Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GALILEIA: MINISTÉRIO DE JESUS DE NAZARÉ (PARTE 1 DE 2)

I - INTRODUÇÃO

Há mais ou menos um mês atrás, terminei de ler um livro antigo, famoso e que, em minha opinião, faz muito jus à sua fama. Seu nome: “E a Bíblia Tinha Razão ...”. O livro, de autoria de Werner Keller, foi originalmente editado em 1955, na Alemanha, e continua até hoje um enorme sucesso de literatura. Através de descobertas arqueológicas e muita pesquisa, o autor mostra que tudo o que está escrito na Bíblia, abrangendo o Antigo e o Novo Testamento, realmente são fatos históricos e não histórias da carochinha como muitos pretendem que sejam, ainda até hoje. O livro descreve, de uma forma muito simples de se entender, todos os principais acontecimentos da Bíblia e os compara com as descobertas arqueológicas correspondentes, facilmente demonstrando a sua veracidade.
O autor comove o leitor quando entra no Novo Testamento e apresenta os vários livros, contando sobre a vida de Jesus Cristo e dos lugares em que Ele viveu e frequentou, até o Seu calvário, morte na cruz e a ressurreição. Foi ao ler o capítulo em que Cristo abandona Nazaré, o lugar onde Se criou, para iniciar o Seu ministério em região específica da Galileia, na pequena vila de Cafarnaum, às margens do Mar da Galileia – ou Genezaré, segundo Lucas - , que senti um impulso enorme para aprender e escrever algo sobre essa região, da qual tão pouco eu conhecia. E foi então que me botei a pesquisar sobre o assunto que ora apresento aos meus leitores e que espero os cative assim como me cativou.
Para que o assunto não fique muito longo para uma só postagem, vou publicá-lo em duas partes, das quais esta é a primeira.

II - A GALILEIA

II.1 GENERALIDADES

A descrição desses locais é, em geral, bastante complicada, por se tratar de lugares conhecidos e mencionados há milhares de anos, que foram ocupados por vários povos, de origens muito diversas e que hoje, finalmente, pertencem a Israel. Por essa razão vou, inicialmente, apresentar e descrever alguns mapas para que o leitor bem possa se localizar a nível mundial e regional, temporalmente.
Como pano de fundo para o artigo, o primeiro mapa que eu gostaria de apresentar (Figura 1, abaixo), emprestado do Google Earth, mostra boa parte do Oriente Médio, com todas as regiões envolvidas na postagem. Nesse mapa podemos localizar, a nível mundial, parte do Mar Mediterrâneo (com a Ilha de Chipre), o norte do Egito (com o rio Nilo e Alexandria), o golfo de Suez, a Península do Sinai, o golfo de Aqaba e a extremidade norte do Mar Vermelho, os estados de Israel, Jordânia, Líbano, Síria (parcial), Iraque (parcial) e Arábia Saudita (parcial), além dos territórios em disputa, Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golã. No estado de Israel, é possível ver o Mar Morto, o Mar da Galileia e, em suas vizinhanças, a região da Galileia.
Figura 1 - Mapa do Oriente Médio, com todos os atores da peça

Figura 2-Palestina cerca de 975 AC
Para atingir o meu objetivo, penso acertado prosseguir pela descrição da Palestina, região com limites muito teóricos e pouco preciso. Assim, um dos nomes tradicionais para as “Terras da Bíblia”, que incluem “Terra Santa”, “Terra Prometida”, Israel e Canaan, sendo derivado dos Filisteus, inimigos dos israelitas, a Palestina (em árabe transliterado, Filastin; em grego transliterado, Palaistine; e em latim Paloestina) é a denominação histórica dada pelo Império Romano, a partir de um nome hebraico bíblico, a uma região do Oriente Médio, grosseiramente situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as atuais fronteiras ocidentais do Iraque e Arábia Saudita, hoje compondo os territórios da Jordânia e Israel, além do sul do Líbano e os territórios de Gaza e Cisjordânia (ou Margem Ocidental do rio Jordão, território sob ocupação de Israel, reclamado pela Autoridade Palestina e pela Jordânia, limitado a leste pela Jordânia e a norte, sul e oeste por Israel). Com o enfraquecimento do poder egípcio, em finais do século XIII AC, a região foi invadida pelos chamados “Povos do Mar”. Um destes povos, os filisteus, fixou-se junto à costa oriental do Mediterrâneo, contemporânea à chegada das tribos hebraicas, com Josué, que se instalaram no interior gerando guerras com os filisteus, que se recusaram a aceitar a presença hebraica. As tribos hebraicas, unidas sob os reis Saul, Davi e Salomão, finalmente derrotaram os filisteus, fixando a capital do reino em Jerusalém e constituindo, de certa forma, a original “terra dos judeus” (Figura 2, acima). Constituindo um trecho relativamente estreito, de favorável passagem entre a África e Ásia, a Palestina sempre foi palco de um grande número de conquistas, pelos mais variados povos, por se constituir num corredor natural para os antigos exércitos.
Figura 3 - A Judeia sob Herodes, pelo ano 37 AC
No ano 40 AC, Herodes, o Grande, foi indicado como rei da Judeia ("Rei dos Judeus") pelo Senado do então Império Romano que, entre outras regiões, dominava a Palestina. Foram necessários três anos antes que Herodes e seu exército viajassem à Palestina para conquistar Jerusalém e tornar-se, de fato, o único governante de toda a Judeia. A linha negra da Figura 3, ao lado, delimita a área que constituía a Judeia sob o reinado de Herodes, o Grande, no ano 37 AC. No ano 4 AC, Herodes, o Grande, morre e o então imperador romano, Augusto, divide o seu reino entre alguns de seus filhos. Herodes Arquelaus é feito etnarca (governador de província) da Samaria, Idumeia e uma boa parte do reino anterior da Judeia que, logo no ano 6 AC, tornar-se-ia a província da Judeia, colocada diretamente sob o governo romano. Filipe, o tetrarca (muitas vezes referido como Herodes Filipe II), filho de Herodes e sua quinta esposa Cleópatra de Jerusalém e meio-irmão de Herodes Arquelaus e Herodes Antipas, recebe de Roma a parte nordeste do antigo reino de Herodes, que inclui Bataneia, Auranitis e Traconitis. Seu terceiro filho, Herodes Antipas, é feito tetrarca da Galileia e Pereia, governando-a de 4 AC a 39 DC; esse foi o Herodes que, Segundo os registros do Novo Testamento, não somente prendeu e decapitou João Batista, como também teve papel importante na crucificação de Cristo. Note-se que a Figura 3 já apresenta essas divisões e a correspondente legenda.

II.2 LOCALIZAÇÃO DA GALILEIA

A Galileia, por sua vez, é hoje uma grande área da região norte de Israel, entre o rio Litani, no Líbano atual, e o vale de Jezreel na Israel moderna, que envolve a maior parte dos distritos administrativos do Norte e Haifa. Tradicionalmente dividida em Galileia Superior, com chuvas pesadas e altos picos, Galileia Inferior, com clima mais ameno, e Galileia Ocidental, estende-se da cidade de Dan, na base do Monte Hermon, ao longo do Monte Líbano, ao norte, até as cristas do Monte Carmelo, Monte Gilboa, norte de Jenin e Tulkarm, ao sul, e do vale do Jordão, ao leste, através das planícies do vale Jezreel e Acre até as praias do mar Mediterrâneo e a planície costeira, no oeste. A região da Galileia mudou de mãos em várias oportunidades: egípcios, assírios, canaanitas e israelitas.
Figura 4
A Galileia – significando “círculo” ou “distrito” – era uma das maiores regiões da antiga Palestina, ainda maior que a Judeia ou Samaria. O nome Galileia, que à época dos romanos era aplicado a uma grande província, parece ter sido, originalmente, confinado a um pequeno circuito de terra em torno de Kedesh-Naphtali (uma das mais remotas cidades de Judá, junto ao limite sul de Edom), onde estavam situadas as vinte cidades doadas por Salomão a Hiram, rei do Tiro, em pagamento ao transporte de cedro do Líbano para Jerusalém. Ao tempo de Cristo, o território de Israel era dividido em três províncias: Judeia, Samaria e Galileia, esta última incluindo toda a secção norte do país, com os antigos territórios de Issachar, Zebulun, Asher e Naphtali. A oeste era limitada pelo território de Ptolemais; a fronteira sul corria ao longo da base do monte Carmelo e das colinas de Samaria até o monte Gilboa e então descendo ao vale de Jezreel por Scythopolis, ao Jordão; o rio Jordão, o Mar da Galileia e o alto Jordão até a fonte de Dan formavam o limite oeste; e o norte desenvolvia-se de Dan para o oeste ao longo da crista montanhosa até tocar no território dos fenícios. Era dividida em “Galileia Inferior” e “Galileia Superior” (com altitudes superiores a 900 metros). A mais alta região do país, com as menores temperaturas, bem irrigada pelas chuvas de inverno e com numerosas fontes, a Galileia era uma região de fertilidade natural, adequando-se a todas as variedades de flora, merecendo destaque especial a nogueira. As Figuras 4 a 8 se completam e mostram todos os pontos descritos acima.
Figura 5
A maior parte da Galileia é constituída por terreno rochoso, com alturas variando entre 500 e 700 metros. Entretanto, há várias montanhas altas na região, que incluem os Montes Tabor e Meron (1.208 m), com temperaturas relativamente baixas e altas precipitações. Como resultado deste clima, a flora e a fauna abundam na região, enquanto muitos pássaros anualmente migram de climas mais frios para a África e retornam através do corredor Hula-Jordão. Os cursos e quedas d’água – estas principalmente na Galileia Superior – junto com vastos campos de folhagens e folhas silvestres coloridas, bem como numerosas cidades de importância bíblica, tornam a região um popular destino turístico.

