Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sábado, 4 de junho de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 4)

A REVOLUÇÃO ALEMÃ DE 1918

Rosa Luxemburgo a socialista judia
polonesa naturalizada alemã.
Por volta de 1900 a socialdemocracia alemã era considerada líder do movimento internacional dos trabalhadores. Nos congressos europeus da Segunda Internacional Socialista, o SPD sempre aprovava as resoluções, que previam uma ação conjunta dos socialistas em casos de declarações de guerras. Mesmo durante a crise de julho que se seguiu ao assassinato em Sarajevo, ele organizou - como também outros partidos socialistas na Europa - grandes manifestações antiguerra. Rosa Luxemburgo, porta-voz da esquerda do partido, conclamou, em nome de todo o SPD, a rejeição à guerra e à obediência. Por isso, o governo imperial planejou a prisão dos líderes do partido imediatamente após o início das hostilidades. Friedrich Ebert, um dos dois líderes do partido desde 1913, viajou, juntamente com Otto Braun, para Zurique, a fim de manter os fundos do partido a salvo do alcance do Estado.
Mas quando no dia primeiro de agosto de 1914, ocorreu a declaração de guerra alemã contra a Rússia czarista, a maioria dos jornais favoráveis ao SPD foi contagiada pelo entusiasmo geral pela guerra, por um lado, e porque o seu inimigo prioritário era a Rússia Imperial. Suas reportagens foram severamente criticadas pela liderança do partido, mas os editores acreditavam, nos primeiros dias de agosto, estar seguindo a linha política do presidente do SPD, August Bebel, falecido em 1913. Ele havia dito ao Reichstag em 1904 que o SPD tomaria parte na defesa armada da Alemanha no caso de uma guerra de agressão estrangeira. Em 1907 confirmou, na convenção Essen, que ele mesmo "carregaria a arma em suas costas" caso a guerra fosse contra a Rússia czarista, o "inimigo de toda a cultura e todos os oprimidos".
Tendo em vista a disposição da população, que acreditava em um ataque pelas potências da Entente, muitos deputados do SPD temiam se afastar de seus eleitores devido a seu pacifismo coerente. Além disso, havia a ameaça de uma proibição dos partidos, planejada pelo chanceler do Reich Theobald von Bethmann Hollweg em caso de uma guerra. Por outro lado, o chanceler tirou proveito do posicionamento anticzarista do SPD para obter o seu consentimento para a guerra.
Karl Liebknecht, camarada revolucionário
assassinado com Rosa Luxemburgo.
A liderança do partido e o grupo parlamentar estavam divididos em seu posicionamento quanto à guerra. Com Friedrich Ebert, noventa e seis representantes responderam afirmativamente à exigência dos créditos de guerra pelo governo imperial; catorze parlamentares, liderados pelo segundo presidente Hugo Haase, se manifestaram contra, mas votaram a favor da disciplina partidária. Assim, todo o grupo parlamentar do SPD aprovou no dia 4 de agosto os créditos de guerra. Dois dias antes, os Sindicatos Livres já tinham decidido uma abdicação do direito de greve e dos salários para o tempo da guerra. Com a decisão do sindicato e do partido, tornou-se possível a mobilização total do exército alemão. Mesmo Karl Liebknecht, que mais tarde tornou-se um símbolo do pacifismo, curvou-se, inicialmente, às decisões do partido. No entanto, alguns dias mais tarde, ele juntou-se ao Grupo Internacional, fundado por Rosa Luxemburgo em 5 de agosto de 1914, que posicionou-se contrariamente à guerra anteriormente defendida pelo SPD. Tal grupo deu origem à “Liga Espartaquista”, fundada no dia 1 de janeiro de 1916.
Quanto mais tempo a guerra durava e quanto mais sacrifícios exigia, menor era o número de membros do SPD dispostos a manter a "trégua" de 1914; principalmente por que, a partir de 1916, o imperador e o governo do Reich não mais decidiam as diretivas da política alemã, agora dominada pelo alto comando de guerra sob os generais Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, que governavam como ditadores militares.
Depois da eclosão da Revolução Russa, em fevereiro de 1917, ocorreram na Alemanha as primeiras greves organizadas. Em março e abril de 1917 participaram cerca 300.000 trabalhadores da indústria de armamento. O imperador Wilhelm II tentou acalmar os participantes da greve com sua mensagem de Páscoa do dia sete de abril, prometendo eleições gerais e igualitárias também para a Prússia, onde ainda vigorava o sufrágio de três classes.
Depois da expulsão dos opositores do SPD à guerra, revisionistas como Eduard Bernstein e centristas como Karl Kautsky, juntamente com os espartaquistas, reagiram ao descontentamento entre os trabalhadores. Em uma conferência entre seis e oito de abril de 1917 fundaram, na cidade de Gotha, o “Partido Independente Social-Democrático da Alemanha” (USPD) com Hugo Haase, que exigia o término imediato da guerra e a democratização da Alemanha, mas não possuía um programa sócio-político unificado. A Liga Espartaquista, que até então recusava uma divisão do partido, formou a ala esquerda da USPD. E, para bem identificar a separação, o SPD passou a denominar-se, a partir daí até 1919, como “Partido Majoritário Social Democrata da Alemanha” (MSPD).
Manifestação de revolucionários em Berlim, 09/11/1918
A Revolução Alemã de 1918-1919 foi uma série de eventos que ocorreram naqueles anos e que marcou o final da Primeira Guerra Mundial. Tal Revolução culminou com a derrubada do Kaiser, a abolição da monarquia no Reich Germânica e o estabelecimento de uma república democrática parlamentarista. Liderada por Rosa Luxemburgo, a Liga Espartaquista, teve importante papel na revolução, apesar de o evento não se resumir à sua atuação. À semelhança da Comunista Russa, a Revolução Alemã aproveitou a aguda crise econômica causada pela Primeira Guerra Mundial e a derrota do Império Germânico no conflito. Com a Revolução, os comunistas conseguiram controlar a região da Baviera, no sul da Alemanha, onde fundaram uma República Socialista e tentaram expandir o movimento. Assim como na Rússia, aboliram a propriedade privada dos latifúndios e das fábricas na República Socialista da Baviera. No entanto, este foi um governo revolucionário de vida efêmera que acabou sendo sufocado pelo governo socialdemocrata, através do grupo paramilitar Freikorps, que retomou o controle, suprimindo a extrema esquerda, liderada pela Liga Espartaquista. A revolução foi formalmente encerrada no dia 11 de agosto de 1919 com a aprovação da nova “Constituição de Weimar”, com as funções do Kaiser sendo transmitidas ao Reichspräsident (Presidente do Império, em tradução literal) da “República de Weimar” que teve, ao todo, três monarcas.
Com a abdicação e fuga de Wilhelm II como Imperador do Império Germânico e Rei da Prússia, ao fim da Segunda Grande Guerra, a Prússia foi proclamada “Estado Livre”, ou seja, uma República (Freistaat, em alemão) dentro da nova República de Weimar e, em 1920, recebeu uma constituição democrática.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Quase todas as perdas territoriais do Império Germânico, para outros estados, durante a Primeira Grande Guerra e especificadas no Tratado de Versalhes, pertenciam anteriormente ao território da Prússia e, com isso, a Prússia Oriental tornou-se um exclave (território externo ao território nacional), apenas acessível por barco ou por uma estrada de ferro através do “corredor polonês”.
O governo alemão considerou, inicialmente, quebrar a Prússia em estados menores, mas o sentimento tradicionalista prevaleceu e a Prússia se tornou, de longe, o maior estado da República de Weimar, compreendendo 60% do seu território. De 1919 a 1932, a Prússia foi governada por uma coalizão dos partidos socialdemocrata, Centro Católico e democrata alemão. De 1921 a 1925, os governos de coalizão incluíram o Partido Popular Alemão. Ao contrário de outros estados do Reich Alemão[1], a regra da maioria dos partidos democráticos na Prússia nunca foi posta em perigo. No entanto, na Prússia Oriental e algumas áreas industriais, o Partido Nazista de Adolf Hitler ganhou mais e mais influência e apoio popular, especialmente a partir das classes mais baixas e médias, em 1930. Com exceção da região católica da Alta Silésia, o Partido Nazista, em 1932, tornou-se o maior partido na maior parte do Estado Livre da Prússia. No entanto, os partidos democráticos em coalizão permaneceram a maioria, enquanto os comunistas e os nazistas estavam na oposição. 
Chanceler Franz von Papen, em 1936
Em contraste com seu autoritarismo do pré-guerra, a Prússia era um pilar da democracia na República de Weimar. Tal sistema, entretanto, foi destruído pelo "golpe prussiano" do chanceler do Reich, Franz von Papen. Neste golpe de Estado, o governo do Reich depôs o governo da Prússia em 20 de julho de 1932, sob o pretexto de que este último havia perdido o controle da ordem pública na Prússia, forjando provas de que os socialdemocratas e os comunistas planejavam um golpe em conjunto. Papen nomeou a si mesmo comissário do Reich para a Prússia e assumiu o controle do governo facilitando, apenas meio ano depois, a tomada do poder, de forma decisiva, por Hitler, no Império Germânico, já que ele tinha todo o aparato do governo prussiano, incluindo a polícia, à sua disposição.
A Prússia foi efetivamente abolida em 1932 e o Estado que a assimilou, a República de Weimar, perdeu quase toda a importância jurídica e política que a Prússia havia conquistado. Posteriormente, as velhas elites prussianas acabaram por desempenhar um papel passivo com a criação da Alemanha nazista.
Adolf HItler, 1938, que suicidou-se em
1945 para escapar dos crimes cometidos
Após a nomeação de Adolf Hitler como o novo chanceler do Império Germânico pelo Presidente Paul Von Hindenburg, em 1933, os nazistas usaram a ausência de Franz von Papen como a oportunidade para nomear o comissário federal e Hermann Göring para o Ministério Prussiano do Interior. A eleição do Reichstag de 5 de março de 1933 reforçou a posição do Partido Nazista[2], apesar de não alcançar uma maioria absoluta.
Em uma reunião cheia de propaganda entre Hitler e o Partido Nazista, o "casamento da velha Prússia com os jovens alemães" foi celebrado, para conquistar os monárquicos, conservadores prussianos e nacionalistas e induzi-los a votar a favor da Lei de Concessão de 1933[3]. Com isso, Hitler rapidamente estabeleceu o regime totalitário conhecido como o Terceiro Reich.
No Estado centralizado criado pelos nazistas pela "Lei sobre a Reconstrução do Reich" (30 de janeiro de 1934) e a "Lei de Governadores do Reich" (30 de janeiro de 1935) os estados foram dissolvidos de fato, se não de direito. Os governos estaduais e federais passaram a ser controlados pelos governadores para o Reich, nomeados pelo chanceler. Paralelamente a isso, a organização do partido nos distritos ganhou cada vez mais importância, com um oficial no comando, também nomeado pelo chanceler, ao mesmo tempo chefe do Partido Nazista.
Na Prússia, esta política centralista foi ainda mais longe. Desde 1934 quase todos os ministérios foram fundidos e apenas alguns departamentos foram capazes de manter a sua independência. Hitler tornou-se, formalmente, o governador da Prússia, coadjuvado por Hermann Göring, primeiro-ministro da Prússia. Conforme previsto na "Grande Lei de Hamburgo", algumas trocas de territórios ocorreram. A Prússia foi estendida em 1º de abril de 1937, por exemplo, pela incorporação da Cidade Livre e Hanseática de Lübeck.
Oficialmente, o início da Segunda Guerra Mundial é tido como 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha e Rússia, com a subsequente declaração de guerra da Grã-Bretanha e França contra a Alemanha dois dias após. Também não existe concordância quanto à data exata do final da Segunda Guerra Mundial. O seu final é geralmente aceito como o dia do armistício, 14 de agosto de 1945, ao invés do dia da rendição formal do Japão em 2 de setembro de 1945. Novamente, tendo em vista os objetivos desta nossa postagem, não trataremos da Segunda Grande Guerra, como um assunto em si, mas apenas como mais um fator importante na formação do estado da Alemanha.
Inicialmente cabe dizer que, evidentemente, as terras prussianas transferidas para a Polônia pelo Tratado de Versalhes, foram reanexadas durante a Segunda Guerra Mundial, quando Terceiro Reich levava vantagem no conflito. À mesma época, em 1940, a Prússia foi legalmente abolida pelo Terceiro Reich.
Na Conferência de Potsdam[4], ocorrida entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, após a rendição incondicional do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial, em 8 de maio de 1945, os Aliados dividiram a “Zona de Ocupação Alemã” em quatro zonas de ocupação militar: a França no sudoeste, a Grã-Bretanha no noroeste, os Estados Unidos no sul e a União Soviética no leste, surgindo os dois grandes blocos, o Oriental, sob ocupação dos soviéticos e o Ocidental, sob administração dos Aliados. A Alemanha não voltou a recuperar sua independência senão em 1949.
De acordo com a “Aliança de Época de Guerra” e a “Divisão Zonal da Alemanha”, os soviéticos ocupariam a área definida pela Zona Soviética final aprovada por Potsdam, de acordo com todo o território germânico no ano de 1937, a leste da Linha Oder-Neisse. Da mesma forma, o derrotado Terceiro Reich deveria ser tratado como a área dentro de suas fronteiras em 31 de dezembro de 1937, significando que todo a expansão nazista de 1938 a 1945 (período da Segunda Guerra Mundial) fosse declarada inválida. Tal expansão incluiria a Cidade-Estado de Danzig, administrada pela Liga das Nações, Áustria, o território ocupado da Czechoslovakia, Alsácia-Lorena, Luxemburgo, Prússia Oriental, o norte da Eslovênia e outros territórios menores. As províncias germânicas a leste da linha do Oder – Neisse que estavam formalmente dentro dos limites territoriais do Terceiro Reich em 1937, (Prússia Oriental, Leste da Pomerânia e Silésia) foram removidas pelo Acordo de Potsdam. Essas áreas, com exceção do Norte da Prússia Oriental (que foi administrativamente entregue à União Soviética), foram requisitadas pelos poloneses como “Territórios Recuperados” e assim colocados sob a administração da Polônia, aguardando um tratado de paz definitivo, que apenas foi formalizado em 1990, 45 anos mais tarde, com a queda da União Soviética.
A parte norte da Prússia Oriental foi colocada sob administração soviética pelo Acordo de Potsdam que sancionou definições administrativas de vários territórios da Alemanha Oriental à Polônia e União Soviética alterando as fronteiras do que tinha sido a Alemanha antes da guerra, para o oeste. 
Perdas sofridas pela Alemanha com a Segunda Grande Guerra
Com essas divisões, a Prússia Ocidental e a Prússia Oriental ficaram divididas pela Polônia e a União Soviética. O velho Distrito de Rosenberg tornou-se então parte do Distrito de Itawa da Polônia. Todas as cidades, daí para a frente, tiveram sua nomenclatura alterada para nomes poloneses. A Prússia Oriental perdeu toda a sua população alemã depois de 1945, quando a Polônia e a União Soviética anexaram seu território. Desde então, a área está dividida entre o norte polonês (a maioria da Varmia-Masuria), o território externo russo de Kaliningrado e o sudoeste da Lituânia (na região da Klaipeda).
O pretendido corpo governamental da Alemanha foi chamado “Conselho de Controle Aliado”. Os comandantes em chefe exerceram suprema autoridade em suas respectivas zonas e atuaram em concerto nas questões que afetavam o país como um todo. Berlim, que se situava no setor soviético (oriental), foi também dividido em quatro setores, com os setores ocidentais constituindo, posteriormente, Berlim Ocidental e o setor soviético tornando-se Berlim Oriental, capital da Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha).
Como parte de seus objetivos de guerra, os aliados ocidentais procuraram a extinção da Prússia, com Stalin inicialmente favorável à manutenção daquele nome. Finalmente, a Lei nº 46 de 25 de fevereiro de 1947, do Conselho de Controle Aliado, um grupo formado após a Segunda Guerra Mundial para resolver questões relacionadas à Alemanha, proclamou, formalmente, a dissolução do Estado da Prússia.


