Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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sábado, 4 de junho de 2016

ORIGEM E FORMAÇÃO DA ALEMANHA (PARTE 4)

A REVOLUÇÃO ALEMÃ DE 1918

Rosa Luxemburgo a socialista judia
polonesa naturalizada alemã.
Por volta de 1900 a socialdemocracia alemã era considerada líder do movimento internacional dos trabalhadores. Nos congressos europeus da Segunda Internacional Socialista, o SPD sempre aprovava as resoluções, que previam uma ação conjunta dos socialistas em casos de declarações de guerras. Mesmo durante a crise de julho que se seguiu ao assassinato em Sarajevo, ele organizou - como também outros partidos socialistas na Europa - grandes manifestações antiguerra. Rosa Luxemburgo, porta-voz da esquerda do partido, conclamou, em nome de todo o SPD, a rejeição à guerra e à obediência. Por isso, o governo imperial planejou a prisão dos líderes do partido imediatamente após o início das hostilidades. Friedrich Ebert, um dos dois líderes do partido desde 1913, viajou, juntamente com Otto Braun, para Zurique, a fim de manter os fundos do partido a salvo do alcance do Estado.
Mas quando no dia primeiro de agosto de 1914, ocorreu a declaração de guerra alemã contra a Rússia czarista, a maioria dos jornais favoráveis ao SPD foi contagiada pelo entusiasmo geral pela guerra, por um lado, e porque o seu inimigo prioritário era a Rússia Imperial. Suas reportagens foram severamente criticadas pela liderança do partido, mas os editores acreditavam, nos primeiros dias de agosto, estar seguindo a linha política do presidente do SPD, August Bebel, falecido em 1913. Ele havia dito ao Reichstag em 1904 que o SPD tomaria parte na defesa armada da Alemanha no caso de uma guerra de agressão estrangeira. Em 1907 confirmou, na convenção Essen, que ele mesmo "carregaria a arma em suas costas" caso a guerra fosse contra a Rússia czarista, o "inimigo de toda a cultura e todos os oprimidos".
Tendo em vista a disposição da população, que acreditava em um ataque pelas potências da Entente, muitos deputados do SPD temiam se afastar de seus eleitores devido a seu pacifismo coerente. Além disso, havia a ameaça de uma proibição dos partidos, planejada pelo chanceler do Reich Theobald von Bethmann Hollweg em caso de uma guerra. Por outro lado, o chanceler tirou proveito do posicionamento anticzarista do SPD para obter o seu consentimento para a guerra.
Karl Liebknecht, camarada revolucionário
assassinado com Rosa Luxemburgo.
A liderança do partido e o grupo parlamentar estavam divididos em seu posicionamento quanto à guerra. Com Friedrich Ebert, noventa e seis representantes responderam afirmativamente à exigência dos créditos de guerra pelo governo imperial; catorze parlamentares, liderados pelo segundo presidente Hugo Haase, se manifestaram contra, mas votaram a favor da disciplina partidária. Assim, todo o grupo parlamentar do SPD aprovou no dia 4 de agosto os créditos de guerra. Dois dias antes, os Sindicatos Livres já tinham decidido uma abdicação do direito de greve e dos salários para o tempo da guerra. Com a decisão do sindicato e do partido, tornou-se possível a mobilização total do exército alemão. Mesmo Karl Liebknecht, que mais tarde tornou-se um símbolo do pacifismo, curvou-se, inicialmente, às decisões do partido. No entanto, alguns dias mais tarde, ele juntou-se ao Grupo Internacional, fundado por Rosa Luxemburgo em 5 de agosto de 1914, que posicionou-se contrariamente à guerra anteriormente defendida pelo SPD. Tal grupo deu origem à “Liga Espartaquista”, fundada no dia 1 de janeiro de 1916.
Quanto mais tempo a guerra durava e quanto mais sacrifícios exigia, menor era o número de membros do SPD dispostos a manter a "trégua" de 1914; principalmente por que, a partir de 1916, o imperador e o governo do Reich não mais decidiam as diretivas da política alemã, agora dominada pelo alto comando de guerra sob os generais Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, que governavam como ditadores militares.
Depois da eclosão da Revolução Russa, em fevereiro de 1917, ocorreram na Alemanha as primeiras greves organizadas. Em março e abril de 1917 participaram cerca 300.000 trabalhadores da indústria de armamento. O imperador Wilhelm II tentou acalmar os participantes da greve com sua mensagem de Páscoa do dia sete de abril, prometendo eleições gerais e igualitárias também para a Prússia, onde ainda vigorava o sufrágio de três classes.
Depois da expulsão dos opositores do SPD à guerra, revisionistas como Eduard Bernstein e centristas como Karl Kautsky, juntamente com os espartaquistas, reagiram ao descontentamento entre os trabalhadores. Em uma conferência entre seis e oito de abril de 1917 fundaram, na cidade de Gotha, o “Partido Independente Social-Democrático da Alemanha” (USPD) com Hugo Haase, que exigia o término imediato da guerra e a democratização da Alemanha, mas não possuía um programa sócio-político unificado. A Liga Espartaquista, que até então recusava uma divisão do partido, formou a ala esquerda da USPD. E, para bem identificar a separação, o SPD passou a denominar-se, a partir daí até 1919, como “Partido Majoritário Social Democrata da Alemanha” (MSPD).
Manifestação de revolucionários em Berlim, 09/11/1918
A Revolução Alemã de 1918-1919 foi uma série de eventos que ocorreram naqueles anos e que marcou o final da Primeira Guerra Mundial. Tal Revolução culminou com a derrubada do Kaiser, a abolição da monarquia no Reich Germânica e o estabelecimento de uma república democrática parlamentarista. Liderada por Rosa Luxemburgo, a Liga Espartaquista, teve importante papel na revolução, apesar de o evento não se resumir à sua atuação. À semelhança da Comunista Russa, a Revolução Alemã aproveitou a aguda crise econômica causada pela Primeira Guerra Mundial e a derrota do Império Germânico no conflito. Com a Revolução, os comunistas conseguiram controlar a região da Baviera, no sul da Alemanha, onde fundaram uma República Socialista e tentaram expandir o movimento. Assim como na Rússia, aboliram a propriedade privada dos latifúndios e das fábricas na República Socialista da Baviera. No entanto, este foi um governo revolucionário de vida efêmera que acabou sendo sufocado pelo governo socialdemocrata, através do grupo paramilitar Freikorps, que retomou o controle, suprimindo a extrema esquerda, liderada pela Liga Espartaquista. A revolução foi formalmente encerrada no dia 11 de agosto de 1919 com a aprovação da nova “Constituição de Weimar”, com as funções do Kaiser sendo transmitidas ao Reichspräsident (Presidente do Império, em tradução literal) da “República de Weimar” que teve, ao todo, três monarcas.
Com a abdicação e fuga de Wilhelm II como Imperador do Império Germânico e Rei da Prússia, ao fim da Segunda Grande Guerra, a Prússia foi proclamada “Estado Livre”, ou seja, uma República (Freistaat, em alemão) dentro da nova República de Weimar e, em 1920, recebeu uma constituição democrática.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Quase todas as perdas territoriais do Império Germânico, para outros estados, durante a Primeira Grande Guerra e especificadas no Tratado de Versalhes, pertenciam anteriormente ao território da Prússia e, com isso, a Prússia Oriental tornou-se um exclave (território externo ao território nacional), apenas acessível por barco ou por uma estrada de ferro através do “corredor polonês”.
O governo alemão considerou, inicialmente, quebrar a Prússia em estados menores, mas o sentimento tradicionalista prevaleceu e a Prússia se tornou, de longe, o maior estado da República de Weimar, compreendendo 60% do seu território. De 1919 a 1932, a Prússia foi governada por uma coalizão dos partidos socialdemocrata, Centro Católico e democrata alemão. De 1921 a 1925, os governos de coalizão incluíram o Partido Popular Alemão. Ao contrário de outros estados do Reich Alemão[1], a regra da maioria dos partidos democráticos na Prússia nunca foi posta em perigo. No entanto, na Prússia Oriental e algumas áreas industriais, o Partido Nazista de Adolf Hitler ganhou mais e mais influência e apoio popular, especialmente a partir das classes mais baixas e médias, em 1930. Com exceção da região católica da Alta Silésia, o Partido Nazista, em 1932, tornou-se o maior partido na maior parte do Estado Livre da Prússia. No entanto, os partidos democráticos em coalizão permaneceram a maioria, enquanto os comunistas e os nazistas estavam na oposição. 
Chanceler Franz von Papen, em 1936
Em contraste com seu autoritarismo do pré-guerra, a Prússia era um pilar da democracia na República de Weimar. Tal sistema, entretanto, foi destruído pelo "golpe prussiano" do chanceler do Reich, Franz von Papen. Neste golpe de Estado, o governo do Reich depôs o governo da Prússia em 20 de julho de 1932, sob o pretexto de que este último havia perdido o controle da ordem pública na Prússia, forjando provas de que os socialdemocratas e os comunistas planejavam um golpe em conjunto. Papen nomeou a si mesmo comissário do Reich para a Prússia e assumiu o controle do governo facilitando, apenas meio ano depois, a tomada do poder, de forma decisiva, por Hitler, no Império Germânico, já que ele tinha todo o aparato do governo prussiano, incluindo a polícia, à sua disposição.
A Prússia foi efetivamente abolida em 1932 e o Estado que a assimilou, a República de Weimar, perdeu quase toda a importância jurídica e política que a Prússia havia conquistado. Posteriormente, as velhas elites prussianas acabaram por desempenhar um papel passivo com a criação da Alemanha nazista.
Adolf HItler, 1938, que suicidou-se em
1945 para escapar dos crimes cometidos
Após a nomeação de Adolf Hitler como o novo chanceler do Império Germânico pelo Presidente Paul Von Hindenburg, em 1933, os nazistas usaram a ausência de Franz von Papen como a oportunidade para nomear o comissário federal e Hermann Göring para o Ministério Prussiano do Interior. A eleição do Reichstag de 5 de março de 1933 reforçou a posição do Partido Nazista[2], apesar de não alcançar uma maioria absoluta.
Em uma reunião cheia de propaganda entre Hitler e o Partido Nazista, o "casamento da velha Prússia com os jovens alemães" foi celebrado, para conquistar os monárquicos, conservadores prussianos e nacionalistas e induzi-los a votar a favor da Lei de Concessão de 1933[3]. Com isso, Hitler rapidamente estabeleceu o regime totalitário conhecido como o Terceiro Reich.
No Estado centralizado criado pelos nazistas pela "Lei sobre a Reconstrução do Reich" (30 de janeiro de 1934) e a "Lei de Governadores do Reich" (30 de janeiro de 1935) os estados foram dissolvidos de fato, se não de direito. Os governos estaduais e federais passaram a ser controlados pelos governadores para o Reich, nomeados pelo chanceler. Paralelamente a isso, a organização do partido nos distritos ganhou cada vez mais importância, com um oficial no comando, também nomeado pelo chanceler, ao mesmo tempo chefe do Partido Nazista.
Na Prússia, esta política centralista foi ainda mais longe. Desde 1934 quase todos os ministérios foram fundidos e apenas alguns departamentos foram capazes de manter a sua independência. Hitler tornou-se, formalmente, o governador da Prússia, coadjuvado por Hermann Göring, primeiro-ministro da Prússia. Conforme previsto na "Grande Lei de Hamburgo", algumas trocas de territórios ocorreram. A Prússia foi estendida em 1º de abril de 1937, por exemplo, pela incorporação da Cidade Livre e Hanseática de Lübeck.
Oficialmente, o início da Segunda Guerra Mundial é tido como 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha e Rússia, com a subsequente declaração de guerra da Grã-Bretanha e França contra a Alemanha dois dias após. Também não existe concordância quanto à data exata do final da Segunda Guerra Mundial. O seu final é geralmente aceito como o dia do armistício, 14 de agosto de 1945, ao invés do dia da rendição formal do Japão em 2 de setembro de 1945. Novamente, tendo em vista os objetivos desta nossa postagem, não trataremos da Segunda Grande Guerra, como um assunto em si, mas apenas como mais um fator importante na formação do estado da Alemanha.
Inicialmente cabe dizer que, evidentemente, as terras prussianas transferidas para a Polônia pelo Tratado de Versalhes, foram reanexadas durante a Segunda Guerra Mundial, quando Terceiro Reich levava vantagem no conflito. À mesma época, em 1940, a Prússia foi legalmente abolida pelo Terceiro Reich.
Na Conferência de Potsdam[4], ocorrida entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, após a rendição incondicional do Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial, em 8 de maio de 1945, os Aliados dividiram a “Zona de Ocupação Alemã” em quatro zonas de ocupação militar: a França no sudoeste, a Grã-Bretanha no noroeste, os Estados Unidos no sul e a União Soviética no leste, surgindo os dois grandes blocos, o Oriental, sob ocupação dos soviéticos e o Ocidental, sob administração dos Aliados. A Alemanha não voltou a recuperar sua independência senão em 1949.
De acordo com a “Aliança de Época de Guerra” e a “Divisão Zonal da Alemanha”, os soviéticos ocupariam a área definida pela Zona Soviética final aprovada por Potsdam, de acordo com todo o território germânico no ano de 1937, a leste da Linha Oder-Neisse. Da mesma forma, o derrotado Terceiro Reich deveria ser tratado como a área dentro de suas fronteiras em 31 de dezembro de 1937, significando que todo a expansão nazista de 1938 a 1945 (período da Segunda Guerra Mundial) fosse declarada inválida. Tal expansão incluiria a Cidade-Estado de Danzig, administrada pela Liga das Nações, Áustria, o território ocupado da Czechoslovakia, Alsácia-Lorena, Luxemburgo, Prússia Oriental, o norte da Eslovênia e outros territórios menores. As províncias germânicas a leste da linha do Oder – Neisse que estavam formalmente dentro dos limites territoriais do Terceiro Reich em 1937, (Prússia Oriental, Leste da Pomerânia e Silésia) foram removidas pelo Acordo de Potsdam. Essas áreas, com exceção do Norte da Prússia Oriental (que foi administrativamente entregue à União Soviética), foram requisitadas pelos poloneses como “Territórios Recuperados” e assim colocados sob a administração da Polônia, aguardando um tratado de paz definitivo, que apenas foi formalizado em 1990, 45 anos mais tarde, com a queda da União Soviética.
A parte norte da Prússia Oriental foi colocada sob administração soviética pelo Acordo de Potsdam que sancionou definições administrativas de vários territórios da Alemanha Oriental à Polônia e União Soviética alterando as fronteiras do que tinha sido a Alemanha antes da guerra, para o oeste. 
Perdas sofridas pela Alemanha com a Segunda Grande Guerra
Com essas divisões, a Prússia Ocidental e a Prússia Oriental ficaram divididas pela Polônia e a União Soviética. O velho Distrito de Rosenberg tornou-se então parte do Distrito de Itawa da Polônia. Todas as cidades, daí para a frente, tiveram sua nomenclatura alterada para nomes poloneses. A Prússia Oriental perdeu toda a sua população alemã depois de 1945, quando a Polônia e a União Soviética anexaram seu território. Desde então, a área está dividida entre o norte polonês (a maioria da Varmia-Masuria), o território externo russo de Kaliningrado e o sudoeste da Lituânia (na região da Klaipeda).
O pretendido corpo governamental da Alemanha foi chamado “Conselho de Controle Aliado”. Os comandantes em chefe exerceram suprema autoridade em suas respectivas zonas e atuaram em concerto nas questões que afetavam o país como um todo. Berlim, que se situava no setor soviético (oriental), foi também dividido em quatro setores, com os setores ocidentais constituindo, posteriormente, Berlim Ocidental e o setor soviético tornando-se Berlim Oriental, capital da Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha).
Como parte de seus objetivos de guerra, os aliados ocidentais procuraram a extinção da Prússia, com Stalin inicialmente favorável à manutenção daquele nome. Finalmente, a Lei nº 46 de 25 de fevereiro de 1947, do Conselho de Controle Aliado, um grupo formado após a Segunda Guerra Mundial para resolver questões relacionadas à Alemanha, proclamou, formalmente, a dissolução do Estado da Prússia.