II.3 HISTÓRIA DA GALILEIA

Mencionada pela primeira vez pelo Faraó Tutmés III, que lá conquistou várias cidades canaanitas em 1.468 A.C., a Galileia foi também mencionada várias vezes no Velho Testamento (Josué, Crônicas, Reis).
Figura 6
Segundo a tradição judaica, as unidades patriarcais (Tribos de Israel) do antigo povo de Israel teriam se originado dos doze filhos de Jacó (mais tarde chamado Israel), neto de Abraão: Rubem, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. A tribo de José foi, posteriormente, dividida em duas (meias tribos), Manassés e Efraim, os dois filhos de José com sua esposa egípcia, Azenate, deixando de existir a tribo de José. Moisés liderou as doze tribos pelo deserto da Península do Sinai e coube a seu sucessor, Josué, coordenar a tomada de Canaã. Para que essa tomada ocorresse de forma ordenada, a região foi dividida entre cada uma das tribos e meias tribos, que se encarregaram de conquista-las, na verdade, de forma mais ou menos independente. Após a narrativa da conquista de Canaã, os relatos da Bíblia tornam-se confusos, com referências geográficas praticamente inexistentes ou inconsistentes e, com o tempo, as tribos deixaram de existir geograficamente, seu povo sendo absorvido, ou por povos estrangeiros ou por outras tribos israelitas, ou por ambos, embora ainda considerado como parte das doze tribos. Na verdade, embora a suposta irmandade, as tribos nem sempre foram aliadas, o que ficou manifesto quando da cisão do reino, após a morte do Rei Salomão.
Figura 7
De acordo com o Antigo Testamento da Bíblia, a Galileia foi nomeada pelos israelitas e, originalmente, foi a região tribal de Naftali e Dã, às vezes se envolvendo com a terra de Aser, sendo muitas vezes referida apenas como Naftali. O nome israelita da região vem da raiz hebraica galil, uma palavra para designar “distrito” e, usualmente, “círculo”.
Figura 8
A região da Galileia (Figuras 5 e 6) foi, presumivelmente, o lar de Jesus durante, pelo menos, 30 anos de sua vida, para onde havia sido levado por seus pais José e Maria assim que souberam da morte de Herodes, enquanto residindo no Egito. A Galileia é melhor conhecida como a região onde, de acordo com os Evangelhos, Jesus conduziu a maior parte do Seu ministério público, particularmente nas cidades de Nazaré e Cafarnaum, e onde realizou a maior parte dos seus conhecidos milagres. Por exemplo, a vila árabe de Kafr Cana (Figura 6), cerca de 7 km a nordeste de Nazaré, na Galileia Inferior, é identificada como a Canaã da Galileia onde, segundo a tradição, Jesus teria realizado o milagre da transformação da água em vinho, quando participando das bodas de um casal de poucos recursos. A Figura 9 abaixo mostra a "Igreja das Bodas", por se crer que fica no mesmo local onde Jesus teria praticado o seu primeiro milagre.
Figura 9 - A Igreja das Bodas
Os autores dos Evangelhos declaram que a maior parte de Sua juventude foi vivida na Galileia Inferior, ao passo que Sua vida adulta, tempo da Sua pregação, foi passada nas margens a noroeste do Mar da Galileia, onde ficavam as cidades onde Jesus passou a maior parte da sua vida, aí incluídas Cafarnaum e Betsaida (ver Figuras 5 e 6).
Descobertas arqueológicas de sinagogas dos períodos helenístico e romano na Galileia, mostram forte influência fenícia e uma alto grau de tolerância por outras culturas, relativamente a outros locais sagrados dos judeus, no mesmo período, porque considerado “limpo de impurezas”. A Galileia oriental manteve uma maioria judia até o século VII.
O historiador judeu, Josephus, registra que havia mais de 200 vilas na Galileia no ano 66 DC, sendo bastante povoada nesta época. Sendo mais exposta a influências estrangeiras do que outras regiões judias, tinha também uma grande população pagã e era por isso conhecida por outro nome que, traduzido para o português, significava “Região dos Gentis”. Sob a dominação romana, desenvolveu-se uma característica identidade galileana, fazendo com que a Galileia fosse tratada como área administrativa separada da Judeia e da Samaria; tal fato foi majorado porque a Galileia foi, por muito tempo, governada por “fantoches” romanos ao invés de pela própria Roma. A consequência foi uma estabilidade social maior, significando não ter sido um centro de atividade política anti-romana, nem uma região marginalizada, como podem dar a entender os Evangelhos. A Galileia é também a região onde o judaísmo adquiriu a maior parte de sua forma moderna. Após a segunda revolta Judia (132 – 135 DC) quando os judeus foram totalmente expulsos de Jerusalém, muitos foram obrigados a emigrar para o norte, aumentando de forma considerável a população da Galileia, com o tempo atraindo mais judeus que já viviam em outras áreas.


sábado, 10 de maio de 2014

O FUNDO SOBERANO DO BRASIL QUE POUCOS CONHECEM

Não é sempre que eu tenho estômago para escrever sobre matéria política, de uma forma geral, e sobre os incontáveis e cada vez mais frequentes desmazelos do PT e dos seus políticos, que nos governam há uma dúzia de anos. Entretanto, para mais esse absurdo praticado nos subterrâneos da pseudo-democracia em que vivemos, com a conivência da imprensa que se cala e com isso consente, em sua maioria, vou vencer a minha náusea e publicar esse pequeno artigo.
Na manhã deste nebulento (segundo o Mestre Aurélio, enevoado ou nevoento) e aconchegante sábado de maio, recebi mensagem de um amigo que admiro, comentando artigo escrito por Tatiana Bautzer, da conhecida e prestigiosa revista nacional “Exame”. O assunto enfocado é o “Fundo Soberano do Brasil” (FSB) que, imagino, seja muito pouco conhecido de gente que não milita nos meios financeiros e empresariais. Como o Brasil - e o pobre brasileiro – não se farta de tomar ciência dos escândalos promovidos por esse malévolo governo, administração, estado e partido do PT, resolvi ganhar o meu dia escrevendo esse pequeno artigo, com a intenção de tornar conhecido, pelo menos a mais algumas poucas pessoas (nesse caso o meu seleto grupo de amigos), mais este descalabro do atual governo.
Para não ser acusado de parcial vou, em primeiro lugar, transcrever as origens do FSB, segundo palavras do próprio Tesouro Nacional, órgão responsável pela gestão deste Fundo. Posteriormente, apresentarei o resumo do artigo da revista Exame. E o povo brasileiro que aguente, se puder, esta nova ação do destrutivo governo petista.
Dizia o Tesouro Nacional que, dada a crescente necessidade de fomentar projetos estratégicos, mitigar efeitos de ciclos econômicos, formar poupança pública e promover investimentos em ativos no Brasil e no exterior, o governo criou, pela Lei no 11.887, de 24 de dezembro de 2008, o Fundo Soberano do Brasil – FSB. O FSB é um fundo especial de natureza contábil e financeira, vinculado ao Ministério da Fazenda. Seguindo à sua criação, o Decreto nº 7.055, de 28 de dezembro de 2009 regulamentou o Fundo Soberano do Brasil – FSB, estabelecendo, entre outras coisas, que as aplicações em ativos financeiros no Brasil deveriam ter rentabilidade mínima equivalente à Taxa de Juros de Longo Prazo - TJLP, fixada pelo Conselho Monetário Nacional.
O aporte inicial ao Fundo foi realizado em 30 de dezembro de 2008, por intermédio da emissão de 10.201.373 títulos de emissão do Tesouro Nacional, totalizando R$ 14.243.999.592,36 (catorze bilhões e lá vai pedrada) a preços de mercado, conforme disposto na Portaria do Tesouro Nacional nº 736, de mesma data.
Em 19 de fevereiro de 2010, o Decreto nº 7.113 instituiu o Conselho Deliberativo do Fundo Soberano (CDFSB), conforme previsão constante do art. 6º da Lei nº 11.887, de 2008, composto pelo Ministro de Estado da Fazenda, o Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão e o Presidente do Banco Central do Brasil (Bacen) que tem, entre outras competências, a atribuição de aprovar a forma, o prazo e a natureza dos investimentos do FSB.
Ainda segundo o Tesouro Nacional, o FSB tem como finalidades a promoção de investimentos em ativos no Brasil e no exterior, a formação de poupança pública, a mitigação dos efeitos dos ciclos econômicos e o fomento de projetos de interesse estratégico do País localizados no exterior.
Desde a publicação do Decreto nº 6.764, de 10 de fevereiro de 2009, a Secretaria do Tesouro Nacional, passou ser formalmente responsável pela gestão do FSB, pela coordenação da administração do Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização - FFIE, de que trata a Lei nº 11.887, de 2008, e pelo apoio ao Conselho Deliberativo do Fundo Soberano do Brasil, de que trata o art. 6º da referida Lei. Com a publicação do Decreto nº 7.050, de 23 de dezembro de 2009, criou-se na estrutura organizacional da Secretaria do Tesouro Nacional a Coordenação-Geral de Gestão do Fundo Soberano do Brasil (COFSB), subordinada à então Subsecretaria de Planejamento Fiscal, Estatística e Contabilidade, especificamente para exercer as atribuições inerentes à gestão do patrimônio do FSB.
À época de sua criação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega indicou que seu principal objetivo seria prover recursos para o Brasil num momento de turbulência econômica (chamado de medida anticíclica). Para o mercado, no entanto, a interpretação foi que o governo buscava também uma forma de combater a excessiva valorização que o real estava sofrendo diante do dólar no câmbio interno desde o início da crise global. Em meados de 2010, o FSB possuía cerca de R$ 16 bilhões, resultado do aporte de R$ 14 bilhões, feito pelo governo quando o fundo foi criado, mais o seu rendimento desde então.
Esta a história oficial do FSB, muito bonita e bem contada pelo PT, como se coisa séria fosse, bem para brasileiro ver – e adorar! Entretanto – e como temos “entretantos” e “infelizmentes” na nossa pobre história! – os procedimentos e resultados desde a criação deste FSB foram bem outros. Daqui para a frente, a verdadeira história, na publicação resumida da revista Exame, a começar pelo título da matéria: “O Fundo Soberano do Brasil é um Desastre”.
Criado há seis anos e administrado pelo Tesouro, o Fundo Soberano do Brasil acumula prejuízos, só investe no que não deve e dá uma forcinha para fechar as contas públicas. Pior: há quem diga que está tudo certo.
"Se colocarem o governo para administrar o deserto do Saara”, disse certa vez o economista Milton Friedman, Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 1976, “vai faltar areia em cinco anos.” Notório crítico das intervenções estatais na economia de mercado, Friedman pensava nos burocratas americanos quando disse o que disse; imagine o que aconteceria se o governo brasileiro recebesse essa missão! O resultado, além da falta de areia, seria uma confusão completa. Esta pode parecer uma parábola exagerada, mas uma história real (e recente) ajuda, de forma didática, a entender o que acontece quando o governo brasileiro se mete a fazer o que não sabe. Nesse caso, gerir um fundo de investimento, o Fundo Soberano do Brasil.
Em dezembro de 2008, o mundo vivia os efeitos do pânico causado pela quebra do banco americano Lehman Brothers. Em meio ao pacote de medidas destinadas a proteger o Brasil da crise estava a criação de um fundo soberano — nome dado aos fundos de investimento controlados por países e que aplicam, basicamente, no exterior.
Ao anunciar o novo fundo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que aquele era um passo para financiar empresas brasileiras que investissem fora do país. No futuro, esse fundo seria engordado com parte dos royalties pagos à União pela exploração das reservas do petróleo do pré-sal, como fazem Arábia Saudita, Emirados Árabes, Noruega e outros produtores. A expectativa era grande.
O fundo começou com 14 bilhões de reais, e sua administração foi delegada à Secretaria do Tesouro Nacional, comandada por Arno Augustin. Começava, ali, uma das lambanças financeiras mais impressionantes da história recente do país. No primeiro ano, os gestores do fundo não fizeram nada do que haviam prometido. O dinheiro ficou, basicamente, parado em títulos públicos brasileiros. Mas em 2010 a criatividade tomou conta do governo federal, que precisava de uma força para financiar a gigantesca capitalização da Petrobras — feita para levantar recursos para a exploração do pré-sal.
A equipe de Arno Augustin comprou nada menos que 12 bilhões de reais em ações da Petrobras. Pagou R$29,65 pelas ações ordinárias e R$26,30 pelas preferenciais e passou a ter 3,9% do capital da companhia. Além de não ter absolutamente nada a ver com os objetivos do fundo, esse investimento foi desastroso, pois as ações da Petrobras perderam cerca de 40% de seu valor nos dois anos seguintes. Mas foi aí que surgiu o inexplicável (???). Arno e seus magos das finanças inverteram a lógica mais básica que rege investimentos e decidiram vender tudo. Ou seja, compraram na alta e venderam na baixa, jogando na lata do lixo 4,4 bilhões de reais. Até o fechamento desta edição, ninguém havia sido responsabilizado por isso.
O que explica esse desastre? Os recursos obtidos com a venda das ações da Petrobras foram para a conta do Tesouro e ajudaram a cumprir a meta de superávit fiscal de 2012, no auge do que ficou conhecido como contabilidade criativa do governo federal. O Tesouro se defende alegando que, como vendeu suas ações da Petrobras para o BNDES, o país não perdeu dinheiro. “Essas operações não devem ser vistas só do ponto de vista financeiro. A economia se beneficiou dos investimentos no pré-sal, e cumprir o superávit foi importante porque abriu espaço para mais gastos dos estados e dos municípios, o que também incentivou a economia”, diz um funcionário do Tesouro, sob a condição de não ter seu nome revelado. O secretário Arno Augustin não quis dar entrevista.
O rendimento razoável de 9,5% no ano passado é fácil de entender. Cerca de 80% do patrimônio do fundo está aplicado numa conta do Tesouro que rende 98% da taxa básica de juro da economia, a SELIC.
No último relatório anual, os gestores do fundo afirmam que esse desempenho ficou acima do mínimo estabelecido no regulamento, que é de 5% ao ano, equivalente à taxa de juro TJLP, usada como referência para financiamentos subsidiados do BNDES. Ou seja, os gestores acham normal que o fundo capte seus recursos pagando cerca de 11% (taxa Selic) e dê um retorno de menos da metade disso. “Há um problema na concepção do fundo”, diz Ricardo Almeida, professor de finanças da escola de negócios Insper.
Entre os grandes fundos soberanos do mundo, nenhum tem uma estratégia parecida. Mesmo os fundos da China, cuja gestão também é subordinada ao governo, e do Oriente Médio, que são administrados como patrimônio dos príncipes que governam os países, têm uma carteira de investimentos mais diversificada. O Adia, dos Emirados Árabes, aplica 35% dos recursos na América do Norte, 20% na Europa e 15% em países emergentes, em ações, títulos públicos e privados e imóveis, entre outros. No maior fundo do mundo, o da Noruega, as diretrizes gerais de investimento são definidas pelo banco central e pelo Ministério da Fazenda e têm de ser aprovadas pelo Congresso. Mas a execução é feita por uma equipe de gestão independente, que escolhe o que e quando comprar e vender. No fim do ano passado, 62% do seu patrimônio, de 840 bilhões de dólares, estava aplicado em ações de empresas como a fabricante americana de celulares e computadores Apple e a companhia suíça de alimentos Nestlé. Outra parcela estava em títulos públicos de mais uma dezena de países, entre eles o Brasil (o fundo não aplica em papéis públicos na Noruega). Sua principal meta é ter uma rentabilidade de 4% acima da inflação, cumprida com folga desde 2008. Já o fundo brasileiro, perdeu, na média, 1,7% ao ano. Imagine o deserto do Saara na mão dessa turma!
Agora, digo eu, quem possui ações da Petrobras e não conhece os culpados por parte do seu prejuízo passado, presente e futuro, ainda por um bom tempo, é mais um "crédito" na conta do PT. Entretanto, com tudo isso, mais a compra desastrosa e desonesta da Refinaria Pasadena, com o dinheiro do povo, o governo petista continua enchendo os canais de televisão com a propaganda mentirosa de que a PeTrobras é a empresa mais lucrativa do mundo e é dos brasileiros!!! Como diria o Jô Soares, “fica vermelha, cara sem vergonha”!

