Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 22 de maio de 2011

WHAT A DIFF'RENCE A DAY MADE (QUE DIFERENÇA FEZ UM DIA)

Abraço com o maior prazer essa causa: resgatar, sempre que possível for, os compositores dessas músicas maravilhosas que escutamos por todo o mundo sem que a sua autoria seja revelada. Aí está uma coisa que nunca entendi, a razão por que o intérprete de uma dada melodia é sempre mencionado e o seu autor raramente o é. Por que o intérprete deveria ter mais importância ou valor do que o autor de uma composição?
Ontem, ouvindo mais um dos meus antigos discos de vinil, acabei saindo em busca de uma interpretação instrumental de uma música muito conhecida, embora muito antiga, para incorporar ao meu modesto acervo de composições em meio magnético. Como essa especial melodia já foi gravada até pelo atual e conhecido Rod Stewart, imagino que, embora muito antiga, muita gente que aprecia a boa música, possa conhece-la: What a Difference a Day Made. Por outro lado, aqueles que já passam dos cinquenta anos de idade e gostavam de dançar boleros nas décadas de 50’ e 60’, hão de se lembrar, com certeza, do título Cuando Vuelva a tu Lado. Entretanto, o que muitos podem não saber é que essas duas são, essencialmente, a mesma canção: uma música belíssima composta por um mesmo compositor e adaptada por um terceiro personagem que a letrou em inglês, na sua versão do espanhol. E o mais triste de tudo, é que pouquíssima gente saberá que a compositora dessa linda melodia é uma mexicana chamada María Méndez Grever. Que grande injustiça cometem os divulgadores, pelo menos no Brasil, dos milhares de músicas que diariamente são executadas em todas as rádios e em todos os outros lugares onde músicas podem ser ouvidas!
María Joaquina de la Portilla Torres, filha do espanhol de Sevilla, Francisco de la Portilla e de sua esposa mexicana Julia Torres, nasceu na província de Guanajuato, México, em 16 de agosto de 1894. Estudou no Colégio do Sagrado Coração e desde menina recebeu educação musical, tendo feito sua primeira composição – segundo um artigo do New York Times - com quatro anos de idade: uma canção natalina com versos escritos por ela mesma.
Aos seis anos transferiu-se para Sevilla, Espanha, lugar de origem de seu pai. Logo viajou para Paris onde teve aulas com os compositores clássicos Claude Debussy (francês) e Franz Lehár (austríaco). Este último sugeriu-lhe que não se sujeitasse jamais à técnica musical, mas que conservasse a sua espontaneidade.
Regressando ao México, com a idade de doze anos, Maria ingressou na escola de canto de sua tia Cuca Torres e em 1916 estabeleceu-se em New York onde conheceu aquele que seria o seu esposo, no mesmo ano, León A. Grever, executivo de uma companhia petrolífera americana, de quem adquiriu o sobrenome com o qual se imortalizaria. Com ele viveu para o resto da sua vida.
Aos dezoito anos, em 1912, escreveu a sua primeira canção, A una ola (em inglês To a wave), vendendo três milhões de cópias. Em 1920 começou a trabalhar como compositora de trilhas sonoras para os estúdios de cinema Paramount Pictures e 20th Century Fox. Dizia-se de María Grever que ela possuía um perfeito controle de tonalidade e que teria escrito a maior parte de suas composições em uma única escala. Ao todo, escreveu mais de 800 canções – a maior parte delas boleros – e sua popularidade alcançou grandes audiências na América Latina, Europa e Estados Unidos.
Seu primeiro grande êxito produziu-se em 1926 com a melodia Júrame (em inglês, Promise, Love), um tango-bolero interpretado por José Mojica, quando era ainda pouco conhecida. Por essa época o “bolero” começava a transformar-se no gênero musical mais popular do momento. Desde então, María Grever alcançou um êxito atrás do outro, com obras como Cuando Vuelva a tu Lado (em inglês What a Difference a Day Made ou What a Difference a Day Makes), Muñequita Linda (Te Quiero, Dijiste) – em inglês Magic is the Moonlight, escrita em 1944 para o filme de Esther Williams, Bathing Beauty -, Alma Mia, Yo Canto para Ti, Volveré (em inglês, I Will Return), Vida Mía e muitas outras. Tornou-se a primeira compositora mexicana do sexo feminino a tornar-se uma autora de sucesso.
A música que dá o título ao nosso “post” merece, exatamente por essa razão, um destaque especial. What a Diff’rence a Day Made é uma canção popular originalmente escrita em espanhol, em 1934, com o título Cuando Vuelva a tu Lado. Em 1959, Dinah Washington, uma cantora americana de Tuscaloosa, Alabama, nascida Ruth Lee Jones, gravou a melodia em inglês, com letra escrita por Stanley Adams. Embora tenha sido gravada anteriormente por outros intérpretes, como Harry Roy e sua Orquestra e pelos Irmãos Dorsey, ela tornou-se a canção assinatura de Dinah Washington, garantindo-lhe um Grammy Award por Best Rhythm and Blues Performance (Melhor Desempenho em Ritmo e Blues) e foi, em 1998, introduzida no Grammy Hall of Fame.