[1] O Reich (literalmente Reino), foi sempre o nome dado ao território ou governo do estado germânico, como o Sacro Império Romano Germânico ou Primeiro Reich, de 962 a 1806; o Império Germânico ou Segundo Reich, de 1871 a 1919; a República de Weimar, de 1919 a 1933; ou o Terceiro Reich, de 1933 a 1945.
[2] O Partido Nacionalista Socialista Germânico dos Trabalhadores (PNSGT), comumente referido como Partido Nazista, foi um partido político do Império ativo entre 1920 e 1945, que teve como predecessor o Partido Germânico dos Trabalhadores, que existiu entre 1919 e 1920. O partido emergiu do grupo paramilitar Freikorps, que lutou contra os levantes comunistas do após Primeira Guerra Mundial no Império. O partido foi criado como forma de afastar os trabalhadores do comunismo e atraí-los para o nacionalismo popular. Inicialmente, a estratégia política nazista focou na oposição aos grandes negócios, à burguesia e à retórica capitalista, embora tais aspectos fossem posteriormente camuflados para ganhar o apoio das entidades industriais e, na década de 1930, passou a focar nos temas antissemita e antimarxista.
[3] A Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933 (ou Lei Habilitante) foi aprovada pelo Reichstag e assinada pelo Presidente Paul von Hindenburg em 23 de março de 1933, como o maior passo para conceder ao chanceler Adolf Hitler, legalmente, plenos poderes, estabelecendo assim a sua ditadura. A Lei foi aprovada graças aos votos decisivos do Partido do Centro Católico. O Partido Nazi e o Partido Popular Nacional Alemão (coligado aos nazistas) formavam 52% do Reichstag, mas tal percentagem não era suficiente para aprovar a Lei Habilitante, que só poderia ser aprovada por 67% do Reichstag. Hitler negociou com o Partido do Centro Católico (Zentrum), para que seus membros votassem em favor da Lei. O Zentrum e a Igreja Católica (que chefiava o Zentrum) concordaram, desde que governo alemão assinasse uma Concordata (tratado internacional celebrado entre a Santa Sé e um Estado, usualmente com a finalidade de assegurar direitos dos Católicos ou da Igreja Católica naquele Estado ou vincular o Papado ao Estado governado pelo soberano) com o Papa.
[4] A Conferência de Potsdam teve lugar no Castelo de Cecilienhof, lar do Príncipe herdeiro Wilhelm Hohenzzolern, em Potsdam, Brandenburg, Alemanha ocupada, e é algumas vezes referida como Conferência de Berlim dos Três Chefes de Estado da URSS (União Soviética), USA (Estados Unidos) e UK (Reino Unido), respectivamente representados pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Joseph Stalin, Presidente Harry S. Truman e Primeiro Ministro Winston Churchill (mais tarde substituído por Clement Attlee). Stalin, Truman e Churchill reuniram-se para decidir a administração da Alemanha Nazista, que se rendera incondicionalmente nove semanas antes. Os objetivos da Conferência incluíram o estabelecimento da ordem pós-guerra, questões do tratado de paz e a avaliação dos efeitos da guerra.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 5)