domingo, 13 de abril de 2014

A TEORIA DO "BIG BANG" (PARTE 2 DE 2)

OS PRIMEIROS MOMENTOS APÓS O “BIG BANG”

O primeiro instante da expansão do “Big Bang” é ainda uma área de investigação aberta. A teoria não fornece uma explicação para as condições iniciais do Universo, mas apenas descreve e explica a evolução geral do Universo daquele ponto para diante. O Universo original não era regido pelas leis da física como hoje as conhecemos. Consequentemente, não se pode dizer, com precisão, como o Universo se parecia durante os primeiros minutos da sua criação. A despeito disso, os cientistas conseguiram construir uma representação aproximada da evolução do Universo.
Os cientistas acreditam que o Universo era, inicialmente, tão quente e denso, que mesmo as partículas elementares como prótons e nêutrons não poderiam existir. Ao invés disso, alguma coisa que ocupava volume, chamada de matéria e antimatéria, colidia entre si, criando pura energia. Mas à medida que o Universo começou a resfriar-se, durante os primeiros poucos minutos, prótons, nêutrons e, posteriormente elétrons, começaram a formar-se e, com o tempo, juntaram-se para formar Hidrogênio e pequenas quantidades de Hélio. Durante os bilhões de anos que se seguiram, estrelas, planetas e galáxias se formaram para criar o Universo tal como o conhecemos hoje.

EVIDÊNCIAS DO “BIG BANG”

