Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

domingo, 5 de dezembro de 2021

LUIZ VIEIRA, O PRÍNCIPE DO BAIÃO

APRESENTAÇÃO

Não sei, pensei muito, mas não consegui lembrar, como retornei à voz e às composições do querido Luiz Vieira, dos meus 18 anos e que, por um pecado terrível, um dia abandonei, também sem saber por que razão ... Talvez tenha sido apenas devido à natural luta pela vida, que nos afasta de algumas, mas nos traz outras coisas igualmente ou mais importantes e queridas. Mas nada disso é agora relevante esclarecer. O importante é que eu reencontrei esse mágico da poesia, da música e da interpretação musical da minha geração – e que geração, Graças a Deus! – e que pude, graças a todos os recursos atuais, buscar algumas das suas obras e da sua história, para poder escrever essa pequena homenagem a tão ilustre músico da vida brasileira.
Esta é, na verdade, muito mais que uma homenagem que presto com todas as minhas limitações. É, em primeiro lugar, um agradecimento a Luiz Vieira por nos ter regalado, a todos os brasileiros e a pessoas do mundo inteiro, com obra tão maravilhosa, elaborada ao longo de sua vida simples e modesta de menino do interior do Pernambuco. Em segundo lugar, é o que eu considero uma obrigação, como brasileiro e como amante da boa música, reverenciar, embora muito tardiamente, o compositor em geral, sempre tão olvidado nas citações musicais, mas em particular, este genial compositor, poeta e intérprete Luiz Vieira que não teve, na minha opinião, o reconhecimento que deveria ter tido no cenário musical brasileiro, nem em vida, nem após a sua morte. A lamentar, apenas não ter tido Luiz Vieira um ou mil autores mais dignos a lhe prestar tal simples, mas honesta, homenagem.
Lembro de ter ouvido Luiz Vieira pela primeira vez, com a interpretação de “O Menino de Braçanã”, provavelmente por iniciativa de um de meus pais, porque essa melodia foi lançada em 1954, quando eu tinha apenas dez anos de idade e dificilmente me interessaria por esse tipo de música. Essa foi uma das desvantagens de Luiz Vieira, na minha opinião. Aquela nossa época foi marcada pelo eclodir do Rock’n’Roll, e cantores de outros tipos musicais tinham muito pouca chance de obter sucesso com os jovens. Entretanto, em 1962, ele lançou “Prelúdio Pra Ninar Gente Grande”, ao qual até os jovens de 18 anos, como eu, aderiram. E no ano seguinte ele lançou “Paz do Meu Amor”, outra de suas obras primas. E, a partir daí, não houve mais faixa etária que resistisse ao dom de Luiz Vieira. Logo vieram muitos outros sucessos, mas no que me concerne, foi também a época em que iniciei meu curso de Engenharia Civil e uma nova fase da minha vida se iniciou, em que passou a predominar o dever sobre o prazer. E Luiz Vieira, assim como outros nomes de vários setores, para mim caíram no esquecimento de uma fase da minha vida. E nunca mais ouvi falar dessa personalidade ...
Até que, presentemente, sem lembrar como, seu nome voltou ao meu alcance e comecei a buscar as suas composições, despertando todas as minhas lembranças das suas interpretações, lamentando o tempo perdido sem cultivar as suas gravações e sentindo o meu arrependimento por não lhe ter dado todo o crédito que merecia.
Enfim, nessa postagem, todo o meu reconhecimento à genialidade e ao mérito de Luiz Vieira, que muitas pessoas capacitadas, ligadas ou não à música, poderiam ter prestado e não o fizeram, intencionalmente ou não.

A VIDA DE LUIZ VIEIRA

Luiz Rattes Vieira Filho, nascido em Caruaru em 12 de outubro de 1928 e falecido no Rio de Janeiro, no ano passado, em 16 de janeiro de 2020, com a idade de 91 anos, foi um cantor, compositor, poeta e radialista brasileiro, tendo realizado a sua primeira composição aos oito anos de idade. Sua mãe era Anita Alves Mendonça, uma cantora lírica portuguesa de "Trás Os Montes", que participava de cerimônias religiosas em igrejas e de quem, certamente, Luiz Vieira teria herdado sua veia musical. Seu pai, Luiz Rattes Vieira, era advogado e jornalista. Queria muito que o filho seguisse sua trajetória, o que levou o rapaz a cursar Direito, tornando-se bacharel, mas nunca chegando a exercer a profissão.
Caruaru é um município brasileiro do estado de Pernambuco. É a mais populosa cidade do interior do estado, localizada na microzona do Agreste (estreita zona do Brasil nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, entre a floresta costeira Zona da Mata e o sertão semiárido) e, por sua importância cultural, leva os apelidos de “Capital do Agreste”, “Princesinha do Agreste” e “Capital do Forró”. Possuindo aeroporto próprio, fica localizada a 140 km da capital do estado, Recife. É muito conhecida por suas festas de São João que tomam todo o mês de junho, às vezes estendendo-se até julho. Tinha, em 2020, uma população fixa de 365.278 habitantes vivendo numa área de 920,61 km2.
O nome de Luiz Vieira foi uma homenagem ao avô. Perdeu a mãe com apenas dois anos de idade. Antes dos dez anos deixou Caruaru, mudando-se para o Rio de Janeiro, sendo criado pelo avô em Alcântara, município de São Gonçalo, Rio de Janeiro. Na ex-capital federal exerceu diversas atividades antes de ingressar na vida artística. Foi chofer de caminhão, motorista de táxi, guia de cego, vaqueiro (condutor de burros) engraxate e lapidário. Em criança cantou em circos e parques de diversão. Aos oito anos, produziu sua primeira composição.
O jovem Luiz Vieira
Em sua carreira, iniciada precocemente (em 1943 já cantava em programas de calouros), cantava músicas românticas, valsas e sambas-canções. No programa de Renato Murce, importante radialista do Rio de Janeiro, imitou Vicente Celestino. Terminada a segunda grande guerra, em 1945, foi crooner de orquestra no cabaré “Novo México”, do bairro da Lapa, contratado “por vinte mangos por noite”, no Café Nice e no Capela, Rio de Janeiro.
Seu amor pela arte era tão grande que, em sua luta para conseguir suas primeiras participações em rádio, ia semanalmente de Alcântara, São Gonçalo, ao Rio de Janeiro, trajeto em que levava quase três horas, para tentar um lugar ao sol. Queria cantar no programa do Zé do Norte. E graças à sua persistência, num dia em que os cantores contratados e fixos de programa fizeram greve e faltaram, o rapazinho foi chamado e cantou. Saiu-se bem e passou a fazer parte da equipe. Em 1946 deixou seu emprego numa oficina mecânica e, contratado, começou a se apresentar na Rádio Clube do Brasil (hoje Mundial), no programa “Manhãs na Roça”, do cantor e compositor Zé do Norte, cantando músicas nordestinas. No mesmo programa tornou-se secretário e diretor musical do programa, para o qual redigia textos, anunciando casamentos, batizados, óbitos e nascimentos.
Luiz Vieira em
sua exitosa carreira

Transferiu-se depois para a Rádio Tamoio, onde passou a apresentar-se no programa “Salve o Baião”, tornando-se o “Príncipe do Baião”, apresentando-se ao lado de Luiz Gonzaga, o “Rei do baião”, Carmélia Alves, a “Rainha” e Claudette Soares, a “Princesinha”.
Após a morte de seu grande parceiro Zé do Norte, fez homenagem ao mesmo cantando a música “Lua bonita” em dueto com Marcus Lucenna, em apresentação no Circo Voador, no Rio de Janeiro.
Convidado por “Almirante”, foi contratado pela Rádio Tupi por intermédio de Paulo de Grammont. Em 1950, acabou sendo contratado pelas Rádios Tupi e Record, de São Paulo, que pertenciam às Emissoras Associadas. Com a inauguração da primeira TV no Brasil, a extinta Tupi, no Rio de Janeiro, em 1951, participou do primeiro programa musical da Televisão, “Espetáculos Tonelux”, apresentando-se ao lado da estrela vedete Virgínia Lane, com a direção de Mário Provezano.
Foi para a Rádio Nacional em 1953, ano em que compôs seu primeiro e um dos seus maiores sucessos, a toada “Menino de Braçanã” (com Arnaldo Passos), gravada inicialmente por Roberto Paiva e, em seguida, regravada por Ivon Curi.
Os meninos passarinhos de Luiz Vieira
No início de sua carreira trabalhou ainda na Bahia, na TV Itapoã. Em 1954 era cantor da rádio e televisão Record, de São Paulo, onde permaneceu até 1961.
No fim da década de 1950 foi para a Rádio e TV Record, de São Paulo. O programa “Encontro com Luiz Vieira”, da TV Excelsior, Canal 9, de São Paulo, estreou no ano de 1962, onde continuou divulgando músicas e cantadores do Nordeste. Nesse mesmo ano, a bordo de um avião, compôs o seu maior sucesso, o “Prelúdio para Ninar Gente Grande”, que se tornou mais conhecida como “Menino Passarinho”. Com ele, Luiz Vieira ganhou definitivamente as paradas de sucesso. Em 1963 gravou outro grande sucesso, “Paz do Meu Amor” (Prelúdio nº 2).
Em 1975 fez o show “Luís Vieira, de Rapadura e Cuscuz até Menino Passarinho”, no Teatro da Lagoa, no Rio de Janeiro, acompanhado pelo grupo "Gente". Nesse mesmo ano apresentou se no show “Tarde Nordestina”, na boate Igrejinha, em São Paulo.
Entre baiões, guarânias, toadas, sambas e prelúdios, é autor de mais de 500 músicas e suas composições foram gravadas por nomes como Sérgio Reis., Hebe Camargo, Elba Ramalho, Zizi Possi, Fagner, Rita Lee, Maria Bethânia, Agnaldo Timóteo, Caetano Veloso, Moacyr Franco, Luiz Gonzaga, Taiguara, Pery Ribeiro, Nara Leão, Augusto Calheiros, Gilberto Alves, Agnaldo Rayol, Cascatinha e Inhana e outros.
Chegou a fazer diversas viagens aéreas por semana, para fazer cinco programas de televisão. Viajava do Ceará ao Rio Grande do Sul. Foi radialista na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no final dos anos 80, onde apresentou por mais de uma década, o programa diário “Minha Terra, Nossa Gente”, das 05:00hs às 07:00 hs, de segunda a sábado. Depois passou pela Rádio Rio de Janeiro e Rádio Carioca. Também foi locutor da Rádio Manchete.
Luiz Vieira no auge da carreira

