Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A HISTÓRIA DO IMPÉRIO PERSA (IRÃ) - Parte 1

I -INTRODUÇÃO

A história do Irã que nos propomos apresentar, registra os acontecimentos históricos no território correspondente aos atuais Irã, Afeganistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Azerbaijão e outras áreas vizinhas, ao longo de um período de tempo que começa com as primeiras civilizações pré-arianas, passa pelo Império Persa em todas as suas fases, prossegue com o período helenístico, domínio pelos muçulmanos, até o início da idade moderna. Em suas várias formas, trata-se de uma das mais antigas grandes civilizações de existência contínua. 
Localização de Anshan dentro do Império Elamita
A Pérsia é, oficialmente, admitida como um sinônimo para Irã, embora este último tenha se tornado mais usual, no Ocidente, após 1935. O país sempre foi chamado "Irã" (Terra dos Arianos, derivado de Aryanam, forma encontrada em textos persas antigos.) pelo seu povo, para se referir ao seu próprio país, pelo menos desde 600 AC, embora durante séculos tenha sido referido pelos europeus como Pérsia (Persis pelos gregos). Este termo provém do persa Pars ou Parsa ou ainda Fars, o nome do clã principal de Ciro (a ser visto com detalhe) e que também deu o nome à região onde habitavam os persas (hoje, a moderna província de Fars ao sul do Irã) principalmente devido aos escritos dos historiadores gregos. Em 1935 o governo especificou que o país deveria ser chamado Irã; entretanto, em 1959 ambos os nomes passaram a ser admitidos. No uso corrente, o termo Pérsia costuma ser reservado para referir-se ao Império Persa durante suas diversas fases históricas, uma sucessão de Estados que controlaram o Planalto Iraniano e os territórios adjacentes ao longo do tempo, a começar pela dinastia aquemênida, fundada por Ciro, o Grande, no século VI AC, fundado originalmente por um grupo étnico (os persas) a partir da cidade de Anshan (veremos adiante), no que é hoje a província iraniana de Fars, e governado por dinastias sucessivas (persas ou estrangeiras). 
Mapa topográfico do "Platô Iraniano"
O latim apanhou o termo do grego, transformando-o em Persia, forma adotada pelas diversas línguas européias. Em 1935, o Xá Reza Pahlavi solicitou, formalmente, que a comunidade internacional passasse a empregar o nome nativo do país, Iran (Irã ou Irão, em português). Em 1959, o mesmo governante anunciou que tanto Pérsia como Irã eram formas corretas de referir-se ao seu país.
O Planalto Iraniano ou Persa é uma grande formação geológica no Oriente Médio e na Ásia Ocidental e Central, parte da Placa Euroasiática meridional. Cobre a maior parte do Irã (aproximadamente 2/3 do país, da Cordilheira de Zagros para o leste), o Afeganistão (principalmente as porções meridional e oriental do país), o oeste do Paquistão (o Baluchistão e a Província da Fronteira Noroeste) e a parte sul do Turcomenistão, bem como uma pequena área do sul do Azerbaijão. Estende-se desde a Cordilheira Elburz (ou Alborz) na direção sul, até o mar. Seus extremos são marcados pela Cordilheira de Zagros, a oeste, pela Cordilheira de Hindu Kush, a leste, Mar Cáspio e a cadeia montanhosa Kopet Dag, ao norte, o Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico, ao sul. 
Localização geral do Irã moderno
A figura ao mostra o mapa do Irã, oficialmente República Islâmica do Irã, um estado soberano da Ásia Ocidental, nos dias de hoje. Palco de inúmeras guerras, personagens controvertidos e uma das culturas mais antigas do mundo, uma área cheia de conflitos históricos que ainda permanecem, desde milhares de anos antes da Era Cristã. Uma das razões de sua conturbada história, reside exatamente em sua posição geográfica: o país em foco faz fronteiras com, nada mais, nada menos, Turquemenistão, Azerbaijão, Armênia e Mar Cáspio, ao norte, Turquia e Iraque a oeste, Afeganistão e Paquistão a leste, e Golfo Pérsico e Golfo de Omã ao sul. É a história deste país que nos propomos contar nesta postagem.
A história da Pérsia no mundo ocidental, está entrelaçada com a história de uma região mais ampla, até certo ponto conhecido como “Irã Maior” ou “Grande Irã”, compreendendo a área que vai da Anatólia[1], Estreito de Bósforo e Egito, no oeste, às fronteiras da antiga Índia e o Syr Darya (rio da Ásia Central[2]), no leste, e do Cáucaso (região na fronteira entre a Europa e Ásia, situada entre os mares Negro e Cáspio) e a Estepe Eurasiática (a Grande Estepe da Eurásia), no norte, ao Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, no sul.
O Irã é o lar de uma das mais velhas civilizações contínuas do mundo, com povoações históricas e urbanas que datam de 7.000 AC. As áreas sudoeste e oeste do Platô Iraniano, participaram do tradicional Antigo Oriente Próximo com o Elam (sudoeste do Irã moderno), do início da Idade do Bronze e, mais tarde, com vários outros povos, como os Cassitas, Manneanos (noroeste do atual Irã) e Gutianos. 
Localização das ruínas de Persépolis
Georg Wilhelm Friedrich Hegel diz que os persas foram o primeiro Povo Histórico. Os Medas (ou Medos) unificaram o Irã como nação e império em 625 AC. O Império Aquemênida (550-330 AC), fundado por Ciro II, o Grande, foi o primeiro dos impérios persas a reinar dos Balcãs à África Norte e também na Ásia Central, cobrindo três continentes a partir do seu trono de poder em Persis (Persépolis, cidade dos persas), capital cerimonial do Império Aquemênida, situada a 60 km da cidade de Shiraz, na província de Fars, Irã. Os mais antigos vestígios de Persépolis datam de 515 AC, exemplificando o estilo de arquitetura Aquemênida, tendo sido declarado pela UNESCO, em 1979, Sítio de Herança Mundial. A palavra portuguesa Persépolis é a própria palavra grega, composta de Perses e Polis e significando a “Cidade dos Persas”. Para os persas antigos, a cidade era conhecida como Parsa, palavra usada para “Persia” ou, mais precisamente, a região de Persis. Foi o maior império jamais visto e o primeiro império mundial. O Primeiro Império Persa foi a única civilização em toda a história a conectar mais de 40% da população global, avaliada em 49,4 milhões da população mundial de 112,4 milhões de pessoas, cerca de 480 AC. Eles foram sucedidos pelos Impérios Selêucida, Parta e Sassânida, que sucessivamente governaram o Irã por quase 1.000 anos e o fizeram novamente uma importante potência mundial. Seu arquirrival foi o Império Romano e seu sucessor, o Império Bizantino. O Império Persa, propriamente dito, iniciou na Idade do Ferro, seguindo o influxo dos povos iranianos, que deram origem aos impérios que o sucederam na antiguidade clássica.
Como um império de tais proporções, o Irã também resistiu a várias invasões, pelos gregos, árabes, turcos e mongóis. Ao longo dos séculos, o Irã continuamente reafirmou sua identidade nacional, desenvolvendo uma entidade política e cultural distintas.
A conquista muçulmana da Pérsia (633-656) encerrou o Império Sassânida, definindo um ponto de inflexão na história iraniana. A “islamização” do Irã teve lugar entre os séculos VIII e X, conduzindo ao declínio do Zoroastrismo[3] bem como de várias de suas crenças. Contudo, as conquistas das civilizações persas anteriores não foram perdidas, mas foram, numa grande extensão, absorvidas pelo novo sistema político e civilização.
O Irã, com sua longa história de culturas e impérios originais, havia sofrido muito, particularmente com o final da Idade Média e início do Período Moderno. Muitas invasões de tribos nômades, cujos líderes tornaram-se governantes deste país, afetaram-no negativamente.
O Irã foi mais uma vez reunido, como estado independente, em 1501, pela Dinastia Safávida (falaremos dela adiante), que converteu o Irã ao Islamismo Xiita (que também veremos em detalhe, oportunamente), como religião oficial do seu império, no ponto crítico da história do Islamismo. Novamente atuando como uma potência líder, desta feita na vizinhança do Império Otomano, seu arquirrival por séculos, o Irã havia sido uma monarquia comandada por um imperador, quase sem interrupção, de 1501 até a revolução iraniana de 1979, quando oficialmente tornou-se uma república islâmica em abril de 1979.
Ao longo da primeira metade do século XIX o Irã perdeu muitos dos seus territórios no Cáucaso (que ele havia governado intermitentemente por milênios), compreendendo hoje a Geórgia Oriental, Dagestão, Azerbaijão e Armênia (todos ao noroeste do Irã), para o seu rival vizinho, rapidamente emergente e em expansão, o Império Russo, após as guerras Russo-Persa, entre 1804-1813 e 1826-1828.