[1] O Reich (literalmente Reino), foi sempre o nome dado ao território ou governo do estado germânico, como o Sacro Império Romano Germânico ou Primeiro Reich, de 962 a 1806; o Império Germânico ou Segundo Reich, de 1871 a 1919; a República de Weimar, de 1919 a 1933; ou o Terceiro Reich, de 1933 a 1945.
[2] O Partido Nacionalista Socialista Germânico dos Trabalhadores (PNSGT), comumente referido como Partido Nazista, foi um partido político do Império ativo entre 1920 e 1945, que teve como predecessor o Partido Germânico dos Trabalhadores, que existiu entre 1919 e 1920. O partido emergiu do grupo paramilitar Freikorps, que lutou contra os levantes comunistas do após Primeira Guerra Mundial no Império. O partido foi criado como forma de afastar os trabalhadores do comunismo e atraí-los para o nacionalismo popular. Inicialmente, a estratégia política nazista focou na oposição aos grandes negócios, à burguesia e à retórica capitalista, embora tais aspectos fossem posteriormente camuflados para ganhar o apoio das entidades industriais e, na década de 1930, passou a focar nos temas antissemita e antimarxista.
[3] A Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933 (ou Lei Habilitante) foi aprovada pelo Reichstag e assinada pelo Presidente Paul von Hindenburg em 23 de março de 1933, como o maior passo para conceder ao chanceler Adolf Hitler, legalmente, plenos poderes, estabelecendo assim a sua ditadura. A Lei foi aprovada graças aos votos decisivos do Partido do Centro Católico. O Partido Nazi e o Partido Popular Nacional Alemão (coligado aos nazistas) formavam 52% do Reichstag, mas tal percentagem não era suficiente para aprovar a Lei Habilitante, que só poderia ser aprovada por 67% do Reichstag. Hitler negociou com o Partido do Centro Católico (Zentrum), para que seus membros votassem em favor da Lei. O Zentrum e a Igreja Católica (que chefiava o Zentrum) concordaram, desde que governo alemão assinasse uma Concordata (tratado internacional celebrado entre a Santa Sé e um Estado, usualmente com a finalidade de assegurar direitos dos Católicos ou da Igreja Católica naquele Estado ou vincular o Papado ao Estado governado pelo soberano) com o Papa.
[4] A Conferência de Potsdam teve lugar no Castelo de Cecilienhof, lar do Príncipe herdeiro Wilhelm Hohenzzolern, em Potsdam, Brandenburg, Alemanha ocupada, e é algumas vezes referida como Conferência de Berlim dos Três Chefes de Estado da URSS (União Soviética), USA (Estados Unidos) e UK (Reino Unido), respectivamente representados pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Joseph Stalin, Presidente Harry S. Truman e Primeiro Ministro Winston Churchill (mais tarde substituído por Clement Attlee). Stalin, Truman e Churchill reuniram-se para decidir a administração da Alemanha Nazista, que se rendera incondicionalmente nove semanas antes. Os objetivos da Conferência incluíram o estabelecimento da ordem pós-guerra, questões do tratado de paz e a avaliação dos efeitos da guerra.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 3)