Luiz Vieira não gostava de ser chamado de cantor, mas, sim, de cantador. e era um profundo conhecedor da literatura de cordel e do folclore nordestino.
Em 2002, lançou o espetáculo "Pessoas que Brilham", no Teatro João Caetano, onde a cada dia apresentava um convidado, entre os quais, Carmélia Alves. Foi também Diretor-presidente da SOCINPRO - Sociedade Brasileira de Administração e Proteção de Direitos Intelectuais - nos períodos de 1986 a 1988 e de 1990 a 1996.
Em outubro de 2018, foi realizado um show em São Paulo como tributo aos 90 anos do artista. A homenagem ganhou formato em disco de 2019, com o título “Luiz Vieira 90 anos”, lançado com participações de Zeca Baleiro, Daniel, Maria Alcina, Renato Teixeira, Claudette Soares e outros artistas brasileiros.
Luiz Vieira teve três filhos, dois dos quais formando um casal de gêmeos, do seu segundo casamento, com Eurídice Pereira.
Empresário e publicitário, fundou a Luís Vieira Produções.
Luiz Vieira morreu em 16 de janeiro de 2020, aos 91 anos, de uma parada cardíaca, depois de ser levado ao hospital após ter passado mal na noite anterior.

AS MÚSICAS E CURIOSIDADES DE LUIZ VIEIRA

Luiz Vieira sempre foi um camarada muito espirituoso e, sobretudo, de respostas sempre prontas, na “ponta da língua”. Lembro de algumas apresentações suas, em que o entrevistador lhe colocava algumas questões delicadas e ele, com aquela sua risada franca de nordestino, diplomaticamente se esquivava com alguma boa tirada.
Numa entrevista com Jô Soares em seu programa de 15 de dezembro de 2008, eles falavam sobre o público antigo de Luiz Vieira e sobre a dificuldade que esse mesmo público enfrentava para escutar cantores mais antigos, que eram esquecidos das grandes emissoras. E sobre alguma coisa ou música de cantor brasileiro mais antigo, Luiz Vieira deixo sair sem titubear: “Rapaz, isso era do tempo em que conquistar até mulher de vida fácil era difícil; hoje até mulher difícil está bem mais fácil de conquistar.”
A discografia de Luiz Vieira é muito pequena em relação ao que se poderia esperar de um compositor com mais de 500 composições, porque a grande maioria delas foi entregue a outros cantores para gravação. Gostaríamos de registrar – e apresentar aos nossos leitores -, a produção dos seguintes álbuns, sem garantir que esses constituam toda a sua discografia.

1958 – Retalhos do Nordeste (primeiro disco de Luiz Vieira)

1962 – Encontro com Luiz Vieira

1963 – Prelúdios de Amor

1971 – Em Tempo de Verdade

1974 – Luiz Vieira

1978 – Na Asa do Vento

1998 – 20 Supersucessos – Luiz Vieira

1998 – Se Eu Pudesse Falar

1998 – O Melhor de Luiz Vieira

2019 – Luiz Vieira 90 Anos 
Luiz em sua calma maturidade

Eu não conheço, nem ouvi, todas as músicas de Luiz Vieira. Seria praticamente impossível enumerar as suas mais de 500 composições, quanto mais apresentá-las todas. Por isso os leitores terão que confiar no meu gosto e preferência musicais. Mas estou certo de que a amostra será muito mais do que suficiente para mostrar a genialidade do nosso querido nordestino brasileiro Luiz Vieira.
Imagino que as canções mais conhecidas de Luiz Vieira - e que mais sucesso fizeram- foram, não nesta ordem cronológica, “Prelúdio para ninar gente grande”, “Paz do Meu Amor” e “Menino de Braçanã”. Portanto, acho justo que iniciemos por elas, a apresentação de suas músicas.
A origem de “Menino de Braçanã” foi contada pelo próprio autor, num programa de entrevistas. Braçanã era uma localidade do Estado do Rio de Janeiro, onde morava o tio de Luiz, o Sr. Augusto. E havia um menino que costumava ir buscar farinha, com seu jumentinho, na casa do seu tio, e voltava no mesmo dia, sem atender aos apelos para que pousasse, a fim de evitar as assombrações noturnas. O menino mostrava um crucifixo e dizia que não tinha medo porque andava com Jesus Cristo, e assim também obedecia ao que recomendava sua mãe, voltar no mesmo dia.
Essa história transformou-se na letra de “Menino de Braçanã” que pode ser acessada no “link” enquanto acompanham a linda melodia do “Menino de Braçanã.
A história da composição da canção “Prelúdio para ninar gente grande", mais conhecida como "Menino Passarinho”, foi contada pelo próprio compositor no programa “mpbambas” ao seu entrevistador, Tárik de Souza. Nas suas andanças entre as várias cidades em que fazia apresentações à época (Belém, Recife, Fortaleza e Salvador), só tinha tempo para dormir no avião. Numa dessas vezes, ao chegar em Salvador, ele foi “sequestrado” por uma jovem importante em sua área de atividade, que o levou para um apartamento que ela alugaria para ele, sentindo que ele vivia muito cansado por causa de suas viagens. Ele achou o gesto muito bonito e, como o que bem sabia fazer era compor, disse que ia, em agradecimento, fazer à moça uma composição. Saindo de Recife e baseado no fato de que Salvador era sua última etapa e que lá chegando iria encontrar o descanso em colo amigo, compôs o “Menino Passarinho” a bordo do avião que decolava. A letra desta canção é tão bonita que Vinícius de Moraes não a podia escutar sem elogiar a singeleza da poesia. Para que nossos leitores possam apreciá-la, segue também o link da letra de Menino Passarinho. Essa foi uma das melodias que, segundo ele, Luiz Vieira fez questão de gravar.
Outra canção muito conhecida de Luiz Vieira é “Paz do meu amor - Prelúdio No. 2”, que foi gavada por vários cantores brasileiros importantes, como Nelson Gonçalves, Taiguara, Hebe Camargo e outros. Entretanto, em minha opinião, nenhum deles bate a interpretação do seu autor. Com vocês, “Paz do meu amor”, na voz de Luiz Vieira, com sua belíssima letra para acompanharem.
Na mesma entrevista com Tárik de Souza, em seu programa “mpbambas”, Luiz Vieira disse uma vez: “Poeta nasce poeta pela graça de Deus; faz-se popular pela graça do povo”. Ele era um poeta de mão cheia e as duas últimas composições que apresentarei dão uma boa ideia dessa sua qualidade.
Das suas composições, a que mais me emociona é “Estrêla de Veludo”, com uma poesia primorosa e uma melodia vibrante e ao mesmo tempo muito calma. Essa composição, infelizmente, foi gravada por Luiz Vieira diretamente no auditório da sua apresentação e, por isso, sua qualidade deixa a desejar. Eu recomendo muito a meus leitores que, primeiramente, leiam atentamente a sua letra, uma poesia maravilhosa, para bem poderem apreciar, posteriormente, a melodia completa de “Estrela de Veludo”.
Na mesma entrevista mencionada acima, disse, entre outras coisas, Luiz Vieira: “A vida só é bonita se for vivida como ela é; pobreza só é pobreza quando o cabra perde a fé. Para conhecer o amor verdadeiro, você precisa ter sofrido antes. Baseado em tudo porque passei antes, criado por meu avô e tendo que desempenhar todos os tipos de atividades, algumas dessas acabaram se tornando, para mim, muito prazerosas. Muitas dessas coisas foram colocadas na letra da linda melodia que é “Balada do Amor Sublime”.
Como falei antes, esse nosso querido compositor nordestino, foi o autor de mais de 500 composições. Acredito muito que, com essa pequena amostra apresentada, nossos leitores possam ter uma pálida ideia da genialidade de Luiz Vieira, o “Príncipe do Baião”.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

 

EL CHOCLO


I - INTRODUÇÃO

Minha mãe adorava os tangos! Talvez muito por influência de sua irmã mais jovem Ione, pianista, que chegou a morar em Buenos Aires, tal o amor que tinha pelos tangos, nos bons tempos da cidade portenha. Ainda lembro muito bem quando, pela primeira vez, fomos a Buenos Aires, com minha mãe e tia Ione, e ela nos levava a assistir às maravilhosas apresentações em palcos das televisões argentinas, com as maiores orquestras típicas de tangos da época: Francisco Canaro, Juan D’Arienzo, Carlos di Sarli, Anibal Troilo e muitas outras. Corria então o ano de 1954 e eu vivia os meus maravilhosos 10 anos de idade.
Poderia citar vários nomes de tangos que minha mãe cantarolava em casa, com muito bom domínio da língua espanhola, mas o tango da vez chama-se “El Choclo”, um dos mais antigos da história do tango. E foi por ela que aprendi o significado da palavra “choclo”: milho. Nada mais que milho! E o conhecido tango chamava-se, portanto, em português, “O Milho”. Lembro que, mesmo à época, o nome do tango me pareceu muito estranho, mas criança é criança e a coisa assim ficou por muitos anos, sem que o fato me saísse da cabeça.
Estava então, um dia, há muitos anos atrás, passeando na praia de Canasvieiras, em Florianópolis, com minha esposa, onde tínhamos comprado um apartamento para manter um vínculo com os filhos, que lá moram. Como todos sabem, há muitos anos Canasvieiras é a praia de Santa Catarina eleita pelos argentinos e uruguaios, de forma que todo o comércio local fala um “portunhol” razoável, da mesma forma que os turistas de Argentina e Uruguai respondem com um “españez” igualmente razoável e todo mundo se entende bem. E passeando pela praia, reparei num carrinho que vendia milho verde aos turistas que, assim como anunciava o milho, também anunciava o “Choclo” e o trazia escrito no próprio carrinho, para deixar bem claro aos veranistas das duas línguas, o produto que oferecia. Imediatamente o tango muito conhecido de todos os tempos me veio à cabeça e com ele a minha velha dúvida sobre a origem daquele nome tão estranho.
Apenas vários anos após esses eventos, trabalhando em casa com outros assuntos, o nome do tango voltou à minha cabeça e resolvi fazer uma pesquisa sobre o tal assunto, principalmente porque, ouvindo vários intérpretes cantando “El Choclo”, nunca ouvi uma só vez, a palavra “choclo” mencionada em toda a letra. Este o assunto, bem curioso, da presente postagem.
 