II – PRÉ-HISTÓRIA

II.1 – PALEOLÍTICO (2,5 milhões de anos a 10.000 AC)
Divisão da História
em Eras

Apenas para simplificar a vida dos nossos leitores que não estejam muito acostumados com o assunto, apresentamos ao lado uma tabela simplificada com as divisões da História em eras.
Os mais antigos artefatos arqueológicos no Irã foram encontrados nos sítios de Kashafrud e Ganj Par, que datam do ano 100.000, no Paleolítico Médio. As ferramentas de pedra Musteriana (ou Musteriense, nome dado por arqueólogos a um estilo de ferramentas ou indústria predominantemente de pederneira) feitas por homens de Neandertal[4], também foram encontradas. Há mais resíduos culturais dos homens de Neandertal datando do período do Médio Paleolítico que foram principalmente encontrados na região das montanhas Zagros e alguns poucos no Irã Central, em vários sítios arqueológicos. Em 1949 um rádio (osso do braço) Neanderthal foi descoberto por Carleton S. Coon, na caverna de Bisitun. Há também evidências dos períodos Paleolítico Superior e Epipaleolítico (final do Paleolítico Superior, já mergulhando no Mesolítico), principalmente nas Montanhas Zagros, nas cavernas de Kermanshah e Khorramabad e alguns sítios no Alborz e Irã Central.

II.2 – NEOLÍTICO AO CALCOLÍTICO

O Calcolítico é a transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze, também chamada de Idade do Cobre, porque aí surgiram o cobre e os monumentos megalíticos.
As mais antigas comunidades agrícolas começaram a florescer cerca de 10.000 AC na região das montanhas Zagros e entorno, no Irã ocidental. Pela mesma época, os mais antigos vasos de argila e figuras humanas e de animais, de terracota começaram a ser produzidas, também no oeste do Irã. O sudoeste do Irã era parte do “Fértil Crescente”[5], onde a maioria das primeiras culturas importantes foram realizadas, em vilas como Susa, um dos mais velhos povoamentos do Irã e do mundo, fundado, possivelmente cerca de 4.400 AC (próximo de Anshan) e povoamentos como Chogha Mish, datando de 6.800 AC; há jarras de vinho escavadas nas montanhas Zagros, com cerca de 7.000 anos de idade e ruínas de povoamentos da mesma idade. As duas povoações principais do Iraniano neolítico são a Cultura do rio Zayandeh e Ganj Dareh.

II.3 – IDADE DO BRONZE

O Elam foi uma das primeiras civilizações de que se tem registro no extremo oeste e sudoeste do que é hoje o Irã, sendo tradicionalmente considerada o ponto inicial da história do Império Persa (e, em decorrência, do Irã). Existiu cerca de 2700 AC até cerca de 539 AC, em seguida ao chamado Período Proto-Elamita, que teve início em cerca de 3200 AC (a cidade capital era Anshan), quando Susa, que viria a ser a capital dos elamitas, começou a ser influenciada por culturas do Planalto Iraniano. Baseado na busca de idade com o C14 (Carbono 14 ou radio carbono, é um isótopo radioativo do carbono, cuja presença em materiais orgânicos é a base do método para determinação de idades de amostras arqueológicas, geológicas e hidrogeológicas), a época de fundação de Susa é cerca de 4.400 AC, além da época de civilização da Mesopotâmia. A percepção geral entre os arqueólogos é que Susa foi uma extensão da cidade sumeriana de Uruk. Há também dúzias de sítios pré-históricos no platô iraniano indicando a existência de culturas antigas e povoações urbanas no quarto milênio. 
Área do Império Elamita, em vermelho, e áreas vizinhas
O Elam situava-se a leste da Suméria e da Acádia (atualmente, o Iraque). No período Elamita Antigo, constituía-se de reinos no Planalto Iraniano, cujo centro era Anshan, e, a partir do II milênio AC, Susa. Sua cultura desempenhou um papel fundamental no Império Persa, em especial durante a dinastia Aquemênida (que veio a suceder a civilização elamita na região), quando a língua elamita continuou a ser empregada oficialmente. O período elamita costuma ser considerado o ponto inicial da história do Irã (embora tenha havido culturas mais antigas no Planalto Iraniano). Os elamitas foram rivais dos sumérios e acádios e, posteriormente, dos babilônios, na disputa pela hegemonia no Oriente Próximo, até que finalmente foram dominados definitivamente por Nabucodonosor II da Babilônia, no século VII AC. Posteriormente, quando a Babilônia caiu ante os persas de Ciro, o Grande, os elamitas passaram a ser gradativamente absorvidos por outras populações iranianas e semitas.
A língua elamita não tem parentesco com as línguas iranianas (nem com as línguas indo-europeias ou as semíticas), embora alguns estudiosos enxerguem uma relação com as línguas dravídicas. O Elam conviveu com o Reino Jiroft, uma das mais antigas civilizações do platô iraniano, estabelecido no que são hoje as províncias orientais do Irã, enquanto que os elamitas controlavam a porção ocidental, na região da Cordilheira de Zagros; posteriormente sucedeu-o, estendendo-se por todo o platô iraniano. 
Taça de prata de Marvdasht
do terceiro milênio AC
Suas escavações arqueológicas conduziram à descoberta de vários objetos pertencentes ao quarto milênio AC. Há uma grande quantidade de objetos decorados com inconfundíveis gravações de animais, figuras mitológicas e motivos arquitetônicos. Os objetos e sua iconografia diferem de qualquer outra coisa já vista por arqueólogos. Muitos são feitos de clorita, pedra macia verde-cinza; outros são de cobre, bronze, terracota e até lápis-lazúli. Escavações recentes no local produziram a inscrição mais antiga do mundo, que antecede as inscrições da Mesopotâmia.
Há registros de numerosas outras civilizações antigas no platô iraniano antes da emergência dos povos iranianos durante a primitiva Idade do Ferro. O início da Idade do Bronze viu a ascensão da urbanização em cidades-estados organizadas e na invenção da escrita (Período Uruk) no Oriente Próximo. Enquanto o Elam da Idade do Bronze usou a escrita em tempos antigos, a escrita Proto-Elamita permanece indecifrada e registros da Suméria pertencentes ao Elam são escassos.
Há uma corrente teológica que afirma terem sido os elamitas descendentes de Elam, um dos filhos de Sem e neto de Noé nascido após o dilúvio bíblico.

II.4 – INÍCIO DA IDADE DO FERRO

O princípio do primeiro milênio AC testemunhou a segunda grande invasão do Planalto Iraniano por tribos indo-arianas provenientes da Transoxiana[6] e do Cáucaso, entre as quais os medos e os persas. O primeiro registro a respeito dos persas vem de uma inscrição assíria de cerca de 844 AC, que se refere aos parsu (Parsuash, Parsumash), localizando-os na área do Lago Urmia (noroeste do Irã), juntamente com outro grupo, os madai (medos).
Os registros tornam-se mais tangíveis com a ascensão do Império Neo-Assírio (911-612 AC), na Mesopotâmia, e seus registros de incursões do Platô Iraniano. A partir do século XX AC, tribos emigraram da estepe Ponto-Caspiana (hoje territórios da Ucrânia, Rússia e Cazaquistão) para o Platô Iraniano. A chegada no Platô Iraniano forçou os elamitas a renunciarem às suas áreas, buscando refúgio no Elam, Khuzistão ou Khuzestão (uma das províncias do Irã) e áreas vizinhas que só então se tornaram limítrofes com o Elam. Pelo meio do primeiro milênio AC, medas, persas e partas povoavam o Platô Iraniano. Até a ascensão dos medas, todos permaneceram sob dominação assíria, como o resto do Oriente Próximo.