O IMPÉRIO GERMÂNICO


Wilhelm II,
Imperador Germânico
Neste período, a Prússia era tão grande e tão dominante no novo Império Germânico, que os Junkers[1] e outras elites prussianas eram cada vez mais identificadas como alemães e cada vez menos como prussianos. Wilhelm II, o último da dinastia Hohenzollern, tornou-se imperador da Alemanha (Kaiser) em 1888 e governou até a derrota da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Após a derrota nessa Guerra, a Alemanha foi obrigada a entregar o Corredor Danzig à Polônia e Danzig tornou-se mais uma vez uma cidade livre, fazendo com que a província da Prússia Oriental fosse separada do resto da Alemanha. O Império Germânico foi dissolvido em 1918, durante a Revolução Alemã de 1918-1919, que marcou o fim da Primeira Guerra Mundial.
O Império Alemão recém-fundado era uma monarquia constitucional. Para a composição do Reichstag (Parlamento) foi instituído o sufrágio geral, igual e secreto dos homens, mas a influência do Reichstag sobre a política imperial era limitada. Leis propostas através do Reichstag só podiam entrar em vigor com a aprovação do Conselho Federal e do Imperador; eles podiam dissolver o parlamento a qualquer momento e organizar novas eleições. O único poder importante do Reichstag era a aprovação do orçamento do Estado. Quanto ao maior item, o orçamento militar, o Reichstag era autorizado a votar somente de forma generalizada e por um período total de sete anos (Septennat). O governo imperial obedecia ao Imperador, não ao Reichstag.
Prédio do Parlamento do Império Alemão, Berlim, 1894
A partir de 1871, os socialdemocratas também foram representados no Reichstag e seus partidos se uniram posteriormente ao SPD[2]. Era o único partido político no Império alemão que se declarava a favor de uma forma republicana de governo. Por causa disso, até renunciar ao cargo em 1890, Otto von Bismarck, a partir de 1878, mandou persegui-lo com base em leis antissocialistas. No entanto, os socialdemocratas aumentaram sua percentagem de votos em quase todas as eleições. Após a eleição geral de 1912, com 110 deputados e 28 por cento dos votos os socialdemocratas representaram o maior partido.
Nos 43 anos do Império até a Primeira Guerra Mundial, o SPD não só cresceu, mas também mudou seu caráter. Na discussão do Revisionismo de 1898, os revisionistas queriam excluir o objetivo revolucionário do programa do partido. Ao invés disso, lutaram por reformas sociais com base na ordem econômica existente. A maioria da base marxista do partido foi contra o revisionismo e se impôs novamente. Mas a retórica ainda revolucionária escondia somente com dificuldade o fato de que SPD havia se tornado praticamente reformista desde a abolição das leis antissocialistas em 1890. Os socialdemocratas, que foram consideradas "inimigos do Reich" e "apátridas" por muito tempo, se viam como patriotas alemães. No início da Primeira Guerra Mundial, tornou-se óbvio que o SPD era parte integral do Império, embora na oposição.
As duas décadas que se seguiram à Unificação Alemã viram o plantio e o auge do primeiro conflito mundial pelo sistema político prussiano-alemão.
A constituição do Império Germânico foi uma versão levemente modificada da constituição da Confederação da Alemanha do Norte. Oficialmente, o Império Alemão era um estado federal. Na prática, a relação do Reino da Prússia com o resto do império foi sempre um pouco confusa. O reino de Hohenzollern incluía três quintos do território alemão e dois terços da sua população. O Exército Imperial Alemão foi, na prática, um exército prussiano ampliado, embora os outros reinos (Baviera, Saxônia e Württemberg) tivessem mantido seus próprios exércitos.
A coroa imperial era um cargo hereditário da Casa de Hohenzollern, a casa real da Prússia. O primeiro-ministro da Prússia, com exceção de dois períodos curtos (janeiro a novembro de 1873 e 1892-1894), também foi chanceler imperial. Mas o próprio império não tinha o direito de cobrar impostos diretamente de seus súditos; os únicos rendimentos totalmente sob o controle federal foram os direitos aduaneiros, impostos especiais de consumo comuns, e as receitas de prestação de serviços postais e telegráficos. Embora todos os homens acima de 25 anos de idade pudessem votar nas eleições imperiais, a Prússia manteve o seu sistema de votação restritivo de três classes. Isso exigia, de forma eficaz, que o rei/imperador e o primeiro-ministro/chanceler procurassem maiorias das legislaturas eleitas por duas populações diferentes. Tanto no Reino quanto no Império, os círculos eleitorais originais nunca foram redesenhados para refletir as mudanças na população, o que fez com que as zonas rurais foram grosseiramente sobre representadas na virada do século XX.
Como resultado, o Reino da Prússia e o Império Alemão formavam um estranho paradoxo. Bismarck sabia que seu novo Reich Alemão (Império Alemão) agora era um colosso fora de qualquer proporção com relação ao resto do continente. Com isso em mente, ele declarou a Alemanha uma potência satisfeita, usando seus talentos para preservar a paz, por exemplo, no Congresso de Berlim[3].
Friedrich III, segundo imperador do Império
Germânico, por 99 dias.
Como primeiro imperador do Império Alemão, Wilhelm I foi sucedido por seu filho Friedrich III, que exerceu o cargo por apenas noventa e nove dias, em 1888, após a morte de seu pai, morrendo de câncer da laringe. Friedrich III casou-se com a Princesa Victoria, filha mais velha da Rainha Victoria, do Reino Unido. A ideologia liberal do casal conduziu-os a buscar uma maior representação dos Comuns no governo. A despeito de sua experiência familiar militar conservadora, ele havia desenvolvido tendências liberais como resultado de seus laços com a Grã-Bretanha e seus estudos na Universidade de Bonn. Enquanto ainda Príncipe, opôs-se ao Chanceler Bismarck, especialmente com relação às suas ideias de unir os estados germânicos pela força e muito fez para ofuscar a Chancelaria. Liberais do Império Germânico e Inglês esperavam que, como Imperador ele fosse liberalizar o seu Império. Infelizmente pouco pode fazer por tal, pois já sofria de câncer de laringe quando morreu em 15 de junho de 1888, com 56 anos de idade.
Em 1888, aos 29 anos, Wilhelm tornou-se o Imperador Wilhelm II, após uma juventude difícil e conflitos com sua mãe britânica Vitória, Princesa Real. Ele acabou demonstrando ser homem de pouca experiência e visão estreita e reacionária; de julgamento pobre e mau humor frequente, alienou antigos amigos e aliados. Foi o imperador da Primeira Grande Guerra e por ela foi deposto e obrigado a fugir em exílio para a Holanda.
Embora, em sua juventude, ele tivesse sido grande admirador de Bismarck, a característica impaciência de Wilhelm II logo o fez entrar em choque com o “Chanceler de Ferro”, figura dominante na fundação do seu Império. Ao contrário do seu antecedente, Wilhelm II pretendia uma expansão rápida e vigorosa para assegurar o seu “lugar ao Sol”, em oposição à cuidadosa política externa de Bismarck; além disso, o jovem Imperador veio também para reinar além de governar, diferentemente do seu avô que muito delegava a Bismarck. Assim, conflitos desde o início logo envenenaram o relacionamento entre os dois e o rompimento final iniciou logo após a tentativa de Bismarck de implementar uma lei antissocialista de longo alcance, no início da década de 1890. À medida que as discussões prosseguiam, Wilhelm tornava-se mais interessado nos problemas sociais, especialmente na greve dos mineiros de 1889, interrompendo Bismarck frequentemente, para que todos soubessem onde ele se situava na política social. Bismarck discordava francamente de sua política e com o tempo, sentindo-se pressionado por Wilhelm e solapado por seus ambiciosos conselheiros, recusou-se a assinar uma proclamação relativa à segurança de trabalhadores, junto com Wilhelm, como previa a Constituição. O rompimento final veio quando Bismarck teve que buscar nova maioria no Parlamento devido ao fiasco do projeto antissocialista. Os poderes remanescentes no Parlamento eram o Partido Católico do Centro e o Partido Conservador. Bismarck quis formar um novo bloco com o Partido do Centro e convidou o seu líder no Parlamento, Ludwig Windthorst, para discutir uma coalizão, o que provocou a explosão de Wilhelm. Pela primeira vez forçado a uma situação da qual ele não poderia tirar vantagem própria, Bismarck resignou, por insistência de Wilhelm, em 18 de março de 1890, com a idade de 75 anos, sendo sucedido por Leo von Caprivi, depois por Chlodwig, príncipe de Hohenlohe-Schillingsfürst, em 1894 e, finalmente, por Bernard von Bülow, em 1900, “seu próprio Bismarck”. Na abertura do Parlamento, em 6 de maio de 1890, o Kaiser declarou que a questão mais importante era a ampliação do projeto de lei relativo à proteção do trabalhador. Em 1891 o Parlamento aprovou o Ato de Proteção ao Trabalhador, que melhorava as condições de trabalho, protegia as mulheres e crianças e regulava as relações de trabalho, tudo a que se opunha Bismarck.
Na política externa, Bismarck havia alcançado um frágil equilíbrio de interesses entre o Império Germânico, a França e a Rússia; a paz estava bem próxima e Bismarck tentou manter este estado de coisas embora o crescente sentimento popular contra a Grã-Bretanha (com relação à suas colônias) e, especialmente, contra a Rússia. Com a saída de Bismarck os russos esperavam uma inversão na política em Berlim e rapidamente buscou a França, iniciando um processo que, no início de 1914, praticamente isolou o Império Germânico.
Por outro lado, trazendo para si pessoas como Caprivi e Hohenlohe, Wilhelm II embarcava no que é conhecido pela história como o “Novo Rumo”, em que ele esperava exercer decisiva influência no governo do Império. Os historiadores discutem sobre o seu sucesso na implementação do “governo pessoal”, mas ficou clara a diversa dinâmica existente entre a Coroa e o Chanceler (seu chefe político) na “Era Guilhermina”. Bismarck havia criado o “Mito Bismarck”, algo que os eventos futuros mostrariam, e sua saída destruiu quaisquer chances que o Império possuía de estabelecer um governo efetivo. Assim, o “Novo Rumo” foi mais caracterizado como o navio germânico fora de controle, eventualmente conduzindo, por uma série de crises, ao morticínio da Primeira e Segunda Guerra Mundiais.
No início do século XX, Wilhelm iniciou sua real agenda: a criação de uma marinha germânica que rivalizasse com a britânica e permitisse ao Império declarar-se uma potência mundial. E enquanto seus fiéis chanceleres se ocupavam dos negócios domésticos, Wilhelm II espalhava alarmes nas chancelarias da Europa com suas crescentes visões excêntricas das relações externas. Hoje é amplamente reconhecido que os vários atos espetaculares por ele perpetrados na esfera internacional foram muito influenciados pela elite da política externa germânica. A própria opinião pública britânica, que havia sido favorável ao Kaiser nos seus primeiros doze anos, tornou-se amarga ao final dos anos 1880 e durante a Primeira Guerra Mundial ele tornou-se o principal alvo da propaganda britânica antigermânica e na personificação de um inimigo odiado. Wilhelm II inventou e espalhou temores de um “perigo amarelo”, tentando interessar outros governantes europeus nos perigos que eles enfrentavam numa invasão da China. Também usou a vitória dos japoneses na guerra Russo – Japonesa, para provocar medo, no Ocidente, do perigo amarelo que eles enfrentavam num Japão ressurgente, que dizia, se uniria à China para derrotar o Ocidente. Com Wilhelm, o Império investiu no fortalecimento de suas colônias da África e do Pacífico, mas poucas tornaram-se lucrativas e foram perdidas durante a Primeira Guerra Mundial. Uma das poucas vezes em que Wilhelm foi bem-sucedido na diplomacia pessoal, foi quando em 1900 ele apoiou o casamento do Arquiduque Franz Ferdinando da Áustria[4], com Sophie Chotek, contra os desejos do Imperador Franz Joseph.
Aqui, um pequeno parêntese se faz necessário. Nesta postagem, não vou tratar da Primeira Guerra Mundial com detalhe, já que um assunto imenso e sobre o qual tanto já se escreveu. Relembro que o nosso assunto é a formação da Alemanha moderna, desde as suas origens. Assim, a Primeira Grande Guerra será aqui tratada apenas como um dos episódios importantes da formação desse país.

