Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

segunda-feira, 25 de maio de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: VALE DO INDO OU HARAPPIANA (PARTE 01)

I - INTRODUÇÃO

A expressão “Civilizações Antigas”, em geral, evoca imagens do Egito e da Mesopotâmia, suas pirâmides, múmias e túmulos dourados. Mas em 1920, uma imensa descoberta, ao sul da Ásia, provou que Mesopotâmia e Egito não eram as únicas “Civilizações Antigas”. Nas vastas planícies de inundação do Rio Indo, localizadas no Paquistão de hoje e oeste da Índia, sob camadas de terra e elevações de lama, arqueólogos descobriram as ruínas de uma cidade com cerca de 4.600 anos de idade. Uma próspera civilização urbana havia existido ao mesmo tempo do Egito e Mesopotâmia, em uma área duas vezes maior! Evidências de práticas religiosas nesta área, datam de 5500 AC. Os assentamentos agrícolas começaram cerca de 4000 AC e cerca de 3000AC surgiram os primeiros sinais de urbanização. Por 2600 AC, dúzias de vilas e cidades já tinham se estabelecido e entre 2500 e 2000 AC a Civilização do Vale do Indo (CVI) atingiu o seu ápice.
Esse povo do Vale do Indo não construiu monumentos imensos, como seus contemporâneos, nem enterraram seus mortos poderosos em tumbas douradas. Não foram encontradas múmias, nem restos de imperadores, nem vestígios de guerras violentas ou batalhas sangrentas em seu território. Entretanto, a ausência de tudo isso é que faz tal civilização tão excitante e única. Enquanto outras haviam devotado imensas quantidades de tempo e recursos aos ricos, ao supernatural e aos mortos, os habitantes do Vale do Indo usaram uma abordagem prática para manter as pessoas comuns, seculares e vivas. Seguramente eles acreditavam num após vida e empregavam um sistema de divisões sociais, mas acreditavam que os recursos eram mais valiosos para circular entre os vivos do que em exposições ou enterrados. Esta civilização parece ter sido muito pacífica; poucas armas foram encontradas e nenhuma evidência de exército foi descoberta. Os ossos escavados não revelaram sinais de violência e as ruínas de construções não mostraram indicação de batalhas. Toda a evidência apontou a uma preferência pela paz e sucesso para alcança-la. Assim, como uma civilização tão prática e pacífica pode alcançar tanto sucesso?
Após termos visto, com detalhes, duas das maiores civilizações da antiguidade, iniciaremos hoje a apresentação da terceira e última. Não tão conhecida, nem tão famosa - e ainda muito pouco estudada -, como as duas anteriores, mas igualmente antiga e, novamente, como as duas primeiras, nascida às margens de um grande rio, o vale do Rio Indo.
Figura 1: Localização Geral da Civilização do Vale do Indo
Eu gostaria de começar a apresentação, mostrando dois mapas, emprestados do Google Earth, para que os leitores fiquem perfeitamente localizados. A Figura 1 mostra um mapa em pequena escala, onde pode-se ver o Paquistão moderno, praticamente ao centro, país onde se localiza o Vale do Rio Indo. Nessa figura pode-se ver, claramente, a individualização deste país por uma linha branca, fazendo fronteira com a Índia a leste (à direita) e com o Afeganistão e o Irã (onde ficava a região da Mesopotâmia, primeira grande civilização apresentada), a oeste (à esquerda). Mais ainda para o oeste, passando pelo Iraque e Oriente Médio, pode-se ver o Egito, segunda grande civilização da antiguidade que apresentamos. Ao norte ele faria fronteira com a China.