[1] Anatólia, também conhecida como Ásia Menor, denota a protrusão ocidental da Ásia, que compõe a maior parte da Turquia. A região é banhada pelo mar Negro ao norte, o mar Mediterrâneo ao sul e o mar Egeu, a oeste. O mar de Mármara forma uma ligação entre os mares Negro e Egeu através dos estreitos de Bósforo e Dardanelos e separa a Anatólia da Trácia, no continente europeu. Aproximadamente corresponde a dois terços ocidentais da parte asiática da Turquia.
[2] A Ásia Central espalha-se do Mar Cáspio, no oeste, à China, no leste e do Afeganistão, no sul, à Rússia, no norte, mas nunca houve uma demarcação oficial da área. Coloquialmente, ela se refere também aos “stãos”, já que os países geralmente considerados dentro da região, possuem todos o sufixo persa “stão”, que significa “terra de”.
[3] O zoroastrismo, masdaísmo, masdeísmo ou parsismo é uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. De acordo com historiadores da religião, algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias, viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Tem seus fundamentos fixados no Avesta (parte das escrituras sagradas do Zoroastrismo) e admite a existência de duas divindades (dualismo), as quais representam o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã). Da luta entre essas divindades, sairia vencedora a divindade do Bem.
[4] O Neandertal (algumas vezes chamado de "Vale do Neander") é um pequeno vale do rio Düssel, no estado alemão do North Rhine-Westphalia, localizado cerca de 12 km a leste de Düsseldorf, a capital do estado. Em agosto de 1856 a área tornou-se famosa com a descoberta do Neanderthal 1, o primeiro espécime do Homo neanderthalensis a ser encontrado.
[5] Também conhecido como “Berço da Civilização”, o “Fértil Crescente” é uma região em forma de quarto crescente que contém a terra comparativamente úmida e fértil das terras áridas e semiáridas da Ásia Ocidental, o vale do Nilo e o Delta do Nilo. O conceito originou-se no estudo da história antiga e logo desenvolveu-se, retendo hoje significados nas relações geopolíticas e diplomáticas internacionais. No uso corrente, todas as definições do Fértil Crescente incluem a Mesopotâmia, as áreas dos vales dos rios Tigre e Eufrates e o Levante, a costa oriental do Mar Mediterrâneo. Os países atuais, com território significativo no Fértil Crescente, são Iraque, Síria, Líbano, Chipre, Jordânia, Israel, Estado da Palestina, Egito, bem como a borda sudeste da Turquia e as bordas do Irã ocidental. A região viu o desenvolvimento de algumas das mais antigas civilizações que floresceram graças às fontes hídricas e recursos agrícolas existentes no Fértil Crescente. Avanços tecnológicos da região incluem o desenvolvimento da escrita, o vidro, a roda, a agricultura e a irrigação.
[6] A Transoxiana é uma denominação obsoleta para uma região da Ásia Central correspondente aos atuais Uzbequistão, Tadjiquistão e sudoeste do Cazaquistão. Geograficamente, localiza-se entre os rios Amu Dária e Sir Dária. No período Aquemênida, a região chamava-se Sogdiana.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: VALE DO INDO OU HARAPPIANA (PARTE 03)

V.3 – TECNOLOGIA

O povo da CVI alcançou grande precisão na medição de comprimento, massa e tempo. Foram um dos primeiros povos a desenvolver um sistema uniforme de pesos e medidas. Uma comparação de objetos disponíveis indica uma grande variação de escala pelos territórios do Vale do Indo. Sua menor divisão, marcada sobre uma régua de marfim, encontrada em Lothal, era de, aproximadamente, 1,704 mm, a menor divisão já registrada numa escala na Idade do Bronze. Os engenheiros harappianos seguiam a divisão decimal de medidas para todas as finalidades práticas, incluindo as medições de massa, como revelado por seus pesos hexaédricos.
Esses pesos de pedra, com dimensões numa relação de 5:2:1, com pesos de 0,05; 0,1; 0,2; 0,5; 1,0; 2,0; 5,0; 10,0; 20,0; 50,0; 100,0; 200,0; e 500,0 unidades, com cada unidade pesando, aproximadamente 28 g, similar à onça imperial inglesa ou onça grega. Contudo, como em outras culturas, os pesos reais não eram uniformes por toda a área. Os pesos e medidas mais tarde usados no século IV AC eram os mesmos que os usados em Lothal.
Os harappianos desenvolveram novas técnicas em metalurgia e produziram cobre, bronze, chumbo e estanho. A sua habilidade na engenharia era notável, especialmente na construção de docas.
Em 2001, arqueólogos estudando os restos mortais de dois homens de Mehrgarth, Paquistão, descobriram que o povo da CVI, desde os primeiros períodos harappianos, tinham conhecimento de odontologia. Posteriormente, em abril de 2006, foi anunciado no periódico científico “Natureza”, que a mais antiga (e primeira do Neolítico antigo) evidência de perfuração de dentes humanos em pessoas vivas havia sido encontrada em Mehrgarth. Onze coroas molares perfuradas de nove adultos foram descobertas num cemitério neolítico em Mehrgarth, datando de 7.500 a 9.000 anos atrás.
Um conjunto de testes com traços de ouro foi encontrado em Banawali, provavelmente usado para testes de pureza de ouro, tal como a técnica ainda usada em algumas partes da Índia.

V.4 – ARTES E OFÍCIOS

Muitos habitantes das cidades parecem ter sido comerciantes ou artesãos que conviviam com outros de mesma ocupação em vizinhanças bem definidas. Materiais de regiões distantes eram usados nas cidades para a confecção de lacres, contas e outros objetos. Entre os artefatos descobertos achavam-se lindas contas de louça vitrificada.
Figura da Dançarina (Dancing Girl)
A CVI não deixou templos ou tumbas como as pirâmides do Egito, nem grandes estátuas de reis ou deuses, mas faziam pequenas figuras  de pessoas e animais, usando metais e argila. Várias esculturas, selos, cerâmica, joalheria de ouro e estatuetas anatomicamente detalhadas em terracota, bronze e pedra sabão, têm sido encontradas em locais de escavação. Algumas dessas, com meninas em pose de dança, revelam algum tipo de dança. Essas estatuetas de terracota incluem também vacas, ursos, macacos e cães.
Em casa, os habitantes usavam tigelas, pratos, copos e vasos feitos de terracota, possuindo também pratos de cobre, bronze ou prata. A maioria dos seus potes eram simples, mas alguns deles eram decorados, usualmente com vermelho e preto. Os fabricantes adicionavam faixas, padrões de folhas e flores e formas de escamas de peixes. Alguns potes eram mesmo pintados em azul, vermelho, verde e amarelo.
Trabalhadores tinham diferentes ofícios: alguns faziam mós de pedra (para moer o grão e fazer farinha), outros fiavam e teciam algodão em tecidos e sacolas de algodão. Os trabalhadores urbanos faziam contas, cestas de pesca, potes, cestas e tudo o mais que fosse necessário ao povo. As crianças aprendiam ofícios no âmbito da família.
Trabalhos em conchas, cerâmicas, contas de ágata e pedra sabão esmaltadas eram utilizados na confecção de colares, pulseiras, colares, brincos, amuletos e broches, em todas as fases dos sítios harappianos; alguns destes artefatos ainda são produzidos hoje na região. Itens de maquiagem e toalete, pentes, colírios, encontrados nos contextos harappianos, ainda têm contrapartidas similares na Índia moderna. Foram também encontradas estatuetas femininas de terracota (de 2800 a 2600 AC), com cor vermelha aplicada à repartição dos cabelos. Em Harappa, os arqueólogos encontraram, o túmulo de um homem enterrado com um colar com mais de 300 contas de pedra sabão. Mulheres representadas nos selos são mostradas com elaborados penteados, portando pesadas joias que sugerem que os povos do Vale do Indo eram um povo urbano que cultivava gostos finos e uma refinada sensibilidade estética. 
Vedas, base do sistema de escrituras sagradas do hinduísmo
Selos foram encontrados em Mohenjo-Daro representando uma figura equilibrando-se sobre sua cabeça e outra sentada com as pernas cruzadas, em posição de Yoga. Tal figura, às vezes conhecida como Pashupati, tem sido identificada de forma variada. Se sua semelhança com o deus Hindú, Shiva, puder ser validada, seria uma evidência de que alguns aspectos do Hinduísmo pré-datam os primeiros textos, o Veda[1].
Um instrumento semelhante à harpa, representado em um selo e dois objetos de concha, encontrados em Lothal, indicam o uso de instrumentos musicais de corda. Os harappianos também fizeram vários brinquedos e jogos, entre eles, o dado cúbico (com um a seis furos em suas faces, as opostas sempre somando 7, encontrados em locais como Mohenjo-Daro.
Uma forma primária de xadrez pode ter sido jogada pelo povo do Vale do Indo. Objetos com grades pintadas e peças de jogo foram encontradas em vários locais da região, que poderiam ser os primeiros tabuleiros e peças de xadrez, indicando a origem de tal jogo.