VII.2 – A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO OU REVOLUÇÃO VERMELHA

As manifestações, enormes, mas desorganizadas e sem nenhuma direção política, haviam falhado em seu objetivo de implantar um governo soviético, ante a negativa dos dirigentes socialistas moderados do Soviete de Petrogrado em tomar o poder e a ausência de uma direção política alternativa dentro do soviete. Os protestos haviam sido a expressão do descontentamento popular e do desejo da formação de um governo exclusivamente socialista, que aplicasse um programa de reformas radicais que incluísse a saída da Rússia da guerra, mudanças no programa econômico e a solução dos graves problemas que assolavam o país. Os bolcheviques se viram forçados a participar dos protestos por conta de um descontentamento popular que não podiam controlar. Para uma parte cada vez maior da população, a coalizão com as forças da burguesia havia fracassado ao não servir para satisfazer seus anseios por reformas fundamentais. Nas províncias, onde o apoio ao Governo Provisório e à coalizão com os liberais era maior, a população começou a demonstrar seu descontentamento nas semanas seguintes aos protestos ocorridos na capital, atitude que foi subestimada pelos socialistas moderados.
Kerensky, chefe do Governo Provisório
da Rússia, em 1917, durante a revolução.
Por seu lado, as classes médias e altas reagiram aos protestos de julho endurecendo sua posição e se negando cada vez mais a realizar novas concessões políticas ou econômicas, o que complicou ainda mais as relações entre socialistas e burgueses.
A crise de governo foi intensificada pela renúncia do Primeiro Ministro Lvov em favor do seu Ministro da Guerra, advogado Alexander Kerensky, do Partido Social-Revolucionário (apesar do nome, essa era uma agremiação política moderada), que gozava de uma certa popularidade, em 21 de julho. O líder dos Revolucionários Socialistas e Mencheviques dos Sovietes declarou que o Governo Provisório se autoconcedia poderes ilimitados. Os sovietes se tornaram um apêndice, sem poder, do governo. O encerramento das demonstrações marcou o fim do poder duplo e o desenvolvimento pacífico da revolução passou a ser visto como impossível.

KERENSKY

Alexander Fyodorovich Kerensky (02/05/1881–11/06/1970) nasceu em Simbirsk (agora Ulyanovsk), no rio Volga, de Fyodor Kerensky, um professor (foi professor de Lenin, amigo de Kerensky) e diretor do ginásio local e de Nadezhda, filha de um nobre russo germânico. Casado com Olga Lvovna Baranovskay, filha de um general russo, foi um advogado e político russo e segundo Premier do Governo Provisório Russo, de julho a novembro de 1917. Foi líder da fação socialista moderada do Partido Revolucionário Socialista e figura chave da Revolução Russa. Trabalhou como conselheiro legal das vítimas da Revolução de 1905 e ao final do ano foi preso como suspeito de pertencer a um grupo militante. Em 1º de novembro de 1916, na abertura da Duma, Kerensky chamou os ministros de “assassinos de aluguel” e “covardes”, dizendo que eram “guiados pelo desprezível Grishka Rasputin”. Quando a Revolução eclodiu em 1917, foi um dos mais proeminentes líderes, como membro do Comitê Provisório da Duma, vice-presidente do Soviete Petrogrado e ministro da justiça no recém-formado Governo Provisório pós-imperial e democrático de Georgy Lvov. Quando o Soviete passou uma resolução proibindo seus membros de se unirem ao Governo, Kerensky dirigiu um comovente discurso ao Soviete; embora a decisão nunca tenha sido formalizada, ele obteve uma exceção de facto e continuou a atuar nas duas posições. Ao final de maio, já como Ministro da Guerra, Kerensky foi à frente de batalha visitando todas as divisões e convocando os homens ao seu dever em discursos fortes e convincentes, mas de pouco efeito duradouro. Sob a pressão aliada para continuar na Guerra, lançou o que ficou conhecido como Ofensiva Kerensky contra o exército Austro-Húngaro/Alemão do sul, no final de junho. Inicialmente vitorioso, a ofensiva foi logo bloqueada e então forçada a recuar por um forte contra-ataque. O exército russo sofreu pesadas perdas e, pelos muitos incidentes de deserção, sabotagem e motins, ficou clara a total falta de vontade de atacar. Após os “Dias de Julho” e a supressão dos Bolcheviques, Kerensky sucedeu a Lvov como Primeiro Ministro da Rússia e com o caso Kornilov e a renúncia de outros ministros autonomeou-se, também, Comandante em Chefe do Exército. Kerensky manteve suas obrigações para com seus aliados da Primeira Guerra, sabendo que a economia tornar-se-ia totalmente inviável e o dilema da retirada aumentou. Além disso, adotou uma política que isolou os conservadores da ala direita, democratas e monarquistas. Sua filosofia de “sem inimigos à esquerda”, fortificou os bolcheviques, permitindo-lhes tomar o braço militar dos Sovietes Petrogrado e Moscou. Quando prendeu Kornilov e outros oficiais ficou sem aliados de força contra os bolcheviques que se tornaram os seus mais fortes e determinados adversários. Levou menos de 20 horas para os bolcheviques, liderados por Lenin, tomarem o seu governo em 7 de novembro. Kerensky fugiu para Pskov onde liderou algumas tropas leais para retomar a cidade, em vão. Mal conseguiu escapar, escondendo-se para finalmente chegar à França. Permaneceu no exílio pelo resto de sua vida, morrendo em New York com a idade de 89 anos e foi enterrado na Inglaterra.