Capa e disco simples em 78 rpm com a gravação de Dinah Washington
A seguir apresentamos a letra da versão para o inglês, de Stanley Adams, para que os leitores possam acompanhar Dinah Washington cantando essa maravilhosa canção.

What A Diff'rence A Day Made
Dinah Washington
Written by Maria Grever and Stanley Adams


What a diff'rence a day made
Twenty-four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain

My yesterday was blue, dear
Today I'm a part of you, dear
My lonely nights are through, dear
Since you said you were mine

Now what a diff'rence a day makes
There's a rainbow before me
Skies above can't be stormy
Since that moment of bliss, that thrilling kiss

It's heaven when you find romance on your menu
What a diff'rence a day made
And the difference is you

Vários outros cantores de grande calibre gravaram essa mesma versão em inglês, entre eles Julie Dawn, Roy Marsh, Sarah Vaughan, Aretha Franklin, Esther Phillips, Diana Ross (gravada em 1972 mas apenas liberada em 2006), Cher, Ray Conniff, Bobby Darin e Rod Stewart, no seu quinto volume de uma série ironicamente chamada “The Great American Songbook”.
Com relação à versão original, em espanhol, vários intérpretes importantes também a gravaram, entre os quais podemos citar o Trio Los Panchos com Eydie Gorme, Libertad Lamarque, a célebre cantora de tangos argentina, Jamie Cullum (2003) e Luis Miguel (1991). Sem dúvida alguma, a que registrou o maior sucesso foi a primeira e por essa razão, apresentamos a letra original da compositora e a gravação com o trio Los Panchos e Eydie Gorme.
Cuando Vuelva a tu Lado
Trio Los Panchos & Eydie Gorme
Compositor: María Mendes Grever


Cuando vuelva a tú lado
No me niegues tus besos
Que el amor que te he dado
No podrás olvidar.

No me preguntes nada
Que nada he de explicarte
Que el beso que negaste
Ya no lo puedes dar.

Cuando vuelva a tú lado
Y esté solo contigo
Las cosas que te digo
No repitas jamás, por compasión.

Une tu labio al mío
Y estréchame en tus brazos
Y cuenta a los latidos
De nuestro corazón.

Para não alongar-me demasiadamente, gostaria de apresentar apenas mais uma canção de Maria Grever, que fez muito sucesso em minha adolescência e foi gravada por cantores muito conhecidos naquela época. Trata-se de Te Quiero, Dijiste – ou Muñequita Linda, como ficou muito conhecida. Em espanhol ela foi gravada pelo inesquecível Nat King Cole e, mais recentemente, por Placido Domingo, entre outros. Em inglês, com o título Magic is the Moonlight (Mágico é o Luar) ela foi gravada pelo ator/cantor Dean Martin e pelo cantor inglês de “rock and roll” Cliff Richard, além de outros. Para o deleite dos nossos leitores, apresentamos a gravação de Nat King Cole.