As mais antigas e diretas experiências evidentes da teoria são a expansão do Universo, de acordo com a Lei de Hubble (como indicado pelo redshift das galáxias); a descoberta e medição da micro-onda cósmica de fundo (CMB); e as abundâncias relativas de elementos de luz produzidas pela nucleossíntese do “Big Bang”. Evidências mais recentes incluem observações de formação e evolução de galáxia e a distribuição de estruturas cósmicas a grande escala. Estas são, algumas vezes, chamadas de “quatro pilares” da teoria do “Big Bang”.
A Lei de Hubble tem duas explicações possíveis: ou nós somos o centro da explosão das galáxias – inadmissível pelo Princípio de Copérnico, que estabelece que a Terra não se encontra numa posição central especialmente favorecida no Universo – ou o Universo expande-se uniformemente em todas as direções, fato já previsto por Alexander Friedmann, em 1922, e por George Lemaître, em 1927, bem antes das análises e observações de Hubble, em 1929. Aliás, medições dos efeitos da radiação de micro-onda cósmica de fundo sobre os sistemas astrofísicos distantes, em 2000, provaram o Princípio de Copérnico. A radiação do “Big Bang” foi, comprovadamente, mais quente em tempos passados, em todo o Universo. O resfriamento uniforme da micro-onda cósmica de fundo, por bilhões de anos, é explicado somente se o Universo continua experimentando uma expansão métrica e exclui a possibilidade de que estejamos próximos do único centro de uma explosão. Além disso, os teoristas do “Big Bang” usaram a Lei de Hubble para calcular a idade do Universo em torno de 14 bilhões de anos, consistente com medidas realizadas por outros processos.
Em 1964 Arno Penzias e Roberto Wilson descobriram, por acaso, a Cosmic Microwave Background (CMB - radiação cósmica de fundo) – e por essa descoberta receberam, em 1978, um Prêmio Nobel -, um sinal onidirecional na banda de micro-onda. Esse sinal é muitas vezes descrito como um “eco” do “Big Bang”. Como o Universo teve uma origem, ele deixaria uma assinatura do evento, da mesma forma que um eco ouvido num canyon representa uma assinatura do som original, neste caso representado, não por um eco audível, mas por uma assinatura de calor deixada através do espaço. A CMB é a radiação térmica que sobrou do “Big Bang” da cosmologia. Na literatura mais antiga a CMB é também conhecida por Cosmic Microwave Background Radiation (CMBR), ou “radiação relix”. A CMB é uma radiação remanescente cósmica fundamental para a cosmologia de observação porque é a mais antiga luz no Universo, datando da época da recombinação (época em que os elétrons e prótons carregados ligaram-se pela primeira vez para formar átomos neutros de Hidrogênio). A radiação descoberta era consistente com o espectro de um corpo negro quase perfeito em todas as direções; este espectro tem sido desviado para o vermelho (redshifted) pela expansão do Universo e hoje corresponde a, aproximadamente, 2,725ºK (-270,425ºC). Isso inclinou a balança da evidência a favor do modelo “Big Bang”. Outros experimentos sobre o CMB continuam em andamento.
Uma outra verificação da teoria do “Big Bang” é que o Universo deveria estar se afastando de nós e isso é o que acontece, pois em qualquer direção que se olhe no espaço, veremos os objetos se afastando de nós com uma velocidade proporcional à sua distância de nós, através do fenômeno do redshift (deslocamento para o vermelho).
A visão panorâmica de todo o céu próximo do infra-vermelho revela a distribuição de galáxias além da Via Láctea, codificadas pela cor pelo redshift. Observações detalhadas da morfologia e distribuição de galáxias e quasars (fontes de rádio quase estelares, os mais energéticos e distantes membros de uma classe de objetos chamados núcleos galácticos ativos), estão de acordo com o estado atual da teoria do “Big Bang”. Uma combinação de observações e teoria sugere que os primeiros quasars e galáxias se formaram cerca de um bilhão de anos após o “Big Bang” e desde então estruturas maiores têm se formado, como amontoados de galáxias (estruturas com centenas a milhares de galáxias em qualquer lugar, mantidas unidas pela gravidade) e super grupos (grandes grupos de grupos de galáxias menores). As populações de estrelas têm envelhecido e evoluído, de forma que galáxias distantes (observadas como eram no Universo inicial) aparecem muito diferentes de galáxias próximas (vistas num estado mais recente). Além disso, galáxias formadas relativamente recentemente aparecem muito diferentes de galáxias formadas a distâncias semelhantes, mas logo após o “Big Bang”. Essas observações constituem forte argumento contra o modelo de Estado Constante, mas concordam bem com as simulações do “Big Bang” da formação de estruturas no Universo e ajudam a completar detalhes da teoria.
Em 2011 os astrônomos descobriram o que eles acreditam ser as primeiras nuvens do gás primordial, pela análise de linhas de absorção do espectro de quasars distantes. Antes dessa descoberta todos os outros objetos astronômicos continham elementos pesados formados nas estrelas. Essas duas nuvens de gás não contêm elementos mais pesados que o hidrogênio e o deutério. Uma vez que as nuvens de gás não possuem elementos pesados, provavelmente elas se formaram nos primeiros minutos após o “Big Bang”, durante a sua nucleossíntese, batendo com a composição prevista. Isso fornece evidência direta de que houve um período na história do universo, antes da formação das primeiras estrelas, quando a matéria mais ordinária existia em forma de nuvens de hidrogênio neutro.
Chama-se “Nucleossíntese”, o processo que cria novos núcleos atômicos a partir de partículas nucleares (nucleons) preexistentes, primariamente prótons e nêutrons. Os primeiros núcleos foram formados cerca de três minutos após o “Big Bang”, pelo processo chamado de Nucleossíntese do “Big Bang”. Foi então que hidrogênio e hélio, elementos leves, se formaram, formando o conteúdo das primeiras estrelas, sendo responsável pela presente relação hidrogênio/hélio do cosmos. Com a formação de estrelas, núcleos mais pesados foram criados a partir do hidrogênio e do hélio por nucleossínteses estelares, um processo que prossegue ainda hoje. Alguns desses elementos, principalmente os mais leves que o ferro, continuam a ser liberados ao meio interestelar quando estrelas de baixa massa ejetam seu envelope mais externo antes de entrarem em colapso para formar anãs brancas(1) . O que sobra da sua massa ejetada forma as nebulosas planetárias, observadas por toda a nossa galáxia.
Uma estrela ganha elementos mais pesados pela combinação de seus núcleos mais leves, hidrogênio, deutério (hidrogênio pesado), berílio, lítio e boro, encontrados nas composições iniciais da estrela. Portanto, gás interestelar contém quantidades declinantes desses elementos leves, presentes apenas em virtude de suas nucleossínteses durante o “Big Bang”. Quantidades maiores desses elementos mais leves, presentes no atual Universo, foram restauradas através de bilhões de anos de colapso indireto de raios cósmicos (principalmente prótons de alta energia) de elementos mais pesados em gás e poeira interestelar. Os fragmentos dessas colisões de raios cósmicos incluem os elementos leves Lítio, Berílio e Boro.
As primeiras ideias sobre nucleossíntese eram simplesmente que os elementos químicos haviam sido criados no início do Universo, mas nenhum cenário físico racional pôde ser identificado. Gradualmente tornou-se claro que o Hidrogênio e o Hélio são muito mais abundantes que qualquer outro elemento; todo o resto constitui menos de 2% da massa do sistema solar e dos demais sistemas estelares. Ao mesmo tempo era claro que o Oxigênio e o Carbono eram os próximos mais comuns elementos e também que havia uma tendência geral em direção aos elementos leves, especialmente para os compostos de números integrais de núcleos de Hélio-4.

ALÉM DA TEORIA DO “BIG BANG”

Como eu disse no início do artigo, o motivo principal para a sua publicação não é a teoria do “Big Bang”, em si, que encontra-se hoje muito bem estabelecida na cosmologia, embora ainda deva vir a ser refinada no futuro, pois muito pouco ainda se conhece sobre os momentos iniciais da história do Universo.
Como teoria relevante sobre a origem do Universo, o modelo “Big Bang” tem uma relação significativa com a religião e a filosofia e, como resultado, tornou-se uma das áreas mais intensas das discussões entre ciência e religião. Por sua causa, muito simplistamente, alguns acreditam que o “Big Bang” implica na existência de um criador, enquanto outros argumentam que a cosmologia do “Big Bang” torna supérflua esta noção. Na minha opinião, não importa que teorias possam ser criadas sobre a origem do Universo, ninguém nunca poderá por em dúvida, ou se preferirem, provar a não existência de um ser supremo criador de tudo o que conhecemos hoje como Universo. Posso ir mais além e dizer que todo o estudo científico pode e deve ser levado adiante, sem a preocupação de com ele, ter em mente a preocupação de provar ou não a existência de Deus. Obviamente, quando o padre católico Monsenhor Lemaître lançou ao mundo a sua teoria da origem do Universo, nunca pretendeu criar essa polêmica, por razões facilmente entendíveis por qualquer um. O que me deixa surpreso é a forma simplista como pessoas esclarecidas e estudadas usam a teoria do “Big Bang” para proclamar ao mundo que, conhecida e divulgada esta, o mundo agora não precisa mais de uma entidade como Deus, pois que ela explica a formação do Universo!
Para começo de conversa, todas as teorias lançadas pretendem explicar algo que não se conhece e são aceitas, em primeiríssimo lugar, por falta de uma teoria melhor do que ela! Com o tempo, ou elas serão confirmadas, através da observação prática, ou rejeitadas porque nem todas as coisas acontecerão segundo o que se esperava da teoria. A teoria do “Big Bang” funcionou exatamente da mesma maneira. Observações práticas levaram Monsenhor Lemaître a lançar a sua teoria; a prática tem demonstrado que a teoria estava certa, pelo menos com relação à maioria das observações. Mas jamais ele teve a intenção, durante as suas pesquisas, de provar a existência ou a não existência de Deus. Mesmo porque, como padre católico, ou ele provava isso e abandonava o hábito, ou ele nunca provou isso.
Quem pegou o “gancho”, como oportunistas, foram os ateus que se “maravilharam” com a descoberta e com a possibilidade de não precisarem de Deus para a criação do mundo! Quanta esperteza e quanta inocência a um só tempo!!! Senão, vejamos.
Quando dos meus estudos de ginásio ou científico, mas sem dúvida antes da faculdade, uma das primeiras coisas que eu aprendi sobre conceitos, de uma maneira geral, mas particularmente, em se tratando de física, era que a definição de alguma coisa jamais poderia incluir a própria coisa que está sendo definida. Ora, como teoria da origem do Universo, é frequente ler no modelo do “Big Bang”, o conceito de Universo como se ele fosse algo conhecido. Mas se o modelo foi construído para explicar a formação do Universo, nada poderia existir antes da sua formação. Mas o que significa “nada”? Como uma expansão pode existir de “nada”. Uma expansão tem que ser de alguma coisa! Nada se expande de nada! Nesse caso, que coisa é essa a partir da qual se deu essa expansão? Quem colocou essa coisa nesse momento, nesse lugar para que a expansão fosse deflagrada? Os próprios teóricos do modelo do “Big Bang” dizem que no momento em que tal expansão iniciou, o Universo (que Universo? Se o Universo não existia?) encontrava-se extremamente quente e denso ... E como se deu esse aquecimento e esse adensamento? Aquecimento e adensamento do que?
Mesmo que fosse a partir de uma só partícula subatômica, alguém teria que ter criado essa partícula subatômica, para que, a partir dela todo o Universo fosse criado. Gente, não existe criatura sem criador!!! Já houve tempo em que se acreditou na “geração espontânea”, até o momento em que pessoas mais estudiosas provaram a si próprias e à humanidade que isso era impossível. E agora vamos retroagir e acreditar que alguma coisa surgiu “num nada” e transformou-se na origem do Universo?
Mesmo os teoristas do modelo do “Big Bang” não negam que a teoria não fornece uma explicação para as condições iniciais do Universo, mas apenas descreve e explica a evolução geral do Universo daquele ponto para diante. E acrescentam que o Universo original não era regido pelas leis da física como hoje as conhecemos; consequentemente, não se pode dizer com precisão como o Universo foi durante os primeiros minutos da sua criação. E antes da sua criação, como ele era? O que ele era? Na verdade, o que os cientistas conseguiram, foi construir uma representação aproximada da evolução do Universo, a partir de alguma coisa.
Outro ponto interessante a analisar, é o fato de que os cientistas não conseguiram responder, na verdade, a nenhuma das perguntas cruciais de toda a polêmica: (1) como o Universo iniciou? e (2) o que existia antes dele? No máximo, a maioria deles agora acredita que o Universo surgiu de uma singularidade (?). Mas se não havia nada antes do Universo, por definição, como e de que forma essa singularidade surgiu? Quanto à segunda pergunta, os cientistas permanecem frustrados e sem respostas à humanidade.
Ao termo e ao fim, tudo parece indicar, como parece lógico, que ninguém estava, realmente, procurando descobrir a origem do Universo, mas simplesmente algo mais próximo da sua origem do que até então se conhecia. Ou seja, que a teoria aconteceu do presente para o passado, buscando-se as causas lógicas através de uma recessão, no tempo e no espaço, que conduzissem a algo mais próximo do início do Universo; tal teoria seria, posteriormente, total ou parcialmente comprovada através da evolução da tecnologia e com as novas descobertas.
O aparecimento do primeiro homem moderno, deu-se há mais ou menos 160.000 anos. De lá para cá, e cada vez com mais esforço e interesse, o homem se preocupa em descobrir o grande mistério de sua origem e do mundo que o cerca. É muito tempo para pensar, mas em minha opinião, o grande mistério continua sem uma solução definitiva e convincente. Quiçá esse mistério nunca venha a ser resolvido.