II – O TANGO

“El Choclo” é um tango criollo (de país hispano-americano ou relativo a ele, típico, com relação às raízes) com orquestração de Ángel Villoldo, que estreou em 1903 e cuja partitura foi publicada somente em 1905, sendo considerado hoje um dos tangos mais populares. A melodia do tango, característica da chamada “Velha Guarda” do tango, foi composta, provavelmente, cerca de 1898, com autoria atribuída a Casimiro Alcorta, - um violinista de raça negra, que morreu na miséria e é hoje praticamente esquecido de todos -, uma de suas composições mais representativas. A composição foi criada quando a interpretação de tangos, nos locais elegantes ou do centro da cidade de Buenos Aires, ainda era proibida, por ser associado às classes marginais. Entretanto, com seu amigo José Luis Roncallo, diretor de uma orquestra de música clássica no “El Americano” acharam a fórmula de estrear este tango sem evitar conflitos para o dono do restaurante. E assim, sua estreia aconteceu em 3 de novembro de 1903, interpretado pela orquestra de José Luis Roncallo (que havia transcrito a partitura), no El Americano, um restaurante de boa categoria do centro de Buenos Aires, quando a obra foi apresentada como uma “Danza Criolla”. Assim, noite após noite a obra foi interpretada com muito boa acolhida e entusiasmo por parte do público.
Face da partitura para piano,
do tango “El Choclo” de Ángel Villoldo
A casa “Gath y Chaves”, uma das grandes casas comerciais da época, patrocinou, em 1903, a viagem de Ángel Villondo, Alfredo Gobbi y Flora Rodriguéz para lá realizar discos de tangos. Gravou em várias companhias, dançou tangos e se filiou à Sociedade de Autores e Compositores da França, para cobrar os direitos autorais do tango mais conhecido na Europa de então, “El Choclo”. Foi tal a difusão deste tango que, segundo conta o jornalista Tito Livio Foppa, em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, em um banquete à imprensa estrangeira, celebrado na frente alemã, os músicos da orquestra que executou os hinos dos países representados, não tinham a partitura correspondente ao hino argentino ... e tocaram “El Choclo”, que sabiam de memória. Com efeito, desde então, divertidíssimas formações musicais vêm interpretando este tango: orquestras sinfônicas, bandas militares, conjuntos de jazz, conjuntos andinos e de rock. Como outros belos tangos instrumentais, os tangos de Villoldo tiveram poetas que lhes adicionaram letras, sendo que a que teve maior sucesso foi a de Enrique Santos Discépolo.
Vejam, portanto, que a música original não possuía letra! E o mistério do nome “El Choclo” começa a ser desvendado. Se o compositor da melodia original tinha alguma ideia sobre o que ela deveria representar, ele nunca a expressou pela simples razão de que a sua composição não era acompanhada de uma letra, nem dele, nem de qualquer outro letrista. Mas vamos chegar lá.

III – A ORIGEM DO NOME

A palavra Choclo é a forma do castelhano, do cone sul, usada para referir-se ao nosso conhecido milho.
A origem do vocábulo é quechua[1] (ou quíchua ou quéchua): chuglu, que significa milho tenro. O próprio Villoldo disse que se referia ao milho como o ingrediente mais saboroso do puchero[2]. Mas também circulam outras explicações, relacionadas com o apelido de um suposto amigo querido cujo cabelo era da cor do milho ou com um duplo sentido próprio dos ambientes de prostíbulos aonde, diz-se, teria nascido o tango, relacionando-se a palavra choclo ao pênis.
A letra original, de Villoldo, fazia referência, efetivamente, ao alimento. Mais tarde se escreveu outra versão com o título Cariño Puro. Uma versão, de Marambio Catán, foi escrita referindo-se a um delinquente (Me chamavam o choclo companheiro). A versão mais popular é mesmo a de Enrique Santos Discépolo (1947), que rememora a origem do tango como forma de vida.


IV - INTÉRPRETES DO TANGO “EL CHOCLO”

É importante que se diga, que os compositores argentinos de tango, sempre deram maior importância à orquestra do que ao vocalista. Mesmo em tangos mais modernos, a orquestra inicia a música, tocando praticamente toda ela e só então o vocalista entra para a sua parte, em geral o estribilho, deixando novamente para a orquestra, o encerramento do tango. Por essa razão, também, não foram muitos os cantores argentinos conhecidos que gravaram “El Choclo”.
Ángel Vargas (1904-1959) argentino de Buenos Aires, cantou a letra de Marambio Catán, provavelmente na década de 1940. Por ser o cantor argentino típico mais antigo a tê-lo gravado, mas também por ser um dos principais expoentes do tango argentino, vamos apresentar aos nossos potenciais leitores esta gravação de Ángel Vargas.
A letra escrita por Discépolo em 1947 foi estreada nesse mesmo ano por Libertad Lamarque (1908-2000), argentina da província de Santa Fé, na película mexicana “Gran Casino”, de Luis Buñuel. Por ter, de vez, disseminado mundialmente essa letra, vamos colocar o vídeo desta gravação à disposição dos nossos leitores, para que bem possam sentir a interpretação de Libertad Lamarque. Outra de suas intérpretes que se destacou, foi Tita Merello que o incorporou como parte do seu repertório básico.
Entre outras orquestras, foi acompanhado pela de Francisco Canaro (1888-1964), compositor, violinista e diretor de orquestra uruguaio nacionalizado argentino em 1940, e a de Juan D’Arienzo (1900-1976) músico e diretor de orquestra argentino, de Buenos Aires, conhecido como “O Rei do Compasso”, que gravou El Choclo em duas oportunidades. Para evitar polêmicas sobre intérpretes de tangos, não argentinos de nascimento, vamos colocar como exemplo a gravação de Juan D’Arienzo.
Em 1952 a melodia foi adaptada, por Lester Allan e Robert Hill, com o título Kiss of Fire (Beijo de Fogo) ainda que reconhecendo a autoria de Villoldo na partitura publicada. Mudaram os compassos da primeira parte, adicionaram um fraseado de inspiração flamenca à segunda e eliminaram por completo a terceira parte. Em 19 de março de 1955, Louis Armstrong gravou “Kiss of Fire” no disco no 28.177 da “Decca”, publicado na Argentina como “Decca 333.317”, quando foi explicitamente citado, como autores, Villoldo, Marambio Catán e Santos Discépolo. Essa versão inspirou uma película homônima, em 1955, interpretada por Jack Palance, com um contexto completamente anacrônico: a colonização dos atuais Estados Unidos. No filme de Ken Russel, “Valentino”, Rudolf Nureyev dança o tango com uma coreografia bastante heterodoxa.
Entre vários intérpretes não argentinos, famosos, de El Choclo, podemos citar Julio Iglesias, que incluiu El Choclo em seu álbum de 1996, “Tango”. Por ele, Julio Iglesias teve ações ajuizadas, tendo que pagar direitos autorais aos descendentes de Enrique Discépolo e Roberto Goyeneche. Além dele, Nat King Cole também o gravou, em espanhol. Connie Francis, Caterina Valente e até mesmo Ray Conniff foram mais alguns famosos que gravaram o famoso tango El Choclo, desta feita na versão “Kiss of Fire”, todos eles, além do já mencionado Louis Armstrong, cuja gravação vamos disponibilizar aos leitores.
Para os leitores que se sentirem tentados a acompanhar as gravações, estamos também postando a letra de Enrique Santos Discépolo.


V - SOBRE OS AUTORES

Face da partitura para piano, do tango
“Cara Sucia”, arranjado por
Francisco Canaro

Casimiro Alcorta, nascido em Santiago del Estero em 1940 e falecido em Buenos Aires em 1913, foi um destacado músico descendente de africanos, considerado um dos “pais do tango”. Além de “El Choclo”, é o compositor do famoso tango “Concha Sucia” (não posso traduzir, mas é isso mesmo que podem estar pensando), de 1884, várias décadas depois renomeado por Francisco Canaro para “Cara Sucia”, que mudou sua letra para torná-lo mais decente Este é o mais antigo dos tangos de autor conhecido. Foi também o autor dos tangos “La Yapa” (A Yapa) e “Entrada Prohibida” (Entrada Proibida), esse último posteriormente creditado aos irmãos Teisseire. José Gobello o considerou o “Pai do Tango”. 
Filho de escravos e ele próprio libertado quando menino, recebeu o sobrenome de seu dono, Amancio Alcorta, como de praxe. Sua mãe, Casimira, era escrava do estancieiro e músico Amancio Alcorta (1805-1862, um dos primeiros compositores clássicos da Argentina. De origem santiaguense, Amancio Alcorta radicou-se em Buenos Aires em 1853, sendo proprietário da maior parte das terras da atual comarca de Moreno, na Grande Buenos Aires. 
Casa de Amancio Alcorta na comarca de
Moreno, pertencente à Província
de Buenos Aires
Casimiro é mencionado, pela primeira vez, em 1913, na primeira história publicada do tango, realizada por José Antonio Saldías, sob o pseudônimo de Viejo Tanguero, em um artigo intitulado “O tango: sua evolução e sua história”, publicado em “Crítica”.
Destacou-se como violinista, bailarino e compositor. Sua atuação se estendeu entre 1855 e 1913, isto é, desde os primeiros momentos em que o tango começou a formar-se, até tomar a sua forma definitiva e identidade própria, durante a chamada “Guarda Velha”. Costumava atuar no “Scudo d’Italia”, na “casinha” de Laura, no “Prado Espanhol” e numa casa de milonga que se encontrava na rua “Del Temple” (posteriormente “Viamonte”).
Como violinista, formou o primeiro conjunto de tango de que se tem registro, junto ao Mulato Sinforoso, no clarinete e, seguramente um guitarrista. O conjunto atuou desde a década de 1870 até fins da década de 1890.
Como bailarino formou uma célebre parelha com sua companheira La Paulina, de origem italiana, com quem permaneceu até a sua morte em 1913.
Sua atuação como compositor já foi mencionada acima. É muito provável que muitos dos tangos compostos entre 1870 e 1900 pertencessem a ele, inclusive os creditados a outros compositores.
Morreu em Buenos Aires nos braços de sua querida Paulina.