V.5 – COMÉRCIO E TRANSPORTE

A economia da civilização do Indo parece ter dependido, significativamente, do comércio, facilitado pelos avanços importantes na tecnologia do transporte. A CVI pode ter sido a primeira civilização a usar transporte com rodas. Tais avanços podem ter incluído os carros de boi, idênticos aos que são vistos por todo o sul da Ásia de hoje, bem como barcos, a maioria dos quais, provavelmente, pequenos, de fundo chato, talvez impelidos por vela, similares aos que podem ser vistos no rio Indo hoje; mas há também evidências de embarcações marítimas. Os arqueólogos descobriram um enorme canal dragado que pode ser visto como uma estrutura para doca na cidade costeira de Lothal, na Índia ocidental, e também uma extensiva rede de canais de irrigação.
De 4300 a 3200 AC (Idade do Cobre), a área da CVI mostra semelhanças cerâmicas com o sul do Turquemenistão e norte do Irã, o que sugere uma quantidade considerável de movimento e comércio. Durante o período Harappiano Antigo, semelhanças na cerâmica, selos, estatuetas, ornamentos etc... documentam um intenso comércio com a Ásia Central e o Platô Iraniano. A julgar pela dispersão dos artefatos da CVI, as redes de comércio integravam, economicamente, uma área enorme, que incluía porções do Afeganistão, as regiões costeiras da Pérsia, o norte e o oeste da Índia e a Mesopotâmia. Há também evidência de que algum contato tenha havido entre a CVI e o Oriente Próximo; conexões comerciais, religiosas e artísticas foram registradas em documentos sumérios.
Estudos a partir do esmalte de dentes de indivíduos enterrados em Harappa, sugerem que alguns residentes haviam emigrado para a cidade, de além do Vale do Indo. Há alguma evidência de que os contatos de comércio tenham se estendido a Creta e, possivelmente, Egito.
Havia uma extensiva rede de comércio marítimo operando entre as civilizações harappiana e mesopotâmica desde a Fase Harappiana Média, com muito comércio dirigido pelos “mercadores intermediários de Dilmun” (Bahrain e Failaka modernos, no Golfo Pérsico). Tal comércio marítimo, a longa distância, foi viável, pelo desenvolvimento de embarcações construídas com pranchões, equipadas com um só mastro central, suportando uma vela de pedaços costurados ou de tecidos.
Vários vilarejos costeiros, como Sotkagen-Dor, Sokhta Koh e Balakot, no Paquistão, bem como Lothal, na Índia, atestam seu papel como postos de comércio harappianos. Portos rasos, localizados nos estuários de rios, permitiam um comércio marítimo leve com cidades da Mesopotâmia.
O povo do Vale do Indo não parece ter feito uso do cavalo. Não foi encontrada evidência osteológica de restos de cavalos no subcontinente indiano antes de 2000 AC, quando os primeiros arianos [2] chegaram; cavalos também não foram encontrados em selos harappianos e estatuetas de terracota.

V.6 – SISTEMA DE ESCRITA

A escrita dos povos da CVI era feita com o uso de uma vareta, apontada, em argila macia, ou uma ferramenta afiada para gravar marcas em pedra ou metal. É provável que apenas poucas pessoas soubessem ler e escrever, como os escribas. Mas talvez comerciantes pudessem ler o suficiente para saber o que estava escrito nos selos. A maioria da escrita do Vale do Indo servia, possivelmente, ao comércio, ao governo ou à religião.
A Civilização do Vale do Indo tinha um Sistema de escrita que ainda permanece um mistério, já que todas as tentativas para decifrá-lo falharam, sendo esta uma das razões pelas quais sobre ela se sabe menos do que de qualquer outra importante civilização da antiguidade.
De 400 a 600 símbolos distintos foram encontrados em selos, pequenos tabletes, potes de cerâmica e mais de uma dúzia de outros materiais que incluem uma tabuleta pendurada num portão da cidadela interna da cidade de Dholavira, no Vale do Indo (todos esses locais podem ser vistos nos mapas apresentados até agora).
As inscrições típicas do Indo não têm mais do que quatro ou cinco caracteres de comprimento, a maioria dos quais (fora a tabuleta de Dholavira) é pequena; a mais longa de uma só superfície, menor do que uma polegada quadrada, tem 17 sinais; a mais longa de qualquer objeto encontrado, tem um comprimento de 26 sinais.
Enquanto a CVI é geralmente caracterizada como uma sociedade literata, pela evidência dessas inscrições, outros pesquisadores contestam que o sistema Indo não representa uma linguagem, mas era similar a uma variedade de sistemas de sinais não linguísticos extensivamente usados no Oriente Próximo e outras sociedades, para simbolizar famílias, clãs, deuses e conceitos religiosos. Outros têm alegado que os símbolos foram usados exclusivamente com finalidades comerciais, alegação que deixa sem explicação o aparecimento de símbolos Indo em objetos rituais, muitos dos quais foram produzidos em massa, em seus moldes. Nenhum paralelo a essas inscrições em massa é conhecido em qualquer outra civilização antiga.
Um estudo de peritos no assunto, conduzido em 2009, chegou à conclusão de que o padrão de escrita do Vale do Indo está mais próximo daquele das palavras faladas, apoiando a hipótese de que ele se enquadra numa linguagem ainda não conhecida. Evidentemente tais estudos também foram contestados por outros especialistas.
As mensagens encontradas nos selos têm sido sempre muito curtas para serem decodificadas por um computador. Cada selo tem uma combinação distinta de símbolos e há poucos exemplos de cada sequência para fornecer um contexto suficiente. Os símbolos que acompanham as imagens variam de selo para selo, fazendo impossível derivar um significado para os símbolos, a partir das imagens. Tem havido, entretanto, um número grande de interpretações oferecidas para o significado dos selos, mas sempre marcadas por ambiguidade e subjetividade. Fotos de muitos dos milhares de inscrições existentes têm sido publicadas no “Corpo de Selos e Inscrições do Indo” e as pesquisas, relativamente novas, prosseguem.