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A Primeira Guerra Mundial, que matou 17 milhões de pessoas, traumatizou uma geração, fez desmoronar antigos impérios e alterou a ordem política mundial, ainda mantém suas origens obscuras. A mais simples resposta sobre o início da Primeira Grande Guerra é que a sua causa imediata foi o assassinato de Franz Ferdinand, Arquiduque do Império Austro-Húngaro. Sua morte pelas mãos de Gavrilo Princip, um nacionalista sérvio da Bosnia, pertencente à organização “Jovem Bosnia”, com ligações com o grupo secreto militar conhecido como “Mão Negra” (composta por militares do exército da Servia), impulsionou as maiores potências militares europeias em direção à guerra. Sob as ordens do chefe da Inteligência Militar da Servia, oficiais sérvios organizaram e facilitaram o assassinato do Arquiduque, por ocasião de sua visita à Sarajevo, na Bosnia.
Gavrilo Princip, assassino do Arquiduque Franz Ferdinand
Entretanto, os eventos que conduziram ao assassinato, são muito mais complexos, mas muitos estudiosos concordam que a emergência gradual de um grupo de alianças entre potências importantes foi causa parcial do início da guerra. Mas mesmo a teoria das alianças é hoje considerada muito simplificada pelos historiadores. A guerra não veio à Europa por acidente, mas por projeto, pondera o historiador militar Gary Sheffield, segundo o qual, a Primeira Guerra Mundial começou por duas razões fundamentais:
1) Os tomadores de decisão, em Berlim e Viena, escolheram o rumo que esperavam trar-lhes-ia significativas vantagens políticas, mesmo se conduzisse a uma guerra geral.
2) Os governos dos estados da Entente (França e aliados) aceitaram o desafio.
Sheffield acrescenta: “Na melhor das possibilidades, o Império Germânico e a Áustria-Hungria se jogaram numa aposta inconsequente que resultou totalmente errada; na pior, o ano de 1914 viu uma guerra premeditada de agressão e conquista, um conflito que provou se afastar demais da rápida e decisiva aventura que alguns esperavam.
Entretanto, conhecendo-se os antecedentes que envolviam a Áustria-Hungria, Bosnia e Servia, os patrocinadores do assassinato, comprovado o governo sérvio, jamais poderiam esperar outra reação do Império Austro-Húngaro – e seus aliados – além da declaração de guerra subsequente. O que pode sugerir duas coisas: ou uma imensa irresponsabilidade do governo sérvio ou uma ação proposital encomendada pela Entente para obter uma guerra de grandes proporções que interrompesse a caminhada imperialista dos países das Potências Centrais, outra imensa irresponsabilidade, mas agora da Entente.
Outro ponto importante a considerar, é que, longe de serem governantes remotos que desconheciam seus inimigos, os líderes dos estados da Grã-Bretanha, Império Germânico e Rússia – Rei George V, Kaiser Wilhelm II e Czar Nicolau II, respectivamente -, eram primos em primeiro grau que se conheciam muito bem. A Rainha Victoria, da Inglaterra, avó dos três líderes, tentou gerenciar a paz entre os primos, mas após a sua morte, em 1901, a boa vontade entre os ramos russo, inglês e germânico da família se dissipou conduzindo seus governantes à beira da guerra.
A investigação austro-húngara descobriu todos – com exceção de um – os assassinos e também muito da linha férrea subterrânea usada para transportar os assassinos e suas armas, da Servia para Sarajevo. Nos dois dias que se seguiram ao assassinato o Império Austro-Húngaro e o Império Germânico aconselharam a Servia a abrir uma investigação, ao que respondeu o Ministro das Relações Exteriores da Servia, Gruic: “Nada foi feito até agora e o assunto não diz respeito ao governo sérvio!”. Após isso, ásperas palavras foram trocadas de ambos os lados.
Wilhelm II, que era muito amigo de Franz Ferdinand e ficou profundamente chocado com seu assassinato em 28 de junho de 1914, ofereceu apoio à Áustria-Hungria para esmagar a “Mão Negra”, sancionando o uso da força contra a fonte presumida do movimento: a Servia (o famoso “cheque em branco”).
O Império Austro-Húngaro enviou, em 23 de julho, um “Ultimatum” ao governo Sérvio, pelo qual ele deveria, publicamente, condenar a propagando perigosa contra o Império, cujo objetivo final seria “separar da Monarquia territórios a ela pertencentes”. Além disso, o governo da Servia deveria atender a uma série de duras demandas impostas pelo Império. Um apêndice ao texto principal listava vários detalhes da investigação criminosa contra Gavrilo Princip e seus camaradas, que demonstrariam a culpabilidade e assistência fornecida aos conspiradores por vários oficiais sérvios. Instruções foram fornecidas ao ministro austríaco em Belgrado, pelo qual, se nenhuma resposta positiva incondicional fosse recebida da Servia dentro de 48 horas, o Ministro deveria abandonar a embaixada Austro-Húngara de Belgrado com todo o seu pessoal.
Enquanto os possíveis apoiadores da Servia, a aconselhavam a aceitar o ultimatum “com a menor humilhação possível”, os aliados do Império Austro-Húngaro fomentavam o início da guerra no mais curto prazo possível. A Servia aceitou todos os termos do ultimatum com exceção de um e sua resposta não foi aceita como favorável, pelo que, em 25 de julho de 1914, o Imperador Franz Joseph do Império Austro-Húngaro, assinou a mobilização para iniciar as operações contra a Servia em 28 de julho; o embaixador do Império, Giesl, deixou Belgrado. Em 28 de julho, os austro-húngaros declararam guerra à Servia e invadiram subsequentemente. A Rússia mobilizou em defesa da Servia, o Império Germânico invadiu os neutros Bélgica e Luxemburgo, antes de mover-se em direção à França, conduzindo o Reino Unido a declarar guerra contra a Alemanha.
De acordo com a teoria das alianças, em 1914 haviam resultado seis forças mais importantes que se juntaram em dois amplos grupos: Grã-Bretanha, França e Rússia formaram as Potências Aliadas (Triple Entente); o Império Germânico, Áustria-Hungria e Itália compreenderam as Potências Centrais. Embora a Itália fosse um membro das Potências Centrais, ela não se juntou a eles pelo fato da Áustria-Hungria ter tomada a ofensiva na Guerra, contra os termos da aliança. Esses acordos foram reorganizados e expandidos à medida que outras nações entraram na guerra: Itália (1915), Romênia (1916), Japão e Estados Unidos (1917) juntaram-se às Potências Aliadas, enquanto o Império Otomano (novembro de 1914) e a Bulgária (1915) juntaram-se às Potências Centrais. Os eventos chaves foram os seguintes:
· Em 28 de julho de 1914 a Áustria-Hungria declara guerra à Servia.
· Em 2 de agosto de 1914 o Império Otomano (Turquia) e o Império Germânico assinam um tratado secreto de aliança.
· Em 3 de agosto de 1914 o Império Germânico declara guerra à França.
· Em 4 de agosto de 1914 o Império Germânico invade a Bélgica, conduzindo a Grã-Bretanha a declarar guerra ao Império Germânico.
· Em 10 de agosto de 1914 a Áustria-Hungria invade a Rússia.
Finalmente, muitos outros países, incluindo Austrália, Índia e muitas colônias africanas lutaram por determinação dos seus governos imperiais.
O governo russo entrou em colapso em março de 1917, francamente solapado pela revolução comunista que tirou a Rússia da guerra através do vergonhoso tratado de Brest Litovsk, assinado por Lenin e demais líderes comunistas, constituindo uma maciça vitória germânica. Após uma formidável ofensiva germânica na Frente Ocidental, na primavera de 1918, os Aliados recuperaram-se obrigando os germânicos a retrocederem numa série de ofensivas sucessivas.
Em novembro de 1918 o Império Austro-Húngaro concordou com um armistício e o Império Germânico, com sua revolução interna, concordou com um armistício em 11 de novembro de 1918, assim encerrando a Primeira Guerra Mundial com a vitória dos Aliados.
O envolvimento na guerra havia sido desastroso para os três monarcas. Ao fim de 1918, Wilhelm II, o Kaiser Germânico, fora deposto e fugira em exílio na Holanda; Nicolau II, o Czar Russo e sua família haviam sido executados pelos comunistas; e George V, o Rei Britânico, reinava sobre um império quebrado e afogado em dívidas. Além disso, ao final da Guerra, o Império Germânico, o Império Russo, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano haviam cessado de existir. As fronteiras nacionais foram redesenhadas, com várias nações independentes restauradas ou criadas e as colônias do Império Germânico distribuídas entre os vencedores. Durante a Conferência de Paz de Paris, 1919, pelo Tratado de Versailles, os “Quatro Grandes” (Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e Itália) impuseram seus termos numa série de tratados. A “Liga das Nações” foi formada com o objetivo de prevenir a repetição de um conflito semelhante. Tal Liga logo fracassou pela depressão econômica, mas renovou o nacionalismo europeu, enfraqueceu os Estados membros e, através do sentimento germânico de humilhação, contribuiu para a ascensão do Nazismo. Tais condições, em seu conjunto e ao final, muito contribuíram para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

[1] Junkers eram denominados os membros da nobreza constituída por grandes proprietários de terras nos estados alemães anteriores e durante o 2º Reich (1871-1918). Essa aristocracia latifundiária teve importante papel na construção do Reino da Prússia, a partir do século XVIII. Diferentemente das nobrezas da França e da Inglaterra de então, os Junkers dedicavam-se diretamente à administração da atividade agrícola. Os trabalhadores nas propriedades dos Junkers eram povos conquistados militarmente e despojados de quaisquer direitos ou propriedades. Na colonização prussiana de terras conquistadas de povos eslavos, os Junkers administraram essas terras em moldes capitalistas, visando ao lucro e à eficiência da produção. Assim, constituíram-se como uma classe aplicada às técnicas modernas da produção econômica e paralelamente foram alçados por Friedrich II da Prússia a um monopólio absoluto sobre os quadros civis e militares do reino. Na Prússia do século XVIII, as classes mercantis urbanas não ganharam destaque político e predominou na construção do Estado a postura autoritária e fechada da aristocracia Junker.
[2] O Partido Social-Democrata da Alemanha (em alemão Sozialdemokratische Partei Deutschlands, cuja sigla é SPD) é, até hoje, um partido político alemão. O SPD permanece um dos partidos dominadores da cena política alemã. É o partido alemão mais antigo ainda em funcionamento, tendo completado, em 2015 cento e quarenta anos de existência. Foi impiedosamente perseguido durante o Terceiro Reich (1933-1945) e, na antiga Alemanha Oriental, foi obrigado pelas forças de ocupação soviéticas a se fundir com os comunistas.
[3] O Congresso de Berlim, realizado de 13 de junho a 13 de julho de1878, em Berlim, foi uma reunião entre líderes das grandes potências europeias e o Império Otomano. Na sequência da Guerra russo-turca, de 1877–1878, o objetivo da reunião era tentar reorganizar os países dos Balcãs - região sudeste da Europa que engloba a Albânia, Bosnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônia, Montenegro, Servia, o autoproclamado independente Kosovo e a porção da Turquia no continente europeu; algumas vezes, pode incluir Croácia, Romênia, Eslovênia e a Áustria. Bismarck conduziu o Congresso, e comprometeu-se a equilibrar os diferentes interesses da Grã-Bretanha, Rússia e Áustria-Hungria. Como consequência, no entanto, as diferenças entre a Rússia e a Áustria-Hungria e as questões de nacionalidade dos Balcãs foram intensificada.
[4] Franz Ferdinando era um Arquiduque da Áustria-Leste, Austro-Húngaro e Príncipe Real da Hungria e da Bohêmia e, de 1896 até a sua morte, herdeiro do trono Austro-Húngaro. Seu assassinato em Sarajevo precipitou a declaração de guerra da Austro-Húngaro contra a Servia, causa imediata da Primeira Guerra Mundial.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 2)

GUERRAS NAPOLEÔNICAS

Friedrich Wilhelm II, 1797.