Ángel Villoldo, compositor e letrista,
no início dos anos 1900
Ángel Villoldo, nascido em Barracas, sul da cidade de Buenos Aires, em 16 de fevereiro de 1861 e falecido em 14 de outubro de 1919, cujo nome completo era Ángel Gregorio Villoldo Arroyo, foi um músico argentino, dos compositores mais característicos da primeira época do tango, também considerado um dos pais do tango. Foi letrista, guitarrista, compositor e um dos principais cantores da época. Também foi conhecido por seus pseudônimos A. Gregorio, Fray Pimiento, Gregorio Giménez, Ángel Arroyo e Mario Reguero. 
Villoldo aportou obras eminentemente musicais, consideradas clássicas em todas as épocas posteriores, tendo também escrito letras que lhe prodigalizaram fama de versificador. Os tangos compostos por Villoldo são tangos-milonga (entretanto em compasso dois por quatro). Também compôs valsas, polcas e um variado repertório folclórico. Sua inspiração original e faiscante, sustentada por uma figura afável com profuso bigode e sombreiro, é reconhecível na iconografia dos fundadores.
Havia inventado um artefato em que sustentava a harmônica (bandonión) ajustada a uma vareta por sobre a guitarra, que lhe permitia tocar os dois instrumentos de forma simultânea. Quando desmontava, a harmônica cantava com voz de soprano, o que lhe proporcionou fama nas tabernas de princípio do século XX.

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[1] Quechua é uma importante família de línguas indígenas da América do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ao longo dos Andes. Possui vários dialetos inteligíveis entre si. É uma das línguas oficiais de Bolívia, Peru e Equador.

[2] Puchero é um tipo de cozido, originalmente da Espanha, preparado em Yucatán, Mexico, Argentina, Paraguai, Uruguai, Perú, sul do Brasil, Filipinas e Espanha, especificamente nas comunidades autônomas de Andaluzia e as Ilhas Canárias. A palavra espanhola "puchero" originalmente significava um pote de cerâmica, antes de ser estendido para significar qualquer vaso e então ao prato nele cozinhado. O prato é, essencialmente, equivalente ao cozido da Espanha, sem corantes (como páprica), usando-se ingredientes locais que variam de uma região para outra.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

REVOLTA DOS 18 DO FORTE DE COPACABANA


INTRODUÇÃO

Em dezembro de 2021, numa daquelas famosas festas de fim de ano, que muitas empresas realizam como confraternização de Natal, ganhei de um colega muito querido, o livro então recém publicado e que, à época, fez muito sucesso: “Xatô, o Rei do Brasil”. Não muito educado de minha parte, mas explicado pelas minhas listas prioritárias de leitura, fui postergando a sua leitura até este ano de 2021, quando ele completaria o seu 20º aniversário. E agora estou convicto de que errei com o meu procedimento, porque o livro é simplesmente notável!!! Até agora eu nunca pude imaginar que teríamos um personagem nacional, real, tão fantástico como foi Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, mais conhecido como Xatô, o Rei do Brasil. Mas isso é uma outra história, já muito bem contada.
E estava eu a ler o importante livro, que eu recomendo a qualquer um, quando nele surge a narrativa histórica da “Revolta dos 18 do Forte”, que eu só conhecia de ouvir minha mãe mencionar de vez em quando. Esse evento, do qual foi testemunha ocular Assis Chateaubriand, tocou-me bem fundo, embora apenas abordado, no livro, muito superficialmente, pelas características de bravura que apresentou e pelos muitos nomes conhecidos envolvidos, sem entrar no mérito de saber quem estava com a razão no acontecimento. Por esta razão, fui motivado a realizar pesquisa sobre o triste evento, cujo resultado trago agora em forma de mais uma postagem para a apreciação dos possíveis leitores que possa ter.


O EVENTO

A “Revolta dos 18 do Forte”, também conhecida como “Revolta do Forte de Copacabana” foi uma revolta “tenentista[1]” ocorrida na cidade do Rio de Janeiro (capital do Brasil na época), durante o governo do Presidente Epitácio Pessoa, iniciada em 5 de julho de 1922 e abafada no dia seguinte. Foi a primeira revolta do “movimento tenentista” da “República Velha”[2]. De acordo com a tradição, foi concluída com uma marcha feita por dezessete militares e um civil que reivindicavam o fim das oligarquias do poder, combatendo três mil homens das forças governamentais. 
Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa,
11º Presidente do Brasil (1919-1922),
no cargo à época do levante.


PRINCIPAIS CAUSAS DO MOVIMENTO

O levante, que foi planejado com proporções muito maiores, teve como motivação buscar a queda da República Velha, cujas características oligárquicas, atreladas ao latifúndio e ao poderio dos fazendeiros, se opunham ao ideal democrático vislumbrado por setores das forças armadas, em especial de baixa patente como tenentes, sargentos, cabos e soldados.
A Revolta dos Dezoito do Forte e o movimento Tenentista que eram, numa primeira leitura, ligados às forças armadas, representavam também a insatisfação de outros estados, como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia, com a divisão política então existente, conhecida como “política do café com leite”[3].
Para as eleições de 1 de março de 1922, como concorrente ao candidato governista Arthur Bernardes, foi lançada a “Reação Republicana”, com a candidatura do fluminense Nilo Peçanha. Detentor da máquina pública, Bernardes (apoiado pela oligarquia de São Paulo) venceu com 56% dos votos válidos da eleição. Porém a oposição denunciou fraudes e clamava por um Tribunal de Honra. O evento considerado o estopim para a revolta teve origem na disputa eleitoral de 1921 para o cargo de presidente da república. 
Forte de Copacabana, origem do levante
que levou o seu nome.
Durante o período, cartas ofensivas ao Exército e ao Marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente do Brasil, supostamente assinadas pelo candidato Arthur Bernardes (que negou a autoria) tornaram-se públicas. Isso resultou em discussões que culminaram com fechamento do Clube Militar e a prisão do Marechal Hermes da Fonseca (solicitada pelo presidente Epitácio Pessoa, também representante das oligarquias), que havia criticado o processo eleitoral que deu a vitória a Arthur Bernardes, em 2 de julho de 1922.
Além disso, os tenentistas mostravam-se francamente descontentes com as fraudes eleitorais que ocorriam no Brasil na época da República Velha.


OBJETIVOS PRINCIPAIS
Artur da Silva Bernardes, mineiro e
12º Presidente do Brasil (1922-1926),
sucessor de Epitácio Pessoa.

Com a rebelião, os responsáveis pretendiam o fim da República Velha e do domínio das oligarquias no poder. Além disso, os militares, principalmente os de baixa patente, defendiam um sistema político democrático para o Brasil. Finalmente, reivindicavam um sistema eleitoral justo, ou seja, sem fraudes (compra de votos, falsificações e uso da violência nas eleições).