V.7 RELIGIÃO

O sistema de religião e crenças do povo do Vale do Indo têm recebido muita atenção, especialmente com relação à identificação de precursores a deidades e práticas religiosas de cultos indianos que mais tarde se desenvolveram na área. Por exemplo, alguns deuses hindus apresentam semelhanças com os deuses mostrados nos selos do Vale do Indo; o povo da CVI acreditava que a água era santa, como os hindus acreditam que são purificados, num sentido religioso, quando se banham nas águas sagradas do seu rio Ganges. Contudo, devido à escassez de evidências, aberta a interpretações variáveis, e ao fato de que a escrita Indo ainda não foi decifrada, as conclusões são muito especulativas e muito baseadas numa visão retrospectiva de uma perspectiva hindu muito posterior.
Em 1931, foram identificadas as seguintes características da religião do Indo: um importante deus masculino e uma deusa mãe; a deificação ou veneração de animais e plantas; representação simbólica do pênis (linga) e da vulva (yoni); e o uso de banhos e água em práticas religiosas. Essas interpretações foram muito debatidas e algumas vezes disputadas pelas décadas seguintes.
Um selo do Vale do Indo mostra uma figura com um ornato de cabeça de chifre, sentada, possivelmente com o pênis ereto, rodeada por animais. A figura foi identificada como uma forma primitiva do deus Shiva (ou Rudra), associado com asceticismo, yoga e linga, visto como um senhor dos animais e muitas vezes representado com três cabeças. O selo tem, desde então, sido conhecido como Selo de Pashupati (Senhor dos Animais), um epíteto de Shiva. Como em muitos outros, sobre este assunto o debate permanece aberto.
Outra hipótese surgida foi a existência do culto de uma Deusa Mãe, baseada na escavação de várias estatuetas femininas, imaginada como precursora da seita hindu do Shaktism. Contudo, a função das estatuetas femininas na vida do povo do Vale do Indo permanece obscura. Alguns dos baetylus (pedras sagradas), consideradas representações fálicas, estão agora sendo repensadas como sendo pilões ou contadores de jogos, ao passo que os aros de pedra, imaginados como simbolizando yonis, foram admitidas como características arquitetônicas usadas para fixar pilares, embora a possibilidade de seu simbolismo religioso não possa ser eliminada. Muitos selos do Vale do Indo mostram animais, muitos deles sendo carregados em procissões e outros como criações quiméricas (fantasiosas). Um selo de Mohen-Daro mostra um monstro meio humano, meio búfalo, atacando um tigre, que pode ser uma referência ao mito sumério do monstro criado pela deusa Aruru para combater Gilgamesh. Outros incluem elefantes, rinocerontes, tigres, crocodilos e zebus. O animal mais representado é um ‘unicórnio’, uma besta mítica semelhante a um cavalo com um só chifre. Algumas pessoas pensam que o ‘unicórnio’ do Vale do Indo possa ter sido somente uma vaca vista de perfil e apenas um amuleto de boa sorte ou um distintivo de importante grupo de mercadores.
Em contraste com as civilizações contemporâneas da Mesopotâmia e do Egito, a do Vale do Indo não possui palácios monumentais, embora as cidades escavadas indiquem ter possuído o conhecimento de engenharia necessário. Nem Harappa, nem Mohenjo-Daro, mostram qualquer evidência de altares com fogo, o que pode sugerir que as cerimônias religiosas, se existissem, podiam ser confinadas aos lares individuais, pequenos templos ou ao ar livre, ou que tais rituais, tão críticos no hinduísmo, foram introduzidos posteriormente, pelos arianos. Vários locais foram propostos pelos estudiosos como possivelmente devotados a finalidades religiosas, mas atualmente, somente o Grande Banho de Mohenjo-Daro é imaginado ter sido usado como local para purificação ritual. As práticas funerárias da civilização harappiana são marcadas por sua diversidade, com evidência do enterro de costas e da redução do corpo aos restos esqueléticos por exposição dos elementos antes do enterro final e da cremação.

[1] Os Vedas são um grande corpo de textos originados na antiga Índia, compostos em sânscrito e constituindo a mais antiga camada da literatura sânscrita e os mais antigos escritos do hinduísmo. O Veda, para teólogos indianos ortodoxos, é considerado como revelações, de uma forma ou outra, trabalhos de deidades. Há quatro Vedas: o Rigveda, o Yajurveda, o Samaveda e o Atharvaveda, cada um deles subclassificado em em quatro tipo principais de textos.

[2] A palavra "ariano", ao referir-se a um grupo étnico, tem vários significados. Refere-se, mais especificamente, ao sub-grupo dos indo-europeus que se estabeleceu no planalto iraniano do final do terceiro milênio AC. Por extensão, a designação "arianos" passou a referir-se a vários povos originários das estepes da Ásia Central - os Indo-europeus - que se espalharam pela Europa e pelas regiões já referidas, a partir do final do neolítico. Até recentemente, acreditava-se que os arianos teriam invadido o subcontinente indiano por volta de 1500 AC, vindo do norte, pelo Punjabe, disseminando-se pela Índia, Pérsia e regiões adjacentes. Teriam sido os descendentes dos indo-europeus que fundaram a civilização indiana, subjugando as populações locais, dando origem ao sistema de castas e, mais especificamente, às castas dominantes dos brâmanes, xátrias e vaixás. A sua cultura teria ficado particularmente expressa nos Vedas e, principalmente, no Rig Veda, considerado como o mais antigo.

Na próxima postagem, finalização da CVI, com a PARTE 04

quarta-feira, 10 de junho de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: VALE DO INDO OU HARAPPIANA (PARTE 02)

III – GEOGRAFIA

O rio Indo nasce no Himalaia (ou Cordilheira do Himalaia), a cadeia montanhosa mais alta do mundo, que separa a planície indo-gangética, ao sul, do planalto tibetano, ao norte, onde reina, soberano, o Monte Everest. Do Himalaia o rio Indo escoa para o sul em direção ao mar da Arábia onde tem a sua foz, percorrendo uma distância aproximada de 3.000 km, o que o faz o mais longo rio do Paquistão.
Cordilheira do Himalaia e países relacionados à CVI 
A Civilização do Vale do Indo englobou a maior parte do Paquistão, noroeste da Índia, partes do Afeganistão e do Irã, estendendo-se do árido deserto do Baloquistão, no Irã, ao oeste, até o estado de Uttar Pradesh, ao norte da Índia, no leste; do nordeste do Afeganistão, ao norte, até Maharashtra, no centro da Índia, ao sul. A geografia do Vale do Indo coloca a civilização que lá surgiu, em uma situação muito similar à do Egito, com ricas terras cultiváveis, circundadas por montanhas, deserto e oceano. Recentemente, locais do Indo também têm sido descobertos na província de fronteira noroeste do Paquistão. Outras colônias da CVI podem ser encontradas no Afeganistão, enquanto colônias isoladas ainda menores podem ser encontradas até no Turquemenistão e em Gujarate. Vestígios da CVI foram ainda encontrados em muitos outros locais e até em ilhas da Ásia.
De acordo com alguns arqueólogos, mais de 500 sítios harappianos foram descobertos ao longo de leitos secos do rio Ghaggar-Hakra e seus tributários, em contraste a apenas 100 ao longo do Indo e seus tributários, razão pela qual se justificaria a nomenclatura Civilização Ghaggar-Hakra ou Civilização Indo Saraswati. Contudo, esses argumentos politicamente inspirados são disputados por outros arqueólogos que dizem que a área do deserto Ghaggar-Hakra foi mantida intocada por povoamentos e agricultura desde o final do período Indo e, em consequência, mostra mais locais que os encontrados no aluvião do vale do Indo; depois, o número de sítios harappianos ao longo dos leitos do Ghaggar-Hakra tem sido exagerado e o Ghaggar-Hakra, quando ainda existente, era um tributário do Indo, de forma que a nova nomenclatura seria redundante. Assim, “Civilização Harappiana” permanece a forma correta, de acordo com o uso arqueológico comum de nomear uma civilização pelo seu local de descoberta.