Durante o reinado de Friedrich Wilhelm II (1786-1797), a Prússia anexou território polonês através de outras Partições da Polônia[1]. Seu sucessor, Friedrich Wilhelm III (1797-1840), anunciou a união da igreja luterana da Prússia e as igrejas reformadas em uma. Com a ajuda de seus ministros, Barão vom und zum Stein e o Príncipe Karl August von Hardenberg, instituiu uma série de reformas liberais dentro do reino.
De 1801 a 1805, durante as “Guerras Napoleônicas”, a Prússia foi dominada por Napoleão I (Napoleão Bonaparte). A Prússia teve parte importante nas guerras revolucionárias francesas, mas permaneceu em silêncio por mais de uma década, devido à Paz de Basileia, de 1795, só para ir mais uma vez à guerra com a França em 1806, quando falharam as negociações com aquele país sobre a alocação dos domínios de influência no Império Germânico. Por isso, em 1806, Friedrich Wilhelm III reuniu uma coligação contra Napoleão e foi derrotado, perdendo muito do seu território.
Friedrich Wilhelm III, o rei das
Guerras Napoleônicas
 A Prússia sofreu uma derrota devastadora contra as tropas de Napoleão Bonaparte nas Batalhas gêmeas de Jena e Auerstedt, travadas em 14 de outubro de 1806. A derrota decisiva sofrida pelo exército prussiano subjugou o Reino da Prússia ao Império Francês até a Sexta Coalizão[2], formada em 1812, levando Friedrich Wilhelm III e sua família a fugir temporariamente para Memelburgo (Klaipėda)[3]. Nos termos dos Tratados de Tilsit, em 1807, o estado perdeu quase a metade do seu território, incluindo as áreas adquiridas com a segunda e a terceira Partições da Polônia, que então caíram para o Ducado de Varsóvia, além da obrigação de pagar uma grande indenização ao exército e a permissão de tropas francesas por toda a Prússia, efetivamente tornando-a um reino satélite francês.
A partir de 1806, com a formal dissolução do milenar “Sacro Império Romano-Germânico”, por Napoleão Bonaparte, em 6 de agosto, com a renúncia do seu último imperador Francisco II (a partir de 1804, Francisco I da Áustria) que manteve até 1918 o título de Imperador da Áustria, os estados alemães se encontraram muito fragmentados e, como resposta a esta derrota, reformadores como Stein e Hardenberg definiram a modernização do estado prussiano. Entre as suas reformas estavam a libertação dos camponeses da servidão e a emancipação dos judeus como cidadãos com pleno direito. O sistema escolar foi reorganizado e, em 1818, o comércio livre foi introduzido. O processo de reforma do exército terminou em 1813 com a introdução do serviço militar obrigatório.
Após a derrota de Napoleão na Rússia, em 1812, a Prússia encerrou sua aliança com a França e participou da “Sexta Coalizão” durante as "Guerras de Libertação" contra a ocupação francesa. Tropas prussianas, sob o comando do marechal Gebhard Leberecht von Blücher, contribuíram decisivamente (com os britânicos) na Batalha de Waterloo, em junho de 1815, com a vitória final sobre Napoleão e seu desterro definitivo na Ilha de Santa Helena.
O Congresso de Viena em 1815, que redesenhou o mapa político da Europa após a “Batalha de Waterloo”, que resultou na queda do Império Francês, deu como recompensa à Prússia, a recuperação de sua fortuna e seus territórios perdidos, bem como boa parte do noroeste da atual Alemanha, com toda a Renânia, Vestfália e alguns outros territórios. Essas terras ocidentais eram de vital importância, porque incluíam a área do Ruhr, área rica em carvão e centro da recente industrialização da Alemanha, especialmente na indústria de armas. Tais ganhos territoriais implicaram também na duplicação da população da Prússia. Em troca, a Prússia se retirou das áreas da Polônia central para permitir a criação do Congresso da Polônia sob a soberania russa. 
Confederação Germânica em 1815. Verde escuro, Estados
Membros; em claro, territórios dos Estados fora da Confederação
A Prússia emergiu das guerras napoleônicas como a potência dominante entre os estados alemães que, após 1815, no Congresso de Viena, passaram a ser chefiados pelo Império Austríaco, na “Confederação Germânica”, criada para coordenar as economias separadas dos países de língua alemã e substituir o antigo Sacro Império Romano. Tal era uma confederação fraca de 39 Estados, que representava apenas os soberanos e não os povos daqueles territórios. O tamanho e a influência da cada Estado variava consideravelmente. O Império Austríaco e o Reino da Prússia eram os maiores e mais importantes membros da confederação. Grandes partes de seus territórios e de suas forças armadas não foram incluídas na confederação, o que permitia a ambos atuar como países independentes; por exemplo, durante as guerras com a Dinamarca, Áustria e Prússia não combateram sob a bandeira da confederação. Ambas possuíam um voto cada na dieta (assembleia). Dois Estados-membros eram governados por soberanos estrangeiros: os reis da Dinamarca, dos Países Baixos e do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda (até 1837) eram membros da Confederação Germânica na qualidade, respectivamente, de duque de Holstein e rei de Hanôver. Cada um detinha um voto cada na dieta. Seis outros Estados contavam um voto cada na dieta: os reis da Baviera, Saxônia e Vurtemberg, o príncipe-eleitor do Hesse e os grão-duques de Baden e do Hesse. Vinte e três membros menores compartilhavam cinco votos na dieta. As quatro cidades livres de Lübeck, Frankfurt, Brêmen e Hamburgo compartilhavam um voto na dieta. As suas fronteiras eram aproximadamente as mesmas fronteiras do Sacro-Império à época da Revolução Francesa, excetuando o território que corresponde hoje à Bélgica. Os seus membros, drasticamente reduzidos em relação aos mais de 200 que constituíam o Sacro-Império, dispunham de plena soberania e comprometiam-se a uma defesa mútua, mantendo em conjunto uma série de fortalezas no Luxemburgo, em Mogúncia, Rastatt, Ulm e Landau. Os assuntos políticos, naturalmente limitados devido à grande autonomia dos estados-membros, discutiam-se na dieta federal, sob presidência austríaca, de Frankfurt.
A primeira metade do século XIX viu uma luta prolongada nos estados alemães, entre os liberais, que queriam uma Alemanha unida e federal sob uma constituição democrática, e os conservadores, que queriam manter o Império como uma colcha de retalhos de estados independentes monárquicos, com a Prússia e a Áustria competindo por influência. Um pequeno movimento que marcou o desejo de unificação alemã neste período foi o movimento estudantil Burschenschaft (corporação estudantil de antigos combatentes das guerras contra Napoleão Bonaparte, que haviam retomado seus estudos, em 1815, na Universidade de Jena), que incentivou o uso da bandeira preto-vermelho-ouro, as discussões sobre a nação alemã unificada e um sistema político progressista e liberal. Por causa do tamanho da Prússia e de sua importância econômica, os estados menores começaram a associar-se em sua área numa zona de livre comércio em 1820. A Prússia se beneficiou com a criação em 1834 da união aduaneira alemã (Zollverein), que incluiu a maioria dos estados alemães mas excluiu a Áustria.
Por essa época, o Reino da Dinamarca mantinha uma União Pessoal (uma união de estados com chefe de Estado comum) com os ducados de Schleswig e Holstein, sendo que ambos tinham laços estreitos entre si, embora apenas Holstein fizesse parte da Confederação Germânica. O Schleswig era um ducado soberano (formalmente independente), de maioria dinamarquesa, vinculado à coroa da Dinamarca por uma União Pessoal e por laços feudais. Já o Holstein era um ducado soberano, de maioria alemã, que integrara o Sacro Império Romano-Germânico e a Confederação, mas ligado à Dinamarca por uma União Pessoal desde o século XV. Em outras palavras, o rei da Dinamarca era o duque do Schleswig e do Holstein, territórios governados, na prática, pelos dinamarqueses. O chamado Tratado de Ribe (1460) dispunha que os dois ducados não poderiam ser separados. A extinção da linhagem real masculina da Dinamarca, com a morte do rei Friedrich VII, criou para os dinamarqueses o problema da manutenção do seu controle sobre o Schleswig-Holstein, cobiçado por advogados da unificação Alemã.
Por 1844 quase todos os estados germânicos estavam economicamente ligados à Prússia. Quando Friedrich VII, rei da Dinamarca, após as Revoluções de 1848, tentou integrar Schleswig, mas não Holstein, ao estado dinamarquês, promulgando uma constituição democrática comum à Dinamarca e ao Schleswig, provocou um movimento separatista nos ducados. Em março de 1848, a grande maioria alemã do Schleswig-Holstein rebelou-se contra a Dinamarca e buscou a independência frente a esta última, para se associar à Confederação Germânica. O Reino da Prússia, sob Friedrich Wilhelm IV, interveio militarmente em favor da revolta, expulsou dos ducados as tropas dinamarquesas e conseguiu levar a Confederação Germânica contra a Dinamarca na Primeira Guerra do Schleswig (1848-1851). A guerra terminou quando as grandes potências europeias pressionaram a Prússia a aceitar o Protocolo de Londres de 1852. Nos termos deste acordo de paz, a Confederação Germânica devolvia o Schleswig-Holstein à Dinamarca que, por um acordo com a Prússia, comprometia-se a não criar laços adicionais com o Schleswig mais fortes do que os deste último com o Holstein. Como se vê, um resultado não conclusivo que logo faria estalar um novo conflito.