RESUMO DOS ACONTECIMENTOS

Os estados com clima político tenso realizaram rebeliões populares e o exército foi acionado para conter os rebeldes no estado de Pernambuco. Hermes da Fonseca ordenou que os militares não interviessem nas revoltas, atitude que causou a sua prisão e o fechamento do Clube Militar. Como agravante, aos acontecimentos políticos, o presidente da república nomeou um civil como Ministro da Guerra.
O descontentamento entre os militares era crescente. Diversas unidades do Rio de Janeiro se organizaram para realizar um levante no dia 5 de julho de 1922 contra o presidente em exercício Epitácio Pessoa (representante da oligarquia que dominava o país) e Arthur Bernardes que assumiria o cargo em novembro. 
Nilo Peçanha, 7º Presidente do
Brasil (1909-1910) substituindo
Afonso Pena, adversário de
Artur Bernardes no levante.
No dia 4 de julho de 1922, o capitão do forte Euclides Hermes da Fonseca — filho do Marechal Hermes da Fonseca, então preso, apoiado pelo tenente Siqueira Campos preparavam o forte para revolta que iniciaria pela manhã do dia seguinte. Os planos iniciais da revolta previam a participação, no levante, de alguns estados brasileiros e áreas militares do Rio de Janeiro. Entretanto, somente o Forte de Copacabana, localizado na ponta direita da praia de Copacabana, sob comando do Capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do Marechal, e a Escola Militar se levantaram no dia 5 de julho de 1922, pois a informação chegara até o governo federal, que tratou de trocar os principais comandos militares da capital, impedindo a completa organização militar. Apesar da posição contrária à política café-com-leite, os militares de alta patente acabaram por não aderir ao movimento. E foram, assim, facilmente combatidos.
Durante toda a manhã do dia 5, o forte sofreu bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz da Barra, que fica do lado oriental da barra da Baía de Guanabara, Niterói, mas os 301 revolucionários (oficiais e civis) mantiveram-se firmes até que, às 4h da manhã do dia 6, quando Euclides Hermes da Fonseca e Siqueira Campos receberam um telefonema do Ministro da Guerra, solicitando a rendição dos militares. Ambos sugeriram que desistissem da luta aqueles que quisessem e resolveram deixar que os revoltosos decidissem sobre a ordem de rendição; dos 301 militares que estavam no forte, renderam-se 273. 
Mal. Hermes da Fonseca, 8º Presidente
do Brasil (1910-1914), envolvido
na Revolta do Forte
Para tentar uma negociação, o capitão Euclides Hermes da Fonseca saiu do forte para negociar com o Ministro da Guerra e foi preso. Os 28 restantes continuaram resistindo no forte sob o comando do tenente Siqueira Campos e não bombardearam a cidade como o plano inicial previa, mas, sem possibilidades de vitória, a bandeira do Forte foi rasgada em 28 pedaços e entregue a cada um deles, dispostos a defenderem seus ideais até a morte. A seguir saíram do Forte em marcha, armados, seguindo pela Avenida Atlântica em direção ao Palácio de Catete (sede do governo federal na época). Durante a marcha, porém, ainda alguns militares abandonaram a revolta e restaram apenas 17 que receberam o apoio, na rua, de um civil, Octávio Correa, totalizando 18 revoltosos. Os rebeldes foram cercados pelas tropas do Governo Federal, estimados em 3.000 soldados. Após forte tiroteio em frente ao posto 3 da praia de Copacabana, somente Siqueira Campos, Eduardo Gomes e dois soldados sobreviveram feridos e foram presos. Os outros catorze integrantes do movimento foram mortos no combate desigual.
Há controvérsias quanto ao número total de participantes, de civis (Otávio Correa morreu, mas outro, Lourival Moreira da Silva, teria sido preso), de sobreviventes e de mortos. O número 18 teria sido anunciado pela Gazeta de Notícias e pode ser uma lenda. Ela cita 3 oficiais, 2 sargentos e 13 soldados. Em entrevista à Gazeta de Notícias, o Tenente Newton Prado, que viria a falecer mais tarde em decorrência dos ferimentos, declarou: "Ficamos eu, o Tenente Siqueira Campos e quatorze soldados. Às duas horas da tarde saímos do forte para morrer". 
Fortaleza de Sta. Cruz da Barra,
Niterói, de onde os revoltosos
foram bombardeados
A eles se uniram, na hora do levante, o Tenente Eduardo Gomes (ferido em combate) e Mario Carpenter (morto em combate). Este último pertencia ao 3º Regimento de Infantaria e se recusou a atacar colegas de farda. Na rua, se uniu ao grupo também Otávio Correa, o que leva a soma a 19. Ainda na Gazeta de Notícias são dados como mortos 14 revoltosos, além de 5 feridos. Entre os legalistas, ainda com incerteza, seriam 10 mortos e 4 feridos. Já O Cruzeiro afirmaria anos mais tarde, em 18 de setembro de 1964, 33 soldados governistas como mortos. O Correio da Manhã noticiou 30 feridos, entre ambas as forças, 13 praças e 1 "inferior" (provavelmente sargento) e o 2º Tenente Mario Carpenter entre os revoltosos, mas a essa altura o tenente Newton Prado ainda não havia falecido. Entre os tenentes, apenas Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram. Alguns praças, porém, sobreviveram e fugiram ou foram presos. Segundo outras fontes, teriam morrido, entre oficiais e praças, 12 pessoas no dia 6 e mais duas no dia seguinte, num total de 14 mortos.
A lista a seguir, em ordem alfabética, é uma composição de várias fontes.

1. Altino Gomes da Silva, praça ferido em combate. Sobreviveu vindo a falecer em 1999 com 92 anos em Paquetá.
2. Benedito José do Nascimento, soldado, feito prisioneiro.
3. Eduardo Gomes, tenente, ferido, teve o fêmur partido; posteriormente Brigadeiro e candidato a presidente.
4. Francisco Ribeiro de Freitas, soldado, feito prisioneiro. 
Fotografia histórica dos 18 do Forte,
em marcha, Copacabana.
5. Heitor Ventura da Silva, soldado, feito prisioneiro.
6. Hildebrando da Silva Nunes, praça, morto em combate.
7. Hipólito José dos Santos, praça morto ainda na noite do dia 5.
8. João Anastácio Falcão de Melo, soldado, morto em combate.
9. José Pinto de Oliveira, sargento, ferido.
10. Manoel Ananias dos Santos, praça, sobreviveu ao combate.
11. Manoel Antônio dos Reis, praça corneteiro, ferido.
12. Mario Carpenter, tenente, falecido.
13. Newton (Sizenando) Prado, tenente, faleceu no dia seguinte diante do Presidente.
14. Octávio Correia, civil que se juntou aos militares, morto com um tiro no coração.
15. Pedro Ferreira de Melo, soldado, morto com uma bala nas costas no início dos combates na rua.
16. (Antônio) Siqueira Campos, tenente, ferido gravemente no combate e sobrevivente.
 
Antônio de Siqueira Campos,
Ten. sobrevivente da Revolta,
precocemente morto em
acidente aviatório, 1930.

LEGADO DA REVOLTA

Embora não tenham conseguido atingir seus objetivos, os rebeldes da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana conseguiram estabelecer um importante marco na luta contra o domínio das oligarquias no poder, tornando-se um exemplo para militares e civis do país, como a primeira ação articulada contra a República Velha. Esta revolta inspirou outros movimentos tenentistas no país, como a Coluna Prestes, a Revolta Paulista de 1924 e a Comuna de Manaus, tendo preparado o caminho para a revolução de 1930.


[1] O “tenentismo” foi um movimento político-militar, baseado em uma série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro (tenentes), de camadas médias urbanas, que estavam insatisfeitos com o governo da República Oligárquica no início da década de 1920 no Brasil. As revoltas ocorreram durante o governo de Epitácio Pessoa, também conhecido como ''o patativa''. O tenentismo defendia reformas na estrutura de poder do país, entre as quais se destacam o fim do voto aberto (fim do voto de cabresto), modalidade de voto que favorecia o coronelismo presente na República Oligárquica, além de defenderem a instituição do voto secreto e a reforma na educação pública. 
Ten. Eduardo Gomes, sobrevivente da
Revolta do Forte, candidato a presidência
em 1945 e 1950, Mal. do ar da FAB.
[2] A “Primeira República Brasileira”, também conhecida como “República Velha” ou “República das Oligarquias”, é o período da história do Brasil que se estendeu da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, até a Revolução de 1930 que depôs seu 13º e último presidente efetivo, Washington Luís. A Primeira República foi dividida pelos historiadores em dois períodos. O primeiro deles, chamado de "República da Espada", foi dominado pelos setores mobilizados do Exército apoiados pelos republicanos, e vai da Proclamação da República do Brasil, até a posse do primeiro presidente civil, Prudente de Moraes (1894). A República da Espada teve viés mais centralizador do poder, em especial por temores da volta da Monarquia, bem como para evitar uma possível divisão do Brasil. O segundo período ficou conhecido como "República Oligárquica", e se estendeu de 1894 até a Revolução de 1930. Caracterizou-se por dar maior poder para as elites regionais, em especial do sudeste do país. As oligarquias ("governo de poucos" – forma de governo em que o poder político está concentrado num pequeno número pertencente a uma mesma família, mesmo partido político, grupo econômico ou corporação) dominantes eram as forças políticas republicanas de São Paulo e Minas Gerais, que se revezavam na presidência, impedindo a ocupação do principal cargo do Poder Executivo por representantes dos interesses de outros estados economicamente importantes à época, como Rio Grande do Sul e Pernambuco.
[3] A “Política do café com leite” derivou-se da "Política dos Governadores" e visava a predominância do poder nacional por parte das oligarquias paulista e mineira, tacitamente arquitetada e executada na República Velha, a partir da Presidência de Campos Sales (1898-1902), por presidentes civis fortemente influenciados pelo setor agrário dos estados de São Paulo — com grande produção de café — e Minas Gerais — produtor de leite e maior polo eleitoral do país de então —, impedindo que o principal cargo do Poder Executivo fosse ocupado por representante dos interesses de outros estados economicamente importantes à época, como Rio Grande do Sul e Pernambuco. Essa política perdurou até a Revolução de 1930. Tornaram-se predominantes no poder representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM), que controlavam as eleições e gozavam do apoio da elite agrária de outros estados do Brasil.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O IMPÉRIO OTOMANO (PARTE 2 - FINAL)

II.2 – RESTAURAÇÃO DO IMPÉRIO OTOMANO: 1402 A 1481

Mehmed I, iniciador
da reconquista otomana

O objetivo de Timur na Anatólia tinha sido, não a conquista, mas um flanco ocidental seguro que lhe permitiria conquistas adicionais no leste. Por isso, após sua vitória, retirou-se da Anatólia após restaurar no poder os príncipes turcomanos que se haviam aliado a ele; evidentemente, Timur assumia que uma Anatólia dividida não constituiria ameaça às suas ambições. Nem mesmo os filhos de Bayezid conseguiram assumir o controle sobre as possessões anteriores da família e o Império Otomano na Europa foi deixado praticamente intocado. Àquele tempo, uma forte Cruzada Europeia poderia ter empurrado os Otomanos totalmente fora da Europa, mas a fraqueza e a divisão ao sul do Danúbio e a dispersão para outras questões ao norte, deixaram aos Otomanos uma oportunidade para restaurar o que tinha sido feito em pedaços, sem perdas significativas. 
Divisões internas, contudo, obstaculizaram os esforços otomanos para restaurar seu poder durante um período que se tornou conhecido como o Interregno (1402 a 1413), durante o qual, quatro dos filhos de Bayezid competiram pelo direito ao controle de todo o Império. Seu filho mais velho, Suleiman, assumiu o controle na Europa, estabelecendo uma capital em Edirne e ganhou o apoio dos vassalos cristãos e daqueles que haviam estimulado Bayezid a dirigir suas conquistas para o leste. Os descendentes dos Turcomanos notáveis que haviam assistido às conquistas iniciais dos Otomanos na Europa, apoiaram as reivindicações de Mehmed, outro dos filhos de Bayezid. Com o apoio adicional das ordens religiosas muçulmanas da Anatólia e sindicatos de artesãos, Mehmed conseguiu derrotar e matar seus irmãos Mûsa Bey - que havia estabelecido sua capital em Bursa - e Isa Bey de Balikesir, no sudoeste da Anatólia, bem como Suleiman, e assim assumir a posse indisputada de todo o Império, como Sultão Mehmed (Muhammad) I.