Este novo governo se deteriorou rapidamente, devido à insistência de Kerensky em continuar a guerra contra a Alemanha, apesar dos anseios de paz da população e da impossibilidade de a Rússia poder sustentar um conflito militar de tais proporções. O processo de desintegração do Estado russo continuava. A comida era escassa, a inflação bateu a casa dos 1.000%, as tropas desertavam da frente matando seus oficiais, propriedades da nobreza latifundiária eram saqueadas e queimadas. Nas cidades, conselhos operários eram criados na maioria das empresas e fábricas.
As medidas repressivas do novo governo de Kerensky foram limitadas e ineficazes, não conseguindo reestabelecer a ordem totalmente. O envio das unidades da guarnição, que tiveram maior envolvimento nos protestos, à frente de combate se deu apenas parcialmente e a população não foi desarmada.
Em agosto de 1917, enquanto Lenin se encontrava na Finlândia, o General Lavr Kornilov[1], enviou tropas para Petrogrado no que pareceu ser uma tentativa de golpe contra o Governo Provisório. O Premier Kerensky voltou-se ao Soviete Petrogrado – incluindo seus membros bolcheviques – por ajuda, armando os revolucionários e permitindo-lhes organizar trabalhadores como “Guardas Vermelhos”, para defender a cidade. O golpe enfraqueceu antes de alcançar Petrogrado; contudo, os eventos haviam permitido aos bolcheviques retornar à arena política aberta. Temendo uma contrarrevolução de forças da direita hostis ao socialismo, os mencheviques e revolucionários socialistas, que então dominavam o Soviete Petrogrado, tentaram pressionar o governo para normalizar relações com os bolcheviques. Entretanto, mencheviques e revolucionários socialistas haviam perdido muito apoio popular por sua afiliação com o Governo Provisório e sua condição impopular na Grande Guerra. No começo de setembro, após o fracassado golpe de Estado de Kornilov, o partido de Lenin havia se recuperado completamente do fracasso das manifestações de julho.
O governo Kerensky não consegue mais se manter isolado das principais facções em luta e da Finlândia, onde se havia exilado, Lenin coordena os preparativos para aprofundar a revolução, passando a exigir a tomada imediata do poder, enquanto a Organização Militar Bolchevique, temerosa em repetir o fracasso de julho, defendia que o golpe fosse preparado de forma minuciosa.
Os bolcheviques ingressam em massa nos sovietes e Trotsky é eleito presidente do Soviete Petrogrado. A Guarda Vermelha, uma milícia popular, foi criada nas fábricas para ser o braço armado dos bolcheviques. Lenin entra clandestinamente na Rússia e convence o comando bolchevique a encampar a ideia de revolução. Em setembro, os bolcheviques ganham a maioria nas secções dos trabalhadores dos Sovietes Moscou e Petrogrado. Algumas medidas foram tomadas em vão, como as tentativas de dissolver o partido bolchevique e suas organizações dependentes, apesar da prisão de alguns de seus dirigentes.

TROTSKY

Leon Trotsky, nascido Lev Davidivich Bronshtein (26/10/1879 – 21/08/1940), foi um revolucionário e teorista marxista, político soviético e fundador e primeiro líder do Exército Vermelho.
No início de 1897, Trotsky ajudou a organizar a União dos Trabalhadores do Sul da Rússia. Em janeiro de 1898, ele e mais de 200 membros da União foram presos e por dois anos aguardaram julgamento. Na prisão de Moscou fez contato com outros revolucionários e pela primeira vez ouviu falar em Lenin e seus livros, tornando-se um marxista e passando a identificar-se com o POSDR. Em 1900 foi sentenciado a quatro anos de exílio na Sibéria, com a esposa Aleksandra, com quem tinha casado na prisão, e lá tiveram duas filhas. Em 1902 fugiu da Sibéria para Londres (onde manteve contato com Lenin também exilado) e logo separou-se de sua esposa, casando-se em seguida, mas permaneceram amigos. Suas filhas morreram diante dos pais e sua esposa foi assassinada em 1938 por forças stalinistas. Voltou à Rússia durante a Revolução de 1905 e no ano seguinte, foi preso e deportado, passando por diversos países e chegando finalmente aos Estados Unidos, onde recebeu a notícia da revolução de fevereiro de 1917. Trotsky, que inicialmente apoiara a facção menchevique do POSDR, uniu-se aos bolcheviques imediatamente antes da Revolução de Outubro, acabando por tornar-se um de seus líderes. Junto com Lenin, Zinoviev, Kamenv, Stalin, Sokolnikov e Bubnov, foi um dos sete membros do primeiro Politburo (o Politburo do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética foi o máximo órgão de governo e direção do Partido Comunista nos períodos intercongressos e era formado pelos principais membros do Comité Central e, na teoria, sujeito à sua disciplina. Na prática, o Politburo funcionava como o órgão principal de tomada de decisões políticas e o seu controle sobre o partido e sobre o Estado era quase absoluto) fundado em 1917 para gerenciar a Revolução Bolchevista. Durante os primeiros dias da República Federativa Socialista Soviética Russa (RFSSR) e da União Soviética serviu, primeiro, como Comissário do Povo para as Relações Exteriores e mais tarde como fundador e comandante do Exército Vermelho, com o título de Comissário do Povo dos Assuntos Navais e Militares. Foi figura importante na vitória bolchevique na Guerra Civil Russa (1918-1921) e tornou-se um dos primeiros membros do Politburo (1919-1926). Após liderar um conflito fracassado da oposição de esquerda contra as políticas e a ascensão de Stalin na década de 1920, e contra o papel crescente da burocracia na União Soviética, Trotsky foi removido do poder em outubro de 1927, expulso do Partido Comunista em novembro de 1927 e, finalmente, exilado da União Soviética, em fevereiro de 1929. Basicamente, Trotsky propugnava a expansão da revolução por outros países, enquanto Stalin formulava a doutrina do socialismo em um país único. Como presidente da Quarta Internacional, Trotsky continuou no exílio como opositor da burocracia stalinista na União Soviética. Por ordem de Stalin, foi assassinado no México, em agosto de 1940, por Ramon Mercader, um agente soviético espanhol. As ideias de Trotsky formaram a base do trotskysmo, escola importante do pensamento marxista que se opõe às teorias do stalinismo. Foi uma das poucas figuras políticas soviéticas que não foram reabilitadas pelo governo sob Nikita Khrushchev, na década de 1950. Ao final da década de 1980 seus livros foram liberados para publicação na União Soviética.