IV – HARAPPIANA ANTIGA

A fase Harappiana Antiga Ravi, da proximidade com o rio Ravi, durou de 3300 a 2800 AC. Está relacionada à fase Hakra, identificada no vale do rio Ghaggar-Hakra, ao oeste e se antecipa à fase Kot Diji (2800 a 2600 AC, Harappiana 2), recebendo o nome de um local no nordeste da província de Sindh, sudeste do Paquistão, próximo de Mohenjo Daro. Os primeiros exemplos de escrita datavam do 3º milênio AC e descobertas em Bhirrana, Rajasthan, na Índia, indicam que a manufatura do Hakra desta área, data de aproximadamente 7500 AC.
A fase madura das culturas de aldeias mais antigas é representada por Rehman Dheri e Amri, no Paquistão. Kot Diji representa a fase que conduz à fase Harappiana Madura, com a cidadela alta, sobre uma colina, onde ficavam as construções maiores, talvez o local onde viviam os governantes da cidade - representando a autoridade central e uma qualidade de vida urbana crescente. Outra cidade deste estágio foi encontrada em Kalibangan, na Índia, no rio Hakra.
Redes de comércio ligavam esta cultura com culturas regionais e fontes distantes de material cru, incluindo o lápis-lazúli e outros materiais para a confecção de contas. Os aldeões plantavam várias culturas, incluindo ervilhas, sementes de gergelim, tâmaras e algodão, bem como domesticava animais que incluíam o búfalo da água. Antigas comunidades harappianas se trnasformaram em grandes centros urbanos por volta de 2600 AC, daí iniciando a fase Harappiana Madura.

V – HARAPPIANA MADURA

Civilização do Vale do Indo em sua fase Harappiana Madura
Cerca de 2600 AC, as comunidades da Harappiana Antiga haviam se tornado grandes centros urbanos, que incluíam Harappa, Ganeriwala e Mohenjo-Daro, no Paquistão atual, e Dholavira, Kalibangan, Rakhigarhi, Rupar e Lothal, na Índia moderna. No total, mais de 1.052 cidades e povoações foram encontradas, principalmente na região geral do rio Indo e seus tributários.
Uma cultura urbana sofisticada e tecnologicamente avançada é evidente na Civilização do Vale do Indo, como primeiros centros urbanos da região. A qualidade do planejamento das cidades sugere o conhecimento de planejamento urbano e governos municipais eficientes, que punham uma alta prioridade na higiene ou acesso aos meios para rituais religiosos.
Ruínas em Harappa: bloco de artesãos
As construções nas cidades eram feitas de tijolos de barro e estas possuíam muralhas e estradas que podiam ter até 10 metros de largura para passagem de carros. As ruas laterais eram estreitas, mais como vielas. Como a água era muito importante para o povo do Indo, os construtores começavam as obras pela escavação de poços e lançamento de drenos.
Os tijolos eram feitos por pessoal especializado, que misturava solo, argila e água para conseguir um barro pastoso. Em seguida eles amassavam o barro numa forma de madeira com a forma do tijolo, onde ficava até que pudesse ser desenformado. Os tijolos podiam ser secos ao sol ou num forno rudimentar de alta temperatura que lhes conferia maior resistência. Os tijolos do Vale do Indo possuíam as mesmas relações entre suas dimensões, 1:2:4, embora tivessem tamanhos diferentes. Um tamanho muito utilizado possuía 7 cm de altura por 14 cm de largura e 28 de comprimento. Os tijolos eram dispostos em linha ou fila, extremidade a extremidade e atravessados, usando lama úmida como cimento para manter os tijolos unidos. As paredes eram, posteriormente, rebocadas, mas não se pode dizer se eram também pintadas. Suas paredes eram tão fortes que muitas resistiram por mais de 4.000 anos.
Visão global de Mohenjo-Daro
Paquistão Leste
Como visto em Harappa, Mohenjo-Daro e a recente escavação parcial em Rakhigarhi, o plano urbano do Vale do Indo incluiu os primeiros sistemas de saneamento urbano no mundo. Dentro da cidade, lares individuais ou conjuntos de lares obtinham água de poços. A partir de uma peça que parece ter sido reservada para banho, a água usada era conduzida para drenos cobertos, que corriam pelas ruas principais. A construção de casas em alguns povoamentos da região, ainda se assemelham, em alguns aspectos, à construção das casas dos harappianos.
Os sistemas de esgoto e drenagem do antigo Vale do Indo, que foram desenvolvidos e usados em cidades de toda a região, eram mais avançados do que qualquer outro encontrado em locais urbanos contemporâneos do Oriente Médio e ainda mais eficientes do que os de muitas áreas do Paquistão e da Índia de hoje. A arquitetura avançada dos harappianos é mostrada por seus estaleiros, silos, armazéns, plataformas de tijolos e muralhas de proteção.
Em forte contraste com as civilizações contemporâneas da Mesopotâmia e do Egito antigo, no Vale do Indo não foram construídas estruturas monumentais. Não há evidência conclusiva de palácios ou templos – ou de reis, exércitos ou sacerdotes. Na cidade de Mohenjo Daro, encontrou-se uma ruína que pode ter sido um banho público – “O Grande Banho”. As muralhas maciças das cidadelas do Vale do Indo certamente eram defensivas e as protegiam das águas das cheias, podendo ter desestimulado conflitos militares.
Ruínas de Mohenjo-Daro. Na frente, o Grande Banho
As casas do Vale do Indo eram mantidas frias, internamente, pelas espessas paredes que as protegiam do calor do verão. Algumas casas tinham apenas um quarto e grandes casas possuíam vários quartos dispostos em torno de um pátio central. Não havia janelas para a rua principal, mas apenas para os pátios internos e vielas secundárias, para evitar a poeira e o ruído. De uma casa modelo encontrada em Harappa, podemos ver que as janelas podem ter tido venezianas de madeira para deixar entrar o ar e a luz. Tudo o que resta hoje são os pisos térreos das casas que uma vez tiveram dois ou três pisos, servidos por escada que conduzia até o telhado.
A maioria das pessoas vivia em pequenas casas que eram também usadas  como oficinas de trabalhos e nelas não havia muito espaço para relaxamento. Para as famílias ricas, o pátio era um lugar arejado, agradável e aberto, onde as crianças podiam brincar com seus brinquedos e animais domésticos, como macacos, cães e pássaros, e as pessoas cultivavam plantas em vasos.
As pessoas cozinhavam em fogo de lenha, carvão ou fezes secas de animais. Assavam o pão em pedras quentes ou em fornos rudimentares. Nos banheiros as pessoas ficavam sobre “estrados” de tijolos e jogavam água sobre si mesmos, de uma jarra, que era conduzida por drenos para a rua.
Embora algumas casas fossem maiores do que as outras, as cidades da CVI foram notáveis por sua aparente uniformidade. Todas as casas tinham acesso a instalações de água e esgoto. Tudo isso fornece a impressão de uma sociedade com baixa concentração de riqueza, embora claro nivelamento social seja visto em adornos pessoais.
Gravuras em selos e outros artefatos, mostram-nos como o povo do Indo se vestia. Como praticamente as temperaturas eram altas durante todo o ano, as pessoas não necessitavam de roupas pesadas para mantê-las aquecidas. A maioria dos trabalhadores provavelmente vestia apenas uma tanga, que se assemelhava muito a shorts folgados. Homens ricos usavam túnicas e mulheres usavam vestidos que, provavelmente, cobriam a maior parte dos seus corpos, embora alguns pudessem ter sido sem a parte superior. Homens e mulheres usavam joias, especialmente contas e braceletes. Algumas mulheres ostentavam penteados elegantes, arranjados com fitas e contas. Algumas arranjavam seus cabelos em penteados que se assemelhavam a leques.