AS GUERRAS DE UNIFICAÇÃO

Wilhelm I, proclamado imperador do Império Alemão
Sob o Rei Wilhelm I (1861 a 1888), e seu primeiro ministro e chanceler imperial, Príncipe Otto Von Bismarck (a partir de 1862), o Chanceler de Ferro, ministro presidente do Reino, a Prússia alcançou o pico do seu poder, realizando a unificação alemã através do desprezo aos recursos do liberalismo político e da opção pela política da força.
Em 1862, o rei Wilhelm I nomeou Otto von Bismarck como primeiro-ministro da Prússia, decidido a derrotar tanto os liberais quanto os conservadores e aumentar a supremacia prussiana e a sua influência entre os estados alemães. Há muito debate sobre se Bismarck realmente planejou criar uma Alemanha unida quando partiu nesta jornada, ou se ele simplesmente se aproveitou das circunstâncias. Certamente suas memórias pintam um quadro róseo de um idealista, mas estes foram escritos com o benefício da retrospectiva e certos eventos cruciais que não poderiam ser previstos. O que está claro é que Bismarck apoiou grandes setores da população com a promessa de levar a luta para uma maior unificação alemã. Em busca do seu objetivo maior, Bismarck guiou a Prússia através de três guerras que, no seu conjunto, trouxeram Wilhelm I da Prússia à posição de Imperador Alemão: (1) a guerra contra a Dinamarca em 1864; (2) a “Guerra das Sete Semanas” contra a Áustria, em 1866; (3) e a “Guerra Franco-Prussiana” em 1870. Essas três guerras colocaram a Prússia como estado líder no Império Germânico. Em 1867 tornou-se o núcleo da Confederação da Alemanha do Norte e, em 1871, do Império Germânico. Daí em diante, a história da Prússia geralmente coincide com a história da Alemanha.
Chanceler Otto Von Bismarck,
retratado por N. Repik
Em 1863, a Dinamarca introduziu uma constituição compartilhada para a Dinamarca e Schleswig. Isso levou a um conflito com a Confederação Germânica, que autorizou a ocupação de Holstein pela Confederação, da qual as forças dinamarquesas se retiraram. Em 1864, forças prussianas e austríacas cruzaram a fronteira entre Holstein e Schleswig iniciando a Segunda Guerra do Schleswig. As forças austro-prussianas derrotaram os dinamarqueses, que entregaram os dois territórios. Na Convenção de Gastein, de 1865 a Prússia assumiu a administração de Schleswig enquanto a Áustria assumiu a de Holstein.
Bismarck percebeu que a dupla administração de Schleswig e Holstein era apenas uma solução temporária, e as tensões aumentaram entre o Reino da Prússia e o Império Austríaco. A luta pela supremacia na Confederação e a disputa sobre Schleswig e Holstein, levou à Guerra Austro-Prussiana, em 1866.
Do lado austríaco, ao sul, estavam os estados alemães (incluindo a Baviera e Württemberg), alguns estados alemães centrais (incluindo Saxônia) e Hanôver, ao norte. Do lado prussiano estavam o Reino da Itália e a maioria dos estados ao norte da Confederação e alguns estados centrais menores. As tropas prussianas, melhor armadas, conquistaram a vitória fundamental na batalha de Königgrätz, sob Helmuth von Moltke. O conflito centenário entre Berlim e Viena pelo domínio da Confederação havia acabado.
Pela Paz de Praga, em 1866, a Prússia anexou quatro dos aliados austríacos no norte e no centro da Alemanha: Hanôver, Hesse-Kassel, Nassau e Frankfurt. A Prússia também ganhou o controle total de Schleswig-Holstein. Como resultado desses ganhos territoriais, a Prússia estendeu-se através de dois terços do norte da Confederação, que continha dois terços da sua população. A “Confederação Germânica” foi dissolvida e a Prússia agrupou 21 estados norte do rio Meno para formar a “Confederação da Alemanha do Norte” sob hegemonia do Reino da Prússia e excluindo a Áustria e a Baviera.
Wilhelm I, Imperador Germânico  a partir
de 18 de janeiro de 1871.
A Prússia foi o Estado dominante na nova confederação, como um reino composto praticamente de quatro quintos do território do novo Estado e da população. O controle quase total da Prússia sobre a confederação foi garantido na constituição redigida por Bismarck em 1867. O poder executivo seria realizado por um presidente, coadjuvado por um chanceler apenas a ele subordinado. A presidência foi um cargo hereditário dos governantes Hohenzollern da Prússia. Havia também uma casa de dois parlamentos. A casa baixa, ou Reichstag, eleita por sufrágio universal masculino; a casa superior, ou Bundesrat (Conselho Federal), era nomeado pelos governos estaduais e, na prática, a casa mais forte. A Prússia teve 17 de 43 votos, e poderia facilmente controlar processos através de alianças com outros estados.
A polêmica entre a Prússia e o “Segundo Império Francês”[4] sobre a candidatura de um Hohenzollern ao trono espanhol foi intensificada tanto pela França como por Bismarck. Com seu “despacho de Ems”[5], Bismarck provocou a declaração de guerra da França à Prússia, por Napoleão III, em 19 de julho de 1870. Honrando os seus tratados, os estados alemães juntaram forças e, rapidamente, derrotaram a França na Guerra Franco-Prussiana. Com a vitória, sob a liderança de Bismarck, Baden, Württemberg e a Baviera, que haviam ficado fora da Confederação da Alemanha do Norte, aceitaram a incorporação a um Império Germânico unificado.
Segundo Bismark, o Império era a solução da "Alemanha Menor" no que se refere à união de todos os povos de língua alemã em um estado, excluindo a Áustria, que permaneceu conectada ao Reino da Hungria e cujos territórios incluíam populações não-alemãs. Em 18 de janeiro de 1871 (o 170º aniversário da coroação do rei Friedrich I), Wilhelm I foi proclamado "Imperador Germânico" (não "Imperador da Alemanha") no Salão dos Espelhos, em Versalhes, perto de Paris, com a capital francesa ainda sob cerco. Esse título (em alemão, “Deutscher Kaiser”) foi o título oficial do chefe de estado do Império Germânico, (Deutsches Reich) então ocupado pelo rei da Prússia (e Bismarck como seu chanceler), e vigorou desde que a Confederação da Alemanha do Norte, após a vitória da Prússia sobre a França na Guerra Franco – Prussiana, em 1871, tornou-se um império, até 1918, com o término da Primeira Guerra Mundial e a derrota da Alemanha.

[1] As Partilhas da Polônia ocorreram ao longo do século XVIII e puseram fim à existência da soberana República das Duas Nações (Reino da Polônia e Grão Ducado da Lituânia). Elas envolveram o Reino da Prússia, o Império Russo e a Monarquia/Império Austríaco, dividindo as terras da república entre elas. As três partilhas ocorreram em: 5 de agosto de 1772; 23 de janeiro de 1793; e 24 de outubro de 1795.
[2] A Sexta Coalizão (1812-1814) reuniu Áustria, Prússia, Rússia, Reino Unido, Portugal, Suécia, Espanha e alguns Estados Germânicos que finalmente conseguiram derrotar a França e enviar Napoleão para o seu primeiro exílio, na Ilha de Elba. Com a frustrada invasão da Rússia, os seus adversários se reorganizaram, expulsaram Napoleão da Alemanha em 1813 e invadiram a França em 1814, obrigando Napoleão a abdicar restaurando os Bourbons.
[3] Klaipėda, anteriormente referida como Memelburgo, é uma cidade e único porto lituano, situada na entrada da laguna da Curlândia, que deságua no mar Báltico, fundada pelos Cavaleiros Teutônicos. Algumas de suas construções mais antigas possuem similaridades com construções alemãs, francesas, inglesas, dinamarquesas e também do sul da Suécia.
[4] O Segundo Império Francês foi o regime monárquico bonapartista implantado por Napoleão III de 1852 a 1870, entre os períodos históricos da Segunda República e da Terceira República, na França. Durante este período, a capital Paris foi centro de exposições mundiais, para onde convergiam a divulgação do progresso cultural e industrial do mundo. Com a Guerra Franco-Prussiana, o Império encontrou seu fim, mostrando seu despreparo militar, com o próprio Imperador Napoleão III sendo capturado na desastrosa batalha de Sedan e deposto em seguida.
[5] O “Despacho de Ems” é um documento histórico. Foi o telegrama que relatou o encontro, em 13 de Julho de 1870 entre o Rei da Prússia Wilhelm I e o embaixador da França, na Prússia, em Bad Ems, no rio Lahn, perto de Koblenz. O telegrama foi habilmente manipulado por Bismark, de forma a torna-lo uma afronta aos franceses, assim provocando a declaração de Guerra da França.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 1)

I – INTRODUÇÃO

A Prússia, que se tornaria um apelido pejorativo para o militarismo e autoritarismo alemão, começou a sua história inteiramente fora da atual Alemanha, embora ao longo de sua história se tenha transformado na origem do reino e do estado da Alemanha. O povo chamado Prussiano, em alemão, que habitava as terras da costa sudeste do mar Báltico, era eslavo, ligado aos lituanos e letões. Foram conquistados e cristianizados à força, no século XIII, pelos Cavaleiros Teutônicos vindos da Terra Santa. Camponeses germânicos foram trazidos para cultivar a terra e, cerca do ano 1350, a maioria da população já era germânica, embora os poloneses tenham anexado parte da Prússia no século seguinte, deixando os Cavaleiros Teutônicos com o Leste da Prússia.
No pico de sua expansão, ao final do século XIX, a Prússia se estendia ao longo das costas dos Oceanos Báltico e do Norte, da Bélgica, Holanda, França e Luxemburgo, no oeste, para o Império Russo no leste, para a Áustria-Hungria no leste, sudeste e sul, e para a Suíça ao sul.
A Prússia moderna foi, sucessivamente, com modificações geográficas, um reino independente (1701-1871), o maior reino constituinte do Império Germânico (1871-1918), um estado ou território constituinte da República de Weimar (1919-1933) e uma divisão administrativa, compreendendo 13 províncias, do centralizado Terceiro Reich Germânico (1934-1945). Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Prússia Ocidental foi perdida para a Polônia, e a Prússia Oriental foi separada do resto do Império Germânico, em 1919, sob os termos do “Tratado de Versailles”, por uma faixa do antigo território prussiano conhecido como “Corredor Polonês” (Corredor de Dantzig ou Corredor de Gdansk), projetado para dar à Polônia uma saída ao Mar Báltico e o maior motivo da invasão da Polônia por Hitler, na “inauguração” da Segunda Guerra Mundial. As outras províncias da Prússia entre as duas Guerras Mundiais eram Reno, Brandenburgo, Pomerânia, Berlin, Saxônia, Schleswig-Holstein, Hannover, Vestfália, Grenzmark Posen-Westpreussen (atualmente na Polônia), Hessen Nassau e Hohenzollern (ambas na atual Alemanha), e Silesia (hoje parte na Polônia e parte na República Tcheca). Em 1947, após a Segunda Grande Guerra (1939-1945), a Prússia foi abolida como uma unidade política e, com exceção da Prússia Oriental, repartida em várias partes pelas quatro zonas de ocupação na Alemanha, administradas pela França, Grã Bretanha, Estados Unidos e URSS. A região nordeste da Prússia Oriental foi anexada pela URSS e o restante foi colocado sob administração polonesa. Berlin era a capital da Prússia antes da Segunda Guerra Mundial e as principais cidades incluíam Frankfurt am Main, Colônia, Essen, Dortmund, Düsseldorf, Magdeburg, Stettin (agora Szczecin) e Königsberg (agora Kaliningrado).
Este, o assunto que vamos, a partir de agora, analisar detalhadamente.