De setembro a outubro, a ofensiva militar contra os alemães, organizada por Kerensky (pressionado pelos aliados franco-britânicos) é derrotada. Milhares de soldados abandonam a frente, desertando em massa, terminando por engrossar as fileiras dos bolcheviques que prometiam paz imediata e distribuição das terras para os camponeses.
Em 6 de Outubro, com o avanço alemão ameaçando Petrogrado, o governo planejou evacuar a cidade. O Comitê Central foi contra e o plano foi abandonado. No dia 9, o Soviete votou a favor de um Comitê Militar Revolucionário (CMR) que o protegesse de possíveis golpes no estilo de Kornilov. Na prática, entretanto, esse comitê foi pouco mais que uma fachada para a atividade dos Guardas Vermelhos. Na noite de 21 de outubro, o CMR tomou o controle da guarnição de Petrogrado em nome da seção dos soldados do Soviete. O comandante do distrito, Coronel Polkovnikov, se recusou a ceder o comando, e foi condenado publicamente como "contrarrevolucionário".
A insurreição bolchevique começou em 24 de outubro, quando as forças contrarrevolucionárias tomaram medidas modestas para proteger o governo. O CMR enviou grupos armados para tomar as principais agências telegráficas e baixar as pontes sobre o rio Neva. A ação foi rápida e sem impedimentos.
O Governo Provisório não tinha mais condições de subsistir. Na madrugada do dia 25 de outubro, os bolcheviques liderados por Lenin, Zinoviev e Radek, com a ajuda de elementos anarquistas e Socialistas Revolucionários, cercaram a capital, onde estavam sediados o Governo Provisório e o Soviete de Petrogrado. Apoiados pelos principais regimentos de Petrogrado, pelos marinheiros da esquadra do Báltico e da Fortaleza de Kronstadt, e pelos Guardas Vermelhos (operários armados), tomam de assalto o Palácio de Inverno - sede do Governo Provisório. O mesmo acontece na maior parte do país, havendo apenas resistência maior em Moscou.
Um comunicado declarando o fim do Governo Provisório e a transferência do poder para o Soviete de Petrogrado foi emitida pelo CMR às 10 horas de 25 de outubro – de fato escrito por Lenin. À tarde, uma sessão extraordinária do Soviete de Petrogrado foi presidida por Trotsky. Ela estava cheia de deputados bolcheviques e socialistas de esquerda. O Segundo Congresso de Sovietes abriu naquela noite, escolhendo um Conselho de Comissários do Povo composto por três mencheviques e 21 bolcheviques e socialistas de esquerda que formaria a base de um novo governo. O Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado rejeitou a decisão daquele congresso e convocou os sovietes e o exército para defender a Revolução.
Muitos foram presos, mas Kerensky conseguiu fugir da Rússia. À tarde, numa sessão extraordinária, o Soviete de Petrogrado delegou o poder governamental ao Conselho dos Comissários do Povo, dominado pelos bolcheviques e chefiado por Lenin. O Comitê Executivo do mesmo Soviete de Petrogrado rejeitou a decisão dessa assembleia e convocou os sovietes e o exército a defender a Revolução contra o golpe bolchevique. Entretanto, os bolcheviques predominaram na maior parte das províncias de etnia russa. O mesmo não se deu em outras regiões, tais como a Finlândia, a Polônia e a Ucrânia.
Na noite do dia 26 de outubro o Congresso aprovou o Decreto da Paz, propondo a retirada imediata da Rússia da Primeira Guerra Mundial e o Decreto da Terra, que propunha a abolição da propriedade privada e a redistribuição de terras entre os camponeses. Os bolcheviques finalmente haviam tomado o poder. Os sovietes, controlados por eles, haviam se transformado no poder de fato da Rússia, dissolvendo e anulando o papel da Duma e o governo de Kerensky.
Em 3 de novembro de 1917, um esboço do Decreto sobre o Controle Operário foi publicado. Esse documento instituía a autogestão em todas as empresas com cinco ou mais empregados. Isto acelerou a tomada do controle de todas as esferas da economia por parte dos conselhos operários, e provocou um caos generalizado, ao mesmo tempo que acelerou ainda mais a fuga dos proprietários para o exterior. Até mesmo Emma Goldman[2] viria a reconhecer que as empresas que se encontravam em melhor situação eram justamente aquelas em que os antigos proprietários continuavam a exercer funções gerenciais. Entretanto, este decreto levou a classe trabalhadora a apoiar o recém-criado e ainda fraco regime bolchevique, o que possivelmente teria sido o seu principal objetivo. Durante os meses que se seguiram, o governo bolchevique procurou então submeter os vários conselhos operários ao controle estatal, por meio da criação de um Conselho Pan-Russo de Gestão Operária. Os anarquistas se opuseram a isto, mas foram voto vencido. 
Lenin, Trotsky e a instalação do primeiro Estado Socialista
Era consenso entre todos os partidos políticos russos a necessidade da criação de uma assembleia constituinte, única com autoridade para decidir sobre a forma de governo que surgiria após o fim do absolutismo. Uma imensa manifestação pacífica a favor da assembleia constituinte foi dissolvida à bala por tropas leais ao governo bolchevique. As eleições para essa assembleia ocorreram em condições caóticas, em janeiro de 1918, como planejado pelo Governo Provisório e, à exceção do Partido Constitucional Democrata, perseguido pelos bolcheviques, todos os outros puderam participar livremente. Os bolcheviques dominavam Petrogrado, Moscou, Minsk e Kiev — ou seja, os grandes núcleos urbanos da Rússia Europeia. Mas seu poder estava longe de ser estável nas vastidões do agonizante Império Russo. Assim, as eleições deram imensa maioria aos partidos não-bolcheviques. Em seguida Lenin publicou suas Teses Sobre a Assembleia Constituinte, onde ele defendia os sovietes como uma forma de democracia superior à assembleia constituinte. Até mesmo os membros do partido bolchevique compreenderam que se preparava o fechamento da assembleia constituinte, e a maioria deles foi contra, mas o Comitê Central do partido ordenou o acatamento da decisão de Lenin. Pouco a pouco, se tornou claro que os bolcheviques pretendiam criar uma ditadura para si, inclusive contra os partidos socialistas revolucionários. Comprovada a hostilidade da maioria dos deputados ao Conselho de Comissários do Povo, Lenin ordenou seu fechamento. Isto levou os outros partidos a atuarem na ilegalidade, sendo que alguns deles passariam à resistência armada ao governo.
A Revolução de Outubro triunfara. O poder dos sovietes, dirigidos pelo partido bolchevista, desde então denominado de comunista, foi efetivado. Leon Trotsky assume o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Josef Stalin o das Nacionalidades (Interior). A Revolução Russa era vitoriosa e instalava o primeiro Estado socialista do mundo.
Como consequência da vitória bolchevique teve início uma era de terror, com o fuzilamento sumário de milhares de pessoas, que incluíram o do czar Nicolau II e de toda a sua família. O novo governo, presidido por Lenin, adotou uma série de reformas radicais, baseadas no marxismo e executadas por meio da ditadura dos sovietes. O objetivo dos comunistas, não fora apenas derrubar o governo provisório. Pretenderam criar uma nova sociedade, baseada no socialismo, com a nacionalização das terras de propriedade da nobreza e da igreja e cessão, aos camponeses, do direito exclusivo de sua exploração. O controle das fábricas e dos meios de produção seria abolida e transferido aos operários, os estabelecimentos industriais expropriados pelo governo e os bancos nacionalizados.
Começava a ditadura comunista, com todos os seus desdobramentos: a paz com a Alemanha, a Guerra Civil entre Brancos e Vermelhos (1918-23), a socialização (freada temporariamente pela NEP — Nova Política Econômica), a luta pelo poder entre Trotsky e Stalin e, enfim, a ditadura stalinista (1928-53), uma das mais sangrentas de todo o século XX.


[1] O assunto Kornilov (golpe Kornilov) foi uma tentativa militar de golpe de estado pelo então Comandante em Chefe do Exército Russo, General Lavr Kornilov, em agosto de 1917, contra o Governo Provisório Russo, chefiado por Alexander Kerensky. Após o golpe fracassado, Kornilov foi removido de sua posição no exército e encarcerado com outros 30 oficiais do exército, acusados de envolvimento na conspiração. Após a revolução de outubro de 1917, Kornilov conseguiu fugir e estabeleceu um Exército Voluntário, que lutou contra os bolchevistas durante a Guerra Civil Russa. Foi morto em batalha contra as forças bolcheviques em abril de 1918.
[2] Emma Goldman (27/06/1869 – 14/05/1940) foi uma anarquista e feminista lituana, que se tornou muito conhecida por seu ativismo, escritos políticos e conferências nos Estados Unidos. Emigrou para os Estados Unidos em 1885 e viveu em Nova Iorque, onde conheceu e passou a fazer parte do florescente movimento anarquista. Escreve artigos anticapitalistas e sobre a emancipação da mulher, problemas sociais e a luta sindical. Com seu amante, o escritor anarquista Alexander Berkman, planejou assassinar Henry Clay Frick como uma ação de propaganda. Frick sobreviveu ao atentado, mas Berkman foi sentenciado a vinte e dois anos na cadeia. Goldman foi presa várias vezes nos anos que se seguiram, por "incentivar motins" e ilegalmente distribuir informações sobre contracepção. Em 1917, Goldman e Berkman foram sentenciados a dois anos na cadeia por conspirarem para "induzir pessoas a não se alistarem" no serviço militar obrigatório, que havia sido recentemente instituído nos Estados Unidos. Depois de serem soltos da prisão, foram novamente presos, sendo deportados para a Rússia. Inicialmente simpatizantes da Revolução Bolchevique, Goldman rapidamente expressou sua oposição ao uso de violência dos sovietes e à repressão das vozes independentes. Em 1923, escreveu sobre suas experiências na Rússia, dando forma ao livro Minha Desilusão na Rússia.