Em 1956 a RCA liberou um álbum retrospectivo, “Libertad Lamarque Canta Canções de María Grever”, com 12 canções interpretadas pela cantora/atriz argentina Libertad Lamarque, acompanhada pelas orquestras de Chucho Zarzosa e Mario Ruiz Armengol. Junto com suas mais famosas canções, o álbum apresentou Volveré, Júrame, Eso es Mentira e Así. Na apresentação do álbum, Bill Zeitung argumenta que embora suas músicas tenham alcançado uma imensa e merecida popularidade, Grever nunca desfrutou do reconhecimento mundial; “Sua música está em todas as mãos, mas seu nome é conhecido somente de uns poucos”, escreveu Zeitung.
María Grever era uma compositora extraordinariamente versátil, frequentemente escrevendo a música e a letra de suas peças e então interpretando-as em concertos ao vivo. Durante sua carreira, que teve o seu pico nas décadas de 30 e 40, ela escreveu partituras para filmes e letras para shows da Broadway, organizando concertos que combinavam teatro, música e dança. Foi também uma professora de voz, mas seu grande legado foram realmente as canções. Frequentemente baseadas nos ritmos e estilos da música latino-americana, particularmente mexicana, mas também espanhola, suas letras eram deliciosamente românticas, cheias de sentimento e fáceis de lembrar.
Ela foi um membro atuante da prestigiosa “American Society of Composers, Authors and Publishers” (Sociedade Americana de Compositores, Autores e Editores). À data de sua morte, com a idade de 57 anos, em 15 dezembro de 1951, após um longo período de doença, ela vivia no Wellington Hotel, na Sétima Avenida, Manhattan. Deixou o marido e dois filhos: Charles Grever, um editor de música de New York, e a filha Carmen Livingston. Imediatamente após a sua morte ela foi homenageada com um “sarau musical” no Biltmore Hotel pela “União das Mulheres das Américas” (Union of Women of the Americas – UWA) e aclamada “Mulher das Américas, 1952”, pela mesma associação.

2 comentários:

Unknown disse...

Muito feliz de ter encontrado seu blog. Estava procurando a origem da música What a difference a day makes (made?)", quando tive a alegria de ler seu texto. Gostaria de colocá-lo em minha página, mas contando com sua autorização. Nas diversas versões que escutei dessa música, só em poucas aparecia o nome de Maria Grever. Parabéns por sua cuidadosa pesquisa e pelo seu senso de justiça. Também desconhecia que essa bela canção tinha sua matriz em espanhol, "Cuando Vuelva a tu Lado". Muito obrigada.
Cordialmente,
Regina Carneiro Dubeux.
Regi Dubeux (no Facebook).

Nelson Azambuja disse...

Prezada Regina:

Já postei o teu gentil comentário em meu “blog”.
Claro que a autorização está dada para colocar o meu texto em tua página. Foi a “internet” que me propiciou a pesquisa; que a ela retorne, na tua página. Será um prazer contribuir com alguma coisa.
Eu também sempre tive essa dúvida sobre o “makes” e “made”. Até em publicações de letra e capa aparece a dúvida. Na verdade, ambas existem na letra, que coloquei na postagem. Na primeira estrofe, ela fala da diferença que um dia fez no passado, junto com tudo, no passado. Na terceira estrofe ela se encontra no presente, falando de todas as coisas belas que agora tem. Finalmente, na última estrofe, ela retorna para enfatizar a diferença que um dia fez no passado.
Foi com a versão em espanhol que muito dançamos, minha esposa e eu, quando éramos jovens adolescentes, lá pelos anos ’60, creio eu. Muitos anos depois, vim a conhecer a versão em inglês, cantada por essa negra maravilhosa, Dinah Washington! Eu tenho as duas gravações e custei muito a me dar conta de que se tratava da mesma música, já que, como latina, a versão espanhola era uma espécie de bolero, ritmo romântico muito conhecido nos meus tempos de juventude.
Regina, descobri há pouco que posso colocar páginas em meu “blog”. Então, criei duas páginas novas: uma de livros e outra de músicas preferidas. Recém comecei a colocar coisas por lá, mas estou botando o que há de melhor. Se quiseres, podes dar uma olhada depois; mas ambas estão incipientes.
Muito obrigado pelas palavras generosas. Um abraço,
Nelson.