V.1 – AUTORIDADE E GOVERNO

Registros arqueológicos não fornecem respostas imediatas para um centro de poder ou para representações de pessoas no poder na sociedade harappiana, mas há indicações de decisões complexas tomadas e implementadas. As principais teorias são as que seguem:

  •     Havia um só estado, considerada a semelhança dos artefatos, a evidência de povoados planejados, a relação padronizada nos tamanhos dos tijolos e o estabelecimento das vilas próximas das fontes de material bruto;
  •        Não havia um só mandatário, mas vários: Mohenjo-Daro tinha um separado, Harappa outro e assim por diante;
  •        Na sociedade harappiana não havia reis e todos gozavam de idêntico status.


V.2 – AGRICULTURA E PECUÁRIA

A grande maioria dos povos do Vale do Indo não vivia em cidades. Talvez nove em dez pessoas fossem agricultores ou comerciantes que viviam em pequenas vilas. Usavam algumas ferramentas que ainda hoje são usadas: martelos, facas, agulhas, anzóis, machados, navalhas e serras, a maioria delas feita de pederneira. Usavam também muito cobre em suas ferramentas, em geral com estanho, para obter o bronze.
Para alimentar as pessoas nas cidades, os agricultores do Vale do Indo tinham que produzir uma grande quantidade de alimentos. Para isso cultivavam grandes áreas com o uso de seus arados de madeira puxados por bois. Muitos modelos de arado, possivelmente brinquedos, têm sido encontrados pelos arqueólogos. Os agricultores aproveitavam bem as águas dos rios, semeando após a inundação dos seus leitos maiores, que tornavam ricos seus solos. Plantavam diferentes espécies no inverno - ameno e úmido – e no verão – quente e seco. Foram, possivelmente, os primeiros agricultores a usar a água de poços subterrâneos e certamente terão usado água do rio para irrigar seus campos. No inverno plantavam trigo, cevada, ervilhas, lentilhas, linhaça e mostarda; no verão plantavam o painço, gergelim e, provavelmente, algodão; os especialistas não encontraram evidências do plantio de arroz. Como frutas, cultivavam tâmaras, uvas e melões, o que lhes proporcionava uma dieta bastante saudável, pela ingestão de mais frutas e vegetais do que animais.
Em Harappa as evidências mostram que cerca de metade dos ossos de animais vinha do gado e seus criadores dele exploravam o leite, a carne e também o couro, além de o usarem como animal de tração para seus carros, ao mercado, e seus arados. Criavam também ovelhas, cabras, porcos e, possivelmente, jumentos e camelos, além de frangos.
O “Grande Silo” é uma construção misteriosa em Harappa, com mais de 60 metros de comprimento, com seis grandes salões, erigida acima do solo sobre paredes, com um grande número de plataformas de tijolos próximas a ela. Inicialmente, os arqueólogos pensaram que se tratava de um armazém de grãos (silo), construído acima do solo para que o ar pudesse circular sob ele, assim mantendo o trigo seco. Nesse caso, as plataformas seriam para a carga e descarga dos carros de sementes. Entretanto, não encontraram qualquer evidência de grãos! Além disso, a construção principal e as plataformas foram construídas em épocas diferentes. Talvez fosse um palácio, talvez um templo, ainda um mistério a ser resolvido.
Rinocerontes e elefantes viviam no Vale do Indo e caçadores podiam tê-los caçados em armadilhas. Havia também veados e outros animais que os habitantes caçavam para alimento, com uso de lanças, arcos e flechas e fundas (com pedras).
Ao longo dos rios e praias os habitantes caçavam pássaros selvagens, como patos. Usavam as redes para apanhar carpas e outros peixes, e também se alimentavam de moluscos (conchas). Os caçadores tinham que ser cuidadosos porque havia predadores perigosos, como crocodilos, tigres e cobras venenosas.
Pelo exame dos dentes e ossos dos esqueletos descobertos, os arqueólogos puderam dizer o que os povos do Vale do Indo comiam, atestar que os homens eram mais bem alimentados do que as mulheres e que os dentes, da maioria das pessoas, eram saudáveis. Examinaram também valas de resíduos para ossos de animais, conchas, sementes de frutos e outros restos de comidas, para obter pistas de sua dieta.

Na próxima postagem, continuação da CVI, com a PARTE 03

segunda-feira, 25 de maio de 2015

AS TRÊS PRIMEIRAS GRANDES CIVILIZAÇÕES MUNDIAIS: VALE DO INDO OU HARAPPIANA (PARTE 01)

I - INTRODUÇÃO

A expressão “Civilizações Antigas”, em geral, evoca imagens do Egito e da Mesopotâmia, suas pirâmides, múmias e túmulos dourados. Mas em 1920, uma imensa descoberta, ao sul da Ásia, provou que Mesopotâmia e Egito não eram as únicas “Civilizações Antigas”. Nas vastas planícies de inundação do Rio Indo, localizadas no Paquistão de hoje e oeste da Índia, sob camadas de terra e elevações de lama, arqueólogos descobriram as ruínas de uma cidade com cerca de 4.600 anos de idade. Uma próspera civilização urbana havia existido ao mesmo tempo do Egito e Mesopotâmia, em uma área duas vezes maior! Evidências de práticas religiosas nesta área, datam de 5500 AC. Os assentamentos agrícolas começaram cerca de 4000 AC e cerca de 3000AC surgiram os primeiros sinais de urbanização. Por 2600 AC, dúzias de vilas e cidades já tinham se estabelecido e entre 2500 e 2000 AC a Civilização do Vale do Indo (CVI) atingiu o seu ápice.
Esse povo do Vale do Indo não construiu monumentos imensos, como seus contemporâneos, nem enterrou seus mortos poderosos em tumbas douradas. Não foram encontradas múmias, nem restos de imperadores, nem vestígios de guerras violentas ou batalhas sangrentas em seu território. Entretanto, a ausência de tudo isso é que faz tal civilização tão excitante e única. Enquanto outras haviam devotado imensas quantidades de tempo e recursos aos ricos, ao supernatural e aos mortos, os habitantes do Vale do Indo usaram uma abordagem prática para manter as pessoas comuns, seculares e vivas. Seguramente eles acreditavam num após vida e empregavam um sistema de divisões sociais, mas acreditavam que os recursos eram mais valiosos para circular entre os vivos do que em exposições ou enterrados. Esta civilização parece ter sido muito pacífica; poucas armas foram encontradas e nenhuma evidência de exército foi descoberta. Os ossos escavados não revelaram sinais de violência e as ruínas de construções não mostraram indicação de batalhas. Toda a evidência apontou a uma preferência pela paz e sucesso para alcança-la. Assim, como uma civilização tão prática e pacífica pode alcançar tanto sucesso?
Após termos visto, com detalhes, duas das maiores civilizações da antiguidade, iniciaremos hoje a apresentação da terceira e última. Não tão conhecida, nem tão famosa - e ainda muito pouco estudada -, como as duas anteriores, mas igualmente antiga e, novamente, como as duas primeiras, nascida às margens de um grande rio, o vale do Rio Indo.
Figura 1: Localização Geral da Civilização do Vale do Indo
Eu gostaria de começar a apresentação, mostrando dois mapas, emprestados do Google Earth, para que os leitores fiquem perfeitamente localizados. A Figura 1 mostra um mapa em pequena escala, onde pode-se ver o Paquistão moderno, praticamente ao centro, país onde se localiza o Vale do Rio Indo. Nessa figura pode-se ver, claramente, a individualização deste país por uma linha branca, fazendo fronteira com a Índia a leste (à direita) e com o Afeganistão e o Irã (onde ficava a região da Mesopotâmia, primeira grande civilização apresentada), a oeste (à esquerda). Mais ainda para o oeste, passando pelo Iraque e Oriente Médio, pode-se ver o Egito, segunda grande civilização da antiguidade que apresentamos. Ao norte ele faria fronteira com a China.
Figura 2: Foco na região do Vale do Indo, em verde
Na Figura 2, demos um “zoom” na foto do Google Earth, para mostrar apenas o Paquistão moderno, ampliado, mas agora perfeitamente visível, na superfície verde, o Vale do Rio Indo, berço da terceira grande civilização da antiguidade, cuja apresentação iniciaremos agora.
A Civilização do Vale do Indo foi uma civilização da Idade do Bronze (3000 – 1300 AC) que se estendeu, do que é hoje o nordeste do Afeganistão, ao Paquistão e noroeste da Índia (Figura 3, abaixo), cobrindo uma área de 1,25 milhões de quilômetros quadrados, assim representando a maior das civilizações antigas que já existiu. Ela floresceu na bacia hidrográfica do rio Indo, um dos maiores rios da Ásia, e do rio Sarasvati (hoje seco) que à época corria através do noroeste da Índia e leste do Paquistão e é hoje identificado como o rio Ghaggar-Hakra, por numerosos estudos.
Figura 3: Cidades da Civilização Indo com cidades modernas
No seu auge, a Civilização do Indo pode ter tido uma população de mais de cinco milhões de habitantes, que desenvolveu novas técnicas em artesanato (produtos de cornalina – pedra semipreciosa castanho-avermelhada -, entalhes em tabletes) e metalurgia (cobre, bronze, chumbo e estanho). As cidades do Indo são notáveis por seu planejamento urbano, casas de tijolos cozidos, sistemas de drenagem elaborados, sistemas de abastecimento de água e agrupamentos de grandes construções não residenciais.
As ruínas de duas antigas cidades, em particular, Harappa, no alto vale do Indo, e Mohenjo-Daro, no seu trecho inferior, ambas no Paquistão moderno, e os restos de muitos outros povoamentos, têm revelado grandes pistas para os mistérios dessa civilização. Harappa foi, de fato, uma descoberta tão preciosa que a Civilização do Vale do Indo é também chamada de Civilização Harappiana. As evidências sugerem que ambas tinham uma vida urbana altamente desenvolvida, muitas casas contendo poços e banheiros, bem como um elaborado sistema de drenagem subterrâneo. As condições sociais dos cidadãos eram comparáveis às dos habitantes da Suméria e superiores às dos babilônios e egípcios e as cidades dispunham de uma bem planejado sistema de urbanização.
Harappa foi o primeiro dos locais a ser escavado em 1920, então em Punjab, província da Índia britânica e hoje no Paquistão. Sua descoberta e, em seguida, a de Mohenjo-Daro, foi o ponto culminante de um trabalho iniciado em 1861, com a fundação do Archaeological Survey of India (Levantamento Arqueológico da Índia) no regime britânico. A escavação de sítios harappianos iniciou em 1920 com importantes interrupção em 1999. Houve culturas mais antigas e mais recentes – Harappiana Antiga e a Harappiana Final, na mesma área da Civilização Harappiana. Esta é, muitas vezes, chamada de Cultura Harappiana Madura, para distinguir das anteriores. Em 1999, mais de 1.056 cidades e povoações tinham sido encontradas, das quais 96 haviam sido escavadas, principalmente na região geral dos rios Indo e do Sarasvati e seus tributários.
Figura 4: Em azul, algumas das cidades escavadas até 1999
Entre os locais escavados estavam os importantes centros urbanos de Harappa, Mohenjo Daro (Patrimônio Histórico Mundial da UNESCO), Dholavira, Ganeriwala no deserto de Cholistan e Rakhigarhi (Figura 4).