Prossegue com a PARTE 6

sábado, 21 de novembro de 2015

A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 (Parte 4)

VII.1 – A REVOLUÇÃO DE FEVEREIRO OU REVOLUÇÃO BRANCA

A Revolução Russa de Fevereiro foi um enorme movimento de massas que, espontaneamente, rebelaram-se contra o czarismo. As pesadas perdas sofridas pelo exército, com as dificuldades de abastecimento, somadas à alta do custo de vida e à ineficiência e corrupção administrativas, levaram o povo russo a uma situação de verdadeiro desespero. Nenhum partido insuflou tais massas. Na verdade, a grande maioria dos revolucionários militantes foi surpreendida, já que a maioria deles estava presa na Sibéria (como Stalin) ou no exílio (Lenin na Suíça, Zurique e Trotski nos Estados Unidos). Como também foi espontânea a organização dos sovietes, em todas as fábricas, repartições, bairros e regimentos militares, que passaram a formar um poder paralelo.
Eclodiram manifestações em Petrogrado (novo nome de São Petersburgo, alterado em 1914, pela guerra contra a Alemanha), exigindo a saída da Rússia da guerra. As tropas da capital recusaram-se a reprimir os manifestantes e aderiram a eles. O czar Nicolau II, que se encontrava em seu quartel-general, foi impedido de entrar em Petrogrado. Em questão de dias, a insurreição alastrou-se por todas as grandes cidades do Império e o governo Czarista ficou totalmente debilitado.
No dia 27 de fevereiro, um mar de soldados e trabalhadores, com trapos vermelhos em suas roupas, invadiu o Palácio Tauride[1], onde a Duma se reunia. Durante a tarde, formaram-se dois comitês provisórios em salões diferentes do palácio. Um, formado por deputados moderados da Duma, que se tornaria o Governo Provisório; o outro era o Soviete de Petrogrado, formado por trabalhadores, soldados e militantes socialistas de várias correntes. Temendo uma repetição do Domingo Sangrento, o Grão-Duque Mikhail ordenou que as tropas leais, baseadas no Palácio de Inverno, não se opusessem à insurreição e se retirassem. Em 2 de Março, cercado por amotinados, Nicolau II assinou sua abdicação. Como o príncipe-herdeiro era hemofílico, Nicolau II preferiu abdicar em favor de seu irmão, mas este recusou o trono.
Após a derrubada do czar, instalou-se o Governo Provisório, constituído de aristocratas e burgueses, sob a chefia do príncipe Georgy Lvov[2], tendo Alexander Kerensky como ministro da guerra. Era um governo de caráter liberal burguês, comprometido com a manutenção da propriedade privada e interessado em manter a participação russa na Primeira Guerra Mundial. No início, o governo de Lvov pretendia consolidar uma monarquia constitucional, mas acabaram por implantar um governo republicano. A burguesia liberal e vários setores da aristocracia apoiaram o novo governo, que iniciou uma série de reformas. Entre elas, destacamos a adoção do sufrágio universal, a convocação de uma Assembleia Constituinte e anistia aos líderes revolucionários bolcheviques então exilados. Enquanto isso, o Soviete de Petrogrado reivindicava para si a legitimidade para governar. Já no início de março, o Soviete ordenava ao exército que lhe obedecesse, em vez de obedecer ao Governo Provisório. O Soviete pretendia dar terra aos camponeses, um exército com disciplina voluntária e oficiais eleitos de forma democrática, bem como o fim da guerra, objetivos bem mais populares do que os almejados pelo Governo Provisório. Dessa forma existiam, na verdade, dois poderes paralelos governando juntos.
Enquanto isso, a guerra contra a Alemanha continuava. A crise criada pela guerra e a variada composição do governo revolucionário não permitiram que os grandes problemas econômicos que afetavam a população russa fossem solucionados. De fevereiro a julho o governo encontrou-se dividido entre o poder formal (o Governo Provisório) e os Sovietes (de operários soldados e marinheiros) sem cuja aquiescência pouco podia ser feito, além de muita confusão entre as fileiras bolcheviques. Tentando ganhar o apoio das massas, o novo governo adotou uma postura liberal, decretando anistia política. Com isso, milhares de prisioneiros seriam libertados e centenas de exilados retornariam à Rússia. Entre eles, inúmeros revolucionários bolcheviques, liderados por Lenin. Imediatamente começaram a ser organizados sovietes de operários, soldados e camponeses, com vistas à realização da revolução socialista.

NICOLAU II

Nicolau II foi o último Czar da Rússia, da dinastia Romanov. Nasceu em 06 de maio de 1868 (calendário Juliano) em Pushkin, Rússia, como Nikolai Aleksandrovich Romanov, primeiro filho de seus pais. Seu pai era Alexandre III, Czar da Rússia e sua mãe, Maria Feodorovna, dinamarquesa.
Sofreu forte influência de seu pai que moldou seus valores religiosos conservadores e sua crença num governo autocrático. Muito forte em história e línguas estrangeiras, tinha muita dificuldade para entender as sutilezas da política e da economia, e seu pai falhou em seu treino nas relações do Estado. Quando Nicolau II tinha 13 anos, seu avô, Alexandre II, foi assassinado por um revolucionário, o que causou a ascensão de seu pai ao trono. Aos 19 anos entrou no exército e, apaixonado pela arte militar, ascendeu ao posto de coronel.
Subiu ao trono quando seu pai morreu de uma doença dos rins, com a idade de 49 anos, em 20 de outubro de 1894. Vacilante com a sua perda e pouco treinado nas relações de Estado, temeu ao assumir o papel de seu pai, confidenciando a um amigo próximo não estar preparado para ser um Czar. Casou-se com a princesa Alix de Hesse-Darmstadt (apenas conhecida como Alexandra), um mês após a morte do seu pai. Como soberano tinha que casar e ter filhos rapidamente para assegurar um herdeiro ao trono. Em 1895 o par teve a sua primeira filha Olga. Em 1897 nasceu a segunda filha do casal, Tatiana, seguida por uma terceira, Maria, em 1899 e por uma quarta, Anastasia, em 1901. Em 1904 Alexandra deu à luz o tão esperado herdeiro homem, Alexei, que para tristeza do casal logo foi diagnosticado como hemofílico. Desesperado por encontrar um tratamento efetivo para Alexei, excedeu-se ao se tornar uma espécie de refém emocional do monge Rasputin, em quem o casal depositava uma fé inabalável.
Inicialmente, o principal objetivo da política externa de Nicolau II foi manter o status quo na Europa e não conquistar novos territórios. Mas na década de 1890, com o crescimento econômico da Rússia, iniciou a expansão de sua indústria para o extremo oriente, com a construção da estrada de ferro Trans-Siberiana, ligando a Rússia à Costa do Pacífico. Com isso, o Japão sentiu-se ameaçado e, em 1904, declarou Guerra à Rússia, uma guerra catastrófica que acabou com a rendição da Rússia, na primavera de 1905.
Em janeiro de 1905 Nicolau II teve que enfrentar o “Domingo Sangrento”, e foi responsabilizado pela morte de mais de mil russos. Como reação, operários indignados realizaram greves por toda a Rússia, no que contaram com a simpatia de camponeses de todo o país. Os levantes foram abafados pelas tropas de Nicolau II, o que serviu para aumentar ainda mais as tensões. Nicolau II acabou sendo forçado a criar a Duma, mas persistiu resistindo à reforma governamental.
Com o exército russo atuando muito mal na Primeira Guerra Mundial, Nicolau II nomeou-se comandante em chefe das forças russas, contra os conselhos de seus ministros. Com isso, passou do final de 1915 a Agosto de 1917 ausente do Palácio em São Petersburgo. Na sua ausência, a imperatriz tornou-se totalmente dependente de Rasputin que passou a exercer grande influência na política do país. Seus ministros renunciavam em rápida sucessão e eram substituídos pelas escolhas de Alexandra sob a influência de Rasputin, até o seu assassinato, ordenado pelos nobres, em 1916.
Responsabilizado pelo fracasso na Primeira Grande Guerra e pela derrocada do país, sob todos os aspectos, Nicolau II renunciou sob pressão em 15 de março de 1917; ele e sua família foram transferidos para os Montes Urais em prisão domiciliar. Na primavera de 1918 a Rússia entrou em guerra civil e em 17 de julho de 1918 Nicolau II e sua família foram assassinados pelos Bolcheviques, sob as ordens de Lenin, em Yekaterinburg, Rússia, assim encerrando mais de três séculos de dinastia Romanov.