Figura 2: Foco na região do Vale do Indo, em verde
Na Figura 2, demos um “zoom” na foto do Google Earth, para mostrar apenas o Paquistão moderno, ampliado, mas agora perfeitamente visível, na superfície verde, o Vale do Rio Indo, berço da terceira grande civilização da antiguidade, cuja apresentação iniciaremos agora.
A Civilização do Vale do Indo foi uma civilização da Idade do Bronze (3000 – 1300 AC) que se estendeu, do que é hoje o nordeste do Afeganistão, ao Paquistão e noroeste da Índia (Figura 3, abaixo), cobrindo uma área de 1,25 milhões de quilômetros quadrados, assim representando a maior das civilizações antigas que já existiu. Ela floresceu na bacia hidrográfica do rio Indo, um dos maiores rios da Ásia, e do rio Sarasvati (hoje seco) que à época corria através do noroeste da Índia e leste do Paquistão e é hoje identificado como o rio Ghaggar-Hakra, por numerosos estudos.
Figura 3: Cidades da Civilização Indo com cidades modernas
No seu auge, a Civilização do Indo pode ter tido uma população de mais de cinco milhões de habitantes, que desenvolveu novas técnicas em artesanato (produtos de cornalina – pedra semipreciosa castanho-avermelhada -, entalhes em tabletes) e metalurgia (cobre, bronze, chumbo e estanho). As cidades do Indo são notáveis por seu planejamento urbano, casas de tijolos cozidos, sistemas de drenagem elaborados, sistemas de abastecimento de água e agrupamentos de grandes construções não residenciais.
As ruínas de duas antigas cidades, em particular, Harappa, no alto vale do Indo, e Mohenjo-Daro, no seu trecho inferior, ambas no Paquistão moderno, e os restos de muitos outros povoamentos, têm revelado grandes pistas para os mistérios dessa civilização. Harappa foi, de fato, uma descoberta tão preciosa que a Civilização do Vale do Indo é também chamada de Civilização Harappiana. As evidências sugerem que ambas tinham uma vida urbana altamente desenvolvida, muitas casas contendo poços e banheiros, bem como um elaborado sistema de drenagem subterrâneo. As condições sociais dos cidadãos eram comparáveis às dos habitantes da Suméria e superiores às dos babilônios e egípcios e as cidades dispunham de uma bem planejado sistema de urbanização.
Harappa foi o primeiro dos locais a ser escavado em 1920, então em Punjab, província da Índia britânica e hoje no Paquistão. Sua descoberta e, em seguida, a de Mohenjo-Daro, foi o ponto culminante de um trabalho iniciado em 1861, com a fundação do Archaeological Survey of India (Levantamento Arqueológico da Índia) no regime britânico. A escavação de sítios harappianos iniciou em 1920 com importantes interrupção em 1999. Houve culturas mais antigas e mais recentes – Harappiana Antiga e a Harappiana Final, na mesma área da Civilização Harappiana. Esta é, muitas vezes, chamada de Cultura Harappiana Madura, para distinguir das anteriores. Em 1999, mais de 1.056 cidades e povoações tinham sido encontradas, das quais 96 haviam sido escavadas, principalmente na região geral dos rios Indo e do Sarasvati e seus tributários.
Figura 4: Em azul, algumas das cidades escavadas até 1999
Entre os locais escavados estavam os importantes centros urbanos de Harappa, Mohenjo Daro (Patrimônio Histórico Mundial da UNESCO), Dholavira, Ganeriwala no deserto de Cholistan e Rakhigarhi (Figura 4).