(1) Uma anã branca, também chamada de anã degenerada, é um remanescente estelar composto, principalmente, de matéria degenerada de elétrons. Elas são muito densas, tendo uma massa comparada com o Sol e seu volume comparável ao da Terra. Sua débil luminosidade vem da emissão de energia térmica armazenada.

terça-feira, 1 de abril de 2014

A TEORIA DO “BIG BANG” (PARTE 1 de 2)

INTRODUÇÃO

O que me motivou a escrever sobre este assunto, mais complexo do que a maioria dos assuntos sobre os quais já escrevi foi, de uma certa forma, a singeleza e a facilidade com que vejo a maioria das pessoas discutir e aceitar esta teoria sem provas, como um ato de fé, principalmente por aquelas pessoas que dizem não acreditar na existência de um Deus onipotente, onipresente e onisciente, exatamente porque não possuem provas concretas de que tal Deus exista.
Vejam bem os leitores que eu não tenho a mínima intenção de provar a existência de Deus (ufa! Tarefa árdua, já tentada por gente muito importante, assim como provar que Ele não existe, sem o menor sucesso!) nem de validar tal teoria, mas apenas expô-la e colocar algumas questões sobre ela, para que os próprios leitores possam julgar se ela pode ser totalmente aceita como verdade indiscutível, a não ser como ato de fé, sem prova, da mesma maneira que exigiria, para ser aceito, o conceito de um Deus responsável pela criação de tão formidável Universo.
Em outras palavras, eu não aceito que pessoas possam admitir tal teoria, que nunca foi provada, mas apenas exposta, como verdadeira, e não possam aceitar o conceito de Deus, da mesma forma nunca aprovado, mas que deve ser aceito como um ato de fé. Ou seja, que substituam um conceito teórico por outro, sem a menos cerimônia ou pudor. E assim vivam felizes para sempre, como pessoas “inteligentes” que não creem ou não precisam de Deus.
Aliás, acho muito importante, até mesmo como introdução, que todos saibam que a Teoria do “Big Bang”, da origem do Universo, foi originalmente proposta por um belga, astrônomo e professor de física da Universidade Católica de Louvain, chamado Georges Henry Joseph Édouard Lemaître que era, pasmem(!), um PADRE JESUÍTA, alguém que, acreditando em Deus como acreditou, até morrer, nunca teve medo de estudar tais assuntos. Monsenhor Lemaître, como era conhecido, foi a primeira pessoa a propor a teoria da expansão do Universo, ampla e erradamente atribuída a Edwin Hubble, tendo sido também o primeiro a derivar o que é hoje conhecido como “lei de Hubble”, além de realizar a primeira estimativa do que é agora chamada de “Constante de Hubble”, publicada por ele em 1927, dois anos antes do artigo de Hubble. Monsenhor Lemaître nasceu em Charleroi, Bélgica, em 17 de julho de 1894, e morreu em 20 de junho de 1966, em Leuven, Bélgica, à idade de 71 anos.
Monsenhor George Lemaître
Com o objetivo de tornar o assunto que vai ser abordado, o mais claro possível, toda vez que mencionar alguma palavra que, a meu critério, possa ser menos conhecida da maioria, procurarei dar uma breve explicação sobre ela. Mas será sempre uma explicação muito breve, que esclareça o seu significado, sem desviar a atenção do leitor do assunto principal da matéria.

APRESENTAÇÃO

Em 1959 uma pesquisa foi realizada entre cientistas de toda a América, com relação ao seu entendimento das ciências físicas. Uma questão particular foi colocada: “Qual o seu conceito da idade do Universo?”. Mais de dois terços dos cientistas questionados responderam que não havia origem do Universo, que o Universo era eterno. Cinco anos após, em 1964, os radioastrônomos Arno Penzias e Roberto Wilson descobriram um sinal de micro-onda sepultado entre seus dados. Tentaram filtrar o sinal, supondo que tratava-se, meramente, de um ruído indesejado. Contudo, logo verificaram que o sinal de fato existia: eles tinham, inadvertidamente descoberto a Micro-onda Cósmica de Fundo (Cosmic Microwave Background – CMB). A CMB havia sido predita por uma teoria em que poucos acreditavam àquele tempo, chamada “Big Bang”. Essa descoberta foi a primeira evidência de que o Universo tinha um início.
Entendido que o Universo tinha um início, os cientistas começaram a perguntar: “como ele iniciou?” e “o que existia antes dele?”.
A maioria dos cientistas agora acredita que a resposta à primeira pergunta é que o Universo surgiu de uma singularidade – um termo que os físicos usam para descrever regiões do espaço que desafiam as leis da física.
Quanto à segunda parte da questão, os cientistas ficaram frustrados. Por definição, nada existia antes do início, mas este fato cria mais perguntas que respostas. Por exemplo, se nada existia antes do “Big Bang”, o que fez a singularidade aparecer em primeiro lugar?
Uma vez que a singularidade foi criada (de fato, ela aconteceu), começou a expandir-se através de um processo chamado inchação. O Universo passou de muito pequeno, muito denso e muito quente, à fria expansão que vemos hoje. Esta teoria é hoje conhecida como “Big Bang”, termo inicialmente cunhado por Sir Fred Hoyle, durante uma transmissão de rádio da BBC, em 1950 que, por ironia, opunha-se a ela. Curiosamente, na verdade, nenhuma espécie de explosão ocorreu, como sugere o nome; apenas a rápida expansão do espaço e tempo, da mesma forma como soprando ar dentro de um balão, ele se expande externamente.

HISTÓRIA

A teoria do “Big Bang” apresenta o principal modelo cosmológico a descrever o desenvolvimento inicial do Universo(1).
A Cosmologia física estuda as estruturas e dinâmica de maior escala do Universo e trata das questões fundamentais sobre sua formação, evolução e destino final. Pela maior parte da história humana, ela foi um ramo da metafísica(2) e da religião. A Cosmologia, como uma ciência, originou-se com o princípio de Copérnico - corpos celestiais obedecem a leis físicas(3) idênticas às da Terra -, e com a mecânica Newtoniana(4) , a primeira a nos permitir entender aquelas leis.
Einstein e Lemaître, dois físicos de respeito
A cosmologia física, como é agora entendida, começou com o desenvolvimento, no século XX, da Teoria Geral da Relatividade, de Einstein, e as observações astronômicas mais apuradas de objetos extremamente distantes. Esses avanços fizeram possível especular sobre a origem do Universo e permitiram o estabelecimento da “Teoria do Big Bang”, por Lemaître, como o principal modelo cosmológico. Alguns pesquisadores ainda advogam um punhado de cosmologias alternativas; contudo, a maioria dos cosmologistas concorda que a Teoria do “Big Bang” é a que melhor explica as observações.
A teoria do “Big Bang” originou-se de observações da estrutura do Universo e de considerações teóricas. Em 1912, Vesto Slipher mediu o primeiro deslocamento Doppler(5) de uma “nebulosa espiral” (nome obsoleto para “galáxia espiral”) e logo descobriu que tais nebulosas se afastavam da Terra. Ele não captou as implicações cosmológicas do evento e, de fato, naquele tempo era controverso se essas nebulosas eram ou não “universos ilhas” fora da nossa Via Láctea. Dez anos mais tarde, Alexander Friedmann, um cosmólogo e matemático, derivou as equações de Friedmann, a partir das equações da teoria da relatividade de Einstein, mostrando que o Universo poderia estar se expandindo, em contraste com o modelo estático do Universo estático proposto por Einstein à época.
Iniciando em 1924, Hubbler desenvolveu uma série de indicadores de distância, o precursor da escada de distância cósmica (método para medição da distância a corpos celestiais a distâncias maiores que 3.000 anos-luz), usando o telescópio de Hooker de 100 polegadas, no Observatório de Monte Wilson. Isso lhe permitiu estimar distâncias a galáxias cujos redshifts(6) já haviam sido medidos, principalmente por Slipher. A medida da distância à mais próxima nebulosa espiral, por Edwin Hubble, mostrou que esses sistemas eram de fato outras galáxias.
Independentemente derivando as equações de Friedmann, em 1927, George Lemaître propôs que o afastamento inferido das nebulosas era devido à expansão do Universo, propondo, originalmente, o que se tornou conhecido como a teoria do “Big Bang” e que ele chamou de “hipótese do átomo original”. Com o passar do tempo, os cientistas desenvolveram suas ideias iniciais para formar a síntese moderna.
As equações que governam a teoria foram inicialmente formuladas por Alexander Friedmann e soluções similares foram trabalhadas por Willem de Sitter. Em 1929, Edwin Hubble descobriu que as distâncias a galáxias distantes eram fortemente correlacionadas a seus redshifts – uma ideia originalmente sugerida por Lemaître em 1927.
Em 1931 Lemaître foi mais além e sugeriu que a evidente expansão do Universo, se projetada para o passado, no tempo, significava que quanto mais longe no passado, menor seria o Universo, até que em algum tempo finito no passado, todo a massa do Universo seria concentrada num só ponto, um “átomo primitivo”, onde e quando a estrutura do tempo e espaço iniciou sua existência.
De acordo com a teoria, o “Big Bang” ocorreu há, aproximadamente, 13,798 ± 0,037 bilhões de anos atrás, considerada a idade do Universo. Naquele tempo, o Universo estaria num estado de extremo calor e densidade e começou a expandir-se rapidamente. Após a expansão inicial, o Universo resfriou-se suficientemente para permitir que a energia fosse convertida em várias partículas subatômicas, incluindo prótons, nêutrons e elétrons. Embora apenas núcleos de átomos simples tenham se formado nos primeiros três minutos após o “Big Bang”, milhares de anos se passaram antes que os primeiros átomos eletricamente neutros se formassem. A maioria dos átomos produzidos pelo “Big Bang” era formada por hidrogênio, junto com hélio e traços de lítio. Nuvens gigantes desses elementos primordiais mais tarde coalesceram através da gravidade(7)  para formar as estrelas e as galáxias; os elementos mais pesados foram combinados ou dentro das estrelas ou durante as supernovas(8).
O arcabouço do modelo “Big Bang” repousa na Teoria Geral da Relatividade, de Albert Einstein, e hipóteses simplificadas tais como a homogeneidade (no espaço, implica na conservação da quantidade de movimento [massa x velocidade]; no tempo, implica na conservação da energia) e isotropia (uniformidade de uma característica em todas as direções) espaciais. Essas ideias foram, inicialmente, tomadas como postulados, mas hoje há esforços para testar cada uma delas, tendo sido ambas praticamente confirmadas.
Para nós, brasileiros, a complexidade do modelo é, desde o início, ainda majorada pelo próprio título da teoria, que tem o seu original em inglês. O “big”, como a maioria sabe, significa “grande”, não no sentido de importância – que seria “great” -, mas apenas no sentido do tamanho; o “bang” está muito associado a ruído ou barulho de uma explosão, que tão bem conhecemos desde os filmes do velho oeste, que víamos quando crianças e aos quais nos referíamos como filmes de “bang-bang”. Isso é importante porque o “Big Bang” não é uma explosão de matéria para fora, a encher um Universo vazio. Ao invés disso, é o próprio espaço que se expande com o tempo em todas as direções, aumentando a distância entre dois pontos do espaço. Dadas essas explicações iniciais, a tradução deixa de parecer tão importante, pelo que proponho que, ao longo de todo o assunto, mantenhamos a nomenclatura original, até para evitar outras complicações que poderiam surgir.
Durante as décadas de 1920 e 1930, todos os principais cosmólogos preferiam um Universo eterno, em estado constante e muitos se queixaram de que o início do tempo implicado pelo “Big Bang” trazia conceitos religiosos para a física; essa objeção foi, mais tarde, repetida pelos defensores da teoria do Estado Constante(9). Essa percepção foi realçada pelo fato de que o criador da teoria do “Big Bang”, Lemaître, era um padre Católico Romano.
Na década de 1930 outras ideias foram propostas como cosmologias não padronizadas para explicar as observações de Hubble – “modelo de Milne”, “Universo oscilatório” e a “hipótese da luz cansada de Fritz Zwickl”. Entretanto, após a Segunda Guerra Mundial apenas duas possibilidades distintas emergiram: uma foi a teoria do “Estado Constante”, de Fred Hoyle, e a outra foi a teoria do ““Big Bang””, de Lemaître. Por um período, o apoio geral foi dividido entre essas duas teorias. Ao final, a evidência experimental começou a favorecer a teoria do “Big Bang” sobre a do Estado Constante e a descoberta e confirmação do CMB, em 1964, já prevista por seus adeptos, considerou a “Big Bang” como a melhor teoria da origem e evolução do cosmos. Uma boa parte do trabalho atual em cosmologia inclui o entendimento de como as galáxias se formam no contexto do “Big Bang”, entendendo a física do Universo em tempos cada vez mais remotos e reconciliando as observações com a teoria básica. Um progresso significativo na cosmologia do “Big Bang” tem sido feito desde o final da década de 1990 como resultado dos avanços na tecnologia do telescópio e na análise de dados de satélites, como o COBE (Cosmic Background Explorer), o Telescópio Espacial Hubble e o WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe). Os cosmólogos têm agora medições razoavelmente precisas de muitos dos parâmetros do modelo “Big Bang” além de, inesperadamente, descobrir que a expansão do Universo parece estar se acelerando.
O “Big Bang” é a teoria científica mais consistente com as observações dos estados passado e presente do Universo, amplamente aceita na comunidade científica. Ela fornece uma explicação compreensiva de uma ampla gama de fenômenos observados, incluindo a abundância de elementos leves, o Cosmic Microwave Background (CMB), estruturas de grande escala e o diagrama de Hubble (representação visual da Lei de Hubble, acima mencionada). As ideias centrais do “Big Bang” – a expansão, o estado quente inicial, a formação dos elementos leves e a formação das galáxias – são derivadas destas e outras observações. As galáxias, que no passado estavam todas muito próximas, hoje encontram-se cada vez mais afastadas. Uma consequência disso é que as características do Universo podem ser calculadas com detalhe, de volta no tempo, a temperaturas e densidades extremas, enquanto grandes aceleradores de partículas(10) replicam tais condições que resultam na confirmação e refinamento dos detalhes do modelo “Big Bang”.