II – DESCOBERTAS E CRONOLOGIA

As ruínas de Harappa, um centro urbano da Civilização Indo, localizada na província de Punjab, Paquistão, num leito antigo do rio Ravi, foram primeiro mencionadas em 1842, mas nenhum interesse arqueológico surgiu por quase um século. Após essa menção, por vários anos, ruínas de povoações próximas foram usadas como lastro para estradas de ferro inglesas que estavam sendo construídas. Em 1872 foi publicado o primeiro tablete (selo[1]) harappiano. Meio século após, em 1922, mais selos harappianos foram descobertos quando se preparava uma expedição de escavação que sairia em 1921-1922, resultando na descoberta da civilização em Harappa e em Mohenjo-Daro. As últimas pesquisas revelaram pelo menos cinco montículos em Harappa, que representações em três dimensões indicam ter sido circundadas por extensivas muralhas; dois deles possuem grandes muralhas em torno, que indicam terem sido usadas para regulamentações de comércio e para defesa.
Mohenjo-Daro é, provavelmente, o local mais conhecido do Indo. O significado do seu nome é “Cidade dos Mortos”, embora até hoje nenhum cemitério tenha sido encontrado na cidade ou suas proximidades. Localizado na província de Sindh, Paquistão, leito maior do rio Indokistan, está próximo das antigas minas de exploração de pederneira de Rohri. O rio Indo pode, em algum tempo, ter escoado a oeste de Mohenjo-Daro, mas está agora localizado a leste.
Vários arqueólogos trabalharam na CVI antes da independência da Índia, em 1947. Após a independência, a maior parte dos achados arqueológicos foram herdados pelo Paquistão, onda a maioria da CVI estava baseada e outras expedições arqueológicas foram montadas, até Sutkagan Dor, no extremo sudoeste do Paquistão, para o norte até Shortugai (hoje já no Afeganistão), para o leste, até Alamgirpur, longitude central da Índia, e para o sul até Malwan, na costa da Índia em sua latitude central. Em 2010, pesadas cheias atingiram Haryana, na Índia, causando danos no sítio arqueológico de Jognakhera, onde antigas fundições de cobre foram encontradas, datando de quase 5.000 anos atrás. Nessa ocasião, a CVI foi atingida por quase três metros de lâmina d’água, com o rompimento de um canal.
A fase madura da civilização harappiana durou de 2600 a 1900 AC. Com a inclusão das culturas predecessora e sucessora – Harappiana Antiga e Harappiana Final -, a completa Civilização do Vale do Indo pode ter durado do 33º ao 14º século AC. Dois termos são empregados para a periodização da CVI: Fases e Eras. As fases Harappiana Antiga, Harappiana Madura e Harappiana Final são também chamadas de Eras de Regionalização, Integração e Localização, respectivamente, com a Era de Regionalização retroagindo até o período Neolítico Mehrgarh II (um dos mais importantes sítios arqueológicos do Neolítico). Abaixo a sequência completa de Eras e Fases:

Datas AC
Fases
Eras
7000–5500
Mehrgarh I (Neolítico sem cerâmica)
Produção inicial de alimentos
5500–3300
Mehrgarh II-VI (Neolítico com cerâmica)
Regionalização
3300–2600
Harappiana Antiga
3300–2800
Harappiana 1 (Fase Ravi)
2800–2600
Harappiana 2 (Fase Kot Diji, Nausharo I, Mehrgarh VII)
2600–1900
Harappiana Madura (Civilização do Vale do Indo)
Integração
2600–2450
Harappiana 3A (Nausharo II)
2450–2200
Harappiana 3B
2200–1900
Harappiana 3C
1900–1300
Harappiana Final (Cemitério H); Cerâmica Colorida Ocre
Localização
1900–1700
Harappiana 4
1700–1300
Harappiana 5
1300–300
Louça Cinza Pintada, Louça Polida Negra do Norte (Idade do Ferro)
Tradição Indo-Gangética[2]





[1] Selos eram peças chatas de pedra, de Harappa, com escritos ou figuras. Hoje, mais de 3.500 selos já foram encontrados, em geral quadrados ou retangulares e pequenos, com cerca de 2,5 cm de lado, feitas de pedra sabão ou faiança, cozidas e após trabalhadas com ferramentas de cobre. Pressionadas sobre argila macia, deixavam uma impressão e depois de secas podiam ser utilizadas como etiquetas ou outras finalidades.
[2] A tradição Indo-Gangética refere-se à cultura comum dos vales dos rios Indo e Ganges. O Ganges é um rio internacional que flui pela Índia e Bangladesh e também o mais sagrado rio dos hindus. É o salva-vidas de milhões de indianos que vivem às suas margens e dele dependem para suas necessidades básicas diárias. É adorado como a deusa Ganga no hinduísmo.

Na próxima postagem, continuação com a PARTE 02 da Civilização do Vale do Indo