Vladimir Ulyanov (Lenin), 1920, comunista
revolucionário russo, político teórico
Em 15 de março, Lenin preparava-se para ir à biblioteca de Altstadt, em Zurique, quando um colega de exílio, Mieczyslav Bronski, perguntou-lhe se não escutara a notícia de que havia uma revolução na Rússia. No dia seguinte, Lenin escreve para Alexandra Kollontai, em Estocolmo, fornecendo-lhe instruções para a formação da propaganda revolucionária. Lenin estava determinado a voltar à Rússia, árdua tarefa no meio da Guerra, já que a Suíça ficara cercada pelos países em guerra e com os mares dominados pela Grã-Bretanha. Ignorando o Governo Provisório Russo que buscava a obtenção de passagem, através da Alemanha, para os exilados russos, em troca de prisioneiros alemães e austro-húngaros da guerra, o suíço comunista Fritz Platten obteve permissão do ministro alemão das Relações Exteriores, através de seu embaixador na Suíça, o barão Gisbert von Romberg, para que Lenin e outros exilados russos viajassem da Alemanha para a Rússia, de trem. Em 9 de abril Lenin e sua esposa Krupskaia, com 30 outros exilados, iniciaram a sua viagem de retorna à Rússia, partindo de Berna, via Zurique, Gottmadingen (daí escoltados por dois oficiais do exército alemão), Frankfurt e Berlim. Nesta capital permaneceu por um dia, para a realização de acordos, recebendo do governo alemão uma quantia de 40 milhões de Marcos de Ouro (substituído pelo Marco papel, justamente com o advento de Primeira Grande Guerra) para financiar sua revolta na Rússia (exatamente quando seu país se encontrava em guerra com a Alemanha!). Importante figura nessas negociações foi o russo Aleksandr Parvus, que durante anos procurou obter recursos do II Reich para rebeliões na Rússia. Em suas Teses de Abril, Lenin explicitou seu desejo de retirar a Rússia da guerra, algo vital para os alemães. O objetivo do Império Alemão ao financiar o projeto revolucionário de Lenin, era desestabilizar o governo provisório, obrigando a Rússia a retirar-se da guerra, encerrando a frente Oriental e assim concentrando suas tropas na frente Ocidental. Pouco antes da meia-noite de 16 de abril de 1917, o trem de Lenin chegou à Estação Finlândia, em Petrogrado. Ele foi recebido, ao som da Marselhesa, por uma multidão de trabalhadores, marinheiros e soldados levando bandeiras vermelhas, um ritual na Rússia revolucionária para os exilados que retornavam. E a grande ironia, Lenin , o presidente dos bolcheviques, foi formalmente recebido por Nikolay Chkheidze, o presidente menchevique do Soviete de Petrogrado.
Os sovietes continuaram a funcionar, o governo provisório tornava-se cada vez mais impopular. A timidez da política social do novo governo propiciou o avanço dos bolcheviques. Nesse quadro, a liderança de Lenin cresce. O líder bolchevista prega a saída da Rússia da guerra, o fortalecimento dos sovietes e o confisco das grandes propriedades rurais, com a distribuição de terra aos camponeses afirmando que seu governo traria pão, paz e terra ao povo. Os bolcheviques tornaram-se mais numerosos, chegando a 80 mil militantes. Lenin pregava o "Todo o poder aos sovietes" e sua meta era a adoção da ditadura do proletariado para realizar a revolução socialista na Rússia e alcançar a paz. Várias sublevações e protestos atingiram as principais cidades russas.
Durante a tarde de 4 de julho, o ministro da justiça, Pereverzev, sem consultar o Soviete de Petrogrado, decidiu publicar uma investigação levada a cabo pelo governo sobre a possibilidade de que Lenin estivesse trabalhando para os alemães. A investigação se encontrava ainda incompleta e os indícios em favor desta tese se baseavam em testemunhos duvidosos, porém o ministro decidiu levar os dados à imprensa para tentar enfraquecer os bolcheviques e ganhar o apoio dos regimentos da capital que não haviam apoiado a revolta. Sua ação surtiu efeito, e várias unidades foram postas a caminho do Palácio Tauride. As discussões continuaram na sede do soviete, que foi ocupada pela multidão, sem que isto tenha interrompido o debate. Ao passar da meia noite e com a maioria dos delegados opostos à derrubada do Governo Provisório e à transferência do poder aos sovietes, chegaram as tropas leais aos dirigentes soviéticos, para alívio da maioria dos delegados.
Após o alvoroço causado pela chegada das tropas favoráveis ao Governo Provisório, os comitês executivos aprovaram a resolução dos defensistas, apresentada pelo socialista revolucionário Avram Gots, que reconhecia a autoridade do governo formado pelos novos ministros que haviam substituído os kadetes[3] e adiou os debates sobre a formação de um novo Conselho de Ministros até a reunião plenária do Comitê Executivo Central (CEC), eleito em junho, que deveria ocorrer duas semanas mais tarde. A resolução, acordada entre os líderes defensistas antes da eclosão dos protestos, permitiu que estes dispusessem de mais tempo para recompor a aliança com a burguesia, que se sentia lesada após a demissão dos ministros kadetes, e também serviu para tentar acabar com os distúrbios causados nos últimos dias pelos protestos. A crescente indignação de parte da população por conta da acusação feita contra Lenin, a iminente chegada das tropas da frente de combate, o apoio de parte da guarnição às autoridades e a desmoralização de uma parte considerável dos manifestantes reforçaram a postura do Soviete de Petrogrado e do Governo Provisório na madrugada de 5 de julho.
Ante a crescente oposição às manifestações, o partido bolchevique, que havia fomentado e apoiado os protestos a tal ponto que não poderia se retirar das manifestações sem sofrer prejuízos, teve que optar entre uma tentativa de golpe contra o Governo Provisório ou persuadir os manifestantes para cessarem os protestos o quanto antes. O jornal Pravda[4] anunciou que as greves e manifestações previstas para o dia 5 de julho haviam sido suspensas; a maioria dos marinheiros, principal força de apoio aos manifestantes, haviam regressado à fortaleza nacional da cidade portuária de Kronstadt, na noite anterior.
As manifestações começaram a ser reprimidas com violência pelos partidários do Governo Provisório. Nas primeiras horas da manhã, um oficial encarregado de um destacamento arrasou os escritórios do jornal Pravda. Por volta do meio dia, as tropas leais ao Soviete de Petrogrado e ao governo já controlavam a maior parte da cidade, com exceção dos bairros operários; o ambiente na capital havia se tornado perigoso para os agitadores bolcheviques e a possibilidade de uma contrarrevolução alarmou até mesmo os socialistas moderados. Pela tarde, começaram as negociações entre as partes; as forças leais exigiam a rendição dos manifestantes, o que não ocorreu. Um acordo preliminar entre os representantes do Soviete de Petrogrado e dos bolcheviques, que limitava as represálias e garantia o desarmamento dos insurretos foi descumprido durante o período da noite. A maioria dos marinheiros de Kronstadt voltou para a base naval sem problemas, restando apenas algumas forças para defender a sede do partido bolchevique e a Fortaleza de São Pedro e São Paulo[5].
Apesar dos rumores sobre a relutância dos bolcheviques em resistir às tropas leais ao Soviete de Petrogrado e ao Governo Provisório, o comando do distrito militar decidiu tomar à força as áreas ainda sob controle bolchevique. As operações começaram na madrugada de 6 de julho; a Fortaleza de São Pedro e São Paulo e a sede do partido foram isoladas.