(1) O Universo é comumente definido como a totalidade da existência, incluindo os planetas, estrelas, galáxias, os conteúdos do espaço intergaláctico, as menores partículas subatômicas e toda a matéria e energia. Termos similares incluem o Cosmos, o Mundo, a Realidade e a Natureza.
(2) A Metafísica é o ramo tradicional da Filosofia, que se ocupa da explicação da natureza fundamental do “ser” e do “mundo” que o envolve, embora o termo não seja facilmente definido. Tradicionalmente, a metafísica tenta responder a duas questões básicas, nos termos mais amplos possíveis:
1. O que está ao final de tudo?
2. Como ele é?
(3) Uma lei física ou lei científica, de acordo com a o dicionário inglês de Oxford, é “um princípio teórico deduzido de fatos particulares, aplicável a um grupo ou classe definida de fenômenos e expresso pela declaração de que um fenômeno particular sempre ocorrerá se certas condições estiverem presentes”. Leis físicas são tipicamente conclusões baseadas em experimentos e observações científicas repetidas por muitos anos e que foram aceitas universalmente pela comunidade científica. A produção de uma descrição sumária do nosso ambiente na forma de tais leis, é um objetivo fundamental da ciência.
(4) Em física, a mecânica clássica e a mecânica quântica são os dois maiores subcampos da mecânica. A mecânica clássica trata de um conjunto de leis físicas que descrevem o movimento dos corpos sob a ação de um sistema de forças. O estudo do movimento dos corpos é tão antigo que faz a mecânica clássica, também chamada de mecânica Newtoniana, um dos assuntos mais velhos e amplos na ciência, engenharia e tecnologia.
(5) O “efeito Doppler” (ou deslocamento Doppler), do físico austríaco Christian Doppler, proposto em 1842, em Praga, é a alteração na frequência de uma onda (ou outro evento periódico), para um observador móvel com relação à sua fonte. Pode ser percebido quando um veículo soando uma sirene ou buzina se aproxima, passa e se afasta de um observador. Comparada à frequência emitida, a frequência recebida é maior durante a aproximação, idêntica no instante da ultrapassagem e menor durante o seu afastamento.
(6) Em física, um redshift (deslocamento para o vermelho) acontece quando a luz, ou outra radiação eletromagnética, de um objeto, tem seu comprimento de onda aumentado ou movido para a extremidade vermelha do espectro. Em geral, esteja ou não a radiação dentro do espectro visível, mais vermelho (redder) significa um aumento no comprimento de onda – equivalente a uma menor frequência e menor foto-energia, de acordo com, respectivamente, as teorias da onda e quantum da luz.
(7) Gravidade ou gravitação é o fenômeno natural pelo qual todos os corpos físicos se atraem mutuamente. Ela é mais comumente reconhecida e experimentada como o agente que dá peso aos objetos físicos e faz com que esses objetos caiam para o chão quando tombados de alguma altura.
(8) Quando uma estrela gigante, com massa pelo menos 10 vezes à do Sol, chega ao fim de sua vida, produz-se uma explosão a que se dá o nome de Supernova. Seu brilho pode ser milhões de vezes maior que o brilho da estrela antes da explosão, comparável ao brilho de uma galáxia inteira, por semanas ou meses, antes de desaparecer.
(9) Em cosmologia, a teoria do “Estado Constante”, alternativa à teoria do “Big Bang” de origem do Universo e agora obsoleta, admite que nova matéria está sendo continuamente formada com a expansão do Universo, assim aderindo ao princípio cosmológico perfeito.
(10) Um acelerador de partículas é um dispositivo que usa campos eletromagnéticos para impulsionar partículas carregadas a altas velocidades, confinando-as em bem definidos feixes de luz. Um campo eletromagnético é um campo físico produzido por objetos eletricamente carregados; ele afeta o comportamento de objetos carregados na vizinhança do campo.

Conclui na próxima postagem.

quarta-feira, 19 de março de 2014

PEQUENA HISTÓRIA DA CRIMEIA

INTRODUÇÃO

Quando postei, há algum tempo atrás, um artigo sobre a Guerra da Crimeia, nunca imaginei que logo estaria escrevendo outro, ainda de maior interesse, posto que atual. Infelizmente, não poderia ser de outra forma. A situação geopolítica da Crimeia é por demais importante para que a região pudesse passar muito tempo sem sofrer renovadas tentativas de dominação.
Em função da atual crise que envolve Ucrânia, Crimeia, a intervenção russa e, por razões óbvias, apenas o resto do mundo, eu percebi que muito pouco conhecia da história passada da Crimeia e do seu passado recente, principalmente no que se refere à esfera de poder da Rússia sobre aquela península. Então, como sempre faço, sempre que posso, resolvi ler um pouco sobre o assunto, para me informar, principalmente, e passar essa informação aos meus leitores.
Evidentemente, não é nosso objetivo esgotar assunto tão amplo e controvertido, esse que inclui as origens, invasões e dominações sofridas pela Crimeia, por parte de um grande número de impérios e grandes potências do mundo em que vivemos. Também não fazemos aqui análise dos acontecimentos nem críticas a qualquer dos países envolvidos. Queremos apenas informar sobre um pouco da geografia e da história antiga da península famosa, bem como das transformações mais modernas sofridas pela Crimeia, uma região com mais de dois mil anos de história e principal pivô dos últimos incidentes ocorridos na Ucrânia.

LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA E TERMINOLOGIA

A Crimeia, oficialmente República Autônoma da Crimeia é uma península e uma república autônoma da Ucrânia, situada na costa setentrional do Mar Negro e na costa oeste do Mar de Azov, dominado pela Ucrânia e pela Rússia, fazendo fronteira com a província ucraniana de Kherson Oblast, ao norte. A área da Crimeia é de 26.100 km2, muito pequena se comparada à área da Ucrânia, de 603.628 km2 - incluída a área da Crimeia -, o maior país integralmente dentro da Europa. Sua população em 2007 era de 1.973.185; esses números não incluem a área e a população da cidade de Sebastopol (população de 379.200 habitantes), administrativamente separada da Crimeia.
Ucrânia e Crimeia no contexto da Eurásia
A Ucrânia, por sua vez, possui uma população (2012) de 45.693.300 habitantes, fazendo fronteiras com a Rússia a leste e nordeste, com a Belarus (ex-Bielorrússia) a noroeste, Polônia, Eslováquia e Hungria a oeste e com o Mar Negro e o Mar de Azov, ao sul e sudeste, respectivamente, através da Crimeia. A figura apresenta a localização da Ucrânia, em verde claro, e da Crimeia, em verde escuro, no contexto da Europa e Ásia. Evidentemente, mas apenas para deixar bem claro, em cinza aparecem as terras e em branco os mares e oceanos.
A Crimeia é ligada ao continente, ao norte, pelo istmo de Perekop; na extremidade oriental fica a península de Kerch, diretamente oposta à península Taman, em território Russo. Entre essas duas penínsulas situa-se o estreito de Kerch, com larguras variáveis entre 3 e 13 km, apenas, separando a Ucrânia da Rússia, ligação entre o Mar de Azov e o Mar Negro. A cidade de Yalta, que tornou-se famosa por ter acolhido a Conferência de Paz do mesmo nome, ao final da segunda guerra mundial, fica localizada ao sul da Crimeia, às margens do Mar Negro, como aparece na figura.
Yalta, sede da conferência de paz
da 2a. Guerra Mundial
A Crimeia possui uma maioria étnica predominantemente russa (58%) e ucraniana (24%); além disso, a região apresenta uma alta percentagem de muçulmanos. A República da Crimeia inclui, aproximadamente, toda a península da Crimeia ao norte do Mar Negro, com a pequena exceção da cidade de Sebastopol. É exatamente nessa situação geográfica privilegiada que reside todo o interesse estratégica da Crimeia, do qual ainda falaremos.
Entende-se por república autônoma, um tipo de divisão administrativa semelhante a uma província. Um número significativo de repúblicas autônomas pode ser encontrado nos estados sucessores da antiga União Soviética (como no Azerbaijão, Georgia, Ucrânia, Uzbequistão e Moldávia), mas a maioria está localizada dentro de Rússia (21 repúblicas autônomas só na Rússia). Muitas destas repúblicas foram estabelecidas durante o período soviético, como Repúblicas Autônomas da União Soviética, ou RASSs.
Não queremos nos afastar demais do tema principal, para não perder o foco, mas é preciso que esclareçamos aos leitores menos informados os termos União Soviética e Rússia.
A União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS em português), foi um estado socialista na Eurásia (massa de terra continental combinada da Europa e da Ásia), que existiu entre 1922 e 1991, governado como um estado de um só partido, pelo Partido Comunista, tendo Moscou como sua capital. Uma união de múltiplas Repúblicas Soviéticas subnacionais, seu governo e economia eram muito centralizados. A confusão nessa terminologia, para o público brasileiro, principalmente, vem do fato de que tal estado tem o seu próprio nome, em russo – para a maioria, impossível de ler ou pronunciar –, em inglês – muito difundido -, e em português. Começando pelo nosso próprio idioma, a união das iniciais do nome do estado, já nos fornece uma palavra muito próxima de Rússia (URSS), pelo qual foi muito tempo, e erradamente, conhecida por nós brasileiros ou, mais acertadamente, União Soviética. O mesmo nome, em russo, na ordem em que as palavras são escritas, daria a sigla abreviada CCCP (que aparece nos documentos em russo); em inglês essa mesma sigla é conhecida por USSR. A União Soviética teve suas origens na revolução russa de 1917 que depôs a autocracia imperial. Não confundir esta, com a segunda revolução que lhe seguiu, liderada por Vladimir Lenine, que acabou transformando-se numa guerra civil entre Vermelhos, partidários da revolução e Brancos, contrarrevolucionários, com a vitória dos comunistas e a formação definitiva da União Soviética. Mas isto é assunto de uma outra postagem, já em preparação e, para os nossos objetivos, o exposto já esclarece suficientemente.
A Rússia atual, por outro lado, também conhecida oficialmente por Federação Russa, é um país situado na Eurásia norte, uma república federal semipresidencial, compreendendo 83 súditos federais. Do noroeste ao sudeste, a Rússia faz fronteiras com Noruega, Finlândia, Estônia, Lituânia, Polônia, Belarus, Ucrânia, Georgia, Azerbaijão, Cazaquistão, China, Mongólia e Coreia do Norte, além de possuir fronteiras marítimas com o Japão e os Estados Unidos (pelo estado do Alasca). A Rússia, tal como é hoje, é praticamente um retorno ao passado quando, após a revolução russa, surgiu como República Socialista Federativa Soviética Russa (Rússia Soviética, Federação Russa ou simplesmente Rússia), um estado soberano e a maior, mais populosa e economicamente a mais desenvolvida república da União Soviética, acima descrita. Ela ressurgiu como uma consequência do colapso da União Soviética, em 25 de dezembro de 1991, quando foi rebatizada como Federação Russa, que permanece até hoje. Esse nome e Rússia foram especificados como os nomes oficiais do Estado, em 21 de abril de 1992, na emenda à constituição existente, e mantidos como tal na Constituição Russa de 1993.
Como república autônoma, a Crimeia é uma república parlamentar autônoma dentro da Ucrânia, governada pela constituição da Crimeia de acordo com as leis da Ucrânia. A capital e o assento administrativo do governo da república é a cidade de Simferopol, localizada no centro da península.

HISTÓRIA DA CRIMEIA

HISTÓRIA ANTIGA

Na antiguidade a Crimeia chamava-se Taurica e foi habitada por uma grande variedade de povos. Desde 700 A.C., a península trocou de mãos múltiplas vezes, tendo sido controlada por cimérios, búlgaros, gregos, cíntios, romanos, godos, hunos, kazars, Kievan Rus (antiga federação eslava do leste), gregos bizantinos, venezianos, genoveses, quipchaqs (federação tribal turca), turcos otomanos, tatars, mongóis, russos, alemães e modernos ucranianos. Em tempos mais modernos, a partir de 1783, toda a Crimeia foi anexada ao Império Russo.
Em 1853, conforme artigo já postado em nosso blog, a Guerra da Crimeia foi deflagrada e, sem entrar aqui em maiores detalhes, podemos sumarizar o evento apontando como causa maior o domínio do Mar Negro. A importância estratégica da Crimeia não pode ser negada por ninguém, pois ela é a frente avançada para o Mar Negro, o estreito de Bósforo, o mar de Mármara e o estreito de Dardanelos, todos em territórios turcos e o grande objetivo final, o Mar Mediterrâneo, com sua ligação marítima para toda a Europa, África e a saída para o Atlântico. Sem esquecer a ligação com o Oceano Índico, através do canal de Suez e tudo o que segue.
Situação geopolítica da Crimeia

A CRIMEIA NOS SÉCULOS XX E XXI

Durante a Guerra Civil Russa que seguiu-se ao término do Império Russo czarista, a Crimeia trocou de mãos algumas vezes e foi um baluarte do Exército Branco antibolchevista. Foi na Crimeia que os russos brancos liderados pelo general Wrangel tiveram sua última resistência contra as forças anarquistas de Nestor Makno e o Exército Vermelho, em 1920. Como consequência dessa resistência, cerca de 50.000 prisioneiros de guerra russos brancos foram sumariamente executados, por fuzilamento ou enforcamento, após a derrota do General Wrangel, ao final do mesmo ano, considerado um dos maiores massacres da Guerra Civil Russa.
Em outubro de 1921, foi criada a República Soviética Socialista Autônoma da Crimeia (RSSAC), como parte da Federação Russa, tornando-se então parte da União Soviética (muito conhecida dos ocidentais como “Cortina de Ferro”). A Crimeia experimentou, nesse período, duas extremas crises de alimentos: a Fome de 1921-1922 e o Holodomor de 1932-1933. 
Em maio de 1944 toda a população de tatars da Crimeia foi deportada ao exílio na Ásia Central, por ordem de Stalin como forma de punição coletiva na suposição de que eles teriam colaborado com as forças de ocupação nazista e formado legiões tatar antissoviéticas; estima-se que 46% dos deportados morreram de fome e doenças. Em 26 de junho do mesmo ano, as populações armênia, búlgara e grega foram também deportadas para a Ásia Central. Ao final do verão de 1944 a “purificação étnica” da Crimeia havia sido completada. Em 1967 a Crimeia dos tatars foi reabilitada mas eles foram proibidos de legalmente retornar à sua terra natal até os últimos dias da União Soviética. Em 30 de junho de 1945 a RSSAC foi abolida (ainda sob Stalin) e transformada em Província da Crimeia, pertencente à Federação Russa. Em fevereiro de 1954, o Presidium do Conselho Supremo da União Soviética decretou a transferência da Província da Crimeia, da Russia para a República Socialista Soviética da Ucrânia, como um “gesto simbólico” que marcou o 300º aniversário da Ucrânia como membro do Império Russo, quando o Secretário Geral do Partido Comunista era o ucraniano Nikita Khrushchev. Atendendo a um referendo de 20 de janeiro de 1991, a Província da Crimeia foi elevada à categoria de República Socialista Soviética Autônoma (RSSA) em fevereiro de 1991, pelo Conselho Supremo da Ucrânia.
Com o colapso da União Soviética, a Crimeia tornou-se parte da recém independente Ucrânia, criando tensões entre esta e a Rússia. Com a frota do Mar Morto estacionada na Península, surgiam ocasionais preocupações de escaramuças armadas. Os tatars da Crimeia começaram a retornar de seu exílio e se restabelecer na Crimeia.
Em fevereiro de 1992 o Parlamento da Crimeia renomeou o seu status, de RSSA, para República da Crimeia, proclamando-se autogovernada em 5 de maio de 1992, a ser aprovado por referendo que aconteceria em 2 de agosto do mesmo ano, passando no mesmo dia a primeira constituição da Crimeia. Em 6 de maio de 1992 o mesmo Parlamento inseriu uma nova sentença à constituição, declarando que a Crimeia era parte da Ucrânia. Em 19 de maio, a Crimeia concordou em permanecer como parte da Ucrânia, mas comunistas da Crimeia forçaram o governo ucraniano a expandir o já extenso estado autônomo da Crimeia. No mesmo período, os presidentes Boris Yeltsin, da Rússia, e Leonid Kravchuk, da Ucrânia, concordaram em dividir a então Frota Soviética do Mar Negro entre a Rússia e a recém formada Marinha ucraniana.
Em outubro de 1993, o Parlamento da Crimeia estabeleceu o posto de Presidente da Crimeia e concordou com uma cota de representantes dos tatars da Crimeia no Conselho dos 14. Mas a desordem política prosseguiu. Emendas à constituição acalmaram o conflito, mas em março de 1995 o Parlamento da Ucrânia interveio, fragmentando a Constituição da Crimeia e removendo seu presidente, Yury Meshkov, com seu gabinete, por suas ações contra o Estado, promovendo a integração com a Rússia. Após uma constituição provisória, a atual foi colocada em efeito, com a alteração do nome do território para República Autônoma da Crimeia.
Como consequência do Tratado de Amizade, Cooperação e Parceria, de maio de 1997, e a divisão da frota do Mar Negro, as tensões internacionais se acalmaram lentamente. Contudo, em setembro de 2006, protestos anti-NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) irromperam na península. Em setembro de 2008 o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Volodymyr Ohryzko, acusou a Rússia de distribuir passaportes russos à população da Crimeia e descreveu o problema como real, dada a declarada política russa de intervenção militar no estrangeiro para proteção de cidadãos russos.
Em 24 de agosto de 2009, demonstrações antiucranianas surgiram na Crimeia por residentes russos. Sergei Tsekov (do bloco russo e então deputado orador do parlamento da Crimeia) disse esperar que a Rússia desse à Crimeia o mesmo tratamento de apoio concedido à Ossetia do Sul (em conflito com a Georgia em 2008) e Abkhazia (em conflito com a Georgia em 1992). O caos instalou-se no parlamento ucraniano durante um debate sobre a extensão da saída numa base naval russa em 27 de abril de 2010, após o parlamento ter ratificado o tratado sobre a extensão da saída da Rússia de ancoradouros navais e instalações de praia no porto de Sebastopol e outras localidades da Crimeia até 2042 com renovações opcionais de 5 anos. O tratado foi ratificado pelo parlamento ucraniano e pela Duma do Estado Russo (que substituiu o Conselho Supremo Russo após a crise constitucional russa de 1993).