II – DESCOBERTAS E CRONOLOGIA

As ruínas de Harappa, um centro urbano da Civilização Indo, localizada na província de Punjab, Paquistão, num leito antigo do rio Ravi, foram primeiro mencionadas em 1842, mas nenhum interesse arqueológico surgiu por quase um século. Após essa menção, por vários anos, ruínas de povoações próximas foram usadas como lastro para estradas de ferro inglesas que estavam sendo construídas. Em 1872 foi publicado o primeiro tablete (selo[1]) harappiano. Meio século após, em 1922, mais selos harappianos foram descobertos quando se preparava uma expedição de escavação que sairia em 1921-1922, resultando na descoberta da civilização em Harappa e em Mohenjo-Daro. As últimas pesquisas revelaram pelo menos cinco montículos em Harappa, que representações em três dimensões indicam ter sido circundadas por extensivas muralhas; dois deles possuem grandes muralhas em torno, que indicam terem sido usadas para regulamentações de comércio e para defesa.
Mohenjo-Daro é, provavelmente, o local mais conhecido do Indo. O significado do seu nome é “Cidade dos Mortos”, embora até hoje nenhum cemitério tenha sido encontrado na cidade ou suas proximidades. Localizado na província de Sindh, Paquistão, leito maior do rio Indokistan, está próximo das antigas minas de exploração de pederneira de Rohri. O rio Indo pode, em algum tempo, ter escoado a oeste de Mohenjo-Daro, mas está agora localizado a leste.
Vários arqueólogos trabalharam na CVI antes da independência da Índia, em 1947. Após a independência, a maior parte dos achados arqueológicos foram herdados pelo Paquistão, onda a maioria da CVI estava baseada e outras expedições arqueológicas foram montadas, até Sutkagan Dor, no extremo sudoeste do Paquistão, para o norte até Shortugai (hoje já no Afeganistão), para o leste, até Alamgirpur, longitude central da Índia, e para o sul até Malwan, na costa da Índia em sua latitude central. Em 2010, pesadas cheias atingiram Haryana, na Índia, causando danos no sítio arqueológico de Jognakhera, onde antigas fundições de cobre foram encontradas, datando de quase 5.000 anos atrás. Nessa ocasião, a CVI foi atingida por quase três metros de lâmina d’água, com o rompimento de um canal.
A fase madura da civilização harappiana durou de 2600 a 1900 AC. Com a inclusão das culturas predecessora e sucessora – Harappiana Antiga e Harappiana Final -, a completa Civilização do Vale do Indo pode ter durado do 33º ao 14º século AC. Dois termos são empregados para a periodização da CVI: Fases e Eras. As fases Harappiana Antiga, Harappiana Madura e Harappiana Final são também chamadas de Eras de Regionalização, Integração e Localização, respectivamente, com a Era de Regionalização retroagindo até o período Neolítico Mehrgarh II (um dos mais importantes sítios arqueológicos do Neolítico). Abaixo a sequência completa de Eras e Fases:

Datas AC
Fases
Eras
7000–5500
Mehrgarh I (Neolítico sem cerâmica)
Produção inicial de alimentos
5500–3300
Mehrgarh II-VI (Neolítico com cerâmica)
Regionalização
3300–2600
Harappiana Antiga
3300–2800
Harappiana 1 (Fase Ravi)
2800–2600
Harappiana 2 (Fase Kot Diji, Nausharo I, Mehrgarh VII)
2600–1900
Harappiana Madura (Civilização do Vale do Indo)
Integração
2600–2450
Harappiana 3A (Nausharo II)
2450–2200
Harappiana 3B
2200–1900
Harappiana 3C
1900–1300
Harappiana Final (Cemitério H); Cerâmica Colorida Ocre
Localização
1900–1700
Harappiana 4
1700–1300
Harappiana 5
1300–300
Louça Cinza Pintada, Louça Polida Negra do Norte (Idade do Ferro)
Tradição Indo-Gangética[2]





[1] Selos eram peças chatas de pedra, de Harappa, com escritos ou figuras. Hoje, mais de 3.500 selos já foram encontrados, em geral quadrados ou retangulares e pequenos, com cerca de 2,5 cm de lado, feitas de pedra sabão ou faiança, cozidas e após trabalhadas com ferramentas de cobre. Pressionadas sobre argila macia, deixavam uma impressão e depois de secas podiam ser utilizadas como etiquetas ou outras finalidades.
[2] A tradição Indo-Gangética refere-se à cultura comum dos vales dos rios Indo e Ganges. O Ganges é um rio internacional que flui pela Índia e Bangladesh e também o mais sagrado rio dos hindus. É o salva-vidas de milhões de indianos que vivem às suas margens e dele dependem para suas necessidades básicas diárias. É adorado como a deusa Ganga no hinduísmo.

Na próxima postagem, continuação com a PARTE 02 da Civilização do Vale do Indo

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