II.2.1 – MEHMED I E MURAD II

Sob Mehmed I (governou de 1413 a 1420) e Murad II (1421 a 1451) houve um novo período de expansão em que o império de Bayezid foi restaurado e novos territórios foram incorporados. Mehmed restaurou o sistema de vassalagem[1] na Bulgária e na Sérbia, prometendo que realizaria novas incursões na Europa. Seu filho e sucessor, Murad II, foi também obrigado a devotar a maior parte dos anos iniciais do seu reinado a problemas internos, particularmente aos esforços dos comandantes ghazis e os príncipes vassalos dos Balcãs na Europa, bem como os príncipes e vassalos turcomanos na Anatólia, para reter a autonomia e, em algumas áreas, a independência que havia sido ganha durante o interregno. Em 1422-1423, Murad suprimiu a resistência dos Balcãs e colocou Constantinopla sob novo sítio que terminou somente após os Bizantinos lhe pagarem enormes tributos. Ele então restaurou o domínio Otomano na Anatólia e eliminou todos os principados turcomanos deixados por Timur, com as exceções de Karaman e Candar (Jandar, região ao norte da Anatólia, hoje Turquia), que ele deixou como autônomas, embora tributárias, para não excitar os renovados medos dos sucessores de Timur no leste.
Murad então iniciou a primeira guerra Otomana com a cidade-estado de Veneza (1423 – 1430), que havia mantido relações amistosas com os sultões a fim de desenvolver uma forte posição de comércio nos domínios otomanos, mas tinha aceito Salônica (atual Tessalônica, Grécia) do Bizâncio, a fim de prevenir a expansão otomana através da Macedônia para o Mar Adriático, seu suporte de sobrevivência para o comércio com o resto do mundo. A guerra esteve indecisa por algum tempo, com Veneza desviada por conflitos na Itália e com poucos recursos para enfrentar os otomanos em terra, ao passo que os otomanos necessitavam de tempo para construir uma força naval que pudesse enfrentar Veneza. Além disso, Murad foi desviado por um esforço dos húngaros para estabelecer seu comando na Walachia, entre o Danúbio e os Alpes Transilvanianos, um movimento que inaugurou uma série de conflitos entre otomanos e húngaros, que ocupariam muito do restante do seu reinado. Finalmente, Murad conseguiu uma frota suficientemente forte para bloquear Salônica e conquistá-la em 1430, com seu exército. Ataques otomanos navais subsequentes contra portos venezianos nos mares Adriático e Egeu, forçaram Veneza, em 1432, a fazer uma paz em que ela abandonou seus esforços para evitar o avanço otomano no Adriático, mas obteve a liderança do poder comercial nos domínios do Sultão. 
Murad II, Sultão
do Império Otomano
(1421-1444 e 1446-1451)

Murad, que fora colocado no trono pelos “turcos notáveis” (que comandavam os exércitos otomanos) que haviam aderido ao Estado Otomano durante o primeiro século de sua existência, logo começou a ressentir-se do poder que eles haviam ganho de volta; o poder daqueles notáveis havia também aumentado pelos grandes novos estados que eles haviam construído nas áreas conquistadas da Europa e Anatólia. Para neutralizar seu poder, ele começou a estimular o poder de vários grupos não turcos a seu serviço, particularmente os compostos por escravos cristãos e convertidos ao islamismo, cujo braço militar foi organizado em uma nova estrutura chamada de Corpo de Janízaros[2]. Para fortalecer tal grupo, Murad começou a distribuir muitas de suas novas conquistas aos seus membros e, para adicionar novos apoiadores daquele tipo, ele desenvolveu o famoso sistema “devsirme” (sistema tributário), pelo qual jovens cristãos eram recrutados das províncias balcânicas para conversão ao Islam e serviço vitalício ao sultão. Com seu número e receita crescentes, os “homens devsirme” e seus apoiadores alcançaram um considerável poder político. Uma vez que as novas conquistas europeias estavam sendo usadas pelo sultão para fortalecer os “devsirme”, eles queriam que as conquistas prosseguissem e se expandissem, ao passo que os “turcos notáveis”, cujo poder era diminuído pelo status crescente dos “devsirme”, se opunham às conquista adicionais. Murad, desejando retornar às políticas agressivas de expansão europeia para auxiliar os “devsirme” a reduzirem o poder dos “turcos notáveis”, renovou o conflito com a Hungria na Sérvia e Walachia (região histórica da Romênia), em 1434. Aproveitou a morte de Sigismund, o rei húngaro, em 1437, para reocupar a Sérvia (exceto Belgrado) e devastar boa parte da Hungria. Anexou então a Sérvia em 1439, iniciando uma política de substituição dos vassalos com direto mando otomano por todo o Império. O controle húngaro de Belgrado tornou-se o obstáculo primeiro ao avanço em grande escala ao norte do Danúbio. Embora tendo conquistado a região em 1443, a crescente influência dos “turcos notáveis” na corte de Murad, levou o sultão a aceitar a Paz de Edirne, em 1444, por cujos termos a Sérvia recuperava sua autonomia, a Hungria mantinha Walachia e Belgrado e os otomanos prometiam cessar seus ataques ao norte do Danúbio. No mesmo ano Murad fez a paz com o Karaman, seu principal inimigo anatoliano, retirando-se para uma vida de contemplação religiosa, voluntariamente passando o trono ao seu jovem filho Mehemed II, que já mostrava suas qualidades de liderança que distinguiria seu longo reinado embora, à época, ele confiasse, principalmente, em seus apoiadores “devsirme” para aconselhamento e assistência.
Os Bizantinos e o Papa Eugênio IV aproveitaram a oportunidade criada pelo mando de um jovem e inexperiente sultão para expulsar os otomanos da Europa, organizando uma nova cruzada – junto com Hungria e Veneza – após a garantia do Papa de que eles não eram obrigados a honrar o tratado de paz assinado com os infiéis muçulmanos. Um exército cruzado se deslocou pela Sérvia através dos Balcãs, para o Mar Negro em Varna, Bulgária, onde ele seria abastecido e transportado para Constantinopla por uma frota veneziana que velejaria pelos estreitos, enquanto usavam seu poder para evitar que Murad retornasse da Anatólia com o grosso do exército otomano. Embora tendo atingido Varna, os cruzados lá ficaram retidos por uma decisão servia de se manter leal ao sultão e pela relutância veneziana de cumprir sua parte no acordo por medo de perder sua posição comercial no caso de uma vitória otomana. Brigas adicionais entre os líderes cruzados deram a Murad tempo para retornar da Anatólia e organizar um novo exército. A vitória turca na Batalha de Varna, em 10 de novembro de 1444, terminou com o mais importante esforço cruzado europeu contra os otomanos.
Murad reassumiu o trono e restaurou o poder do corpo “devsirme”, cujas insistentes demandas de conquistas o conduziram a gastar o restante do seu reinado eliminando os vassalos e estabelecendo seu mando direto em boa parte da Trácia, Macedônia, Bulgária e Grécia. No processo, ele dividiu as terras recém adquiridas em estados, cujas receitas aumentaram o poder dos “devsirme” às expensas dos turcos notáveis. Somente a Albânia resistiu, pela liderança de seu herói nacional, Skanderbeg (George Kastrioti), que foi finalmente derrotado pelo sultão na segunda Batalha de Kosovo (1448). À época da morte de Murad em 1451, a fronteira do Danúbio estava segura e parecia que o Império Otomano estava permanentemente estabelecido na Europa. Embora a vitória em Varna trouxesse mais poder ao corpo “devsirme”, o grande vizir (chefe consultor do sultão) Candarli Halil Pasa conseguiu reter uma posição dominante dos “turcos notáveis” a quem liderou pela manutenção da confiança do sultão e pela permanente divisão de seus oponentes. Em consequência, o príncipe Mehmed II tornou-se o candidato dos “devsirme” e somente com a sua ascensão eles puderam atingir o poder político e militar possível pela base financeira construída durante as duas décadas anteriores. 
Mehmed II, o conquistador
do Império Bizantino


II.2.2 – MEHMED II

Sob o comando do sultão Mehemed II, de 1451 a 1481, pouco a pouco os “devsirme” vieram a dominar e pressionar por seu desejo de novas conquistas, a fim de tirar vantagem da fraqueza europeia criada em Varna, tornando Constantinopla seu primeiro objetivo. Para Mehmed e seus apoiadores, os domínios otomanos na Europa não poderiam nunca alcançar sua plena extensão ou ser moldados em um império real, enquanto seu natural centro administrativo e cultural permanecesse fora de suas mãos. O grande vizir e outros “turcos notáveis” opuseram-se fortemente ao ataque, ostensivamente, porque ele poderia motivar a formação de uma nova cruzada, mas de fato, por seu medo de que a captura da capital bizantina pudesse trazer o triunfo final dos “devsirme”. Mehmed II construiu a Fortaleza Rumeli no lado europeu do Bósforo, a partir da qual conduziu o cerco (6 de abril a 29 de maio de 1453) e a conquista de Constantinopla. 
Localização da Fortaleza Rumeli
com relação a Istanbul
(então Constantinopla)

Vamos introduzir aqui um pequeno parêntesis que julgamos muito importante, como adicional esclarecimento para o assunto. Rumeli ou Rumélia foram as primeiras possessões otomanas nos Balcãs. O nome significa “terra dos romanos”, no caso os bizantinos, seus sucessores. Os turcos iniciaram suas conquistas nos Balcãs em meados do século XIV, quando a região era dividida em feudos de vários tamanhos administrados por oficiais de cavalaria; notáveis locais, convertidos ao islamismo também participavam da administração. A configuração administrativa da Rumélia variou frequentemente até 1846 quando a unidade da divisão administrativa foi definida como a província (ou vilayet), que foi por sua vez dividida em sancak (subprovíncias). 
Fortaleza Rumeli, cabeça de ponte
para a conquista de Constantinopla

