no interesse do Khedive do Egito[3]. Sob forte pressão os franceses se retiraram, garantindo o controle Anglo-Egípcio da área. A situação foi reconhecida por um acordo pelo qual a França reconhecia a primazia inglesa no Egito e a Grã-Bretanha reconhecia a primazia francesa no Marrocos, mas no global, a França sofreu uma humilhante derrota.
O Canal de Suez, inicialmente construído pelos franceses, tornou-se um projeto conjunto britânico-francês em 1875, pois ambos viram como vital para a manutenção de suas influências e impérios na Ásia. Em 1882, perturbações civis no Egito induziram a Grã-Bretanha a intervir, como um auxílio à França. O governo permitiu que a Grã-Bretanha tomasse controle efetivo do Egito.
A França tinha colônias na Ásia e buscava alianças, encontrando no Japão um possível aliado. A pedido do Japão, Paris enviou missões militares em 1872-1880 e em 1918-1919 para ajudar na modernização do exército japonês. Conflitos com a China, sobre a Indochina, culminaram com a guerra sino-francês (1884-1885). A França destruiu a frota chinesa ancorada em Fuzhou e o tratado que encerrou a guerra pôs a França como um protetor sobre o Vietnam Norte e Central, que o dividiu em Tonkin e Annam.
Sob a liderança do expansionista Jules Ferry, a Terceira República expandiu enormemente o Império Colonial Francês. A França adquiriu a Indochina, Madagascar, vastos territórios na África Ocidental e África Central e muito da Polinésia.

VI.4.1 – 1900 a 1914

Num esforço para isolar a Alemanha, a França passou por grandes dores para cortejar a Rússia e a Grã-Bretanha. Primeiro através da Aliança Franco-Russa de 1894, então com o “Acordo Cordial”, com a Grã-Bretanha e finalmente pelo “Acordo Anglo-Russo”, em 1907, que veio a tornar-se o “Triplo Acordo” (Triple Entente).
As Guerras dos Balcãs, dois conflitos entre os estados Balcãs em 1912 e 1913 (Grécia, Servia, Montenegro e Bulgária contra o Império Otomano), acabaram por envolver o Império Austro-Húngaro e com ele a Alemanha, servindo como prelúdio para a Primeira Grande Guerra. A crise dos Balcãs surpreendeu a França que não deu a atenção necessária às condições que conduziram à eclosão da Primeira Guerra Mundial. A “Triple Entente” com a Grã-Bretanha e a Rússia, acabou conduzindo França, Rússia e Grã-Bretanha a participar da Primeira Guerra Mundial como aliadas contra a Alemanha e Áustria.

O que aconteceu com a França, ainda durante a “Terceira República”, mas após a eclosão da Primeira Guerra Mundial, foge ao escopo desta pesquisa, como assunto amplamente divulgado e conhecido dos nossos leitores. O objetivo específico desta pesquisa era trazer ao conhecimento dos meus leitores algum esclarecimento sobre o complexo período de cem anos que se passaram desde a definitiva queda de Napoleão Bonaparte, personagem histórica criado pela Revolução Francesa de 1789, quer queiram, quer não, até o início da Primeira Guerra Mundial, já século XX e que eu denomino de história moderna. Como objetivo secundário, trazer à consideração e ao pensamento dos leitores que a Revolução Francesa, embora considerando seus méritos inegáveis, não trouxe como consequências, apenas felicidade ao povo francês, como muitos podem ser inclinados a pensar. Aliás, hoje já são vários os historiadores internacionais que, em estudos de revisão daqueles acontecimentos, muito colocam em dúvida os tão propalados méritos daquela Revolução.


[1] A Primogenitura Agnática ou Agnatícia ou Primogenitura Patrilinear é a herança de acordo com a senioridade de nascimento entre os filhos de um rei ou cabeça da família, com os filhos herdando antes dos irmãos e os descendentes homens da linha masculina herdando antes dos parentes colaterais da linha masculina, com a total exclusão das mulheres e descendentes através das mulheres. As palavras agnática ou agnatícia veem de “agnação”, parentesco de consanguinidade por linha masculina Essa exclusão das mulheres da sucessão dinástica é também referida como aplicação da lei Sálica.
[2] A “Escalada pela África” foi o nome que se deu à invasão e colonização da maior parte da África por sete potências da Europa Ocidental durante a era do “Novo Imperialismo” (1833-1914). Em 1870, 10% do continente africano estava formalmente sob controle europeu. Em 1914 esse número havia crescido para quase 90%, com apenas Libéria e Etiópia mantendo sua plena soberania.
[3] O Khedivado do Egito era um estado tributário autônomo do Império Otomano, estabelecido e governado pela dinastia Muhammad Ali, em seguida à derrota e expulsão das forças de Napoleão Bonaparte, determinando o fim da ocupação francesa de curta duração do baixo Egito.