II - UMA BREVE HISTÓRIA DA PRÚSSIA



A área que foi, até modernamente, conhecida como Prússia, foi habitada, em tempos remotos, por tribos eslávicas[1] ocidentais, ancestrais dos poloneses modernos, do oeste, e tribos bálticas, muito relacionadas aos lituanos, do leste. A região e seus habitantes foram descritos pela primeira vez por Tácito, em sua obra “Germânia”, no ano de 98 DC, no período em que suevos, godos e outros povos germânicos viviam em ambos as margens do rio Vístula[2], ao lado dos éstios, os povos do leste, como os chamou Tácito em seu livro, que viviam depois dos povos germânicos da Média Germânia.
Num mapa moderno, a região original dos primeiros prussianos
É uma região histórica que se estende desde a Baía de Gdansk (na Polônia atual) e o final da Curlândia (na costa sudeste do Mar Báltico, na atual Letônia) até a Masúria, grande região no nordeste do território polonês atual. O nome Prússia tem sua origem histórica nos prussianos, um povo báltico que habitava a área em torno das lagunas da Curlândia e do rio Vístula (no que é hoje o norte polonês). Nos séculos VII e VIII os vikings também começaram a penetrar a costa oriental do mar Báltico. Os maiores centros de comércio dos prussianos, como Truso e Kaup, parecem ter absorvido alguns Vikings. Prussianos usaram o mar Báltico como uma rota comercial, frequentemente viajando de Truso a Birka (atual Suécia). No final da Era Viking, os filhos do rei dinamarquês Harald Bluetooth e Canuto, o Grande, lançaram várias expedições contra os prussianos. Eles destruíram muitas áreas na Prússia, incluindo Truso e Kaup, mas não conseguiram dominar totalmente a população. Em algum ponto após o século VII, a área foi invadida e colonizada por tribos germânicas pagãs, mais tarde conhecidas como prussianas. As pessoas do qual o nome Prússia é derivado eram, geralmente, chamados Prússicos ou Borússicos, nas fontes mais antigas. Esse povo falava uma linguagem agora conhecida como Prussiano Antigo e seguia uma mitologia prussiana pagã. 
Figura medieval representando o
martírio de Santo Adalberto

Os saxões entraram na Europa Oriental no século X e falharam em suas tentativas de converter os prussianos ao cristianismo. Em 997 o bispo e santo Adalberto foi martirizado como missionário na Prússia.
Em 1211, André II da Hungria concedeu Burzenland[3], na Transilvânia, como um feudo dos Cavaleiros Teutônicos (sobre os Cavaleiros Teutônicos, ver quadro abaixo), uma ordem religiosa militar que converteu os prussianos ao Cristianismo e levou colonizadores germânicos e holandeses para o território conquistado. Em 1225, André II expulsou os Cavaleiros Teutônicos da Transilvânia, que se transferiram para o mar Báltico. Conrado I, o duque polaco de Mazóvia, tentou em vão conquistar a Prússia pagã nas cruzadas em 1219 e 1222. Em 1226, o duque Conrado I convidou os Cavaleiros Teutônicos para conquistar as tribos prussianas bálticas em suas fronteiras, o que eles conseguiram no mesmo ano. Durante 60 anos de lutas contra os prussianos, a ordem criou um estado independente, que passou a controlar a Prússia. Em 1237, eles passaram a controlar também a Livônia (atual Letônia e Estônia). Nesta década de 1230, o território dos prussianos e dos povos vizinhos, curonianos (habitantes da Curlândia) e livônios, estiveram sob o controle do Estado da Ordem Teutônica. Por volta de 1252, eles terminaram a conquista da tribo prussiana setentrional dos escalvianos, assim como os ocidentais curonianos bálticos e ergueram o Castelo de Memel (atual Lituânia), que se tornou a cidade portuária de Memel (atual Klaipėda). 
Tribos prússicas, entre outras tribos
bálticas, cerca de 1200 DC
Foram os Cavaleiros Teutônicos que deram origem ao Ducado da Prússia e à Marca de Brandenburgo, principado do Sacro Império Romano Germânico, com papel crucial na história da Alemanha e da Europa Central. Durante séculos, a Casa de Hohenzollern governou com sucesso a região, expandindo seu tamanho por meio de um exército bem organizado e eficaz. Ao final do século XIII a região estava completamente subjugada e daí para diante foi governada pelos Cavaleiros Teutônicos, como um feudo papal, subordinados ao Papa e ao Imperador.

A ORDEM TEUTÔNICA


A “Ordem dos Cavaleiros Teutônicos de Santa Maria de Jerusalém”, conhecida apenas como “Ordem Teutônica”, foi uma ordem militar cruzada, vinculada à Igreja Católica, por votos religiosos, pelo Papa Clemente III, formada em São João do Acre, Israel, na época das Cruzadas, ao final do século XII. Seus membros usavam sobrevestes brancas com uma cruz negra. Os Cavaleiros tiveram a sua sede em Montfort, uma fortaleza construída nos tempos do Reino de Jerusalém[1] (1099-1291), durante as Cruzadas, cujos vestígios ainda se conservam ao norte de Israel.
A Torre Teutônica da cidade de Acre, em Israel
A Ordem Teutônica foi uma das mais poderosas e influentes da Europa. A maioria dos seus membros pertencia à nobreza, inclusive à família real prussiana e outros nobres germânicos. Os soberanos e a nobreza dos estados antecessores da atual Alemanha, inclusive a família soberana do Império Alemão (1871-1918) e da Prússia (1525-1947), os Von Hohenzollern, eram membros da Ordem.
Após a derrota das forças cristãs no Oriente Médio, os cavaleiros teutônicos mudaram-se para a Transilvânia, em 1211, a convite do rei André II, da Hungria, onde fundaram a cidade de Brasov, mas foram expulsos em 1224. Transferiram-se então para o norte da Polônia, onde criaram o “Estado da Ordem Teutônica” (que existiu entre 1224 e 1525). A agressividade e o poder da Ordem ameaçavam os países vizinhos, em especial o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia.
Entre 1229 e 1279 a ordem conquistou áreas na Prússia, onde os cavaleiros construíram muitas cidades e fortes. Por volta de 1329, os cavaleiros teutônicos controlavam, por domínio papal, toda a região do Báltico, desde o golfo da Finlândia até a Pomerânia, na Polônia. Na parte sul de seu domínio, a ordem foi abolida e suas terras se tornaram a Prússia, em 1525. A parte norte (Estônia e Letônia) foi dividida entre a Polônia, Rússia e Suécia, depois de 1558.
Em 1410, na batalha de Grunwald (também conhecida como batalha de Tannenberg), um exército combinado polaco-lituano, comandado pelo rei polaco Ladislau II Jagelão, derrotou a Ordem e pôs fim a seu poderio militar. O poder da Ordem continuou a declinar até 1525, quando seu grão-mestre, Alberto de Brandemburg, converteu-se ao luteranismo e assumiu o título e os direitos de duque hereditário da Prússia (embrião do Reino da Prússia, catalisador do futuro Império Alemão). O Grão-Magistério foi então transferido para Mergentheim, de onde os grão-mestres teutônicos continuavam a administrar as consideráveis posses da Ordem no Sacro Império Romano-Germânico.
Em 1806, quando Napoleão Bonaparte determinou a extinção do Sacro Império, a Ordem perdeu as suas últimas propriedades seculares, mas logrou sobreviver até o presente. O decreto papal emitido por Pio XI, a 21 de novembro de 1929, transformou os cavaleiros teutônicos numa ordem clerical composta por sacerdotes, padres e freiras. Atualmente, tem a sua sede em Viena, Áustria, e trabalha, primordialmente, com objetivos assistenciais. A cruz teutônica está na origem da célebre "Cruz de Ferro", condecoração ainda em uso pelas forças armadas alemãs.
Nas mãos de Heinrich Himmler, a SS foi estruturada segundo o modelo da Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, cujos membros, acreditava-se, tinham sido guardiões do Santo Graal. Equipes da SS foram designadas para encontrar tanto o Santo Graal quanto a Arca da Aliança.

[1] O Reino de Jerusalém foi um Estado cruzado criado no Levante, em 1099, pela Primeira Cruzada. O reino durou aproximadamente 200 anos, de 1099 a 1291 quando o Acre, sua última possessão, foi destruída pelos Mamelucos, mas sua história é dividida em dois períodos distintos. O Primeiro Reino de Jerusalém (com a capital nessa cidade) existiu entre 1099 e 1187, quando foi quase totalmente tomado por Saladino, muçulmano de origem curda e primeiro sultão do Egito e Síria. Após a Terceira Cruzada, o Reino foi reestabelecido em Acre, em 1192 e durou até a sua destruição, em 1291. Esse segundo reino é algumas vezes chamado de Segundo Reino de Jerusalém ou Reino do Acre.