A queda de Constantinopla foi a captura da capital do Império Bizantino pelo Império Otomano. A cidade caiu em 29 de maio de 1453, culminando com um sítio de 53 dias que havia iniciado em 6 de abril do mesmo ano. O exército atacante otomano, de longe muito mais numeroso que os defensores de Constantinopla, era comandado pelo Sultão Mehmed II (mais tarde chamado “o Conquistador”), então com 21 anos de idade, ao passo que o exército bizantino era conduzido pelo Imperador Constantino XI Palaiologos. Após conquistar a cidade, Mehmed II fez de Constantinopla a nova capital otomana, substituindo Adrianópolis. A queda de Constantinopla marcou o fim do Império Bizantino e, efetivamente, o fim do Império Romano, um estado datava de 27 AC e durara cerca de 1500 anos. A captura de Constantinopla, uma cidade que marcou o divisor entre a Europa e a Ásia Menor, também permitiu que os otomanos mais efetivamente invadissem a Europa, finalmente conduzindo a Península Balcânica ao controle otomano.
A conquista de Constantinopla com a queda do Império Bizantino foi um evento chave do final da Idade Média, sendo considerado o fim do período Medieval, permanecendo também como um ponto decisivo na história militar. Desde tempos antigos, cidades e castelos haviam dependido de aclives e muralhas para repelir invasores. Contudo, as substanciais fortificações de Constantinopla foram dominadas com o uso da pólvora, especialmente na forma de grandes canhões e bombardas.
A transformação da cidade de Constantinopla na capital otomana de Istambul marcou um importante novo estágio na história dos otomanos. Internamente, marcou o fim do poder e influência da velha nobreza turca, cujos líderes foram executados ou exilados para a Anatólia e cujas propriedades europeias foram confiscadas, bem como o triunfo dos “devsirme” e seus apoiadores em Istambul e no Oeste. Externamente, a conquista tornou Mehmed II o mais famoso mandatário do mundo muçulmano, embora as terras do antigo califado ainda permanecessem em mãos dos mamelucos do Egito e sucessores de Timur, no Irã. Além disso, a posse de Constantinopla estimulou, em Mehmed II, o desejo de ter sob o seu domínio, não apenas os mundos islâmicos e turcos, mas também recriar o Império Bizantino e, talvez, todo o mundo cristão. Para perseguir tais objetivos, Mehmed II desenvolveu várias bases de poder. Internamente, seu primeiro objetivo foi restaurar Istambul, que ele havia poupado da devastação durante a conquista, como o centro político, econômico e social que havia anteriormente dominado. Ele trabalhou para repovoar a cidade, não somente com seus habitantes originais, mas também com elementos de todos os povos conquistados do Império, cuja residência e miscigenação forneceria um modelo para um império poderoso e integrado. Atenção especial foi dada à restauração da indústria e comércio de Istambul com substanciais concessões de impostos feitas para atrair mercadores e artesãos. Enquanto milhares de cristãos e muçulmanos eram trazidos para a cidade, gregos e armênios não eram propensos a aceitar o mando muçulmano otomano e procuravam conseguir novas cruzadas europeias. Mehmed deu então especial atenção à atração de judeus da Europa Central e Oeste, onde se encontravam sujeitos a crescente perseguição. A lealdade daqueles judeus aos otomanos foi induzida pela de seus correligionários do Bizâncio, que haviam apoiado e assistido as conquistas otomanas após a perseguição de longa duração a que haviam sido submetidos pela Igreja Ortodoxa Grega e seus seguidores. Sob o mando otomano, os principais grupos religiosos tinham permissão para estabelecer suas comunidades com governo próprio, chamadas millets, cada uma mantendo suas próprias leis religiosas, tradições e língua, sob a proteção geral do sultão. Os millets eram dirigidos por chefes religiosos que serviam de líderes religiosos e seculares e assim tinham um interesse substancial na continuação do mando otomano. Mehmed usou o exército conquistador para recuperar a estrutura física da cidade. Velhos prédios foram recuperados, ruas, aquedutos e pontes foram construídos, instalações sanitárias foram modernizadas e um vasto sistema de abastecimento foi estabelecido para fornecimento de bens aos habitantes da cidade.
Mehmed também devotou muito tempo à expansão dos seus domínios na Europa e Ásia, a fim de estabelecer sua pretensão à liderança mundial. Para isso, ele eliminou os últimos príncipes vassalos que poderiam disputar seus direitos a legítimo sucessor às dinastias Bizantina e Seljuk, estabelecendo uma administração otomana direta na maioria das províncias de todo o Império. Além disso, ele estendeu o mando otomano muito além dos territórios herdados de Murad II. De 1454 a 1463 ele concentrou-se principalmente no sudeste da Europa, anexando a Sérvia (1454-55) e conquistando a Morea[3] (1458-60), assim eliminando os últimos principais pretendentes ao trono bizantino. Quando Veneza recusou entregar seus portos importantes ao longo da costa da Morea, Mehmed iniciou a segunda guerra Otomana-Veneziana (1463-1479). Em 1461 ele anexou Trebizond (também Trabzon e historicamente Trapezus, capital de província de mesmo nome da atual Turquia, margem sudeste do Mar Negro) e as colônias comerciais genovesas que haviam sobrevivido ao longo da costa do Mar Negro da Anatólia, incluindo Sinop e Kafa, iniciando o processo pelo qual os príncipes tártaros da Crimeia foram compelidos a aceitar o sultanato otomano. Em 1463 ele ocupou e anexou a Bósnia. Como a Albânia continuasse a resistir, ajudada por suprimentos enviados por mar, de Veneza, Mehmed enviou turcomanos irregulares em grande quantidade que, em processo de conquista da Albânia, lá se estabeleceram, formando o núcleo de uma comunidade muçulmana que permanece até hoje. Como o Papa e Veneza não conseguiam montar uma nova Cruzada na Europa, eles distraíram Mehmed encorajando ataques de seus inimigos do leste, o principado turcomano de Karaman e a dinastia tártara Ak-Koyunlu (“Ovelhas Brancas”), que sob a liderança de Uzun-Hasan tinha substituído os descendentes de Timur no Irã Ocidental. Mehmed, contudo, habilmente usou divisões dinásticas para conquistar o Karaman em 1468, assim estendendo o mando direto otomano na Anatólia, até o Eufrates. Quando Uzun-Hasan respondeu, invadindo a Anatólia com o apoio de muitos príncipes turcomanos que haviam sido despojados por Mehmed, Veneza intensificou seus ataques na Morea, a Hungria se deslocou à Sérvia e Skanderbeg (herói albanês) atacou a Bósnia. Mehmed, contudo, foi capaz de se defender de todos os inimigos. Em 1473 ele liquidou com Uzun-Hasan que reconheceu o mando otomano em toda a Anatólia e retornou ao Irã. Isso colocou os otomanos em conflito com o Império Mameluco da Síria e Egito que buscavam se expandir no sudeste da Anatólia. Mehmed neutralizou as foças mamelucas embora não as derrotasse. Voltou-se então para Veneza iniciando vários ataques navais ao longo da costa adriática, que conduziram à paz em 1479, pela qual Veneza entregava suas bases na Albânia e Morea e concordava em pagar um tributo anual regular em troca da restauração dos seus privilégios comerciais. Mehmed usou então sua nova força naval para atacar a ilha de Rodes e enviar uma grande força que aportou em Otranto, sul da Itália, em 1480. O sucesso era iminente, mas sua morte prematura em 1481 trouxe seu esforço a um fim. Contudo, Mehmed havia lançado as bases para o domínio otomano na Anatólia e sudeste da Europa, que sobreviveria pelos próximos quatro séculos.
Além de conquistar um enorme Império, Mehmed trabalhou para consolidá-lo e para codificar as instituições política, administrativa, religiosa e legal desenvolvidas durante o século anterior, pela promulgação de uma série de leis seculares (kanun) compiladas por assuntos em códigos legais chamados kanunnames. Contudo, a amplitude da tarefa e seu envolvimento em numerosas campanhas, retardaram o processo em tal extensão que ela só foi completada durante o século XVI. Mehmed também só teve sucesso limitado na construção das bases econômicas e sociais do seu império. Seu mais importante problema foi garantir recursos financeiros suficientes para as suas expedições militares e os novos aparatos do governo e da sociedade. Os sistemas de impostos herdados de seus predecessores não previam os recursos necessários, principalmente porque muitas das terras conquistadas tornavam-se Estados (Timars), cujos impostos revertiam integralmente aos seus detentores para serviços militares e administrativos. Mehmed então dedicou-se a vários expedientes financeiros que rapidamente atingiram seus objetivos imediatos, mas a custa de graves dificuldades econômicas e sociais. Regularmente retirava de circulação todas as moedas e emitia novas com maior proporção de ligas metálicas de baixo valor. Para forçar a aceitação das novas moedas, ele enviava bandos armados por todo o Império, com o direito de confiscar, sem compensação, todas as moedas antigas e mais valiosas que não eram voluntariamente trocadas pelas novas. A desvalorização da cunhagem logo causou inflação que muito perturbou a indústria e o comércio que o Sultão esperara promover. Além disso, em sua busca por receitas, Mehmed criou monopólios sobre a produção e o uso de bens essenciais, que distribuía entre os maiores pretendentes que, por sua vez, cobravam preços excessivamente altos e criavam escassez artificial que garantisse seus lucros. Finalmente, Mehmed estabeleceu o princípio de que toda a propriedade com produção de receita pertenceria ao Sultão. Na persecução de tal ideia, ele confiscou muita propriedade privada e terras de fundações religiosas, criando um tremendo ressentimento e oposição entre os que perderam suas receitas, incluindo membros da classe religiosa Ulama (teólogos), os “turcos notáveis” e mesmo de alguns “devsirme”, que ameaçaram minar tanto o Sultão como o Estado. Foi somente jogando um grupo contra o outro que Mehmed conseguiu manter sua própria posição e poder para continuar suas conquistas.