A CRISE DE 2014 NA CRIMEIA E A INTERVENÇÃO MILITAR RUSSA

Daqui para a frente, são fatos atuais conhecidos da maioria bem informada. Por isso, apenas faremos uma juntada resumida dos acontecimentos, para completar a narrativa que nos propusemos fazer sobre a história da Crimeia.
A revolução ucraniana de 2014 começou com uma agitação civil em Kiev, Ucrânia, como parte do protesto em andamento pela integração à União Europeia, contra o governo. Esse movimento iniciou em 21 de novembro de 2013 e teve um período de relativa calma nas demonstrações antigovernamentais que terminou em 18 de fevereiro de 2014 quando manifestantes e a polícia finalmente se defrontaram. O conflito cresceu rapidamente, causando a morte de 82 pessoas nos poucos dias seguintes, incluindo 13 policiais, e mais de 1.100 feridos.
Em 22 de fevereiro, após a confirmação do controle de Kiev por parte dos manifestantes e a fuga do presidente Yanukovych para o leste da Ucrânia, o parlamento ucraniano ratificou o seu “impeachment”, nomeando seu porta-voz, Oleksandr Turchynov, como presidente interino, em 23 de fevereiro. Em 24 de fevereiro o novo governo emitiu uma ordem de prisão para Yanukovych que fugira para a Rússia e era procurado na Ucrânia pela morte dos manifestantes. Na Crimeia, durante os dias que se seguiram, políticos nacionalistas russos e ativistas organizaram manifestações que convocavam a Rússia a defender a Crimeia do resto da Ucrânia.
Em 26 de fevereiro de 2014, milhares de protestantes pró-Rússia e pró-Ucrânia chocaram-se em frente ao parlamento, em Simferopol, sob o pretexto maior da abolição, em 23 de fevereiro recém passado, da “lei das linguagens das minorias”(1) , incluindo a russa. Tal decisão, que faria com que a Ucrânia tivesse apenas um idioma oficial, ainda não fora confirmada pelo presidente provisório da Ucrânia.
Em 28 de fevereiro de 2014, forças terrestres russas ocuparam aeroportos e outros pontos estratégicos da Crimeia, fato que o Governo Provisório da Ucrânia descreveu como invasão e ocupação da Crimeia por forças russas. Contudo, as tropas russas achavam-se estacionadas na Crimeia por mais de uma década, por um acordo com a Ucrânia, embora o número das forças presentes constituísse uma violação dos acordos do tratado Ucraniano-Russo. Homens armados - militantes armados ou forças especiais da Rússia – ocuparam o parlamento da Crimeia onde, sob guarda armada e com as portas trancadas, membros do parlamento aparentemente elegeram Sergey Aksyonov como novo Primeiro Ministro da Crimeia. O novo Primeiro Ministro declarou que só ele mantinha o controle das forças de segurança da Crimeia e que havia apelado à Rússia “para assistência na garantia da paz e calma” na península. O governo central ucraniano não reconhece a administração Aksyonov, considerando-a ilegal. O presidente ucraniano expulso, Viktor Yanukovych enviou carta a Putin pedindo uso da força militar na Ucrânia para restaurar a força e a ordem. O ministro russo das relações exteriores declarou que “o movimento de veículos blindados da frota do Mar Negro na Crimeia (...) acontece em total harmonia com os acordos básicos Russo-Ucranianos na frota do Mar Negro”.
Em 1º de março o parlamento russo concedeu ao Presidente Putin autoridade para uso de força militar na Ucrânia. Tal movimento foi condenado por várias nações ocidentais alinhadas com o ocidente. No mesmo dia o presidente em exercício da Ucrânia, Oleksndr Turchynov, censurou publicamente a indicação do Primeiro Ministro de Crimeia como inconstitucional, embora a Rússia tenha o controle de fato do território.
Em 3 de março foi relatado que o comandante russo da frota do Mar Negro deu à Ucrânia um prazo final - madrugada do dia 4 de março – para entrega do controle da Crimeia ou enfrentar um assalto das tropas russas que ocupam a área; contudo, agências de notícias indicaram um porta-voz da frota que negou que um ultimato tivesse sido emitido; nada aconteceu no prazo final.
Em 4 de março, várias bases e navios da marinha ucraniana na Crimeia relataram intimidação por forças russas, embora sem violência. Em uma manifestação, soldados ucranianos na base aérea de Belbek marcharam sem armas de suas barracas para as linhas russas, onde foram parados por sentinelas que deram tiros de advertência e os cercaram, todo o episódio registrado por jornalistas. Navios de guerra ucranianos também foram efetivamente bloqueados no seu porto de Sebastopol.
Em 6 de março, membros do Parlamento da Crimeia solicitaram ao governo russo a anexação do seu território à Federação Russa, através de um referendo popular a ser realizado em 16 de março. O governo central ucraniano, União Europeia e Estados Unidos contestam a legitimidade da solicitação e do referendo. O artigo 73 da Constituição da Ucrânia estabelece: “Alterações relativas ao território da Ucrânia serão resolvidas exclusivamente através de Referendo de todos os ucranianos”. Monitores internacionais chegaram na Ucrânia para avaliar a situação na Crimeia, mas foram impedidos por militantes armados na fronteira da Crimeia. Forças russas despacharam o cruzador Ochakov para Novoozerne, municipalidade de Yevpatoria, na costa noroeste da Crimeia, bloquear os navios da armada ucraniana no seu porto de Donuzlav Lake, locais que pertencem tanto à Ucrânia quanto à Crimeia.
Em 7 de março as forças russas despacharam um segundo navio para garantir o bloqueio do porto de Donuzlav Lake. No mesmo dia, o parlamento da Crimeia liberou as questões da cédula para o referendo de março, com as seguintes questões:

1) “Você apoia a junção da Crimeia com a Rússia como súdito da Federação Russa?”
2) “Você apoia a restauração da Constituição de 1992 da República da Crimeia e o status da Crimeia como parte da Ucrânia?”

Somente as cédulas com exatamente uma resposta positiva serão consideradas válidas. Na cédula não foi considerada a opção de manutenção do “status quo”, bem diferente da opção 2, visto que a atual constituição da Crimeia vigora desde 1999 e o artigo 135 da constituição ucraniana determina que a constituição da Crimeia deve ser aprovado pelo parlamento ucraniano.
Em 18 de março, tendo em vista o resultado proclamado do referendo de 16 de março, o Kremlin reivindicou a posse da Crimeia como parte da Federação Russa. O governo da Ucrânia, a União Europeia e os Estados Unidos não concordam com a declaração do Kremlin. Nessa mesma data, militantes armados da Crimeia renderam uma guarnição da marinha ucraniana, estacionada no porto de Sebastopol, sem resistência de qualquer forma, embora um soldado ucraniano tenha sido morto no conflito.
Pode-se notar facilmente, o evento promete desdobramentos com consequências imprevisíveis. Sanções econômicas impostas pela União Europeia e Estados Unidos, contra a Rússia, já estão em prática. O presidente Putin, da Rússia, por outro lado, não dá demonstrações de estar sendo intimidado por tais providências e toma medidas cada vez mais fortes em direção à anexação da Crimeia pela Rússia. A ONU se movimenta para tentar a solução diplomática do impasse; entretanto, a única organização internacional com poder de força é o Conselho de Segurança da ONU, do qual a Rússia é membro permanente, com poder de veto à qualquer medida proposta.

A nós, como expectadores, resta torcer para que ainda tenha sobrado um pouco de juízo, responsabilidade e boa vontade nas cabeças dos principais líderes mundiais envolvidos e seus conselheiros, embora o passado tenha deixado, neste aspecto, muito a desejar.

(1) A legislação sobre os idiomas, na Ucrânia, é baseada em sua constituição, obrigações internacionais e na lei de 2012 “Sobre os Princípios da Política do Estado na Língua”. Essa lei tinha como objetivo dar à língua da minoria russa ou qualquer outra minoria, o status de uma “língua regional”, aprovando seu uso em cortes, escolas e outras instituições governamentais em território da Ucrânia, onde a percentagem de representantes das minorias nacionais excedesse 10% da população total de um distrito administrativo definido. Na prática, tratava-se principalmente das regiões sul e leste do país, com predominância de pessoas falando russo.