Tribos Prussianas no Século XIII
Sua relação, inicialmente estreita, com a Coroa polonesa deteriorou depois que eles conquistaram em 1308 a Pomerânia (mar Báltico, ao norte da Polônia e vizinha de Dantzig) ou Pomerélia e Dantzig (Gdansk dos tempos modernos), controlada pelos poloneses. Durante a segunda metade do século XIV, uma forte oposição aos germânicos desenvolveu-se na Europa Oriental, causando a união dinástica da Polônia e Lituânia (União de Krewo), em 1385, que derrotou os Cavaleiros Teutônicos na Batalha de Grunwald (Tannenberg), em 1410.
Na Guerra dos Treze Anos, a Batalha da Lagoa do Vístula,
14/09/1463, entre Ordem Teutônica e Confederação Prussiana
A “Guerra dos Treze Anos” (1454-1466) começou quando a Confederação Prussiana[4], uma coalizão de cidades da Prússia Ocidental, se rebelou contra a ordem, com solicitação de ajuda ao rei polonês. Os Cavaleiros Teutônicos foram forçados a reconhecer a soberania e prestar homenagem ao rei Casimiro IV da Polônia, na Segunda Paz de Torun (1466), perdendo a Prússia Ocidental para a Polônia, que se tornou conhecida como Prússia Real Polonesa. Os termos da segunda Paz de Torun deixaram os Cavaleiros de posse da parte oriental da Prússia, mantida como um feudo da coroa polonesa. Com isso, a Prússia, que já possuía Berlim como sua capital, ficou dividida em dois estados: a Prússia Real, no oeste, e Prússia Ducal, no leste. A Prússia Real (ou Prússia Polonesa) era uma província do Reino da Polônia, parte da comunidade encravada fora do Estado da Ordem Teutônica. Administrativamente, a Prússia Real era parte da Província da Grande Polônia, junto com a própria Grande Polônia, com a capital em Poznan, formando um corredor ao Mar Báltico (Corredor Dantzig). A Prússia Ducal, um feudo da Coroa da Polônia até 1657, foi estabelecida durante a Reforma Protestante, em 1525 e foi o primeiro ducado luterano com população dominante de língua germânica e minorias polonesa e lituana. Nessa época, o porto de Dantzig foi designada uma “cidade livre”.
A Reforma Protestante, do início a meados do século XVI, viu muitos prussianos se converterem ao Protestantismo, ao passo que a Polônia permaneceu - e ainda permanece - solidamente católica. Em 1525, Alberto de Brandenburgo – Ansbach, um membro da casa de Hohenzollern, o último Grande Mestre dos Cavaleiros Teutônicos, tornou-se um luterano protestante e secularizou os restantes dos territórios prussianos da ordem para a Prússia Ducal, área a leste da foz do rio Vístula, às vezes chamada de "Prússia Adequada". Pela primeira vez, essas terras chegaram às mãos da família Hohenzollern. A dinastia Hohenzollern havia governado a “Marca de Brandemburg”, a oeste, um estado germânico centrado em Berlim, desde o século XV. Além disso, com sua renúncia da ordem, Alberto, 1º Duque da Prússia, agora podia casar-se e produzir herdeiros legítimos, o que transformou a Prússia Ducal num ducado hereditário. A unidade das duas partes da Prússia foi preservada pela manutenção das suas fronteiras, da cidadania de seus habitantes e da sua autonomia política.
Em 1618, a Prússia Ducal, ainda um estado vassalo da Polônia, passou a John Sigismund, um Hohenzollern. Com a união da Prússia Ducal com Brandenburgo, através do seu neto, Friedrich Wilhelm, Grande Eleitor de Brandenburgo, e a invasão pelos suecos em 1657, a Polônia rendeu soberania e independência à Prússia Ducal, que se transformou no Reino da Prússia, chefiado pela linha Hohenzollern, na Paz de Oliva, em 1660. Friedrich Wilhelm, que governou de 1640 até a sua morte, em 1688, transformou Brandenburgo – Prússia no mais forte dos estados germânicos do norte, criou um eficiente exército, fortificou Berlim, centralizou a administração do ducado e assumiu poderes de governança que eram anteriormente exercidos pela nobreza e as oligarquias da cidade.
Friedrich I, fundador do Reino da Prússia
Seu filho, o Eleitor Friedrich III (1657 – 1713), conhecido em Berlim como o “Fritz Torto” - um acidente de infância lhe tinha torcido a espinha e deixado uma corcunda -, apaixonado por tudo que era francês, buscava uma coroa como recompensa por ter ajudado o Imperador Leopoldo I (então Arquiduque da Áustria e imperador do Sacro Império Romano). Brandenburgo não podia ter um rei, pois que parte do Império, e não podia haver um rei da Prússia porque parte dela estava na Polônia. Por uma fórmula engenhosa, contudo, Friedrich obteve de Leopoldo I, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, onde a maior parte das terras da Prússia estava, a permissão para ser chamado “Rei na Prússia” e não “Rei da Prússia”. Tal permissão culminou com a proclamação do Reino da Prússia (em substituição ao Ducado da Prússia), com sua capital em Berlim, em 18 de janeiro de 1701, quando o Eleitor[5] Friedrich III se auto coroou Friedrich I, em Konigsberg, e o país se tornou uma das grandes potências de sua época, com maior influência nos séculos XVIII e XIX. A partir daí Brandenburgo, embora ainda teoricamente parte do Sacro Império Romano, devendo obediência ao Imperador, passou a ser tratado na prática como parte do Império da Prússia. Friedrich I e sua segunda esposa, Sophia Charlotte de Hanover, irmã de George I da Inglaterra, fez da sua corte em Berlim uma miniatura de Versailles, onde o francês era a primeira língua, a etiqueta francesa era seguida com rigor e o rei desfilava em sapatos vermelhos de saltos altos e uma longa cabeleira para esconder sua corcunda, desperdiçando dinheiro como água e imitando ao máximo Louis XIV. O estado prussiano cresceu em esplendor durante o reinado de Friedrich I, que patrocinou as artes às custas do tesouro. 
Friedrich Wilhelm I, o austero Rei Soldado
Friedrich I foi sucedido por seu filho, Friedrich Wilhelm I (que reinou de 1713 a 1740), o austero "Rei Soldado", que transformou seu reino numa autocracia militar, dando à Prússia sua duradoura reputação. Aumentou de forma significativa o tamanho do exército prussiano e reconstruiu a organização do Estado em torno de um exército profissional permanente, um dos mais poderosos da Europa, embora suas tropas apenas brevemente tivessem entrado em ação durante a Grande Guerra do Norte. Tendo em vista o tamanho do exército em relação à população total, Mirabeau diria mais tarde: A Prússia, não é um estado com um exército, mas um exército com um Estado. No tratado de Estocolmo, de 1720, adquiriu a metade da Pomerânia sueca.
O rei Friedrich Wilhelm I morreu em 1740 e foi sucedido por seu filho, Friedrich II (que reinou entre 1740 e 1786), cujas realizações levaram a sua reputação ao título de "Friedrich II, o Grande". Como príncipe herdeiro, Friedrich II concentrou-se, principalmente, na filosofia e nas artes, mas usou os recursos e o exército herdado de seu pai para tornar a Prússia uma das principais potências da Europa ao final do século XVIII. Em dezembro de 1740 ele invadiu e tomou a província austríaca da Silesia, a mais rica da Monarquia de Habsburgo, precipitando a “Guerra da Sucessão Austríaca” (1740-1748)[6]. A Silesia, repleta de solos ricos e cidades prósperas com fábricas, se tornou uma região vital para a Prússia, aumentando grandemente a área, população e riqueza do país. Ao final da “Guerra dos Sete Anos” (1756-1763)[7] o território prussiano incluía a Silesia, principal causa da iniciada rivalidade e conflitos de mais de um século entre Áustria e Prússia, os dois estados mais poderosos dentro do Sacro Império Romano-Germânico (embora, ironicamente, ambos tivessem extenso território fora do império), até 1866. 
Friedrich II, o Grande, rei da Prússia (1740-1786)
Foi durante o seu reinado e seu formidável gênio militar, que a Prússia anexou a Prússia Real Polonesa, assim ligando seu reino da Prússia, ao leste, com Brandenburgo e o corpo principal de suas possessões germânicas no oeste. Assim, a nação que consistia das províncias de Brandenburgo, Pomerânia, Danzig, Prússia Ocidental e Prússia Oriental, tornou-se a maior potência da Europa e teve uma grande influência em muitos assuntos internacionais.
Durante os últimos anos de seu reinado, Friedrich II abriu as fronteiras da Prússia aos imigrantes que fugiam da perseguição religiosa em outras partes da Europa, como os huguenotes. A Prússia tornou-se um refúgio seguro, da mesma forma que os Estados Unidos receberam imigrantes em busca da liberdade no século XIX. Friedrich, o Grande, o primeiro "Rei da Prússia", praticou o despotismo esclarecido. Ele introduziu um código civil geral, aboliu a tortura e estabeleceu o princípio de que a Coroa não iria interferir em assuntos de justiça. Ele também promoveu um ensino secundário superior, precursor do sistema (escola de gramática) que preparava os alunos mais brilhantes para os estudos universitários. O sistema de ensino prussiano foi imitado em vários países, incluindo os Estados Unidos.
Friedrich II, o Grande, foi sucedido no trono, em 1786, por Friedrich Wilhelm II, que foi, por sua vez, sucedido por Friedrich Wilhelm III, o rei das “Guerras Napoleônicas”, em 1797, e a elas dedicaremos um capítulo especial, por sua importância na formação do futuro estado da Alemanha.

[1] Os primeiros eslavos compreendiam um grupo diverso de sociedades tribais que viveram durante o período migratório e o início da Idade Média europeia, entre os séculos V e X, que indiretamente criaram as fundações para as nações eslávicas da atualidade. A primeira menção escrita do nome eslavo, data do século VI, quando as tribos eslávicas ocupavam uma vasta área da Europa leste central. Pelos dois séculos seguintes, os eslavos se espalharam mais, em direção aos Balcãs e os Alpes, ao sul e oeste e em direção ao rio Volga, no norte e leste.
[2] O Vístula é o mais longo rio da Polônia, com 1.047 km, e sua bacia hidrográfica banha cerca de 194 mil km², ou quase dois terços da superfície da Polônia. Ele tem a sua nascente nos Beskides (cadeia montanhosa entre o nordeste da República Checa, o noroeste da Eslováquia, o sul da Polônia e o oeste da Ucrânia, fazendo parte dos Cárpatos) ocidentais, na alta Silésia, a 1.106 metros de altitude escoando pela Polônia antes de desembocar no Mar Báltico, perto de Gdansk.
[3] A Burzeland é uma área histórica e etnográfica no sudeste da Transilvânia, Romênia, com uma população mista de romenos, alemães e húngaros. Situa-se nas cadeias de montanhas dos Cárpatos do Sul; sua cidade mais importante é Brasov.
[4] A Confederação Prussiana foi uma organização formada em 1440 por um grupo de 53 nobres e clérigos e 19 cidades, na Prússia, que se opuseram à Ordem Teutônica. Em 1454, o líder da confederação, Hans von Baysen, pediu formalmente a Casimiro IV, Rei da Polônia, para incorporar a Prússia ao Reino da Polônia. Isto marcou o início da Guerra dos Treze Anos (1454-1466), travada entre o vitorioso Reino da Polônia e a derrotada Ordem Teutônica. A guerra foi terminada pela Paz de Torun.
[5] Os príncipes-eleitores (ou simplesmente eleitores) do Sacro Império Romano, eram os membros do colégio eleitoral deste Império, que possuíam, desde o século XIII, o privilégio de eleger o Rei dos Romanos ou, a partir do meio do século XVI, diretamente o Sacro Imperador Romano. O herdeiro aparente de um príncipe-eleitor secular ficou conhecido como um príncipe eleitoral. A dignidade do Eleitor possuía grande prestígio e era o segundo após o Rei ou Imperador.
[6]Conflito europeu causado pela “Pragmática Sanção”, segundo a qual o imperador Carlos VI pretendeu legar o Sacro Império Romano à filha, Maria Teresa da Áustria. A guerra, desencadeada após a morte do imperador do Sacro Império Romano, Carlos VI, foi motivada pela ambição da Prússia, da Baviera e da Espanha. O fim definitivo da guerra foi selado pelo Tratado de Aquisgrão.
[7] Foi uma série de conflitos internacionais ocorridos durante o reinado de Luís XV, entre a França, a Monarquia de Habsburgo e seus aliados (Saxônia, Império Russo, Império Sueco e Espanha), de um lado, e a Inglaterra, Portugal, o Reino da Prússia e Reino de Hanôver, de outro. A guerra deu continuidade a disputas não apaziguadas pelo Tratado de Aquisgrão e foi desencadeada por vários fatores: preocupação das potências europeias com o crescente prestígio e poderio de Friedrich II, o Grande, Rei da Prússia; as disputas entre a Monarquia de Habsburgo e o Reino da Prússia pela posse da Silésia; e a disputa entre a Grã-Bretanha e a França pelo controle comercial e marítimo das colônias das Índias e da América do Norte. Também foi motivada pela disputa por territórios situados na África, Ásia e América do Norte.