III – O APOGEU DO PODER OTOMANO (1481 - 1566)

Durante o século que seguiu o reinado de Mehmed II, o Império Otomano alcançou o auge do seu poder e riqueza. Novas conquistas estenderam seus domínios bem além da Europa Central e por toda a porção árabe do velho Califado Islâmico e uma nova mistura de organizações e tradições políticas, religiosas, sociais e econômicas foram institucionalizadas e desenvolvidas num todo vivo e trabalhador. 0
Bayezid II, o consolidador do
Império Otomano

O reino do sucessor imediato de Mehmed II, Bayezid II, foi em grande parte um período de descanso. As conquistas prévias foram consolidadas e muitos dos problemas políticos, econômicos e sociais causados pelas políticas internas de Mehmed foram resolvidos, deixando uma base firme para as conquistas dos sultões do século XVI. A escassez financeira, imposta para financiar as campanhas de Mehmed II, haviam conduzido o Império, durante o ano final do seu reinado, a uma virtual guerra civil entre as principais facções em Istambul, os “devsirme” e a aristocracia turca. Bayezid II foi instalado no trono pelos Janízaros, por sua dominação militar da capital, enquanto seu irmão mais militante, Cem, fugiu para a Anatólia onde preparou uma revolta inicialmente apoiada pelos “turcos notáveis”. Bayezid tentou a conciliação expondo a eles seus planos essencialmente pacíficos, o que minorou a influência dos “devsirme”, deixando Cem sem apoio importante e obrigando-o a fugir então, em exílio, para a Síria mameluca, no verão de 1481. Ele retornou no ano seguinte com a ajuda dos mamelucos e o último governante turcomano do Karaman, mas seu esforço para garantir o apoio dos nômades turcomanos falhou por sua atração às políticas religiosas heterodoxas de Bayezid. Cem permaneceu no exílio, primeiro na corte dos Cavaleiros Cruzados de Rhodes e então com o Papa, em Roma, até sua morte em 1495. Os esforços europeus para usá-lo como ponta de lança de uma nova cruzada para recuperar Istambul fracassaram. Enquanto isso, a ameaça de que Cem pudesse liderar o ataque estrangeiro, compeliu Bayezid a concentrar-se numa consolidação interna. A maior parte das propriedades confiscadas por seu pai para campanhas militares, foi devolvida aos seus antigos proprietários. Impostos iguais foram estabelecidos por todo o Império de maneira que todos os súditos pudessem cumprir suas obrigações com o governo sem o tipo de interrupção ou insatisfação que caracterizavam o antigo regime. Particularmente importante foi o estabelecimento do imposto do “tesouro de guerra”, que arcava com as despesas extraordinárias de guerra sem confiscações especiais ou pesadas taxações. O valor da cunhagem foi restaurado e os planos de expansão econômica de Mehmed II finalmente se concretizaram. Para isso, milhares de judeus expulsos da Espanha pela Inquisição durante o verão de 1492, foram encorajados a imigrar ao Império Otomano. Eles se estabeleceram principalmente em Istambul, Salônica (atual Tessalônica, Grécia) e Edirne, onde se juntaram aos seus irmãos de religião, numa idade áurea do Judaísmo Otomano que durou até o século XVII, quando o declínio otomano e a ascensão do poder dos diplomatas e mercadores europeus permitiu-lhes promover os interesses dos súditos cristãos do Sultão às expensas dos muçulmanos e judeus igualmente. Bayezid II completou os esforços iniciados por Mehmed II para substituir os vassalos com administração direta otomana por todo o Império. Pela primeira vez o governo central operava regularmente sob um orçamento equilibrado. Culturalmente, Bayezid estimulava uma forte reação contra as tendências de cristianização da primeira metade do século. A língua turca e as tradições muçulmanas foram enfatizadas.
Embora Bayezid preferisse manter a paz – para ter tempo e recursos para concentrar no seu desenvolvimento interno – ele foi forçado a realizar um bom número de campanhas pelas exigências do período e pelas demandas de seus seguidores “devsirme” mais combativos. Na Europa, ele completou o Império ao sul dos rios Danúbio e Sava, tomando Herzegovina (1483), ficando apenas Belgrado fora do comando Otomano. O rei húngaro Matthias Corvinus (reinou entre 1458 e 1490) estava principalmente interessado no estabelecimento do seu controle sobre a Bohemia e concordou na paz com os otomanos (1484); após a sua morte, conflitos pela sucessão deixaram aquela frente relativamente calma pelo restante do reinado de Bayezid. Para o nordeste, o sultão estendeu o território otomano ao norte do Danúbio, ao longo das margens do Mar Negro, capturando em 1484, os portos de Kilia (atual Kiliya) e Akkerman (Bilhorod-Dnistrovskyy) – ambos no que é hoje a Ucrânia – que controlavam as fozes do Danúbio e do Dniester. Assim, os otomanos controlavam os principais entrepostos do comércio do norte da Europa com o Mar Negro e o Mediterrâneo. Esses avanços conflitaram com as ambições da Polônia e a guerra aconteceu, até que as ameaças de Moscou, sob Ivan III, sobre a Polônia, deixassem também aquela frente calma após 1484.
Bayezid então virou-se para o leste, onde as conquistas anteriores até o rio Eufrates haviam levado os otomanos até o Império Mameluco. O controle sobre o pequeno principado turcomano de Dulkadir e o desejo otomano de disputar com os muçulmanos o controle das cidades santas de Mecca e Medina, conduziu a uma guerra intermitente entre 1485 e 1491, inconclusiva, que conduziu à dissenção crítica por parte dos seus seguidores mais aguerridos. Para se opor a isso, Bayezid apoiou as lutas internas húngaras para tomar Belgrado, sem sucesso. Forças enviadas à Transilvânia, Croácia e Carinthia (atual Áustria) foram rechaçadas. Em 1495 Cem morreu e uma nova paz com a Hungria esvaziou os objetivos de Bayezid que então voltou-se contra Veneza, seu outro principal inimigo europeu, que encorajava revoltas contra o sultão em várias regiões. Em 1489 Veneza ganhara o controle de Chipre, construíra uma importante base naval, recusando a Bayezid o seu uso contra os Mamelucos e usando-a como base para ataques piratas contra navios e praias otomanas. Na guerra que se seguiu contra Veneza (1499-1503), todos os objetivos de Bayezid foram alcançados, com exceção da ilha de Chipre. A frota otomana emergiu, pela primeira vez, como o principal poder naval do Mediterrâneo e os otomanos tornaram-se uma parte integrante das relações diplomáticas europeias. 
Selim I, ampliador do
Império Otomano

Bayezid nunca pôde usar a situação para fazer novas conquistas na Europa porque novas revoltas na Anatólia oriental ocuparam muito de sua atenção durante os últimos anos de seu reinado. No final, a natureza crescentemente mística e pacífica de Bayezid, levaram os Janízaros a destroná-lo em favor de seu aguerrido e ativo filho Selim I.
Durante o século XVI a expansão do Império Otomano prosseguiu com a derrota dos Mamelucos no Egito e Síria, em 1517, Algiers em 1518 e Hungria em 1526 e 1541. Além disso, partes da Grécia também caíram sob o controle dos otomanos no século XVI. 
O ápice do Império Otomano

Em 1535, o reinado de Suleiman I começou e a Turquia ganhou mais poder do que já tinha tido sob seus líderes precedentes. Durante o reinado de Suleiman I, o sistema jurídico turco foi reorganizado e a cultura turca cresceu significativamente. Com sua morte, o Império começou a perder força quando o seu poder militar foi derrotado durante a Batalha de Lepanto, em 1571, pela “Liga Santa” (formada por potências cristãs do Mediterrâneo), que definitivamente impediu sua influência para o oeste e marcou o início da queda do Império Otomano. 
Suleiman I, o imperador do
auge do Império Otomano


IV – CONCLUSÃO

O objetivo principal desta postagem, como explicado em nossa introdução, era mostrar aos leitores a origem de império tão formidável a ponto de conseguir derrubar de uma vez por todas o Império Romano, que sobreviver a mais de quinze séculos. Consideramos que isto tenha sido conseguido e apresentamos a seguir apenas mais algumas muito resumidas linhas, até a constituição da República da Turquia. O permanente declínio do Império Otomano ocorreu com participações importantes em várias guerras, que incluíram a Guerra da Crimeia e a Primeira Guerra Mundial quando, derrotado em todas as frentes de batalha, assinou o Armistício de Mudros em 30 de outubro de 1918. A divisão do Império Otomano foi finalizada sob os termos do Tratado de Sèvres que, projetado na Conferência de Londres, permitiu ao Sultão reter sua posição e título. O status da Anatólia tornou-se problemático dada a ocupação aliada de Constantinopla e Smirna, quando ocorreu uma oposição nacionalista no Movimento Nacional Turco, que acabou vencendo a Guerra Turca de Independência (1919-1923), sob a liderança de Mustafá Kemal. O Sultanato foi abolido em 1º de novembro de 1922 e o último Sultão, Mehmed VI (reinou de 1918 a 1922) deixou o país em 17 de novembro de 1922. A nova e independente Grande Assembleia Nacional da Turquia foi internacionalmente reconhecida com o Tratado de Lausanne, em 24 de julho do mesmo ano e oficialmente declarada a República da Turquia em 29 de outubro de 1923, com sua nova capital em Ankara. O Califado foi constitucionalmente abolido vários meses após, em 3 de março de 1924.

[1] Um vassalo, na sociedade feudal ou feudalismo (termo historiográfico que designa as condições social, econômica e política na Europa Ocidental durante o início da Idade Média, longo período de tempo entre os séculos V e XII), era alguém investido com um feudo (pedaço de terra) como recompensa por serviços prestados a um lorde superior. Alguns vassalos não possuíam feudos e viviam na corte de seus lordes como cavaleiros da corte. Alguns vassalos que recebiam seus feudos diretamente da coroa, eram usuários principais e formavam o mais importante grupo feudal, os barões.

[2] Significando “nova força” ou “novos soldados”, eram membros de uma força de elite no exército permanente do Império Otomano. Altamente respeitados por sua bravura militar nos séculos XV e XVI, os Janízaros tornaram-se uma poderosa força política dentro do estado otomano. Durante períodos de paz eles eram usados como guarnições de cidades de fronteira e polícia da capital. Constituíram o primeiro exército permanente moderno na Europa.

[3] O Despotado da Morea era um principado autônomo localizado no Peloponeso Grego (Morea). Foi estabelecido no meio do século XIV pelo imperador bizantino João VI Cantacuzenus (que reinou entre 1347 e 1354), como um apanágio ao seu filho Manuel Cantacuzenus, que consolidou seu território contra as pretensões dos latinos (europeus ocidentais) e as investidas dos turcos.