LENIN

Vladimir Ilyich Ulyanov (22/04/1870–21/01/1924) foi um revolucionário comunista, político e teórico político russo. Foi o líder de governo da República Federativa Socialista Soviética Russa de 1917, e da União Soviética de 1922 até a sua morte. Sob sua administração o Império Russo foi dissolvido e substituído pela União Soviética, como Estado de um só partido, quando toda terra, recursos naturais e indústria foram confiscados e nacionalizados. Ideologicamente, um marxista, suas teorias políticas são conhecidas como leninismo. Nascido de uma família abastada da classe média, em Simbirsk, Lenin ganhou interesse na política revolucionária de esquerda com a execução de seu irmão Aleksandr, em 1887. Expulso da Universidade Estatal de Kazan por participar de protestos anti-czaristas, devotou-se a um título de advogado e à política radical, tornando-se marxista. Em 1893 mudou-se para São Petersburgo e tornou-se sênior do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Foi preso por incitação ao motim e exilado em Shushenkoye por 3 anos, quando casou com Nadezhda Krupskaya. Ao fim do seu exílio fugiu para a Europa Ocidental onde ficou conhecido como proeminente teorista por suas publicações. Em 1903 teve um papel chave no cisma do POSDR por diferenças ideológicas, liderando a facção Bolchevique contra os Mencheviques de Julius Martov. Retornando brevemente à Rússia durante a fracassada revolução de 1905, fomentou a insurreição violenta e fez campanha para transformar a Primeira Guerra Mundial na revolução proletária na Europa que, como marxista, acreditava resultaria na derrubada do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. Após a Revolução de 1917 ter expelido o Czar e estabelecido um Governo Provisório, ele retornou à Rússia e estimulou a substituição do novo governo por um governo dos sovietes liderados pelos bolcheviques. Representou importante papel na Revolução vitoriosa de 1917, estabelecendo o “Conselho dos Comissários do Povo”, como seu Presidente. Introduzindo uma radical reforma agrária, transformou o país na República Socialista Federativa Soviética Russa (RSFSR). Foi guindado a chefe do governo pelo Congresso dos Sovietes Russos. A feroz oposição ao mando bolchevique resultou na Guerra Civil de 1917 a 1922 em que estes se tornaram vitoriosos com o uso do “Terror Vermelho”. Lenin apoiou uma revolução mundial e a paz imediata com a Alemanha e seus aliados, concordando com um tratado punitivo que entregou parcela significativa da Rússia Imperial à Alemanha. O tratado foi anulado após os aliados vencerem a Guerra. Lenin propôs a Nova Política Econômica (NEP), um sistema econômico misto de capitalismo estatal que iniciou o processo de industrialização e recuperação da Guerra Civil. Em 1922, a RSFSR uniu antigos territórios do Império Russo, transformando-se na União Soviética com Lenin na chefia do governo. Lenin sobreviveu a duas tentativas de assassinato. Em 14/01/1918, em Petrogrado, foi emboscado em seu automóvel com Fritz Platten, que ficou ferido ao salvá-lo. Na segunda tentativa, em 30/08/1918, Lenin foi ferido no braço, queixo e pescoço, pela revolucionária socialista Fanya Kaplan, que declarou nos interrogatórios, que o considerava “um traidor da Revolução”, por dissolver a Assembleia Constituinte e colocar fora da lei outros partidos esquerdistas. Com a saúde se deteriorando, morreu em sua casa em Gorki. Reconhecido como uma das figuras históricas mais influentes do século XX, Lenin permanece como uma figura altamente controversa. Os admiradores o vêm campeão dos direitos e riqueza dos operários, enquanto seus críticos como fundador de uma ditadura responsável pela guerra civil e abusos em massa dos direitos humanos.

Trotsky, 1921, revolucionário, teorista
marxista, criador do Exército Vermelho
No período da manhã, os bolcheviques receberam um ultimato exigindo sua rendição e se refugiaram na fortaleza. As forças governamentais ocuparam a sede do partido logo depois, sem encontrar resistência. Até o meio dia, as negociações entre as partes acabaram com a rendição dos bolcheviques. Nas províncias houve pouco apoio às manifestações desde o início e ocorreram incidentes em poucas cidades.
Após o fim das manifestações, os dirigentes mencheviques enfatizaram sua postura de rejeição à formação de um governo exclusivamente socialista, como haviam reivindicado os manifestantes. Na opinião dos dirigentes mencheviques, a formação de um poder soviético poderia levar a Rússia a um conflito armado entre os socialistas e a burguesia que resultaria no triunfo da contrarrevolução. Para os mencheviques, o atraso social, político e econômico da Rússia impediria o sucesso de um governo exclusivamente socialista. Os socialistas moderados sustentaram, portanto, a necessidade de realizar uma nova coalizão com os representantes da burguesia para manter o sistema democrático e evitar conflitos civis.
Foi emitido um mandado de prisão contra Lenin, Zinoviev[6] e Kamenev[7] que, certos de que não teriam um julgamento imparcial, decidiram passar à clandestinidade, com Lenin e Zinoviev fugindo para Helsinque, Finlândia.
O partido bolchevique decidiu, no dia 6 de julho, não passar à clandestinidade e continuar suas atividades legalmente, ainda que tenham ocultado Lenin e Zinoviev, que estavam sendo procurados pelo governo. Outros dirigentes bolcheviques considerados culpados pela revolta, como Kamenev e Trotsky, foram presos nos dias seguintes à repressão. Cerca de duzentas pessoas foram acusadas formalmente pelo governo de haver instigado os protestos.
O desgaste dos bolcheviques parecia evidente, com a fuga de parte dos dirigentes, a prisão de outros, a hostilidade por parte de outras correntes socialistas e a estagnação no número de filiações ao partido.

[1] Construído ao final do século XVIII, em São Petersburgo, é um dos maiores e mais históricos palácios da Rússia. Logo após a Revolução de Fevereiro de 1917, Tauride sediou o Governo Provisório e o Soviete Petrogrado. A incipiente Assembleia Constituinte Russa teve lá os seus encontros, em 1918. Em maio de 1918, os Bolcheviques lá realizaram seu 7o Congresso, onde pela primeira vez se autonomearam Partido Comunista Russo (Bolcheviques).
[2] O Príncipe Georgy Yevgenyevich Lvov (02/11/1861 – 08/03/1925) foi um estadista russo e o primeiro Primeiro Ministro da Rússia pós-imperial, de 15/03 a 21/07 de 1917. Durante a Revolução Russa de Fevereiro e a renúncia do Imperador Nicolau II, Lvov foi feito líder do Governo Provisório fundado pela Duma em 2 de março. Impossibilitado de grupar apoio suficiente, resignou em julho de 1917 em favor do seu Ministro da Guerra, Alexander Kerensky. Lvov foi preso quando os bolcheviques tomaram o poder, no mesmo ano. Conseguiu fugir e estabeleceu-se em Paris, onde ficou até morrer.
[3] O Partido Democrático Constitucional, também chamados Democratas Constitucionais, formalmente Partido da Liberdade do Povo e informalmente Kadetes, era um partido liberal no império russo. Seus membros eram chamados de Kadetes, a partir das iniciais K D do nome do partido, em russo, nome que não deve ser confundido com os cadetes, estudantes das escolas militares russas do mesmo império. O historiador Pavel Miliukov foi o líder do partido por toda a sua existência. A base de apoio dos Kadetes era formada por intelectuais e profissionais, tendo professores universitários e advogados como figuras proeminentes dentro do partido, que fora formado a partir de vários grupos e organizações liberais. Seu programa econômico favorecia o direito dos trabalhadores a oito horas diárias, era decididamente comprometido com a plena cidadania a todas as minorias russas e apoiava a emancipação judia.
[4] O Pravda (Verdade) foi o principal jornal da União Soviética e órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética entre 1918 e 1991. Foi fundado por Leon Trotsky, Victor Kopp, Adolf Joffe e Matvey Skobelev como um jornal socialdemocrata russo semanal voltado para os operários, como Zvezda. Publicado no exterior para evitar censura, de lá enviava a Rússia. A primeira edição foi publicada em Viena, em 3 de outubro de 1908. A redação era constituída por Trotsky e, em épocas diferentes, Victor Kopp, Adolf Joffe e Matvey Skobelev. Os dois últimos, de pais ricos, sustentavam o jornal financeiramente.
[5] A Fortaleza de São Pedro e São Paulo é a cidadela original de São Petersburgo (Petrogrado). Foi projetada por Domenico Trezzini e inaugurada em 1703. A fortaleza contém diferentes edifícios memoráveis, entre eles a Catedral de Pedro e Paulo, onde estão enterrados os czares, desde Pedro, o Grande a Nicolau II e sua família.
[6] Grigory Yevseevich Zinoviev (23/09/1883–25/08/1936), foi um revolucionário bolchevique e político comunista soviético, um dos sete membros do primeiro Politburo, fundado em 1917, para gerenciar a revolução bolchevista, juntamente com Lenin, Kamenev, Trotsky, Stalin, Sokolnikov e Bubnov. Zinoviev é melhor lembrado como líder da Internacional Comunista e arquiteto de tentativas fracassadas para transformar a Alemanha num país comunista no início da década de 1920. Entrou em choque com Stalin que o eliminou da liderança política do Soviete. Com o início do chamado “Grande Terror” na Rússia, foi preso por ordem de Stalin e executado um dia após a sua prisão, em Agosto de 1936.
[7] Lev Borisovich Kamenev (18/07/1883-25/08/1936). Ver nota acima, como complemento. Era cunhado de Leon Trotsky. Foi brevemente o líder de estado do Partido Comunista da Rússia Soviética, em 1917 e Premier no último ano da vida de Lenin, entre 1923 e 1924. Mais tarde, visto como fonte de inquietação e oposição à sua liderança, caiu no desagrado de Joseph Stalin e foi executado por suas ordens, após julgamento sumário, em 25 de agosto de 1936.
Prossegue com a PARTE 5